Quem somos

Vamos passar a indústria de ultraprocessados pela peneira

O joio e o trigo não é um site sobre como comer (bem ou mal), nem sobre dietas da moda. Tampouco queremos repercutir a última pesquisa provando que o alimento X provoca o efeito Y em nosso organismo. E, menos ainda, difundir ingredientes milagrosos. Esse é um projeto sobre comer como ato político, com profundas implicações sociais, econômicas e ambientais.

Isso não significa individualizar essa questão tão complexa. Já há gente demais culpando o indivíduo pela obesidade, pelas doenças, por qualquer coisa que dê errado. Esse é um sistema muitíssimo maior do que nossos corpinhos frágeis. Entendemos que nossa missão é justamente refletir essa complexidade, com a busca por compreender como chegamos até aqui e como podemos sair dessa.

Sim, sair dessa, porque, apesar do caos que reina nessa seara, há um consenso: as coisas não vão bem. Não é possível considerar normal um mundo que caminha para a marca de um bilhão de obesos. E que em breve terá mais crianças com sobrepeso do que famintas. O Brasil não foge à curva e já passa de 50% da população com sobrepeso.

Há muitas opiniões sobre como chegamos até aqui: somos preguiçosos, desleixados, comemos sem parar para pensar, nosso intestino tem muitas bactérias malvadas, a genética não ajuda. Com todo o respeito, acreditamos que parte disso pode ter um papel, mas tem sido usado como distração para ocultar o real problema. Nos últimos 50 ou 60 anos, houve um conjunto de mudanças. Altos subsídios à soja e ao milho, por exemplo. A formulação de produtos mais e mais tentadores com inúmeros derivados desses grãos, resultando em alguma coisa que não nos remete a alimentos como os conhecíamos. A desregulação dos sistemas de saúde e das fronteiras, com a abertura de mercados globais a algumas poucas empresas. Isso só para ficar no básico.

Em espanhol, comida chatarra. Em inglês, junk food. No Brasil, não temos um termo que designe o conjunto de produtos altos em sal, gordura e açúcar. Adotamos em O joio e o trigo a nomenclatura ultraprocessados, tal como consta do Guia Alimentar para a População Brasileira, editado em 2014 pelo Ministério da Saúde. Apesar de ser contestada pela indústria e por setores acadêmicos, entendemos a classificação como adequada, crescentemente aceita na comunidade científica e de fácil compreensão para o público em geral.

E está aí o ponto central para nós. É a realidade mais óbvia a que desejamos.alcançar. Aquela que – por contraditório que soe – é também a mais difícil de ser reconhecida. É nas trincheiras do cotidiano, em lugares considerados comuns, banais, até, como um lar, uma padaria, uma lanchonete, um bar ou um supermercado, que cidadãs e cidadãos, crianças e adultos, famílias e indivíduos constroem hábitos alimentares. Em muitos casos, esses hábitos são balizados pela imagem, o discurso e o poder político-econômico de agentes que são onipresentes na rotina das comunidades, tal o tamanho e o força que ganharam ao longo dos anos.

Atravessando fronteiras físicas e simbólicas mundo afora com ações políticas, midiáticas e no campo da ciência, essas forças dirigem há tempos os caminhos da alimentação, sendo capazes de produzir saúde ou doença, vidas longevas e de qualidade ou mortes precoces e evitáveis. Sem falar nas consequências nos aspectos culturais e ambientais que, assim como no caso da saúde, têm impacto difuso: culturas são postas à extinção e o planeta é ininterruptamente esgotado.

Por outro lado, sabemos que, em meio à era da informação em pílulas e da pós-verdade, é impossível ao cidadão ter plena consciência do que escolher como alvo de concentração o tempo todo. Enquanto o celular toca, o WhatsApp zune e o Facebook sequestra atenções, temos que fazer escolhas cada vez menos raciocinadas. Acelerar é a prioridade. Então, o perigo aumenta, porque, na correria do dia a dia, no embalo da cultura corporativa que pauta a vida no e do planeta, é fácil ficar à deriva, à mercê daqueles que detêm o poder de influenciar nossos comportamentos, de controlar nossas mentes e corpos e, supostamente, tornar as nossas vidas “mais práticas”.

De antemão, nos desculpamos se essas palavras soam como um clichê ou um amontoado de certezas. Somos, igualmente, atingidos por esse conjunto de exigências que nos quer cada vez mais multitarefas e velozes. Não temos a pretensão de ensinar ninguém a pensar. Longe disso. Queremos, isso sim, ir além da simples falácia de que “todos temos poder igual de escolha” num mundo em que as desigualdades são enormes tanto na má distribuição de itens materiais quanto na capacidade de influir em decisões que afetam (positiva ou negativamente) a vida de indivíduos e coletividades, que direcionam governos e mandatos.

Crédulos que somos no papel social e de defesa do interesse público exercido pelo jornalista, apesar de toda a precariedade que vem minando a profissão, estabelecemos como compromisso priorizar o debate. Assim, com O joio e o trigo, nosso intuito maior é peneirar conteúdo e forma para que possamos construir uma experiência de informação radicalmente democrática, de troca, que nos permita – por que não? – ao menos reduzir as distâncias entre aqueles que concentram poder e privilégios e os que ainda se veem sem direitos tão básicos, como o de se alimentar de maneira saudável.

Claro que esse tipo de experiência é impossível sem olhar, vivenciar e escutar muitos lados. Por isso, optamos pela reportagem como o nosso carro-chefe. É o que nos deixa mais à vontade para contar histórias. Além disso, é nesse gênero que confiamos para oferecer um espaço onde possamos todos, de fato, aprender a escolher pensando. Que sacudamos essa peneira coletivamente. Juntos.


João Peres é jornalista formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). É autor de Corumbiara, caso enterrado, único livro-reportagem sobre o massacre ocorrido em 1995 em Rondônia. Foi editor e repórter da Rede Brasil Atual entre abril de 2009
e novembro de 2014, após passagens pelas rádios Jovem Pan AM e BandNews FM. Cobriu eleições, consultas populares e momentos de
crise no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia e na Bolívia.

Moriti Neto é jornalista e professor universitário. Foi editor do site da Rede Brasil Atual, repórter e colunista da Revista Fórum – Outro Mundo em Debate – e repórter da revista Caros Amigos. Também editou e reportou em diversos jornais e sites do interior de São Paulo. Foi repórter e colunista
do blog Nota de Rodapé, coletivo que venceu o prêmio Top Blog Brasil de 2012. Como professor, coordenou o projeto editorial do jornal labo-
ratório Matéria-Prima, do curso de Jornalismo da FAAT- Faculdades, que, em edição especial sobre recursos hídricos publicada no ano de 2013, recebeu quatro premiações no Prêmio Yara de Comunicação, que celebrou os 20 anos do Comitê PCJ.

Fomos repórteres e redatores da seção brasileira do livro Ni Pan, Ni Circo, um dossiê especial da revista Nueva Sociedad sobre fome na América
Latina.

Em 2015, ficamos em primeiro lugar na categoria Reportagem do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo pela série “Como se absolve um policial”, produzida para a Agência Pública.

Um ano antes, em 2014, a reportagem “Defeitos de Fábrica: as explosões da GM no Brasil”, também realizada para a Agência Pública, ficou em
segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo.

E a reportagem “Sob a fumaça, a dependência”, produzida para a Agência Pública, recebeu menção honrosa no Prêmio Anamatra de Direitos
Humanos 2016.