Uso de agrotóxicos no Brasil aumenta 20% e afeta a água, a comida e a saúde

Dados do Censo Agropecuário reforçam posição do país como líder mundial no consumo de substâncias cuja utilização tem sido desestimulada em outras nações

O Brasil é o campeão mundial de uso de agrotóxicos. E os dados preliminares do Censo Agropecuário mostram que a quantidade de propriedades rurais que usam essas substâncias aumentaram, garantindo o posto isolado de maior consumidor de venenos. Comparada com a edição anterior da pesquisa, de 2006, a cifra cresceu em 20,4% no levantamento realizado ao longo de 2017. Há pouco mais de uma década, 1.396.077 produtores utilizavam agrotóxicos, contra 1.681.001 no ano passado.

As informações foram divulgadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no final de julho e são preocupantes. O consumo dessas substâncias pode estar associado à contaminação da água e de alimentos e a doenças.

No mundo inteiro o país já era —e continua a ser— aquele que mais aplica agrotóxicos. O Brasil ocupa o posto desde 2008, usando uma quantia equivalente a cinco litros de venenos por habitante por ano, algo em torno de 1 bilhão de litros, de acordo com o “Dossiê Abrasco: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”, organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

No Censo, as informações ainda serão consolidadas, é verdade. E vale fazer outra ressalva. Em 2006, 23% do total de propriedades rurais verificadas pelo IBGE (4.986.668, ao todo) utilizavam agrotóxicos; em 2017, eram 33% entre 5.072.152 áreas. Percentualmente, portanto, o aumento entre as últimas duas edições é de dez pontos. Além disso, houve diferença da metodologia escolhida para essas edições da pesquisa.

Isto, porém, não diminui a importância de uma questão: quais os impactos que tantos agrotóxicos estão causando?

“Boa parte desses venenos levam a problemas de metabolismo que podem culminar em doenças. Ao mesmo tempo que crescem os agrotóxicos, crescem os casos de câncer em jovens, que podem estar associados ao consumo de alimentos contaminados”, diz o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA). Entre 2008 e 2014, ele integrou a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), responsáveis por avaliar a liberação de novas variedades de sementes transgênicas.

“O que percebemos é que o número de problemas de saúde é crescente na população”, ele complementa.

Um levantamento inédito de reportagem da Agência Pública, divulgada na segunda-feira (6), reforça a percepção sobre o problema. De acordo com dados do Ministério da Saúde, pelo menos 26 mil brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos nos últimos dez anos —curiosamente, o mesmo período que o Censo indicou crescimento no uso das substâncias. Deste total, ao mínimo 1.824 pessoas morreram por decorrência do contato com os venenos agrícolas.

Mas mesmo este número alarmante pode ser subnotificado. “Estima-se que para cada um caso registrado de intoxicação de agrotóxicos, existam cinco que tenham de fato ocorrido”, comenta Melgarejo. Além disso, ele diz que há estudos comparando que para cada dólar investido no agronegócio, o governo brasileiro gasta 1,28 dólares com o SUS (Sistema Único de Saúde).

“Nós somos extremamente permissivos com a quantidade de resíduos nos alimentos e na água”, afirma a pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), responsável pela organização do “Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”.

Segundo ela, a quantidade do herbicida glifosato presente na soja é cerca de 200 vezes maior do que o tolerado na União Europeia, por exemplo. No feijão, os níveis aceitáveis do inseticida malation são 400 vezes maiores por aqui. Nos cítricos, o resíduo do veneno acefato permitido é 20 vezes maior do que o na Europa, que proibiu a substância —há um patamar mínimo tolerado nas importações de frutas para o continente.

Vale lembrar que os agrotóxicos não ficam apenas nas lavouras. Parte daquilo que é aplicado se infiltra no solo e chega aos lençóis freáticos. E não muitas há restrições, de acordo com a pesquisadora, para determinar o nível aceitável de certas substâncias na água. O acefato, que é neurotóxico, não tem patamar mínimo fixado. Quando há impeditivos, são frouxos, como os sobre o veneno ácido diclorofenoxiacético, que é permitido em quantidades 300 vezes maiores do que o é na União Europeia.

Apesar deste quadro, o assunto não está exatamente na agenda das autoridades brasileiras como deveria. “A gente está indo na contramão”, comenta Bombardi.

O Joio e O Trigofalou disso anteriormente. A prioridade vai no sentido contrário. Mesmo com os recordes de uso de venenos e com a situação preocupante na saúde, parlamentares brasileiros querem afrouxar as regras sobre o tema. Isso é prioridade dos deputados integrantes da Frente Parlamentar Agropecuária, também conhecida como Bancada Ruralista, que trabalham para aprovar um projeto de lei que facilita a liberação de agrotóxicos. A proposta foi carinhosamente apelidada de “Pacote do Veneno”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) se posicionou contra o pacote. Porém no início de julho, o órgão, que analisa a liberação de agrotóxicos e medicamentos no Brasil, publicou uma nova “orientação interna de serviço” que abre a possibilidade de que venenos tenham seu uso autorizado no Brasil apenas por já serem liberados por autoridades da Europa e dos Estados Unidos. Essa informação foi antecipada por reportagem do site The Intercept.

A agência, além disso, não atualiza desde 2015 o seu Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, que já tinha problemas. O órgão analisava apenas frutas e verduras e grãos, sem contemplar alimentos processados ou ultraprocessados. “No imaginário da população brasileira de forma geral ficou a ideia que são os produtos frescos que estão contaminados, porque a Anvisa não monitora os industrializados. A gente não tem ideia do que acontece. É importante deixar isso claro”, explica Bombardi.

Para o engenheiro agrônomo e doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Gabriel Fernandes, é necessário retomar o quanto antes o controle sobre o uso de agrotóxicos. “O quadro no Brasil impõe a retomada de medidas que fortaleçam outras formas de produção sem venenos”, ele afirma.

Algumas medidas seriam simples. “Deveria ser essencial que o registro de agrotóxicos fosse por um período temporário e necessitasse de uma avaliação para ser liberado novamente”, recomenda Larissa, professora da USP. Outras sugestões, segundo ela, seriam ampliar a fiscalização da aplicação dos venenos e proibir, como fez a União Europeia em 2009, a pulverização aérea das substâncias.


*Texto atualizado às 18h02 de sexta-feira (10 de agosto). Diferentemente do publicado na primeira versão, Leonardo Melgarejo é vice-presidente da regional sul da Associação Brasileira de Agroecologia, e não coordenador do Grupo de Trabalho sobre Agrotóxicos e Transgênicos. A informação foi corrigida.


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