Prioridade do eleitor, saúde é escanteada no primeiro debate entre candidatos a presidente

Marina Silva, Guilherme Boulos e Geraldo Alckmin foram os que trataram um pouco mais do assunto no encontro realizado pela TV Bandeirantes

No primeiro debate entre alguns dos principais candidatos a presidente da República, a saúde, uma das questões mais importantes para os eleitores brasileiros, apareceu apenas lateralmente. Os presidenciáveis evitaram tocar no assunto e não houve uma pergunta explícita a respeito feita pelos jornalistas da rede de televisão Bandeirantes, que organizou e transmitiu o encontro, realizado na noite da última quinta-feira (9).

A saúde pública costuma aparecer em pesquisas de opinião como prioridade, ao lado da corrupção — pudera, em tempos de Operação Lava Jato — e da violência. Apenas Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Marina Silva (Rede) abordaram o tema com um pouco mais de cuidado, dentre os oitos participantes do debate.

Segundo levantamento do instituto Datafolha publicado em junho deste ano, 18% dos entrevistados apontaram espontaneamente a saúde como o principal problema do país. O assunto está empatado com a corrupção. Na sequência, estão desemprego, com 14%, violência (9%),  economia (8%), educação (8%), inflação (2%), política e governantes (2%), má administração (2%), pobreza e fome (2%), desigualdade social (2%), impostos (1%) e salário (1%), entre outras questões.

A saúde pública apareceu pela primeira vez, no encontro na Bandeirantes, em pergunta do candidato Álvaro Dias (Podemos) a Jair Bolsonaro (PSL), como bem notou o Outra Saúde. Questionado sobre mortalidade infantil, que voltou a crescer no Brasil depois de 25 anos de queda ininterrupta, o deputado federal pelo Rio de Janeiro e capitão da reserva do Exército respondeu de forma vaga. “Sabemos que muitas medidas têm que ser tomadas, a começar com o saneamento básico, entre tantas e tantas outras”, disse Bolsonaro. E só.

Geraldo Alckmin e Marina Silva protagonizaram a única discussão de mais densidade sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), ainda que tenham falado de aspectos mais gerais. A ex-senadora disse que o SUS foi uma das principais conquistas da Constituição de 1988, mas está sucateado e precisa ser implementado de forma mais efetiva. Bem… Até aí, ok, candidata, todo mundo sabe disso.

Ela então afirmou que quer fortalecer a atenção primária, com o programa Saúde da Família e a construção de postos de saúde. Também declarou que é necessário melhorar o atendimento especializado e mexer nos planos de saúde.

Na réplica, Alckmin, por sua vez, aprofundou sobre aquilo que Bolsonaro não se mostrou capaz de dissertar. O tucano citou o saneamento básico como a principal causa do aumento da expectativa de vida e prometeu direcionar recursos dos impostos de pessoas jurídicas, como o PASEP e a COFINS, para construir esgoto e tratar água. O ex-governador aproveitou para vender seu peixe, discursando a respeito da rede hospitalar e de ambulatórios médicos de especialidades de São Paulo.

O peessedebista, porém, deve ter se esquecido da crise hídrica vivida pelo Estado em 2014, sob o seu governo, e outras questões que mostram que a gestão na saúde não foi tão unânime. Não lembrou que, em 2016, enfrentou uma greve de médicos residentes, reclamando de problemas no ensino e do valor das bolsas de estudo, ou que, em 2017, fechou o atendimento do Hospital Universitário da principal instituição de ensino superior do país, a Universidade de São Paulo.

Marina não deixou passar. “O PSDB não deu conta nem do Estado de São Paulo nem do Brasil e não aumentou os recursos para saneamento básico”, disse, na tréplica.

Congelamento de gastos

Guilherme Boulos citou a Emenda Constitucional 95, que congela os gastos do governo federal até 2036, como um dos fatores de sucateamento da saúde. Disse que quer revogar o dispositivo e que pretende fortalecer a atenção primária, qualificando as equipes de saúde da família. Ele mencionou mais recursos para infraestrutura, saúde, educação e segurança, a partir de mudanças na estrutura de impostos. “Só assim o Brasil pode sair da crise. Corte, corte, corte só leva a mais crise e desemprego”, declarou.

A Emenda 95 também foi alvo de críticas por Marina. “Não vamos manter ajuste fiscal em prejuízo da saúde, segurança, educação, como o governo atual [de Michel Temer] está fazendo.”

Idealizador da proposta, o candidato da situação e ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB), afirmou que cortar despesas constitucionais obrigatórias como saúde e educação é necessário para evitar com que dívida pública cresça. Ele, aliás, comentou vagamente sobre a liberação de mais medicamentos para tratar câncer. O problema da saúde no país, segundo o candidato, é o excesso de burocracia. “A complexidade para fazer consulta médica é inaceitável”, disse, sem dar mais detalhes.

Aborto e os demais

A interrupção da gravidez foi tema da única questão feita pela Bandeirantes mais próxima do assunto saúde. Os jornalistas Fábio Pannunzio, Rafael Colombo e Sérgio Amaral preferiram tratar de outros temas. A apresentadora Lana Canepa foi quem perguntou a opinião de Boulos, pedindo os comentário de Marina. “No nosso governo, o aborto não será tema do Código Penal. Vai ser um tema do SUS. É muito cômodo negar o direito ao aborto às mulheres, e homens não assumirem filhos”, respondeu o candidato do PSOL.

“O que nós queremos é que nenhuma mulher tenha que fazer aborto, porque isso não pode ser advogado como um método contraceptivo. O que nós queremos é planejamento familiar, educação, para que nenhuma mulher tenha que lançar mão de uma forma tão extrema que não é desejada”, afirmou Marina. “Eu defendo a forma que está prevista na lei, mas, se tiver que ampliar, eu defendo que seja feito um plebiscito consultando o conjunto da população brasileira [sobre o assunto]”, complementou a presidenciável da Rede.

Ciro Gomes (PDT) e Cabo Daciolo (Patriotas) falaram ou de forma pontual sobre propostas relacionadas à saúde ou sem qualquer colocação relevante. O pedetista criticou o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária que, segundo ele, demoram muito para registrar patentes ou licenciar remédios. O ex-ministro ainda citou que há confusão sobre este assunto e deu como exemplo seu concorrente Bolsonaro, que, quando deputado, apresentou um PL para liberar um medicamento.

Um pouco perdido, e mais preocupado em professar a sua fé, o candidato Cabo Daciolo disse, sem explicar como, quando ou por quê, o Ministério da Saúde deixou de aplicar R$ 174 bilhões nos últimos dez anos.

Silêncio sobre doenças crônicas

Entre muitas discussões sobre corrupção, corte de gastos do governo e a privatização ou não da Petrobras, os candidatos e jornalistas deixaram de abordar temas essenciais sobre a saúde pública. Um deles, apontado como fundamental por especialistas do setor, é o aumento no país dos casos e das mortes decorrentes de doenças crônicas não transmissíveis, como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares. No Brasil, tais enfermidades responderam, de acordo com o Ministério da Saúde, por 68,3% do total de mortes em 2011, e estima-se que elas estejam crescendo desde então.

Ninguém falou, por exemplo, que quase um quinto dos brasileiros está obeso (18,9%), segundo os dados mais recentes são da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. Ou que, entre os jovens, a obesidade aumentou 110% entre 2007 e 2017. Tampouco, falou-se sobre a qualidade da alimentação. A mesma Vigitel diz apenas pouco de mais de um terço dos adultos brasileiros (34,6%) consome a quantidade de frutas e hortaliças (400 g diárias) considerada saudável pela Organização Mundial da Saúde.

Foi apenas o primeiro debate. A ver como a saúde será tratado nos demais. Espera-se que com mais cuidado.


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