Coca-Cola notifica Joio e Outras Palavras por ‘uso indevido da marca’

Por que uma microequipe de duas pessoas conseguiu incomodar um dos maiores gigantes corporativos do mundo?

Recebemos no dia 10 de julho uma notificação extrajudicial de The Coca-Cola Company. A corporação, representada pelo escritório Di Blasi Parente & Associados, solicita a retirada de quatro imagens que constam em reportagens de O Joio e O Trigo e em um artigo do portal Outras Palavras.

(Você pode conhecer os textos nos quais constavam as imagens que irritaram a empresa aqui, aqui e aqui)

“O uso das marcas registradas por nossa notificante com modificações não autorizadas, conforme descrito acima, não é razoável e não será aceito”, diz o texto. “Dessa forma, como tentativa de encontrar uma solução amigável para esta questão, nossa cliente está disposta a resolver o presente assunto requerendo que sejam retiradas todas as imagens acima mencionadas de seu site.”

E continua: “Nossa cliente reitera que esta carta não deve ser entendida como qualquer tentativa de censura indevida, uma vez que o principal objetivo da The Coca-Cola Company é retirar do site as imagens acima que maculam o renome de suas marcas, sem discutir nenhum dos termos/textos apresentados nas referidas postagens.”

A empresa impôs o prazo de cinco dias corridos, ou seja, domingo, 15/7. Decidimos atender à exigência. Temos argumentos de sobra para defender nosso direito à liberdade de expressão. Mas temos orçamento de falta para arcar com os custos de um prolongado processo contra uma das maiores corporações do mundo, com valor de mercado estimado em US$ 180 bilhões e faturamento anual superior a US$ 40 bilhões.

Há centenas ou milhares de páginas mundo afora que fazem alguma alteração da marca Coca-Cola. Faz parte do pacote de ser uma das corporações mais conhecidas e onipresentes do mundo – e também das mais controversas. Por que, no meio disso tudo, fomos escolhidos como alvo de notificação? Nós, uma “microequipe de duas pessoas”, despertamos a atenção de um gigante.

Temos tido vários sinais de que estamos incomodando. Nossa participação em eventos públicos é via de regra acompanhada por representantes da indústria de alimentos. Nosso trabalho foi mencionado publicamente, de maneira negativa, por pesquisadores próximos a essas empresas.

Que bom: incômodo é nosso motivo de estar no jornalismo. Nossa carta de princípios deixa clara a intenção de tirar empresas e pessoas da zona de conforto. É um primeiro passo para repensarmos um sistema alimentar que se mostrou um experimento humano fracassado.

A própria notificação de The Coca-Cola Company expõe claramente um dos motivos desse incômodo. Os representantes legais da empresa colocam bastante ênfase nas atividades desenvolvidas pela empresa na Zona Franca de Manaus. Deixando de lado a armadura da falsa humildade, podemos dizer que somos o veículo de comunicação brasileiro que tratou de maneira mais profunda e reveladora o esquema de créditos tributários envolvendo a empresa e a Zona Franca.

Os textos, publicados desde o nosso lançamento, em 30 de outubro de 2017, revelaram o envolvimento de importantes atores políticos no repasse de ao menos R$ 7 bilhões ao ano em dinheiro público a fabricantes de um produto comprovadamente nocivo à saúde. Coincidência ou não, o tema ganhou força no debate público e chegou ao ápice em maio, quando a Receita Federal finalmente conseguiu cumprir seu antigo anseio de começar a dar cabo da cobrança de créditos sobre impostos que nunca foram pagos – o texto no qual contamos sobre essa medida é um dos que fizeram “uso indevido de marca”.

Fomos, também, o veículo de comunicação brasileiro que foi mais a fundo nas políticas de relacionamento da Coca-Cola com a ciência. Revelamos como a pesquisa em atividade física é usada para criar dúvidas sobre qual o principal fator causador da epidemia de obesidade e doenças crônicas.

Mostramos, também, que a política de transparência da empresa apresentava um padrão duplo de comportamento: enquanto, nos Estados Unidos, foi tornada pública uma lista com os nomes de pesquisadores e organizações que tiveram projetos financiados, no Brasil se fez segredo. Pouco depois, um estudo comprovou que a Coca-Cola não incluiu nessa relação boa parte dos trabalhos científicos por ela bancados.

Por essas e outras, retiramos as imagens que despertaram a irritação da empresa. Mas seguimos firmes em nosso caminho.


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