Monthly Archives: julho 2018

Coca-Cola notifica Joio e Outras Palavras por ‘uso indevido da marca’

Por que uma microequipe de duas pessoas conseguiu incomodar um dos maiores gigantes corporativos do mundo?

Recebemos no dia 10 de julho uma notificação extrajudicial de The Coca-Cola Company. A corporação, representada pelo escritório Di Blasi Parente & Associados, solicita a retirada de quatro imagens que constam em reportagens de O Joio e O Trigo e em um artigo do portal Outras Palavras.

(Você pode conhecer os textos nos quais constavam as imagens que irritaram a empresa aqui, aqui e aqui)

“O uso das marcas registradas por nossa notificante com modificações não autorizadas, conforme descrito acima, não é razoável e não será aceito”, diz o texto. “Dessa forma, como tentativa de encontrar uma solução amigável para esta questão, nossa cliente está disposta a resolver o presente assunto requerendo que sejam retiradas todas as imagens acima mencionadas de seu site.”

E continua: “Nossa cliente reitera que esta carta não deve ser entendida como qualquer tentativa de censura indevida, uma vez que o principal objetivo da The Coca-Cola Company é retirar do site as imagens acima que maculam o renome de suas marcas, sem discutir nenhum dos termos/textos apresentados nas referidas postagens.”

A empresa impôs o prazo de cinco dias corridos, ou seja, domingo, 15/7. Decidimos atender à exigência. Temos argumentos de sobra para defender nosso direito à liberdade de expressão. Mas temos orçamento de falta para arcar com os custos de um prolongado processo contra uma das maiores corporações do mundo, com valor de mercado estimado em US$ 180 bilhões e faturamento anual superior a US$ 40 bilhões.

Há centenas ou milhares de páginas mundo afora que fazem alguma alteração da marca Coca-Cola. Faz parte do pacote de ser uma das corporações mais conhecidas e onipresentes do mundo – e também das mais controversas. Por que, no meio disso tudo, fomos escolhidos como alvo de notificação? Nós, uma “microequipe de duas pessoas”, despertamos a atenção de um gigante.

Temos tido vários sinais de que estamos incomodando. Nossa participação em eventos públicos é via de regra acompanhada por representantes da indústria de alimentos. Nosso trabalho foi mencionado publicamente, de maneira negativa, por pesquisadores próximos a essas empresas.

Que bom: incômodo é nosso motivo de estar no jornalismo. Nossa carta de princípios deixa clara a intenção de tirar empresas e pessoas da zona de conforto. É um primeiro passo para repensarmos um sistema alimentar que se mostrou um experimento humano fracassado.

A própria notificação de The Coca-Cola Company expõe claramente um dos motivos desse incômodo. Os representantes legais da empresa colocam bastante ênfase nas atividades desenvolvidas pela empresa na Zona Franca de Manaus. Deixando de lado a armadura da falsa humildade, podemos dizer que somos o veículo de comunicação brasileiro que tratou de maneira mais profunda e reveladora o esquema de créditos tributários envolvendo a empresa e a Zona Franca.

Os textos, publicados desde o nosso lançamento, em 30 de outubro de 2017, revelaram o envolvimento de importantes atores políticos no repasse de ao menos R$ 7 bilhões ao ano em dinheiro público a fabricantes de um produto comprovadamente nocivo à saúde. Coincidência ou não, o tema ganhou força no debate público e chegou ao ápice em maio, quando a Receita Federal finalmente conseguiu cumprir seu antigo anseio de começar a dar cabo da cobrança de créditos sobre impostos que nunca foram pagos – o texto no qual contamos sobre essa medida é um dos que fizeram “uso indevido de marca”.

Fomos, também, o veículo de comunicação brasileiro que foi mais a fundo nas políticas de relacionamento da Coca-Cola com a ciência. Revelamos como a pesquisa em atividade física é usada para criar dúvidas sobre qual o principal fator causador da epidemia de obesidade e doenças crônicas.

Mostramos, também, que a política de transparência da empresa apresentava um padrão duplo de comportamento: enquanto, nos Estados Unidos, foi tornada pública uma lista com os nomes de pesquisadores e organizações que tiveram projetos financiados, no Brasil se fez segredo. Pouco depois, um estudo comprovou que a Coca-Cola não incluiu nessa relação boa parte dos trabalhos científicos por ela bancados.

Por essas e outras, retiramos as imagens que despertaram a irritação da empresa. Mas seguimos firmes em nosso caminho.

A falha da Croácia e os patrocínios na Copa do Mundo

Finalista inédita, seleção croata de futebol cometeu uma “falta” no torneio que não tem relação com a bola rolando

Não sou ave agourenta e procuro não desejar má sorte a ninguém. Muito menos a homens que disputam uma Copa do Mundo a 15 mil quilômetros de distância e que não defendem nenhum clube adversário direto do meu (isso muda fácil, fácil se algum jogador dos selecionados croata e francês vier a jogar no Brasil com uma camisa rival).

No entanto, não dá para dizer que as falhas da seleção croata foram ignoradas antes da decisão de hoje, pelo menos sob os olhares da Fifa e amigões do peito que patrocinam a competição. E nem estou falando da polêmica sobre possíveis implicações fascistas de alguns membros da delegação do país dos Bálcãs, até porque o Brasil, do dia pra noite, se superlotou de cientistas especializados em política internacional e, principalmente, em História da Croácia, o que torna a minha opinião irrelevante nesse caso.

Invicta até agora, a equipe metade balcânica, metade centro-europeia debuta em finais de Copa, tendo só 25 anos de reconhecimento no meio das seleções profissionais de futebol. Depois da independência proclamada na marra durante a guerra contra a Sérvia (1991-1995), já é a segunda vez que a camisa quadriculada em vermelho e branco faz campanha de destaque (foi terceira colocada na França, em 1998).

Então, onde raios estão as falhas de um time que chegou à Rússia nada badalado e foi até a final atropelando a Argentina na fase de grupos, eliminando a dona da casa nas quartas de final e passando com autoridade pela tradicional camisa inglesa na semi?

De primeira, digo: de acordo com a “entidade máxima do futebol” estão no que os jogadores croatas escolhem beber. Nada de teor alcoólico, o problema está na bebida energética que eles tomavam enquanto posavam para uma foto antes da partida das oitavas de final, contra a Dinamarca, no estádio Nizhny Novgorod, no dia 1º de julho.

Alguns atletas bebericavam em latinhas de Red Bull, mas não podiam. Ao menos de acordo com as regras de patrocínios da Fifa, que patrulham tudo o que é consumido dentro dos estádios e arredores, instalando um Estado à parte das leis de qualquer país onde o torneio é disputado, o consumo de “bebidas não autorizadas” por membros das delegações prevê multa dez vezes maior do que uma sanção aplicada por racismo, por exemplo.

Explique-se: tudo tem motivação no relacionamento de longa data com a Coca-Cola, que desde 1950 abraça os eventos da entidade, sempre em busca de associar ao aparentemente saudável mundo dos esportes profissionais as marcas da maior fabricante mundial de refrigerantes e de outras bebidas açucaradas, dentre os grandes responsáveis pelos crescentes índices de obesidade e diabetes inclusive entre crianças, pelo mundo.

Dessa parceria nasceram os rígidos regulamentos de marketing sobre as bebidas que os jogadores podem tomar enquanto estão nas dependências sob controle de uma das mais corruptas organizações esportivas da História, uma associação mafiosa, para ser mais direto.

Nomes dados aos bois, mesmo assim a Federação de Futebol da Croácia terá de pagar uma multa de 70 mil euros, ou 315 mil reais, aos já inchados cofres da Fifa, apenas porque alguns jogadores decidiram tomar Red Bull em vez de Powerade, o energético que a Coca vende.

E quer saber do pior? Os dois são mais ou menos a mesma coisa.

De mãos dadas com a obesidade

Com ou sem energéticos nas mãos, a cena é repetida: crianças acompanham jogadores de futebol desde os túneis do vestiário até a entrada nos campos da Copa do Mundo.

A Copa é na Rússia, mas nem todos entre a garotada nasceram por lá. Há meninas e meninos de várias partes do mundo, com idades que variam de seis a dez anos, escolhidos para o teatro montado pela Fifa.

O programa que os levou ao palco do mundial de futebol é conhecido como “Mascotes da Fifa” ou “Acompanhantes McDonald’s”, que a mega-rede de junk food mantém com a federação internacional de futebol desde 2002 (o patrocínio do McDonald’s à Copa vêm desde 1994). A justificativa da parceria é de que o trabalho visa a “estimular a paixão pelo esporte e promover um estilo de vida saudável e equilibrado entre as crianças”.

Sim, é isso mesmo. Parece tiração de sarro, mas a maior cadeia de restaurantes de comida porcaria do planeta garante que se preocupa com a saúde da molecada, num cenário de quase duas décadas em que médicos e nutricionistas pesquisam e divulgam os impactos negativos do fast-food no organismo humano: bombas de gordura, sal e açúcar explodem em níveis muito acima do que os corpos precisam. Obesidade e doenças crônicas não transmissíveis – como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e câncer – são os fragmentos que matam ou mutilam.

E o McDonald’s é um general nesse ataque. Inclusive, é o pioneiro de uma cultura alimentar que, a partir dos Estados Unidos, abriu as trincheiras e introduziu internacionalmente usos e costumes nada saudáveis, como demonstram diversas pesquisas científicas.

Para o torneio deste ano, o programa de acompanhantes de jogadores recrutou 1.273 crianças. Na edição anterior, no Brasil, foram 1.418. Em comum, todos passaram por uma “peneira”, que partia de uma estratégia usada pelo McDonald’s ao longo dos anos: a venda casada. Não precisamos chamar de outra coisa, mas vale lembrar de um agravante quando comparada com a comercialização de lanches atrelados a brindes que logo são esquecidos: na “promoção da Copa”, são sonhos maiores aqueles vendidos junto com os lanches engordurados.

Em 2014, na Índia, lojas da megaempresa instaladas no leste e norte do país exigiam que as crianças comprassem um “McDonald’s Happy Meal” (o “lanche feliz”), ligassem para um número indicado na embalagem e digitassem o código recebido durante o telefonema para responder a uma pergunta sobre a Fifa. Os que entregavam a resposta correta passavam à etapa seguinte, um sorteio.

Com seis anos de idade à época, Abhiraj Singh foi umas das sete crianças indianas escolhidas para uma viagem a São Paulo, com passagens aéreas, estadias e ingressos de jogos bancados pela franquia de restaurantes.

“Ter a chance de entrar em campo com as melhores equipes e jogadores do mundo é simplesmente incrível. Eu tenho muita sorte. Obrigado ao McDonald’s por essa oportunidade”, disse o garoto, ao lado do palhaço Ronald, em evento que antecedeu à viagem.

Difícil falar quando uma rede de influência atua no campo do afeto e do imaginário de uma criança, mas, não, Abhiraj, você não teve “muita sorte” há quatro anos. Foi apenas vítima de propaganda enganosa. O McDonald’s quer lucro a todo custo, ainda que esse custo seja a sua doença e as de outros milhões de pessoas. Essa empresa mentiu para você, garoto, se atrelando a imagem de super-astros do esporte mais popular do mundo com o objetivo de mostrar “compromisso com a saúde”, quando, na verdade, só pretende limpar a própria sujeira, numa lavagem marqueteira.

O McDonald’s, de certa forma, já admite que a comida que serve é ruim. Por exemplo, nos EUA, a rede de lanchonetes substituiu margarina por manteiga e deixou de vender carne de aves criadas com antibióticos. No mês passado, os “lanches felizes” passaram a ser vendidos com uma redução de 600 calorias e 650 miligramas de sal. Mudanças pequenas que, nem de longe, eliminam os riscos à saúde, mas são uma admissão velada da tranqueira oferecida.

De qualquer jeito, não podemos esperar que cadeias de fast-food ajudem, de fato, a resolver o problema da obesidade e das doenças crônicas não transmissíveis. Seria como pedir aos botecos que promovessem a sobriedade, com a diferença de que bebidas alcoólicas são vendidas somente a maiores de idade em quantidade significativa de países.

Sempre eles

Um artigo intitulado “O que poderia derrubar Neymar, de verdade?”, escrito pela dupla Marina Pita e Renato Godoy, jornalistas que trabalham no Instituto Alana, dá o panorama da relação nada bacana entre empresas de comida porcaria e os esportes de alto rendimento.

O texto aborda uma pesquisa publicada em março deste ano, nos Estados Unidos, que revela que “três entre quatro anúncios e metade das promoções de bebidas exibidos ao longo dos dez mais importantes eventos esportivos, assistidos também por crianças, são de produtos com alto índice calórico ou de açúcar”.

Os autores apontam que a responsável pela pesquisa estadunidense, Marie Bragg, em entrevista recente à agência internacional de notícias Reuters, bateu sem piedade: “Ter organizações esportivas altamente populares servindo de veículo para a promoção de junk food para crianças envia uma mensagem contraditória, incompatível com a manutenção de uma dieta saudável.”

“Seria irônico, não fosse triste, que produtos ricos em gordura, sódio e açúcar sejam aqueles atrelados aos atletas de alto desempenho, que figuram no imaginário social como heróis e exemplos, especialmente para pessoas em fase de desenvolvimento”, apontam Mariana e Renato.

Eles ressaltam, também, que o aumento da obesidade infantil no Brasil e no mundo é considerado uma epidemia, “que sobrecarrega os sistemas de saúde dos países e é explicada por uma série de fatores, sendo cada vez mais questionável a predisposição genética como relevante”.

O argumento é construído a partir do trabalho do pesquisador Henrique Barros, epidemiologista que coordena o projeto Science and Technology in childhood Obesity Policy (Stop), apoiado pela União Europeia. Para ele, se fosse apenas uma questão genética (como a indústria de alimentos ultraprocessados quer fazer parecer), o percentual de obesos não cresceria tanto em décadas, período que não é considerado razoável para alterações nos genes humanos.

Só no Brasil, em uma década, a prevalência da obesidade aumentou em 60%, passando de 11,8% no ano de 2006 para 18,9% em 2016, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Dentre esses dados, um pega forte: o número de crianças brasileiras obesas aumentou dez vezes nos últimos quarenta anos, o que eleva o risco de doenças crônicas não transmissíveis, ecomo diabetes e hipertensão precoces, além de efeitos metabólicos, cardiovasculares e impactos negativos na saúde emocional de meninas e meninos.

Foto em destaque: Fotos Públicas  

Campanha estimula mães e pais a denunciarem publicidade do McDonald’s

 

 

Saiba quem são os senadores que decidiram dar R$ 1,6 bi para Coca e Ambev

Debate no plenário voltou a mobilizar argumentos frágeis sobre criação de empregos na Zona Franca de Manaus

O plenário do Senado aprovou ontem (10) um projeto para restituir os subsídios públicos à indústria de refrigerantes. Na prática, o Projeto de Decreto do Senado 57, de 2018, entrega R$ 1,6 bilhão ao ano, a maior parte para as grandes empresas do setor, Coca-Cola e Ambev.

Desde que a iniciativa foi encabeçada pelos senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Eduardo Braga (PSD-AM) e Omar Aziz (PSD-AM), a divisão por partidos se perdeu, e passou a haver uma disputa que unificou parlamentares conectados à Zona Franca de Manaus e às corporações.

O projeto revoga o decreto de Michel Temer que reduz de 20% para 4% as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidentes na produção de concentrados de refrigerantes na Zona Franca de Manaus.

E como uma redução de impostos resulta em aumento de arrecadação? Porque as empresas que compram os concentrados têm direito a um crédito em cima da diferença de tributação do produto final, os sucos e refrigerantes (4%). O que o decreto de Temer faz é zerar a possibilidade desses créditos. A Receita Federal esperava arrecadar R$ 740 milhões até o fim do ano.

A medida era um antigo anseio da Receita, que considera uma “distorção” o fato de as empresas que compram xaropes da Zona Franca de Manaus cobrarem créditos em cima de impostos que nunca foram pagos, já que a região conta com subsídios públicos estimados pelo Joio em R$ 7 bilhões ao ano.

Diante da divisão, PT, MDB, PP, DEM e PSB liberaram os parlamentares para que votassem como quisessem. Já PSDB, PSD, PDT, PCdoB e PV orientaram voto a favor do projeto. Confira abaixo como se posicionou cada senador. O projeto segue agora para a Câmara.

A favor – 29 votos

Acir Gurgacz (PDT-RO)

Antonio Anastasia (PSDB-MG)

Ciro Nogueira (PP-PI)

Cristovam Buarque (PPS-DF)

Dário Berger (MDB-SC)

Antonio Valadares (PSB-SE)

Eduardo Amorim (PSDB-SE)

Eduardo Braga (MDB-AM)

Eduardo Lopes (PRB-RJ)

Fernando Coelho (MDB-PE)

Flexa Ribeiro (PSDB-PA)

Garibaldi Alves Filho (MDB-RN)

Jorge Viana (PT-AC)

José Agripino (DEM-RN)

José Pimentel (PT-CE)

Lídice da Mata (PSB-BA)

Omar Aziz (PSD-AM)

Otto Alencar (PSD-BA)

Paulo Bauer (PSDB-SC)

Paulo Rocha (PT-PA

Renan Calheiros (MDB-AL)

Ricardo Ferraço (PSDB-ES)

Roberto Rocha (PSDB-MA)

Rudson Leite (PV-RR)

Sérgio Petecão (PSD-AC)

Tasso Jereissati (PSDB-CE)

Valdir Raupp (MDB-RO)

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM)

Waldemir Moka (MDB-MS)

Contra – 10 votos

Ana Amélia (PP-RS)

Fátima Bezerra (PT-RN)

Humberto Costa (PT-PE)

José Medeiros (Podemos-MT)

Kátia Abreu (PDT-RO)

Lasier Martins (PSD-RS)

Lindbergh Farias (PT-RJ)

Reguffe (DF)

Roberto Requião (MDB-PR)

Rodrigues Palma (PR-MT)

Abstenção – seis

Aécio Neves (PSDB-MG)

Hélio José (PROS-DF)

Randolfe Rodrigues (Rede-AP)

Regina Sousa (PT-PI)

Roberto Muniz (PP-BA)

Romero Jucá (MDB-RR)

Eduardo Braga foi um dos comandantes da campanha em prol dos subsídios (Foto: Geraldo Magela. Agência Senado)

Argumentos frágeis

Assim como já havia ocorrido durante audiência pública realizada em junho, o debate em plenário mobilizou argumentos frágeis em defesa da revogação do decreto. A maior parte das falas girou em torno da importância das empresas de concentrados de refrigerantes para a criação de empregos na Zona Franca.

Como já havíamos mostrado no Joio, são menos de 800 empregos diretos. A Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (Abir) alega que outros dez mil postos de trabalho são criados nas usinas de açúcar e na plantação de guaraná. Também expusemos como se trata de empregos com baixa remuneração.

“Não pode um presidente da República, por um decreto unilateral, tirar um a um dos incentivos que mantêm toda uma economia, e não é só a economia do estado do Amazonas”, disse Vanessa. “O que nós queremos é que se restabeleça a ordem, porque, se a moda pega, não é apenas a Zona Franca que corre perigo: porque, se hoje ele fez com o setor de concentrados, amanhã ele poderia fazer com o setor eletroeletrônico; no dia seguinte, com o setor de duas rodas.”

É impossível que isso ocorra porque esses outros dois setores, os maiores da Zona Franca, não têm um esquema de créditos em cima de impostos que não são pagos. Essa é uma especificidade da indústria de refrigerantes, que, apesar de ser a terceira maior na região, é a segunda em cobrança de subsídios, atrás apenas de eletroeletrônicos. A Receita estima que a carga tributária de uma empresa do setor fique em menos de 5%, e se torna negativa quando considerados os créditos de IPI.

Quem faz lobby

O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) foi a principal voz contrária à aprovação do projeto. Para ele, é inviável subsidiar a produção de refrigerantes enquanto o mundo discute como frear a epidemia de obesidade e doenças crônicas. “Então, no momento em que este governo fecha 400 farmácias populares, a gente vai dar subsídio de R$7 bi para a Coca-Cola? Nós vamos pagar com dinheiro do cofre público para quem quer consumir um refrigerante. É uma loucura! Só pode ser uma política de envenenamento maciço e de privilégio de grandes empresas, no caso a Coca-Cola e a Ambev. Não dá para aceitar.”

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) contestou: “Senador, eu gostaria…de saber por que, durante os 12 anos do PT, esse benefício foi concedido?”

Nós já demos a resposta aqui no Joio. Quando, em 2008, a Receita tentou mudar a tributação dos refrigerantes, Tasso intermediou uma reunião entre o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente da Coca América Latina, Brian Smith. O ex-presidente do PSDB é o maior investidor de Coca no Brasil depois da própria empresa. Ele controla toda a produção e distribuição no Nordeste.

Tasso, segundo maior engarrafador de Coca no Brasil, pergunta: quem defendeu a empresa? Ele mesmo (Foto: Pedro França. Agência Senado)

Documento que obtivemos mostra que foi o senador quem transmitiu a Mantega qual seria o motivo da reunião: “impostos sobre bebidas”. Após o encontro, o governo revogou o decreto que mexia no sistema tributário do setor.

O esquema da Zona Franca data do começo da década de 1990. Já em 1997 o jornal Folha de S. Paulo calculava em R$ 300 milhões ao ano os créditos em impostos que nunca foram pagos.

O Ministério da Fazenda chegara a zerar a tributação de IPI sobre os concentrados, mas foi obrigado a voltar atrás. “Não faria diferença para a Recofarma, isenta, mas deixaria de gerar créditos para as engarrafadoras – obrigando-as a pagar mais impostos. Uma semana depois dessa redução, o ministro Pedro Malan (Fazenda) fez a alíquota do IPI sobre o xarope de cola subir para 27%, atendendo aos protestos da diretoria da Coca-Cola brasileira e de seus engarrafadores (os governadores Tasso Jereissati, do Ceará, e Albano Franco, de Sergipe, possuem engarrafadoras de Coca-Cola).”

Indústria consegue liminar para atrasar decisão sobre alertas em alimentos

Na última hora, Justiça Federal determina que Anvisa prorrogue em 15 dias consulta pública sobre advertências para excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas

A Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) obteve de última hora uma liminar para postergar por duas semanas a discussão sobre a adoção de alertas nos rótulos. A decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, determina que a Anvisa estenda até 24 de julho a tomada pública de subsídios sobre o assunto.

O magistrado aceitou o pedido de mandado de segurança justamente no último dia da consulta pública na página da agência, que estava coletando informações sobre a colocação, nas embalagens, de advertências para o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas.

A tomada pública de subsídios é a primeira realizada pelo órgão regulador. A ideia é justamente colher evidências antes da redação de uma proposta formal. Ou seja, após esse prazo a agência apresentará um esboço de resolução que ainda passará por nova fase de escuta de todos os setores envolvidos.

A Abia apresentou a ação judicial na sexta-feira, dia 6, último dia útil antes do fim do prazo da tomada pública de subsídios. O caso chegou ao gabinete de Waldemar Cláudio de Carvalho às 10h39 de ontem, e às 18h09 foi emitida a decisão em caráter liminar.

A Justiça Federal aceitou o argumento de que os 15 dias adicionais são necessários para apresentar estudos sobre o semáforo. “Observa-se a verossimilhança das alegações autorais, no sentido de que a apresentação de estudos e testes necessários para comprovar ou não a superioridade do modelo do Semáforo contribui para a melhor tomada de decisão e, por conseguinte, ao interesse público, facilitando as escolhas alimentares pelos consumidores brasileiros.”

A Abia já havia pedido diretamente à Anvisa que o prazo fosse estendido em duas semanas, alegando que a greve dos caminhoneiros havia prejudicado a coleta de novos dados a respeito. Inicialmente a própria agência cogitava deixar a tomada pública aberta por 60 dias, mas a diretoria colegiada decidiu fixar o intervalo de 45 dias considerando que seria suficiente para a apresentação das informações necessárias.

Mesmo com a queixa por mais prazo, dezenas de empresas haviam enviado contribuições ao debate na Anvisa, conforme mostrava formulário disponível até ontem na página da agência.

As empresas são contrárias aos alertas e defendem um semáforo que mostra as cores verde, amarelo e vermelho para cada nutriente crítico. Nas últimas semanas, a Abia apresentou três estimativas conflitantes sobre o impacto negativo dos alertas para a economia e a criação de empregos. A comunidade científica se opõe a esse sistema, tido como ineficaz para mudar hábitos de consumo.

Em nota, a Abia afirmou que a extensão do prazo é benéfica à sociedade brasileira, afirmando que o prazo de 45 dias “colocaria em risco” o impacto técnico da mudança. “A apresentação de evidências científicas sobre os resultados da regulação e sua implementação é essencial para a definição do melhor modelo e os estudos que comprovam tecnicamente esse impacto não podem ser realizados de forma precipitada.”

A Anvisa havia se posicionado contrária ao adiamento. Os debates sobre rotulagem frontal tiveram início em 2014 com a criação de um grupo de trabalho que coletou evidências sobre o funcionamento dos diferentes sistemas adotados mundo afora. Entre o segundo semestre do ano passado e o primeiro semestre deste ano, diretores e a área técnica da agência tiveram várias reuniões com as partes interessadas, que puderam apresentar estudos e argumentos em favor ou contra determinado modelo.

A agência não se posicionou até o momento porque não foi notificada. A página da tomada pública de subsídios está fechada.

A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, que defende os alertas, lamentou a postura do setor privado. Ana Paula Bortoletto, líder do programa de Alimentação e Nutrição do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), integrante da Aliança, recorda que apenas após a publicação do relatório da Anvisa favorável aos alertas é que as empresas manifestaram a intenção de realizar novos estudos.

“No ofício apresentado à Anvisa mostraram os estudos que seriam necessários. São estudos que demandariam muito mais do que 45 ou 60 dias. Judicializar essa situação, você está querendo usar um recurso para ganhar mais tempo, e não de fato enviar contribuições que podem mudar a situação”, critica.

Campanha estimula mães e pais a denunciarem publicidade do McDonald’s

“Abusivo tudo isso”, do Instituto Alana, incentiva mobilização contra estratégias de promoção do McLanche Feliz

O Instituto Alana lançou uma plataforma para que mães e pais possam denunciar publicidade do McDonald’s direcionada a crianças. A ideia é facilitar o encaminhamento de queixas sobre a venda casada de brinquedos e sanduíches para a Secretaria Nacional de Relações do Consumidor do Ministério da Justiça.

A campanha “Abusivo tudo isso” coloca foco no McLanche Feliz, que oferece um combo de fast food e brinquedos exclusivos colecionáveis. Basta preencher os dados pessoais diretamente na plataforma e encaminhar a denúncia à secretaria, que pode optar por repassá-la aos Procons estaduais e ao Ministério Público. O texto-base argumenta que o McDonald’s faz das crianças promotoras dos produtos e se baseia em uma estratégia abusiva de venda casada de um brinquedo com um combo alimentar não saudável.

“As crianças gostam do que é novo, do que é colecionável. É uma característica da infância. O único lugar em que vão encontrar aquele brinquedo é na rede McDonald’s. E só no período em que é possível completar a coleção. Daqui a oito semanas virá uma outra coleção”, analisa Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.

“Com isso, a empresa garante a ida da criança e das famílias à rede de lanchonetes com periodicidade. Garante a venda do brinquedo. E garante um consumo familiar. A criança é um chamariz. É uma estratégia repetitiva, bem conhecida, anunciada tanto na televisão como nos pontos de venda.”

Devido às muitas críticas e a ações judiciais em torno do McLanche Feliz, o McDonald’s passou a oferecer a possibilidade de comprar apenas o brinquedo, sem o lanche. Mas Ekaterine chama atenção para o fato de a diferença do brinquedo avulso para o combo ser de apenas R$ 4, o que incentiva a compra casada.

O Alana considera ilegal toda publicidade direcionada a crianças. Um dos argumentos é de que estudos científicos mostram que, até os doze anos, no geral não se tem discernimento sobre a motivação de estratégias de comunicação mercadológica. Ou seja, as crianças não entendem que o oferecimento de brinquedos tem como objetivo a venda de mais sanduíches.

“Abusivo tudo isso” é uma clara alusão a “Amo muito tudo isso”, slogan da empresa. A campanha foi inspirada na atitude de um pai do Distrito Federal que buscou a página do Alana para fundamentar uma denúncia apresentada ao Ministério Público. Graças a isso a 1ª Promotoria de Justiça de Defesa da Infância e da Juventude investiga desde 2015 a prática da rede de lanchonetes, ainda sem conclusão.

Wêsley Henrique de Assis conta que começou a se sentir pressionado pelas estratégias publicitárias do McDonald’s quando os filhos tinham quatro e dois anos. “Como pai, a vontade de satisfazer o desejo dos filhos nos leva a ser vítimas dessa publicidade”, conta o servidor público de 46 anos.

A gota d’água para ele foi entrar em uma loja e ver brinquedos do McLanche Feliz expostos pela empresa. Wêsley tirou fotos de tudo, baixou um modelo de denúncias na página do Alana e encaminhou o material ao Ministério Público. “Eu e meus filhos somos vítimas dessa publicidade. Eu ainda consigo de vez em quando comprar o brinquedo. E as crianças que assistem à propaganda, mas não podem comprar?”

A correlação entre exposição a publicidade de alimentos e obesidade foi bastante estudada mundo afora. No geral, as pesquisas mostram que mais comunicação mercadológica resulta em um maior consumo de itens não saudáveis, o que acarreta em ganho de peso.

Em vários países são feitos levantamentos sobre a qualidade nutricional do que é exibido na televisão, e em qualquer caso alimentos com altos índices de sal, açúcar e gorduras saturadas são os que recebem maior exposição. Raramente as empresas mostram itens com teor nutricional adequado a crianças.

O McDonald’s é signatário de acordos voluntários sobre publicidade direcionada ao público infantil. A empresa diz exibir na televisão apenas produtos que apresentem uma qualidade nutricional que considera boa, segundo os próprios critérios.

“Não significa que essas empresas cumpram a legislação brasileira. Elas definem as regras. Escolhem o que fazer e o que não fazer”, diz Ekaterine. Ela recorda que o McLanche Feliz é em si uma estratégia publicitária voltada a crianças e, portanto, ilegal, independente do que é exibido na televisão. “A gente valoriza os compromissos de autorregulação. São importantes para colocar o tema em pauta, criam uma janela de oportunidades para trazer reflexões. Mas esse tipo de compromisso é limitado.”

Isso também está demonstrado por pesquisas. Em 2013, o Rudd Center for Food Policy and Obesity, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, lançou um estudo sobre a publicidade de redes de fast food. Quanto ao teor nutricional, o McLanche Feliz obteve nota 47, de um total possível de 100, e nenhum dos itens principais do cardápio do McDonald’s apresentou qualidade aceitável.

Ao analisar o cardápio de 18 restaurantes, os pesquisadores viram que apenas 1% das 5.427 refeições possíveis não apresentava excesso de sal, açúcar e gordura. Mesmo usando os padrões dos acordos de autorregulação, mais frouxos, apenas 3% passariam no teste.

Embora dizendo fazer publicidade apenas de produtos considerados saudáveis, o McDonald’s tem uma prática que contraria o discurso: a rede gastou US$ 972 milhões em 2012 anunciando produtos não saudáveis nos Estados Unidos, contra US$ 367 milhões investidos na promoção de produtos saudáveis.

E a rede era, de longe, a anunciante que mais direcionava publicidade a crianças e adolescentes. Só na internet foram 34 milhões de anúncios do McLanche Feliz por mês em 2012, um crescimento de 63% frente a 2009 – três quartos estavam alocados em páginas infantis.

Chocolate em Brasil x Bélgica: caminhos de escravidão e morte

Adversários na Copa, países têm relação bifurcada pelo histórico das plantações de cacau  

O futebol é a maior invenção da humanidade: é muito do que se ouve em tempos de Copa. Nos dias sem partidas pelo torneio, há quem fale em “abstinência futebolística”. Amantes de outras práticas, no entanto, discordam sobre a importância: aos que adoram comer chocolates, o primeiro lugar entre as criações humanas está reservado a bombons e barras.

Ainda que não desprezem o esporte, o derivado de cacau é incomparável para muitos brasileiros e belgas, povos que têm os caminhos cruzados hoje pelo mundial de seleções, mas, também, por uma triste bifurcação histórica que encontra eco na escravidão e no genocídio.

Tudo começa com os povos indígenas da América Central e do México. Descobridores do chocolate aproximadamente em 1900 a.C, os astecas o usavam como base para uma bebida fria, o xocolatl (água amarga). Sem adicionar açúcar ou leite à substância extraída das amêndoas de cacau, o povo originário a concentrava, juntando as sementes moídas à água e especiarias, essencialmente a pimenta.

O amargor ligeiro, mais o sabor de ervas e pimenta, foi quase apagado pelos colonizadores. Espanhóis e portugueses, os mesmos que dizimaram milhões de indígenas da América, também descaracterizaram o alimento. Aos poucos, canela, leite e, finalmente, açúcar, alteraram a combinação inicial, que era “uma dádiva dos deuses” para os índios, uma bebida oferecida em rituais.

Nem mil eliminações de Espanha e Portugal em Copas do Mundo – na Rússia, elas estão em casa faz tempo – fariam cócegas no sofrimento promovido por esses países nas Américas. O chocolate foi só uma das riquezas roubadas que cruzou os mares a bordo de navios. E, vejam só, entre tantos lugares, desembarcou, em 1635, na Bélgica, mantida, então, sob ocupação espanhola.

Clima frio, os habitantes da região beberam a mistura em temperaturas mais altas e veio a paixão pelo chocolate quente. Quase quatrocentos anos depois, no início do século 20, os belgas, já também colonizadores, importaram grandes quantidades de cacau do “Congo Belga”, no continente africano, terra que usavam como colônia de exploração.

O livro Chocolate: a Global History (Chocolate, uma história global, sem tradução em português), dos pesquisadores Sarah Moss e Alexander Badenoch, explica como o chocolate se tornou uma lente pela qual os europeus podiam enxergar amplamente os impérios que criavam.

“As autoridades imperiais da Alemanha e da Bélgica, em especial, enfatizavam a negritude do chocolate baseados em fantasias de superioridade. Doces de creme cobertos de chocolate ficaram conhecidos como Negerkusse (“beijo de negro” – uma expressão, aliás, emprestada dos franceses), e Mohrenkopfe (“cabeça de mouro”), nomes que carregaram até muito recentemente. Era um reflexo das fantasias raciais sobre os colonizados servis”, argumentam os autores.

A mentalidade colonial em torno do chocolate foi em muito responsável pelo trabalho forçado dos negros africanos capturados e transportados para o lado de cá do Atlântico, o que se tornou parte fundamental do cultivo do cacau durante o século 18, essencialmente no Caribe e em parte da América do Sul, incluindo o Brasil.

O tráfico de escravos tinha estreitas ligações com a indústria chocolateira. E, se os belgas, de um lado, aproveitavam a herança escravocrata para colonizar países africanos e extrair riquezas que refinaram o chocolate aclamado atualmente como “o melhor do mundo”, foi do Brasil – embora não pelas mãos de brasileiros – que partiu a manobra decisiva na geopolítica do cacau.

“Os portugueses levaram, junto com o cacau, o sistema de trabalho forçado das plantações do Brasil para as colônias no oeste da África. Uma vez que o tráfico de escravos foi oficialmente abolido nas Américas, já não era mais viável atravessar o Atlântico, mas, na fonte, no oeste da África, ainda era funcional, pois permanecia invisível aos olhos internacionais”, contam Moss e Badenoch.

Campeões da morte

O clima não ajuda, mas, mesmo sem ser capaz de produzir cacau, a Bélgica chegou ao posto mais alto no imaginário do marketing como produtor de chocolate. Como? Oportunismo.

Aproveitando as heranças espanhola e portuguesa de escravidão e exploração, o rei belga Leopoldo II criou, em 1877, a Associação Internacional Africana, que recebeu dinheiro de vários “investidores” da Europa. Em comum, eles tinham como prioridade abocanhar as riquezas do “Congo Belga”, já enfraquecido por incursões europeias anteriores (lembra dos portugueses exportando cacau e escravidão do Brasil?).

Com os cofres e bolsos cheios, Leopoldo II teve poder para influenciar os conflitos geopolíticos movidos pela disputa de territórios africanos que se davam em solo europeu. Foi ele quem convocou a Conferência de Berlim, que acelerou a partilha da África, ocorrida em apenas quatro meses, entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885.

A presença colonial belga no continente africano é considerada uma das páginas mais cruéis da história. Recursos naturais foram saqueados por companhias concessionárias e a população local sofreu com a escravidão. Punições severas eram aplicadas àqueles que resistiam ou não atingiam “metas de trabalho”.

Em 1904, uma comissão investigadora internacional já reconhecia que, durante os primeiros 15 anos de domínio colonial, três milhões de congoleses morreram vítimas de doenças e maus tratos.

Durante 20 anos (1885-1905) o “Estado Livre do Congo” (hoje, a Costa do Marfim e a República Democrática do Congo), foi uma propriedade particular do rei belga, um milionário do cacau e da borracha, que premiava soldados que trouxessem mãos de africanos decepados nas “expedições de caça aos negros que resistissem à civilização”.

Enquanto isso, os belgas celebravam a invenção do praliné, de Jean Neuhaus Jr., uma forma de moldar e preencher chocolates, permitindo tamanho maior, casca mais espessa e ganache (mescla de chocolate e creme de leite) mais pesado, ou seja, era o bombom sendo criado.

“Isso incentivou a criatividade dos chocolateiros, que puderam começar a experimentar os enchimentos feitos com todos os tipos de ingredientes. É uma técnica usada até hoje. A moldagem, inclusive, se tornou a maneira mais popular de criar chocolates.”, afirma a jornalista estadunidense Sharon Terensi, estudiosa da história do chocolate.

Para não ficar atrás de espanhóis e portugueses, a Bélgica também deixou uma herança nefasta: na Costa do Marfim, em terras fartamente explorada pelos belgas, crianças, com idades entre 10 e 15 anos, até hoje são submetidas a trabalho escravo nas plantações de cacau, para garantir os estoques de megacorporações como Nestlé, Hershey’s, Mars e Barry Callebaut (fundada na Bélgica), que despejam toneladas de produtos derivados mundo afora, muitas delas no Brasil, que é o quinto colocado em produção de chocolate no planeta.

Brasileiro ou belga, comemore a vitória da sua seleção, mas não é exagero pedir que se encha de coragem e assista ao documentário O lado negro do chocolate, do jornalista dinamarquês Miki Mistrati, que investiga o tráfico de crianças do Mali para as plantações de cacau localizadas nas terras que ainda transpiram o trauma da colonização imposta por Leopoldo II e companhia. Talvez, você ao menos passe a evitar certas marcas.

O alto preço de lutar

Somente em 1960, a região onde hoje ficam a Costa do Marfim e a República Democrática do Congo alcançou a independência. Liderados por Patrice Émery Lumumba, rebeldes anticolonialistas que defendiam a solidariedade entre os povos da África para além dos limites de nação, etnia, cultura, classe e gênero, derrubaram a dominação belga, mas não sem um preço alto a pagar.

Doze semanas de governo foram o limite para o grupo de Lumumba. Derrubado por um golpe de Estado, ele se viu capturado por forças militares que o torturam e assassinaram em janeiro de 1961. Registros da época indicam a participação dos governos da Bélgica e dos Estados Unidos, que o classificavam como “uma ameaça alinhada ao comunismo”.

No Brasil x México da cerveja, todo mundo perde

À espera de gols, as tradicionalmente alegres torcidas brasileira e mexicana abrem cervejas que não merecem comemoração

O jogo começa às 11h, mas muita gente dá o pontapé inicial antes. Usando o abridor ou a quina da pedra da pia, o tssssssss do gás e o estalar metálico da tampinha se combinam para avisar que o lacre está rompido. Feijoada ou guacamole, no bar ou em casa, o líquido cai nos copos gelados. A cerveja abre a terceira rodada das oitavas de final da Copa do Mundo 2018, numa partida entre Brasil e México que marca o único confronto latino-americano do torneio até o momento. No gramado, nem que seja nos pênaltis, alguém surge vitorioso. Sobre a qualidade da bebida, o resultado é impossível de ser reproduzido no campo: brasileiros e mexicanos saem derrotados.

Quem aguarda o duelo entre os times do atacante Neymar e do técnico Juan Carlos Osorio (colombiano que já trabalhou no Brasil, no São Paulo Futebol Clube) espera gols em quantidade. Seja pela tradição ofensiva do futebol jogado nos dois países, seja pela reconhecida empolgação de ambas as torcidas, ânimo não deve faltar. Mas um pouquinho de atenção ao que se está bebendo, sim.

Leia o rótulo – que, na verdade, é quase um não-rótulo no Brasil. Se vai tomar marcas como Antarctica, Brahma, Bohemia, Itaipava, Schin, Original ou Skol, dê uma olhadinha básica. Coisa rápida. São, em média, sete ingredientes os revelados nas embalagens.

Lembrando que a cerveja tem como princípios essenciais a água, o malte, o lúpulo e a levedura. O primeiro são os grãos de cereais maltados, responsáveis pela cor da cerveja e também pelos açúcares transformados em álcool e gás carbônico – aquelas bolinhas que teimam em fugir do copo e dar uma coçadinha no nariz.

O lúpulo é a flor da planta humulus lupulus e garante aroma, sabor e conservação da cerveja. A levedura é uma turma de “bichinhos” (fungos) que come os açucares presentes no líquido e faz a fermentação. Por fim, vem a água, para dar volume à bebida.

Quase todo o rótulo lido. Ingredientes essenciais desvendados. Nada mais importa a não ser beber e gritar gol. Opa! Não é bem assim. Insista por mais uns segundinhos e vamos entender um problema: os adjuntos, ingredientes que entram na cerveja de acordo com a vontade do cervejeiro ou, na maioria das vezes, pela imposição das diretorias das empresas, que só querem, mesmo, é economizar nas costas dos cidadãos e aumentar os lucros.

Xaropes, café, mel, frutas, flores, chocolate e até bacon são usados em misturas de cervejas distribuídas em terras brasileiras e mexicanas. O que não foi descoberto é o limite que cada ingrediente pode ocupar na composição, porque a legislação é pouco objetiva a respeito nos dois países.

Mas peralá: os quatro elementos fundamentais não foram revelados? Sim. Mas as megacorporações que produzem e vendem a bebida em larga escala são firmes no lobby, que empurra a legislação para uma espécie de vácuo: grãos estranhos à formulação de uma boa cerveja são acrescentados aos montes, podendo chegar a 50%, no caso do Brasil.

A Ambev resgatou embalagens da Brahma de Copas anteriores, mas esqueceu de tirar o milho, que só cresceu de alguns mundiais para cá

O arroz e, principalmente, o milho, inclusive transgênicos, como afirma o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), têm dado as caras como os reis do pedaço. Isso porque a lei permite que as empresas identifiquem nos rótulos apenas os termos genéricos “cereais não maltados”.

Em solo brasileiro, o milho – substituto mais barato da cevada maltada, ingrediente fundamental da receita original da bebida – ocupa, em média, 45% das misturas. Um estudo do Laboratório de Ecologia Isotópica do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo (USP), feito em 2012, pesquisou 77 marcas – 49 produzidas no Brasil e 28 importadas das Américas do Sul e do Norte, Europa e China. O milho foi detectado na composição de 16 cervejas nacionais em quantidades equivalentes à metade da mistura de cereais, proporção que supera o teto autorizado pela legislação brasileira.

O texto final do trabalho afirma que essas bebidas deveriam ter os nomes trocados para cerveja de milho, com o acréscimo de destacar, na rotulagem, o nome do cereal de maior presença.

Não que isso deixe as cervejarias gigantes que atuam por aqui felizes. Elas não têm limites. Transnacionais como a Ambev (Companhia de Bebidas das Américas), fabricante de Antarctica, Brahma, Bohemia, Original e Skol; Heineken Brasil, responsável, além da própria Heineken, por Amstel, Bavaria, Devassa, Eisenbahn, Glacial, Kaiser e Schin, e o Grupo Petrópolis, que tem Crystal e Itaipava como carros-chefes, são as mais atuantes na pressão ao governo federal e a parlamentares no intuito de colocar mais água no seu chope – ops, mais milho na sua cerveja.

Essas empresas, juntas, são responsáveis pela concentração esmagadora do cenário cervejeiro do Brasil, terceiro colocado do planeta em volume consumido e segundo maior em lucro com a bebida mundialmente. Ambev, Heineken Brasil e Grupo Petrópolis concentram nada menos do que 95% desse mercado que, só no ano passado, gerou receitas de R$ 70 bilhões.

“Se você é um pequeno fabricante, provavelmente não coloca milho, mas os grandes estão usando tudo o que podem”

Mesmo assim, os bilionários do setor querem que a porcentagem permitida de milho salte dos 45% para 50%, o que oficializaria o atropelamento que a regra atual já sofre, como mostrado pela pesquisa da USP.

Sete mil quilômetros distante, o México ocupa o sétimo lugar entre os produtores mundiais de cerveja, sendo o lider em exportações e o décimo-quinto importador. Na América Latina, é o terceiro país em consumo da bebida, com média de  60 litros de cerveja per capita por ano. Em 2016, a organização ambientalista Greenpeace publicou uma lista das poucas cervejarias artesanais mexicanas que se recusam a usar grãos transgênicos na fabricação: Baja Brewing Company, Bayernbrau, Calavera, Cossack e Minerva. De resto, é milho e transgenia para tudo que é (des)gosto.

“Nenhum dos nossos materiais é transgênico”, conta Jordan Gardenhire, fundador da cervejaria da Baja Brewing Company. Porém, ele marca bem as diferenças entre pequenos e grandes empresas do ramo. “Se você é um pequeno fabricante, provavelmente não usa grãos transgênicos nem coloca milho nas cervejas, mas os grandes fabricantes estão usando tudo o que podem”, assegura.

Das cervejas mexicanas famosas, a composição da Corona Extra, a marca mais popular do país, é das que mais assusta. Feita com xarope de milho geneticamente modificado, ela também leva o aditivo propilenoglicol, considerado um elemento prejudicial às células do coração, rins e outros órgãos internos, além de causador de problemas de pele.

Olhe antes de pegar: Corona leva xarope de milho transgênico e aditivo perigoso

Para piorar, em 2012, veio uma “coincidência” ruim: a multinacional belgo-brasileira Anheuser-Busch InBev (da qual a Ambev é parte fundamental) comprou os 100% do Grupo Modelo, empresa criadora da Corona, e hoje abocanha uma fatia de 60% da cena cervejeira mexicana, distribuindo, ainda, marcas internacionais como Budweiser, Miller e Stella Artois.

Perde ganhando

A Alemanha caiu fora precocemente da Copa, mas, se vivêssemos por lá, ainda que fosse para lamentar a eliminação surpreendente da atual campeã do mundo, nossa leitura do rótulo seria bem breve e poderíamos voltar os olhos aos jogos muito mais rapidamente do que a seleção germânica se despediu da competição.

Faz tempo, desde 1516, que o duque Guilherme V, da Baviera, proclamou a “Lei de Pureza da Cerveja Alemã”, conhecida em alemão como Reinheitsgebot. A regra obrigava os cervejeiros a só utilizarem água, malte e lúpulo. Eles não puderam acrescentar outros “temperos” às fórmulas até a descoberta das leveduras de fermentação, quando o texto sofreu a primeira mudança. Mais tarde, haveria o acréscimo de permissão ao uso de maltes de outros cereais, bem como um número limitado de açúcares e corantes nas cervejas de fermentação elevada.

A lei da Baviera é considerada a mais antiga em vigor no mundo todo no que diz respeito a relações de consumo. Há 502 anos os cervejeiros conseguem manter o equilíbrio entre o crescimento da produção e do consumo, e a qualidade da bebida. Pouquíssimas alterações foram permitidas. Até hoje, nenhum traço de “cereais não maltados” é aplicado na fabricação de cervejas.

Não que os alemães sejam um povoado de monges trapistas a produzir os melhores e mais puros alimentos para a humanidade. Basf e Bayer estão aí para provar que não são, como o Joio contou em reportagem recente.

No entanto, se o México ganhou dos germânicos na fase de grupos da Copa, colaborando decisivamente para despachá-los do torneio, perde de goleada quando o assunto é cerveja.

O Brasil? Bem, a gente não quer trazer mau agouro para o jogo de hoje, mas, no quesito qualidade cervejeira, é impossível não lembrar de certa peleja disputada há quatro anos, em Belo Horizonte. É gol da Alemanha.

Obesidade: o ‘empate’ além da Copa do Mundo entre Brasil e Suíça