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Modelo de rotulagem em análise na Anvisa não tem validação científica

NutriScore, adotado pela França no ano passado, foi alterado pela associação que o apresentou no debate sobre rotulagem frontal de alimentos

Um dos modelos de rotulagem frontal de alimentos em análise pela Anvisa não passou por validação científica. O NutriScore, adotado pela França em outubro do ano passado, foi apresentado no Brasil pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), mas com alterações em relação ao modelo original.

O sistema classifica os alimentos de A a E, nota que representa uma síntese do cruzamento de elementos negativos (calorias, sal, gorduras e açúcares) e positivos (frutas, vegetais, legumes e oleaginosas; fibras; proteínas).

A rotulagem frontal é entendida como um dos fatores que podem guiar as pessoas em direção a alimentos mais saudáveis, ajudando a frear a epidemia global de obesidade.

Ao apresentar esse modelo à Anvisa, em 20 de fevereiro, a Abran fez uma alteração que à primeira vista pode parecer sutil: a sugestão é de que os rótulos tragam, além da nota geral, uma nota específica para cada um desses sete itens. “Isso permite que o consumidor exerça sua interpretação pessoal, que se somará àquela feita pela agência reguladora”, alega a associação no documento protocolado na Anvisa.

Conversamos com quatro especialistas em questões regulatórias. Três deles estão envolvidos com a definição de modelos de rotulagem frontal de alimentos no Brasil e no exterior. Todos foram enfáticos de que a mudança introduzida pela Abran invalida as evidências científicas colhidas até aqui em torno do NutriScore.

O princípio de oferecer mais informações pode parecer uma boa ideia. Mas é algo que precisa ser testado cientificamente. A princípio, a soma de um campo de interpretação contraria a ideia-chave do NutriScore, que é oferecer uma síntese. Os testes realizados na Europa indicaram que a efetividade do sistema reside exatamente na facilidade de comparar produtos.

Pode-se dizer que a simples adição de um campo de informação não altera a questão básica: quem quiser poderá se ater apenas à nota de A a E. Mas, entre o NutriScore original e o alterado, qual melhor ajuda a promover escolhas? Esse novo campo de informação se mostrou útil, ou é algo que será ignorado pelas pessoas – ou, pior, provocará confusão?

Embora a discussão sobre a rotulagem frontal seja relativamente recente, existem alguns pressupostos inerentes a qualquer modelo. Já é consenso que as escolhas de cada produto são feitas em pouquíssimos segundos. E que quanto mais simples o modelo, maior a chance de ser efetivo.

Vamos explicar um pouco mais por que o que parece simples é muito complexo quando estamos falando de rotulagem. Em relação aos quatro itens negativos, o NutriScore prevê uma nota de zero a dez. Os três elementos positivos recebem uma nota de zero a cinco. Ou seja, considerando apenas um produto, estamos falando de 527.076 combinações diferentes de notas.

Se você quisesse escolher entre três produtos, precisaria logo de cara cruzar milhões de combinações possíveis. Ainda que você decidisse se ater a um item, como o açúcar, estaríamos falando de 1.331 combinações. É difícil imaginar que isso possa ser processado em questão de segundos.

Abran Nutriscore by Joio Trigo on Scribd

Caso, ainda assim, essas notas se mostrassem úteis, seria necessário testar cientificamente se são melhor interpretadas em sinais de +, como propõe a Abran, ou em números. Inicialmente, é mais crível imaginar que números funcionem melhor que sinais de +, que têm difícil leitura. Imagine ter de ler esses sinais em embalagens pequenas. Mas só uma série de pesquisas conseguiria dar essa resposta.

Falta ainda testar o funcionamento do NutriScore no Brasil. Em novembro, a Anvisa havia deixado claro que considerava insuficientes as evidências científicas acumuladas em torno dos principais modelos porque, entre outras coisas, entendia que não haviam sido testados à luz da realidade brasileira. Seria contraditório que agora aceitasse um modelo que foi validado na França, uma realidade bem diferente da nossa.

Lemos na íntegra o único documento apresentado pela Abran ao defender o NutriScore. Todas as evidências científicas são as que foram colhidas pela equipe francesa, sem testes no cenário brasileiro.

O NutriScore original

É preciso, ainda, comprovar que o NutriScore pode funcionar melhor que os outros modelos em debate. Antes da proposição da Abran, sabia-se que dois sistemas figuravam como favoritos. O semáforo, desenvolvido no Reino Unido e importado pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia). E os sinais de advertência criados no Chile e adaptados pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) em parceria com pesquisadoras da Universidade Federal do Paraná.

Na Europa, o NutriScore foi testado contra o semáforo, sempre com superioridade. Na América do Sul, as advertências foram testadas contra o semáforo, sempre com superioridade.

Os desenvolvedores do modelo francês confirmaram ao Joio que não promoveram pesquisas de comparação com as advertências porque, à época em que foi criado, em 2014, os sistemas chilenos ainda não eram conhecidos publicamente – só foram implementados em 2016.

Procuramos a Abran para saber mais sobre os critérios que levaram à escolha do NutriScore. E por que a associação, que não integrou o grupo de trabalho responsável pela elaboração de critérios sobre a rotulagem frontal, decidiu apresentar-se à Anvisa. A entidade optou por não responder.

Sete bate-papos cabeçudos (e descontraídos) sobre alimentação

Publicidade infantil, rotulagem, tributação, direito humano à alimentação adequada, conflito de interesses, amamentação e uma conversa desgourmetizadora com Rita Lobo

A alimentação se transformou num dos problemaços do século 21 (e olha que o que não falta nesse século são problemas). Cada vez mais há evidências de associação entre o que consumimos e algumas das doenças que mais têm limitado e levado vidas. Como mostramos aqui no Joio, a indústria de ultraprocessados não poupa esforços na hora de aumentar a confusão sobre o que podemos e devemos comer.

Para tentar diminuir um pouco essa fumaça, listamos abaixo sete bate-papos que oferecem alguns caminhos. As conversas foram realizadas no estande da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável durante o Congresso Brasileiro de Nutrição, entre 18 e 21 de abril, em Brasília.

Você verá que os papos são longos, já que os assuntos são complexos. Mas vale a pena trocar de vez em quando aquela série no computador por um desses bate-papos. Ou chamar os amigos para ver um pedaço e depois discutir.

Podemos começar pelo começo. Da vida: o aleitamento materno. Sonia Salviano, do IBFAN Brasil, comenta as interferências da indústria sobre a amamentação, mesmo depois do estabelecimento de regras globais bem claras e rígidas.

Passamos do berço à infância com uma conversa sobre publicidade infantil. Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana, e Renata Monteiro, do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília, abordam o desrespeito às leis que garantem a proteção dos pequenos.

Aos mais crescidinhos, Carolina Chagas, da Associação Brasileira de Nutrição, propõe o Rango Cards, um jogo de cartas sobre alimentação com base nos conceitos do Guia Alimentar para a População Brasileira. Valéria Burity, da FIAN Brasil, explica o conceito de direito humano à alimentação adequada.

Para garantir esse direito humano, há uma série de medidas regulatórias que podem ser adotados pelos Estados. Uma delas é a tributação de produtos não saudáveis. Paula Johns, da ACT Promoção da Saúde, e Rafael Claro, professor do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), abordam o assunto. Eles explicam e comentam uma peculiaridade brasileira: ao menos R$ 7 bilhões ao ano em subsídios à indústria de refrigerantes.

Em outra frente, a Anvisa discute a adoção de um modelo de rotulagem frontal que possa estimular o consumo de alimentos mais saudáveis. Ana Paula Bortoletto, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), e Gastón Ares, da Universidade da República, do Uruguai, explicam o que está em jogo.

Mas todas essas políticas públicas são atrasadas ou atrapalhadas por pesquisas científicas que conseguem bagunçar o coreto e o consenso. Daniela Canella, do Instituto de Nutrição da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), e Paulo César Castro, Frente pela Regulação da Relação Público-Privado em Alimentação e Nutrição, mostram os efeitos da presença da indústria de ultraprocessados na ciência.

Por fim, e não menos importante, Rita Lobo, do canal Panelinha e do programa Cozinha Prática, passa por alguns dos desafios fundamentais da alimentação: como voltar a cozinhar, como revalorizar a culinária, como evitar que isso se transforme em um fardo.

Onde a Anvisa quer chegar com a rotulagem de alimentos?

Agência não deixa claro se pretende garantir uma comparação entre produtos com excesso de sal, gordura e açúcar, ou um desestímulo ao consumo

Onde a Anvisa pretende chegar com a definição de um novo modelo de rotulagem frontal de alimentos? A elementar pergunta ainda não tem resposta, ao menos publicamente. Existe uma diferença grande entre as duas assertivas possíveis: promover um ranqueamento de ultraprocessados ou desestimular o consumo desses produtos. Em outras palavras, a ideia é que as pessoas escolham entre o Nescau e o Toddy, ou que reduzam drasticamente a ingestão desses itens?

Essa resposta teria abreviado bastante o debate travado a portas fechadas em Brasília. Foi o que fez o Canadá, onde metade da ingestão calórica média provém dos ultraprocessados e onde um em cada quatro adultos está acima do peso. O Ministério da Saúde decidiu que quer frear o consumo de produtos com excesso de sal, gordura e açúcar. E, assim, começou o debate dando como certa a adoção de um modelo de advertências inspirado no sistema do Chile.

“O NutriScore e o sistema de advertências não respondem ao mesmo objetivo”, disse ao Joio a epidemiologista Chantal Julia, uma das criadoras do NutriScore, sistema adotado de forma voluntária na França em outubro do ano passado. “Enquanto o NutriScore visa a oferecer uma base para comparar produtos, entre categorias e dentro dessas categorias (para ajudar em substituições), o sistema de alertas objetiva identificar os alimentos não saudáveis.”

Na Anvisa, quem defende o NutriScore é a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Já as advertências chilenas foram a inspiração para um sistema apresentado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com o apoio da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

O outro sistema em jogo, apresentado pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), é um semáforo com as cores verde, amarelo e vermelho para os principais nutrientes. A ideia desse modelo é… Bem, a maior parte das evidências científicas mostram que é um sistema que pouco funciona, a ponto de um dos criadores, Mike Rayner, ter aderido a um abaixo-assinado que pede que a Anvisa adote os triângulos de advertência.

“No semáforo é difícil se definir por um produto. Se há uma cor verde e uma vermelha, isso confunde as pessoas. O que é mais importante: açúcar ou gordura?”, diz Gastón Ares, do Centro de Investigação Básica em Psicologia da Universidade da República, no Uruguai. Ele é uma das referências no estudo desses sistemas. E não tem dúvidas de que o semáforo apresentado no Brasil consegue piorar um modelo que não deu certo no Reino Unido.

A Anvisa tem dado sinais pouco claros sobre os rumos que pretende seguir. E dificulta ainda mais a situação quando não responde a perguntas básicas: um pedido de entrevista do Joio está parado nos e-mails da assessoria de comunicação da agência desde agosto de 2017.

A reiterada alegação da agência de que as evidências científicas não permitem concluir pela melhor eficácia de qualquer dos modelos irrita os representantes da sociedade civil. A declaração de que o sistema a ser adotado não deve induzir o consumidor a ter “medo” dos produtos pode ser entendida como um dos alinhamentos dos agentes públicos ao discurso dos fabricantes de ultraprocessados, que alegam que os sinais de advertência causam repulsa.

Para Gastón, esse é um falso argumento. “Precisamos ter claro qual o objetivo de saúde pública que estamos buscando. O objetivo é diminuir o consumo excessivo de sal, gordura e açúcar. Portanto, o que deveríamos pensar é qual sistema modifica a intenção de compra do consumidor. Não é se as pessoas gostam mais do semáforo porque tem cores ou se gostam mais do sistema chileno. É se o sistema cumpre o objetivo de saúde pública.”

A equipe de Gastón é a única com resultados já publicados de comparação entre o NutriScore e as advertências. Os dois modelos representam justamente a diferença-chave de que falamos no começo do texto. Como o tema é novo, as evidências científicas sobre o funcionamento no mundo real ainda estão se acumulando. E algumas novas propostas têm surgido no desenrolar do debate.

No Uruguai, o resultado da pesquisa ficou dentro do esperado: o NutriScore garantiu a melhor comparação entre produtos, ao passo que os alertas deram maior facilidade à identificação de alimentos não saudáveis. De todo modo, essa pesquisa é apenas a primeira e não permite fechar posição. Em parte porque estamos comparando lógicas diferentes.

O NutriScore cruza os principais dados nutricionais do produto e define uma nota de A a E. É um resumo.

Os triângulos alertam sobre o excesso de nutrientes específicos.

“Ouvir o setor que será regulado faz parte, mas esse momento tem que ser aberto quando você está preparado para ouvir e discutir. Quando você tem clareza do que quer”, critica Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). “Se meu interesse primário é a saúde pública, minha proposta tem que estar preparada nesse sentido. Eu preciso ouvir os outros setores sobre o impacto, mas com clareza sobre o que vou fazer.”

O processo que está em curso na Anvisa é o desdobramento das conclusões de um grupo de trabalho que funcionou entre dezembro de 2014 e abril de 2016. Lá, a indústria de ultraprocessados já estava presente, tanto em assentos diretos como em representações de institutos de pesquisa ligados aos fabricantes. Como bem assinala o relatório final, é difícil chegar a um acordo frente a interesses tão conflitantes. Mas, se a agência tem como missão defender a saúde pública, como outros interesses foram parar ali dentro?

A Anvisa chegou ao fim desse processo com algumas diretrizes que são genéricas. O modelo de rotulagem deve “atrair a atenção do consumidor”, “ter um design gráfico atrativo”, “focar nos ingredientes negativos”.

Espera-se ainda que o novo modelo de rotulagem esteja alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira. Eis a mensagem-chave do documento do Ministério da Saúde: faça de alimentos in natura ou minimamente processados a base de sua alimentação e evite alimentos ultraprocessados. As evidências acumuladas até aqui mostram que o sistema chileno é o mais eficaz nesse sentido.

Podemos também analisar a questão de um ponto de vista mais geográfico. O NutriScore foi desenvolvido na Europa. As advertências, na América do Sul.

Os países do Norte são a morada dos grandes fabricantes, como Nestlé e Danone, que de lá pautaram a ideia de que os ultraprocessados davam resposta a todas as necessidades alimentares. Hoje, em algumas nações esses produtos correspondem a mais da metade da ingestão calórica diária, acompanhados por altos índices de obesidade. Mesmo a França, que um dia foi modelo, não é mais.

“O ultraprocessado é a maior conquista que a indústria teve. Nesse momento, não consigo fazer uma pessoa que vive num ambiente em que 60% do que ela come são ultraprocessados não enxergar aquilo como alimento”, acrescenta Fabio Gomes.

Na América Latina, o boom dos ultraprocessados veio mais tarde. Mas veio com tudo. O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP constatou que esses produtos representavam 28% da ingestão calórica dos brasileiros na virada da década. O crescimento é rápido e a situação é preocupante.

Porém, ainda há uma cultura culinária forte que pode ser valorizada e estimulada, ou seja, é possível se alimentar sem lançar mão de produtos altos em sal, gordura e açúcar.

“As empresas querem dizer que esses produtos é que são a comida. Que isso está dado. Que ninguém mais vai cozinhar”, diz Marcela Reyes, do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile e uma das responsáveis pela definição dos sinais de advertência. “Então, dizem que nós é que estamos contra a comida e queremos que o país volte a um cenário de desnutrição.”

Os pesquisadores do Nupens, responsáveis pela elaboração do Guia Alimentar, têm chamado atenção para a correlação entre ultraprocessados e obesidade. Ao analisar os dados da Europa, encontraram que para cada aumento de um ponto na taxa de ingestão média calórica de ultraprocessados, o índice de obesidade avança 0,25%. Então, aquilo que consiga frear o consumo tem uma chance de ajudar a conter o crescimento dos níveis de sobrepeso.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) protocolou na Anvisa uma análise do cenário chileno pela Euromonitor, uma das principais consultorias de mercado do mundo. O documento não é conclusivo nem para um lado, nem para o outro. “É ingênuo pensar que a colocação em prática de uma lei vai criar mudanças imediatas em nível de hábitos saudáveis, que por sua vez dependem de muitos outros fatores. No entanto, há que começar por alguma parte. Então, nesses termos se poderia dizer que a lei foi exitosa porque foi capaz de impulsionar o tema nas empresas e nos meios de comunicação, que influirão lentamente no consumidor”, relata a empresa.

Na verdade, as pesquisas de opinião mostram que a maioria das pessoas promoveu mudanças de hábitos alimentares. Falta entender o quanto essas mudanças terão impacto. E se elas se manterão a salvo de capturas por outros interesses que não a saúde.

É aqui que qualquer dos modelos demanda atenção. Se há um consenso entre Anvisa, indústria e sociedade é o de que a rotulagem, sozinha, não resolverá o problema.

Há uma divisão sobre o que deveria ser o propósito central da rotulagem: desestimular o consumo ou estimular a reformulação. Essa reformulação é um movimento que já começou no mundo todo, com diferentes graus de intensidade, e que dá sinais de ser acelerado quando se adota um sistema de rotulagem. Carlos Monteiro, coordenador do Nupens e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Gyorgy Scrinis, professor da Universidade de Melbourne, entendem que a reformulação é um instrumento limitado e com potencial perigoso. Com o olhar da população muito voltado a sal, gordura e açúcar, as empresas podem acabar trocando esses ingredientes por outros cujo grau de nocividade sequer está devidamente mapeado. A mera troca de açúcar por adoçantes, por exemplo, não seria uma boa.

Outro fator que os preocupa é o fato de que políticas públicas que estimulem a reformulação poderiam acabar por legitimar produtos ruins à saúde. Por isso, apontam, o melhor é apostar no estímulo à troca de ultraprocessados por alimentos com um grau mínimo de processamento.

Os resultados da lei chilena ainda não são claros quanto a isso. Houve aumento no consumo de produtos light, ou seja, troca de açúcar por adoçante. Mas também houve queda no consumo de chocolates e margarina. Há que esperar mais tempo para ver se as pessoas migraram para fora do reino dos ultraprocessados ou se simplesmente trocaram um produto por outro.

Nesse sentido, qual dos modelos é mais fácil de tapear? Complicado dar uma resposta categórica. O perfil nutricional escolhido é muito importante. Trata-se dos indicadores que definirão se um alimento tem excesso desse ou daquele nutriente, no caso das advertências, e que são usados para dar a nota do produto, no caso do NutriScore.

O modelo de nutrientes da Organização Panamericana de Saúde (Opas), usado no sistema de advertências, é mais rigoroso. E foi criado pensando em evidenciar os excessos dos ultraprocessados. Em tese, seria mais difícil por meio da reformulação conseguir eliminar triângulos de alerta. A grande maioria dos produtos hoje nas gôndolas receberia ao menos um triângulo. A indústria argumenta que esse alerta generalizado poderia criar uma situação de indiferença: se é tudo ruim, vou seguir comendo qualquer um.

Para evitar a substituição de açúcar por adoçante, o modelo do Idec defende que se adote um triângulo alertando para a presença dessas substâncias.

O NutriScore, como dissemos, é um sistema de resumo. “Os esquemas foram desenvolvidos considerando a oferta geral de alimentos [na França], e portanto podem não ser transponíveis de uma cultura para outra”, adverte Chantal Julia.

Nesse sistema, os ingredientes negativos (calorias, açúcar, gordura saturada, gordura e sal) somam pontos. Quanto maior a pontuação, pior o produto. E há ingredientes positivos que subtraem pontos (vegetais, fibras, proteínas, entre outros), melhorando a pontuação. Embora esses tenham um peso menor na nota final, é possível fazer uma adição de elementos positivos meramente para subir de ranking, sem uma transformação profunda do perfil nutricional. Um iogurtinho com mais frutas, mas ainda com excesso de gordura e açúcar.

Ainda falta aprofundar as comparações entre o NutriScore e o sistema de advertências. Mas, antes, a Anvisa precisa dizer onde quer chegar.

Imagem em destaque: Tânia Rêgo. Arquivo Agência Brasil.

A hora certa de ouvir o setor privado

O brasileiro Fabio Gomes, da Opas, considera que formuladores de políticas na área de saúde devem se abrir ao diálogo com as empresas quando têm clareza do objetivo

Qual a hora certa de se abrir ao diálogo com o setor privado quando o que está em jogo é a saúde pública? Na opinião de Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas), as empresas devem ser chamadas a participar apenas quando as autoridades de saúde têm certeza do objetivo a ser alcançado.

“Os países que obtiveram sucesso em formular sua proposta foram países que, sim, ofereceram espaço para a indústria opinar, mas que desde o princípio formularam suas propostas de saúde pública e que estavam preparados para o debate com os atores que não têm como interesse primário a saúde pública”, diz.

Gomes está há dois anos vivendo entre Washington e o aeroporto. Ele circula as Américas tentando oferecer respostas para a epidemia de obesidade que se espalhou dos Estados Unidos pelo continente abaixo. Impostos sobre bebidas açucaradas e alertas em rótulos de produtos ultraprocessados são duas inovações latino-americanas que acabaram sendo adotadas por outros países, estados e municípios.

No Brasil, a Anvisa estuda qual sistema de rotulagem frontal de ultraprocessados adotar. A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável encampa uma proposta baseada no modelo chileno, de advertências sobre excesso de sal, gordura e açúcar. A Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) quer um semáforo com cores verde, amarelo e vermelho para cada nutriente. Um dos criadores desse sistema, Mike Rayner, da Universidade de Oxford, não só admite que ele não funciona a contento, como figura em abaixo-assinado que pede que a Anvisa adote o sistema do Chile.

A agência segue em dúvida. E coloca no mesmo patamar de respeitabilidade as evidências científicas apresentadas pela sociedade e pela indústria. Recentemente, o órgão regulador anunciou que estuda também a adoção do NutriScore, modelo desenvolvido na França. No Brasil, esse sistema foi inscrito depois do prazo e por uma associação com laços fortes com as empresas.

Ex-presidente da Associação Mundial de Nutrição e Saúde Pública e pesquisador do Instituto Nacional de Câncer, o carioca Fabio Gomes estuda como o conflito de interesses entre saúde pública e lucro afeta a elaboração de políticas efetivas.

Ele conversou conosco durante uma passagem por São Paulo, em março. Confira a seguir.

Como surgiu seu interesse por estudar o conflito de interesses?

A interferência da indústria nos processos de políticas públicas é a principal razão para essas políticas existirem ou não existirem, serem mais fortes ou mais fracas, serem implementadas de forma mais rápida ou mais lenta. Qualquer que seja a política, se for efetiva, a indústria vai tentar impedir ou atrasar. E vai usar todas as armas que tem. Distorcer a evidência científica que vai servir para guiar a política. E interferir na formulação da política.

A ideia de que a indústria tem que participar da formulação obviamente tenta defender seus interesses, mas vem com o discurso de que tem uma contribuição técnica a fazer.

Depois, na implementação. Se você não se valeu de evidências independentes, se não excluiu evidências enviesadas… Se você separou no processo de formulação e fez uma política independente dessa influência, ainda assim na implementação vão tentar impedir para que não chegue a ser implementada.

Depois, mesmo que consiga sucesso na implementação, muitas vezes é mais barato para a indústria violar a lei do que cumprir. Podem se usar da fragilidade das sanções para simplesmente ignorar a política.

As políticas que são necessárias de ser implementadas dão às pessoas a condição de livrá-las dessa pressão para que realmente possam tomar decisões autônomas. Posso desenhar as melhores políticas, mas elas vão ficar estacionadas se eu não conseguir proteger esse espaço de formulação.

Circulando pelo continente, você consegue enxergar padrões repetidos dessa interferência?

Isso se dá de diferentes formas. Os países também estão em diferentes estágios de formulação. Mas em todas as etapas os fabricantes têm uma entrada para interferir. Do ponto de vista da formação profissional e da distorção da evidência que vai servir como base para a formulação da política, isso se dá com todo mundo, em todas as esferas. Em todos os países há um grupo de pesquisadores que é capturado e utilizado para defender os interesses de determinada corporação.

Em alguns casos você tem essa interferência nos parlamentos, no Executivo, nos vários níveis de governo.

Outra coisa que a gente percebe é que existe uma conexão. Não são empresas que estão atuando isoladamente num país. Especialmente na América Latina, essas empresas, por mais que exista uma certa competição, no momento em que uma política regulatória restringe a operação ou a capacidade de expandir, elas se juntam. Isso constitui uma ameaça para todas elas.

Outra coisa bem peculiar da América Latina é que elas se escondem atrás de associações de indústrias. Em geral, não é tornado visível quais empresas estão se opondo. A grande estratégia é se opor sem ser percebida como opositora. Em todos os países se posicionam como atores que estão contribuindo para o processo. A forma de se posicionar nesse processo não é a de um ator que está atrasando. É quem está aportando evidência, contribuindo para o país.

Outra coisa que acontece é a duplicidade de discursos. Isso sempre vai acontecer. Existe um discurso para os acionistas, um discurso para a população e um discurso para os governos. Quando estão falando para a população ou se opondo a alguma coisa, você não enxerga as marcas dessas empresas. Isso vale mais do que qualquer coisa para eles. Em alguns países isso foi utilizado no sentido contrário, para tentar frear essa pressão. Expor a imagem deles foi algo que aconteceu nos países que conseguiram avançar.

Outra coisa que aconteceu nos países que conseguiram avançar foi que se prepararam antes de abrir o diálogo com a indústria. Então, a exigência da indústria de que deve fazer parte do processo é uma exigência que deve ser atendida, mas de forma apropriada. Ouvir o setor que será regulado faz parte, mas esse momento tem que ser aberto quando você está preparado para ouvir e discutir. Quando você tem clareza do que quer.

Se você vai para esse diálogo sem ter certeza do que quer como governo, como poder público, você nunca vai sair do lugar. Você sempre vai partir de um zero e a indústria sempre vai tentar gerar a dúvida. Aumentar a falta de certeza que o regulador tem. Se você não tem clareza do que quer fazer como governo, é um prato cheio para eles.

Nesse sentido, como você enxerga o debate sobre rotulagem frontal no Brasil?

Isso é um cuidado que deveria ter sido tomado. Os países que obtiveram sucesso em formular sua proposta foram países que, sim, ofereceram espaço para a indústria opinar, mas que desde o princípio formularam suas propostas de saúde pública e que estavam preparados para o debate com os atores que não têm como interesse primário a saúde pública.

Se meu interesse primário é a saúde pública, minha proposta tem que estar preparada nesse sentido. Eu preciso ouvir os outros setores sobre o impacto, mas com clareza sobre o que vou fazer.

Essa é uma lição que o Brasil deve levar em relação a outros temas que foram discutidos. Como o tabaco. Você tem uma definição clara do seu objetivo e dos beneficiários desse objetivo.

Se você desde o princípio envolve aqueles que não têm como interesse primário a saúde pública, não vai bem. É isso que está acontecendo. Eu entendo a agência reguladora envolver a indústria na discussão, mas é o momento errado, antes de ter uma proposta concreta.

Todos os países que conseguiram avançar em um bom tempo dialogaram com a indústria, mas trabalharam com uma produção de evidências independente, com uma proposta focada em atender os interesses da saúde pública para que então pudessem discutir isso com os outros setores que sofreriam o impacto.

Os sinais de advertência têm o objetivo declarado de desestimular o consumo de ultraprocessados. Como garantir que ocorra isso, e não um simples ranqueamento de ultraprocessados?

A rotulagem frontal de advertência nutricional não resolve todos os problemas.

Essa advertência tem que competir com outros elementos de promoção dos produtos que são muito mais poderosos. Isso não significa que a advertência não tenha que existir. Significa que precisa ser combinada com outras políticas públicas que possam permitir que essa competição seja mais equilibrada. Boa parte dos estudos feitos no Uruguai apontaram a advertência como um sistema que funciona melhor porque compete de forma mais eficiente com outros elementos persuasivos.

Esses outros elementos são poderosos para induzir a compra, assim como a publicidade. São poderosos de maneira tal que podem fazer com que as pessoas consumam esses produtos. A advertência nutricional, entre os sistemas existentes, é o que permite diminuir esse efeito persuasivo dos elementos, mas não é um super-herói.

Para reduzir a demanda de ultraprocessados precisa combinar essa advertência com restrições mais rigorosas. Como as políticas fiscais. Precisamos aplicar os impostos de maneira coerente com a saúde pública.

A outra coisa é a regulação da publicidade. Se a gente continuar tendo o estímulo irrestrito a esses produtos, a possibilidade da advertência frontal será mais limitada.

E outra política é a restrição nos ambientes. Escolas, prédios públicos, universidades, outros espaços que a gente possa restringir a oferta e a promoção desses produtos.

Voltando à sua pergunta, os dados que temos do Chile mostram dois movimentos. Um movimento das pessoas que compram produtos com menos selos. E um movimento das pessoas que deixam de comprar esses produtos. Agora, obviamente que a advertência frontal nos fecha no mundo dos processados e ultraprocessados, e a maior parte da alimentação não deve vir desses alimentos. Então, como a gente preserva o sistema alimentar? A rotulagem frontal é um elemento de restrição da demanda da parte do sistema que a gente precisa reduzir.

A mensagem que a gente deve trazer é de consumir menos produtos ultraprocessados, não importa quantos selos ele tem. No Chile há uma estratégia para promover a culinária, a alimentação. Isso é muito importante. O Guia Alimentar do Brasil existe para dar conta disso.

Quais as políticas mais efetivas para estimular a alimentação saudável? Na América Latina, um cidadão da periferia pode ter dificuldade de acesso a produtos frescos, ou pode perder cinco horas por dia em transporte.

Uma questão é o abastecimento das cidades. A gente vê um processo de monopolização da produção e da distribuição. Obviamente isso dificulta a capilaridade desse sistema.

Mas, pensando no lado positivo, as feiras livres, a ideia de fechar uma rua de todo bairro pelo menos uma vez por semana para dar acesso a produtos frescos, são um grande aliado.

É bem diferente do modelo europeu ou americano, que elitizou muito a feira. No Brasil, a feira torna o produto acessível, tanto do ponto de vista físico como econômico. Isso foi degradado nos últimos anos pela concentração nos mercados, assim como os Ceasas e os mercados municipais foram degradados. Era uma forma de se pensar a distribuição de alimentos e o abastecimento da cidade de forma que pudesse chegar a todo mundo. Os carrinhos de frutas são um exemplo de tecnologia tradicional. Alguns países que não tinham isso começaram a importar, algo que a gente tem na América Latina há muitos anos.

Mas a gente também precisa resgatar o tempo que as pessoas dedicam à alimentação. A gente pode pensar em formas de facilitar isso considerando que o tempo não vai mudar, mas isso também cola com outras agendas. Como a gente se move na cidade. É pensar a mobilidade aliada ao abastecimento, à melhor chegada dos alimentos. Pensar a saúde urbana conectada a transporte e sistema alimentar.

Em relação à culinária, ela tem ganho mais espaço. Tem havido mais interesse. Mas tenho a percepção de que muitas vezes entra mais como entretenimento do que como uma ação cotidiana. Tudo o que se faz em relação ao ato de cozinhar é importante e fundamental, mas a gente precisa criar condições para que esse estímulo possa refletir uma ação concreta no dia a dia.

Em alguns países, por conta de situações emergenciais, criaram cozinhas coletivas. Algumas se mantiveram como espaço coletivo de preparo e de partilha do alimento. Isso não é algo simples de pensar. Precisa pensar em equipamentos urbanos que facilitem a culinária. Mas hoje, pra começar, a gente pode pensar nas escolas, especialmente no Brasil, que tem um exemplo de alimentação escolar. A gente já teve no Brasil a culinária no currículo escolar. Isso se perdeu. A gente pode pensar em políticas públicas para induzir ações nas escolas. Garantir aulas de culinária.

Temos visto a indústria e setores acadêmicos ligados a ela dizerem que o Guia Alimentar e a classificação NOVA carecem de fundamentação científica. Como você vê essa crítica?

Todos os modelos de classificação de alimentos que definem uma alimentação saudável sempre chegam no mesmo lugar. É no processamento. Alguns países e alguns cientistas criticam é o conceito em si. Mas, do ponto de vista da evidência científica, todo padrão de alimentação saudável chega à mesma conclusão: quanto menos processado o que você come, melhor.

A classificação tem fundamento científico. Já foi usada em vários países. Ajuda a explicar a má alimentação em países com uma alimentação muito diferente, mas com um elemento em comum: o ultraprocessamento.

A crítica vem muito em relação a que você pode ter um alimento ultraprocessado com um perfil de nutrientes adequado. Mas, quando a gente está falando de obesidade e de alimentação não saudável, a gente está falando de nutrientes e de modos de comer.

A gente precisa olhar o perfil nutricional e o perfil não nutricional. O perfil não nutricional dos alimentos é aquele que promove um consumo excessivo, promove a compulsão alimentar. Isso não tem a ver só com nutrientes. Posso promover um consumo excessivo de um produto que é baixo em sal e açúcar se eu adicionar um realçador de sabor.

Tenho usado muito o conceito do perfil não nutricional. Um alimento desenhado para provocar um consumo excessivo e para desarmar todas as armas que a gente tem para controlar o consumo.

Algumas pessoas criticam no sentido de que o grupo de ultraprocessados é muito heterogêneo. Mas você ainda pode classificar os ultraprocessados.

Um dos motivos mais subjacentes dessa crítica… os países do Norte têm uma quantidade de ultraprocessados muito grande. Então, aceitar que o ultraprocessado é um problema é muito frustrante. Eu sinto uma resistência de certos pesquisadores. O ultraprocessado é a maior conquista que a indústria teve. Nesse momento, não consigo fazer uma pessoa que vive num ambiente em que 60% do que ela come são ultraprocessados não enxergar aquilo como alimento. É muito difícil. Porque isso foi conquistado.

Um outro fator, não sei se é uma percepção minha. Em várias ocasiões, algumas pessoas comentaram comigo que essa classificação é uma invenção de um grupo de pesquisadores brasileiros e que não é baseado em evidências. Qual o problema de ter sido inventado por um brasileiro? Se tivesse sido inventado por um grupo de ingleses, essa crítica não existiria. Essa crítica aparece várias vezes. E aparece mais na América Latina. Mas lá no Norte eu sinto que aparece também. Há um preconceito porque não foi inventado nos EUA, na Europa, na Austrália e no Canadá. Inventado, não: alguém encontrou uma forma de classificar o que está acontecendo.

Todas as pessoas que dizem que não há evidência deveriam apresentar a evidência de que isso não se aplica. Ninguém provou que comer mais ultraprocessados é melhor para a saúde. Ninguém.

Foto em destaque: arquivo da World Public Health Nutrition Association.

Danone deu orientação nutricional controversa a 300 mil crianças

Projeto 1,2,3 Saúde! prescreve três porções de queijo, leite ou iogurte ao dia, uma orientação que não é consensual na comunidade científica

Um projeto da Danone deu orientações nutricionais controversas a pelo menos 300 mil alunos da rede pública de ensino em várias cidades do país. Apesar da promessa de falar sobre hábitos saudáveis, o 1, 2, 3 Saúde! enfatizava o consumo de lácteos, justamente o carro-chefe da corporação francesa.

O programa consistia de uma peça de teatro e de materiais didáticos distribuídos a professores e alunos, e foi desenvolvido em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação entre 2013 e o primeiro semestre do ano passado, quando, sob pressão, a Danone decidiu abortá-lo.

– Lácteos vem de uma palavra muito antiga, lactis, que significa leite – dizia a professora Bete Palavra durante a peça O Fabuloso Mundo das Descobertas.

– Entendi. Lácteos contêm leite – respondia Joãozinho, o personagem principal.

– Isso mesmo! E, se você quer ficar ágil, forte, ter saúde e manter essa curiosidade e imaginação, você precisa de três porções de lácteos ao dia.

O projeto poderia ser considerado controverso se apenas induzisse ao consumo de lácteos. Porém, o 1, 2, 3 Saúde! dava um passo além e prescrevia de maneira categórica a necessidade de consumir três porções desses produtos por dia, sob pena de sofrer problemas de saúde no curto, no médio e no longo prazos. Não existe consenso científico que respalde esse tipo de afirmação, apesar do esforço constante das fabricantes de lácteos em bancar pesquisas favoráveis a seus interesses. Fosse assim, não haveria dietas veganas. E a Ásia, que concentra 60% da população mundial e via de regra tem uma baixíssima ingestão de lácteos, não conseguiria ser ágil, forte e criativa como Joãozinho.

A iniciativa chegou a ser investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal a pedido do Instituto Alana. A assessoria de imprensa do MP informou que uma reunião que seria realizada com a empresa em março foi cancelada devido ao fim do programa. Há a possibilidade de arquivamento do inquérito aberto em 2016.

Originalmente, o projeto se chamava 1, 2, 3 Lácteos!, mas, em 2016, adotou o nome que carregou até o encerramento. E somou à lista de parceiros a Tetra Pak, do setor de embalagens, e a Palmolive, do segmento de produtos de higiene. Apesar disso, a ênfase no consumo de leites, queijo e iogurte se manteve como mote.

“Era um projeto sobre um objetivo escolar importante que era ajudar as crianças a fazerem escolhas. As escolhas apareciam na forma de possibilidades de profissões adultas”, contou Lilian Faversani, educadora que coordenou a elaboração do material pedagógico original. Ela relata que à época o trabalho foi balizado por um documento da Organização Mundial de Saúde (OMS) que sugeria o consumo de três porções de lácteos ao dia nos países em desenvolvimento.

“No segundo ano de vida do projeto, a Danone fez uma alteração das ilustrações. Colocaram ilustrações de potinhos de Danone. A Danone nos chamou e pediu que fizéssemos atividades que significassem em algum momento a distribuição de iogurtes na escola. Foi então que eu saí do projeto e pedi que meu nome fosse retirado dos materiais, inclusive. Não concordo em absoluto.”

Questionada sobre essas afirmações, a Danone optou por enviar uma resposta genérica. “A Danone Brasil ressalta que suas ações de comunicação atendem à legislação brasileira vigente e refletem a missão da companhia em levar saúde ao maior número de pessoas. Entre os anos de 2015 e 2016 o programa 1,2,3 e Saúde levou informação e conhecimento sobre a importância de uma boa alimentação de forma lúdica e gratuita às escolas de todo país. A Danone reitera seu compromisso em contribuir para que os brasileiros adotem hábitos de vida e alimentares mais saudáveis.”

A confiança na escola

Conversamos com algumas pessoas que participaram do 1, 2, 3 Saúde! e não temos nenhum motivo para duvidar da boa-fé delas. Pelo contrário, é de esperar que a grande maioria tenha trabalhado com ótimas intenções. E é possível que algumas crianças tenham extraído dessa história ensinamentos que vão além do consumo diário de três porções de lácteos. No entanto, as próprias entrevistas realizadas para esta reportagem mostram como, em se tratando de ambiente escolar, é complexo encontrar a linha que separa publicidade de ação educativa.

“Figura como projeto educativo. Então, é muito mais difícil desenvolver um senso crítico sobre essa ação”, lamenta Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana. “As crianças confiam nos educadores. Estão num espaço de cuidado, de responsabilidade. Então, quando as mensagens comerciais acontecem dentro do espaço escolar, são reforçadas por essas pessoas que estão ali para cuidar das crianças.”

Apesar de a empresa ser a autora da ideia original, a gestão da iniciativa foi repassada à OAK Educação e Meio Ambiente, localizada na zona sul de São Paulo e especializada na captação de recursos via leis de incentivo fiscal. Procurada, a OAK disse que por motivos contratuais está proibida pela Danone de falar sobre o projeto, o que contraria a versão oficial da fabricante de lácteos de que era apenas patrocinadora.

No total, a corporação doou (e recebeu de volta em abatimento de impostos) R$ 1,2 milhão, somados a R$ 400 mil da Tetra PAK e a R$ 120 mil da Palmolive.

Tudo indica que o projeto foi bom para os negócios. Um vídeo de 2015 relatava que 45% dos participantes diziam ter aumentado o consumo de lácteos – 46% declaravam ter aumentado o consumo de vegetais, é bom que se diga. “A gente tinha muita vontade de trabalhar educação alimentar desde a infância porque sabe que é lá que os hábitos são formados”, dizia Maria Prado, gerente de Desenvolvimento de Categoria da Danone.

O projeto abordava do início ao fim supostos danos relacionados a um baixo consumo de lácteos em cada etapa da vida. O eixo central do material didático consistia da apresentação de oito profissões.

O pediatra mostrava que o cálcio dos lácteos é fundamental para um crescimento saudável. O biólogo falava sobre bactérias boas e más. O geriatra alertava que um baixo consumo de cálcio ao longo da vida está associado a osteoporose na terceira idade. A professora contava sobre a etimologia de palavras relacionadas a leite e afins.

Vamos ver se você sacou a lógica. A nutricionista ensinava sobre… Se você respondeu qualquer coisa diferente de “lácteos”, sugerimos voltar alguns parágrafos na leitura.

É quando chegamos ao sociólogo que as coisas ficam mais interessantes. As crianças deveriam exercer a função do sociólogo, o que incluía entrevistar os pais sobre o consumo de… Beleza. Sem serem informadas ou remuneradas, essas crianças fizeram pesquisa de mercado para a Danone.

O 1, 2, 3 Saúde! tinha ainda alguns cartazes. Um deles falava sobre cuidados gerais com o corpo, o que inclui os ossos: “Produtos lácteos, como queijo, leite e iogurte, contêm nutrientes que ajudam o corpo a deixar os ossos mais fortes e saudáveis.”

No cartaz abaixo, a situação começa a ficar mais complicada do ponto de vista científico. Primeiro, há uma reinterpretação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda fazer da alimentação in natura a base da dieta e evitar o consumo de ultraprocessados. Curiosamente, os empresários do setor de laticínios foram uma das vozes mais fortes quando o documento-base do Ministério da Saúde foi elaborado, em 2014. De lá para cá, não faltaram tentativas de dar a ele outro significado. O material do 1, 2, 3 Saúde! é um exemplo: “Use alimentos in natura e evite alimentos muito processados.”

Essa é a lista de ingredientes do Danoninho: “Leite desnatado, açúcar, preparado de morango (água, frutose, polpa de morango, fosfato tricálcico, citrato de cálcio, amido modificado, zinco, vitamina E, ferro, maltodextrina, vitamina D, acidulante ácido cítrico, espessantes goma xantana, carboximetilcelulose e goma carragena, aromatizante, conservador sorbato de potássio e corante natural carmim cochonilha), creme, cálcio, cloreto de cálcio, fermento lácteo, quimosina, estabilizantes goma guar, carboximetilcelulose, goma carregena e goma xantana.” Ele é “muito processado” e deve ser evitado? Na visão da Danone, não.

O mais curioso é que o cartaz propõe um porcionamento por grupo de alimentos, o que vai contra a filosofia do Guia. O material do Ministério da Saúde oferece uma linha de raciocínio sobre como se alimentar e evita a abordagem por nutrientes e grupos de alimentos. Afinal, se você seguir a recomendação de fazer de alimentos in natura a base de sua dieta, não precisa se preocupar em ser um expert em nutrição.

O porcionamento, por outro lado, é difícil de executar no dia a dia. O que é uma porção de carne? Uma porção de fruta é uma fatia de melancia, uma maçã ou uma manga? E pão francês, eu devo comer inteiro ou a metade?

Vamos pegar a recomendação do 1, 2, 3 Saúde! de ingerir seis porções diárias de “batata, arroz, massas, pão, mandioca”. Há produtos de qualidade totalmente diferente aí no meio. Eu posso entender que estou autorizado a comer seis porções de macarrão instantâneo e pão de forma industrializado. Ou que devo ficar apenas na mandioca.

O material fala também em três porções de queijo, leite ou iogurte. E deixa tudo mais controverso com um tabuleiro que deve ser preenchido diariamente pelos estudantes, seguindo fielmente as recomendações de porcionamento. “SE SOBRAREM ESPAÇOS VAZIOS NO TABULEIRO NO FIM DO DIA? Significa que ficou faltando consumir algum grupo de alimento ou nutriente. Não se preocupe se isso acontecer! Basta prestar atenção para que não aconteça nos demais dias da semana.”

Levada ao pé da letra, essa orientação induz crianças que consomem mais de três porções diárias de frutas ou legumes a reduzirem o consumo. Na via contrária, incentiva o consumo de produtos que não são imprescindíveis e que podem até fazer mal.

“Os lácteos podem aportar nutrientes que são importantes, mas nada que nos obrigue a consumir determinadas porções por dia para que ofereça o que a gente precisa a uma nutrição adequada”, diz Fabio Gomes, assessor regional em Nutrição e Atividade Física da Organização Panamericana de Saúde (Opas). Ele considera que os esforços publicitários desse segmento econômico transformaram o leite num superalimento e transmitiram a ideia de que é a única fonte de cálcio possível – no Joio, não fazemos nutricionismo, de modo que o melhor é procurar em outras páginas informações sobre boas fontes de cálcio.

“Lácteos são o leite? Ou um produto que contém leite, açúcar, espessantes, corantes e outras coisas que vão junto?”, questiona. “Pensando que a indústria de lácteos tomou essa vertente de usar cada vez menos alimentos e cada vez mais cosméticos, para reduzir o custo de produção, isso reforça a necessidade de pensar lácteos como um alimento da forma como foi desconfigurado, como uma fonte que desvirtua a alimentação e a recomendação de uma alimentação saudável.”

A Opas definiu em 2016 um perfil de nutrientes que permite entender quando um produto tem excesso de sal, gordura ou açúcar. O Danoninho, carro-chefe da Danone, receberia dois selinhos: alto em açúcar e em gorduras saturadas. O investimento em publicidade foi tão bem-sucedido que é, até hoje, considerado um item fundamental para um crescimento saudável. Em um estudo feito em 2015, mães argentinas citam o Danoninho como obrigatório na dieta dos filhos e declaram a ideia de que estão fazendo um bem ao comprá-lo.

O Danette, também muito consumido entre os pequenos, tem excesso de açúcar e de gorduras saturadas, segundo os critérios da Opas.

A reputação do leite como fonte de cálcio e o papel desse cálcio como imprescindível para evitar problemas ósseos foram grandes conquistas da indústria leiteira, obtida com fartos investimentos em pesquisas científicas. Tentamos encontrar artigos que revisem as evidências existentes, mas o conflito de interesses é tão marcado nessa área que fica difícil saber se o estudo é ou não confiável.

Preferimos ficar, então, com um documento da Organização Mundial de Saúde chamado “Exigências de vitaminas e minerais na nutrição humana”. O primeiro porém em relação ao cálcio é de que as recomendações variam enormemente de acordo com uma grande gama de fatores, de modo que é um erro transpor as conclusões de um país para outro. As pesquisas estão mais avançadas nas nações do Norte, logo, não há um padrão pré-definido de consumo para populações do Sul – o que inclui o Brasil.

O documento alerta que há incertezas sobre a correlação entre consumo de cálcio e osteoporose. “Ainda que se precise enfatizar que uma deficiência de cálcio e um balanço negativo de cálcio deve levar cedo ou tarde a osteoporose, isso não significa que toda osteoporose pode ser atribuída à deficiência de cálcio. Pelo contrário, pode haver mais osteoporose no mundo por outras causas.”

Limites

O projeto da Danone é emblemático sobre os limites da presença de empresas no ambiente escolar. A corporação alega que se trata de uma iniciativa “unbranded”, ou seja, que não há exposição da marca.

“O que me chama mais atenção é o resultado”, diz Ekaterine Karageorgiadis, do Instituto Alana. “Analisei mais de três mil fotos, desenhos, redações. É claro que existe uma mensagem de marca. Se não, a criança não escreveria uma redação sobre o papel da Danone. A criança não desenharia um potinho vermelho e escreveria que para ser saudável é preciso consumir lácteos três vezes ao dia. Não tiraria uma foto que diz Danone, Danone, Danone. Não teria uma premiação com produtos da empresa sobre uma mesa.”

Conversamos com gestores públicos municipais envolvidos no 1, 2, 3 Saúde! A história é conhecida. Primeiro, as redes públicas carecem de recursos. Segundo, de projetos. Um material didático bonito, casado a uma peça de teatro bem produzida, falando sobre hábitos saudáveis, só pode ter caído do céu. É uma chance de romper com a rotina e de falar sobre assuntos que muitas vezes extrapolam os conhecimentos dos professores.

“Era um material muito bacana sobre saúde e alimentos. Material muito bom mesmo. Falando de uma questão muito importante”, contou Mario Augusto Marques, diretor de Projetos da Secretaria de Educação de Poços de Caldas, em Minas Gerais, cidade que abriga uma unidade da Danone. “Foi um teatro de alto nível. Atores excelentes. Isso me chamou bastante atenção. Foi uma parceria de sucesso total.”

Soma-se a esse cenário o oferecimento de um prêmio às escolas e às crianças que desenvolvessem os melhores trabalhos. Não sobre vida saudável, mas a respeito da importância dos lácteos. Há uma série de vídeos no YouTube nos quais se pode conferir os resultados auferidos pelo projeto.

Essas iniciativas surfam também sobre um imaginário de desinteresse e bondade inerente do setor privado. É uma das linhas de raciocínio da resposta que a Danone enviou ao MP.

O documento adota um tom forte contra o Alana, criticado por uma atuação “deplorável” com base em acusações “levianas” e em “desvarios”, num “tresloucado pedido”. A empresa tenta se apegar à ideia de que tem um portfólio saudável, o que, claro, coloca o Danoninho como um produto desenvolvido para combater “carências nutricionais”.

“Ao contrário do Alana, a Danone não acredita que seja recomendável que as crianças fiquem absolutamente isoladas e alheias à publicidade até os doze anos de idade.”

É um argumento que os integrantes do projeto Criança e Consumo ouvem com frequência. “A gente justamente não quer as crianças dentro da bolha do consumismo. A gente quer que as crianças se desenvolvam como crianças e tenham acesso a muitas informações preparadas para elas”, responde Ekaterine.

A Danone tem um compromisso voluntário sobre publicidade voltada a crianças. A empresa diz não praticar a distribuição de produtos em escolas, “a menos que seja solicitado pela instituição de ensino ou para fins educativos e esportivos”. Faz parte da proposta não motivar “hábitos pouco saudáveis” e não minar a autoridade dos pais. A corporação se autoriza ainda a fazer publicidade de produtos para crianças de três a doze anos, desde que sejam considerados por ela como saudáveis – é o caso do Danoninho, com 6,1 gramas de açúcar por potinho.

Recentemente, o Procon do Paraná impôs uma multa de R$ 108 mil à Danone por publicidade direcionada a crianças, num caso aberto em 2015 também a pedido do Alana.

No documento em que se defende das acusações do instituto, a Danone diz que a constatação sobre a deficiência de lácteos nas escolas brasileiras surgiu em um estudo. O Nutri-Brasil Infância foi financiado pela própria corporação. E coordenado pelo pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, integrante do International Life Sciences Institute (ILSI), organização bancada pelas empresas de ultraprocessados. Basicamente, o ILSI coordena trabalhos científicos que ajudem as financiadoras, o que tem resultado em contestações cada vez maiores.

A parceria entre Fisberg e Danone vem desde pelo menos os anos 1990, quando uma iniciativa em escolas públicas incentivou o consumo de Danoninho sob o argumento de reduzir a prevalência de anemia.

Em agosto passado, o médico apresentou os desdobramentos do Nutri-Brasil em uma sessão patrocinada pela Danone no Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). Profissionais de saúde foram encorajados a aumentar o consumo de lácteos das crianças.

A Sban, por sua vez, era parceira do 1, 2, 3 Saúde! “Sabe-se que é na infância que se estabelecem os hábitos alimentares. A escola, por abarcar o contexto familiar, comunitário e social é o ambiente ideal para consolidar os conceitos da prática alimentar adequada. Por isso, temos muito orgulho em apoiar o projeto 1,2,3 e Lácteos!”, disse Olga Amâncio, presidente da Sban, num material de divulgação da iniciativa.

Todas as cadeiras do Congresso da Sban estavam estampadas com o logo do Viva Lácteos, associação que reúne os fabricantes do setor – Danone incluída. A Sban tem ainda emitido documentos e publicado vídeos em defesa de iogurte, queijo e leite, produtos com as vendas afetadas pelo surgimento de dietas sem lactose.

Contudo, se depender de Joãozinho, o futuro do leite está garantido.

Série de estudos mostra maior efetividade de advertências em rótulos de alimentos

Análises conduzidas no Uruguai, país que deve adotar modelo desenvolvido no Chile, revelam que alertas sobre excesso de sal, gordura e açúcar funcionam melhor que sistemas defendidos pela indústria

Gastón Ares partiu da hipótese de que o semáforo com verde, amarelo e vermelho para calorias, sal, açúcar e gordura seria o melhor sistema de rotulagem frontal existente. Mas o integrante do Centro de Investigação Básica em Psicologia da Universidade da República, no Uruguai, acabou chegando a um resultado diferente. E tudo bem.

“Nos demos conta de que a ideia de muitas informações não era boa. E que no semáforo era difícil se definir por um produto. Se há uma cor verde e uma vermelha, isso confunde as pessoas. O que é mais importante: açúcar ou gordura?”, questiona-se Gastón, que é também professor do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Faculdade de Química.

No começo da década se começava a especular que os sistemas de rotulagem frontal poderiam ser um aliado importante na luta inglória para frear o crescimento dos índices de obesidade. E Gastón passou a estudar o assunto. Nesse ínterim, o Chile tirou da cartola os sinais de alerta que desde 2016 dão o que falar. Os octógonos pretos alertam quanto ao excesso de calorias, sal, gordura e açúcar.

“O importante a concluir é que em todos os casos o sistema de advertências é melhor ou igual que o semáforo, mas nunca, em nenhum estudo, podemos dizer que o semáforo é melhor que o de advertências”, diz Gastón. No mesmo ano da decisão chilena, o Uruguai lançou um guia alimentar nos moldes do publicado pelo Brasil em 2014, recomendando que se evite a ingestão de produtos ultraprocessados. O passo seguinte foi estudar a definição de um modelo de rotulagem, e o sistema chileno casou bem à sugestão oficial, de modo que está pronto para ser adotado.

Desde então, Gastón se transformou num dos grandes estudiosos desses sistemas. No geral, as pesquisas consistiram em simular situações de compra para tentar entender qual modelo tinha maior capacidade de induzir os consumidores a reduzir o consumo de ultraprocessados (algumas dessas pesquisas estão sugeridas ao pé desse texto).

Uma das mais recentes comparou o sistema de advertências com o NutriScore, adotado de forma voluntária na França em outubro do ano passado. O modelo do país europeu cruza informações nutricionais e dá uma nota geral ao produto, de A a E. Na comparação, o modelo chileno de novo se saiu melhor, embora seja preciso alertar que se trata de um primeiro embate, insuficiente para definir qual dos sistemas é superior.

São apenas elementos iniciais para essa comparação, que se torna importante para os brasileiros porque recentemente a Anvisa indicou que o NutriScore está sendo analisado juntamente com o semáforo proposto pela indústria e um modelo inspirado no caso chileno, encampado pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

A avaliação é de que os alertas são mais efetivos do ponto de vista de política pública porque apresentam os melhores resultados no sentido de mostrar ao consumidor quais os piores produtos. Se são esses produtos que formam a maior parte da dieta e provocam boa parte dos problemas, o sistema que melhor desencoraje o consumo é aquele que deve ser escolhido.

Sobre os rumos da Anvisa, Gastón revela certa insatisfação. Ele foi um dos convidados para a audiência pública realizada em novembro do ano passado, quando a agência insistiu que não há evidências científicas suficientes para dar respaldo a qualquer dos modelos.

“Há muita evidência de que o sistema funciona. No caso do Canadá, o Canadá não realizou nenhum estudo científico para definir pelos modelos de advertências. Simplesmente partiram desse ponto porque é o mais interessante daquilo que está disponível.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quando surgiu o modelo chileno, qual foi sua impressão inicial?

Minha percepção era de que não era completo, que não tinha todas as informações que deveria ter. Eu gostava mais do semáforo no sentido de que dava informação sobre todos os nutrientes. Mas, quando começamos a estudar, nos demos conta de que a ideia de muitas informações não era boa. E que no semáforo era difícil se definir por um produto. Se há uma cor verde e uma vermelha, isso confunde as pessoas. O que é mais importante: açúcar ou gordura? Então, entendemos que o sistema chileno tem uma vantagem comparativa porque identifica claramente o que é um alimento não saudável. A análise do semáforo é muito mais complexa.

Além do Chile, Uruguai, Peru, Canadá e Israel têm ou estudam ter modelos baseados no sistema chileno. Como está vendo essa tendência?

É algo sumamente positivo. Algo que se desenvolve na América Latina expande-se para outros países do mundo. É interessante entender por que esse sistema é tão importante, tão útil. É importante que o consumidor possa entender quais produtos são não saudáveis.

Essa mensagem é muito forte porque lidamos com campanhas de marketing muito potentes e muito intensas. No Uruguai, é comum que as pessoas de baixa renda pensem que determinados produtos são saudáveis, quando em verdade têm excesso de açúcar.

É um primeiro passo para combater os problemas relacionados à obesidade. Em particular me parece bem interessante que isso se expanda para fora da América Latina, como é o caso do Canadá. Passa uma mensagem muito importante.

No Uruguai, a indústria apresentou evidências científicas ou foi mais um discurso de que não funciona, de que as pessoas têm medo?

Exatamente. A indústria apresentou muito poucos estudos. E baseou seu discurso na ideia de que o sistema chileno dá medo. Falou sobre aumento de preços.

Você esteve na audiência pública da Anvisa. Qual sua impressão do discurso da indústria e do discurso da agência?

O discurso da indústria é o mesmo em todas partes do mundo no sentido de que a rotulagem dá medo. Eu pensava ver algo mais sólido da indústria brasileira em relação à indústria uruguaia. Não foi o caso. Foi um argumento muito pobre, que só falava sobre venda dos produtos. A ideia de que as advertências criam medo. A avaliação dos grupos focais foi muito subjetiva, muito relativa.

Quanto à agência, falta uma iniciativa política. A ideia de que falta evidência mais contundente não é assim. Há muita evidência de que o sistema funciona. No caso do Canadá, o Canadá não realizou nenhum estudo científico para definir pelos modelos de advertências. Simplesmente partiram desse ponto porque é o mais interessante daquilo que está disponível. Creio que há bastante evidência de como o modelo chileno está funcionando no Chile e de como o semáforo não funcionou no Reino Unido. Fica claro que o semáforo proposto pela indústria é ainda pior que o proposto no Reino Unido. Há um retrocesso em relação ao modelo inglês. Eu creio que deveria haver uma decisão governamental mais forte em defesa da população brasileira.

Em relação aos grupos focais, as conclusões da indústria e da sociedade civil são totalmente contraditórias. Como se conduz um grupo focal de maneira verdadeiramente científica?

Há duas coisas a levar em conta. Uma é o contexto do estudo. É o guia que se utiliza para realizar o grupo focal. Que perguntas são feitas, que comentários adicionais. É preciso sempre ser o mais neutro possível. A pessoa que conduz esse grupo tem de dar espaço para que as pessoas opinem livremente.

E a segunda questão é a interpretação desses grupos. Precisa ser uma interpretação objetiva. Esse é o maior risco que se corre quando se realizam grupos focais. É falar que temos que deixar de lado nossos conceitos e tratar do que escutamos. Nos grupos focais que realizou a indústria, os consumidores dizem que o sistema chileno transmite medo. Isso, na verdade, é um efeito da compra. É preciso deixar de lado o que queremos escutar. Sempre, de uma forma ou outra, os investigadores têm uma hipótese que querem provar, mas precisamos fazer uma abordagem objetiva.

Por uma questão de transparência, é preciso ter a transcrição dos grupos focais. Para que se possa fazer uma análise independentemente de quem realizou o estudo. Isso ajudaria a ter mais clareza sobre qual é a opinião real.

Nos estudos que fizemos, em nenhum momento as pessoas falaram que é um produto que incorre em risco, que dá medo. O importante é entender que não é saudável e, portanto, o consumo não é recomendado. As políticas públicas sempre são acompanhadas de campanhas de comunicação. Não é que de um dia para o outro vão surgir os rótulos modificados. Vai haver muito debate com as pessoas.

E precisamos ter claro qual o objetivo de saúde pública que estamos buscando. O objetivo é diminuir o consumo excessivo de sal, gordura e açúcar. Portanto, o que deveríamos pensar é qual sistema modifica a intenção de compra do consumidor. Não é se as pessoas gostam mais do semáforo porque têm cores ou se gostam mais do sistema chileno. É se o sistema cumpre o objetivo de saúde pública. Portanto, a decisão deve se basear no comportamento do consumidor e na intenção de diminuir o consumo de elementos.

Em seu caso, qual foi o estudo que te pareceu conclusivo para dizer que esse sistema funcionava melhor que o outro?

Fizemos um número muito grande de estudos abordando diferentes características dos sistemas. Nesse conjunto, ficou claro que o sistema chileno é melhor que o semáforo.

Tentamos entender qual sistema permite respostas mais rápidas. Em seguida, tentamos ver qual é mais fácil de te guiar ao produto mais saudável. Qual muda a percepção de saúde pública. Nos dois casos, o sistema de advertências foi superior ao semáforo.

Vimos que o sistema de advertências permite desestimular o consumo desses produtos de forma mais eficiente. Em alguns estudos, não há dúvidas de que o sistema de advertências é melhor. Em outros, não há diferença. O importante a concluir é que em todos os casos o sistema de advertências é melhor ou igual que o semáforo, mas nunca, em nenhum estudo, podemos dizer que o semáforo é melhor que o de advertências. Ou seja, se queremos tomar a melhor decisão possível, é preciso escolher o sistema de advertências.

No estudo com crianças, quando vocês mostram embalagens com personagens conhecidos e desconhecidos, isso expõe também a necessidade de discutir a publicidade infantil.

O Uruguai tem alguns objetivos de saúde pública definidos. E neles se encontra a publicidade infantil. Isso começou com a proibição da venda de alimentos não saudáveis nas escolas.

O sistema de advertências era a primeira política pública que se precisava para guiar os próximos passos. Uma vez que se publique o decreto se poderá pensar, por exemplo, em que todos os alimentos com selos não possam exibir personagens, ou que não possam ser vendidos em escolas. É uma política de base para as outras. As crianças desenvolvem suas preferências desde muito cedo. Aquele que está exposto a alimentos não saudáveis vai desenvolver preferências por alimentos não saudáveis e será muito difícil modificá-las.

Foto em destaque: Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

 

Alguns estudos sugeridos:

  • Nutritional warnings and product substitution or abandonment: Policy implications derived from a repeated purchase simulation
  • Impact of front-of-pack nutrition information and label design on children’s choice of two snack foods: Comparison of warnings and the traffic-light system
  • Warnings as a directive front-of-pack nutrition labelling scheme: comparison with the Guideline Daily Amount and traffic-light systems
  • Does front-of-pack nutrition information improve consumer ability to make healthful choices? Performance of warnings and the traffic light system in a simulated shopping experiment
  • Influence of time orientation on food choice: Case study with cookie labels

Payback time: the sugar epidemic in snapshots

A project by a Spanish photographer uses high-quality images to hit back at food corporations and combat obesity 

Shopping list in hand, I walk (or run, depending on the day) around the supermarket checking out nutrition tables before I put anything in my trolley. The shelves are vast, visually polluted. The letters are tiny. It’s so confusing that I almost give up. I try to read the obvious. But not even the obvious is accessible when the other side (the food industry and regulatory bodies) won’t reveal what is actually inside the packaging. So I look for sugar content, for another obvious reason: illnesses, including type 2 diabetes, tooth decay and obesity, which leads to high blood pressure and cardiovascular problems.

“He shoots, he scores!” I think. In a split second, however, I realize I’ve shot over the bar and my opponents have thrashed me. The rival line-up leaves me in no doubt: corn syrup; lactose, barley malt syrup, glucose and fructose; dextrose, maltose, corn syrup and barley malt syrup; maltodextrin and sucrose. Nectars, invert sugar, confectioner’s sugar, brown sugar, raw sugar, honey, white/refined sugar, syrup/molasses and sugarcane juice flesh out the list. These names are adept at demoralizing shoppers in a game that seeks to hide the fact that they are all one thing: sugar.

Trying to fight against the fact that there are never enough hours in the day and the food industry’s labels places consumers in a complicated situation. Thank goodness there are people ready to strike back and provide ammunition to the weaker side. The Spanish photographer Antonio Rodríguez Estrada is one of them. With an interesting background, he is the founder of the photo website SinAzucar (Sugar-free), a project that discloses the amount of sugar hidden in foods, even those sold as 0%, for which we tend to pay more.

Born in Madrid, Antonio is 45 years old and has been photographing since he was 15. He learned how to handle cameras through everyday experiences and related courses. He turned professional and started to make a living by photographing a range of products, as well as models for their portfolios. Despite the Spaniard’s diverse academic experience (he studied computer engineering at university), he never gave up photography.

Passionate about healthy living, Are, as he is better known in Spain, got involved in CrossFit five years ago. He chose this type of physical exercise because it is done “in more of a group environment”. He enrolled in sport nutrition courses, for which he obtained a number of certificates. The combination of two passions, photography and health, led to the publication of an image for the first time on 1 October 2016, when he decided to post on social networks a photo of a crème brûlée together with its equivalent in sugar, which was 155 grams. Not everybody liked it. “I lost followers”, he confessed.

Losing followers on Facebook, Instagram or Twitter wasn’t a problem. On the contrary, the crème brûlée was only the beginning. The fallout from the post led to the creation of SinAzucar. “When I started looking at labels, I discovered that many of the products I previously thought were healthy contained a lot of sugar, and one of the causes of the current obesity epidemic is the abuse of industrialized products in our daily diet. I wanted to help inform people about this, particularly when I found out how many illnesses are linked to such products”, said Antonio.

Basically, the idea is to photograph the product using the same visual language employed by the industry to sell. “A clear photo, careful lighting, attractive finish, visual impact. The aim is to reach as many people as possible through social networks”, explained the photographer.

The work is educational. With the help of nutritionists and other health professionals, Antonio decided to feature sugar lumps (cubes weighing 4 grams each) to illustrate the “hidden sugar”, in other words, not the sugar that we spoon directly into our coffee or our home-made cake mix. The aim of the project is to reveal exactly how much sugar is packaged by the industry with nutrition tables full of strange ingredients, the things we are unable to read and interpret correctly in everyday life because of the abundance (intentional?) of uncommon names and visual confusion.

Other fundamental issues also dealt with are the nutritional values provided in the tables, since they refer to specific quantities of the product and not the entire pack. Each label features a specific portion in grams and frequently contains a reference to how much sugar it contains. It you eat more than the portion indicated, you have to calculate the amount of nutrients separately. SinAzucar provides the overall value.

Leading brands are always used to increase the impact of the alerts, and the information used by the website comes from the labels produced by the products’ own manufacturers. Initially, the photos focused on items containing large amounts of sugar, such as soft drinks, until the photographer realized that the most surprising foods, from a negative point of view, were those in which sugar was an unexpected ingredient, for example, tomato sauce, salad dressing and baby yoghurts.

There was a positive impact on the Internet, according to an enthusiastic Antonio. On average, he receives 50 messages a day, from comments praising and criticizing his work to comments from people who are simply unsure what to eat at mealtimes. “The Internet became a way of getting partners who form a network to share and exchange. In Spain, SinAzucar is viewed by millions of people and it is succeeding in getting the issue dealt with in the traditional media, by newspapers, radio stations and television channels,” he claimed.

The initiative currently has 222,000 followers on Facebook, 152,000 on Instagram and 53,000 on Twitter. In spite of this, it does not have any sponsors. “All those working on the project are volunteers. We don’t have any kind of financial support. It’s a voluntary initiative,” stressed its creator.

From cinemas to children’s sleep: nightmare

You go to see a film with your family. To fully enjoy the experience, you buy sweet popcorn and soft drinks all round for a full-on sugar rush. According to the photos on SinAzucar, a typical extra-large Coca-Cola contains approximately 20 sugar lumps or 79.5 grams, far more than the maximum daily amount recommended by the World Health Organization (WHO), which is 50 grams. Did you forget to include the popcorn? 50% of it is sugar. “That makes 40 sugar lumps and then, when you leave the cinema, you go to Burger King to eat again, because the amount of sugar you consumed in the cinema has led to a reduction in your blood sugar level and hypoglycaemia,” maintained Are.

There’s still time to pop into Starbucks for a coffee. After all, the kids are hyper and you need some energy until their bedtime. A cup of coffee and almost 20 sugar lumps (80 grams) more will keep you going. And there’s no escape: if you opt for an energy drink, such as a can of Red Bull, you’ll be imbibing 13 sugar lumps.

Once you get home, the children can’t go to bed without a glass of milk. They want chocolate milk. You give in and, if the chocolate powder is Nesquik, by Nestlé, you’ll be scooping it out of a package containing 75.7% sugar.

You’re still not in bed. The baby, who was with the grandparents during the trip to the cinema, is the most restless and hasn’t got off to sleep. “He must be hungry,” thinks his dad. He opens the fridge and takes out a small plastic pot of ‘natural’ yoghurt for babies, by Nestlé. The pot may be small, but it’s chock-full of sugar. It’s enough to ensure that his youngest goes to bed with 9 grams (two-and-a-half lumps) more sugar in his little body.

Not even the ready-made herbal teas for children to ensure a good night’s sleep are let off the hook. A bad example is Blevit Sueño, manufactured by Ordesa, a mega-company based in the Spanish region of Catalonia that sells ‘nutritional complements’ for children and adults. 40 grams of the product (the recommended amount for an eight-year-old) contain 38 grams of sugar, the equivalent of 9.5 sugar lumps. In other words, just to get off to sleep, the child needs almost the entire daily recommended amount of sugar.

Have a good night, if you manage to get to sleep.

“Mild” pressure

Antonio Estrada Rodríguez said that he had experienced industry pressure, but the majority had been “mild”. “Some companies contacted me, but in a friendly way, to tell me that the product I had photographed was not representative of their entire portfolio. They even ask me to withdraw their product from my website, but it’s a subtle presence and they tread carefully”, he revealed.

However, the photographer stated that one of the cases did not involve mild pressure. The heavy-handed approach was used in February 2017 by the juice company Zumosol, which felt under attack when an image of Veggies Zumosol (a juice supposedly made out of vegetables and fruit) was published next to seven sugar lumps, or 28 grams.

Lawyers demanded that SinAzucar remove the photo. They sent a document giving Antonio three days to take down the image and publish a text “dictated by them, word for word, basically saying that their products were really healthy.” Antonio reacted. He refused to let them put words in his mouth. “Three minutes after receiving the document, I published it just as I had received it on social networks.”

The photo was shared many times, sparking debates about the product. Articles in the press dealt with the composition of Veggie Zumosol. “Had Zumosol not done anything, it would have been just another photo but, because of its attitude, it appeared in national newspapers and people began to say ‘Hey, look, these juices aren’t actually that healthy.’”

Zumosol, a Spanish company and the second biggest in the juice sector in Spain, was acquired in 2013 by Toksöz Group, a holding established in Turkey and operational in the food and pharmaceutical sectors. Antonio’s photo of the Veggies juice was never withdrawn.

Science + ultra-processed foods, again

Antonio R. Estrada is a man with plenty of experience. As a photographer and athlete, he travels widely. He is well acquainted with all the countries he visits. He had no qualms about saying that Coca-Cola sponsors numerous nutrition events (what a surprise!) in Spain. “To a certain extent, that can condition scientific publications, of course,” he said.

Estrada observed that it was also common to find products manufactured by food corporations featuring marks from health bodies guaranteeing “how healthy they are without them actually being healthy.” Such organizations receive money in exchange for endorsing the quality of the products.

The photographer noted that, in Catalonia, a public health body recently distributed a kind of healthy eating guide sponsored by Danone. In the publication, mainly targeted at parents, advertisements were disguised as institutional texts. “In the pages on healthy eating targeting parents, there were products that had nothing particularly to do with children. The brand and the advertisements were featured,” he recalled.

According to Antonio, neither nutrition-related events nor food advertising are sufficiently regulated in Spain. He knows what he is talking about. One of the main products in the Catalan publication was Actimel, a fermented milk product, which, as well as the traditional dairy ingredients in yoghurt, contains a specific bacterial culture exclusive to Danone, the probiotic L. Casei Danone, as well as vitamins D and B6, forming a compound, which, according to the manufacturer, has an effect on the intestinal flora and improves the immune system, among other miracles. However, if you think that a 100-gram bottle of this contains 11.5 grams of sugar (thus 11.5% of the overall nutritional composition), it is hard to believe that it delivers everything it promises.