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O umami é um embromami?

A narrativa sobre o quinto gosto básico é sedutora. Por trás, os interesses de uma grande corporação em dar poderes mágicos para um pozinho branco 

Quando ouvi pela primeira vez falar em umami, tive aquela repetida sensação de “Caramba, como os ocidentais somos burros e pedantes”. Foi há uns quatro ou cinco anos, num desses programas televisivos com chefs badalados. Aquilo parecia incrível, de cair o queixo: o quinto gosto básico, catalogado pelos japoneses, fazia miséria dos outros quatro (salgado, doce, amargo e azedo).

Era uma promessa de explosão bucal. Um orgasmo gastronômico. Era como se todos os Ursinhos Carinhosos juntassem seus coraçõezinhos fofos no céu para criar uma chuva generosa de sabores sobre nossas cabeças.

Eu mal podia esperar para testar na prática. Bastava combinar os ingredientes certos. Parmesão e tomates maduros são duas belas fontes de umami, à falta da milagrosa alga kombu, umamista por natureza. Misturados, e à temperatura certa, uma delícia. Mas, bom, continuam sendo apenas tomate e parmesão. Eu talvez devesse me esforçar mais para chegar lá. Afinal, os japoneses levaram milênios nessa pesquisa.

Outubro de 2017. Hotel Sheraton, centro de Buenos Aires. A palestra “Essência do washoku. Umami é o gosto básico para uma melhor nutrição?” era uma promessa de dar uma turbinada nos conhecimentos. Os pesquisadores vindos do Japão e da Europa especialmente para o Congresso Internacional de Nutrição poderiam oferecer uma boa perspectiva. E o título do encontro, em forma de pergunta, dava ainda a entender que contrapontos seriam elencados.

O evento promovido oficialmente pela Jumonji University naquela manhã passou a uma trilha repetida, que eu já havia visto algumas outras vezes durante palestras no Brasil. Mas foi um bocado além na extrapolação do raciocínio. O washoku é um braço lindo da culinária japonesa: ingredientes frescos e variados, muita ênfase em vegetais e peixes, cores vibrantes, pratos a serem degustados calmamente e em companhia.

A obesidade no Japão é de apenas 3,4%, segundo os pesquisadores, uma das mais baixas num mundo cada vez mais assustado com os problemas associados à alimentação. A expectativa de vida é alta. A hipertensão é baixa. Por que isso acontece? Por que os japoneses não se renderam a produtos com altos teores de sal, gordura e açúcar? A hipótese dos pesquisadores ali reunidos, sem discordâncias, é de que o umami os levou ao sucesso.

Não exatamente o umami, mas um disfarcinho de umami. Lá pelas tantas, um dos palestrantes agradeceu a Ajinomoto pelo convite para a palestra. Como dissemos antes, o encontro fora oficialmente organizado por uma universidade, condição para que pudesse constar da programação científica do Congresso Internacional.

Mas, àquela altura, já estava claro que se tratava de uma ação publicitário-científica da corporação japonesa, que domina de braçada o mercado de glutamato monossódico, estimado em 2015 em US$ 9 bilhões apenas em vendas no varejo, sem contabilizar o uso por fabricantes. A revelação feita pelo palestrante não era de causar espanto, também, porque essa mistura entre ciência e marketing é bem comum em eventos da área de saúde.

Ao todo, o umami foi assunto para cinco debates durante o congresso na Argentina, muitos deles ocultos sob outros nomes, em um peso claramente desproporcional diante dos enormes problemas que assolam o mundo da nutrição.

No simpósio sobre washoku, o umami foi apresentado como a panaceia. Ou melhor, o glutamato monossódico, vulgo Ajinomoto. Sim, há uma trilha rápida se você é ocidental e não pode esperar centenas de anos para chegar ao nirvana do rango: coloca um pouquinho de Ajinomoto na comida e, supostamente, tudo virá à luz. Segundo os pesquisadores, um consumo adequado desse aminoácido melhora a digestão e a microbiota intestinal, evita a desnutrição, faz idosos saírem caminhando como jovens. E, claro, melhora a saciedade, evitando que as pessoas engordem. Bingo! Por isso os japoneses estão tão bem.

O tomate é uma das promessas de se obter um sabor umami. Mas, afinal, é apenas tomate

Se nós olharmos um pouco mais nessa hora para as estratégias de marketing, ficará fácil entender o que ocorreu. O que é o Ajinomoto? Um pozinho branco. Um sal aditivado (embora tecnicamente não seja bem um sal). Enfim, algo sem graça. Mas, oras, não existem histórias sem graça em nosso admirável século. Uma marca não é só um produto. É um estilo de vida, uma narrativa, uma inspiração, um convite ao amor entre os humanos.

E foi assim que a Ajinomoto decidiu fazer do umami não um elemento a mais dessa história, mas o centro. O umami não nasceu com a Ajinomoto, mas foi sendo ressignificado por ela. Hoje, as duas coisas se confundem, e a Ajinomoto anuncia ter começado a vender o umami no começo do século passado.

“O conceito foi desenvolvido na empresa realmente cedo porque sabíamos que o umami existia, mas não acreditavam nisso. O único jeito de provar foi financiar pesquisas que impulsionaram conhecimento”, nos disse Ana San Gabriel, gerente geral de Comunicação do Grupo Científico da Ajinomoto.

É mais ou menos isso. Ou mais pra menos. Uma parte dessa história você pode encontrar nas próprias publicações da Ajinomoto, então, vamos falar rapidinho. Em 1908 um cientista japonês conseguiu sintetizar o umami a partir de algas com altos teores de glutamato. No ano seguinte a empresa já estava aberta, e logo em seguida já exportava o produto, que logo começou a ser enviado aos Estados Unidos.

Tudo tranquilo, até a década de 1960, quando um pesquisador escreveu um artigo descrevendo como se sentia após ir a restaurantes chineses: fraqueza, suor, dor de cabeça, tontura. Ele associou os sintomas ao uso abundante de glutamato nessa culinária. O caso se alastrou, outras pessoas relataram os mesmos efeitos, e logo o fenômeno ganhou o apelido de Síndrome do Restaurante Chinês.

O glutamato não era um grande conhecido do público em geral, mas já era um aditivo largamente utilizado pela indústria de alimentos, em especial no emergente mercado de ultraprocessados, justamente para restaurar o sabor perdido na fabricação.

Um parêntese. Lembra da associação entre glutamato e magreza? Uma das acusações contra o glutamato é de que se trata de um componente fundamental para criar alimentos hiperpalatáveis, ou seja, que criam uma sensação de dependência que torna difícil parar de consumi-lo. O contrário da magreza.

De volta à década de 1960, a Síndrome do Restaurante Chinês poderia fazer a Ajinomoto perder o boom dos ultraprocessados. Em 1970, o Codex Alimentarius, que regulamenta o uso de ingredientes alimentares em nível global, proibiu o uso em produtos para menores de doze meses e limitou a ingestão diária aceitável a 120 mg por quilo de peso corpóreo para todos os demais.

A reação foi imediata. A corporação japonesa criou o Comitê Técnico Internacional do Glutamato, um centro para financiar pesquisas científicas sobre o ingrediente na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Três anos depois, parte das restrições já havia caído por terra. Em 1978 foi feito um grande simpósio na Itália do qual resultou um livro. Em 1987 não havia mais restrições de uso, situação que se mantém.

Foi na década de 1980 que se delineou a estratégia para fazer o umami ser reconhecido como gosto básico. Os louros da vitória vieram logo após mais um simpósio na Itália, com a publicação de um artigo por um grupo da Universidade da Califórnia. O responsável foi Charles Zuker, que curiosamente poucos meses antes criou a Senomyx, uma empresa voltada à melhoria do sabor dos ultraprocessados.

Parmesão é gostoso em qualquer situação. Saber que ele é “alto em umami” não tem muita serventia

O foco da Senomyx é justamente garantir a substituição de ingredientes considerados problemáticos. É claro que a Ajinomoto está entre os clientes. Curioso é que, segundo a página da própria empresa, uma das missões no momento é encontrar uma alternativa viável ao glutamato. Nestlé, Sopas Campbell e Coca-Cola completam a lista.

No primeiro semestre de 2017, a Senomyx registrou receitas de US$ 5,5 milhões. Como se vê, não é uma acionista majoritária do umami business, mas tem sua fatia.

Fato é que o glutamato é uma substância altamente estudada. O número de artigos foi do nada na década de 1960 para 50 ao ano na década de 1990 e 150 ao ano nesse século. Os números continuam em alta.

“Não podemos fazer mais do que fizemos. Sabemos que não é verdade, mas existe um problema de reputação e informação infundada sendo difundida. Provavelmente temos de fazer um esforço maior para nos comunicarmos com as pessoas de maneira a assegurar que o glutamato é seguro”, admite Ana San Gabriel.

A substância continua envolta em controvérsias. Há uma associação com problemas respiratórios e do sistema nervoso. Os defensores do glutamato alegam que qualquer dano só seria provocado em caso de um consumo absurdamente grande ou em um corpo fragilizado. Há os que admitam “casos sensíveis” especialmente em recém-nascidos porque o glutamato poderia provocar danos ao sistema nervoso caso ultrapassasse uma barreira no cérebro.

O livro Umami e Glutamato. Aspectos químicos, biológicos e tecnológicos, que você pode encontrar em sebos, ajuda a reforçar essa narrativa complexa. O trabalho foi financiado pelo Instituto para a Ciência do Glutamato na América Latina, por sua vez ligado ao comitê internacional, por sua vez ligado à Ajinomoto. A ideia clara foi tentar reunir evidências científicas favoráveis ao Ajinomoto para convencer pesquisadores da região sobre a inocuidade do aminoácido.

A obra foi coordenada por Felix Guillermo Reyes, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Ele foi recrutado justamente numa reunião do Codex em que se discutia a segurança do glutamato. “O glutamato era um simples realçador desse sabor até o início desse século. Hoje é uma das moléculas responsáveis pelo quinto gosto básico. Esse conhecimento foi gerado graças a muitas das pesquisas financiadas pela indústria”, enfatizou, quando conversamos pessoalmente.

Reyes compara o comitê sobre o glutamato ao International Life Sciences Institute (ILSI), criado na década de 1970 nos Estados Unidos pela Coca. O professor foi um dos criadores do braço brasileiro do ILSI, que hoje amealha quase 40 empresas de ultraprocessados e biotecnologia. Já mostramos aqui no Joio como o grupo hoje busca influenciar a agenda regulatória em favor dos patrocinadores, inclusive na Anvisa.

Além dos professores, a Ajinomoto financia pesquisas de mestrado e doutorado, e entrega prêmios científicos. A plataforma Lattes registra mais de dois mil currículos com menções ao glutamato; Ajinomoto, em 150.

Uma das prioridades claras do momento é impulsionar o glutamato como substituto do sal. Afinal, os problemas com hipertensão ocupam um espaço central na agenda de saúde pública, e o cloreto de sódio está sob os holofotes.

Tudo isso ganha uma dimensão bem lucrativa quando cruza o mundo da alta gastronomia, tão de moda em vários países. No Brasil, páginas mantidas pela Ajinomoto (sem menções claras à empresa) promovem receitas abundantes em umami. Muitas vezes o material valoriza ingredientes naturalmente ricos em umami, mas em outras apela ao formato sintético. No ano passado, essas páginas convidaram chefs badalados para criar receitas porretas em umami. No aeroporto de Congonhas você pode comer a tapioca Saigon Umami, que o chef Guga Rocha fez sob encomenda.

Na Inglaterra, em 2014, o Daily Mail registrava uma febre por umami graças ao endosso de Jamie Oliver e Nigel Slater. A demanda por formas sintéticas em tubinhos e pós havia subido 25% em um ano.

“Eu entendo que você pode ver um conflito ético (no financiamento de pesquisas), mas a única coisa em que interferimos é na escolha dos tópicos”, defende Ana San Gabriel. “Temos nossas prioridades, que agora são aminoácidos e temperos, mas, uma vez que o pesquisador recebe o dinheiro, ele pode conduzir a pesquisa como quiser e publicar os resultados.”

O Financial Times informava em 2015 que a Ajinomoto esperava crescer 4% ao ano na base dessa troca com o sal. Pouco antes, Felix Reyes deu uma entrevista de página inteira no jornal O Globo na qual também defendia a substituição. E dizia que os efeitos nocivos em torno da substância são apenas mitos infundados.

No ano passado, ele e parceiras de pesquisa publicaram um artigo científico no qual elencam as principais oportunidades para engenheiros de alimentos aplicarem o glutamato em substituição ao cloreto de sódio.

Na Faculdade de Saúde Pública da USP, Elizabeth Torres é uma das pessoas que orientaram teses financiadas pela Ajinomoto, até que a unidade proibisse esse tipo de relação público-privado. “Não vejo como um problema. Há colegas que têm problemas sérios de relacionamento com a indústria”, queixou-se. Ela atribuiu as melhores condições materiais da vizinha Faculdade de Medicina a um bom ambiente para as empresas, inclusive a indústria farmacêutica. “É uma bobagem. É uma tonteria. A gente precisa da indústria de alimentos. Não tem como alimentar 7,5 bilhões de pessoas fazendo comida em casa, comida de verdade.”

Mas, afinal, para que serve saber sobre o umami? Foi algo que eu me perguntei e perguntei a outras pessoas durante meses. Se formos olhar de maneira geral, o umami serve como narrativa publicitária. Mas há casos pontuais. Tanto conhecimento acumulado sobre substâncias com elevado potencial de sabor pode ser importante para desenvolver combinações para alimentar idosos e pessoas com o paladar reduzido por tratamento contra o câncer, por exemplo. Para isso, porém, você não precisa de um pó mágico.

Foto em destaque: Live it Beautiful
Foto 2: Tânia Rêgo. Arquivo Agência Brasil
Foto 3: Pexels.com

Australian researcher breaks contract with Nestlé after attack against Brazilian professor

Paediatrician Susan Prescott leaves Advisory Board after ten years. ‘When I see attempts to disparage the NOVA system by industry-funded players I can only conclude that such efforts are the hallmarks of intellectual escapism’

“Researchers who remain entrenched in defending ultra-processed foods are finding themselves on the wrong side of history”, decrees Susan Prescott. Professor of Paediatrics in the University of Western Australia, she is a respectful researcher about allergies on children. “Even by association, I was in effect lending my name to what I consider to be an unhealthy system.”

She decided to rescind her contract with Nestlé at the end of 2017 amidst the attacks on Carlos Monteiro, a professor at the School of Public Health, University of São Paulo, coordinator of the Centre for Epidemiological Studies on Health and Nutrition (NUPENS) and the person behind the NOVA food classification system, which forms the basis of the current Dietary Guidelines for the Brazilian Population. Criticism of the system, which classifies foods according to their degree of processing, came from scientists with financial ties to the multinational, which was the last straw for the researcher.

“I always deeply questioned the conflicting issues of many multinational corporations,” Susan Prescott told us. She is the Director of inFLAME Global Network, an organization that brings together researchers from around the world interested in the impact of the environment on intestinal microbial diversity. It’s been an important key to think about the effects of ultra-processed foods in our bodies.

The professor spent ten years on the Nestlé Nutrition Institute’s Advisory Board in Oceania, and resigned after reading an article published in the American Journal of Clinical Nutrition by the group headed by Michael Gibney, a researcher at the University of Dublin, in Ireland. “Ultra-processed foods in human health: a critical appraisal” is a direct attack on the NOVA classification, proposed in 2009 by Monteiro with a view to classifying foods according to their degree of processing: in natura or minimally processed, processed and ultra-processed, as well as cooking ingredients.

We dealt with the matter recently, with Monteiro’s view that the article by Gibney contained extremely serious errors and omissions, and the American Journal of Clinical Nutrition’s refusal to issue a response, in a case exposing the ties between scientific organizations and corporations.

Facts: Michael Gibney has a contract with Nestlé. The American Journal of Clinical Nutrition is one of the publications of the American Society for Nutrition, which currently has 28 partner companies, including Coca-Cola, Kellogg’s, Pepsi, Nestlé and Monsanto. The organization supports these corporations. It has already succeeded in organizing the issue of a positive mark decorating the packaging of cereal with an extremely high sugar content, as well as other ultra-processed foods.

In contrast, the NOVA system proposes a clear distinction between processed and ultra-processed foods. However, its detractors typically delete this line, making the classification appear to be simply against industrialization.

In addition to the article, other attacks were launched recently against the Brazilian researcher. Last October, the theme for one of the opening symposia at the International Congress of Nutrition, which was held in Buenos Aires, Argentina, was “Processed foods: food technology for better nutrition”. Our article covered the presentations on-site and there was a clearly orchestrated assault on Monteiro and the NOVA system, with verbal attacks that were unseemly for the cautious scientific sphere.

Next: an interview with Susan Prescott, a paediatrician who puts forward a holistic vision of the body and the environment.

  1. When you first read about NOVA, how did you react? Did it change the way you understood obesity and NCDs problems? 

I’ve known about the NOVA system for several years.

Dr Monteiro and colleagues have produced a simple but effective way to separate out the forms of food processing that are essential to global food supplies (providing safe, healthy nutrition) from those that are generally unhealthy. NOVA system avoids the intellectual escapism and intellectual dishonesty which conflates the “processing” of ancestral fermentation and canned salmon with ultra-processed, additive-rich products.

The latter are largely a collection of isolated components of foods, often assembled with non-nutritive ingredients, with little resemblance to the nutrition of our evolutionary past. In the NOVA system ultra-processed foods are those which the public already knows to be generally unhealthy. It is simple and separates out minimally-modified foods from the soft drinks, snacks, meat patties, mass-produced frozen ready-to-heat meals. The available evidence over the last 4 years shows that the NOVA system can be tied to chronic, non-communicable diseases and biological markers of disease.

Monteiro has become a main target to Big Food after he developed NOVA system

For many years consumers have been told that the additives in ultra-processed foods are safe. However, research in the area of the gut microbiome – that is the trillions of microbes (and genes) that inhabit the intestinal tract – has called this into question. Beyond the obvious macronutrients – sugar and refined linoleic-acid-rich vegetable oils – ingredients such as emulsifiers, artificial sweeteners, sodium, advanced glycation endproducts (AGEs), carrageenan, plant protein isolates and phthalates (via packaging) have all been shown to promote disturbances in the microbiome of animals.

In many cases these disturbances have been further linked to metabolic and even behavioral disturbances. Many questions remain, including the extent to which this animal research translates to humans. For now, the available research clearly favors a diet with minimally-modified foods and avoidance of the Group 4 ultra-processed soft drinks and foods.

How long have you been at the advisory board of Nestlé Institute? Do you think your initial goals were reached?

I was on the Nestlé Nutrition Advisory Board in Australia and New Zealand for over 10 years. As a paediatrician and a University academic, a major focus of my work has been early life nutrition and disease prevention. As a clinician working with children, it isn’t difficult to see how dietary choices and lifestyle are a focal point in their health and well-being.

I saw this was an opportunity to share my perspectives and hoped to influence awareness and attitudes. I met and worked with a lot of people, good people, who genuinely cared about health and nutrition of young families and reducing health disparities. I was involved in many educational programs and training workshops for healthcare professional all around the world.

Most discussions I was involved with were around science and education, rather than commercial products. This was actually a positive environment, and much of what we did was constructive. I did take every opportunity to highlight the social and economic determinants of health, the importance of social responsibility and the role of business in the solutions to global challenges.

Why did you decide to resign? 

I was always deeply troubled by the conflicting sides of many multi-national corporations, especially those in the business of global food supplies. On the one hand you have the tagline ‘we feed the world’ and there is no doubt that under or malnutrition is unacceptably high. Companies are working to fix this, and they should be commended for that. But the product development and marketing is often at odds with the major threat to human health – that is, non-communicable diseases (NCDs). The production and global dissemination of ultra-processed foods are driving obesity and many of the NCDs we were striving to prevent. This was always the elephant in the room.

It is even more troubling to see industry driven attacks on scientists and experts who are working to address these major drivers in disease and health inequities. This is not new. And it has been a common tactic of most of the Big Industries over the last 50 years. Very much part of the Industry ‘play book’ recently illuminated by Rob Moodie in his new American journal of public health paper ‘What Public Health Practitioners Need to Know about Unhealthy Industry Tactics’.

Industry-backed research and industry front organizations seem threatened by the terms highly-processed and ultra-processed. Balanced criticism is an important part of scientific progress; however, when I see attempts to disparage the NOVA system (while avoiding the realities of food additives and the microbiome) by industry-funded players I can only conclude that such efforts are the hallmarks of intellectual escapism. The unseen members of global biodiversity – trillions of microbes – are calling out the policies and practices of the purveyors of the Grade 4 ultra-processed foods. Researchers who remain entrenched in defending ultra-processed foods are finding themselves on the wrong side of history.

I cannot control how apologists for ultra-processed foods go about defending these items and the policies and marketing efforts that magnify their distribution. However, even by association, I was in effect lending my name to what I consider to be an unhealthy system. Each day as the sun rises there are scientists discovering the detrimental effects of ultra-processed foods; at the same time, other groups of scientists are exploring ways in which more of these foods can be consumed by more people. So I felt it was time to have a bigger conversation. This is about much more than just ultra-processed food, or one Big Food company. It is about the broken systems that are destroying our health, our communities and our environment.

How do you think science and industry can work together to create solutions to society?

Yes I do. Eventually. We have to. But not the way things are right now. Business must be part of the solutions. And not just through partnership with science, but with meaningful partnerships with communities and society at large – for mutual benefit. In ways that do not cause avoidable harm in the endless quest for greater profit. There is no question that the activities of industry, in general, are a major factor in most of our global challenges including environmental degradation, human disease (particularly the consequences of obesity and smoking), economic instability, crime, and social inequalities. This destruction of the human and planetary health is not sustainable. We must to act. But we need to be constructive.

We are already progressively moving into an age of transparency, accountability and social justice. I am confident that these core values will become increasingly unquestioned and difficult to corrupt. With growing anti-business sentiment, it is increasingly necessary that industry and businesses respond meaningfully and genuinely to avoid increasing reprisals.

On a more positive note, there is now a growing engagement in corporate social responsibility, using the power of enterprise to solve social and environmental problems. There are more than 2,000 businesses worldwide who have earned ‘B Corp’ certification, for socially responsible practices. ‘B Corp’ assessments promote a level of transparency in how businesses go about making profits, encouraging them to provide benefit to society at the same time, rather than put profit before people. Our future prosperity will depend on this. Consumers need to demand this. We might reasonably hope that these incentives, core values and social conscience will be reason enough for industry to follow these principles!

Your critics about ultraprocessed foods caused any bad reaction on the private sector?

Not so far, but I expect it might. But we really hope for a more constructive way forward. Our global problems cannot be solved by more hostility and polarization. The intention of our recent papers on ultraprocessed foods – and many other manifestations of human, environmental and social disease – are intended to shed light on the need for change, so that we can do things better.

These conversations that we are having now are cause for hope. The seeds of change are there. Not only in the rising discontent with current systems, and the desire for change, but in progress towards creative collaborative solutions. What is really needed are philosophical shifts in our value systems. Although stories of control, greed and self-interest are strong – we can make them less acceptable and increasingly challenged. The structures, processes and the consequences of these attitudes will likely be far harder to change than the attitudes themselves. But attitudes must change first.  So the rest can then follow.

As a paediatrician I want to remind people that, by looking ahead with our children’s future in mind, we can better find common ground in the face of conflict, complexity and competing interests. This reminds us that we all ultimately share the same destiny. We need technology to solve the problems in our world today, but to put it to the best use we also need our heart and our humanity. This is where the true power of humanity lies. We cannot underestimate our influence, as individuals and together to change this story.

O Gatorade não é um oásis

Pioneiro em evidenciar que o excesso de líquidos pode matar até esportistas de alto rendimento e em mostrar a manipulação de pesquisas pelas corporações, Tim Noakes se tornou um dos maiores inimigos da indústria

A indústria do açúcar liga o alerta vermelho todas as vezes em que o nome de Timothy David Noakes é mencionado. A luz amarela, na verdade, pisca há tempos, a partir da década de 1980, quando o estudioso nascido no Zimbábue transformou a prática do esporte na África ao desafiar ideias balizadas por pesquisas duvidosas financiadas pelas corporações.

Com um trabalho junto a maratonistas na Universidade do Cabo, na África do Sul, Noakes investigou a hiponatremia, estado orgânico perigoso, causado pela ingestão de muito líquido antes e durante a atividade física. A pesquisa constatou que o excesso de hidratação diluía o nível de sódio no corpo. Resultado possível, nos casos mais graves: o inchaço do cérebro, o que pode causar convulsões e morte.

A história do exercício associado à hiponatremia começou a ser comentada por Tim Noakes na década de 1970, quando o cientista se dedicava à avaliação de um maratonista que corria os 89 quilômetros da Comrades Marathon (Maratona dos Camaradas, a mais tradicional da África do Sul). Naquele período, Noakes acompanhava o consenso científico de que o consumo de líquidos por corredores poderia ser livre, ou seja, os praticantes de corridas de longa distância (dentre os quais ele se inclui, com 70 provas disputadas) deveriam bebê-los à vontade.

Em 1981, no entanto, um telefonema e uma carta modificaram a visão e a vida de Noakes. Era Eleanor Sadler. Já uma senhora à época, a sul-africana corria anualmente a Maratona dos Camaradas e desmaiou durante a prova. Esteve em coma por quatro dias. Seguidora dos conselhos do fisiologista, ela questionava: “Fiz tudo certo, o que aconteceu?”.

“Eu não tinha absolutamente nenhuma ideia no momento. Tudo o que sabíamos era que a concentração de sódio no sangue dela era muito baixa. A questão era se tinha bebido demais, ou se tinha perdido muito sal, ou se era ainda uma combinação de ambos. Ao longo dos quatro anos seguintes, descobri que Eleanor tinha bebido demais. Eu percebi que, se nós disséssemos às pessoas que bebessem mais de 800 ml por hora, iríamos nos meter em problemas, particularmente com mulheres corredoras, que são menores e correm mais lentamente. Vi que haveria mortes e previ que seriam entre as mulheres que corriam maratonas”, relembra Noakes, hoje com 68 anos.

Tim começava a mexer num vespeiro. Desde 1969, um respeitado fisiologista estadunidense, David Costill, iniciou estudos quando o Gatorade entrou no mercado. Costill se dirigiu aos representantes da marca produzida pela PepsiCo (também fabricante do refrigerante Pepsi) e indagou sobre o funcionamento do produto. Além disso, avisou que o pesquisaria.  O objetivo era levantar dinheiro para financiar um laboratório, na verdade, uma espécie de “chantagem” que a indústria resolveu bancar.

A pesquisa de David Costill concluiu que a bebida mantinha as temperaturas dos corpos dos corredores mais baixas e cravou que isso era adequado e melhor para o praticante de exercícios. Logo, o American College of Sports Medicine (ACSM) pediu ao pesquisador para escrever as primeiras diretrizes sobre o tema, o que ele fez em 1975, afirmando que os corredores deveriam beber regularmente durante a prática esportiva.

A influência de Costill aumentou no debate público, a ponto de trabalhos dele para os militares dos EUA determinarem que a reposição de líquidos era uma arma tática. Assim, se os membros das forças armadas bebessem mais durante as manobras, produziriam mais e melhor.

Tim Noakes reviu posições sobre o consumo de líquidos e despertou a preocupação da corporação.

“Era só uma ideia dele (Costill). Não tinha nenhuma base científica. Dois anos depois, ele publicou um artigo dizendo que, se os soldados dos EUA bebessem 1,9 litro por hora quando se exercitavam no calor, iriam executar as manobras muito melhor. Não havia evidência concreta de que isso fosse verdade. O problema é que o conselho foi abraçado pelos militares. Eles mudaram as diretrizes para dizer que você deveria beber 1,9 litro por hora”, explica Noakes.

A posição de Costill culminou, em 1996, com as novas diretrizes norte-americanas, que indicavam que uma pessoa deve tomar por hora tanto quanto aguentar durante o exercício. Isso se tornou um mantra. Ou seja, você tem de beber antes de ter sede. Foi depois disso, segundo o médico africano, que os problemas da hiponatremia se tornaram frequentes em todo o mundo.

Ter maratonistas e soldados portando garrafinhas de isotônicos é uma bela propaganda gratuita. Inspira pessoas a consumir mais líquido e também a comprar produtos com aura de bem-estar e aumento de produtividade. Ver isso referendado por órgãos governamentais, então, oficializa e contribui para a criação de um mito.

Tim Noakes, em 1986, já era o autor do livro Lore of Running (A Ciência da Corrida, disponível somente em inglês no Brasil), precedido pelo artigo científico “Água e Intoxicação: uma complicação possível durante a resistência do exercício”, considerado referência na área. Ele não aceitava os argumentos frágeis que faziam a indústria de bebidas isotônicas cheias de açúcar crescer aos bilhões em lucros. E, ainda que o American College of Sports Medicine mudasse as diretrizes em 2007, as divergências são persistentes.

Os estudos seguiram e o fisiologista passou a recomendar que corredores consumissem menos líquidos, entre 400 a 800 mililitros por hora, de água a isotônicos. Claro que, ali, marcas como a Gatorade já se incomodavam.

“Globalmente, são mais de 1,6 mil casos de hiponatremia documentados (entre corredores amadores) de intoxicação por líquidos desde 1981”

 

“A diretriz do ACSM que diz que não se deve perder mais de 2% de peso corporal durante o exercício é contrária às evidências científicas publicadas e as descobertas em atletas de elite que bebem antes de ter sede, tendo o desempenho prejudicado. ‘Beba a sede’, é o que aconselho, independentemente da quantidade de peso que você perca”, avisa o pesquisador.

O médico afirma que não existe nenhum caso de morte registrada por desidratação em maratonas. Por outro lado, dos anos 1980 para cá, ao menos 17 atletas morreram de hiponatremia. “Globalmente, são mais de 1,6 mil casos de hiponatremia documentados (entre corredores amadores) de intoxicação por líquidos desde 1981”, revela.

O aviso de Noakes é um alarde e tanto no mundo esportivo. Qualquer pessoa interessada em esporte sabe que se hidratar é importante durante sessões de exercícios. A questão é: quanto de líquido você deve ingerir?

A maratonista inglesa Kate Mori foi vítima do desconhecimento. Aconselhada desde sempre a se adiantar à sede, ela seguiu a orientação manipulada pelas corporações à risca na Maratona de Londres, em 2007. Bebeu em todos os pontos de hidratação possíveis, num total de 3,5 litros tomados no percurso de 42,195 quilômetros.

Próxima da linha de chegada, Kate se sentiu mal. Necessitou da ajuda de outros corredores para ficar de pé. Com diarreia grave, vômitos e confusão mental, deu entrada num hospital londrino. Além disso, em uma cena aterradora, as pernas da atleta se movimentavam involuntariamente, pareciam continuar correndo. Ela não estava desidratada, como pensaram colegas e treinadores ao socorrê-la. Ao contrário, havia ingerido líquidos demais. Hiponatremia.

A Maratona de Boston (EUA) foi palco de drama ainda maior. Em 2002, a médica estadunidense Cynthia Lucero, habitual corredora, decidiu disputar a prova para divulgar a Sociedade de Combate à Leucemia do estado de Massachussetts. A causa nobre não impediu o desfecho trágico. Ela desmaiou durante o trajeto. Morreu três dias depois. Inicialmente, os médicos suspeitaram de desidratação, mas o quadro clínico acabou fechando a causa-mortis como “ingestão excessiva de líquidos”.

Beba se tiver sede, mas cuidado

“Beba quando tiver sede”. A frase cunhada por Tim Noakes nos anos 1980 é ecoada nos dias de hoje por vários pesquisadores. A Universidade de Monash, na Austrália, fez um estudo que  registrou, por meio de ressonância magnética, a atividade cerebral e o esforço de beber água em duas situações: com sede, após a prática de exercício físico, e sem sede, depois do consumo de grandes quantidades de água.

A investigação concluiu que o cérebro é dotado de mecanismos de defesa que se ativam quando tomamos líquidos em excesso. Os testes revelaram que pode surgir a sensação de “garganta fechada”, o que triplica o esforço para engolir.

“No estudo, verificamos o esforço que fazemos quando bebemos demais, o que significa que temos de superar algum tipo de resistência cerebral”, comenta Michael Farrell, coordenador da pesquisa.

Um grupo de pesquisas da Universidade de Oakland (EUA) publicou, em 2017, uma revisão atualizada a respeito de hiponatremia. E aumentou o volume do alarme: se na década de 1980 o problema afetava mais os atletas de triatlo, escalada e ultramaratona, foi observado que, nos últimos anos, houve aumento de casos em maratonas, esportes de equipe e até na yoga.

Nesse quadro, é impossível não falar das megacorporações e da influência delas no ato de “beber”.  O Gatorade – que rende US$ 4 bilhões anuais à transnacional PepsiCo – é uma das marcas envolvidas em financiar e distorcer pesquisas de ciência do exercício para aumentar as vendas. Faz isso há quatro décadas, incitando pessoas a beberem mais do que precisam.

Somente após as pelo menos 17 mortes previsíveis por hiponatremia entre atletas, PepsiCo e ACSM (que se gaba de ter mais de 50 mil membros e profissionais certificados espalhados pelo planeta, e exibe, além da PepsiCo, a megaempresa de alimentos transgênicos Dupont entre os parceiros) finalmente admitiram, em 2015, a possibilidade de desfechos fatais por consumo exacerbado de líquidos A informação, no entanto, discutida em um webinário e num artigo restritos, com foco em atletas de futebol americano, chegou a pouca gente.

 

Um dos documentos da PepsiCo admite, na última linha, a possibilidade de intoxicação e morte

Era uma reação tímida à atuação de Noakes. Com as pesquisas do fisiologista em alta, o rastro de parte dos ganhos da PepsiCo com o Gatorade foi mostrado. Parcela dos lucros bilionários derivados do produto são enviados a parceiros em ciência do exercício, como o American College of Sports Medicine, a National Association of Strength and Conditioning e a National Athletic Trainer’s  Association, todas dos Estados Unidos.

A PepsiCo deixou de manter a retranca sobre o assunto e abriu o jogo de interesses nos EUA, inclusive confessando a intenção de “identificar maneiras de educar para o Gatorade agregar valor junto ao importante grupo influenciador (de treinadores)”. O texto diz, ainda, que parcerias com sociedades científicas devem se dar em colaboração com o marketing esportivo. “Trabalhemos em estreita colaboração com a equipe de marketing esportivo sobre estratégia e execução para influenciadores de ciências e a tradução para grupos de profissionais. Colaboremos nos esforços com organizações parceiras importantes e em conferências-chave, incluindo o ACSM, entre outras”, expõe o conteúdo.

Larry Armstrong, presidente do próprio ACSM entre 2000 e 2015, admitiu ao Wall Street Journal que o financiamento da Gatorade “afeta a objetividade científica das pesquisas”. Entretanto, a parceria e os dólares da PepsiCo continuaram a entrar no caixa da organização.

Carl Heneghan, pesquisador da Universidade de Oxford, do Reino Unido, estudou especificamente os isotônicos Gatorade e Powerade. Ele argumenta que as bebidas esportivas diferem dos refrigerantes em apenas um elemento: a inexistência de gás. “Os fabricantes afirmam que as bebidas esportivas, como o Gatorade ou o Powerade, contêm eletrólitos, frutose e sacarose, mas, na essência, isso tudo se resume a sal e açúcar”, ressalta Heneghan.

As coincidências entre isotônicos e refrigerantes não se restringem aos compostos de sal e açúcar na África do Sul. As bebidas gaseificadas também toparam com um sólido muro de contestações. O nome do obstáculo é o mesmo que colidiu com os isotônicos: Tim Noakes.

Esta história tem outros capítulos pela frente.

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A teia no Brasil

No Brasil, o Gatorade é apoiador declarado do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), organização encabeçada por um dos nomes mais influentes da área de ciências do esporte na América Latina, o médico ortopedista Victor Matsudo. A entidade abriga o programa “Agita São Paulo”, que possui várias parcerias com órgãos públicos país afora e sustenta o discurso de que o sedentarismo (e o cidadão sedentário, portanto) é o maior vilão da saúde brasileira, deixando de lado o impacto negativo da má alimentação vendida e difundida pela indústria. Matsudo, aliás, trabalhou como consultor brasileiro da marca por muitos anos e é bastante ligado ao ACSM.

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Foto 1: Tim Noakes/Facebook 

Foto 2: The Russells 

Transparente nos EUA, Coca-Cola adota segredo sobre relação com pesquisadores no Brasil

Corporação não quis revelar quais os estudos financiados. Nos Estados Unidos, foram US$ 140 milhões desde 2010. Nestlé, Unilever, Danone e Ajinomoto também não divulgaram informações

Envolvida desde a fundação em controvérsias devido à fórmula secreta do principal produto, a Coca-Cola está habituada a financiar pesquisas científicas que busquem promover benefícios ou deslegitimar efeitos negativos. Nos Estados Unidos, frente a pressões da imprensa, a corporação revelou recentemente a lista de organizações e pessoas que tiveram trabalhos patrocinados.

Aqui, a Coca-Cola Brasil optou por não tornar disponível a O joio e o trigo a lista de pesquisadores que tiveram estudos financiados nesses trópicos. Entramos em contato com a assessoria de imprensa no final de junho de 2017, solicitando uma entrevista a ser feita pessoalmente. Dez dias mais tarde, recebemos a informação de que a conversa seria por telefone. Passadas mais três semanas, tivemos de encaminhar as perguntas por e-mail.

1. Quais são as principais motivações da Coca para financiar pesquisas científicas?
2. Quais os critérios utilizados para definir quais trabalhos receberão apoio da empresa? Via de regra, é a Coca quem escolhe os temas ou os pesquisadores que procuram a Coca? Quais têm sido os temas prioritários?
3. Quais pesquisadores já receberam apoio da empresa no Brasil? É possível saber o montante de recursos destinados a apoio científico?
4. Como a empresa se relaciona com o ILSI Brasil? E como avalia o papel da organização? É possível saber qual o montante investido no ILSI ou qual o percentual total do orçamento anual do instituto que corresponde à Coca?
5. Nos Estados Unidos, alguns veículos de comunicação têm contestado a relação da Coca com pesquisadores. Como a empresa vê essas críticas? Isso provocou alguma mudança na atuação da empresa no Brasil?
6. Há artigos de revisão indicando que estudos financiados pela indústria de refrigerantes tiveram tendência a não indicar o papel desses produtos na epidemia de obesidade. Qual a opinião da empresa sobre esses artigos?
7. Alguns autores afirmam que pesquisas com ênfase em atividade física buscam desviar o foco sobre as verdadeiras causas da obesidade. Como a empresa tem se posicionado em relação a essa crítica?

Questões parecidas também foram apresentadas a Nestlé, Danone, Unilever e Ajinomoto. Nenhuma delas quis responder.

A Coca-Cola chegou a encaminhar, um mês depois, uma nota curta, mas que ignorava todas as nossas questões.

A Coca-Cola Brasil segue parâmetros rigorosos para patrocínio de pesquisas científicas e apoio a pesquisadores. Nosso interesse na literatura científica se reflete na preocupação de embasar todas as nossas decisões em evidências científicas – principalmente relacionadas à formulação de nossos produtos e ingredientes. Dessa forma, asseguramos que estamos oferecendo bebidas de qualidade às pessoas que escolhem consumir nossos produtos.

Para isso, temos uma relação de franco diálogo com os principais interlocutores envolvidos com as questões alimentares e a educação nutricional no Brasil. Buscamos estar atentos às críticas e às oportunidades da nossa atuação nessa área. Hoje estamos mais focados nas melhorias que podemos fazer em nosso portfólio e comprometidos em oferecer mais escolhas para as pessoas.

A postura da empresa revela um duplo padrão. Nos Estados Unidos, após uma série de revelações feitas pela imprensa, a corporação decidiu divulgar os investimentos desde 2010 não apenas em pesquisa, mas em organizações da sociedade civil. Foram US$ 140 milhões, em torno de R$ 430 milhões. Historicamente, atividade física é um assunto preferencial, ao lado das pesquisas que tentam atenuar os efeitos negativos do açúcar e dos adoçantes, dois elementos básicos da fórmula dos produtos vendidos pela Coca.

Apesar dos escândalos, o interesse da empresa pelo tema não diminuiu. Nomeada em 2017 por Donald Trump, a nova chefe do Centro para o Controle de Doenças (CDC), Brenda Fitzgerald, teve trabalhos financiados pela Coca, a quem considera uma aliada na luta contra a obesidade. Após sucessivas polêmicas, Brenda deixou o cargo com a revelação de que comprou dezenas de milhares de dólares em ações de empresas de tabaco, justamente um tema central na atuação do CDC.

Trata-se do principal centro de saúde pública dos Estados Unidos, localizado justamente em Atlanta, sede da Coca. Antes do caso de Brenda, a imprensa abordou a relação entre o então assessor especial de Saúde Global do centro, Michael Pratt, e a corporação dos refrigerantes. Ele era um dos propulsores do ISCOLE, Estudo Internacional de Obesidade, Estilo de Vida e Ambiente na Infância, que buscava realizar uma pesquisa em toda a América Latina, justamente uma das áreas com maior evidência de correlação entre aumento do consumo de bebidas açucaradas e obesidade.

Entre 2010 e 2014, o ISCOLE recebeu US$ 6,4 milhões, o que inclui o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), comandado por Victor Matsudo e criador do Agita São Paulo. Ele é próximo ao International Life Sciences Institute (ILSI), criado pela Coca na década de 1970 e que, como mostramos, busca influenciar a agenda regulatória de saúde no Brasil.

Sabemos que, após o fim do ISCOLE, os recursos da Coca se direcionaram a uma iniciativa similar. O Estudo Latino-americano de Nutrição e Saúde (Elans) é encabeçado pelo brasileiro Mauro Fisberg, coordenador da Força-Tarefa Estilos de Vida Saudáveis do ILSI, e Irina Kovalskys, do ILSI Argentina. “São 12 mil casos avaliados entre adolescentes, adultos e sênior. É um estudo caríssimo. São amostras representativas, e amostra representativa é uma coisa complexa, especialmente em países grandes”, conta Fisberg.

Os resultados ainda não foram publicados e a coleta de algumas informações está em curso, mas o professor adianta uma parte: “Tem um gap mostrando que a obesidade se deve mais ao sedentarismo. É difícil fazer essa afirmação. Eu não gostaria. Mas os números mostram que a gente tem muito menos gente comendo mais do que deveria do que gente fazendo atividade física.”

Em 2002, alguns cientistas acordaram de manhã com um brinde na caixa de correios: “O uso de refrigerantes e a saúde humana” é um artigo de revisão, ou seja, um trabalho que revisa as evidências acumuladas sobre determinada questão. Neste caso, refrigerantes. Os autores, Mauro Fisberg e Olga Amâncio, da Unifesp, e Ana Maria Pitta Lottenberg, da USP, acusavam haver preconceito contra a bebida, “pouco compreendida pelos profissionais da área de saúde”. “Inúmeros alimentos artificiais, industrializados há anos, têm livre trânsito nas clínicas, consultórios e ambulatórios ou são pouco combatidos por estes mesmos profissionais, que rechaçam de forma cabal o uso de uma bebida que, na realidade, é utilizada para seu uso próprio, sem qualquer restrição.”

À época havia vários estudos jogando a responsabilidade para a gordura. E para os obesos, acusados de preguiça, de maneira que uma solução apontada pelos autores era o programa Agita São Paulo, coordenado por Victor Matsudo. Alguns dos estudos citados na bibliografia foram financiados pela indústria de refrigerantes.

Não sabemos quanto Matsudo recebe pelas palestras que dá a comunicadoras na sede da Coca. O mesmo vale para a professora Maria Cecília de Figueiredo Toledo, aposentada da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Em outubro de 2014, ela deu palestra a blogueiros no Rio de Janeiro. Um encontro desse tipo tem resultado garantido para a corporação, já que vários deles saem reproduzindo as informações divulgadas pelos especialistas convocados. É uma aposta nos microinfluenciadores digitais, cenário que se abriu e consolidou nos últimos anos. “A marca mostra que sim, é possível beber o refrigerante com moderação, desde que você faça sua parte e corra atrás para manter sua saúde”, resumiu um dos blogueiros presentes.

Na ocasião, Maria Cecília gravou um bate-papo com uma das comunicadoras para divulgar uma espécie de resumo do que havia sido a palestra. “A partir de 12 semanas a criança pode consumir adoçante. E realmente é uma questão de cultura, de hábito alimentar. A uma criança obesa pode ser recomendado que consuma.”

A indústria de refrigerantes faz um esforço constante por conter danos relacionados à divulgação de informações sobre adoçantes. No começo de 2017, o ILSI realizou um encontro no qual Maria Cecília adotou o tradicional tom assertivo contra a ideia de que esses aditivos provocam danos à saúde. Na ocasião, ela falou que é preciso levantar dados sobre consumo entre crianças e que o ILSI estaria disposto a financiar esse estudo. “Se vocês souberem quem possa fazer essa pesquisa…”

Com as mesmas armas: a epidemia do açúcar em cliques

Projeto de fotógrafo e nutricionista espanhol usa imagens de alta qualidade para contra-atacar as corporações alimentares e combater o maior motivo da obesidade no planeta  

Lista de compras às mãos, ando (ou corro, a depender do dia) pelo supermercado a checar tabelas nutricionais antes de colocar um produto no carrinho. Prateleiras imensas, poluição visual. Letras miúdas. Uma bagunça que quase faz desistir. Tento ler o óbvio. Mas nem o óbvio é acessível quando o outro lado – a indústria alimentar e os órgãos reguladores – não descortina o que há de fato dentro das embalagens. Busco, então, as quantidades de açúcares. O motivo é outra obviedade: doenças. Diabetes tipo 2, cáries, obesidade, da qual derivam hipertensão e problemas cardiovasculares.

“Bola dentro”, penso. Numa fração de tempo, porém, noto que chutei por cima do gol e que o adversário me goleou nos contra-ataques. A escalação do rival não deixa dúvidas: glucose de milho; lactose, xarope de malte, glicose e frutose; dextrose, maltose, xarope de milho e xarope de malte; maltodextrina e sacarose. No banco de reservas, néctares, açúcar invertido, açúcar de confeiteiro, açúcar mascavo, açúcar bruto, mel, açúcar branco/refinado, melaço/melado e caldo de cana engordam o elenco. Nomenclaturas craques em desorganizar o raciocínio de quem vai às compras, num jogo que tem por objetivo esconder que todas são uma só: açúcar.

Guerrear contra as 24 horas do dia cada vez mais curtas e os rótulos da indústria alimentar coloca os consumidores em situação complicada. Menos mal, que há quem use armas para revidar e dar munição ao lado mais fraco. O fotógrafo espanhol Antonio Rodriguez Estrada é um exemplo. De trajetória curiosa, ele é o fundador do site fotográfico SinAzucar (Sem Açúcar), projeto que denuncia a quantidade de açúcares escondida em alimentos, mesmo os vendidos como 0%, pelos quais, geralmente, pagamos mais.

Madrilenho de nascimento, Antonio tem 45 anos e se dedica à fotografia desde os 15. Aprendeu a lidar com as câmeras em experiências do dia a dia e cursos da área. Profissionalizou-se e passou a viver de clicar produtos diversificados e modelos para “books”. Apesar de a vivência acadêmica do espanhol ter seguido por outros caminhos (formou-se como engenheiro em informática na universidade), ele nunca se afastou das fotos.

Entusiasta da “vida saudável”, Are, como é mais conhecido na Espanha, passou a fazer crossfit há cinco anos, modalidade de exercícios físicos que escolheu por ser praticada de maneira “mais coletiva”. Realizou cursos de nutrição esportiva, nos quais obteve várias titulações. A combinação de duas paixões, a fotografia e a saúde, surgiu em formato de imagem pela primeira vez em 1º de outubro de 2016, quando decidiu publicar nas redes sociais a foto de um creme catalão, acompanhado da equivalência em açúcar, que era de 155 gramas. Não agradou a muitos. “Perdi seguidores”, confessa.

Are somou fotografia e nutrição para expor os motivos da epidemia de obesidade

Perder adesões no Facebook, Instagram ou Twitter não foi problema. Ao contrário, o creme catalão era só o começo. E a repercussão da postagem embalou a criação do SinAzucar. “Quando eu comecei a olhar para os rótulos, descobri que muitos produtos que eu considerava saudáveis tinham muito açúcar. E uma das causas da atual epidemia de obesidade é o abuso de produtos industrializados na alimentação diária. Eu queria dar a minha contribuição para informar as pessoas disso, principalmente quando descobri quantas enfermidades estão associadas a eles”, diz Antonio.

Em linhas gerais, a ideia é fotografar o produto usando a mesma linguagem visual que a indústria emprega para vender. “Fotografia limpa, iluminação cuidada, retoque atrativo, impacto visual. O objetivo é chegar ao número máximo de pessoas pelas redes sociais”, explica o fotógrafo.

O trabalho é didático. Auxiliado por nutricionistas e outros profissionais da saúde, Antonio optou por apresentar cubos de açúcar (torrões com peso de 4 gramas cada) como forma de exposição de “açúcares ocultos”, ou seja, os que não despejamos diretamente no cafezinho ou na receita do bolo caseiro. O que o projeto pretende revelar são exatamente as quantidades que vêm embaladas pela indústria com tabelas nutricionais recheadas de estranhezas, aquelas que não conseguimos ler e interpretar corretamente na correria do cotidiano graças ao exagero (proposital?) de nomenclaturas incomuns e confusão visual.

Aspectos fundamentais também considerados são os valores nutricionais informados nas tabelas, já que eles se referem a certas quantidades do produto e não à embalagem toda. Cada rótulo traz uma porção determinada em gramas e, frequentemente, carrega uma referência de quanto de açúcar há ali. Quem come mais do que a porção indicada, deve calcular separadamente a quantidade de nutrientes. O SinAzucar trabalha com o valor total.

Sempre com a escolha de marcas de referência para aumentar a força dos alertas, as informações usadas pelo site saem dos rótulos dos próprios fabricantes dos produtos. Inicialmente, as fotos visavam aos itens com grandes quantidades de açúcar, como os refrigerantes, até que o fotógrafo percebeu que os alimentos mais surpreendentes negativamente eram aqueles em que o ingrediente era inesperado, a exemplo de molhos de tomate, molhos para salada ou iogurtes para bebês.

O imqucto positivo na Internet veio, conta um animado Antonio. Ele recebe, em média, 50 mensagens por dia, desde interações que trazem elogios ou críticas até as que apenas contêm dúvidas sobre o que consumir nas refeições. “A internet se tornou uma maneira de conseguir colaboradores que formam uma rede de compartilhamentos e trocas. Na Espanha, o SinAzucar já é visto por milhões de pessoas e funciona para entrar com o tema nos meios de comunicação tradicionais, jornais, rádio e TV”, enfatiza.

Atualmente, a iniciativa conta com 222 mil seguidores no Facebook, 152 mil no Instagram e 53 mil no Twitter. Apesar disso, não possui patrocínios. “Todos somos voluntários no projeto. Não temos nenhum tipo de apoio financeiro. É uma iniciativa voluntária”, ressalta o idealizador do trabalho.

Do cinema ao sono das crianças: pesadelo

Você vai ver um filme com a família. Para saborear “melhor” a experiência, compra pipoca doce e refrigerante para todos. É o combo “bomba de açúcar”. Segundo as fotos do SinAzucar, uma Coca-Cola tradicional em copo gigante tem, aproximadamente, 20 torrões de açúcar ou 79,5 gramas,  muito mais do que a quantidade máxima indicada por dia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 50 gramas. Esqueceu a pipoca? Ela é 50% açúcar. “Na prática, são 40 torrões e, então, quando sai do filme, você vai ao Burger King comer novamente, porque o nível de açúcar que ingeriu na sala de cinema faz você baixar o nível de açúcar no sangue e vem uma hipoglicemia”, argumenta Are.

Ainda dá para passar na Starbucks e tomar um café. Afinal, as crianças estão pilhadas e você precisa de energia até que durmam. Um cafezinho e quase 20 torrões de açúcar (80g) a mais te acompanharão. E não tem escapatória: se preferir uma lata de bebida energética, como o Red Bull, 13 torrões lhe descerão goela abaixo.

Chegada em casa. O leitinho dos filhos antes de deitar é obrigatório. Eles pedem a adição de chocolate em pó. Você topa e, se o achocolatado for o Nesquik, da Nestlé, a colher vai entrar e sair de uma embalagem que guarda 75,7% de açúcar na composição.

Você ainda não está na cama. O neném, que ficou com os avós durante a ida ao cinema, é o mais agitado e não caiu no sono. “Tem fome”, imagina o papai. Ele abre a geladeira e pega uma embalagem de iogurte “sabor natural” destinado a bebês, da Nestlé. É um copinho plástico. Pouco tamanho, mas açúcar de monte. O suficiente para que seu caçula vá dormir com mais 9 gramas (dois torrões e meio) do ingrediente no corpinho.

Nem as infusões preparadas para “acalmar” o sono infantil se salvam. Um mal exemplo é o Blevit Sueño, fabricado pela companhia Ordesa, da região da Catalunha, megaempresa que vende “complementos nutricionais” para crianças e adultos. Quarenta gramas do produto (dose recomendada para uma criança de 8 anos) possuem 38 gramas de açúcar, equivalente a 9,5 torrões. Quer dizer: só para adormecer, a pequena ou o pequeno devem ingerir quantidade próxima ao recomendado para todo o dia.

Tenha uma boa noite, se conseguir pregar o olho.

 

Pressão leve

Antonio Estrada Rodriguez conta que sofreu pressões da indústria, mas que, na maioria, elas foram “leves”. “Algumas me contataram, mas, de maneira amigável, para me dizer que o produto que eu fotografei não exemplificava todo o portfólio. Até pedem para retirar o produto, mas são presenças sutis, caminham com cuidado”, revela.            

O fotógrafo diz, no entanto, que um dos casos não foi de “pressão leve”. A mão pesada chegou em fevereiro de 2017, com a empresa de sucos Zumosol, que se sentiu atacada quando o projeto estampou uma imagem do Veggies Zumosol (um suco, em teoria, à base de verduras e frutas) ao lado de sete torrões de açúcar, ou seja, 28 gramas.

 “Até pedem (as empresas) para retirar o produto, mas são presenças sutis, caminham com cuidado”

Advogados exigiram que o SinAzucar removesse a foto. Enviaram um documento dando o prazo de três dias para a remoção da imagem e publicação de um texto “ditado por eles e que não poderia mudar em uma única vírgula, basicamente dizendo que os produtos eram super-saudáveis”. Antonio reagiu. Não aceitou que quisessem colocar palavras em sua boca. “Três minutos depois de receber o documento, eu o publiquei nas redes sociais como me havia chegado.”

A foto foi compartilhada muitas vezes e passou a despertar debates sobre o produto. Artigos na mídia abordavam a composição do Veggie Zumosol. “Se a Zumosol não tivesse feito nada, teria sido mais uma foto, mas a atitude fez com que aparecesse em jornais de circulação nacional e as pessoas diziam: ‘Ei, vejam que os sucos não são tão saudáveis’.”

De origem espanhola e vice-líder no segmento de sucos no país ibérico, a Zumosol foi adquirida, em 2013, pelo Toksöz Group, holding nascida na Turquia que atua nas áreas alimentar e farmacêutica. Já a foto do suco Veggie feita por Antonio jamais saiu do lugar.

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Ciência + ultraprocessados, de novo

Antonio R. Estrada é homem de múltiplas experiências. Como fotógrafo e esportista, acumula muitas viagens. Conhece bem cada solo onde pisa. Ele diz, sem titubear, que a Coca-Cola patrocina muitos eventos de nutrição (oh, surpresa!) na Espanha. “Isso, de alguma forma, pode condicionar publicações científicas, claro”, comenta.

Estrada conta que também é habitual encontrar produtos das corporações alimentares com selos de entidades de saúde que garantem “o quão saudável são sem que realmente sejam”. Tais organizações receberiam dinheiro em troca de referendar a qualidade dos itens.

O fotografo revela que, na Catalunha, um órgão de saúde pública chegou a distribuir, recentemente, uma espécie de guia da boa alimentação patrocinado pela Danone. No livro, principalmente direcionado aos pais de crianças, peças publicitárias estavam disfarçadas como textos institucionais. “Nas páginas sobre alimentação saudável dirigidas aos pais, havia produtos com nada de especial para as crianças. A marca e os textos publicitários estavam lá”, lembra.

De acordo com Antonio, tanto a questão dos eventos de nutrição quanto a publicidade de alimentos carecem de regulação na Espanha. Ele sabe do que está falando. Um dos principais itens a figurar no livro catalão era o Actimel, um leite fermentado que, para além dos ingredientes lácteos tradicionais do iogurte, contém um fermento específico, exclusivo da Danone, o probiótico L.Casei Danone, mais as vitaminas D e B6, formando um composto, que, segundo a fabricante, atua na flora intestinal e melhora a imunidade, dentre outros milagres. Mas, se considerarmos que um frasco de 100 g do produto leva 11,5 g de açúcares (11,5% da composição nutricional total, portanto), fica difícil acreditar que esse santo cumpra o que promete.

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The deep pockets of obesity science

How the ultra-processed food industry uses scientific research to undermine public policy, shift the focus and promote consumer habits

“We really thought that it would be possible to reach a good solution,” said Simón Barquera. A few weeks before, we saw his name in connection with the Latin American Scientific Committee of the Choices International Foundation, an organization created by the food industry to avoid warnings on front-of-pack labelling about (high) salt, fat and sugar content.

And we were surprised: Simón, Director of Mexico’s National Public Health Institute, is one of the leading names in Latin America in the field of obesity and chronic diseases and associate editor of the Public Health Nutrition. He is also a spokesperson for advocates of strong measures to control the effects of large companies on our lives.

“As one might imagine, there was no agreement whatsoever. The industry did not support our labelling proposals, did not support our advertising proposals, and did not support our proposal to withdraw junk food from schools,” he said.

At the turn of the decade, Mexico was preparing a strong agenda to regulate the food sector in response to its inclusion in the group of countries with the highest rates of obesity. As a result of industry efforts to hamper the progress of these proposals, Simón no longer has any doubt: it is impossible to sit down at the table when there are such conflicting interests at stake.

In Brazil, the alarm bells really started to ring at the turn of the century, when the main public research institute reported that 40.6% of the population was overweight, and that 11.1% of those people were obese, almost triple the number of people who were underweight. Nevertheless, the majority of public policies continued to focus on combatting poverty.

Seven years later came the news that 34.8% of five to nine-year-olds were overweight, with 16.6% suffering from obesity, four times the amount of those who were underweight. The percentage of overweight adults was already more than eight points higher, at 49%.

“In the past, people were tremendously influenced by industry dialogue in relation to the food system,” said Patricia Jaime, a professor at the Faculty of Public Health of the University of São Paulo (USP). When she arrived at the Ministry of Health as general coordinator for food and nutrition, in 2011, the conversation had shifted course. “The social determinants that we used to use were no longer sufficient to explain most of the problem.”

The global obesity epidemic highlighted the contradictions between the private funding of science and the scientific exercise of doubt, criticism and reflection. Until recently, the food industry was seen as responsible for filling our stomachs and, accordingly, it had every right to sit down at the table. However, over the past decades, it has become hard to ignore the role played by all those products in overweight. This is where science comes in: it is perfectly clear that studies were manipulated to conceal facts or shift the focus.

There are four main reasons for which a company will sponsor health-related research or events: to influence public policies, health experts, consumer habits and public image.

Change from within

In December 2015, the Brazilian Food Industry Association (ABIA) submitted a presentation by Choices to the regulatory agency responsible for debating labelling changes.

It is easy to understand that the creation of the foundation by Unilever is an attempt to avoid regulation by issuing a positive mark for products that have been reformulated to reduce calorie, sugar, salt and fat content, regardless of the quality of these products.

Just like the Latin American committee, the Brazilian scientific committee comprised eminent personalities in the sector: professors from the USP, the university with the best overall reputation in the country.

They were founders or are members of the Brazilian Food and Nutrition Society (SBAN), which has been embroiled in controversy through its defence of certain products. Professor Franco Lajolo also chairs the Scientific Committee of the International Life Sciences Institute (ILSI), an organization created by Coca-Cola and in which dozens of corporations aimed at the ‘production of knowledge’ used in the debate on public policies currently participate.

Professor Silvia Cozzolino chairs the Regional Council of Nutritionists in São Paulo, which has opposed the measures of the federal council for the sector in favour of greater distance from the private sector. She also rejects the regulation. “All the companies with which I am in contact and have talked about this in some way or another are concerned about the increase in obesity and are to a certain extent seeking product alternatives in terms of reducing sugar, salt and fat content.”

Trenches

Susan Prescott, a professor of paediatrics at the University of Western Australia’s School of Medicine, spent ten years on the Nestlé Nutrition Institute’s Advisory Board in Oceania. She says that she always questioned the conflicts created by that relationship because, as a paediatrician, she was increasingly noting problems caused by certain products. “Researchers who remain entrenched in their defence of ultra-processed foods are finding themselves on the wrong side of history. Even though by association, I was in fact lending my name to something I consider to be an unhealthy system.”

The last straw for Prescott came with an article written by Michael Gibney, a professor at the University of Dublin in Ireland. Gibney, also a member of Nestlé’s Nutrition Council, attacked the NOVA classification proposed in 2009 by the Brazilian researcher Carlos Monteiro.

The proposal involves classifying foods according to their degree of processing: in natura or minimally processed, processed and ultra-processed. It was an important change in perspective to guide scientific research that has demonstrated the role of ultra-processed foods in the obesity epidemic.

For Susan Prescott, the attacks on Carlos Monteiro were a case of bad faith. “Balanced criticism is an important factor in scientific progress. However, when I see attempts to discredit the NOVA system by people funded by the industry, I can only conclude that those efforts are typical of intellectual escapism,” she said.

Genesis

Not all science resulting from private research is necessarily bad or should be discredited. One should remember that nothing in life is neutral. Consequently, there are scientists whose ideological vision pushes them to reach a certain conclusion. That is part of the game. What is not part of the scientific game is ignoring relevant aspects simply because they do not meet their assumptions or the assumptions of their sponsors.

“Research is not influenced by the industry. Nor is it influenced at the time of writing the article for publication,” said Felix Reyes, a professor at the Faculty of Food Engineering at the University of Campinas, also very well known in Brazil, and founder of the ILSI. “Regardless of whether or not the result is of interest to the company, it is a scientific result. Scientific data should be published. Our role is not to protect or expose a company. We will help it. If the result is negative for the company, we will find a way of avoiding that negative effect.”

In 2007, a group of US researchers analysed 222 articles published between 1999 and 2003, 22% of which had been funded exclusively by food company capital. The conclusions of each piece of research were evaluated by people who were unaware of the source of the funding. The proportion of conclusions that were unfavourable to the industry in those articles that had received industry money was 0%. The proportion of favourable results was almost eight times greater in those works than in those funded with public resources.

In 2013, a group of Spanish scientists analysed 18 articles reviewing soft drinks. Of six works financed by the industry, five disregarded the link between obesity and the consumption of such drinks or adopted an inconclusive stance. Works of established importance were ignored by the authors. “The interests of the food industry (increased sales of their products) differ greatly to the interests of the majority of researchers (the honest pursuit of knowledge),” was the conclusion.

Recently, a group of researchers from the University of California went through the way in which the sugar industry pointed the finger at fat for decades. What was demonstrated was that, already in the 1950s, there was evidence of the link between sugar and heart disease. A foundation was created to lay all the blame on fat, the consequence of which was that official health recommendations advocated low-fat diets, which in turn may have caused many deaths (we will never know how many).

Shifting the focus

At a recent event in São Paulo, the physician Mário Cícero Falcão, from the Children’s Institute at the USP’s Hospital das Clínicas, whose work is sponsored by Johnson and Aché, presented a slide from 2000 linking infant formulas to richer intestinal flora than in infants fed with breast milk, admitting that it is now acknowledged that this is not true.

Mistakes can be made. Scientific discoveries mean that consensus is constantly changing. But we are not talking about that: we are talking about how science was used to mislead generations of mothers into mistakenly thinking that breast milk is weak, inadequate and deficient. This belief is still widespread.

Faith can move mountains of money

DNA sequencing technologies have advanced in such a way as to promote the unprecedented mapping of our intestinal microbiome, which is the range of microorganisms living in the digestive tract. One of the greatest discoveries is that the gut composition of obese people differs to that of thin people.

We should reach an obvious conclusion: just change the way we eat so that our microbiome regenerates. But, then, an entire event in the area of nutrition would be summarized in one sentence: “Eat real food”. In a nutshell, industry sponsorship of grandiose conferences would be unnecessary and thus fall apart. As would the need to finance certain research. The capacity to cause huge confusion in the minds of people about what to eat and what not to eat. Billions in advertising. The manufacture of supplements, fortified foods, functional foods, probiotics, prebiotics and synbiotics. Billions in ‘solutions’ for obesity.

PubMed, one of the main scientific works databases, has registered almost 5,000 articles on the issue last year, in addition to 6,000 in 2016 and 5,350 in 2015. A decade earlier, there were fewer than 500 a year and, going back a little further, at the turn of the century, not even 100 were registered.

“What worries me is that this agenda has come very much from the industry, which promotes a series of products, primarily dairy, which affect microbiota. They also want to promote that link with obesity. It worries me because the focus on the basics, such as sugar consumption, doesn’t have the same backing,” protested Mexico’s Simón Barquera.

As for the correlation between sugar and obesity, there have been fewer than 1,000 articles published last year. There were 2,000 in 2016 and 2,500 in 2015. Is it easier to imagine that a billion people around the world will lose weight by consuming probiotics or by finding out about the influence of sugar on diet?

The reasons

Some of those researchers are chosen because they have great technical ability. But we have the right to know that, in that situation, this person is the consultant of a corporation and not a faculty professor. However, using the credibility of an institution is a central part of the story.

“Often what the food industry wants is not to co-opt the person to praise the industry and its products. It simply wants the person not to criticize”, said Carlos Monteiro, a professor at the USP’s Faculty of Public Health. He is one of the leading critics of the relationship between industry and science, and also one of the most criticized by the leading companies.

Despite having participated in the creation of the SBAN, he decided to move away. “Investment in university professors can be very ‘productive’ for the industry. A professor is in contact with hundreds of young people and can reach a lot of people. That forms part of the co-opting strategy. The solution to that is to have a code of ethics and conflicts of interest. It is important to be clear.”

At an event in São Paulo, the president of Cargill said that he had 500 PhD researchers working in the field of animal nutrition alone. If he has so many people with the ability to carry out research full-time, why does he need to attract professors from the best universities in the country? Because we tend to believe professors and mistrust company representatives. Professors are noble disseminators of knowledge, whilst company representatives are mundane spreaders of propaganda.

In the academic field, successive reductions in budgets have meant that the money from major companies represents salvation for increasing numbers of people.

“It is no longer only the major tobacco corporations. The public health authorities also have to fight hard against the major food, soft drink and alcohol companies. All those industries are scared of regulation and protect themselves using the same tactics,” stated the then WHO director-general Margaret Chan at the opening of a conference on health in 2013.

She said that she had no doubt that the states’ fear of corporations was the main factor hampering the regulation of the factors causing obesity. “[The tactics] include front organizations, lobbies, promises to self-regulate, legal action and industry-funded research that confuses the evidence and keeps the public doubting.”

Los rebosantes bolsillos de la ciencia de la obesidad

Cómo la industria de alimentos ultraprocesados utiliza la investigación científica para menoscabar las políticas públicas, desviar el foco y promover hábitos de consumo

“Estábamos ilusionados de que se podía llegar a una buena solución”, dice Simón Barquera. Algunas semanas antes, vimos su nombre asociado al Comité Científico Latinoamericano de Choices International Foundation, una organización creada por la industria alimentaria para evitar la adopción de un etiquetado con advertencias acerca de las (altas) proporciones de sal, grasa y azúcar.

Y nos sorprendió: Simón, director del Instituto Nacional de Salud Pública de México, es uno de los grandes nombres latinoamericanos en el ámbito de la obesidad y las enfermedades crónicas y editor asociado de Public Health Nutrition. Además, ejerce de portavoz de quienes defienden medidas contundentes para frenar los efectos de las grandes empresas en nuestras vidas.

“Como uno puede imaginarse, no hubo ningún acuerdo. La industria no apoyó ni nuestras propuestas de etiquetado, ni las relativas a la publicidad, ni la propuesta de retirar la comida basura de los colegios”, nos cuenta.

En el cambio de década, México estaba preparando un sólido programa para regular el sector de la alimentación como respuesta a haber entrado en el grupo de países con mayores índices de obesidad. Los esfuerzos de la industria para evitar el avance de estas propuestas sacan de dudas a Simón: no es posible sentarse a la mesa cuando hay intereses tan opuestos.

En Brasil, la luz ámbar se encendió con el cambio de siglo, cuando el principal instituto de investigación denunció un índice del 40,6% de sobrepeso, un 11,1% del cual correspondía a personas obesas, casi tres veces más que el número de personas con falta de peso. Sin embargo, la mayor parte de las políticas públicas seguían orientadas a combatir la miseria.

Siete años más tarde salió la noticia de que el 34,8% de los niños de entre 5 y 9 años padecían sobrepeso y el 16,6% obesidad, cuatro veces más que el porcentaje que presentaba un peso insuficiente. Entre los adultos, el sobrepeso ya alcanzaba el 49%, un porcentaje superior en más de ocho puntos.

“Antiguamente, la gente veía el sistema alimentario muy influenciada por el diálogo con la industria”, dice Patricia Jaime, profesora de la Facultad de Salud Pública de la Universidad de São Paulo (USP). Cuando llegó al Ministerio de Salud como coordinadora general de Alimentación y Nutrición, en 2011, el debate ya había cambiado de rumbo. “Los determinantes sociales que solíamos usar ya no servían para explicar buena parte del problema”.

La epidemia mundial de obesidad puso de relieve las contradicciones entre la financiación privada de la ciencia y el ejercicio científico de la duda, la crítica y la reflexión. Hasta hace poco tiempo la industria alimentaria era vista como la responsable de acabar con el hambre. Por eso, tenía todo el derecho de sentarse a la mesa. Sin embargo, en las últimas décadas, viene resultando cada vez más difícil ignorar la incidencia de sus productos en el sobrepeso. Es aquí donde la ciencia entra en juego: está muy claro que se han manipulado estudios para ocultar pruebas o desviar el foco de atención.

Este es un debate reciente en todo el mundo. Hoy Simón Barquera tiene una posición clara; hace siete u ocho años veía la cuestión de otra forma. “En México, la industria está involucrada en todas las tomas de decisiones sobre la prevención de la obesidad, así que es difícil aprobar algo. Tienen voz y voto.”

Los motivos por los que una empresa patrocina una investigación o un evento en el ámbito de la salud se concentran en cuatro aspectos: influir en las políticas públicas, los profesionales de la salud, los hábitos de consumo y la imagen pública.

Cambiar por dentro

En diciembre de 2015, la Asociación Brasileña de las Industrias de la Alimentación (ABIA) llevó una presentación de la fundación Choices a la agencia reguladora encargada de debatir modificaciones en el etiquetado.

Resulta fácil entender que la fundación, creada por Unilever, intenta evitar una regulación al conceder un sello positivo a los productos reformulados para reducir los niveles de calorías, azúcar, sal y grasa; no importa si son un aperitivo salado, un refresco o una galleta.

Siguiendo el ejemplo del comité latinoamericano, el comité científico brasileño contaba con nombres conocidos en el sector: profesores de la USP, en general, la universidad con mejor reputación del país.

Fueron fundadores como miembros actuales de la Sociedad Brasileña de Alimentación y Nutrición (SBAN), que se ha visto envuelta en polémicas por haber defendido determinados productos. El profesor Franco Lajolo también preside el Comité Científico del International Life Sciences Institute (ILSI), una organización creada por Coca-Cola en la que hoy participan decenas de corporaciones dedicadas a la “generación de conocimiento” que se utiliza para debatir sobre políticas públicas.

La profesora Silvia Cozzolino es la presidenta del Consejo Regional de Nutricionistas de São Paulo, que se ha opuesto a las medidas del consejo federal del sector favorables a mantener una mayor distancia con el sector privado. Ella también se opone a la regulación. “Todas las empresas con las que tengo contacto y con las que de una forma u otra he hablado sobre la cuestión están preocupadas por el aumento de la obesidad y en cierto modo buscan alternativas para reducir el azúcar y la cantidad de sal y de grasa de los productos.”

Trincheras

Susan Prescott, profesora de pediatría en la Facultad de Medicina de la Universidad de Australia Occidental, formó parte durante diez años del Consejo Consultivo del Instituto de Nutrición de Nestlé en Oceanía. Dice que siempre cuestionó los conflictos creados por esa relación porque, como pediatra, iba viendo los problemas que cada vez con mayor frecuencia causaban ciertos productos. “Investigadores que se mantenían atrincherados en la defensa de los alimentos ultraprocesados ahora descubren que se hallan en el lado equivocado de la historia. Incluso por asociación, de facto estaba prestando mi nombre a algo que considero un sistema no saludable.”

Para Prescott, la gota que colmó el vaso fue el artículo que encabezaba Michael Gibney, profesor de la Universidad de Dublín (Irlanda). Gibney, también miembro del Consejo de Nutrición de Nestlé, atacó la clasificación NOVA que el investigador brasileño Carlos Monteiro propuso en 2009.

La propuesta consiste en clasificar los alimentos según el grado de procesado: alimentos sin procesar o mínimamente procesados, procesados y ultraprocesados. Fue un cambio de perspectiva importante que sirvió para orientar las investigaciones científicas que han puesto de relieve el papel de los alimentos ultraprocesados en la epidemia de la obesidad.

Para Susan Prescott, los ataques a Carlos Monteiro fueron un caso de mala fe. “La crítica equilibrada es un factor importante para el progreso científico. Sin embargo, cuando veo intentos de desacreditar el sistema NOVA por parte de personas financiadas por la industria, solo puedo llegar a la conclusión de que estos esfuerzos son característicos del escapismo intelectual”, dice Susan.

Génesis

No toda la ciencia producida con recursos privados es necesariamente mala o se debe desacreditar. Recordemos que nada en la vida es neutro. Así pues, hay científicos cuya visión ideológica favorece el que se llegue a una u otra conclusión. Forma parte del juego. Lo que no forma parte del juego científico es no tener en cuenta elementos relevantes simplemente porque no se corresponden con sus premisas o las premisas de sus patrocinadores.

“El estudio no está influenciado por la industria. Tampoco influye al escribir el artículo a publicar”, dice Felix Reyes, profesor de la Facultad de Ingeniería Alimentaria de la Universidad de Campinas, en São Paulo, y fundador del ILSI. “Independientemente de si el resultado interesa o no a la empresa, es un resultado científico. Los datos científicos se deben publicar. Nuestra función no es proteger a una empresa o no. La ayudamos. Si el resultado es negativo para la empresa, buscaremos una forma de evitar ese efecto negativo.”

En 2007, un grupo de investigadores de los Estados Unidos analizó 222 artículos publicados entre 1999 y 2003; el 22% de ellos había sido financiado exclusivamente por capital de empresas alimentarias. Las conclusiones de cada investigación las evaluaron personas que desconocían el origen de la financiación. La proporción de conclusiones desfavorables a la industria en los artículos que habían recibido dinero suyo fue del 0%. En cuanto a la proporción de resultados favorables, fue casi ocho veces mayor en esos trabajos que en los financiados con recursos públicos.

En 2013, un grupo de científicos españoles analizó 18 artículos de revisión sobre bebidas azucaradas. De los seis trabajos financiados por la industria, cinco no vinculaban la obesidad con el consumo de este tipo de bebidas o adoptaban una postura no concluyente. Sus autores habían ignorado trabajos de relevancia probada. “Los intereses de la industria alimentaria (que quiere aumentar sus ventas) son muy diferentes de los intereses de la mayoría de investigadores (que busca honestamente el conocimiento)”, señala la conclusión.

Recientemente, un grupo de investigadores de la Universidad de California sacó a la luz cómo la industria azucarera durante décadas señaló a las grasas. Lo que se ha demostrado es que ya en la década de los cincuenta había pruebas de la relación entre el azúcar y las enfermedades cardíacas. Se creó una fundación para echar todas las culpas a las grasas, lo que llevó a que las recomendaciones oficiales sobre salud defendieran dietas bajas en grasa, cosa puede haber provocado muchas muertes (jamás sabremos cuántas).

Desviación del foco

En un evento reciente en São Paulo, el médico Mário Cícero Falcão, del Instituto del Niño del Hospital das Clínicas de la USP, con trabajos patrocinados por Johnson y Aché, presentó una diapositiva del año 2000 en la que vinculaba las fórmulas infantiles a una flora intestinal más rica que la de los bebés alimentados con leche materna. Admitió que hoy se sabe que esto no es cierto.

Los errores se producen. Los hallazgos científicos hacen que los consensos estén en constante transformación. Pero no estamos hablando de esto: hablamos de cómo se ha utilizado la ciencia para inducir a generaciones de madres a pensar erróneamente que la leche materna es pobre, escasa e incompleta. Una idea aún extendida.

La fe mueve montañas de dinero

Las tecnologías de secuenciación genética han avanzado de tal forma que se ha promovido un mapeo inédito de nuestro microbioma intestinal, el conjunto de microorganismos que viven en el tracto digestivo. Uno de los grandes hallazgos es que la composición digestiva de las personas obesas es diferente a la de las delgadas.

Deberíamos llegar a una conclusión obvia: basta con modificar la alimentación para que el microbioma se regenere. Pero, entonces, todo un evento del sector de la nutrición podría resumirse en una sola frase: “Coman alimentos de verdad”. Es decir, dejaría de ser necesario, y se vendría abajo el patrocinio de esos pomposos encuentros por parte de la industria alimentaria como también la necesidad de financiar determinadas investigaciones.  Y la capacidad de provocar una enorme confusión en la cabeza de las personas sobre qué comer y qué no. Miles de millones en publicidad. La fabricación de suplementos, alimentos enriquecidos, funcionales, probióticos, prebióticos y simbióticos. Miles de millones en “soluciones” para la obesidad.

PubMed, una de las principales bases de datos de trabajos científicos, ha registrado  este año casi cinco mil artículos sobre el tema, sumados a los 6.000 de 2016 y a los 5.350 de 2015. Hace una década, eran menos de quinientos al año y, retrocediendo un poco más en el tiempo, en el cambio de siglo, no llegaban al centenar.

“Lo que me preocupa es que esta agenda ha venido muy desde la industria, que promueve una serie de productos, sobre todo lácteos, con efectos para la microbiota. Y quieren promover este vínculo con la obesidad. Me preocupa porque la atención sobre cosas básicas, como el consumo de azúcar, no cuenta con el mismo apoyo”, lamenta el mexicano Simón Barquera.

El año pasado hubo menos de mil artículos relativos a la correlación entre azúcar y obesidad; hubo 2.000 el 2016 y 2.500 en 2015. ¿Qué es más fácil de imaginar: que mil millones de personas de todo el mundo adelgacen a base de probióticos o porque conocen la influencia del azúcar en la dieta?

Los motivos

Algunos de estos investigadores han sido seleccionados porque tienen una gran capacidad técnica. Pero tenemos derecho a saber que tal persona, que ocupa ese cargo,  está en calidad de consultor de una empresa y no de profesor de una facultad. No obstante, el elemento central de la historia es el hecho de utilizar la credibilidad de la institución.

“Muchas veces lo que la industria alimentaria quiere no es cooptarlo en el sentido de que hable bien de la industria y de sus productos, solo que no la critique”, dice Carlos Monteiro, profesor de la Facultad de Salud Pública de la USP. Él es uno de los nombres más críticos con la relación entre la industria y la ciencia, y también uno de los más criticados por parte de las grandes empresas.

Pese a haber participado en la fundación de la SBAN, decidió alejarse de ella. “Para la industria resulta muy ‘productivo’ invertir en profesores de universidad. El profesor está en contacto con centenares de jóvenes, puede llegar a mucha gente. Eso forma parte de la estrategia de la cooptación. La solución es tener un código ético, de conflictos de intereses. Es importante que se explicite.”

Durante un evento en São Paulo, el presidente de Cargill dijo contar con 500 doctorados solo en el ámbito de la nutrición animal. Si dispone de tanta gente capacitada para investigar a tiempo completo, ¿por qué captar profesores de las principales universidades del país? Porque tendemos a creer en el profesor y a desconfiar del representante de una empresa. El primero comparte saber. Es noble. El segundo hace publicidad. Es mundano.

Doc reforça necessidade de sinais de advertência em ultraprocessados

‘Os rótulos estão gritando a mensagem errada’, do canal Do Campo à Mesa, reúne evidências de que triângulo proposto à Anvisa passa mensagem clara sobre alimentos que devem ser evitados

Um minidocumentário lançado esta semana reforça os argumentos em favor da adoção de sinais de advertências nas embalagens de alimentos ultraprocessados. Os rótulos estão gritando a mensagem errada foi produzido e dirigido por Francine Lima, do canal Do Campo à Mesa.

Com duração de 18 minutos, o vídeo disponível no YouTube parte da leitura de que os rótulos hoje disponíveis nos supermercados chamam a atenção para uma série de informações erradas ou que visam a simplesmente desviar o foco da composição nutricional.

Pesquisadores universitários e representantes de ONGs reforçam a necessidade de adotar sinais de advertência frontais similares aos existentes desde 2016 no Chile. O modelo foi proposto pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e está em debate na Anvisa, em contraposição ao sistema defendido pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia). A expectativa é de que a agência tome uma decisão ainda este ano.

Como já mostramos no Joio, a Abia quer a adoção de uma espécie de semáforo. Para cada nutriente, o símbolo mostraria as cores verde, amarela e vermelha. Isso forçaria o consumidor a cruzar até 243 informações diferentes para cada rótulo. As evidências científicas mostram que as pessoas gastam em média quatro segundos para escolher um produto, ou seja, pode ser muito difícil analisar tantos campos diferentes.

Além do Chile, o Canadá se prepara para adotar os sinais de advertência. Por lá, a agência de saúde não teve dúvidas e já partiu do pressuposto de que esse modelo comprovadamente funciona melhor que os demais. No Uruguai, falta apenas a assinatura do presidente Tabaré Vázquez para o alerta virar realidade. E o Peru também está próximo de fechar posição por esse sistema.

Crescem reações à relação entre ciência e indústria de ultraprocessados

Eventos sem patrocínio de corporações, manifestos e um código de ética claro sobre as relações entre nutricionistas e marcas dão sinais de novos ventos na área

A presença da indústria de ultraprocessados na realização de pesquisas e eventos na área de alimentação e nutrição tem sido alvo de crescentes críticas. A explosão da epidemia de obesidade e doenças crônicas, associada a evidências de manipulação de trabalhos científicos e de interferência em políticas públicas, vem fazendo com que surjam mais contestações à relação entre pesquisadores e o setor privado. Isso não é mensurável por índices quantitativos, mas a corrente da ciência que defende repensar essa situação tem ganho corpo nos últimos anos.

Recentemente falamos sobre o caso de Susan Prescott, professora de pediatria na Escola de Medicina da Universidade da Austrália Ocidental que decidiu abandonar a consultoria que dava a Nestlé e afirmou que os cientistas próximos à indústria têm ficado cada vez mais “entrincheirados” porque sabem que estão do lado errado da história. “Isso diz respeito a muito mais do que apenas alimentos ultraprocessados ou uma grande empresa. É sobre um sistema falido que está destruindo nossa saúde, nossas comunidades e nosso ambiente.”

O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) debateu a formulação de um novo código de ética. O documento tem um capítulo inteiro dedicado às relações dos profissionais com o setor privado, justamente o tópico que despertou mais polêmica na consulta pública encerrada no ano passado. “Uma das críticas é de que a indústria de alimentos é um campo de trabalho importante da nutricionista. Você pode trabalhar lá, só que existem alguns limites do que você pode expressar nessa relação”, diz Thais Salema, integrante da Comissão Especial do Código de Ética.

O documento foi aprovado em breve e será lançado durante o Congresso Brasileiro de Nutrição (Conbran), em abril. A ideia é impor limites a artigos e eventos patrocinados. O código proibirá que o nutricionista trabalhe em espaços de promoção de produtos, realize venda casada, utilize material promocional durante a consulta e associe a imagem a uma empresa — prática adotada por profissionais em tempos de redes sociais.

“Queremos um código que dê autonomia ao profissional, mas que, ao mesmo tempo, proteja a sociedade dos excessos que possam ocorrer. O documento deve ser uma ferramenta de proteção ao nutricionista e à sociedade”, resume a conselheira Maria Adelaide Wanderley Rego, que participou da elaboração do texto.

Os problemas causados pelo uso de redes sociais são uma clara preocupação do documento. Muitas e muitos nutricionistas têm Facebook e Instagram como espaço de divulgação do trabalho. Fotos de “antes e depois” e associação a marcas com efeitos milagrosos foram uma consequência quase “natural” dessa situação.

O Brasil tem cerca de 130 mil nutricionistas, segundo os números mais recentes do CFN. O documento foi elaborado a partir das contribuições enviadas pela categoria, tentando pensar naquilo que poderia significar a violação de um valor ou um princípio fundamental em relação à vida humana.

“A riqueza desse processo foi a reflexão do nutricionista, do papel na sociedade, parar para pensar nas suas práticas. Esse processo de desnaturalização já começou a acontecer”, diz Thais Salema. “Mas isso depende do perfil da pessoa. Se a pessoa tem um perfil mais aberto ao aprendizado e à mudança, ou se é uma pessoa que se sente afetada e ofendida por sempre ter tido um tipo de prática e agora vê esse tipo de prática sendo questionado.”

A principal oposição ao novo código partiu do Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região, que abrange São Paulo e Mato Grosso do Sul. O mesmo grupo havia se oposto ao Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, que despertou críticas por parte da indústria, insatisfeita com a recomendação de que se evite o consumo de ultraprocessados.

A atual presidente do CRN3, Silvia Cozzolino, manifestou-se contra o rumo do debate sobre conflito de interesses durante um evento promovido pelo CFN. Na entrevista que nos concedeu, ela disse que gostaria de ver alterações nos artigos do novo código a respeito do relacionamento com o setor privado e na interação com redes sociais. “Todos esses dois, três anos que se discutiu o Código de Ética do Nutricionista, percebemos que há uma corrente conservadora, que acha que isso não deve ser feito, e uma corrente mais aberta, que acha que pode ser feito, desde que com determinados parâmetros. Então, eu não vejo como deixar a internet de lado”, argumenta. “Do meu ponto de vista não deveria haver barreiras. A única barreira deveria ser a ética do nutricionista, a responsabilidade que ele tem para fazer ações que promovam a saúde.”

Fôlego novo

Em agosto de 2015, a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), que já foi presidida por Cozzolino, teve a realização de seu congresso anual contestada: “A Executiva Nacional dxs Estudantes de Nutrição vem a público repudiar a Política de Patrocínio da Comissão Organizadora do 13º Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, que aceita como financiadores do seu evento de maior notoriedade grandes corporações da Indústria de Alimentos, como: Danone®, Nestlé®, Unilever®, Piracanjuba®, Herbalife® e a Coca-Cola®. Está claro que essas empresas buscam na aproximação e articulação com a comunidade acadêmica/científica promoverem suas marcas, e por consequência, seus produtos, que reconhecidamente comprometem a Soberania Alimentar e a Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos.”

Em Brasília, pouco tempo antes, a Reitoria da UnB havia fechado parceria com o Instituto de Bebidas para a Saúde e o Bem-Estar, da Coca-Cola, para a realização do 1º Seminário sobre Atividade Física e Esporte na Saúde, que foi evento de abertura da Semana Universitária daquele ano. O Centro Acadêmico da Nutrição emitiu nota de repúdio: “O investimento empresarial no espaço acadêmico busca legitimar seu discurso, fortalecer sua imagem frente aos formadores de opinião no espaço da saúde, minimizando a própria contribuição no cenário da obesidade mundial e culpabilizando o indivíduo.”

Esse debate é recente, mas vem tomando fôlego desde o começo da década. Em 2012 o Brasil sediou o World Nutrition Rio, um grande evento da Associação Mundial em Nutrição e Saúde Pública. Já havia consenso prévio entre os organizadores de que se deveria realizar o encontro sem contar com financiamento do setor privado de alimentos, e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), responsável por viabilizá-lo, tinha experiência no assunto.

Para Inês, o evento de 2012 no Rio serviu para expor o incômodo com a presença da indústria

Os organizadores sabiam que seria preciso segurar a mão nos gastos. Em vez de escolher um espaço luxuoso, decidiu-se pela sede da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que não está, digamos, um primor em termos de conservação. “Muita gente achava que não dava para ter congresso aqui. Se o prédio serve para ter aula, por que não serve para ter congresso? Se é um congresso no terceiro mundo, vamos mostrar o que é o terceiro mundo. Não dá para fingir que vive em outra realidade”, diz Inês Rugani, professora do Instituto de Nutrição da Uerj e uma das coordenadoras do encontro.

Alguns professores aceitaram custear em parte ou integralmente as passagens. E o patrocínio do Ministério da Saúde foi fundamental. “Foi ficando claro o desconforto que as pessoas tinham com a presença da indústria. É uma presença acachapante. Mas todo mundo trabalhava com essa ideia da inevitabilidade”, diz Inês.

Vários dos pesquisadores com quem conversamos elencaram justamente essa questão: congressos desse tipo custam muito caro e é difícil viabilizá-los sem recursos privados. “Você já organizou algum evento? Eu, já”, afirmou Silvia Cozzolino. “Para fazer um evento, convidando pessoas de gabarito internacional, pagando passagem, hospedagem e tudo o mais, você não consegue fazer se não tiver o apoio das empresas. Eu acho um absurdo essa história de proibirem empresas de patrocinar. Infelizmente a gente vive num país em que a maioria dos nossos políticos são questionáveis, mas em ciência… pode até haver, mas em geral as pessoas são éticas e responsáveis.”

Quando o World Nutrition foi organizado, havia vários sinais de influência pesada da indústria de alimentos para direcionar pesquisas. Havia debates no exterior sobre como limitar essa influência. E eram crescentes as evidências de que as corporações têm uma responsabilidade grande pela epidemia de obesidade e por uma série de doenças associadas, com contestações sobre o papel que poderiam desempenhar sentadas à mesa para debater a formulação de políticas públicas.

Em 2013, um grupo de pesquisadores brasileiros deu sequência à discussão com a criação da Frente pela Regulação da Relação Público-Privado em Alimentação e Nutrição. Em 2014, o Congresso Brasileiro de Nutrição (Conbran), maior evento da área, foi contestado devido ao patrocínio de grandes empresas. No mesmo ano, o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, adotou a recomendação forte contra os ultraprocessados.

Elisabetta Recine: “Em nome de acabar com a fome no mundo, você tem práticas profundamente conflitantes”

“O Conbran era um congresso que você passeava numa feira da indústria de alimentos e depois entrava na sala e falava sobre fatores de risco de doenças crônicas. Era a própria contradição”, diz Elisabetta Recine, professora da Universidade de Brasília e presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). “Um dos méritos do World Nutrition foi inaugurar no Brasil, e contribuir para isso no plano internacional, a discussão dos conflitos de interesse em nutrição. Esse é até hoje um tema extremamente encoberto e complexo. Em nome de acabar com a fome no mundo, ou fazer as criancinhas comerem melhor, você tem práticas profundamente conflitantes. E isso fica encoberto pela declaração da intenção.”

Em nível regional

Em 2015, nova contestação. Um abaixo-assinado pediu a proibição do patrocínio da indústria de bebidas e alimentos nos eventos da Sociedade Latino-americana de Nutrição (Slan). O documento era assinado por alguns dos maiores nomes da pesquisa científica na região, e resultou na criação de um grupo de trabalho para discutir os limites da relação com as empresas.

Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenador do grupo que redigiu o Guia Alimentar, estava entre os signatários do manifesto. Ele tem sido uma das vozes mais fortes no Brasil contra os efeitos da relação entre ciência e indústria de ultraprocessados. “Chega a indústria de alimentos ou o laboratório farmacêutico e oferece aos organizadores recursos para bancar todas as despesas. Todos os problemas financeiros são solucionados e ainda há a possibilidade de a sociedade profissional ficar com boa parte do dinheiro arrecadado com as inscrições”, afirma. “Há formas de se organizar congressos sem fontes de financiamento com conflito de interesses, mas dá trabalho. Então, muitos preferem a via mais fácil e se tornam dependentes deste financiamento.”

Esse é o dilema que se coloca tanto para a realização de pesquisas como de eventos: saindo o setor privado, o que ficará no local? Os próprios organizadores do evento no Rio em 2012 entendem que o apoio do Ministério da Saúde naquele momento foi crucial. Sem ele, portanto, seria difícil dar conta de todas as despesas. Muitos dos membros das sociedades científicas estão com mensalidades atrasadas, dificultando o custeio do básico.

No caso das pesquisas, o setor público tem enxugado cada vez mais os recursos, criando uma grande dificuldade para os cientistas. Na USP, ex-reitores e quadros altos das últimas administrações têm defendido que cada unidade se encarregue de buscar dinheiro no setor privado como der. Isso cria um dilema ético, já que as empresas não financiarão nada que lhes seja desfavorável. E um dilema prático, já que é inimaginável que as empresas se interessem por certos assuntos. A universidade pública é, justamente, o espaço em que certas coisas podem existir a despeito do lucro.

Evento na UnB causou indignação com patrocínio e presença de diretora da Coca

“Penso que uma solução seria a criação de fundações de apoio a pesquisa que fossem independentes e que recebessem doação de empresas sem estabelecimento de qualquer relação contratual com o objetivo das pesquisas”, sugere Veridiana Vera de Rosso, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação Alimentos, Nutrição e Saúde da Universidade Federal de São Paulo. “Acho extremamente prejudicial o financiamento de grandes eventos científicos pelo setor privado, tendo em vista que a programação científica é também frequentemente direcionada para atender aos interesses das empresas.”

Em agosto de 2017, o comitê criado pela Sociedade Latino-americana de Nutrição emitiu um documento que recomenda evitar relações com a indústria de ultraprocessados. O texto indica que o conflito de interesses não é corrupção, mas uma porta aberta à corrupção, e que é comprovado que leva a distorções na ciência. Por fim, alerta que essa situação é mais grave na área de saúde devido aos impactos que as decisões podem ter na vida da população. “Estou muito otimista de poder organizar um congresso livre de conflito de interesses”, nos disse Juan Rivera, atual presidente da sociedade.

Daqui por diante, o patrocínio dessas empresas só será aceito caso se comprove indispensável, e ainda assim após passar pelo crivo de um comitê. Deve-se também evitar a distribuição de brindes e de material promocional de qualquer tipo. Simón Barquera, do Instituto Nacional de Saúde Pública do México e um dos grandes nomes da América Latina na definição de políticas públicas em alimentação, encabeçou o grupo que definiu as regras. “Temos que nos mover a uma agenda real, a uma agenda que não seja a da indústria”, diz. Ele alerta que a situação é muito mais complexa do que se pensa e que em alguns casos pode ser necessário recorrer a especialistas em ética para definir o que é conflito de interesses. “Não é dividir a sociedade acadêmica entre os que têm e os que não têm. Não dá para dizer que quem tem conflito deve sair daqui e não falar nunca mais. O que se tem que fazer é fomentar uma cultura de transparência e de gestão desses conflitos.”

Reação

O conjunto de ações suscitou uma reação no grupo de pesquisadores mais favoráveis a relações com a indústria. “Chega de arrogância e extremismo nos congressos de Nutrição!”, dizia um abaixo-assinado criado por um grupo que se intitulou Movimento Nutrição Saudável.

O contra-manifesto atacava especificamente o abaixo-assinado apresentado durante o evento latino-americano e fazia uma defesa das empresas, vistas como promotoras de inovação, empregos e desenvolvimento econômico. Acusava ainda haver uma “ditadura de opinião” e uma tentativa de constranger profissionais, afastando do debate o bom senso necessário ao exercício da ciência.

“O que temos assistido em nossos eventos científicos? Um ativismo político ensaiado, com doses de autoritarismo, arrogância na maneira de se comunicar e desrespeito a cientistas, pesquisadores, professores e demais participantes dos eventos. A obesidade tem causas multifatoriais, enquanto as políticas públicas em nutrição são ineficazes e as intervenções, pífias. Nesse cenário desolador, os ativistas querem atribuir culpa exclusiva ao consumo dos alimentos classificados inapropriadamente em função de seu processamento.”

O texto fazia um desagravo a Sonia Tucunduva Philippi, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ela é quem trouxe ao Brasil a pirâmide alimentar, que funcionava como instrumento de orientação para profissionais até o Guia de 2014. O grupo de Carlos Monteiro adotou um slide com um XIS sobre a pirâmide, indicando que aquela era havia acabado.

“São manifestações não éticas que tentam impor modelos autoritários e que, se contrariam o atualmente estabelecido pelo grupo, são recebidos com esse tipo de postura do X na figura”, disse Sonia. “Acredito que houve uma intenção de agressão pessoal, mas os trabalhos e minha reputação na área fizeram com que esse ato isolado trouxesse adesão e maior solidariedade ao meu trabalho.”

Enquanto isso, uma nova gestão da Associação Brasileira de Nutrição resolveu que o Conbran adotaria uma postura mais rigorosa na relação com empresas. Logo de cara esse compromisso foi publicizado para evitar que, na hora da dificuldade, um documento de uso interno acabasse desconsiderado para dar lugar às políticas de patrocínio tradicionais.

Bebidas de baixo teor nutricional, alimentos desbalanceados, transgênicos, produtos milagrosos e redes de fast-food foram os primeiros riscados da lista. Daí por diante, houve um longo caminho a percorrer na organização do congresso de 2016, em Porto Alegre. O primeiro passo era analisar as informações nutricionais de todos os produtos fabricados por uma empresa interessada em financiar o evento. Quem passava por essa etapa tinha as relações políticas, ambientais e trabalhistas analisadas: não adianta fabricar um produto excelente se no fornecimento de matérias-primas são incentivados o desmatamento e o trabalho escravo.

“A prática foi muito trabalhosa. Eu me decepcionei muitas vezes, especialmente com as empresas que trabalham com orgânicos. O que a gente percebeu é que algumas empresas estão mais buscando um nicho de mercado do que acreditando naquilo. Isso me deixou muito decepcionada. Se você olhar nossa lista de patrocinadores, a gente não tem uma empresa de grande porte, nem de médio”, diz Carolina Chagas, que comandou o processo de captação de recursos. “Tem colegas que entendem isso como uma política totalmente xiita, que os nutricionistas têm que ver os dois lados para poder escolher. A questão não é essa. A questão é que essas empresas se utilizam desses espaços para fazer o que já fazem todos os dias, que é um marketing de produtos que não valem a pena, de um produto que não é saudável. É no mínimo incoerente você falar sobre saúde num espaço que não tem saudabilidade.”

Ela conta que a política mais restritiva fez com que o congresso simplesmente se pagasse, sem dar o lucro de outros anos. A decisão por fazer um encontro mais enfático em relação às causas da obesidade também mexeu em aspectos simbólicos. Optou-se por incentivar o consumo de alimentos tradicionais locais. E os restaurantes do pavilhão onde ocorreu o encontro optaram por tapar as portas das geladeiras de refrigerantes, desestimulando o consumo. Para 2018, em Brasília, a Asbran decidiu manter a política. “Uma coisa que a gente delimitou desde o começo é que a programação científica é discutida por uma comissão científica. Não existe assédio por nenhum tipo de empresa nessa programação”, resume Carolina.

Foto 1: arquivo Abrasco
Foto 2: Ivana Diniz/Consea
Foto 3: arquivo Ideias na Mesa