Pesquisadora da Austrália rompe contrato com Nestlé após ataque a professor brasileiro

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“Pesquisadores que seguem entrincheirados defendendo os alimentos ultraprocessados estão se vendo do lado errado da história”, diz Susan Prescott

A pediatra e professora Susan Prescott decidiu romper contrato com a Nestlé em meio aos ataques a Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens). As críticas ao sistema de classificação por grau de processamento de alimentos partiu de cientistas com laços financeiros com a corporação. E foram a gota d’água para a pesquisadora da Universidade da Austrália Ocidental.

“Eu sempre me questionei profundamente sobre os aspectos conflitantes de muitas corporações multinacionais”, disse a O joio e o trigo a diretora do inFLAME Global Network, uma organização que reúne pesquisadores de várias partes interessados no impacto do ambiente sobre a diversidade da flora intestinal.

Ela integrou durante mais de uma década o Conselho Consultivo do Instituto Nestlé para a Austrália e a Nova Zelândia. E abriu mão do cargo quando leu um artigo publicado no American Journal of Clinical Nutrition por um grupo encabeçado por Michael Gibney, da Universidade de Dublin, na Irlanda.

“Alimentos processados na saúde humana: uma avaliação crítica” é um ataque frontal à classificação NOVA, proposta em 2009 por Carlos Monteiro. A ideia é separar os alimentos por grau de processamento: in natura e minimamente processados; processados; ultraprocessados; e ingredientes culinários. Tratamos desse assunto recentemente, com a visão de Monteiro de que o artigo cometeu falhas e omissões muito sérias, e a recusa do American Journal em publicar uma resposta, num caso que expõe as relações entre organizações científicas e corporações.

Agora, publicamos uma entrevista realizada por e-mail com Susan Prescott, uma pediatra que propõe a visão integrada do corpo e do ambiente.

Quando você viu pela primeira vez a classificação NOVA, qual foi sua reação? Mudou a maneira como você entendia a obesidade e as doenças crônicas?

Eu conheço a classificação NOVA há alguns anos. O professor Monteiro e seus colegas produziram uma maneira simples, porém efetiva de separar as formas de processamento de alimentos que são essenciais para a alimentação em nível global (garantindo uma nutrição saudável e segura) daqueles que no geral não são saudáveis.

Esse sistema evita o escapismo e a desonestidade intelectual que confunde o “processamento” da fermentação ancestral e do salmão enlatado com produtos ultraprocessados repletos de aditivos. Esses são majoritariamente uma soma de componentes isolados de alimentos, frequentemente elaborados com ingredientes não nutritivos, com pouca semelhança à nutrição de nosso passado evolutivo.

Na classificação NOVA, os alimentos ultraprocessados são aqueles já geralmente conhecidos do público como não saudáveis. É simples e separa, retira os alimentos minimamente modificados do grupo das bebidas açucaradas, dos biscoitos, dos salgadinhos, das refeições prontas congeladas. As evidências científicas acumuladas nos últimos quatro anos mostram que a classificação NOVA pode ser associada às doenças crônicas não transmissíveis.

Por muitos anos, aos consumidores foi dito que os aditivos nos ultraprocessados são seguros. No entanto, pesquisas relacionadas ao microbioma intestinal lançaram dúvidas sobre isso. Para além dos óbvios macronutrientes – açúcar e óleos vegetais – ingredientes como emulsificantes, adoçantes artificiais, sódio, carragenina, proteínas vegetais isoladas foram todos associados a distúrbios no microbioma de animais. Em muitos casos, esses distúrbios foram conectados a problemas metabólicos e até mesmo comportamentais.

Muitas questões permanecem, incluindo a extensão a qual essa questão animal se reproduz nos humanos. Por ora, a pesquisa disponível claramente favorece uma dieta com alimentos minimamente modificados e que evite o grupo dos ultraprocessados.

Por quanto tempo você esteve no Conselho Consultivo do Instituto Nestlé? Você acredita que suas metas iniciais foram alcançadas?

Eu estive no Conselho Consultivo do Instituto Nestlé para Austrália e Nova Zelândia por mais de dez anos. Como pediatra e pesquisadora universitária, o foco do meu trabalho foi a alimentação no início da vida e a prevenção de doenças. Como clínica que trabalha com crianças, não é difícil ver como as escolhas alimentares e o estilo de vida são um ponto fulcral na saúde e no bem-estar.

Eu enxerguei esse trabalho como uma oportunidade de compartilhar minhas perspectivas e esperava influenciar consciências e atitudes. Encontrei e trabalhei com um monte de gente boa, que genuinamente se importava com a saúde e a nutrição de jovens famílias e com a redução de desigualdades. Eu me envolvi em muitos programas educacionais e em oficinas de treinamento de profissionais de saúde ao redor do mundo.

A maior parte das discussões em que me envolvi tinham como foco a ciência e a educação, e não produtos comerciais. Era, na verdade, um ambiente positivo e muito do que eu fiz foi construtivo. Eu, realmente, aproveitei cada oportunidade para enfatizar os determinantes econômicos e sociais da saúde, a importância da responsabilidade social e o papel das empresas em soluções a desafios globais.

Por que você decidiu renunciar ao cargo?

Sempre me questionei profundamente sobre os aspectos conflitantes de muitas corporações multinacionais, especialmente aquelas envolvidas no fornecimento de produtos em nível global. De um lado, você tem o slogan “Nós alimentamos o mundo”, e não há dúvida de que a desnutrição e a má nutrição são inaceitavelmente altas. As empresas estão trabalhando para melhorar essa questão e deveriam ser elogiadas por isso.

Mas o desenvolvimento de produtos e o marketing estão frequentemente em conflito com a maior ameaça para a saúde humana, que são as doenças crônicas não transmissíveis. A produção e a disseminação global de ultraprocessados estão causando obesidade e muitas das doenças crônicas que estamos tentando prevenir. Isso sempre foi um elefante na sala.

É ainda mais problemático ver a indústria dirigir ataques a cientistas e especialistas que estão trabalhando para enfrentar as maiores causas de doenças e de desigualdade na área de saúde. Isso não é novo. E foi uma tática comum da maioria das grandes indústrias nos últimos 50 anos.

Pesquisas apoiadas pelas empresas e organizações de fachada revelam que se sentem ameaçadas pelos termos altamente processado e ultraprocessado. Uma crítica balanceada é uma parte importante do progresso científico: no entanto, quando eu vejo tentativas de desacreditar a classificação NOVA (enquanto se evita enfrentar a realidade dos aditivos e do microbioma) por atores financiados pelo setor privado, só posso concluir que esses esforços são característicos de um escapismo intelectual. Os membros invisíveis da biodiversidade global – trilhões de micróbios – estão alertando para as políticas e práticas dos fornecedores de ultraprocessados.

Pesquisadores que seguem entrincheirados defendendo os alimentos ultraprocessados estão se vendo do lado errado da história.

Eu não tenho como controlar como os apologistas dos ultraprocessados atuam defendendo esses produtos e os esforços de marketing e políticas que potencializam sua distribuição. No entanto, mesmo que por associação, eu estava de fato emprestando meu nome àquilo que considero ser um sistema não saudável. A cada dia, há cientistas descobrindo os efeitos deletérios dos ultraprocessados. Ao mesmo tempo, outros grupos de cientistas estão explorando maneiras de fazer com que as pessoas consumam cada vez mais esses produtos. Então, eu senti que era o momento de ter uma reflexão. Isso vai muito além de alimentos ultraprocessados ou de uma empresa isoladamente: é sobre sistemas falidos que estão destruindo nossa saúde, nossas comunidades e nosso ambiente.

De que maneira a ciência e a indústria podem trabalhar em conjunto para criar soluções para a sociedade?

Eventualmente, podem. Nós temos de fazer isso. Mas não da maneira como se faz agora. Os negócios têm de ser parte das soluções. E não apenas em parceria com a ciência, mas em parcerias significativas com as comunidades e a sociedade como um todo – para benefício mútuo. De maneiras que não causem ameaças evitáveis na busca incessante por lucros maiores.

Não há dúvida de que as atividades industriais, em geral, são um fator predominante na maior parte de nossos desafios globais, incluindo a degradação ambiental, a saúde humana (particularmente a obesidade e o tabagismo), a instabilidade econômica, o crime e desigualdades sociais. Essa destruição da saúde humana e do planeta é insustentável. Devemos agir. Mas devemos ser construtivos.

Já estamos progressivamente nos movendo a uma era de transparência, fiscalização e justiça social. Estou confiante de que esses valores fundamentais se tornarão inquestionáveis e difíceis de corromper. Com o crescimento de um sentimento anticorporações, é cada vez mais necessário que a indústria e os negócios respondam assertivamente e genuinamente para evitar represálias.

Sob um aspecto mais positivo, há agora um envolvimento crescente em responsabilidade social corporativa, usando o poder dos negócios para resolver problemas sociais e ambientais. Há mais de duas mil iniciativas mundialmente que receberam uma certificação por práticas de responsabilidade social. Essa certificação expõe um nível de transparência sobre como os negócios estão alcançando seus lucros, incentivando-os a em simultâneo a prover benefícios sociais, em vez de colocar os lucros acima das pessoas. Nossa prosperidade futura, depende disso. Os consumidores devem cobrar.

Suas críticas sobre ultraprocessados causaram alguma reação negativa no setor privado?

Ainda não, mas eu imagino que vá acontecer. Eu realmente espero que seja por uma via construtiva. Nossos problemas globais não podem ser resolvidos com mais hostilidade e polarização. A intenção de nossos artigos recentes sobre alimentos ultraprocessados está direcionada a jogar luz sobre a necessidade de mudança. Nós podemos fazer melhor.

As sementes da mudança já estão aí. Não apenas na insatisfação crescente com os atuais sistemas e no desejo por mudança, mas no progresso por meio de soluções criativas colaborativas. O que realmente é necessário são as mudanças filosóficas em nossos sistemas de valores. Ainda que as histórias de ganância e controle sejam fortes, nós podemos torná-las menos aceitáveis e desafiá-las. As estruturas, os processos e as consequências dessas atitudes serão de longe muito mais difíceis de mudar do que as atitudes em si. Mas as atitudes devem ser o primeiro a mudar e o resto vem em seguida.

Como pediatra, gostaria de lembrar às pessoas que, olhando adiante, com o futuro de nossas crianças em mente, podemos encontrar um terreno comum em face dos interesses complexos e conflitantes. Isso nos recorda que todos dividimos o mesmo destino. Precisamos da tecnologia para resolver os problemas em nosso mundo, mas, para fazer dela o melhor uso, também devemos seguir nosso coração e nosso sentido humano. É onde reside o verdadeiro poder da humanidade. Não podemos subestimar nossa influência como indivíduos e como coletivo para mudar a história.

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