Monthly Archives: dezembro 2017

O Natal não é essa Coca-Cola toda

Trabalhadores da Coca durante protesto do movimento Coca-Cola en Lucha, na Espanha, em Madri, no último dia 16   

Data: 21 de dezembro de 2016, começo oficial do verão brasileiro. Fato: não bastasse o calor desértico que nem mesmo três banhos por dia aliviavam, eu havia sido antidemocraticamente eleito a assumir o mandato de destruidor de fantasias. Missão: contar a minha filha do meio – 8 anos de idade à época – sobre a não existência do Papai Noel. Um ano depois, menina, falemos, de novo, sobre o Natal. Desta vez, porém, não é o velhinho de barbas brancas o centro da história, mas, sim, a megaempresa que o moldou para fazer das festas natalinas um festejo de lucros para poucos: a Coca-Cola.

Você está prestes a completar 10 anos, Bia. E preciso falar do assunto de forma mais ampla. Porque, diferente da outra vez, é fundamental tentar tocar a sua consciência sobre o quanto somos enganados por corporações empresariais que se apropriam de lendas e bons afetos para vender mentiras. Muita gente no planeta sofre com isso.

Tomemos um exemplo e as consequências dele: em 1931, no inverno dos Estados Unidos, a campanha publicitária da Coca foi batizada de “A sede não conhece estação do ano”. É dela que surge a versão do Papai Noel de roupa vermelha e preta segurando o refrigerante, criada pelo artista estadunidense Haddon Sundblom. A propaganda colou. Em outros tempos e outras culturas, personagens que faziam o papel do Noel eram vistos como “quase santos” e, na maioria das vezes, representavam a generosidade, não o consumismo. Isso se inverte a partir daquele ano e vira um problemão ao longo do tempo.

Por quê? Bem, pense no resultado da soma da data mais comercial do mundo, (o Natal), com um símbolo de crença, praticamente um santo (Papai Noel), e o poder econômico da companhia que mais vende bebidas açucaradas à humanidade? No mínimo, espera-se uma explosão de consumo, não?

Pois a bomba estourou e liberou outras explosões: a de doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, males cardíacos, obesidade mórbida, cáries dentárias). Até com o câncer, o consumo excessivo de açúcar já foi associado. Posição oficial do Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Brasil, aponta 13 tipos de cânceres que podem ter origem na obesidade. Claro que não é só a Coca que põe açúcar nos produtos, mas ela usa aos montes. E colabora para o desenvolvimento de doenças, também aos montes.

Pior, é que a coisa não para por aí. Vamos viajar e conversar sobre lugares e pessoas que você provavelmente não conhece, mas que têm histórias e credibilidade para falar sobre o “casamento” (ruim para nós) entre a Coca e o Natal?

Na Inglaterra, a Public Health England, agência de saúde pública do país, mostrou, em novembro, que as propagandas da Coca são voltadas a comunidades onde há mais cáries e obesidade, principalmente entre crianças. O chefe do órgão, Duncan Selbie, em entrevista ao jornal The Guardian, pediu que governos locais proibissem a passagem da caravana natalina da megacorporação (aquela, dos enormes caminhões vermelhos, com o Noel a bordo) pelas cidades do país.

– Nós estamos vendo um número crescente de protestos contra o caminhão, tanto do público como de parlamentares, profissionais de saúde e dentistas. A motivação por trás disso (da carreata) não é levar a alegria do Natal, mas é uma tática de marketing que não é boa para a saúde das crianças, diz Mary Fewtrell, professora do Royal College de Pediatria e Saúde Infantil, também da Inglaterra.

Uma nota do porta-voz oficial da corporação naquela região do mundo defende o uso dos caminhões: “O passeio de caminhão de Natal da Coca-Cola é um evento anual único que oferece às pessoas uma escolha de amostras de 150 ml de Coca-Cola Clássica, Coca-Cola Zero Açúcar ou Coca Diet. Duas das três opções não são bebidas açucaradas”.

Só que as amostras grátis de 150 ml são entregues às crianças. E o que a posição oficial da empresa não revela é a existência de diversas pesquisas evidenciando que as Cocas sem açúcar (mas cheias de adoçantes artificiais) também podem fazer muito mal, inclusive aumentando os riscos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e demência.

Estamos na Europa, ainda; Espanha. Trabalhadores demitidos pela Coca realizaram “manifestações natalinas” na capital do país, Madri, no último dia 16 de dezembro. O movimento “Coca-Cola em Luta” reúne 821 trabalhadores dispensados em 2014, mas readmitidos após decisão judicial. Parte deles, porém, foi colocada em um centro logístico e não na linha de produção, área em que trabalhavam antes. Funcionários foram colocados para selecionar garrafas manualmente, uma atividade totalmente inútil atualmente e que os coloca em condições emocionais de Inferioridade. Quem já passou por assédio moral ou bullying, sabe do que estou falando.

Eles sofrem, mas não perdem a oportunidade da ironia. Um vídeo da campanha dos trabalhadores debocha do clima natalino da transnacional e conta uma versão contundente sobre o “Natal da Coca”: “O mundo inteiro há de saber a triste realidade. Empregados sem trabalhar e bullying laboral (no trabalho). Decisões judiciais sem cumprir. Basta de impunidade. É o momento de dizer: não aguentamos mais. Não tome Coca-Cola!”.

Mais pertinho de nós agora, filha. América Latina. México. Em 2015 e 2016, a Coca havia pendurado a marca da empresa na árvore natalina na praça central de Zócalo, na capital do país, a Cidade do México. Vieram protestos e cartas endereçados aos poderes Executivo e Legislativo do município. A transnacional não aguentou a pressão. Imagens com o logotipo da corporação, do Papai Noel bebendo o refrigerante e de ursos polares das campanhas publicitárias foram retiradas.

Em poucos dias, a pressão de cidadãos mexicanos expulsou a marca da Coca da Praça do Zócalo, no ano passado

Ah, sim, não posso deixar de lhe contar: o México tem o maior consumo de Coca por pessoa no planeta. Também por isso, é o país que carrega um “troféu” pesado e desagradável: em 2013, foi o campeão mundial em obesidade. Hoje, segue entre os primeiros lugares. Setenta por cento dos adultos e 30% das crianças têm sobrepeso ou são obesos. Diabetes (só esse mal mata 80 mil pessoas por ano no país) e outras doenças crônicas se espalham. Recentemente, foi criado um imposto especial sobre bebidas açucaradas para tentar conter essa epidemia.

Voltamos ao Brasil. Lembra-se de uma grande árvore de Natal que você visitou comigo há alguns anos, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo? Este ano, ela cresceu. Foi anunciada como a maior dos últimos tempos, com 40 metros de altura. Até aqui, tudo parece legal, certo? Errado.  A questão é que o projeto resulta de uma parceria entre a prefeitura do município, comandada por um cara chamado João Dória Jr., e a Coca-Cola. Sim, ela colocou penduricalhos na árvore que você adorou. E não foi discreta. Instalou, no topo, uma garrafa simbolizando a marca, dividindo o espaço com uma estrela natalina de oito metros.

A Coca “investiu” R$ 1,5 milhão na árvore porque os executivos da empresa sabiam que ganhariam muito mais do que gastaram graças à tamanha visibilidade dada à marca. Só que era contra a lei, filha. Algo contrário às normas da própria prefeitura. Em 4 de dezembro passado, os badulaques foram retirados, a contragosto da transnacional e do prefeito.

Como a gente pode perceber, o refrigerante mais vendido no mundo é mais combatido hoje – as vendas, inclusive, estão caindo planetariamente. Contudo, reconheçamos que a Coca-Cola é esperta e tentará te conquistar (e a muitas outras crianças, que formam o público preferencial da empresa) dizendo que também fabrica coisas saudáveis, como chás e sucos, o que dá outra história a ser contada, num outro dia.

Saiba que é linda a sua convicção na imaginação e que apenas contei a verdade sobre o velhinho no ano passado porque você fazia questionamentos inescapáveis. Lembre-se, sempre, de que seus pensamentos lhe pertencem. Nem mesmo familiares ou outros adultos podem tirar o seu direito de pensar livremente. Muito menos empresas que querem nos empurrar produtos e datas comerciais consumistas com discursos mentirosos. Converse com a sua irmã mais velha, que sabe bem os males que o excesso de “alimentos porcarias” pode causar. Quanto ao caçula, deixe-o crer no Noel. Porém, aconselhe-o a não entrar em “ondas” de refrigerantes, principalmente na maior delas.

Foto 1: Coca en Lucha/Twitter @cocacolaenlucha

Foto 2: El Poder Del Consumidor

 

Big Food targets Brazilian researcher

Scholars and publications with financial ties to the industry reinforce their artillery against Carlos Monteiro (in image), a USP professor who showed us that a bag of rice is not the same as a packet of savoury snacks

Carlos Monteiro was watching a debate in the Libertador A Room when he got a text message on his cellphone: “Get over here now. You are under attack.” But the presentation on the role of biodiversity for the improvement of health and nutrition, to which he had been invited, was really interesting. And attacks, anyhow, are not exactly news to the professor of the School of Public Health at the University of São Paulo (USP).

Especially after he devised a proposal that infuriated the ultraprocessed foods industry: giving it a name. It’s not easy to accept a labelling.

That is what happened in 2009, when Monteiro and the Health and Nutrition Epidemiological Research Centre (Nupens) decided to propose a new standard of food grading. Instead of  macro (proteins, fats, carbohydrates) and micronutrients (vitamins and minerals), a new entity, the  “level of processing”, came onto the scene. The NOVA classification, as it is known, divides foods into four groups. The three first have been the basis of human food consumption for many centuries: non- or minimally processed foods, processed cooking ingredients and processed foods. And the fourth group, comprising industrial formulas of food subproducts and cosmetic additives, called ultraprocessed foods.

Up until then, the ultraprocessed foods industry roamed the streets in relative anonymity. Some called it junk food. Others refer to it as crap or trash – “hey, kid, don’t even think of eating any trash before dinner”. But there wasn’t a consensual scientific term, which in a way, is still the case.

But food grading according to the level of processing was one of the breakthroughs that started to point the finger towards the industry as the main entity responsible for the obesity epidemic that skyrocketed in the last few decades. Various research groups around the world set their sights onto ultraprocessed foods and have not stopped, since then, listing scientific evidence with regard to the link between consumption and chronic non-transmissible diseases (diabetes, high blood pressure, cancer). The National Cancer Institute recently revealed the existence of sound evidence of a correlation between obesity and 13 types of cancer.

“These studies, conducted by researchers from many countries, have confirmed a massive worldwide growth of ultraprocessed foods, such as soft drinks, industrialized snacks and frozen meals, and the systematic negative impact of these foods with regard to the nutritional quality of the human diet and the risk of obesity, high blood pressure, metabolic syndrome, dyslipidaemias and other chronic non-transmissible diseases”, Monteiro wrote recently, defending himself against an attack.

Transnationals have never spared resources creating scientific evidence pointing the finger in all other directions. What Monteiro’s research did was grab hold of the school bully, put him in the middle of the courtyard and show him how uncomfortable it is to be exposed.

A lot of changes took place until October 2017, at the International Nutrition Congress, held in a downtown Buenos Aires hotel.

The debate taking place a few metres away from the room where Monteiro stood was adopting strong tones in an attempt to demean him as a researcher. When the professor travelled Argentina, he was already expecting his work to be subject to praise and criticism. It’s what being in the spotlight is all about. In one of the first debates, however, the level of sparring beyond what is customary for the cautious realm of science started to appear.

“Processed foods: food technology for better nutrition” was the slogan chosen by the Latin American Food Science and Technology Association for one of the mega-event’s opening symposia.

“It’s wrong to believe that growing levels of obesity and chronic diseases are linked to the level of processing”, said Julie Miller Jones, from Saint Catherine University. “Processed foods are already part of the system and are summarily on trial or found guilty of causing obesity, which is not true.”

The fact is that NOVA proposes a very clear distinction between processed and ultraprocessed foods. The detractors, however, usually erase that line, which causes the impression that the classification is anti-industrialization.

“The scientific community around the world questioned the scientific foundation and the benefits brought by NOVA, which additionally implies an unjustified demonization of processed foods and the crucial historical role played by food science and technology”, continued Susana Socolovsky, president of the Argentinian Food Technologist Association.

She showed a slide: “The use of the NOVA classification in public policies is  irresponsible.” This was an allusion to an article published shortly before in the American Journal of Clinical Nutrition by a group led by Michael Gibney, from Dublin University, in Ireland.

“Processed foods and human health: a critical review” was a no-holds-barred attack against the NOVA classification standard. The central allegation is that the separation between in natura, processed and ultraprocessed is simplistic and error-inducing. The authors defend that this sistemization is useless in order to deal with the links between diet and diseases.

They go on to propose that the nutrient-based approach be maintained. This approach was predominant during the second half of the last century. Nowadays there are dozens, hundreds, even thousands of specialists for each of these nutrients (sodium, zinc, vitamin A etc etc etc). And the scientific community doesn’t seem to be striding towards a consensus. The International Nutrition Congress itself proves this: the same nutrient comes up as a villain or a hero depending on who is organizing the symposium.

Gyorgy Scrinis, a Melbourne University professor, coined an expression for this:  “nutritionism”. “Reductionism towards the single nutrient frequently ignores or simplifies the interactions between nutrients, with foods and with the body”, criticizes Scrinis in his book, Nutritionism, where he accusingly states the existence of a deterministic approach that indicates nutrient X or Y as being responsible for a certain disease. To him, this system led the scientific community to divert from the existing complexity in people’s diets, ignoring the changes in eating standards that occurred during the last decades, with the introduction of  products with high salt, sugar and fat contents.

In the article in which they criticize the NOVA classification, the authors get ultraprocessed and packaged mixed up – rice is packaged, but not ultraprocessed. And at certain points they tend to generalize, giving the impression that Monteiro’s group is against all types of  processing – wheat flour is processed.

Gibney’s group goes on to say that there are “ethical problems” in adopting NOVA. A dangerous approach, because by supposedly discouraging the consumption of processed foods, the role of these products concerning nutrient intake would not be taken into account. “To our knowledge, no argument was offered with respect to how, or if, food processing in any form would pose a health risk to the consumer”, they wrote.

In the last few months, we have seen many similar approaches.

“They want us to keep a cow on the balcony of our apartment”, a professor said. “Do you want to go back to eating beans and woodworm?”

“They want to take us back to the Middle Ages. Do you know what the life expectancy was in the Middle Ages?”, I was asked by a doctor.

“There is this romantic idea nowadays about eating as in our grandparents’ days. Do you have any idea what the food was like back then? People used to die from food poisoning”, threatened another researcher.

Once in a while there are more subtle approaches, but generally speaking, those attempting  to undermine the standard according to the level of processing prefer to embrace exaggeration and ignore the obvious difference that exists between a bag of rice and a packet of Fandangos.

Following the publication of Gibney’s article, a Brazilian website produced a text which highlighted that “Crossing processed foods off the menu doesn’t make you healthier”. As well as quoting passages from the original paper, the article opened up for comments by a nutritionist. At that point, things began to unravel.

The nutritionist in point is a consultant for Nestlé. The editor of the Brazilian website decided to remove the contents off the air, admitting a clear conflict of interest.

Gibney also holds a contract with Nestlé. Monteiro warned that two other authors of the article concealed their conflicts of interest. One of them, between 2010 and 2014, worked for a transnational research centre. And another was consultant for a company who lists McDonalds as one of their clients.

“We hope this episode can generate productive talks about the conflicting and growing  infiltration by the ultraprocessed foods industry into academic institutions, professional societies and scientific publications”, demanded the group led by Monteiro.

Researching this topic since April, we have seen a deluge of criticism against NOVA. Practically all of them have come from scientists with financial ties to the ultraprocessed foods industry.

There are some food engineers who consider that from their viewpoint, processed foods are processed, period. It makes no sense to make a distinction according to the level of  processing. Even so, some admit that from a nutrition and public health point of view the NOVA classification standard could be important.

The Argentinian Food Technician Association lists Coca Cola and Danone as sponsors. The same goes for their peers in other Latin American countries.

American Journal, who published the article by the group led by Gibney, is well known in academic circles. It is one of the publications of the American Society for Nutrition, who currently has 28 partners – Coca Cola, Kellogg, Pepsi, Nestlé, Monsanto and so on. The organization is a champion of these corporations. They once oversaw the issuing of a positive stamp which decorated the packages of cereals with a very high sugar content, among other  ultraprocessed foods.

In 2015, researcher Michele Simon, a food industry specialist, published an article where she talks about the luxury surrounding American Society events. Out of 34 scientific panels in that year’s edition, 14 were sponsored by companies or enterprise associations  – not to mention front companies.

“It is exactly because the food industry has vastly different objectives from the health organizations that these relationships are problematic”, she wrote. “In order to assure their  credibility, to reflect the objective science the public has in mind and keep the food industry under observation, it is essential that the American Society for Nutrition review its financial ties.”

There was one more interesting point in Simon’s article. She drew our attention to the emphatic defence by the entity for food processing. And here we can go back to Gibney’s text.

“In relation to the use of the NOVA classification in the development of food guideline documents, we have shown that the broad definition of ultraprocessed foods makes that  impossible”, defends the article.

In actual fact, it is highly possible, so much so that it is already included in two documents of the kind, in Brazil and in Uruguay. Here at home, the Ministry of Health published the Dietary Guidelines for the Brazilian Population, in 2014. The project was developed by none other than the group led by Monteiro. And it came out with a clear recommendation: avoid the consumption of ultraprocessed foods. The industry did everything it could to obstruct the document’s publication, to no avail.

The Brazilian project was hailed by leading high reputation members in the nutrition sector.  FAO considers it one of the top food guide documents. The ultraprocessed foods concept is frequently applied scientifically. “During the Guide’s public consultation phase, a sector that was totally engaged with the industry language use said that the term wouldn’t work”, says Patrícia Jaime, professor at the USP Public Health College and the ministry’s Food and Nutrition coordinator at the time. “It’s amazing to see how it is currently being used by people outside the technical field of nutrition. We see it in the media. The concept is appropriate because it makes sense to people.”

Some Ministry of Health and Ministry for Social Development documents have adopted NOVA. Health Minister Ricardo Barros instituted a ban on the sale of ultraprocessed foods on Ministry premises — and nobody who works there understood that to mean they could no longer eat rice or products containing wheat flour.

The Pan American Health Organization (PAHO) adopted NOVA to define the nutritional profile model launched last year, which proposes that if you only consume foods that fit into acceptable standards of salt, fat, sugar and calorie content, at the end of the day you will probably have followed a healthy diet. The document is the basis for the Front-Of-Package labelling for processed and ultraprocessed foods in Uruguay, a measure that is one signature away from being adopted.

Carlos Monteiro is respected by his peers. We notice that not only by walking through the congress in Buenos Aires, but also in the interviews we held with Brazilian researchers whose line of thought opposes his. Everyone recognizes the scientific thoroughness with which he acts and the relevance of his work.

That is why, as a rule, criticism was concentrated on the Guide and the classification. Following the publication of the Brazilian document, the American Society for Nutrition came to the defense of processed foods, ignoring the fine line with the ultraprocessed foods, one of the first indications regarding the direction of the debate. It was a clear and quick reaction to the praise for the work in the media and in the U.S. academic sector.

The Brazilian Guide is a pioneer not only for touching on the subject of processing level, but for proposing a language accessible to the public and for thinking of food beyond nutrient content, praising cultural issues and eating as a group.

The emphatic defense by American Society of the industry once again raised a reaction from Michele Simon: “At a time when Americans are recognizing more and more that processed foods are not exactly healthy, the position is remarkably deaf eared.” To her, the only explanation for that is the connection with the sponsors.

In the early 21st century, Monteiro showed that the ceiling for the ultraprocessed foods market is achieved when it corresponds to 60% of the daily energy intake, a level reached in some Northern countries. Brazil, who jumped from 20% to 28% in the last decade, is therefore a promising growing market for expansion. Or a nation that can step on the brakes while they’re still halfway gone.

This year, Monteiro’s group released an article in Public Health Nutrition showing a direct correlation between ultraprocessed foods and obesity: each energy point coming from ultraprocessed foods raises the obesity rate by 0,25 points. Countries with lower consumption show lower obesity rates.

For that reason, when Gibney stated there was no evidence of this correlation, Monteiro hit back, accusing his colleague of ignoring many scientific projects. “Indeed, all studies except the one quoted in the ‘critique’ show ultraprocessed foods associated to negative  health effects”, says the professor. The researcher from Ireland left out two studies resulting from a high quality survey carried out in Spain, which followed a population group for nine years, showing the correlation between ultraprocessed food consumption and obesity and high blood pressure .

“The NOVA classification system challenges a much older and more dominant system, based on nutritional contents. Of course it has to be criticized. But scientific progress comes from the exchange of reasonable and well founded arguments, as well as a balanced debate”, regretted the Brazilian group, in a comment that came out on the 11th in Public Health Nutrition, after the editor of American Journal refused to open space for the Brazilian researchers’ answers.

Nor was he willing to publish a letter written by the professor from USP. And so far, he has provided no answers with regard to omitting the ties between researchers and companies.

 

Ultra-ataque: investigador brasileño es objeto de trasnacionales de alimentos

Académicos y publicaciones con lazos financieros con la industria refuerzan la artillería contra Carlos Monteiro (foto), profesor de la USP que mostró que una bolsa de arroz es diferente de un paquete de salchichas

Carlos Monteiro estaba asistiendo a un debate en la sala Libertador A cuando recibió un mensaje en el celular: “Ven aquí. Te están atacando.” Pero la presentación sobre el papel de la biodiversidad en la mejora de la salud y la nutrición, para la que había sido invitado, estaba muy interesante. Y los ataques, de todos modos, no son novedad para el profesor de la Facultad de Salud Pública de la Universidad de São Paulo (USP).

Especialmente después de que él formuló una propuesta que enfureció a la industria de ultra procesados: nombrarla. Aceptar una etiqueta no es fácil.

Fue eso que se dio en 2009, cuando Monteiro y el Núcleo de Investigaciones Epidemiológicas en Nutrición y Salud (Nupens) decidieron proponer una nueva clasificación de alimentos. En el lugar de los macro nutrientes (proteína, lípidos, carbohidratos) y de los micro (vitaminas y minerales), entró en escena el grado de procesamiento. La clasificación NOVA, como se llama, divide los alimentos en cuatro grupos. Los tres primeros han sido la base de la alimentación humana por muchos siglos: alimentos no o mínimamente procesados, ingredientes culinarios procesados ​​y alimentos procesados. Y el cuarto grupo, constituido por formulaciones industriales de sustancias derivadas de alimentos y aditivos cosméticos, llamados alimentos ultra procesados.

Hasta allí, la industria de ultraprocesados ​​caminaba por las calles medio anónima. Algunos la llamaban comida chatarra. Otros, de tranquera o porquería – “niño, no vayas a comer porquería antes de cenar”. Pero no había un nombre científico consensuado, lo que, en cierto modo, continúa no existiendo.

Pero la clasificación de los alimentos por el grado de procesamiento fue una de las ideas que comenzaron a apuntar el dedo a la industria como la principal responsable de la epidemia de obesidad que estalló en las últimas décadas. Varios grupos de investigación del mundo volvieron la mirada a los ultra procesados ​​y, desde entonces, no dejan de enumerar evidencias científicas sobre la asociación entre el consumo y las enfermedades crónicas no transmisibles (diabetes, hipertensión, cáncer). Recientemente, el Instituto Nacional del Cáncer de Brasil afirmó haber evidencia sólida de correlación entre la obesidad y 13 tipos de cáncer.

“Estos estudios, conducidos por investigadores de varios países, han comprobado el vertiginoso crecimiento mundial del consumo de alimentos ultra procesados, como gaseosas, snacks industrializados y comidas congeladas, y el sistemático impacto negativo de esos alimentos sobre la calidad nutricional de la alimentación humana y sobre el riesgo de la obesidad, la hipertensión, el síndrome metabólico, las dislipidemias y otras enfermedades crónicas no transmisibles “, escribió Monteiro recientemente al defenderse de uno de los ataques.

Las transnacionales nunca ahorraron recursos en la creación de evidencias científicas que apuntaran el dedo hacia cualquier otro lado. Lo que la investigación de Monteiro hizo fue recoger al niño que practicaba bullying, colocarlo en el centro del patio y mostrarle cómo es incómodo quedarse expuesto.

Mucha cosa cambió hasta llegar a Octubre de 2017, en el Congreso Internacional de Nutrición, en un hotel en el centro de Buenos Aires.

El debate realizado a pocos metros de la sala donde estaba Monteiro adoptó una huella fuerte en el intento de desmerecerlo como investigador. Cuando el profesor se embarcó a Argentina, ya esperaba que su trabajo fuera sometido a críticas y elogios. Es parte de estar en evidencia. Pero, en uno de los primeros debates, surgieron golpes por encima del tono para el cauteloso universo científico.

“Alimentos procesados: tecnología alimentaria para una mejor nutrición” fue el mote escogido por la Asociación Latinoamericana y del Caribe de Ciencia y Tecnología de Alimentos para uno de los simposios iniciales del mega evento.

“Es erróneo creer que el desarrollo de la obesidad y de las enfermedades crónicas tenga que ver con el nivel de procesamiento”, dijo Julie Miller Jones, de la Saint Catherine University. “La comida procesada ya es parte del sistema y está siendo juzgada o es considerada culpable por la obesidad, lo que no es verdad.”

En realidad, la NOVA propone una división bien clara entre procesados ​​y ultra procesados. Sin embargo, los detractores normalmente borran esa línea, lo que hace que parezca que la clasificación está en contra de la industrialización.

“La comunidad científica de todo el mundo cuestionó la base científica y los beneficios de la NOVA, que, además, implica una demonización injustificada de los alimentos procesados ​​y el papel crucial históricamente desempeñado por la ciencia y la tecnología de alimentos”, continuó Susana Socolovsky, presidenta de la Comisión Asociación Argentina de Tecnólogos Alimenticios.

Ella mostró una diapositiva: “El uso de la clasificación NOVA en políticas públicas es irresponsabilidad.” Fue una alusión a un artículo publicado poco antes en el American Journal of Clinical Nutrition por un grupo encabezado por Michael Gibney, de la Universidad de Dublín, en Irlanda.

Alimentos procesados ​​en la salud humana: una evaluación crítica fue un ataque frontal a la clasificación NOVA. La alegación central es que la separación entre in natura, procesados ​​y ultra procesados ​​es simplista e induce a errores. Los autores defienden que esta sistematización es inútil para lidiar con las asociaciones entre alimentación y enfermedades.

Y proponen que se mantenga el enfoque por nutrientes. Este enfoque se volvió dominante en la segunda mitad del siglo pasado. Hoy, hay decenas, cientos o miles de expertos para cada uno de estos nutrientes (sodio, zinc, vitamina A etc etc etc). Y no parece que la ciencia esté caminando hacia un consenso. El propio Congreso Internacional de Nutrición da prueba de ello: un mismo nutriente aparece como villano o héroe dependiendo de quien organiza el simposio.

Gyorgy Scrinis, profesor de la Universidad de Melbourne, acuñó para ello la expresión “nutricionismo”. “El reduccionismo al nutriente aislado a menudo ignora o simplifica las interacciones entre nutrientes, con los alimentos y con el cuerpo”, critica Scrinis en el libro Nutritionism, en el que acusa de haber un enfoque determinista que indica ese o aquel nutriente como responsable de determinada enfermedad. Para él, ese sistema llevó a que la comunidad científica se desviara de la complejidad existente en la alimentación, ignorando los cambios en el patrón alimentario ocurridos durante las últimas décadas, con la introducción de productos con altos niveles de sal, azúcar y grasa.

En el artículo en que critican la clasificación NOVA, los autores confunden ultra procesados ​​con empaquetados – el arroz es empaquetado, pero no es ultra procesado. Y en ciertos momentos generalizan, dando a entender que el grupo de Monteiro es contra cualquier procesamiento – la harina de trigo es procesada.

El grupo de Gibney todavía dice que hay “problemas éticos” en adoptar la NOVA. Sería un abordaje peligroso porque, al supuestamente desestimular el consumo de procesados, no tendría en cuenta el papel de esos productos en la ingestión de nutrientes. “Para nuestro conocimiento, ningún argumento se ha ofrecido sobre cómo, o si, el procesamiento de alimentos de todos modos constituye un riesgo para la salud del consumidor”, escribió.

En los últimos meses, hemos visto varios enfoques parecidos.

“Ellos quieren que tengamos una vaca en el balcón del apartamento”, dijo una profesora. “¿Quieres volver a comer frijoles con insectos?”

“Quieren llevarnos de vuelta a la Edad Media. ¿Sabes cuál era la expectativa de vida en la Edad Media? “, me preguntó un médico.

“Ahora existe esta cosa romantizada de comer como en la época de los abuelos. ¿Sabéis cómo eran los alimentos en la época de nuestros abuelos? Las personas morían de infección alimenticia”, amenazó otra investigadora.

En la mayoría de los casos, los intentos de descalificar la clasificación por el grado de procesamiento prefieren abrazar la exageración y desconsiderar la evidente diferencia entre una bolsa de arroz y un paquete de Fandangos.

Luego de la publicación del artículo de Gibney, un sitio brasileño produjo un texto que destacaba que “Eliminar alimentos procesados ​​del menú no te deja más sano”. Además de citar fragmentos del trabajo original, el reportaje abría espacio al comentario de una nutricionista. Fue ahí donde la historia comenzó a revelarse.

Esta nutricionista actúa como consultora de Nestlé. El editor del sitio brasileño decidió retirar el contenido del aire, admitiendo un claro conflicto de intereses.

Gibney también tiene contrato con Nestlé. Monteiro advirtió que otros dos autores del artículo ocultaron sus conflictos de interés. Uno de ellos trabajó entre 2010 y 2014 vinculado a un centro de investigación de la transnacional. Y otro fue consultor de una empresa que tiene McDonalds como cliente.

“Esperamos que este episodio pueda generar una discusión productiva sobre la conflictiva y creciente infiltración de la industria de alimentos ultra procesados ​​en instituciones académicas, sociedades profesionales y revistas científicas”, cobra el grupo de Monteiro.

Desde Abril de 2017, investigando sobre esa área, vimos una lluvia de críticas contra la NOVA. Prácticamente todas partieron de científicos con lazos financieros con la industria de ultra procesados.

Hay algunos ingenieros de alimentos que hacen la ponderación de que, desde el punto de vista de ellos, los alimentos procesados ​​son procesados ​​y punto. No tiene sentido separar por el grado de procesamiento. Pero, aun así, algunos admiten que desde la perspectiva de la nutrición y de la salud pública la clasificación NOVA puede ser importante.

La Asociación Argentina de Tecnólogos Alimenticios tiene Coca y Danone como patrocinadoras. Lo mismo vale para sus entidades homólogas en los otros países de América Latina.

El American Journal, donde salió el artículo del grupo de Gibney, es conocido en el medio académico. Es una de las publicaciones de la American Society for Nutrition, que tiene actualmente 28 empresas asociadas – Coca, Kellogg, Pepsi, Nestlé, Monsanto y de ahí en adelante. La organización es una defensora de esas corporaciones. Ya llegó a administrar la emisión de un sello positivo que decoró envases de cereales altísimos en azúcar, entre otros ultra procesados.

En 2015, la investigadora Michele Simon, especializada en la industria alimenticia, publicó un artículo en el que aborda los lujosos eventos de la American Society. De 34 paneles científicos en la edición de aquel año, 14 eran bancados por empresas o asociaciones empresariales – sin contabilizar instituciones de fachada.

“Es precisamente porque la industria de alimentos tiene objetivos vastamente diferentes de las organizaciones de salud que esas relaciones son problemáticas”, escribió. “Para asegurar su credibilidad, reflejar la ciencia objetiva que el público tiene en mente y mantener la industria de alimentos bajo observación, es primordial que la American Society for Nutrition reconsidere sus lazos financieros.”

Había todavía un punto interesante en el artículo de Simon. Ella llamaba la atención sobre la defensa enfática de la entidad al procesamiento de alimentos. Y aquí podemos volver al texto de Gibney.

“En relación al uso de la clasificación NOVA en el desarrollo de documentos de directrices alimentarias, mostramos que la definición amplia de ultra procesados ​​lo hace imposible”, defiende el artículo.

En realidad, tanto es posible que ya está en dos documentos del tipo, en Brasil y en Uruguay. Por aquí, el Ministerio de Salud publicó en 2014 la Guía Alimentaria para la Población Brasileña. El trabajo fue desarrollado justamente por el grupo de Monteiro. Y salió con una recomendación clara: evite el consumo de ultra procesados. La industria hizo grandes esfuerzos para que el documento no fuera publicado, pero no lo logró.

El trabajo brasileño fue saludado por figuras de buena reputación del mundo de la nutrición. La FAO lo considera uno de los mejores documentos de orientación alimentaria. El concepto de ultra procesados ​​es cada vez más usado científicamente. “Durante la fase de consulta pública de la Guía, un sector absolutamente comprometido con el lenguaje de la industria decía que el término no funcionaría”, cuenta Patricia Jaime, profesora de la Facultad de Salud Pública de la USP y en la época coordinadora general de Alimentación y Nutrición del ministerio. “Es impresionante ver cómo hoy está siendo utilizado por las personas fuera del campo técnico de la nutrición. La gente ve en la prensa. El concepto está siendo apropiado porque tiene sentido para las personas.’

Algunos documentos del Ministerio de Salud y del Ministerio de Desarrollo Social adoptan la NOVA. El ministro de la Salud, Ricardo Barros, determinó la prohibición de la venta de ultra procesados ​​en las dependencias ministeriales – y nadie por ahí entendió que eso significa no poder comer arroz o productos con harina de trigo.

La Organización Panamericana de la Salud (OPAS) adoptó la NOVA para definir el modelo de perfil nutricional lanzado en 2016, el cual propone que, si se consumen sólo alimentos que encajen en los estándares aceptables de sal, grasa, azúcar y calorías, al final del día probablemente haya mantenido una dieta sana. El documento es la base para el etiquetado frontal de procesados ​​y ultra procesados ​​en Uruguay, medida que está a una firma de ser adoptada.

Carlos Monteiro es respetado por los pares. Lo notamos no sólo circulando por el congreso en Buenos Aires, sino en las entrevistas que hicimos con investigadores brasileños cuya línea de raciocinio es opuesta a la suya. Todos reconocen el rigor científico con que actúa y la relevancia de su trabajo.

Por eso, por regla general, las críticas se concentran en la Guía y sobre la clasificación. En cuanto a la publicación del documento brasileño, la American Society for Nutrition salió en defensa de los procesados, ignorando la línea divisoria con los ultra procesados, en una de las primeras indicaciones del rumbo que el debate tomaría. Fue una clara y rápida reacción a los elogios que el trabajo recibió en la prensa y en la academia de Estados Unidos.

La Guía brasileña es pionera no sólo por hablar sobre el grado de procesamiento, sino por proponer un lenguaje accesible al público en general y pensar en el alimento más allá de los nutrientes, con el enaltecimiento de cuestiones culturales y del comer en conjunto.

La defensa enfática de la American Society a la industria nuevamente levantó críticas de Michele Simon: “En un momento en que los estadounidenses están crecientemente reconociendo que los alimentos procesados ​​no son exactamente sanos, la posición es notablemente sorda.” Para ella, la única explicación para ello es la conexión con los patrocinadores.

A comienzos de la década, Monteiro mostró que el techo para el mercado de ultra procesados ​​es alcanzado cuando corresponden al 60% de la ingesta diaria de energía, nivel alcanzado por algunos países del Norte. Brasil, que fue del 20% y 28% en la década pasada, es por lo tanto un mercado y tanto para la expansión. O una nación que puede poner un freno mientras está en el medio del camino.

En 2017, el grupo de Monteiro divulgó en Public Health Nutrition un trabajo mostrando una correlación directa entre ultra procesados ​​y obesidad: cada punto de energía proveniente de ultra procesado eleva en 0,25 punto la tasa de obesidad. Los países con menor consumo presentan índices más bajos de obesidad.

Por eso, cuando Gibney afirmó no haber evidencias de esa correlación, Monteiro rebotó, acusando al colega de ignorar varios trabajos científicos. “De hecho, todos los estudios excepto el citado en la “crítica” muestran asociaciones de los alimentos ultra procesados ​​con efectos negativos a la salud “, dice el profesor. El investigador de Irlanda dejó fuera dos estudios de una investigación de alta calidad realizada en España, que acompañó durante nueve años un grupo poblacional, mostrando la correlación del consumo de ultra procesados ​​con obesidad e hipertensión.

“El sistema de clasificación NOVA desafía un sistema de clasificación mucho más antiguo y dominante, basado en la composición nutricional. Por supuesto, debería ser criticado. “Pero los avances científicos vienen del intercambio de argumentos fundamentados y razonables, y de un debate equilibrado”, lamentó el grupo brasileño, en un comentario que acabó por salir en la Public Health Nutrition, después de que el editor del American Journal rechazó abrirse espacio a las respuestas de los investigadores brasileños.

No quiso publicar una carta del profesor de la USP. Y, hasta ahora, no proporcionó respuesta en cuanto a la omisión de la relación entre algunos investigadores y empresas.

Pesquisadora da Austrália rompe contrato com Nestlé após ataque a professor brasileiro

“Pesquisadores que seguem entrincheirados defendendo os alimentos ultraprocessados estão se vendo do lado errado da história”, diz Susan Prescott

A pediatra e professora Susan Prescott decidiu romper contrato com a Nestlé em meio aos ataques a Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens). As críticas ao sistema de classificação por grau de processamento de alimentos partiu de cientistas com laços financeiros com a corporação. E foram a gota d’água para a pesquisadora da Universidade da Austrália Ocidental.

“Eu sempre me questionei profundamente sobre os aspectos conflitantes de muitas corporações multinacionais”, disse a O joio e o trigo a diretora do inFLAME Global Network, uma organização que reúne pesquisadores de várias partes interessados no impacto do ambiente sobre a diversidade da flora intestinal.

Ela integrou durante mais de uma década o Conselho Consultivo do Instituto Nestlé para a Austrália e a Nova Zelândia. E abriu mão do cargo quando leu um artigo publicado no American Journal of Clinical Nutrition por um grupo encabeçado por Michael Gibney, da Universidade de Dublin, na Irlanda.

“Alimentos processados na saúde humana: uma avaliação crítica” é um ataque frontal à classificação NOVA, proposta em 2009 por Carlos Monteiro. A ideia é separar os alimentos por grau de processamento: in natura e minimamente processados; processados; ultraprocessados; e ingredientes culinários. Tratamos desse assunto recentemente, com a visão de Monteiro de que o artigo cometeu falhas e omissões muito sérias, e a recusa do American Journal em publicar uma resposta, num caso que expõe as relações entre organizações científicas e corporações.

Agora, publicamos uma entrevista realizada por e-mail com Susan Prescott, uma pediatra que propõe a visão integrada do corpo e do ambiente.

Quando você viu pela primeira vez a classificação NOVA, qual foi sua reação? Mudou a maneira como você entendia a obesidade e as doenças crônicas?

Eu conheço a classificação NOVA há alguns anos. O professor Monteiro e seus colegas produziram uma maneira simples, porém efetiva de separar as formas de processamento de alimentos que são essenciais para a alimentação em nível global (garantindo uma nutrição saudável e segura) daqueles que no geral não são saudáveis.

Esse sistema evita o escapismo e a desonestidade intelectual que confunde o “processamento” da fermentação ancestral e do salmão enlatado com produtos ultraprocessados repletos de aditivos. Esses são majoritariamente uma soma de componentes isolados de alimentos, frequentemente elaborados com ingredientes não nutritivos, com pouca semelhança à nutrição de nosso passado evolutivo.

Na classificação NOVA, os alimentos ultraprocessados são aqueles já geralmente conhecidos do público como não saudáveis. É simples e separa, retira os alimentos minimamente modificados do grupo das bebidas açucaradas, dos biscoitos, dos salgadinhos, das refeições prontas congeladas. As evidências científicas acumuladas nos últimos quatro anos mostram que a classificação NOVA pode ser associada às doenças crônicas não transmissíveis.

Por muitos anos, aos consumidores foi dito que os aditivos nos ultraprocessados são seguros. No entanto, pesquisas relacionadas ao microbioma intestinal lançaram dúvidas sobre isso. Para além dos óbvios macronutrientes – açúcar e óleos vegetais – ingredientes como emulsificantes, adoçantes artificiais, sódio, carragenina, proteínas vegetais isoladas foram todos associados a distúrbios no microbioma de animais. Em muitos casos, esses distúrbios foram conectados a problemas metabólicos e até mesmo comportamentais.

Muitas questões permanecem, incluindo a extensão a qual essa questão animal se reproduz nos humanos. Por ora, a pesquisa disponível claramente favorece uma dieta com alimentos minimamente modificados e que evite o grupo dos ultraprocessados.

Por quanto tempo você esteve no Conselho Consultivo do Instituto Nestlé? Você acredita que suas metas iniciais foram alcançadas?

Eu estive no Conselho Consultivo do Instituto Nestlé para Austrália e Nova Zelândia por mais de dez anos. Como pediatra e pesquisadora universitária, o foco do meu trabalho foi a alimentação no início da vida e a prevenção de doenças. Como clínica que trabalha com crianças, não é difícil ver como as escolhas alimentares e o estilo de vida são um ponto fulcral na saúde e no bem-estar.

Eu enxerguei esse trabalho como uma oportunidade de compartilhar minhas perspectivas e esperava influenciar consciências e atitudes. Encontrei e trabalhei com um monte de gente boa, que genuinamente se importava com a saúde e a nutrição de jovens famílias e com a redução de desigualdades. Eu me envolvi em muitos programas educacionais e em oficinas de treinamento de profissionais de saúde ao redor do mundo.

A maior parte das discussões em que me envolvi tinham como foco a ciência e a educação, e não produtos comerciais. Era, na verdade, um ambiente positivo e muito do que eu fiz foi construtivo. Eu, realmente, aproveitei cada oportunidade para enfatizar os determinantes econômicos e sociais da saúde, a importância da responsabilidade social e o papel das empresas em soluções a desafios globais.

Por que você decidiu renunciar ao cargo?

Sempre me questionei profundamente sobre os aspectos conflitantes de muitas corporações multinacionais, especialmente aquelas envolvidas no fornecimento de produtos em nível global. De um lado, você tem o slogan “Nós alimentamos o mundo”, e não há dúvida de que a desnutrição e a má nutrição são inaceitavelmente altas. As empresas estão trabalhando para melhorar essa questão e deveriam ser elogiadas por isso.

Mas o desenvolvimento de produtos e o marketing estão frequentemente em conflito com a maior ameaça para a saúde humana, que são as doenças crônicas não transmissíveis. A produção e a disseminação global de ultraprocessados estão causando obesidade e muitas das doenças crônicas que estamos tentando prevenir. Isso sempre foi um elefante na sala.

É ainda mais problemático ver a indústria dirigir ataques a cientistas e especialistas que estão trabalhando para enfrentar as maiores causas de doenças e de desigualdade na área de saúde. Isso não é novo. E foi uma tática comum da maioria das grandes indústrias nos últimos 50 anos.

Pesquisas apoiadas pelas empresas e organizações de fachada revelam que se sentem ameaçadas pelos termos altamente processado e ultraprocessado. Uma crítica balanceada é uma parte importante do progresso científico: no entanto, quando eu vejo tentativas de desacreditar a classificação NOVA (enquanto se evita enfrentar a realidade dos aditivos e do microbioma) por atores financiados pelo setor privado, só posso concluir que esses esforços são característicos de um escapismo intelectual. Os membros invisíveis da biodiversidade global – trilhões de micróbios – estão alertando para as políticas e práticas dos fornecedores de ultraprocessados.

Pesquisadores que seguem entrincheirados defendendo os alimentos ultraprocessados estão se vendo do lado errado da história.

Eu não tenho como controlar como os apologistas dos ultraprocessados atuam defendendo esses produtos e os esforços de marketing e políticas que potencializam sua distribuição. No entanto, mesmo que por associação, eu estava de fato emprestando meu nome àquilo que considero ser um sistema não saudável. A cada dia, há cientistas descobrindo os efeitos deletérios dos ultraprocessados. Ao mesmo tempo, outros grupos de cientistas estão explorando maneiras de fazer com que as pessoas consumam cada vez mais esses produtos. Então, eu senti que era o momento de ter uma reflexão. Isso vai muito além de alimentos ultraprocessados ou de uma empresa isoladamente: é sobre sistemas falidos que estão destruindo nossa saúde, nossas comunidades e nosso ambiente.

De que maneira a ciência e a indústria podem trabalhar em conjunto para criar soluções para a sociedade?

Eventualmente, podem. Nós temos de fazer isso. Mas não da maneira como se faz agora. Os negócios têm de ser parte das soluções. E não apenas em parceria com a ciência, mas em parcerias significativas com as comunidades e a sociedade como um todo – para benefício mútuo. De maneiras que não causem ameaças evitáveis na busca incessante por lucros maiores.

Não há dúvida de que as atividades industriais, em geral, são um fator predominante na maior parte de nossos desafios globais, incluindo a degradação ambiental, a saúde humana (particularmente a obesidade e o tabagismo), a instabilidade econômica, o crime e desigualdades sociais. Essa destruição da saúde humana e do planeta é insustentável. Devemos agir. Mas devemos ser construtivos.

Já estamos progressivamente nos movendo a uma era de transparência, fiscalização e justiça social. Estou confiante de que esses valores fundamentais se tornarão inquestionáveis e difíceis de corromper. Com o crescimento de um sentimento anticorporações, é cada vez mais necessário que a indústria e os negócios respondam assertivamente e genuinamente para evitar represálias.

Sob um aspecto mais positivo, há agora um envolvimento crescente em responsabilidade social corporativa, usando o poder dos negócios para resolver problemas sociais e ambientais. Há mais de duas mil iniciativas mundialmente que receberam uma certificação por práticas de responsabilidade social. Essa certificação expõe um nível de transparência sobre como os negócios estão alcançando seus lucros, incentivando-os a em simultâneo a prover benefícios sociais, em vez de colocar os lucros acima das pessoas. Nossa prosperidade futura, depende disso. Os consumidores devem cobrar.

Suas críticas sobre ultraprocessados causaram alguma reação negativa no setor privado?

Ainda não, mas eu imagino que vá acontecer. Eu realmente espero que seja por uma via construtiva. Nossos problemas globais não podem ser resolvidos com mais hostilidade e polarização. A intenção de nossos artigos recentes sobre alimentos ultraprocessados está direcionada a jogar luz sobre a necessidade de mudança. Nós podemos fazer melhor.

As sementes da mudança já estão aí. Não apenas na insatisfação crescente com os atuais sistemas e no desejo por mudança, mas no progresso por meio de soluções criativas colaborativas. O que realmente é necessário são as mudanças filosóficas em nossos sistemas de valores. Ainda que as histórias de ganância e controle sejam fortes, nós podemos torná-las menos aceitáveis e desafiá-las. As estruturas, os processos e as consequências dessas atitudes serão de longe muito mais difíceis de mudar do que as atitudes em si. Mas as atitudes devem ser o primeiro a mudar e o resto vem em seguida.

Como pediatra, gostaria de lembrar às pessoas que, olhando adiante, com o futuro de nossas crianças em mente, podemos encontrar um terreno comum em face dos interesses complexos e conflitantes. Isso nos recorda que todos dividimos o mesmo destino. Precisamos da tecnologia para resolver os problemas em nosso mundo, mas, para fazer dela o melhor uso, também devemos seguir nosso coração e nosso sentido humano. É onde reside o verdadeiro poder da humanidade. Não podemos subestimar nossa influência como indivíduos e como coletivo para mudar a história.

Contra os gigantes, um David

David Millions jamais se apegou ao ensino formal. E não tem qualquer problema em admitir isso. Ao contrário: o português de 33 anos o faz com a mesma naturalidade com que critica fortemente os laços entre a indústria e as ciências nutricionais e de alimentos em Portugal. Ele abre a conversa e logo saca a informação de que a escola de modelo tradicional pouco lhe atraía desde criança. Independente, tornou-se um pesquisador, ou investigador, como ele prefere ser chamado, do ramo da  malacologia (parte da biologia que estuda os moluscos, incluindo a taxonomia, a fisiologia e a ecologia desses animais). Morador da cidade do Porto, fez as malas e viajou pelo mundo para perseguir tal trabalho. A bagagem voltou maior ao país de origem, mas não pelo excesso de compras. O que pesou não esbarrava nas burocracias alfandegárias ou nos detectores de metal dos aeroportos: a fartura vinha em ideias.

A partir das investigações sobre os pequenos animais, o interesse se expandiu à pesquisa sobre os modos de vida e a saúde dos seres vivos de maneira mais abrangente. Uma década de estudos  – boa parte, como autodidata – o fez perceber que a nutrição era peça essencial nessa empreitada. David, então, sistematizou os conhecimentos adquiridos e criou o site Compreender Nutrição. Nascido da constatação de que a Internet é uma plataforma “mais eficaz” para difundir informações, o conteúdo, inicialmente, foi pensado para um livro. “Mas a Internet conduziu à progressiva adaptação ao formato atual”, explica Millions.

– Mas todo esse trabalho é feito só por você, David?, provoco.

– O trabalho é elaborado por uma única pessoa, eu. E é inteiramente independente, responde, com uma frase direta e seca que não deixa margens para o assunto prosseguir. Resumindo, ele é editor, revisor e colunista do projeto. Ou seja, toca o trabalho – que não é pouco – sozinho, voluntariamente, sem patrocínio, já que ganha a vida com outras atividades.

A página tem pegada evidentemente vegana, mas, além disso, é uma fonte em potencial de argumentos e pesquisas científicas sobre nutrição e alimentação saudável. Ao final de cada artigo, são apresentados links de diversas fontes de “informação científica independente”, segundo o estudioso. “É para que não restem dúvidas de que se trata de informação autêntica e sem a influência de corporações que visam apenas ao lucro”, reforça, no site.

O Compreender Nutrição é, ainda, um espaço de contundentes questionamentos às parcerias ciência/indústria.“Os patrocinadores do mais recente congresso da Associação Portuguesa dos Nutricionistas [realizado em maio deste ano, na cidade de Lisboa] incluíam a Nestlé, a Coca-Cola e a Parmalat, além de empresas de venda de planos de emagrecimento insanos”, revela Millions.

E ele não está só. Mesmo a mídia portuguesa mais tradicional tratou do tema. Pudera: em 2016, até o McDonald’s estava entre os parceiros do congresso da associação.

Patrocinadores do congresso da Associação de Nutricionistas Portugueses deste ano

Conclusão deste repórter: a briga que David arrumou foi contra um “Golias”, com perdão do trocadilho. Uma briga pela liberdade de pesquisa, ou, melhor dizendo, uma defesa de pesquisas livres de influência das corporações, algo já tratado em reportagem de O joio e o trigo sobre o cenário na América Latina.

A seguir,  a entrevista completa que, certamente, dá muito no que pensar:

O joio e o trigo – Quais são os pilares do Compreender Nutrição em termos de missão e princípios?

David Millions – O propósito é de servir, por meio do conhecimento, algumas das necessidades mais prementes da existência humana, como a alimentação saudável.

Você tem uma linha baseada em referenciais teóricos e práticos?

O sítio apresenta uma síntese de informações, baseadas em ciência, que prima pela congruência: um fator determinante para corroborar a fidedignidade das conclusões.

No Brasil, o debate sobre alimentação saudável e adequada ainda é muito norteado por visões “mainstream” da ciência, inclusive ciência financiada por institutos e transnacionais nada amigáveis a dietas saudáveis. Como é o cenário em Portugal? 

De fato, essas visões nem sempre são baseadas num direcionamento científico descomprometido, mas tendem a resultar de uma confluência de interesses que respeitam, igualmente, ao padrão comportamental das massas e às ambições corporativas. Esse é um cenário global, característico da transnacionalidade das corporações e da crescente convergência cultural.

Há instituições e associações no Brasil que se declaram científicas ou médicas e que realizam simpósios, seminários, conferências e congressos para, em tese, mostrar as evidências científicas que produzem. No entanto, quando se vai a esses eventos o que se vê, na prática, são grandes feiras de negócios, com palestras pouco ou nada científicas e grandes marcas exibindo produtos. Isso também ocorre em Portugal?

Não é surpreendente que, numa sociedade essencialmente moldada por intuitos financeiros, a indústria seja bem-sucedida na subjugação dos profissionais. Sim, isso ocorre em Portugal, também.

Você pode citar casos emblemáticos? 

Nesse aspecto, o congresso anual da Associação Portuguesa de Nutricionistas é um caso flagrante, uma vez que é amplamente financiado pelos produtores dos alimentos que deveriam constituir o foco de repúdio dos nutricionistas. Infelizmente, esse é um padrão recorrente na área da saúde.

(David interrompe a resposta e, ao mesmo tempo, interfere, pertinentemente, é bom que se diga, na minha próxima pergunta. Ele questiona: “Haverá algum congresso médico que seja independente da indústria farmacêutica?”).

Há outras instituições [além da Associação Portuguesa de Nutricionistas] que caminham no mesmo sentido? Pode citar nomes e casos que mostrem como atuam?

Todas as grandes empresas gravitam no sentido de expandir a esfera de influências e aumentar os lucros. E dispõem de setores especificamente designados para tal. A indústria dos lacticínios é um exemplo peremptório em Portugal e no mundo, uma vez que, por meio da criação de mantras publicitários, interação pública, suborno de profissionais e lobby governamental, consegue normalizar a noção da essencialidade dos produtos que comercializa.

Qual o estágio da pesquisa científica sobre alimentos nas universidades portuguesas em termos de independência da influência das transnacionais?

A investigação sobre nutrição é diversificada e existem áreas de maior e menor independência. No entanto, as organizações acadêmicas são alvos fáceis, tendo em consideração a extensa interação com a indústria e a formação incompetente de profissionais.

E dos governos, qual o nível de atuação e independência para a criação de políticas públicas em Portugal? 

O comprometimento multifacetado dos organismos que deveriam zelar por interesses públicos impede a implementação de medidas verdadeiramente transformadoras. Normalmente, as políticas avançam de acordo com o status quo.

Quais os grupos de pesquisadores independentes na área de alimentos em Portugal?  

Certamente que há uma gama prolífica de profissionais com uma postura mais séria e vanguardista. Recentemente, a Direção-Geral da Saúde (órgão responsável por regulamentar, orientar e coordenar as atividades de promoção da saúde e prevenção da doença em Portugal) publicou manuais de referência para uma alimentação vegetariana que ultrapassam muitos dos preconceitos anteriormente perpetuados pelos profissionais de nutrição e que foram benéficos para criar esclarecimento que já era patente noutros países.

No Brasil, os institutos e empresas que pressionam pela não regulação do setor de alimentos têm colocado a culpa pela obesidade e pela proliferação de doenças crônicas não transmissíveis no cidadão, principalmente no sedentarismo, afirmando, muitas vezes, que a falta de atividade física é mais nociva do que a má alimentação. Resumindo: dizem que se você fizer 30 minutos de exercícios por dia, pode tomar Coca-Cola, entre outras coisas. Como você avalia isso?

Tendo em consideração que há vários pontos de evidência que permitem afirmar com segurança que a proliferação das doenças crônicas possui uma etiologia principalmente alimentar, aparenta que a culpabilização principal de fatores secundários possa constituir uma estratégia de ofuscação. Há, de fato, provas científicas de que o aumento da atividade física é incapaz de amenizar os prejuízos de saúde expressivos que resultam de uma dieta incompetente.

Como Portugal e Europa caminham na questão da regulação de alimentos ultraprocessados? 

Há um intuito crescente em taxar produtos ricos em açúcar, sal e gordura, uma medida que providencia benefícios apenas marginalmente eficazes em relação ao todo que é necessário para proteger a população da epidemia de doenças crônicas.

E qual a solução, na sua visão? 

A solução derradeira reside na causa do problema: cortar, determinantemente, a troca de fundos e favores entre os profissionais e a indústria, e calibrar a matéria acadêmica de acordo com o conhecimento científico que corresponde adequadamente às necessidades do século 21 [sociais, econômicas, humanitárias e ambientais].

 

Alimentos: o ‘manual’ da indústria para frear a regulação na América Latina

Na Pátria Grande da Obesidade, dividir para dominar é a palavra de ordem. Criar confusão nas evidências científicas, ameaçar com ações internacionais e acionar amigos poderosos são o centro da ofensiva. Se nada funcionar, vai na porrada

Um segmento econômico deve acender o sinal amarelo para o risco de sofrer regulação quando alguns fatores se encontram: instituições relevantes defendem a adoção de regras, há uma considerável atenção midiática ao tema e a sociedade está preocupada. O sinal vermelho pisca quando a regulação está consolidada em outros países, há uma intensa pressão pública e os principais atores daquele setor estão cobrando medidas.

É, a chapa esquentou para os fabricantes de alimentos ultraprocessados na América Latina. Como mostramos em O joio e o trigo, alguns países estão à frente de uma agenda política inédita que tenta colocar freio à epidemia de obesidade. Ninguém prega os olhos. O bagulho ficou louco.

As transnacionais sabem que essa é a hora de matar a criança no berço. A chilena, que colocou um sinal de advertência frontal no rótulo de produtos com excesso de calorias, sal, gordura e açúcar. E a mexicana, que criou um imposto sobre bebidas açucaradas. Já falamos sobre como no Congresso Internacional de Nutrição, realizado em outubro em Buenos Aires, a indústria tentou desmerecer as duas iniciativas, tidas como inúteis e confusas.

A seguir, algumas evidências de como a indústria está articulada para fazer abortar as iniciativas que ainda não vieram ao mundo. E quais as contradições nesse discurso.

  1. Cerca o frango

“Gostei muito da apresentação do colega do Uruguai, mas a população brasileira é bem diferente”, enfatizou Mariângela Almeida, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), durante um seminário organizado em novembro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para discutir a adoção de um modelo de rotulagem frontal de alimentos.

Talvez nossa alma sambista e boêmia não lide muito bem com os sinais de alerta defendidos pela sociedade civil, tão pesados.

Isolar para derrotar é uma primeira medida da indústria. No Brasil, por enquanto a Anvisa tem aceito a ideia de que as evidências científicas acumuladas em outros países não podem ser transpostas ao cenário local.

  1. A República Unida da Obesidade

Isso nos leva ao segundo ponto. Desde a 2ª Guerra Mundial, essas empresas não pouparam esforços para derrubar fronteiras nacionais e criar produtos que pudessem ser vendidos do extremo mais pobre da África ao vilarejo mais rico da Europa.

Para essa função foi criado o Codex Alimentarius, um organismo conjunto da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da FAO que “harmoniza” a legislação dos países para que os produtos possam circular com facilidade. É ali que se define, por exemplo, quanto de cada aditivo será permitido em alimentos. Ou como serão as normas nacionais sobre fórmulas infantis. Desde que a Organização Mundial do Comércio (OMC) adotou o Codex como baliza para as transações na área alimentícia, as decisões têm efeito praticamente compulsório.

“O Codex trabalha no sentido de ajudar a indústria a produzir alimentos seguros e no sentido de que o consumidor tenha esses produtos seguros”, diz Felix Reyes, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp que, durante muitos anos, integrou a comitiva brasileira de um dos grupos de trabalho. “Quando o Codex se reúne, todos os países estão representados. Um país pode querer proteger seus interesses políticos no Codex. Pode tentar induzir problemas a um concorrente.”

Ele diz, porém, que, na área científica, não há espaço para a proteção de interesses políticos.

Há muitas divergências. “Um estudo mostrou que mais de 400 dos participantes não governamentais nos comitês do Codex representam a indústria, enquanto apenas 1% representavam organizações de interesse público”, narra o livro Lethal but legal. “Companhias como Nestlé, Hershey, Kraft, General Foods, Coca-Cola e Pepsico, além de grupos como a Associação dos Fabricantes de Alimentos dos EUA e a Associação Nacional dos Processadores de Alimentos, frequentemente têm mais pessoas nessas reuniões que os governos de países pequenos. Em resumo, a indústria e suas entidades de classe são comumente os juízes, os jurados e os especialistas na formulação de decisões sobre acordos comerciais, deixando pouco espaço a considerações sobre saúde.”

Se quiser ler mais a respeito, recomendamos também o artigo Do food regulatory systems protect public health?, que mostra como a saúde foi colocada em segundo plano no Codex.

  1. Insaciáveis

Também não foram poucos os esforços da indústria por criar alimentos hiperpalatáveis que piram o cabeção de gregos e mexicanos, driblando os mecanismos de saciedade de nosso cérebro. Uma farta literatura sobre o assunto pode ser encontrada no livro Sal, açúcar, gordura, do jornalista Michael Moss.

“As próprias empresas de alimentos estão viciadas em sal, açúcar e gordura. A incansável determinação de gerar a maior atratividade pelo menor custo possível as leva, de modo inexorável, a esses três ingredientes”, ele explica.

Os níveis de obesidade na América Latina explodiram em simultâneo, desde a década de 1970 e com maior intensidade no final do século, quando os mercados ricos estavam mais próximos da saturação e o marketing das transnacionais se voltou aos países de média renda. Nesse momento, a região está em algum ponto da transição entre uma alimentação tradicional e uma totalmente industrializada.

Não custa lembrar que, para além dessa semelhança, há uma igualdade absoluta: cem gramas de açúcar são a mesma coisa no Brasil, no México ou na Austrália. E um pacotinho de M&Ms é vendido do mesmo modo na Argentina ou na Itália.

  1. Que baixem as fronteiras

Se nada disso funcionar, esqueçam tudo o que falamos sobre as especificidades nacionais. É hora de derrubar as fronteiras e irmanar nossos povos. Sim, o Mercosul serve para essas horas de aperto. Frente à iminência da adoção dos sinais de alerta nos rótulos no Uruguai e ao cenário indefinido no Brasil, a indústria trabalha para levar a discussão para o âmbito do bloco regional.

A enorme quantidade de interesses conflitantes e a falta de acordo dentro dos próprios governos nacionais farão qualquer decisão subir no telhado. A Coca já sinalizou ao Uruguai que acionará a OMC pela interpretação de que a rotulagem frontal violaria os acordos regionais.

  1. Amigo é coisa pra se guardar

Nessa hora vale acionar os amigos nos governos. As equipes econômicas e de agronegócio são sempre a porta de entrada na tentativa de frear qualquer iniciativa regulatória. Muitos países da região dependem fortemente desses segmentos e não estão dispostos a pelejas.

Um argumento central é a perda de arrecadação provocada por restrições ao setor privado, podendo levar ao fechamento de postos de trabalho. Outro reside na violação aos tratados internacionais de livre comércio.

No flanco oposto, pesquisadores e organizações da sociedade cobram que se coloque na ponta do lápis o custo provocado por esses produtos aos sistemas de saúde.

  1. Deixa que eu chuto

“Vamos taxar quem não faz exercício? Vamos taxar quem come mais de duas mil calorias por dia? Vamos taxar o sujeito que tem estresse no trabalho?”, questionou Alexandre Kruel Jobim, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas não Alcoólicas (Abir), durante uma audiência pública na Câmara dos Deputados para debater a criação de um imposto sobre esses produtos.

É uma fala interessante porque condensa alguns argumentos. Primeiro, de que a obesidade é causada por vários fatores – e, claro, os ultraprocessados estão longe de ser o fator central, de acordo com as empresas. Segundo, que o indivíduo é o grande culpado porque faz escolhas erradas. Terceiro, que nenhuma medida isolada resolve o caso.

De fato, tanto não resolve que, além da taxação, são propostos restrições à publicidade e à venda para crianças, sinais de advertência frontais nos rótulos e estímulos à venda de alimentos in natura, entre outras possibilidades. E, ainda que não fosse assim, por algum ponto é preciso começar.

  1. Mal educados

Sim! É preciso começar – e terminar – pela educação alimentar. Em 100% das falas de representantes das empresas e de acadêmicos mais simpáticos a elas, essa é a panaceia. As pessoas estão gordas porque não sabem comer. Basta explicar a elas que Doritos se come à tarde e não na hora do jantar; que Coca é para ser tomada depois de uma caminhadinha pela rua e que esse corpinho flácido não deve ficar parado.

Mas, calma, quem foi mesmo que disse que era impossível comer um só? E quem nos ensinou que bastava um movimento simples para poder tomar um montão de refrigerante? E que Danoninho vale por um bifinho? E que o suquinho em pó está cheio de vitaminas e minerais, mesmo que as frutas tenham passado longe daquele pacotinho?

Há certas babás que você não quer para os seus filhos.

De todo modo, essas empresas não promoveram até agora nenhuma ação relevante de educação alimentar, mesmo com o farto investimento publicitário na televisão.

  1. A diferença entre farinha de trigo e Fandangos

Não importa quanta evidência científica exista indicando determinado caminho, ela nunca é suficiente. Ou conclusiva. Para garantir o êxito desse argumento, o setor privado se esmera em financiar a produção de pesquisas científicas que caminhem no sentido contrário à regulação, confundindo a sociedade e os formuladores de políticas públicas. Já mostramos como a roda gira na Anvisa.

Pegando o caso da rotulagem, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) diz que o modelo de semáforos está ancorado em uma revisão da literatura feito pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação, da Unicamp, cujo coordenador é consultor de diversas empresas.

No mundo todo, dois tipos de organização têm sido acionados para defender as empresas.

– as sociedades acadêmicas nacionais de alimentação e nutrição, há longo tempo prestadoras de serviços

– as organizações de tecnologia de alimentos

Vamos falar sobre essas. Susana Socolovsky, presidente da Associação Argentina de Tecnólogos Alimentares, tem rodado o continente. México, Brasil e Uruguai foram três dos alvos. No geral, a fala consiste em acusar preconceito contra a indústria, mirando dois coelhos com uma cajadada.

Primeiro, a separação entre processados e ultraprocessados. Segundo, o modelo de perfil de nutrientes da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que toma essa separação como base para definir os limites de ingestão por produto e não mais pela dieta total do dia: consumindo alimentos que não excedam os limites, é provável que você mantenha uma dieta saudável.

“O modelo de perfil de nutrientes proposto está baseado nas calorias do produto. Não permite mostrar as diferenças entre um produto tradicional e um produto baixo em açúcar”, disse Socolovsky a um jornal uruguaio. Em outra entrevista, ela afirmou que os veganos são uma tribo de fanáticos que encontraram uma maneira de substituir a religião. “Existe uma culpabilidade não justificada do alimento empacotado, como se fosse por si prejudicial.”

Não nos parece que a reação da média da sociedade seja aos alimentos industrializados. É fácil entender que um feijão continua sendo feijão, mesmo dentro do pacotinho.

Uma linha central da defesa das empresas consiste em dizer que o processamento é praticado há séculos. O trigo passa pelos moinhos desde tempos imemoriais. Algas e vegetais são fermentados para aumentar o tempo de conservação. Mas é simples entender que existe uma distância grande entre isso e um Fandangos.

Na Colômbia, quem atua é Jairo Romero, presidente da Associação Latino-Americana e do Caribe de Ciência e Tecnologia de Alimentos. Ele foi ao Senado afirmar que o modelo de rotulagem frontal com base em sinais de advertência não tem evidências científicas e entra em conflito com os sistemas adotados internacionalmente.

Romero é dono de uma consultoria que presta serviço às empresas de alimentos. E, em 2011, esteve envolvido em um escândalo acadêmico: foi co-signatário de uma carta que determinou o cancelamento de um debate sobre obesidade infantil e mídia no congresso mundial da área sob a alegação de que poderia causar “inconvenientes com os patrocinadores”.

  1. Olé

Em pelo menos dois países, Brasil e Peru, as empresas jogam com o regulamento debaixo do braço, num drible digno dos grandes mestres. Não deu pelo Executivo, vai pelo Legislativo.

No final de novembro, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou o Projeto de Lei 489, de 2008, que ficou travado durante anos por ação da própria indústria. O PL postula a rotulagem por semáforos, que na década passada era visto como ruim pelo setor privado. Mas os anos passaram e o sistema se mostrou ineficiente. Então, é melhor fazer aprovar e sancionar uma lei que feche as portas à ação da Anvisa. No Chile, a história também começou com um semáforo e foi terminar num sinal de advertência.

Breve observação: a Comissão de Assuntos Econômicos é presidida por Tasso Jereissati (PSDB-CE), um dos maiores engarrafadores de Coca do mundo. Ele designou como relator Armando Monteiro Neto (PTB-PE), que já foi presidente da Confederação Nacional da Indústria.

No Peru, o Ministério da Saúde já havia aprovado em agosto uma resolução para adotar sinais de advertência inspirados no caso chileno, cumprindo as recomendações da Lei de Promoção da Alimentação Saudável, de 2013.

Mas o partido do ex-presidente Alberto Fujimori tirou da cartola um projeto para impor o semáforo. Como no Brasil, hierarquicamente uma lei estaria acima de uma decisão do Executivo. O texto foi aprovado rapidamente pela Comissão de Defesa do Consumidor do Congresso, que decidiu excluir do debate as evidências científicas.

  1. É treta

Se nada disso funcionar, sempre teremos a violência. Duas extensas e bem documentadas reportagens do The New York Times relatam ameaças e espionagem contra agentes públicos, pesquisadores e integrantes de ONGs envolvidas no debate regulatório no México e na Colômbia.

Imagem em destaque: reprodução do quadro Una família, do colombiano Fernando Botero.

Com quem andas, doçura?

Corporações de refrigerantes se fixaram no Amazonas ao custo de parcerias causadoras de danos ambientais e dominação cultural

A partir de Manaus (AM), uma viagem de 107 quilômetros pela BR-!74 leva ao município amazonense de Presidente Figueiredo. Apesar de registrar apenas 29 mil habitantes, terra é o que não falta por lá. São vastos 25,4 mil km2 – área maior do que as de alguns países da Europa – que compõem o território. Dentro disso, se assentam 59 mil hectares de terreno pertencentes à empresa sucroalcooleira Jayoro, dos quais 4,5 mil estão ocupados por cana-de-açúcar e 410 por pés de guaraná.

Instalada na região em 1984, a usina, logo de cara, promove largo desmatamento. Nascida a partir do Proálcool estimulado pela ditadura militar (1964-1985), com apoio da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), faz predominar a monocultura da cana em detrimento de diversas espécies vegetais nativas e produz matéria-prima para combustível de veículos. Os espíritos da Amazônia praguejam e o plano dá errado: nos anos 1990, a empresa tropeça e se torna uma pequena produtora de cachaça, utilizando somente 300 hectares de canaviais. No entanto, a reza empresarial também é brava. E a salvação vem. Em 1995, o empreendimento entra na mira de “investidores-anjo”. Entre eles, a Coca-Cola.

O poder econômico da Jayoro aumenta e, consequentemente, a força política cresce, o que facilita a vida da empresa para expandir o plantio, mesmo instalada num espaço cercado por áreas de proteção ambiental e sob a acusação de ter invadido terras públicas quando chegou ao Amazonas pelas mãos da família paulista Magid.

Já nos anos 90, a usina volta a destruir a floresta.  Aproximadamente 10 mil hectares de mata são derrubados para retomar o ritmo do plantio da cana. Dessa vez, a motivação é o fornecimento do açúcar, necessário à produção de concentrado de refrigerantes, o popular xarope, que serve de base para engrossar as bebidas açucaradas e gaseificadas que enchem os copos e corpos de milhões de brasileiros, e impulsionam os índices de obesidade, relacionados diretamente com diabetes e até 13 tipos de cânceres, de acordo com posicionamento recente do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

De Presidente Figueiredo, o açúcar é despachado para a Zona Franca de Manaus, onde é despejado na Recofarma Indústria do Amazonas LTDA, fabricante de xarope e segunda maior engarrafadora de Coca-Cola do Brasil. A empresa é controlada pelo Grupo Solar, de propriedade do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), e já foi abordada pelo O joio e o trigo em reportagem sobre polêmicos incentivos tributários recebidos pelo setor de bebidas açucaradas. A triangulação Coca-Cola-Jayoro-Recofarma abastece todas as engarrafadoras no Brasil e também Argentina, Colômbia, Paraguai, Venezuela, Uruguai e Bolívia.

Não bastassem os danos ambientais causados para incentivar uma monocultura que garanta açúcar suficiente para a produção de xarope-base do refrigerante carro-chefe, a dupla Coca/Jayoro também se beneficia do tradicional plantio de guaraná na Região Amazônica. Maior usina sucroalcooleira do Amazonas, a Agropecuária Jayoro LTDA é a responsável por grande parcela do açúcar usado pela Recofarma. É da Jayoro, também, que sai a totalidade do extrato de guaraná usado no refrigerante Kuat, outro produto da corporação que carrega a tentacular marca vermelha e branca.

Mais dois problemas vêm com a parceria firmada em 1995: primeiro, o uso de agrotóxicos. Dois: o vinhoto, resíduo final do processo de fabricação do açúcar ou da destilação da qual se obtém o álcool, ou a aguardente de cana, que, se não for adequadamente tratado, provoca poluição de águas. Depositados nas lagoas e igarapés, são potentes contaminantes.

Denúncias surgem. Principalmente, após o início dos anos 2000. Segundo o técnico em agropecuária Paulo Sérgio Ribeiro, funcionário da Jayoro por 18 anos e entrevistado pela equipe da Repórter Brasil, vários tipos de inseticidas eram aplicados nos canaviais com tratores e aviões.

O pesquisador e filósofo Egydio Schwade, um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), atualmente morador de Presidente Figueiredo, denuncia há tempos a situação. E não poupa palavras. “O projeto da Coca-Cola/Jayoro já começou aniquilando em torno de 3 mil espécies de vegetais nativas para instalar a cana-de-açúcar. Após esse desastre ecológico, praticado com motosserras e tratores, impõe o desastre químico sobre toda a região, com o borrifo de venenos. Nenhuma espécie de planta ou animal nativo sobrevive naquele deserto”, enfatiza.

Schwade destaca, ainda, “os efeitos nocivos sobre a terra e as pessoas”,  consequências da exploração do território e do envenenamento de trabalhadores dos canaviais por agrotóxicos. “Topo, aqui, com trabalhadores intoxicados por venenos da Jayoro. Tem gente em cadeira de rodas, muitos vão tossindo pelas ruas por ‘causa desconhecida’”, diz.

Modelo para quem?

A Jayoro já foi considerada publicamente como “usina-modelo” por José Mauro de Moraes, alto executivo da Coca-Cola Brasil. O Ministério Público Federal no Amazonas, entretanto, parece não concordar. Atento observador das atividades da empresa, o MPF já investigou, em 2008, a contaminação – por uso de agroquímicos – de igarapés na região de Presidente Figueiredo. No entanto, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão que fiscaliza questões relacionadas ao meio ambiente no estado, afirmou que a sucroalcooleira atendia à legislação. O MPF, então, solicitou ao instituto os laudos de análise das águas. A devolutiva não foi satisfatória; apenas dizia que a licença da agropecuária estava em processo de avaliação,  contradizendo a primeira resposta.

Após nova investida do Ministério Público, ainda em 2008, o órgão estadual não teve saída: um parecer do Ipaam não renovou a licença ambiental da associada da Coca-Cola. Estranhamente, no ano seguinte, 2009, a empresa estava em plena atividade, sem a renovação anual de licença ambiental.

Antes, em 2007 e 2008, a licença das lavouras da Jayoro só havia sido retomada graças à assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ipaam, sob 13 condições. Dentre elas, a correção de rumos no uso de métodos agressivos ao meio ambiente e à população do entorno, a exemplo da queima de palha da cana-de-açúcar.

Dados conflitantes a respeito da agropecuária de propriedade da Coca não faltam. Única usina amazonense registrada na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Jayoro declara possuir 4,5 mil hectares dedicados à cana. Contudo, pesquisa do Ministério do Meio Ambiente (MMA) feita em 2008 já mostrava que o cultivo ameaçava uma área prioritária para a biodiversidade. A Área de Proteção Ambiental (APA) da margem esquerda do Rio Negro, setor Aturiá/Apuauzinho, constante do Mapa das Áreas Prioritárias para a Biodiversidade como “de extrema importância”, sofria com o plantio de cana-de-açúcar da usina, que estaria localizado sobre nascentes do rio Apuaú, segundo o MMA.

A Jayoro, por meio da sua direção, se posiciona oficialmente afirmando que “deixou de queimar palha em 2010” e que criou “voluntariamente” um plano de mecanização do corte da planta.

Os representantes da empresa se defendem quanto à monocultura e à aplicação de agroquímicos: garantem que, hoje, a linhaça é o fertilizante aplicado no solo e que não há uso de inseticidas. Ainda certificam que não plantam cana perto de cursos d´água.

Sobre a ação movida pelo Ministério Público Federal no Amazonas, o discurso é de que a denúncia é baseada em “fatos inverídicos” e que não existe registro de doença respiratória ou de qualquer outra natureza que tenha como agente causador a queima da palha da cana-de-açúcar.

Além disso, diretores da empresa refutaram a tese de que incêndios tenham provocado a morte de animais, mas um deles, Camillo Pachikoski, em 2013, chegou a admitir publicamente que “se porventura houvesse risco, o animal teria chance de fuga.”

Já a Coca-Cola, que se gaba de incentivar programas de proteção ao meio ambiente e que possui uma página oficial na Internet para “desmentir boatos”, faz somente uma menção a Jayoro em todo o site da corporação no Brasil, num texto sobre agroflorestas.

Pai sequestrado

Além das vermelhas e brancas, “marcas verdes” também têm braços poderosos. E eles envolvem a Amazônia num abraço apertado, capaz de sufocar. As megaempresas de refrigerantes são das poucas ultraprivilegiadas que estão inseridas na produção de bens cuja matéria-prima está no Amazonas. Lá, a Paullinia Cupana (a fruta do guaraná) foi descoberta como elemento alimentar e medicinal pela tribo Sateré-Mawé, índios conhecidos como “os filhos do guaraná”.  Segundo o artigo “Da trajetória secular aos novos caminhos do guaraná: desafios e perspectivas da produção na Amazônia do século XVII ao século XXI”, dos pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Arenilton Monteiro Serrão, Manuel de Jesus Masulo da Cruz e Luis Fernando Belém da Costa, tal herança cultural foi transformada em bebida com fins comerciais pela primeira vez no século 19, por mercadores mato-grossenses que davam aos índios “espelhos, pentes e outros produtos supérfluos” em troca da fruta, para depois negociar com compradores europeus. Com o avanço da tecnologia, toda a esfera social, política e econômica até então existente foi desmantelada, aponta o trabalho.

O Guaraná Antárctica que, historicamente, usa publicidade com mensagens mostrando que é desse cultivo amazônico que sai a base da bebida açucarada, tem papel central nesse desmonte. O orgulhoso discurso do marketing empresarial se colocar na posição de “refrigerante original do Brasil”. A realidade crua, entretanto, revela que a compra feroz da fruta, que se iniciou há mais de 50 anos pela então empresa paulista Antárctica, apropriou-se da cultura dos Sateré-Mawé, afetando as relações produtivas coletivas, que, hoje, segundo os pesquisadores da Ufam, se dão “de forma monopolista.”

Fábrica do Guaraná Antárctica na cidade de Maués (AM)

Após a fusão entre Antárctica e Brahma, que criou a AmBev, em 1999, a apropriação e a monopolização aumentaram agressivamente. Em 21 de outubro daquele ano, executivos de AmBev e PepsiCo Inc estabeleceram um acordo que previa o compromisso de distribuir o guaraná (waraná, na língua Sateré-Mawé) para mais de 175 países, levando o produto a uma escalada mundial. O trato foi acertado em audiência com o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP).

Esse período, de acordo com o estudo, marca também o início da decadência produtiva do Amazonas, em especial do município de Maués, a 253 quilômetros de Manaus e terra do povo Sateré-Mawé. Inclusive, o posto de maior produtor de guaraná acabou perdido pelo estado para a Bahia, essencialmente por fatores ligados às pesquisas agronômicas, renovação dos guaranazais e produção em grande escala.

“O guaraná deixou de ser um produto genuinamente Sateré- Mawé e tornou-se uma marca conhecida mundialmente, onde o marketing principal cavalga em alusão à indicação geográfica, como parte integrante de uma cultura indígena secular amazônica, e a venda dessa imagem é um fator preponderante na arte da acumulação do capital sobre essa cultura”, conclui o pesquisador Arenilton Monteiro Serrão.

Foto 1: Saúde Selecta
Foto 2: Fernando Cavalcanti

Os bolsos gordos da ciência da obesidade

Como a indústria de alimentos ultraprocessados utiliza a pesquisa científica para minar políticas públicas, desviar o foco e promover hábitos de consumo

“Estávamos iludidos de que se poderia chegar a uma boa solução”, diz Simón Barquera. Algumas semanas antes, havíamos visto o nome dele associado ao Comitê Científico da Choices International Foundation, uma organização criada pela indústria de alimentos para evitar a adoção de rótulos com alertas sobre (altos) teores de sal, gordura e açúcar.

E ficamos surpresos: Simón, um dos diretores do Instituto Nacional de Saúde Pública do México, é um dos grandes nomes latino-americanos na área de obesidade e doenças crônicas, e editor associado da Public Health Nutrition, uma publicação de alta reputação na área de saúde. É, além disso, um dos principais porta-vozes dos grupos acadêmicos que pedem a adoção de medidas fortes para conter os efeitos das grandes empresas em nossas vidas.

Em fevereiro, o New York Times havia revelado que ele é alvo de espionagem no telefone e no meio digital justamente em meio a debates sobre políticas públicas nessa área.

“Como se pode imaginar, não houve acordo em nada. A indústria não apoiou nossas propostas de rotulagem, não apoiou nossas propostas de publicidade, não apoiou nossa proposta de tirar a comida tranqueira das escolas”, ele conta.

Na virada da década, o México estava preparando uma agenda regulatória forte na área de alimentação em resposta à entrada no seleto grupo de países com maiores índices de obesidade do planeta. Os esforços da indústria para evitar o avanço dessas propostas fazem com que Simón não tenha mais dúvida: não é possível sentar-se à mesa quando há interesses tão conflitantes. De um lado, as grandes empresas buscam o aumento incessante do lucro. De outro, os índices de obesidade e de doenças crônicas não param de crescer.

Por aqui, o sinal amarelo acendeu para valer na virada do século. A Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-03 do IBGE mostrou que 40,6% dos brasileiros apresentavam sobrepeso – desses, 11,1% estavam obesos, quase o triplo do número de pessoas com déficit de peso. Mas o grosso das políticas públicas seguia direcionado ao combate à miséria, tanto que o principal programa do governo eleito em 2002 se chamava Fome Zero.

Veio então a pesquisa de 2008-09 e a notícia de que 34,8% das crianças de 5 a 9 anos tinham sobrepeso – 16,6% de obesidade, quatro vezes mais que o índice de déficit de peso. Entre os adultos, o sobrepeso já atingia 49%, mais de oito pontos de crescimento em seis anos.

“A gente antigamente olhava o sistema alimentar muito induzido pelo diálogo com a indústria”, diz Patricia Jaime, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP. Quando ela chegou ao Ministério da Saúde como coordenadora geral de Alimentação e Nutrição, em 2011, a conversa já havia mudado de rumo. “Os determinantes sociais que nós costumávamos usar já não davam conta de explicar boa parte do problema.”

A epidemia de obesidade a nível global fez saltar aos olhos as contradições entre o financiamento privado da ciência e o exercício científico da dúvida, da crítica, da reflexão. Até há pouco tempo as indústrias de alimentos eram vistas como as responsáveis por matar a nossa fome. Então, tinham todo o direito de se sentar à mesa para discutir como chegaríamos a isso. Mas, nas últimas décadas, ficou difícil ignorar o papel que esses produtos todos desempenham no sobrepeso. É aí que entra a ciência: está muito claro que estudos foram manipulados para ocultar evidências ou desviar o foco.

O debate é recente no mundo todo, e ainda mais recente no Brasil. Se hoje Simón Barquera não hesita em marcar posição, sete ou oito anos atrás ele via a questão de maneira diferente. “No México, a indústria está envolvida em todas as tomadas de decisão sobre prevenção de obesidade. Então, é difícil aprovar qualquer coisa. Eles têm voz e voto.”

Os motivos para uma empresa patrocinar uma pesquisa ou um evento na área de saúde se condensam em quatro vertentes: influenciar políticas públicas, profissionais de saúde, hábitos de consumo e imagem pública. Acima de todas elas está o desvio de foco. É apontar o dedo para o outro. Às vezes, um outro segmento industrial. No mais das vezes, uma outra causa para a obesidade. Há um sem-fim de pesquisas apontando que a explosão do problema é culpa da preguiça, da genética, do descontrole individual e até das bactérias que carregamos em nosso intestino.

Mudar por dentro

Vamos partir do caso da Choices Foundation, que no Brasil se chamava Instituto Minha Escolha. Em dezembro de 2015, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) compareceu à reunião do grupo de trabalho da Anvisa sobre rotulagem armada de uma apresentação da Choices. O grupo foi criado na metade da década passada, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) difundiu a Estratégia Global em Alimentação, Atividade Física e Saúde, um documento-chave para as empresas de ultraprocessados porque começa a impor limites: propõe impostos como forma de desestimular consumo e a adoção dos rótulos como espaço de alerta sobre riscos à saúde.

É fácil entender que o Choices, criado pela Unilever, é uma tentativa de evitar a regulação. O que faz o instituto, presente em vários países, é conceder um selinho positivo para produtos que promovam uma reformulação para reduzir os níveis de calorias, açúcar, sal e gordura. Não importa se é um salgadinho, um refrigerante, um biscoito.

A exemplo do comitê latino-americano, o comitê científico brasileiro tem nomes conhecidos no meio: Franco Lajolo, Silvia Cozzolino, Sonia Tucunduva Philippi e Eliane Bistriche Giuntini. Além de serem professores das faculdades de Ciências Farmacêuticas e de Saúde Pública da USP, encabeçam organizações conhecidas pela proximidade com a indústria de alimentos.

Foram fundadores ou são integrantes da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), que tem se envolvido em polêmicas ao defender certos produtos. Lajolo preside o Comitê Científico do International Life Sciences Institute (ILSI), uma organização criada pela Coca-Cola e que hoje tem a participação de dezenas de corporações voltadas à “produção de conhecimento” utilizado no debate sobre políticas públicas.

Cozzolino preside o Conselho Regional de Nutricionistas da 3ª Região (São Paulo e Mato Grosso do Sul), que tem se oposto às medidas do conselho federal favoráveis a um maior distanciamento em relação ao setor privado. Recentemente, ela se fez alvo de críticas ao se posicionar publicamente contra um debate sobre conflito de interesses promovido pelo órgão federal.

A posição foi reforçada durante a entrevista que nos concedeu, rechaçando a possibilidade de regulação. “De todas as empresas que eu tenho contato e que de alguma forma tenho conversado sobre isso, estão preocupadas com o aumento da obesidade e estão de alguma forma procurando alternativas para os produtos que são produzidos no sentido de reduzir açúcar, reduzir quantidade de sal, reduzir gordura.”

A mudança por dentro é um motivo frequente para que cientistas aceitem participar de pesquisas e grupos financiados pelo setor privado. Embora o limite de cada um nessa relação varie bastante, o inegável é que há uma parcela crescente de pesquisadores incomodados.

Susan Prescott, professora de pediatria na Escola de Medicina da Universidade da Austrália Ocidental, esteve durante dez anos no Conselho Consultivo do Instituto de Nutrição da Nestlé na Oceania. Ela conta que sempre se questionou sobre os conflitos criados por essa relação porque, como pediatra, crescentemente notava os problemas criados pelos ultraprocessados.

Apesar de nas empresas haver encontrado pessoas muito dispostas a contribuir para a melhoria da saúde em escala global, também notou que as atividades essenciais dessas corporações, o marketing e o desenvolvimento de produtos, estavam voltados ao lado oposto. “Pesquisadores que se mantêm entrincheirados na defesa dos ultraprocessados estão se descobrindo no lado errado da história. Mesmo que por associação, eu estava de fato emprestando meu nome a algo que considero ser um sistema não saudável.”

As pesquisas de sequenciamento genético mostrando os efeitos negativos provocados pelos ultraprocessados em nossa flora intestinal deram mais força a essa posição. Susan Prescott, como integrante da inFLAME Global Network, uma rede de pesquisadores que justamente mapeia essas consequências, foi ficando muito incomodada com as descobertas.

E a gota d’água veio com um artigo assinado por um integrante do Comitê Científico da Nestlé que contesta a classificação dos alimentos entre in natura ou minimamente, processados e ultraprocessados, conhecida no meio científico como NOVA. O assunto já foi abordado por O joio e o trigo, mostrando como os ataques ao pesquisador brasileiro Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, partiram de cientistas com ligações com a Nestlé.

“Um criticismo equilibrado é um fator importante para o progresso científico. No entanto, quando vejo tentativas de desacreditar o sistema NOVA por pessoas financiadas pela indústria, eu só posso concluir que esses esforços são característicos de escapismo intelectual”, diz Susan.

Motivações

Uma razão crucial para o financiamento privado da ciência é influenciar, formular ou retardar políticas públicas. Os agentes públicos precisam embasar posições e, se surge algo bem feito, bem apresentado, cresce a chance de que a visão contida nesse material prospere. E que aquele cientista que não fez um trabalho ativo para se fazer ver acabe desconsiderado no debate. Já vimos como isso se dá na Anvisa.

Outra razão frequente diz respeito à influência que pesquisas exercem sobre profissionais de saúde. Um suplemento, um alimento ou um medicamento amplamente acolhido pela comunidade médica significa bilhões a mais no caixa.

Ditar hábitos de consumo de forma mais ampla é um desdobramento natural, e a internet e os modismos abriram todo um novo horizonte. Um especialista que vai a um programa de TV ou que tem milhares de seguidores numa rede social pode ser a chave do sucesso de um produto. Em nossos hábitos cotidianos há fartura de exemplos: adoçantes, vinhos, azeites, produtos integrais etc etc etc.

E, por fim, essas pesquisas servem para atestar boas práticas – ou encobrir as más. Uma recomendação de uma associação médica ou da área de nutrição para certo produto ou certa empresa vale bastante – tanto mais quanto melhor reputada for a organização. Há entidades no Brasil que oferecem um selinho que acompanha produtos no supermercado. Algumas são honestas, mas nem todas.

Como em outras áreas, as empresas sabem que não precisam financiar pesquisa em tudo quanto é canto. Basta contar com um número pequeno de colaboradores de peso, capazes de emprestar credibilidade à mensagem que se quer irradiar. Há uma premissa fundamental na discussão. Quem considera que as grandes empresas estão nos trazendo progresso e bem-estar tende a não ver problemas na relação delas com a ciência e a acreditar naquilo que é apresentado.

No fundo, o debate poderia se resumir a: o mundo é assim e vamos como der; o mundo pode ser de outro jeito e vamos fazer por onde para mudar. Os interesses das corporações podem convergir com os da sociedade? Ao promover determinado assunto para o qual há fundos de pesquisa, estamos deixando de lado outros temas igualmente importantes? A ciência deve ser um campo salvaguardado da influência privada?

A premissa para entender a discussão é saber que o setor privado tem pavor da palavra regulação. Quando sente que está a caminho, lança mão da autorregulação, ou seja, da ideia de que as empresas podem se autofiscalizar. O raciocínio é de que, se essas corporações estão demonstrando boa vontade, a imposição de normas mais rígidas é autoritária e desnecessária. Foi assim com o consumo excessivo de sal e com a publicidade de refrigerantes e ultraprocessados voltada a crianças, só para citar dois exemplos desta década.

É assim no caso da Choices, que tenta evitar a imposição de alertas frontais nas embalagens. No México, funcionou: o país adotou o GDA, mostrado na figura abaixo, em detrimento do modelo chileno, de advertências. Você pode olhar os dois sistemas e dizer qual te passa a informação mais clara.

A Anvisa está debatendo a adoção de um padrão de rotulagem frontal. Nos próximos meses, não faltarão pesquisas científicas voltadas a desmerecer propostas mais rígidas, como o rótulo chileno. E a enaltecer a autorregulação e padrões que possam ser usados pela indústria como publicidade, em lugar de restrição.

Os slides apresentados na reunião da Anvisa dizem que o Minha Escolha enfrentou “barreiras regulatórias” no Brasil: não podia colocar selinho positivo em produtos de péssimo teor nutricional. A apresentação também enfatizava que o Choices é ancorado em forte trabalho científico.

Gênese

Não necessariamente toda ciência produzida com recursos privados é ruim ou deve ser desacreditada. Vamos lembrar que nada na vida é neutro e que as várias correntes da ciência refletem uma série de pressupostos básicos. Então, há cientistas cuja visão ideológica favorece chegar a essa ou àquela conclusão. Isso é do jogo. O que não é do jogo científico é desconsiderar elementos relevantes simplesmente porque não atendem a seus pressupostos ou aos pressupostos de seus patrocinadores.

“O estudo não tem a influência da indústria. E na hora de escrever o artigo a ser publicado também nunca tive”, diz Felix Reyes, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp e fundador do ILSI. “Independente se o resultado interessa ou não à empresa, é um resultado científico. O dado científico deve ser publicado. A nossa função não é proteger ou não uma empresa. Vamos ajudar a empresa. Se o resultado é negativo para a empresa, vamos buscar uma forma de evitar esse efeito negativo.”

Porém, os estudos que passam a limpo essas relações têm mostrado outra realidade. Em 2007, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos analisou 222 artigos publicados entre 1999 e 2003, dos quais 22% haviam sido financiados exclusivamente por capital de empresas de alimentos. As conclusões de cada pesquisa foram avaliadas por pessoas que desconheciam a origem do financiamento. A proporção de conclusões desfavoráveis à indústria nos artigos que receberam dinheiro dela foi de 0%, e a diferença foi de 7,6 vezes mais resultados favoráveis nos trabalhos com recursos privados.

O próprio Felix Reyes enfatiza que a indústria busca financiar assuntos que lhe sejam benéficos ou que sirvam para a contenção de danos, dando como exemplo o interesse de Coca e Pepsi por trabalhos sobre adoçantes. “Pesquisas mostravam que a sacarina induzia tumores na bexiga de ratos. Isso foi um rebuliço. Como deixaram usar a sacarina nos refrigerantes diet? Isso acabaria com esse nicho de mercado. Então se começaram as pesquisas com o apoio da indústria. A indústria financiou muitas pesquisas.”

Em 2013, um grupo de cientistas espanhóis analisou 18 artigos de revisão sobre bebidas açucaradas. Os artigos de revisão são importantes porque condensam conclusões e, portanto, servem tanto para decisões de formuladores de políticas públicas como para recomendações de profissionais de saúde.

De seis trabalhos financiados pela indústria, cinco desconsideravam a associação entre a obesidade e o consumo dessas bebidas, ou adotavam uma postura inconclusiva. Trabalhos de comprovada relevância eram ignorados por esses autores. “Os interesses da indústria de alimentos (vendas aumentadas de seus produtos) são muito diferentes dos interesses da maioria dos pesquisadores (a honesta busca pelo conhecimento) (…) Essas descobertas chamam atenção para possíveis descuidos em evidência científica de pesquisas financiadas pela indústria de alimentos e bebidas”, assinala a conclusão.

Este ano, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia passou a limpo a maneira como a indústria do açúcar apontou o dedo para as gorduras durante décadas. O caso foi tratado também pela revista Piauí na reportagem Conspiração Amarga, de junho de 2016.

O que esse grupo de pesquisadores mostrou foi que já na década de 1950 havia evidências da associação entre açúcar e doenças cardíacas. O que se fez, então, foi criar uma fundação que desenvolveu pesquisas que jogaram toda a culpa na gordura, o que levou a que as recomendações oficiais de saúde advogassem por dietas baixas em gordura, o que por sua vez pode ter provocado muitas mortes (nunca saberemos quantas). Essa fundação procurou alguns figurões da ciência médica e ofereceu a eles um dinheiro que hoje seria trocado para pinga, mas que foi o suficiente para manipular evidências.

Desvio de foco

Durante um evento recente em São Paulo, o médico Mário Cícero Falcão, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP, com trabalhos patrocinados pela Johnson e pela Aché, apresentou um slide de 2000 que associava fórmulas infantis a uma flora intestinal mais rica que a de crianças alimentadas com leite materno. E admitiu: hoje se sabe que isso não é verdade. Erros acontecem. Descobertas científicas fazem com que os consensos estejam em constante transformação.

Mas não é disso que estamos falando: estamos falando de como a ciência foi usada para induzir gerações de mães ao erro de pensar que o leite materno é fraco, é escasso, é incompleto. Isso ainda é comum.

Tampouco estamos dizendo que a ciência foi e é usada para vender algumas balinhas a mais, ou promover uma troca eventual da comida caseira por uma refeição pronta. Pesquisas financiadas para enaltecer o alimento artificial fizeram com que muitos médicos – é de supor que na maioria das vezes sem más intenções – receitassem uma prática errada às pacientes. Isso pode ter custado caro à saúde de muitas pessoas: de bebês.

A despeito de tudo isso, muitos profissionais da saúde batem na mesa e garantem que agora estamos diante de descobertas definitivas, irrefutáveis. Quando surge alguma evidência contrária ao setor privado, pregam cautela e dizem que são necessários novos estudos para chegar a uma conclusão. Mas não demonstram a mesma precaução em relação àquilo que é bom para o lucro das empresas — e deles.

Hoje, no Brasil, o Ministério da Saúde calcula que três em cada quatro mortes sejam causadas por doenças crônicas não transmissíveis. Nem todas estão relacionadas a alimentos, mas diabetes e hipertensão, que ocupam espaço privilegiado, podem estar. No começo de agosto, o Instituto Nacional do Câncer emitiu um posicionamento no qual afirma haver correlação entre obesidade e 13 tipos de câncer. O órgão público diz que o aumento do consumo de ultraprocessados é um grande problema, e que é possível dizer que 13 em cada cem casos de câncer no país podem ser atribuídos ao excesso de peso. O documento cobra a imposição de limites a esses produtos, com aumento de impostos, restrição de publicidade e mudanças na rotulagem, e demonstra preocupação com os resultados de pesquisas financiadas pela indústria.

Vamos pegar um exemplo de agora. As tecnologias de sequenciamento genético avançaram de modo a promover um mapeamento inédito do nosso microbioma intestinal, que é o conjunto de microrganismos que vivem no trato digestivo. Há bichinhos aliados na digestão. Um dos grandes achados é de que a composição digestiva de obesos é diferente da de magros. Os cientistas ainda não têm certeza se isso é resultado de uma alimentação mais pobre ou se a alimentação mais pobre é que é o resultado dessa composição – Susan Prescott, como vimos, não tem dúvida.

De todo modo, deveríamos chegar a uma conclusão óbvia: basta mudar a alimentação para que o microbioma se regenere. Verduras, legumes, frutas, cereais naturais, alguma carne (se quiser). A grande maioria de nós, humanos, só precisa disso para sobreviver. Mas, então, um evento da área de nutrição se resumiria a uma frase: “Comam alimentos de verdade”. Em suma, seria desnecessário, e com isso iria por água abaixo o patrocínio da indústria a pomposos encontros. Por consequência, a necessidade de bancar certas pesquisas. A capacidade de provocar uma enorme confusão na cabeça das pessoas sobre o que e o que não comer. Bilhões em publicidade. A fabricação de suplementos, alimentos fortificados, funcionais, probióticos, prebióticos e simbióticos. Bilhões em “soluções” para a obesidade.

Não conseguimos ouvir nenhuma solução simples saída da boca de pesquisadores empolgados com as descobertas sobre a microbiota, em uma dezena de debates a que assistimos entre maio e novembro. O caminho inevitável parece ser a receita de novos remédios e alimentos com probióticos – dois exemplos para entender do que estamos falando: Yakult e Activia. Essas descobertas todas sobre a vida agitada de nossa barriga abriram uma nova janela de oportunidades para a indústria que quer negar a correlação com a obesidade. E uma nova janela de oportunidades para a mesma indústria, que quer lucrar com a obesidade.

Assim que a Anvisa deixar: neste momento, as corporações e alguns grupos de pesquisadores trabalham para mudar as normas vigentes de maneira a “destravar”, para ficar no jargão comercial, a inovação no Brasil. Não resta dúvida de que alguns grupos da população com problemas específicos podem se beneficiar desses achados, porém, diante de resultados reconhecidamente preliminares, os profissionais de saúde deveriam recomendar esses produtos a torto e a direito?

Durante um debate realizado em novembro do ano passado pelo ILSI, Marcos Pupin, diretor de Assuntos Regulatórios e Científicos da Nestlé, informou que o Brasil dispunha de apenas um estudo clínico sobre probióticos, contra 833 nos Estados Unidos.

No Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), em agosto, Franco Lajolo, do ILSI, avisou aos presentes que a Anvisa precisará de estudos nessa área, ecoando o que havia sido dito semanas antes, em outro evento, por Dan Waitzberg, da Faculdade de Medicina da USP e do ILSI.

O PubMed, uma das principais bases de trabalhos científicos, registra este ano quase cinco mil artigos sobre o tema, somados a outros 6.000 em 2016 e 5.350 em 2015. Uma década atrás, eram menos de quinhentos ao ano e, voltando um pouco mais, na virada do século não chegavam a uma centena.
“O que me preocupa é que essa agenda veio muito da indústria, que promove uma série de produtos, sobretudo lácteos, que têm efeitos para a microbiota. E querem promover esse vínculo com a obesidade. Me preocupa porque a atenção sobre coisas básicas, como o consumo de açúcar, não tem esse mesmo apoio por detrás”, lamenta o mexicano Simón Barquera.

Quando se trata da correlação entre açúcar e obesidade, temos menos de mil artigos este ano, 2.000 no ano passado e 2.500 em 2015. É mais fácil imaginar que um bilhão de pessoas mundo afora emagrecerão à base de probióticos ou conhecendo a influência do açúcar sobre a dieta?

Vamos pegar mais um exemplo dessa distorção. Felix Reyes, fundador do ILSI, é professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp desde a década de 1970. “Na área de segurança alimentar e toxicologia, temos tido reticência por parte da indústria porque ninguém quer que fale que o alimento está com determinado resíduo. A indústria tem procurado mais na área de alimentos funcionais. Se você desenvolve um ingrediente com propriedades funcionais, a indústria se interessa.”

Os motivos

Alguns desses pesquisadores são selecionados porque têm alta capacidade técnica. Mas nós temos o direito de saber que, naquela condição, Fulano de Tal é o consultor de uma corporação, e não o professor de uma faculdade. Porém, tomar emprestada a credibilidade da instituição é um ponto central da história.

“O que a indústria de alimentos quer muitas vezes não é cooptá-lo no sentido de falar bem da indústria e de seus produtos. É não criticar, apenas isso”, diz Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ele é um dos nomes mais críticos à relação entre indústria e ciência, e também um dos mais criticados pelas grandes empresas.

Embora tenha participado da fundação da Sban, decidiu se afastar. “Investimento em professores de universidades é muito ‘produtivo’ para a indústria. O professor tem contato com centenas de jovens, pode alcançar muita gente. Isso faz parte da estratégia de cooptação. A solução para isso é ter um código de ética, de conflito de interesse. É importante ser explicitado.”

Quem também decidiu se afastar (parcialmente) foi o chileno Ricardo Uauy, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Ele foi fundador do ILSI em seu país, mas nos contou recentemente que decidiu não exercer altos cargos dentro da organização porque tinha receio dos rumos que poderia tomar. Uauy, que segue como consultor de algumas empresas, foi menos enfático ao comentar o assunto. “Hoje, está claro que a saúde pública não era o principal propósito do ILSI.”

Recentemente, durante um evento em São Paulo, o presidente da Cargill disse contar com 500 PhDs somente na área de nutrição animal. Se ele dispõe de tanta gente capacitada a fazer pesquisa em tempo integral, por que precisa pinçar professores nas maiores universidades do país? Porque nós tendemos a acreditar no professor, e a desconfiar do representante de uma empresa. O primeiro está compartilhando saber. É um nobre. O segundo, fazendo propaganda. Um mundano. Somos gratos ao primeiro e estamos dispostos a reproduzir em nossas vidas o que ele diz ser correto.

Em resumo, um comentário certo para o público certo economiza milhões de reais (e alguns anos) em publicidade. O profissional de saúde em geral, o médico em particular, é uma figura envolta em sacralidade desde tempos imemoriais – quase 300 deles foram eleitos prefeitos em 2016.

A Yakult mantém desde 1955 no Japão um centro com 300 cientistas que buscam exclusivamente descobrir benefícios de seus produtos. A Coca-Cola criou em 1978 o ILSI para tentar provar que a cafeína adicionada ao refrigerante não era apenas um item a mais na tarefa de viciar pequenos fregueses, nem causava hiperatividade.

Mas há uma série de mudanças nas últimas décadas em relação ao grau e à evidência sobre os problemas dessa “parceria”. O primeiro diz respeito à redução do papel do Estado e ao fortalecimento do paradigma de que o setor público é canalha e o setor privado é generoso: quanto mais agentes privados tivermos no setor público, mais o depuramos. No âmbito acadêmico, sucessivas reduções orçamentárias fazem com que o dinheiro de grandes empresas seja a tábua de salvação para cada vez mais gente – alguns estudos custam caro e podem demorar anos a se viabilizar com recursos públicos.

Se as universidades dos estados mais ricos estão sofrendo severas restrições, a situação é ainda mais grave em outras partes. “O conflito de interesses é invisível para quem não tem um olhar treinado. Porque vem muito embutido como uma boa ação”, conta Nádia Aline Fernandes Correa, conselheira da região Norte no Conselho Federal de Nutricionistas. “Existe um aliciamento dos profissionais pelo aspecto econômico. A pessoa precisa que as coisas aconteçam, então, é comum ver esse tipo de ação.”

Ilton Azevedo, diretor da Coca-Cola e vice-presidente do ILSI, afirmou em entrevista publicada no ano passado que há “resistência de grupos específicos” que advogam pelo financiamento exclusivamente público da ciência, mas que é preciso reconhecer que a indústria conta com recursos grandes, diante de um cenário difícil para o setor público, e “pode aportar know-how sobre produtos, materiais e tecnologias de produção”.

Rogério Bezerra da Silva, do Grupo de Análise de Políticas de Inovação da Unicamp, estuda a apropriação do conhecimento produzido pelos pesquisadores públicos. Ele integra o Movimento pela Ciência e Tecnologia Pública, e demonstra desalento com a criação de cada vez mais instrumentos voltados à privatização do conhecimento e à transformação do acadêmico em empreendedor. “No caso da política de ciência e tecnologia, é a própria comunidade de pesquisa quem vê um caráter positivo nesse sentido de privatização porque é o ator que mais se beneficia com isso.”

O encolhimento estatal afeta até mesmo a OMS, que depende crescentemente de fontes privadas para manter iniciativas importantes. A Fundação Bill e Melinda Gates já é a segunda maior doadora, atrás apenas dos Estados Unidos. Quem doa quer opinar e acaba direcionando as prioridades e a agenda global de saúde, inclusive sentando-se à mesa para debater políticas que poderiam afetar os próprios interesses. “Já não se trata apenas das grandes corporações do tabaco. A saúde pública também deve travar uma luta com as grandes de comida, refrigerantes e álcool. Todas essas indústrias temem a regulação e se protegem usando as mesmas táticas”, afirmou a então diretora-geral da OMS, Margaret Chan, ao abrir uma conferência de saúde em 2013.

Ela afirmou não ter dúvidas de que o temor dos Estados frente às corporações é o principal freio à regulação dos fatores que causam a obesidade. “[As táticas] incluem grupos de fachada, lobbies, promessas de autorregulação, ações judiciais e pesquisas financiadas pela indústria que confundem as evidências e mantêm o público em dúvida.” Na dúvida, as pessoas têm optado por permanecer onde estão: cada vez mais obesas e doentes.

Chile proíbe publicidade na TV de alimentos com excesso de calorias, sal, gordura e açúcar

Decreto assinado na reta final do mandato de Bachelet se soma a advertências frontais em ultraprocessados. Três em cada quatro chilenos estão acima do peso

O Chile proibiu a publicidade na televisão de alimentos com excesso de calorias, sal, gordura e açúcar. O decreto assinado pela presidente Michelle Bachelet no último dia 28 veda comerciais desses produtos entre 6h e 22h, tanto na TV fechada como na aberta, além de salas de cinema.

A medida aperfeiçoa e amplia as restrições impostas em 2015, quando a presidente assinou outro decreto no qual barrava a publicidade desses produtos em programas que tivessem mais de 20% de audiência infantil. Porém, com a dificuldade em definir o escopo de transmissões que se encaixam nesse critério, decidiu-se dar um passo além.

Agora, o decreto estabelece seis meses para a adequação de todas as emissoras e fabricantes às novas regras.

Trata-se de mais um passo dado pelo Chile na tentativa de frear as taxas de sobrepeso e obesidade, que estão entre as maiores do mundo. Há poucos dias, o Ministério da Saúde divulgou os primeiros resultados da Pesquisa Nacional de Saúde, mostrando que 74,2% dos chilenos têm sobrepeso ou obesidade – desses, 31,2% são obesos, e 3,2% são obesos mórbidos. Trata-se de um crescimento de dez pontos em menos de dez anos.

Em outubro, um relatório divulgado pela FAO, agência das Nações Unidas para a alimentação, e pela Organização Mundial de Saúde colocou o país no topo da obesidade feminina na América do Sul, com 32,8% da população. Os dados do Ministério da Saúde são ainda piores: 74,8% das mulheres apresentam sobrepeso ou obesidade.

Entre os mais pobres, o quadro é ainda mais grave, com apenas 18% das pessoas dentro do peso correto.
Em meio a isso, o Chile tem sido um dos países mais ousados no enfrentamento ao problema. Em 2012, o Congresso aprovou um projeto de lei que visava à adoção de uma série de medidas contra a obesidade. Uma delas, regulamentada por decreto de 2015, previa a colocação de sinais de advertência frontais nas embalagens de ultraprocessados.

Desde o ano passado, é obrigatório que os produtos levem selos por excesso de calorias, sal, gordura e açúcar. Além disso, essas embalagens não podem estampar personagens infantis, desenhos ou qualquer outro sinal gráfico que estimule o consumo. Tampouco podem estar acompanhadas de brindes, ser distribuídas gratuitamente e promover alegações de benefícios à saúde, como presença de vitaminas e minerais. Está ainda proibida a venda desses alimentos em escolas.

Com o novo decreto, a única exceção é a menção ao nome do produto, e nada mais, durante espetáculos culturais, esportivos ou de beneficência. Apesar disso, o evento não pode ser organizado exclusivamente pela empresa interessada em fazer publicidade. E não é permitido mostrar pessoas consumindo o produto.

Outra novidade é a proibição total à publicidade de fórmulas infantis. Além da restrição à televisão, está vedada a distribuição de brindes, a realização de sessões de degustação e de promoções, e o uso, nas embalagens, de palavras que tenham caráter publicitário.

A medida é adotada na reta final do segundo mandato de Michelle Bachelet. No dia 17, as eleições vão decidir se o próximo presidente será Sebastián Piñera, que já comandou o país entre 2010 e 2014, justamente sucedendo Bachelet, ou o senador Alejandro Guillier, apoiado pela presidente. As pesquisas têm mostrado um cenário indefinido.

A volta de Piñera ao La Moneda poderia representar uma ameaça às medidas adotadas nos últimos anos contra a obesidade. Foi também na reta final do mandato, em dezembro de 2013, que o presidente chegou a editar um decreto que contrariava as evidências científicas acumuladas pela equipe de saúde do governo.

O texto previa que as empresas pudessem escolher entre três cores de alertas, o que fazia com que fosse fácil confundir o símbolo de advertência com os próprios rótulos. Além disso, era possível colocar um símbolo só com todos os nutrientes em excesso, e não um alerta para cada nutriente.

Até mesmo o formato do sinal de advertência, uma espécie de losango com pontas arredondadas, ia na contramão do que mostravam as pesquisas encabeçadas pelo Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile. O octógono negro com a inscrição “Alto em” era o que funcionava melhor para os consumidores. Sob pressão, Piñera revogou o decreto, mas a regulamentação definitiva só veio um ano e meio mais tarde, com a volta de Bachelet à presidência.