O Congresso Internacional de Nutrição deveria dar Coca aos participantes?

Como uma garrafa de 600 mL condensou a enorme divergência da comunidade científica sobre as causas e os caminhos para combater a obesidade

Lisandro Garcia deu um sorriso nervoso, balançou o corpo de um lado para o outro, passou a mão na boca, como quem está pensando no que falar. E falou: “Você me matou. Me pegou em um terreno difícil”, confessou o presidente da Sociedade Argentina de Nutrição. Eu havia perguntado sobre as relações entre ciência e setor privado.

Estávamos na sala de imprensa do Congresso Internacional de Nutrição, no segundo andar do luxuoso e velha guarda Sheraton, no bairro de Retiro, centro de Buenos Aires. Ali, entre 15 e 20 de outubro de 2017, presenciei algumas conversas tensas entre os organizadores do evento. Fulano odiava Beltrana, Sicrano não queria ver Fulano nem pintado de ouro, Mengano é uma bichona (a expressão não é minha).

Ali, poucos minutos antes, a presidente do congresso, Mabel Alicia Carrera, havia me confundido com o assessor de imprensa. Ela me chamou no canto e disse que estava por chegar um repórter que vinha entrevistá-la sobre um manifesto recém-divulgado. É…

No manifesto, os delegados do congresso lamentavam a qualidade da alimentação servida aos mais de três mil participantes, que haviam se deslocado de todas as partes do mundo e pago até US$ 1.150 para ter acesso às palestras. No primeiro dia, a caixa de lanche e fruta veio acompanhada por uma garrafa de Coca-Cola.

Os delegados advertiam que o básico do básico no combate à obesidade é que a comunidade científica lidere pelo exemplo. “Eventos de nutrição e saúde não deveriam oferecer bebidas açucaradas”, argumentavam. “Seria também de se esperar que esse tipo de evento oferecesse uma variedade de opções nutritivas, incluindo fartura de vegetais, grãos integrais e alimentos minimamente processados.”

Uma foto postada no Twitter por Paula Johns, da ACT Promoção da Saúde, do Brasil, ofereceu uma síntese da discórdia. “Mentira”, bradou uma das organizadoras. “Verdade”, respondeu um pesquisador. É verdade. Eu vi. Todo mundo que estava lá viu.

Eu já havia participado de alguns eventos da área de nutrição no Brasil, de modo que já não me choca a qualidade nutricional do que é servido. O excesso de sal é onipresente. No geral, a bebida é um achocolatado ou um suco igualmente obscenos nos níveis de açúcar.

Mas a Coca é um símbolo muito forte, que vai bem além da alimentação. Surpreende que os organizadores não tenham pensado nisso. É um produto supérfluo com uma composição notadamente ruim. Uma corporação que historicamente atua para evitar qualquer barreira a seu comércio. E um ingrediente, o açúcar, envolvido numa enorme manipulação das evidências científicas para jogar a culpa na gordura.

Nos últimos meses, frequentando eventos e reuniões da comunidade de profissionais de saúde, fiquei surpreso ao descobrir que há uma enorme semelhança com o jornalismo: não há consenso sobre quase nada. Eles não se entendem.

Isso pode soar perfeitamente normal porque, afinal, o exercício da dúvida é a base do saber científico. Em parte, isso é verdade. Mas não é só disso que estamos falando. Essa dúvida está afetada seriamente por outros interesses. Por um grande interesse, na real. Ao trabalhar para empresas, muitos desses cientistas lucram bastante mais que seus já bons salários como professores. São consultorias, desenvolvimento de produtos, comitês científicos. E, mais que nada, empréstimos da imagem como bons pesquisadores para empresas que precisam de credibilidade.

Não quer dizer que todo mundo que defende o setor privado tenha algum interesse financeiro. Mas essa é uma parte importante da explicação. O Congresso Internacional de Nutrição serviu para consagrar um abismo crescente entre os que defendem que a indústria de ultraprocessados deve passar por regulação, e os que acreditam que acordos voluntários com base na boa vontade são o melhor caminho.

Porém, dá para sentir que o segundo grupo está mais e mais na defensiva à medida em que aumentam as evidências de que os ultraprocessados são o fator central da obesidade. No começo de cada palestra, o participante deveria apresentar sua lista de conflito de interesses. Alguns ignoraram essa parte. Outros usaram o momento para se justificar: é só em parceria com as empresas, e não contra elas, que sairemos dessa enrascada.

Aí surge uma enorme questão: a culpa é do indivíduo, preguiçoso e glutão, ou das empresas que minaram políticas públicas, desenvolveram produtos ultra atrativos que acabaram por substituir a alimentação tradicional e financiaram pesquisas que desviaram o foco do debate?

Três andares abaixo da sala de imprensa, no subsolo, estava a feira empresarial. Os participantes tinham de passar por dentro dela para retirar a sacola do evento, estampada com o logotipo da Herbalife. Era também o único espaço onde se podia conseguir água gratuitamente – fazendo fila nos estandes das fabricantes. À frente da porta havia um grande painel do evento, com todos os patrocinadores, e muitos pesquisadores não se incomodaram em emprestar as próprias imagens para fotos com o fundo estampado por essas corporações.

É comum que eventos desse tipo tenham uma área de exposição das empresas. É onde são distribuídos muitos materiais que buscam influenciar a atuação dos profissionais de saúde sobre nossos corpos. É também onde se pode conseguir um grande número de brindes de variados tipos e qualidades. Essa questão do conflito de interesses será em breve tratada em uma série de reportagens aqui em O joio e o trigo.

O fato de ser comum não quer dizer que essa presença não seja incômoda para um bocado de gente. Nem quer dizer que seja esse o único espaço no qual o setor privado está representado.

O Congresso Internacional de Nutrição teoricamente tinha uma divisão entre os simpósios científicos e os patrocinados. Mas, na prática, a indústria de ultraprocessados avançou bastante essa fronteira, fazendo-se representar direta e indiretamente em um grande número de debates.

“É problemático que muitas das corporações de bebidas e alimentos que contribuem para o problema estão patrocinando conferências”, lamentou a Coalizão Latino-americana Saudável, formada por organizações da sociedade civil. “Nós estamos a par de que a decisão dessas corporações em patrocinar congressos é fundamentalmente motivada pela necessidade de proteger seus interesses e de conectar suas marcas crescentemente ameaçadas com uma mensagem de saúde e bem-estar.”

O interessante do Congresso Internacional de Nutrição, pelo menos na edição que passou, é que há duas almas no evento. Isso é diferente dos congressos a que assistimos no Brasil, com presença exclusiva de pesquisadores alinhados ao setor privado.

Essa convivência tensa leva a situações interessantes. Num mesmo dia, ou num mesmo momento, há evidências totalmente contraditórias sendo apresentadas. Não é difícil compreender por que existe uma grande confusão sobre o que comer e o que deixar de comer.

A Coca sumiu

Carlos Monteiro é um dos pesquisadores brasileiros de melhor reputação na área de nutrição, um status que ficou reforçado pelo espaço que recebeu durante o congresso. Médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, ele propôs na virada da década que os alimentos fossem classificados pelo grau de processamento: in natura, minimamente processados e ultraprocessados.

Foi toda uma (r)evolução no olhar. Vendo dessa maneira, é fácil entender qual dos três grupos tem a maior contribuição para a obesidade. Também é fácil entender por que a indústria de ultraprocessados odeia essa classificação. E tenta atacá-la por todos os flancos.

Durante o congresso, não foi diferente. Aplausos e ataques. O próprio Monteiro falou, durante uma palestra, sobre ambientes obesogênicos, ou seja, sobre como foram criados estímulos para que os próprios ambientes não ofereçam opções saudáveis de alimentação. O slide mostrava a foto da mesa do congresso coberta de Coca.

No dia seguinte ao bafafá, a Coca sumiu. E quem olhasse de longe poderia pensar que agora havia apenas água. Mas, chegando perto, viam-se garrafas de Sprite tão transparentes quanto as de água, ali, quietinhas, esperando para serem tomadas.

Os organizadores do evento fizeram circular um curto comunicado no qual jogavam a responsabilidade para o hotel e a empresa organizadora, que “não conseguiu adequadamente comparar entre vários serviços de bufê antes da contratação”, e “pagou uma quantia considerável para tentar garantir a qualidade e a quantidade dos produtos incluídos no lunch box”.

A explicação dada a mim pela presidente do evento foi ligeiramente diferente. “Fizemos toda a avaliação necessária desde o ponto de vista nutricional e cobria as exigências que tínhamos enquanto às calorias e quanto à composição”, disse Mabel Carrera, médica especialista em nutrição e diabetes. “Mas o que acontece é que muita gente tem a vontade de tomar um refrigerante. E claro que se tem um refrigerante deve haver um refrigerante diet ou light. Eu também tenho que respeitar, quando escolho o menu, os gostos das pessoas que vêm. Não é uma obrigação escolher isso. É algo que deixamos à mão para solucionar essa questão da alimentação.”

Há dois poréns. O tempo disponível era curto para almoçar fora do hotel. Logo, não era tão fácil assim comer alguma outra coisa. E nós poderíamos ainda pensar o contrário: quem quer muito tomar um refrigerante pode descer um lance de escada e comprá-lo no bar.

Mas eis que surge outro argumento nevrálgico a dividir gregos e troianos. Um lado diz que se pode comer de tudo, desde que nas proporções corretas. O outro adota uma mensagem que pode sintetizada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, formulado pelo grupo de Monteiro e publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde: evite alimentos ultraprocessados.

O primeiro grupo elenca como ponto central a educação alimentar: estamos gordos porque não sabemos como comer. A indústria está disposta a atuar nessa frente. O Congresso Internacional de Nutrição seria, portanto, um espaço privilegiado para apresentar o que vem sendo feito. Tudo o que vimos nessa seara é cosmético ou limitado em escala.

É certo que as empresas têm aumentado investimentos na chamada “responsabilidade social corporativa”, o que é comum sempre que um setor se vê sob risco de regulação. Diante de uma palestra em que a Nestlé apresentava a iniciativa voltada ao combate à obesidade em vários países do mundo, uma pesquisadora se levantou e disse: o certo é que vocês não conseguiram frear o crescimento dos índices de sobrepeso em nenhum desses lugares.

“Eu te conto o que penso. Penso que a indústria alimentar em todos os aspectos é absolutamente necessária”, retomou Lisandro Garcia, depois de muito pensar. “Há patrocinadores que é melhor não tê-los. Mais que não tê-los, e não vou te dar nomes, têm todo tipo de produto que se coloca num lugar e você pode escolher. Mas digamos que sua marca se vende sozinha. O que pretendem com o suporte é ter presença com seus produtos. E que se siga vendo.”

No fim do dia, a Coca continua sendo a Coca.


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