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A música que fala pelos dedos de Arismar

Um multi-instrumentista genial lança, na OCA, Roda Gingante. Entre ritmos nordestinos, samba e bossa, álbum visita as possibilidades da música instrumental – e o faz como brincadeira de moleque

Por Maurício Ayer

Fotos: Paulo Rapoport Popó

A língua materna de Arismar do Espírito Santo é a música. Mesmo quando fala português, é música que ele fala. Ter uma simples conversa com o Arismar é ver-se participando de um fluxo criativo que parece não ter interrupção – qualquer que seja o assunto, ele de repente para em um grupo de palavras, repete, ouve o ritmo, acha um trocadilho, tira uma piada, repete a mesma frase como se fossem instrumentos musicais. Este músico, reconhecidamente um dos mais admirados e respeitados do Brasil e do mundo, não conhece limites para sua criatividade. Começou a carreira como baterista e ganhou notoriedade como contrabaixista, mas já foi premiado por suas peripécias na guitarra – em votação dos próprios guitarristas brasileiros – e é igualmente virtuose ao piano. Independente do instrumento, seus dedos falam música, na plena alegria de criar.

Seu novo álbum Roda Gingante, lançado em novembro, é mais uma prova disso. Para reverenciá-lo, dezenas de músicos do primeiro time da cena instrumental brasileira – como Léa Freire, Laércio de Freitas, Fábio Perón, Ricardo Hertz, Filó Machado, Ronen Altman, entre muitos outros – compareceram ao evento, que aconteceu na Oca Tupiniquim, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Trata-se de uma parceria de muitos anos entre o músico e a casa de eventos, que já sedia o terceiro lançamento do Arismar, abrindo a casa e recebendo os convidados para a noite de autógrafos e a audição das faixas.

Roda Gingante é mais um acontecimento notável neste fluxo criativo do Arismar. A começar pelo título, que diz de muitas formas o que é esta obra-prima da música brasileira. É uma roda gigante, que percorre de alto a baixo diversas possibilidades da música instrumental, mas também uma roda que ginga, formada por quatro virtuoses de seus instrumentos, reunidos numa formação um tanto inusitada: Arismar no violão de sete cordas, Bebê Kramer no acordeão, Leo Amuedo na guitarra e Gabriel Grossi na gaita. Se o título brinca com as palavras, o álbum é mesmo uma grande brincadeira, mas de um jeito que só mesmo marmanjos que preservaram em si a liberdade criativa e a seriedade de uma criança podem realizar.

“Este CD é isso, uma brincadeira de moleques”, diz Arismar do Espírito Santo. Estamos conversando num dos salões da Oca, ele olha ao redor e exemplifica: “Eu coloquei umas regras básicas: não pode quebrar as janelas senão o pessoal da Oca vai ficar bravo com a gente, pode correr em cima das mesas mas sem quebrar as cadeiras etc.”. A descrição dá conta de como os músicos parecem à vontade num contexto musical tão cheio de detalhes e invenções.

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A outra imagem que o artista usa é a de uma roda de capoeira, em que todos se revezam entre o acompanhamento e o centro do jogo. “Na capoeira é assim, o ataque é legal, é bonito, mas a desarmada é sempre linda, é criativa”. Essa roda é um conjunto complexo de ações e reações, em intrincada complementaridade, em que ataque e defesa são metáforas para um compartilhar alegre de um espaço de vivência e invenção.

A formação instrumental recria o que se poderia chamar de um “regional”. E cada instrumento se reinventa no conjunto, de modo que o acordeão pode se transformar em um naipe de cordas, a gaita, em um trompete, a guitarra, em um piano. Já o violão de sete cordas do Arismar pode se transformar em tudo que se possa imaginar. É assim que se desdobra a índole generosa do Arismar, um músico que cresceu na “cozinha” da banda – como baterista e baixista –, eventualmente divertindo-se com os desfiles de egos do proscênio mas também desfrutando da cumplicidade dos músicos de um modo geral. De maneira que, mesmo no CD que leva sua assinatura, não é necessariamente o Arismar quem mais aparece, ao contrário, é um grupo em que todos solam, todos brilham – e todos se acompanham e se deixam brilhar.

O Arismar acompanhador tem uma capacidade singular de estender um tapete de luz para realçar ainda mais o solista. Ouvidos atentos perceberão que os acompanhamentos do violão de sete cordas criam o preenchimento rítmico e harmônico que faz do conjunto muito mais do que um quarteto. Como dizia pouco acima, as suas cordas cumprem o papel de contrabaixo (com as linhas graves que dão sustentação harmônica ao conjunto), de naipes de orquestra (com desenhos melódicos em blocos de acordes em contracantos que preenchem o “miolo” da tessitura sonora), de acordeão (com as cordas parecendo um fole “atiçado”), de pandeiro, bateria ou percussão (com forte energia e precisão rítmica).

Vale a pena ouvir o álbum, faixa a faixa, apenas descobrindo o que acontece pro detrás dos solos. A arte de criar texturas e contextos sonoros atinge um alto grau de maestria. A música tem novidades a cada compasso, e é impressionante ver como os músicos mantêm a coesão em meio a essa efusiva transformação.

Falar por música

A analogia da música com o idioma materno não é fortuita. Arismar aprendeu a tocar um pouco como uma criança aprende a falar: sem um professor, mas captando de tudo aquilo que mais o encantava, sem as segmentações que o estudo formal (próprio da língua escrita) acaba introduzindo num mundo em que tudo se comunica com tudo. Filho de cantora, cheio de músicos na família e entre seus amigos na cidade de Santos, onde nasceu e cresceu, ele conta que a grande virada musical na sua vida aconteceu lá pelos 14 anos de idade, quando arrumou um trabalho numa livraria: “Abria as 6 horas, às 7 todo mundo passava pra comprar o jornal, às 9 parecia um cenário de faroeste com rolos de feno passando numa cidade fantasma”.

Sem nada pra fazer a manhã toda, ele ficava ouvindo a rádio Eldorado e tirando as músicas ao violão, do seu jeito. No final do dia, ouvia o programa Piano ao Cair da Tarde, e seguia tirando tudo ao violão. Sem frequentar escola, era a paixão por aqueles sons lindos que o fazia mergulhar no que havia de mais rico e elaborado na música brasileira, desde os instrumentistas que haviam surgido com a bossa-nova até a geração que os sucedeu – de Zimbo Trio a Toninho Horta, de Luiz Eça a Wagner Tiso, e tudo o que surgisse nesses programas de rádio.

Tocando em instrumentos de amigos, aprendeu bateria. Aos 17 anos e meio conseguiu uma chance de substituir um músico naquele que no início dos anos 1970 era o templo da música na cidade de São Paulo, a Baiuca. Acabou sendo contratado – na verdade enrolou o dono do estabelecimento por quatro meses, pois não podia dizer que era menor de idade. Ali tocou por vários anos, acompanhando e assistindo a grandes instrumentistas. Se ele já sabia falar muito bem, seu vocabulário se multiplicou, se sofisticou, ganhou consistência e versatilidade. Assimilou todo o repertório da música brasileira na memória dos dedos e dos ouvidos.

Daí foi conquistando espaços e se tornando conhecido. Passou a gravar constantemente em estúdios – num tempo em que ainda não havia os samplers e outros substitutos eletrônicos dos instrumentistas – e a tocar e gravar com praticamente todos os grandes músicos do país. Tornou-se uma referência incontornável do contrabaixo.

Composições e recomposições

Os títulos das peças do Arismar lembram aqueles choros antigos, são tirados das situações da vida, de onde ele saca as ideias, ou simplesmente uma frase que vai se desdobrar em uma composição inteira. Muitas vezes é um título divertido, seja pela imagem, pela ideia ou pela própria sonoridade, quando não as três coisas ao mesmo tempo.

Um título como “O Girino Virou Sapo” surge de situação totalmente inusitada. Estava coordenando um workshop de música em Santa Catarina quando tocou o celular, era sua filha, Maria Júlia, que chorava copiosamente porque o seu lindo girininho tinha virado um sapo! A professora da escolinha, sem saber o que fazer com sua pequena aluna que tomava consciência da terrível impermanência das coisas, mesmo as mais amadas que gostaríamos de preservar intactas, resolveu ligar para o pai. “Eu mesmo não tinha me dado conta da gravidade do caso, nunca tinha considerado que um girino virava sapo”, afirma Arismar em tom reflexivo. A frase principal da música tem a prosódia de seu título. E o tema é, na realidade, uma verdadeira ode à transmutação. Os acordes transitam sem estacionar em nenhum centro, como a refletir que, na essência, todos temos algo de anfíbio, transformando-nos constantemente para adaptarmo-nos às novas situações da vida, aos novos meios.

A característica da transformação interna, aliás, está presente de algum modo em todas as peças. Por exemplo, a terceira, “8.0”, começa com um forró puxado, com o violão parecendo um zabumba, e vai terminar com um xote gostoso, bom de dançar, com uma melodia lírica e um jeito acolhedor. As mudanças vão saindo umas de dentro das outras, sem rupturas, como se fossem de fato possibilidades que já estavam ali contidas desde sempre.

As peças são construídas sobretudo sobre ritmos nordestinos, mas também o samba e a bossa. Um tema como “Thiagueiro”, dedicado ao Thiago, filho do Arismar que também é baixista (e multi-instrumentista), faz ritmos movidos nascerem de dentro de momentos de caráter mais contemplativo. Mesmo parecendo sólidas, pela clareza com que são enunciadas pelos músicos, todas as estruturas musicais podem se descompor e se recompor de outro modo a qualquer momento.

O canto do macaco

Arismar nunca interrompe seu fluxo criativo. Como ele diz “tudo pode se tornar um produto, mas o fazer, enquanto acontece, a gente não tem a menor ideia, não está pensando que vai ser um produto”.

Mais que isso, há de fato uma voz que fala na música instrumental, que o Arismar chama de “o canto do macaco”: “Tocar tem o canto do macaco. Tem um grunhido ali que explica: quero tocar, tô bravo, tô feliz.” Como uma fala que é anterior à palavra, que está dizendo algo muito essencial, que expressa menos ou muito mais do que as palavras podem exprimir, em uma língua que é ao mesmo tempo universal e intraduzível.

Arismar do Espírito Santo é este desfazedor de limites. Bastaria sua simplicidade e simpatia para nos conquistar, mas ele nos convida a girar na sua roda gingante onde tudo é absorvido, transformado e externado na forma de sons lindos.

2 comentários em “A música que fala pelos dedos de Arismar”

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