EUA: os grandes bancos à beira do abismo

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Estatização pode vir agora ou em seis meses, mas parece inevitável. Gravidade da crise promoveu reviravolta brusca no pensamento da opinião pública

(veja, abaixo, link postado por Vanderlei)

Altos executivos dos Citigroup — que até o final de 2006 revezava-se com o Bank of America e o HSBC na condição de maior banco privado do planeta — passaram a terça-feira (24/2) reunidos com autoridades do governo norte-americano, segundo o New York Times. A bateria de encontros pode resultar, nas próximas horas, no anúncio de estatização, ao menos temporária, daquele que foi, no século 20, um dos símbolos do capitalismo. O declínio acelerado do Citi é um sinal da profundidade da crise — mas também ajuda a compreender a gravidade dos fatos que levaram a estatização a passar, em poucos meses, de anátema a medida quase consensual.

A situação do Citigroup veio à tona a partir de sexta-feira (20/2), quando as ações do grupo sofreram, na bolsa de Nova York, a sétima baixa consecutiva. O valor de mercado do banco despencou para meros 10% do que era no início de 2008. Também surgiram sinais de que o grupo poderia necessitar, a curto prazo, de um novo aporte de recursos do Estado (agora, de 45 bilhões de dólares). Em situação semelhante estariam o Bank of America, também no grupo das três maiores instituições financerias dos EUA. Embora menos urgente, a situação do último membro da tríade — o JPMorgan-Chase — também seria delicada.

Os bancos estão próximos da falência porque a ajuda que já receberam do Estado norte-americano é insuficiente para compensar as enormes perdas que estão sofrendo com a onda de inadimplências e a paralisia dos mercados de crédito. Num artigo publicado publicado sexta-feira, o prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, apresentou os dados cruamente: a) “Os bancos estão à beira do abismo. Já teriam quebrado, se os investidores não acreditassem que o governo agirá, em caso de necessidade”; b) O governo precisa resgatá-los. A quebra do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, quase destruiu o sistema financeiro internacional. No caso do Citi ou BoA, muito maiores, as conseqüências seriam incalculáveis; c) Porém, é possível que Citi e BoA requeiram, nos próximos anos, centenas de bilhões de dólares — muito mais do que seu valor atual. O Estado norte-americano não tem condições nem financeiras, nem políticas, de fazer o resgate sem assumir a propriedade das instituições — para ao menos reduzir o prejuízo dos contribuintes. Cálculos do New York Times sugerem que as despesas já comprometidas pelo Estado norte-americano no socorro aos mercados financeiros podem chegar a 9 trilhões de dólares (veja nota abaixo).

Talvez por isso, a onda de apoio à estatização tem crescido velozmente. Na semana passada, aderiram a ela o senador republicano Lindsey Graham, o ex-candidato à presidência John McCain e até mesmo Alan Greenspan, ex-presidente do banco central dos EUA (o FED), conhecido por sua defesa intransigente dos “livres” mercados.

Se a estatização não vier nos próximos dias, será por duas razões essenciais. A ideologia: parte do establishment norte-americano continua resistindo à medida, apesar de todas as evidências concretas a recomendarem. Ou o timing: paradoxalmente, analistas ainda mais pessimistas que Krugman sugerem que o Estado mantenha as instituições ardendo em fogo lento, para assumir seu controle de forma mais eficaz mais tarde. É o caso de Nouriel Roubini, talvez o mais arguto analista da crise. Segundo ele, o melhor momento para agir será em cerca de seis meses. Então, “mesmo bancos que parecem solventes agora vão se revelar insolventes. Será o caso de quase todos as grandes instituições. Nacionalizá-las ao mesmo tempo vai provocar menos danos do que assumir o controle sobre um ou dois agora, criando pânico e confusão”.

O BC brasileiro quer salvar os bancos dos EUA?

No Brasil, as medidas adotadas pelo Banco Central a pretexto de enfrentar a crise continuam blindadas de um debate mais sério. Os jornalões são dóceis a Henrique Meirelles; os blogs e sites críticos não acompanham em profundidade as políticas do BC. O texto enviado por Vanderlei ao blog é uma exceção. É assinado por Carlos Lopes e foi publicado originalmente em Hora do Povo. Sugere que o BC está desperdiçando US$ 36 bilhões das reservas brasileiras para pagar as dívidas das grandes empresas brasileiras atingidas pelo congelamento dos mercados de crédito. Lopes argumenta que seria entregar um rio de dinheiro para as instituições internacionais que provocaram a crise e estão, na prática, falidas. É um debate mais que necessário. O texto pode ser lido a seguirMeirelles coloca reservas para pagar dívidas a bancos nos EUA

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Como os bancos dos EUA não estão refinanciando as dívidas das empresas brasileiras, o presidente do BC quer repassar a Wall Street US$ 36 bilhões

No último dia 4, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, anunciou que estava colocando US$ 36 bilhões de nossas reservas monetárias – R$ 80 bilhões, de acordo com a cotação da última segunda-feira – à disposição das empresas com dívida no exterior.

Se fosse somente isso, já seria algo esquisito. O governo gasta R$ 12 bilhões por ano com o Bolsa-família, que atende 10 milhões, 557 mil e 996 famílias – ou seja, cerca de 50 milhões de brasileiros, talvez mais. O sr. Meirelles, portanto, estaria emprestando a algumas empresas que se endividaram no exterior quase sete vezes o que o governo gasta com o maior programa social do país.

Certamente, alguns elementos diriam que o Bolsa-família é uma doação, enquanto o dinheiro que o Meirelles quer colocar à disposição das empresas é um empréstimo. Pois é, mas o dinheiro do Orçamento pertence ao próprio povo. E não consta que as reservas pertençam às empresas – que, aliás, são as mesmas que o BNDES já rega generosamente. Além do que, qual é o brasileiro endividado que tem uma regalia dessas à sua disposição?

No entanto, esse favorecimento foi estabelecido pela circular nº 3.434, assinada por dois diretores do BC. Incrível que baste uma circular, sem aprovação do Congresso, sem a assinatura do presidente da República – aliás, nem a do presidente do BC – para que quase um quinto das nossas reservas monetárias seja “direcionada” (como diz a circular) para pagar dívidas de empresas no exterior.

Estranhamente, o sr. Meirelles jamais se preocupou antes com a situação das empresas do país – nem socorrê-las é função sua. Aliás, ele foi contra usar as reservas para financiar essas mesmas empresas no exterior, através do “fundo soberano” na versão inicial proposta pelo Ministério da Fazenda. Então, por que agora está tão empenhado em emprestar as reservas a essas empresas?
Porque agora o objetivo desse enfiar de mão nas reservas é pagar aos bancos estrangeiros, principalmente os norte-americanos. A circular do BC não poderia ser mais clara.

REPASSE

Os bancos norte-americanos não estão “rolando”, ou seja, refinanciando as dívidas das empresas brasileiras. Querem que elas paguem os empréstimos que contraíram, porque esses bancos norte-americanos (ou europeus ou asiáticos) estão à beira da falência. Que forma melhor de ajudá-los em suas agruras, do que colocar R$ 80 bilhões em dólares (US$ 36 bilhões) para que sejam repassados a esses bancos por empresas brasileiras, sob a forma de pagamento de empréstimos?

Observe-se o texto do artigo 2º da circular 3.434: “As operações de crédito contratadas com cada empresa (….) ficam limitadas ao montante das parcelas das operações externas cujo vencimento ocorra em período (….) compreendido entre 1º de outubro de 2008 e 31 de dezembro de 2009”. A circular do BC, assinada no último dia 4, é, portanto, retroativa ao começo da crise dos bancos norte-americanos. Naturalmente, em seguida esses bancos passaram a não rolar mais as dívidas das empresas. Mas não são essas empresas que estão quebradas, e sim os bancos norte-americanos.

Não seria por amor às empresas brasileiras, mesmo as com vocação monopolista, que Meirelles lançaria mão de quase um terço das nossas reservas. Funcionário do BankBoston – que recebe um gordíssimo estipêndio dos patrões à guisa de aposentadoria – ele nem coçaria a careca se o problema fosse apenas as dificuldades da Vale, da Globo, da Gerdau, da Votorantim ou da Odebrecht em pagar as dívidas que contraíram nos EUA, ou seja, junto a bancos norte-americanos. Mas não se pode dizer que Meirelles não se importe com o destino dos bancos norte-americanos. Aí está, como se dizia antigamente, o busílis. Ou a carne-seca por baixo do angu.

TRANSFERÊNCIA

Porém, isso ainda não é tudo. O Banco Central não repassará esses US$ 36 bilhões diretamente às empresas para que elas os transfiram aos bancos dos EUA. O BC entregará esse dinheiro das reservas às “instituições financeiras bancárias brasileiras autorizadas a operar em câmbio”, para que essas “instituições” emprestem esse dinheiro às empresas.

Quais são essas instituições? Se o leitor pensou que “instituições financeiras bancárias brasileiras” quer dizer bancos brasileiros, infelizmente, enganou-se, embora tenha toda a razão. Mas, no conceito do BC, “brasileiro” não é necessariamente (nem principalmente) o que é brasileiro. Vejamos quais são os 16 “dealers” do BC, ou seja, os 16 bancos que operam pelo BC no mercado de câmbio:

Há cinco bancos brasileiros, um estatal e quatro privados: Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Votorantim e BBM (o antigo Banco da Bahia, da família Mariani); três bancos norte-americanos: Citibank, Goldman Sachs e Morgan Stanley; dois bancos suíços: UBS Pactual e Credit Suisse; um banco inglês, o HSBC; um espanhol, o Santander; um francês, o BNP Paribas; um alemão, o Deutsche Bank; um supostamente português, o Banif; e um que nunca se sabe de que país ele é, o Safra.
Esses bancos receberão os US$ 36 bilhões – o dinheiro será repassado diretamente em dólares – para que emprestem às empresas, que por sua vez pagarão aos bancos estrangeiros no exterior. Os bancos pagarão ao Banco Central 1,5% ao ano mais a Libor (a taxa interbancária de Londres, hoje em 2%). E poderão cobrar dos clientes – isto é, das empresas brasileiras endividadas em dólar – a taxa que quiserem e bem entenderem. Não é uma maravilha, leitor?

Logo, os bancos poderão lucrar com os juros cobrados às empresas sobre dinheiro das reservas nacionais. Alguns bancos estrangeiros poderão lucrar nas duas pontas: cobrando juros sobre o dinheiro que emprestarão às empresas e recebendo no exterior o pagamento da dívida que essas empresas farão com esses empréstimos.
Quanto às empresas, trocarão suas dívidas com os bancos nos EUA pela dívida com bancos no Brasil ou com as filiais dos mesmos bancos a quem deviam no exterior – só que a uma taxa de juros muito maior.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras