Em vez de criticar a internet, que tal controlá-la?

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Surgem em todo o mundo (ainda em pequena escala) iniciativas em que produtores de serviços substituem Uber, AirBnB e outros por plataformas geridas autonomamente

Por Margaret Heffernan | Tradução: Inês Castilho

Quando os amigos me perguntam por que não uso Uber, a resposta é simples: não quero mandar meu dinheiro para o Vale do Silício. Historicamente, os táxis têm sido um elemento vital em qualquer economia local, e eu prefiro apoiar as pessoas na minha comunidade. Pedir um táxi via aplicativo significa que os lucros irão pra fora da cidade.

Mas, quando percorri empresas de alta tecnologia na virada do milênio, grande parte do otimismo em torno da internet vinha da ideia de que, como uma rede de computação compartilhada, ela iria espalhar oportunidades entre os muitos, e não entre poucos. Uma ideia romântica, talvez, mas eu não estava sozinha.

Claro, as coisas não aconteceram assim. A chamada economia do compartilhamento não compartilhou coisa nenhuma. Ao contrário, agregou valiosos dados dos consumidores, concentrando vantagens em alguns poucos gigantes bem financiados.

Trebor Scholz, professor associado de cultura e mídia na New School de Nova York, alertou em 2014 que tanto trabalhadores quanto consumidores estavam perdendo o controle da tecnologia que usavam para comprar e vender bens e serviços. Por que, questionou ele, motoristas e outros freelances não usam a tecnologia para colaborar entre si e competir com os gigantes? Ao invés de ganhar um troco miserável por um trabalho casual ou contratos de zero horas feitos por ricos investidores, por que não construir, gerir e ser proprietário dos seus próprios aplicativos?

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O que o professor Scholz propôs é a plataforma de cooperativismo: um mix dos princípios das cooperativas do século 19 com a tecnologia do século 21. Em seu livro, Cooperativismo de Plataforma, ele propôs o casamento perfeito entre a tecnologia colaborativa e os negócios cooperativos.

Os primeiros exemplos em 2015 comprovaram sua afirmação. Cada uma dessas cooperativas – Cotabo (Bolonha, Itália); ATX Co-op Taxi (Texas); Cooperativa Green Taxi (Colorado); The People’s Ride (Michigan) e Cooperativa Yellow Cab (Califórnia) – construiu e hoje administra seu próprio aplicativo de táxi, que dá trabalho para motoristas que são proprietários da empresa e participam das decisões.

Outras plataformas seguiram o mesmo caminho, tal como o Stocksy, um site de fotografias de propriedade e curadoria de fotógrafos desencantados com os sindicatos tradicionais. A Loconomics oferece plataformas locais para terapeutas, cuidadores e faxineiros freelances, que ficam com 100% do rendimento. Resonate é um serviço de streaming de propriedade de músicos.

Alguns levaram cooperação e colaboração ainda mais longe. Baseado no fato de que duplicar plataformas é caro, a Fairmondo agregou, primeiro na Alemanha e mais recentemente no Reino Unido, compradores e vendedores focados em produzir e vender produtos éticos – mas o software que eles usam é disponibilizado gratuitamente para outros adotarem, alterarem e usarem em seu próprio benefício. Aspectos humanos e delicados da criação de cooperativas são abordados gratuitamente online, com exemplos: estatuto social, contratos padronizados e aconselhamento jurídico.

Reconhecendo que consumidores podem ser muito explorados como trabalhadores, algumas plataformas em cooperativa encorajam seus clientes a participar. Em Boston, os engenheiros da Agaric estão desenvolvendo um site de hospedagem cooperativo, cujos clientes poderão votar nas novas habilidades que desejam desenvolver. Ao invés de preços crescentes por capacidades de que não necessitam, os consumidores recebem a funcionalidade que valorizam.

Ainda mais audacioso é a MiData, uma “cooperativa de dados de saúde” que hospeda membros-usuários de registros médicos e os integra com fluxos de dados de aparelhos FitBit e perfis genéticos pessoais. Ela pretende competir com corretores de dados comerciais, devolvendo para aqueles que deram origem aos dados pessoais o seu controle e monetização.

No coração das plataformas cooperativas vivem três princípios: propriedade comum, gestão democrática e dados transparentes. O que elas oferecem, diz o professor Scholz, é uma visão otimista para o trabalho futuro: transações em que nenhum dos participantes é destituído de poder.

Até onde isso pode ir? Os acionistas do Twitter começaram debater a eventual transformação da rede de mídia social em cooperativa. O que começou como brincadeira agora é uma promessa, de acordo com a agenda de reuniões anual, de “realizar o valor potencial do Twitter, cujo modelo de negócio atual lutou para fazer durante vários anos. Nós poderíamos adotar regras mais responsáveis e transparentes para lidar com abusos. Poderíamos reabrir dados da plataforma para estimular a inovação.”

Jack Dorsey, fundador e executivo-chefe por meio período, não está entusiasmado. Quando se trata de cooperativas, os empresários tradicionais podem ser cínicos. Esquecem que a Ocean Spray, uma das veneráveis marcas de bebidas dos EUA, é uma cooperativa multibilionária. Podem não conhecer Mondragon, a rede de cooperativas espanholas que se mostraram robustas diante da crise econômica. E poucos leram Elinor Ostrom, a economista Prêmio Nobel que analisou como e porque cooperativas locais mostram-se bem sucedidas e grandes corporações fracassam.

Contudo, contra o rolo compressor implacável do fatalismo tecnológico, é refrescante ouvir uma música diferente que emerge: a vibrante harmonia de seres humanos que recusam render-se.

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Margaret Heffernan

Margaret Heffernan é empresária, consultora e autora de "Cegueira Voluntária" (https://www.ted.com/talks/margaret_heffernan_the_dangers_of_willful_blindness)

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