Valle del Elqui e as coisas que deixamos para trás

De como se descobre que sempre é possível, em viagens não-convencionais, dispensar conforto e passado, em busca de autonomia e liberdade

Por Elaine Santana, editora da coluna Outras Américas

Las montañas se deshacen,
el ganado se ha perdido;
el sol regresa a su fragua:
todo el mundo se va huido.

Se va borrando la huerta,
la granja se ha sumergido
y mi cordillera sume
su cumbre y su grito vivo.

Las criaturas resbalan
de soslayo hacia el olvido,
y también los dos rodamos
hacia la noche, mi niño.

Gabriela Mistral, Noche*

TEXTO-MEIO

Saímos de Santiago, viajando a noite toda e chegando às seis da manhã na cidade litorânea de La Serena, no chamado meio Chile. O frio nos fazia tremer. Nos abrigamos no andar superior da rodoviária, onde uma lanchonete prometia um desayuno (café da manhã) vegetariano, uma raridade no Chile, mais um país da América do Sul que coloca apresuntado em qualquer salgado ou lanche rápido. Pedimos café e um sanduíche para cada. A atendente trouxe xícaras de água quente e envelopes de café instântaneo. Sabíamos que teríamos que nos acostumar ao café servido no Chile: instântaneo, sempre.

Às oito horas, conseguimos garantir nossas passagens para o próximo destino, Pisco Elqui, uma vila localizada no Valle del Elqui, a 1300 metros do nível do mar e a 107 quilômetros de La Serena. No passado, a cidade chamava-se La Unión, pela junção de dois importantes rios da região, o Claro e o Tubío. Mas numa tentativa de reclamar para si a invenção do pisco, bebida destilada da uva, o governo chileno mudou o nome do lugar. Gabriela Mistral, poetisa, professora, cônsul, e primeira pessoa latino americana a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, que nasceu e viveu na região, expressou-se contrariamente à mudança, declarando que esperava que um dia o mal fosse desfeito e o nome original, restituído. Ela morreu e o nome do povoado continua o mesmo.

Quando o micro-ônibus estacionou na saída da rodoviária e abriu suas portas, busquei um lugar, encostei meu rosto no vidro da janela e adormeci profundamente, os raios do sol esquentando minha pele fria das horas passadas dentro da rodoviária gelada.

Já estávamos longe do litoral quando acordei preguiçosamente sentindo a secura do ar na garganta. Levei menos de um segundo para despertar completamente: a estrada estreita parecia minúscula ante o gigantismo das montanhas que nos cercavam. Estiquei-me na tentativa de avistar o topo da montanha e ver o céu. Cada nova curva revelava mais aspectos da paisagem semi-árida, permeada aqui e ali por plantações de uvas, tangerinas e olivas.

 

Tenho completo fascínio pela sensação de pequenez que estar diante de imponentes fenômenos naturais me traz. Meu coração seguia acelerando frente a cada nova faceta da paisagem local.

Nos próximos dias, dormimos e cozinhamos num albergue ecológico em Pisco Elqui. Nosso pequeno quarto era iluminado à noite por energia armazenada por uma pequena placa solar.

Em nossa primeira caminhada, encontramos cachos de uvas secas naturalmente ao sol, penduradas sobre um barranco, alguns metros acima das nossas cabeças, Rodrigo escalou uma parede de terra, colheu um cacho e seguimos pela estrada saboreando uvas. No mesmo dia, derrubamos com pedras algumas romãs de uma árvore. Escalamos algumas das montanhas, encontrando cabras assustadas que, apressadas corriam montanha abaixo ou acima na tentativa de nos evitar. À noite, cozinhávamos alguma comida, com vegetais comprados nas vendinhas locais, usando os temperos que trouxemos de Santiago e jogávamos conversa fora com Eduardo, o amigo do dono do albergue, que trabalha como capataz para uma mineradora, e que passava as noites de sua semana de folga se escondendo nos fundos do albergue, bebendo e conversando com os hóspedes e fugindo da própria família.

Alguns dias mais tarde, resolvemos encarar a estrada de terra que nos levaria para outro vilarejo da região, Cochíguaz, banhado pelo Rio Mágico. Sem transporte público disponível, há apenas duas formas de percorrer os 19 quilômetros que separam o vilarejo da estrada onde estávamos: caminhando ou haciendo dedo (pedindo carona). No nosso caso, uma combinação das duas.

O Chile tem uma cultura bem amigável com pedir e dar carona. Muita gente pede, muita gente dá. Ainda que existam riscos envolvidos no processo, acredito na beleza de se submeter à generosidade dos passantes. Ou na graça desconfortável de dividir o carro, momentaneamente, com um estranho.

Debaixo de um sol escaldante e com mochilões mais pesados do que podíamos carregar, agradecemos efusivamente quando finalmente um motorista parou. De dentro do carro de Juan Manuel, pudemos finalmente apreciar a beleza do vale e da estrada. Ele não nos levou até o vilarejo, nos deixando a cerca de (terríveis) três quilômetros de lá, antes de desaparecer por uma pequena estrada, transversal àquela em que estávamos. Talvez aqueles tenham sido os três quilômetros mais penosos da minha vida. Uma dor do lado direito do meu quadril anunciava sem hesitação que estávamos definitivamente sobrecarregados demais.

Acampamos num parque particular por cinco dias e quatro noites. Durante o dia, o sol nos aquecia, mas o frio se instalava, implacável, assim que o sol baixava, nos presentando com um céu límpido de nuvens e poluição e carregado de estrelas.

Chegamos no final do dia e mal tivemos tempo de armar a barraca. Cozinhamos no escuro. Sem tempo de recolher gravetos e um tronco, nossa fogueira ficava acesa por cinco minutos e apagava. De manhã, descobrimos que um bicho tinha comido nosso queijo, deixado para fora, junto com outras comidas. Nos dias seguintes, fomos nos aprimorando. Aprimoramos nossas fogueiras para que ficassem acesas por horas, estrategicamente posicionando-as para que esquentassem nossa barraca ao longo da noite. Aprendemos a ter tudo organizado antes de o sol se por, a fazer pratos elaborados usando somente uma panela, a pegar água do rio para filtrar, beber e cozinhar. Chegamos  a improvisar nossos utensílios para receber a visita para jantar de um casal que passava pelo parque e fizemos amizade com um cachorro – que apelidamos de Perrito – e que nos seguiu por onde íamos, inclusive pela estrada na tarde da volta, até pegarmos nossa primeira carona. Perrito, então, ficou parado na estrada, até sumirmos numa curva.

De carona chegamos até Montegrande, a cidade onde nasceu Gabriela Mistral; e de ônibus, até Vicuña, uma das maiores cidades na região, ansiando por um banho quente. Nos hospedamos num casarão antigo, recém pintado, cuja dona nos serviu um dos melhores cafés da manhãs até ali: frutas da região, pães e queijos. E o já tradicional café instântaneo.

Com a dificuldade de nos locomover na estrada de Cochíguaz, sabíamos que não conseguiríamos seguir carregando tudo que queríamos. Em Vicuña, esvaziamos os mochilões em cima da cama do albergue. Cada um de nós sacrificou mais da metade do que tinha decidido trazer. Enchemos um dos mochilões, que ficou depositado na casa de uma amiga: roupas, diário, bijuterias, acessórios, uma caixinha de som, barbeador, alguns equipamentos e tudo que decidimos que poderíamos viver sem dali em diante.

Quando organizamos nossas mochilas em São Paulo antes de partir, pensávamos no conforto que queríamos garantir por este ano de estrada. Em pouco mais de um mês, percebemos que com menos coisas teríamos mais liberdade, exploraríamos e vivenciaríamos mais. E o conforto podia esperar.

Talvez tenha sido neste momento que mais nos distanciamos da ânsia pelo que tínhamos deixado no Brasil. Foi ali que ficou estabelecido mais definitivamente que tipo de experiência teríamos dali em diante.

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Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em breves posts (e muitas fotos) publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o siteuma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido.

Edições anteriores da coluna:

Outra América: uma viagem
Nova coluna: fotógrafa brasileira conta como decidiu, aos 32, suspender carreira e vida urbana, para conhecer continente a fundo
(28/7/2012)

Santiago, a capital que não se repete
Na primeira parada da viagem por outra América, uma cidade marcada por manifestações sociais e pela descoberta da bicicleta
(12/8/2012)

 

* Tradução do poema ‘Noite’, de Gabriela Mistral (por Elaine Santana):

As montanhas se desfazem, | e o gado se perdeu; | o sol retorna ao seu esconderijo: | todo mundo vai fugir. | Se vai apagando a horta, | e a fazenda submergiu | minha cordilheira mergulha | com seu cume e grito vivos.  | As criaturas deslizam |de soslaio até o esquecimento | e também os dois rodamos | até a noite, meu filho.

 

TEXTO-FIM
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Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em posts e fotos publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o site, uma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido. Leia aqui todas as edições anteriores.