Previdência: a Argentina também resiste

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Manifestação diante do Congresso adia votação de “Reforma” que reduz direitos de 17 milhões. Polícia reprime, mas bancada governista divide-se. Amanhã, greve geral

Um texto do Coletivo Passarinho | Fotos e Vídeo: Julieta Sou

Em resposta ao repúdio popular massivo, mais de mil oficiais das forças policiais argentinas foram colocados nas ruas de Buenos Aires

Os próprios oficialistas foram obrigados a suspender a votação da Contrarreforma Previdenciária argentina na Câmara de Deputados na tarde de hoje, após episódios de violência que deixaram dois parlamentares da oposição e vários manifestantes feridos.

Os protestos desta quinta-feira (14), começaram às 9h da manhã (horário de Brasília) e reuniram até às 15h, horário previsto para a votação, milhares de trabalhadores contrários à reforma que pretende economizar 100 bilhões de pesos argentinos (aproximadamente 20 bilhões de reais) para o Estado às custas de 17 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais.

Convocados pela CTA (Central Autônoma dos Trabalhadores) e a CGT (Central Geral dos Trabalhadores), os manifestantes marcharam pela Avenida de Maio em direção ao Congresso Nacional, mas tiveram que recuar ao serem reprimidos pelas forças policiais.

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Mais de mil oficiais da Polícia Federal, Gendarmeria (a Força Nacional Argentina) e Polícia de Segurança Aeroportuária participaram da ação. Bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos de água com corante eram atirados nos manifestantes que abriam a manifestação e em um grupo de pessoas mascaradas que se separou dos manifestantes para jogar pedras e garrafas nos policiais.

Enquanto isso, dentro do Congresso, os policiais impediam a entrada de deputados da oposição na sala de votação; entre eles, Axel Kicillof, ex-ministro de economia do governo de Cristina Kirchner. Ao menos dois deputados ficaram feridos; um deles foi levado em uma ambulância após receber um golpe de um dos policiais.

Também houve muita confusão entre os parlamentares. Para iniciar a sessão, eram necessários 129 deputados. O presidente da câmara, Emilio Monzó (PRO-Cambiemos), da base governista, anunciou às 15h30 que o quórum mínimo tinha sido atingido, mas a oposição questionou o número e a validade da sessão, e denunciou a repressão policial. Muita discussão e até empurra-empurra depois, por volta das 16h15, a deputada governista Elisa Carrió também pediu que a sessão fosse anulada e teve o seu pedido acatado por Monzó. Enquanto a oposição comemorava o adiamento e denunciava a atuação truculenta inédita do lado de fora, governistas diziam que a oposição tinha agido de forma violenta dentro do plenário.

A contarreforma previdenciária proposta pelo governo altera o critério de atualização dos benefícios de aposentados, pensionistas, pessoas com deficiência e beneficiários de programas de renda mínima. A aprovação da proposta somente é possível porque uma parte da oposição peronista, composta pelos governadores, negociou com o governo para que uma parcela dos recursos economizados seja destinada às províncias, que atualmente estão fortemente endividadas.

O projeto, que já recebeu meia sanção do Senado, deveria ser votado na Câmara de Deputados teve sua tramitação adiantada pelo partido do governo, para que a votação acontecesse hoje, data que coincide com o fim da Reunião Ministerial da OMC na cidade.
O efetivo militar preparado para garantir a segurança de executivos e autoridades de Estado do mundo todo que participaram do evento foi então aproveitado para reprimir os protestos que já haviam começado desde terça-feira. A resistência, no entanto, deve continuar. A CGT (Central Geral dos Trabalhadores) convoca para amanhã uma greve geral de 24 horas.

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