Os ratos e o altar do marido morto

140905_Banksy Rat, Clipstone street, London 3234

Numa das “Crônicas de Nuestra América” encenadas no Rio, Augusto Boal narra a estranha relação entre família de Buenos Aires e os roedores

Por Augusto Boal | Imagem: Banksy


MAIS: Seção especial celebra, em Outras Palavras, a exibição, no Rio de Janeiro (até 28/9), da peça Crônicas de Nuestra Américabaseada no livro homônimo de Augusto Boal (com adaptação de Theotonio de Paiva, nosso colaborador). Intitulada “A Politização sem dogmas do Teatro do Oprimido”, a primeira parte do ensaio que publicamos a seguir pode ser acessada aqui)

– Olha aí, olha aí…

TEXTO-MEIO

– Que foi?

– Atrás dessa planta.

– Um rato.

– Dois. O outro é ratazana.

– Estão trepando!

– Juro que eu pensava que rato punha ovo, não sabia que era assim.

– E que é que tem que ver? Galinha também bota ovo mas o galo não perdoa…

– É mesmo…

Os dois irmãos Aldo e Fortunato olhavam extasiados para os ratos que trepavam atrás de uma planta, no hall de entrada do edifício onde moravam, na Boca, um pequeno bairro de Buenos Aires.

Entraram em casa e contaram a sua mãe, d. Benigna, o que tinham visto.

– Por que não mataram esses bichos?

– Pra quê?

– Deu na televisão que a Prefeitura está pagando 200 pesos por rato morto. Com 400 pesos a gente já podia comprar um bife e dividir pelos três. Assim vamos ter que comer spaghetti sozinho…

– Outra vez?!

– Outra vez e sempre! O dinheiro que vocês dois inúteis trazem para casa não chega nem pro aluguel!

D. Benigna protestava, feroz. Queria que os filhos trabalhassem horas extras, como muitos dos seus vizinhos. Os dois eram choferes de táxi e a mãe suspeitava que gastavam mais tempo passeando com suas noivas do que transportando passageiros. Eram pouco amigos do trabalho e por isso queriam que a mãe se decidisse de uma vez a alugar o dormitório maior do apartamento a alguma pessoa conhecida, para aumentar os ingressos da família. Mas d. Benigna era definitiva:

– Nesse dormitório fui feliz com o pai de vocês durante um ano inteiro! Ali não entra ninguém! Nenhum estranho! Nenhum! Vai ficar assim do jeito que está, como uma lembrança. Até que eu morra. Essa cama, pra mim, é um altar!

Ela costumava dormir na sala e o dormitório principal permanecia durante todo o ano vazio e trancado. Em algumas datas especiais, como o aniversário de casamento, ou do dia em que se conheceram, o do dia do primeiro beijo, ou do dia do primeiro encontro físico, em todas essas fundamentais datas históricas, e só nesses dias, D. Benigna entrava no quarto e aí ficava o tempo todo, com suas lembranças.

– Meu coração se reconforta, passando o dia aí, nesse altar, pensando em Aldo Fortunato (esse era o nome do pai). Esse sim, era um homem! Vocês dois juntos não fazem nem meio homem como ele!

A velha era má. Incapaz de se esquecer do marido, acusava os filhos. Por quê? De que havia morrido o velho Aldo Fortunato? Morreu de parto. Sim, senhores, por mais estranho que pareça, morreu de parto. Quando descobriu que sua mulher tinha parto gêmeos, o velho tomou a maior bebedeira de que existe notícia na Boca e, no caminho de casa onde havia ido buscar um segundo jogo de fraldas, para o segundo bebê, foi atropelado por um carro. Em sua homenagem, os filhos se chamavam assim, cada um com a metade do seu nome.

Muitos vizinhos, entretanto, sustentam uma outra hipótese: a do suicídio. Dizem esses que Aldo Fortunato não era tão maravilhoso como parecia ser, nas lembranças da viúva. Parece que ele tampouco gostava de trabalhar e, quando fez as contas dos gastos mensais provocados pelos gêmeos, deu um enorme berro e preferiu a morte violenta.

O porteiro do edifício onde viviam, por exemplo, estava entre os que defendiam essa teoria. Dizia que havia sido íntimo amigo do morto. Segundo ele, Benigna sim, essa não havia mudado nada: sempre fora uma velha terrível e agressiva. Durante o parto, por exemplo. Bem, durante um parto é natural que muitas mulheres percam o controle e comecem a acusar e a maldizer os maridos, como se fossem eles os “culpados” dos seus sofrimentos. D. Benigna ia mais longe: não só o acusava como também revelava detalhes íntimos da vida dos seus parentes, especialmente sua mãe.

A parteira implorava:

– Força, d. Benigna, força. Uma forcinha mais e o menino sai!

Mas d. Benigna usava toda sua força para desprestigiar sua sogra. Gritava:

– Tua mãe é que tem culpa. Na Sicília dormia com todos os pescadores e ninguém sabe quem é teu pai! Desgraçado! Infeliz!!

– Força, d. Benigna, um empurrãozinho mais e aí vem o herdeiro!

– Eu, não! Eu não sou dessas! Eu sou mulher honrada! Todo mundo sabe que o pai desse desgraçado que vai nascer é esse bêbedo que devia estar morto! Ninguém presta na tua família. Tua irmã teve uma criança de uma perna só porque dormiu com um carpinteiro perneta!

A parteira, paciente, pedia:

– Um pouquinho mais d. Benigna, que a cabecinha já está aparecendo!

E de fato, um pouquinho mais e informou a d. Benigna, que não parava de gritar:

– É menino, senhora! É um meninão! Parabéns! Nasceu!

– Como é que nasceu se ele ainda está se mexendo aqui dentro?!!?

Foi aí que a parteira desconfiou que eram dois.

– Que foi que me fez desgraçado! – gritava a maligna senhora.

– Que foi que você me fez, bêbedo maluco! A minha vida agora vai ser um inferno! Quem é que vai agora cuidar dessas criaturas, demônio, diabo, capeta! Que foi que você me fez??? Que foi que você me fez???

Apesar de suas preocupações na hora do parto, d. Benigna não teve dificuldades em alimentar os gêmeos: revelou-se uma excelente vaca leiteira. Era tanto o leite que se ordenhava antes e depois de dar de mamar, a fim de expulsar o líquido sobrante. Pra não desperdiçar essa fortuna e para ganhar alguns pesos extras, pôs um anúncio nos jornais:

LEITE MATERNO
OFERECEMOS
PREÇOS MÓDICOS
MUITA TERNURA

Perto dali vivia Maria Pia, que também tinha tido gêmeos mas a quem um desgosto profundo fizera secar as tetas. Contratou os serviços leiteiros de d. Benigna. Esta, muito honestamente, foi logo dizendo:

– Primeiro os meus! Antes que nada, dou de mamar aos meus filhos, tudo que eles quiserem. Com o que sobrar, alimento também os seus. Os meus não têm pai, mas quero que tenham mãe de boas tetas!

E assim foi: todos os dias, cinco ou seis vezes por dia, Benigna preparava seus belíssimos e enormes peitos e dava de mamar aos seus filhos, pendurando um em cada teta. Quando terminava, cruzava a rua e fazia o mesmo com os gêmeos de Maria Pia. Já não se ordenhava.

Mas alguma coisa estava: seus filhos cresciam magros e tristes, enquanto que os gêmeos da vizinha estavam cada vez mais gordos e rosados. Até que uma velha explicou o mistério:

– O segundo leite é o melhor, o mais alimentício. Faça o contrário: primeiro os dela, depois os seus…

Aí Maria Pia preferiu o leite em pó.

Como se vê, D. Benigna não fazia justiça ao seu nome; era exatamente o contrário: extremamente maligna, especialmente com os seus filhos.

– Que desgraça, que desgraça! Meu Deus do Céu! Por que me deste este castigo, Senhor?! – chorava jogando-se em cima da cama, ou da mesa, ou em cima de alguma poltrona, ou em cima de alguém que estivesse em frente.

– Que é que a senhora está sentindo, mamãe?! Que foi?! – perguntava um.

– Que desgraça? Conta, mamãe, que desgraça aconteceu??? – dizia o outro.

A mãe respondia:

– Por que me fizeste isso, meu Deus, por que? Por que me roubaste um homem como aquele e no mesmo dia me deste dois vagabundos como estes? Por que, meu Deus, por que????

Só depois de viúva d. Benigna começou a valorizar o marido. E na mesma proporção parecia odiar os filhos. Quando as coisas começaram a ir de mal a pior e teve que vender uma tendinha de artigos diversos, com a qual ganhava o pão nosso de cada dia, pôs um enorme letreiro que dizia assim: “LIQUIDAÇÃO POR MUDANÇA DE RAMO”. E, quando alguém lhe perguntava:

– A que ramo vocês vão se dedicar agora, d. Benigna?

A má senhora respondia:

– Eu, a lavar roupa, e esses dois inúteis a pedir esmola, porque outra coisa não sabem fazer…

Todos os dias, durante o dia, os filhos se afastavam o mais que podiam da mãe tão agressiva; mas sempre voltavam pra casa na hora do jantar. Aí ela aproveitava para protestar:

– Eu não me oponho a que vocês vejam os jogos do Boca Júnior. Se vocês gostam de futebol, podem ir. Mas porque é que não aproveitam e levam alguns sanduíches de chouriço e vendem aos espectadores? Já seria uma ajuda…

Noutra noite dizia:

– Eu não me oponho a que vocês vão ao cinema com as suas noivas… Se vocês conseguem gostar dessas moças… cada qual com seu gosto, cada sapo com sua gia. Podem ir ao cinema. Mas o que é que custaria levar também umas bandejas de caramelos e chocolates? Essas moças que são tão de não fazer nada, como vocês, bem que podiam ajudar um pouco… Que é que vocês acham?

Nessa noite, d. Benigna estava particularmente estimulada pela propaganda da Prefeitura que tinha decidido pagar 200 pesos por rato morto. Em Buenos Aires, como em muitas outras cidades, os ratos são uma epidemia. Não tão grave como na Índia, por exemplo, onde chegam a atacar os homens, em luta aberta, mortos de fome. Mesmo sem chegar a tais excessos, incomodam. Em certas épocas, invadem mercados e favelas, teatros e cinemas, restaurantes e feiras, casas e apartamentos. Tudo, invadem. Então a Prefeitura toma providências. Quando ocorreu esta história, existiam na capital argentina seis ratos por habitante e por isso foi necessário desatar uma vasta campanha que incluía o estímulo financeiro.

– 200 pesos por rato, é muito dinheiro – pensavam os gêmeos, seduzidos. E, pela primeira vez, ficaram de acordo com a mãe. Decidiram que, a partir desse dia, dedicariam algumas horas diárias a caçar ratos.

– Os felizes milionários de hoje, Don Torcuato Cútulo e sua senhora esposa, dona Annunziata, que vão receber a enorme quantia de 37.400 pesos, moeda nacional. Este casal de laboriosos imigrantes italianos matou nada menos que 137 magníficos exemplares de ratos, ratazanas e camundongos. Recorde absoluto até esta data! Eles são um verdadeiro exemplo para a comunidade italiana em particular e para todos os cidadãos em geral! – exclamava o animador, exaltando-se: – Minha senhora, cavalheiro: já mataram o seu ratinho de hoje? Não se esqueçam: se todos os habitantes de Buenos Aires matassem um rato por dia – todos os habitantes, quer dizer, homens, mulheres, crianças, velhos e jovens, trabalhadores e aposentados, todos enfim, todos os argentinos, independentemente de suas ideologias – se cada um matasse um rato por dia, em uma semana seríamos uma capital isenta do perigoso ruminante!

– Roedor – corrigiu sorridente a locutora.

– Roedor ou ruminante, não importa. Não estamos aqui para discutir a essência desse nauseabundo animal. O que verdadeiramente importa, – prosseguia imperturbável o animador, – é que vamos ter que matar muito rato! Matem! Matem! Pela saúde pública, por patriotismo, por extremismo, ou simplesmente pelo dinheiro! Morte aos ratos! Matem, matem sem piedade! E fiquem milionários como Don Torcuato e Dona Annunziata!

Os gêmeos e sua mãe suspiravam.

– 137 ratos… – admiravam-se eles.

– 37.400 pesos… – sonhava ela.

Continuaram caçando três dias mais; mas a produção aumentou escassamente: conseguiram sete ratos, sendo que um deles já foi encontrado morto por causas naturais e outro foi aprisionado sem oferecer resistência, dada a sua extrema velhice.

Os dois irmãos sonhavam com o recorde do casal italiano. Queriam batê-lo, queriam que a mãe se sentisse orgulhosa deles. “Os campeões de caça aos ratos, Aldo e Fortunato, diletos filhos do senhor Aldo Fortunato e de sua senhora esposa, dona Benigna!” Não era a mesma coisa que ser campeão nacional de futebol pelo Boca Júniors, mas já era alguma coisa.

Aldo que, dos dois, era o que maior iniciativa sempre tinha, propôs que comprassem um fox-terrier.

– Fox terrier é bom pra caçar e tem a vantagem de que não come os ratos… mata por esporte… Isso é o que a gente precisa! Mas a mãe não queria fazer nenhuma inversão de capital: se não comia os ratos, ia ser necessário alimentá-lo de outra forma, com carne, que estava cada vez mais cara. Não, nada de fox terrier.

E não compraram o cachorro. Aldo teve depois a ideia de comprar uma fuinha.
– Quequié isso? – perguntou a mãe.

– É um bicho feio… meio que espécie de cruzamento entre gato e rato… meio assim… feio… É grande como um gato, mata os ratos como um gato, mas tem cara de rato como os ratos. E tem a vantagem de que como as ratazanas.

D. Benigna outra vez discordou:

– Se comem, como é que a gente vai receber depois o dinheiro da prefeitura?! Não vamos ter prova de que caçamos a rataria.

Um dia, Aldo apareceu em casa com um rato branco.

– Vai ver que sendo branco pagam o dobro… – pensou ávida a mãe.

Aldo explicou que esse tinha sido comprado: rato branco é racista e mata os ratos das outras cores, que ficam meio hipnotizados. O rato branco vem em cima e dá uma mordida no pescoço dos outros até que eles morrem. Tinha todas as vantagens: não era preciso gastar muito com a alimentação, dado o pequeno porte do bicho, e ao mesmo tempo os cadáveres não eram devorados, podendo assim ser apresentados à prefeitura.

Os dois irmãos passaram todo o dia buscando os lugares onde podiam estar escondidos os ratos vulgares para aí soltar o distinto, amarrado por um barbante. Soltavam e esperavam os resultados. Tudo inútil. Uma só vez tiveram resultados alentadores. Três ratos mortos. Nos outros dias, um, dois ou nenhum.

Numa noite, jantando, a mãe advertiu o Fortunato:

– Vocês são dois vagabundos, mas você ainda é o pior! Teu irmão pelo menos tem ideias. Ideias estúpidas, mas, enfim, são ideias. Porque você não é capaz de pensar nem ao menos estupidezas!

– Eu também tenho uma ideia, – comentou Fortunato, defendendo-se, e não é nada estúpida. É sensacional! É a única solução pro nosso caso. Mas tenho tanta certeza de que a senhora não vai estar de acordo, que preferi até nem dizer nada. Pra que, não é mesmo?

A mãe quis saber do que se tratava. Fortunato explicou:

– Nós não temos que perder tempo caçando ratos. Temos que fazer uma criação, está me entendendo? É só fazer um viveiro de ratos e pronto, a gente espera e está resolvido o assunto. Ontem, na televisão, disseram que os ratos são os animais que mais se reproduzem. Bom, a gente caça ou compra um ou dois casais, botamos eles no viveiro, e é só esperar. Além disso, se os ratos ficam vivos aqui em casa, a gente pode ir matando segundo as nossas necessidades. É ou não é uma boa ideia?

A mãe ficou maravilhada com o inesperado broto de inteligência do filho caçula.

– E por que é que você disse que eu não ia estar de acordo? Pelo contrário, eu estou encantada: vamos já fazer esse viveiro!

– Porque o único lugar onde a gente pode fazer, sem ter perigo que os vizinhos descubram, é no dormitório do papai…

– No altar?!!

A velha viúva hesitou um pouco. Mais precisamente: toda a noite. Pediu tempo pra pensar, alegando que o travesseiro é o melhor conselheiro. Não se sabe que conselhos lhe deu seu travesseiro, mas o certo é que na manhã seguinte a velha respondeu que sim.

Durante vários dias não fizeram outra coisa que preparar o viveiro, derrubando o sacrossanto altar, dedicado por dona Benigna ao seu inesquecível marido morto. Usaram as cadeiras e a própria cama, cobertores e lençóis ainda manchados, jamais lavados, cortinas e todas as doces lembranças. Fizeram uma espécie de galinheiro, distribuído em três partes, destinadas às ratazanas, ratos e camundongos. Do altar do marido morto nada se perdeu: tudo se transformou. Até mesmo as roupas mais lindas do defunto foram usadas para tapar o teto do galinheiro.

Coincidentemente, intensificou-se a campanha contra os ratos e todos os dias a televisão continuava com os campeões da semana, e com os vencedores do dia. As câmeras mostravam montanhas de ratos, close-ups de ratazanas que se distinguiam pelo peso, ou por suas dimensões, ou por seus bigodes. A cidade respirava um clima nas feiras, nas escolas, nos pontos de táxi, nas filas e nos salões de beleza. Aldo e Fortunato viam crescer a 4, 8, 16, 32, 64… cada vez mais e mais. Dona Benigna era a mais entusiasmada: com a mesma ternura e o mesmo amor que uma mãe oferece o seio ao filho recém-nascido, assim dona Benigna oferecia um pedaço de Roquefort aos seus camundonguinhos, e, com a mesma benevolência materna, tudo lhes permitia, tudo, inclusive subir em suas mãos, correr pelos seus braços, ensaiar os primeiros vacilantes passos na mesa de jantar.

família começou a consumir uma enormidade de queijo a ponto de assustar o dono do armazém, que bem conhecia a avareza da viúva, notória pão-duro. Circulava, a esse respeito, uma história que todo o bairro conhecia: nos primeiros tempos, quando vinha alguém comer em suas casa (cada dois ou três anos), a senhora Benigna oferecia queijo ao visitante, com insuperável rapidez, sem que lhe desse tempo para expressar seus desejos:

– Nós temos queijo. Quem quer queijo? Ninguém quer queijo? Guarda o queijo!

Os tempos haviam mudado: agora ela comprava enormes quantidades e de todas as marcas. E enquanto os animaizinhos roíam, ela lhes dizia, com infinita ternura:

– Comam, comam… roquefort da mãe é mais saudável…

Aldo e Fortunato queriam começar com a venda logo de uma vez, mas d. Benigna, além do dinheiro, estava agora interessada em bater o recorde do casal italiano: queria aparecer na televisão! Virar artista!

Os vizinhos notaram a transformação da viúva, em relação aos filhos. Nunca antes, como agora, ouviam-lhe dizer:

– Meus filhos são duas pérolas. Foi Deus que me deu!

Primeiro, pensaram que d. Benigna estava louca; depois, vendo que os dois irmãos ficavam agora muito mais tempo com ela, em casa, pensaram que por isso ela tinha mudado de opinião.

Quem não gostou nada dessa transformação foram as duas noivas, Valéria e Rosário, que já quase não os viam. Protestaram, mas os dois argumentaram que a mãe estava muito doente e por isso tinham que ficar mais tempo com ela. Valéria e Rosário insistiam em que podiam ficar elas também para melhor e mais companhia. Aí eles mudavam de assunto. Aí as famílias das jovens começaram a dizer que as moças deviam aproveitar a oportunidade para largarem esses dois ociosos e pra se casarem com gente de bem, trabalhadora, como por exemplo, os gêmeos de Maria Pia, saudáveis e fortes graças ao segundo leite de dona Benigna.

Cada vez o assunto ficava mais sério: nem uma saidinha em mais de um mês, nem um filmezinho, nem um beijinho no portão. As moças ameaçaram traí-los, mas eles estavam tão mais apaixonados pelos seus ratos que por suas noivas, que não faziam mais do que pedir tempo e paciência. Até que elas deram um prazo: até o fim do mês! Então eles juraram que antes do fim do mês elas teriam uma enorme surpresa e se sentiriam orgulhosas de serem suas futuras esposas. Elas foram aguentando um pouco mais.

Todas as noites a família gastava horas e horas cuidando dos animaizinhos, forrando as paredes do dormitório com todos os panos e trapos que encontravam, porque as pequenas bestas faziam um ruído infernal e não convinha que ninguém escutasse esses ruídos, às vezes espantosos. Como os ratos se moviam muito, não dava jeito de fazer o recenseamento e saber quantos eram e de que idades. Mas podiam calcular que seriam talvez uns 120 ou 130, pouco mais ou menos. Assim, podia-se pensar que até o fim do mês teriam os necessários 138 para bater o recorde italiano. E d. Benigna já imaginava a grandiosa festa: mandou fazer um belíssimo vestido novo, especialmente para essa ocasião, que pretendia estrear diante das câmeras de TV, ao lado da sua montanha de ratos mortos, sangrentos e de olhos esbugalhados. Ela estaria sorridente, louvando os formosos filhos que Deus em pessoa lhe havia dado, esses valentes e destemidos caçadores de ratos. Sonhava também com a modesta recepção que daria depois em sua casa, para comemorar a vitória. Parte do prêmio municipal seria gasto na compra de sanduíches e de bebidas sem álcool. Pensou também que o dia dos ratos podia ser também o mais apropriado para a oficialização do noivado dos rapazes: três festas numa só. E pensou, um pouco envergonhada, pensou muito dentro de sua alma, muito pudicamente que, como estaria vestida com seu lindo vestido novo, quem sabe?, sim, quem sabe?, podia ser até, não é mesmo?, quem sabe podia ser que conseguisse um noivo, ela também, que lhe amenizasse os últimos anos de vida e trabalho.

Com o rosto vermelho, emocionada, sonhava:

– Agora que meus filhos já estão criados, tenho que pensar em mim também… Ora, não é mesmo? Tenho sim… tenho…

Sonhava, coitada, enquanto seus filhos preparavam os alimentos, ou separavam os ratinhos com aparência doentia e a esses dispensavam cuidados especiais. A família tinha encontrado, em conjunto, o seu verdadeiro amor. Com infinita ternura, observavam os ratinhos serelepes, viam quando as ratinhas jovens se apaixonavam, quando amavam, e seguiam com infinitas precauções a gravidez de cada uma. Quando pariam, a mulher e os filhos presenteavam a cada parturiente um pedaço especial de Gruyére, comprado para essas ocasiões, como um estímulo especial à campanha pelo aumento do índice demográfico ratonal.

Aproximou-se o fim do mês e a velha perdia o sono e tinha horríveis pesadelos pensando na terrível noite de São Bartolomeu, que era o destino dos roedores. Pensava que talvez fosse melhor perdoar os menorzinhos. Quem sabe talvez também merecessem o perdão as ratas que se houvessem destacado como as mais prolíferas. Mas tinha pena também de matar de matar os ratões fortes e saudáveis, que afinal de contas eram os pais. Parecia-lhe injusto que eles fossem condenados à morte. Alguns animais, ela já conhecia até por um nome e todos pela fisionomia.

Era a fatalidade! Pra isso tinham nascido: para garantir a d. Benigna o recorde da matança de ratos. Recorde mundial. Isso tranquilizava a velha, que discutia com os filhos qual o melhor método para provocar tantas mortes. Logicamente, excluíam o fogo e a violência física direta, que podiam provocar rios de sangue. Gases tóxicos, nem pensar. Estrangulamento, impossível e cansativo: também não servia. Só a ideia de agarrar um a um pelo pescoço e apertar até que o bicho morresse, parecia desumana. Restava o veneno. Compraram três quilos e meio, isto é, pouco mais de 25 gramas para cada um – quantidade excessiva mas, por questões humanitárias, a família preferia que a matança fosse uma operação limpa e rápida. Alguns pesos a mais gastos com o veneno economizariam infindáveis sofrimentos morais.

Numa noite d. Benigna estava brincando com os camundonguinhos. Os bichinhos lhe subiam pelos braços até as costas e daí davam saltos ao chão, soltando gritinhos, como se fossem meninos contentes e gordinhos, que se sabem amados pela mamãe. Isso lhe dava um certo prazer físico. E tão cansada estava a velha senhora que acabou dormindo, esquecendo a porta aberta. Os primeiros ratos tentaram fugir e, não encontrando resistência, foram embora. Depois foram outros e outros e muitos mais, e todos saltaram, e criaram a maior confusão, e fizeram fila e furaram a fila na pequena portinhola, tentando escapar, primeiro em silêncio, sorrateiros, depois aos gritos de desespero e ansiedade, ratazanas, ratos e camundongos gritando desesperados pela liberdade!!! Foi uma loucura. A pobre senhora acordou sobressaltada, querendo acreditar que sonhava, querendo dormir outra vez, querendo que voltassem os seus bichos ao seu lar, enquanto os bichos ingratos saltavam-lhe em cima, ganhavam a porta e o hall e se dispersavam por todo o edifício. D. Benigna fechou a porta, conseguiu manter prisioneiros pelo menos a metade da população, que continuava gritando desconsolada pela oportunidade perdida. Depois, começou a caçar os menos espertos, escondidos pela sala. Em luta corporal conseguiu reaprisionar algumas dezenas. Mas um número bastante significativo tinha conseguido escapar. Foi uma perda cruel!

Esse foi um golpe terrível para a entristecida senhora e seus dois filhos. Teriam que esperar pelo menos algumas semanas mais para tentarem outra vez o primeiro prêmio. Estranhamente, não se sabe, porque intuição, a partir desse dia, todos os vizinhos começaram a tratá-los mal. Suspeitavam que eram eles os responsáveis pela peste de ratos que subitamente tinha invadido o edifício, e que apareciam em toda parte: alguns subiram pelo elevador e se instalaram até no 12º andar. Todas as noites o edifício despertava, sacudido pelos gritos dilacerantes de jovens senhoras que descobriam um rato embaixo do cobertor, ou dentro da geladeira, ou no ralo do banheiro, ou no armário da cozinha, ou até mesmo dentro da privada. Era lógico que os vizinhos, que não sentiam pelos ratos o mesmo amor que incendiava d. Benigna e sua prole, sentissem pelo contrário um grande nojo pelos últimos acontecimentos.

Uma noite, já depois de fim do mês, Valéria e Rosário decidiram ajustar contas com seu noivos e foram visitá-los. A mãe atendeu mas não quis abrir a porta. As duas jovens estavam tão enraivecidas que forçaram a porta e entraram. Queriam ver os noivos. A mãe jurou que tinham saído para comprarem alguns quilos de queijo Gruyére. As jovens não acreditaram e forçaram também a porta do Altar.
Meu Deus, que espetáculo!!!

Estavam pálidas quando entraram Aldo e Fortunato. Quase desmaiaram, quase não os escutaram implorar:

– Por favor, não contem nada a ninguém, não contem nada! Nós juramos que nos casamos, mas não contem nada, pelo amor de Deus não contem nada e a gente se casa, a gente jura que se casa!!!

Valéria e Rosário mal conseguiram balbuciar uma ameaça, antes de partir:

– Os ratos… ou nós duas…

E foram embora.

Os irmãos tinham a honesta intenção de se casarem com as duas jovens e elas a honesta intenção de não contar nada a ninguém. Mas, quem seria capaz de guardar um segredo como esse? A notícia era sensacional: uma família que tinha um viveiro de ratos no dormitório onde todo mundo pensava que existia um Altar ao Marido Morto. Era um segredo difícil de guardar.

Valéria, muito discreta, contou só pra sua mãe Rosário, discretíssima, só ao seu confessor. O padre confessor não contou a ninguém mais, além da sua empregada, mulher de toda confiança.

A mãe de Valéria a ninguém mais, além do seu marido, em quem tanto confiava. O marido fez um comentário com o seu melhor amigo e a empregada do padre pediu-lhe segredo de morte a uma prima.

E assim, de um em um, toda a população da Boca foi informada do que estava acontecendo, inclusive todos os moradores do edifício. Os vizinhos se dividiam: uns temiam uma epidemia de febre amarela enquanto que outros asseguravam que o maior perigo era a peste bubônica. Mas todos estavam unanimemente de acordo em chamar a polícia.

No noticiário daquela noite, finalmente, dona Benigna conseguiu realizar o seu sonho dourado: apareceu na televisão. Mas os policiais não lhe tinham dado tempo de vestir o vestido novo, especialmente comprado para aquela ocasião…

Buenos Aires – Argentina

TEXTO-FIM
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Augusto Boal

Augusto Boal (1931–2009) foi diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta, sendo considerado uma das grandes figuras do teatro contemporâneo internacional. Frequentou o curso de dramaturgia ministrado por John Gassner, nos Estados Unidos e retornou ao Brasil em 1956, onde iniciou a carreira de diretor no Teatro de Arena, em São Paulo. Foi perseguido pela ditadura militar, tendo se exilado na Argentina em 1971 e em Portugal, em 1976. Sua técnica de representação teatral denominada “Teatro do Oprimido” é estudada e utilizada em mais de 50 países. Em 1997 recebeu da Associação Norte-Americana para o Teatro em Higher Education (Athe) o prêmio especial por sua contribuição ao teatro profissional. É autor de vários livros e peças. Em 2001, recebeu o título de doutor honoris causa pela Queen Mary University of London.