O estranho Mujica no desconcertante Uruguai

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Um escritor espanhol acompanha insólita rotina do presidente e opina: ela só seria possível em seu país particular, que teima em desafiar lógicas do “bom-senso”

Por Juan José Millás | Tradução: Cibelih Hespanhol

[Primeira de duas partes da entrevista. Breve, em “Outras Palavras”, a conversa completa com Mujica]

A tempestade se anunciava, em tal estado de exaltação, que mais se parecia às sensações que precedem as piores enxaquecas. Em pleno meio dia, toda a atmosfera tornava-se escura (como se Deus tivesse fechado os olhos), e se levantava por todos os cantos um ar estranho, de tonalidades psíquicas, produtor de uma euforia gratuita. Cada greta das paredes adquiria uma relevância misteriosa, como se em seu interior, ao invés de certamente viver uma barata, vivesse uma libélula.

Logo o céu desabava, com a mesma violência com a qual a polícia, à sua maneira, manda abaixo a porta de uma casa de narcotraficantes; e a água começava a cair em grandes jorros. Em quinze minutos, os edifícios já estavam ensopados como uma esponja recém-tirada da água e colocada sobre a borda de uma banheira. Crianças brincavam entre as poças de água, enquanto a realidade permanecia suspensa.

O clima montevideano sofria de transtornos de caráter. No quarto do hotel, onde a janela se abria para um pátio de luzes, era natural sentir-se como um desses personagens de Onetti que, nus sobre a cama, sem parar de fumar, escutam obsessivamente os ruídos vindos do exterior, enquanto tentam compor em sua cabeça uma imagem do mundo.

TEXTO-MEIO

O mundo, a princípio, eram as ruas que se desdobravam até este estranhíssimo lugar, onde se encontram as águas do Rio Prata com as do Oceano Atlântico, duas monstruosidades naturais a copular sem nenhuma pausa. Às vezes o mar penetra no rio, às vezes é o rio quem se introduz no mar – depende dos ventos, das marés, das chuvas, dos efeitos das mudanças climáticas. Esta sobreposição afeta a fauna: peixes de mar que se precipitam, de súbito, na água doce, e peixes de rio que se encontram de pronto em toda a dimensão do mar salgado.

– Morrem os peixes quando atravessam a fronteira? – perguntei a um pescador.

– Ou saem a tempo, ou se adaptam – disse ele.

– Mas morrem, por vezes? – insisti, em uma preocupação íntima.

– Acredito que ou saem ou se adaptam – insistiu ele também.

O País semanal havia nos enviado ao outro lado do mundo para que escrevêssemos uma reportagem, de modo que ao cair da tarde o fotógrafo Jordi Socías e eu saímos a caminhar, tomando uma das tantas ruas que davam até o estuário.

Já estávamos andando havia uma hora, quando vimos sair um sujeito com uma sacola de uma loja de delicatessen.

– Vendem bons vinhos aí? – perguntou Socías.

– Muitos bons – respondeu o homem – e um pão excelente. Mas já estão fechando.

Era um sujeito de classe alta, aberto a conversas, de modo que perguntamos a ele se estávamos muito longe do mercado.

– Não vá até lá – disse ele – a esta hora estará às moscas.

– E se tomarmos o caminho pela avenida?

– Nem pensar, está fechada também. Subam por esta rua, e a quatrocentos metros encontraram alguns bares, como os de Madrid ou Paris.

– Mas nós não queremos ver Madrid ou Paris. Queremos ver Montevidéu. – disse Socías.

O sujeito nos espiou como se estivéssemos loucos, e se afastou cuidadosamente de nós dois, que continuamos a caminhar na direção proibida. Realmente, estava mesmo às moscas.

– É que aqui você tem que vir pela manhã. – nos avisaram no mercado.

Há lugares de Montevidéu que só são Montevidéu em certos horários: quando é manhã, ou quando é a hora de comer. Logo se transformam em outra cidade, na qual todos os dias são sempre uma tarde de domingo, como acontece na vida de algumas pessoas: na de Felisberto Hernandéz, por exemplo, escritor uruguaio enormemente infeliz, que havíamos lido antes de viajar.

Montevidéu era um estado de espírito.

Retornei ao quarto de hotel já em estado líquido. Tirei a roupa – exceto as meias (porque tenho a superstição de que me mantêm os pés unidos às pernas), enchi a banheira de água fria, entrei nela, acendi um cigarro e abri um romance de Onetti justo no instante em que o personagem dizia: “eu sou um homem solitário, fumando em um lugar qualquer da cidade; a noite me rodeia, vai desdobrando-se como um rito, gradualmente, e nada tenho a ver com ela”.

Larguei o livro em um gesto de defesa. A temperatura do meu corpo já não era febril. Lembrei-me do sujeito que pretendia que, em Montevidéu, ao invés de vermos Montevidéu, víssemos Madrid ou Paris, e então me veio à cabeça uma pergunta: “Uruguai é um país europeu ou latino-americano?”. Era como se eu perguntasse se as águas, no estuário do Rio da Prata, eram mais fluviais que marítimas ou mais marítimas que fluviais.

O aconselhável seria erguer o dedo e levá-lo a boca, comprovando assim se pertencia ou não ao sal. Montevidéu conhecia com intimidade os romances aflitos de Onetti, tanto quanto a prosa indócil de Levrero.

* * *

O que acabo de contar, na verdade, aconteceu em outro momento, mas aqui foi lançado desta forma, não sei por quê. Digamos que seja pela mudança de horário. O que realmente aconteceu tão logo chegamos, com a maleta já disposta sobre a cama do quarto do hotel, foi o seguinte: tocou o telefone, e quem nos chamava era o secretário de comunicação do presidente do Uruguai.

– Às três e meia – disse ele – chegará um carro para pegá-los e levá-los até a chácara de Mujica.

Olhei o relógio: era meio dia.

– Mas havíamos combinado que o encontro seria amanhã – observei, com cautela.

– Amanhã não pode ser – concluiu o secretário.

Desliguei e avisei o fotógrafo. Socías e eu éramos dois senhores já velhos, que nos arrastamos por treze horas de avião, um fuso horário e um salto abismal do inverno espanhol até o verão uruguaio. Estávamos animados, sim, mas justamente por nos sentirmos tão bem é que começávamos a suspeitar do nosso equilíbrio mental.

Quando o carro chegou, chovia com uma inclemência extraordinária – como se quisessem machucar alguém com aquelas águas. E apesar de ainda restarem cinco ou seis horas de luz (de luz escura) porque em Montevidéu, em fevereiro, anoitece tarde, as ruas já se haviam apagado como os corredores de um escritório em um dia de feriado.

O automóvel seguiu navegando. Alcançamos uma zona rural. A chuva havia parado um pouco, e através dos vidros molhados, em meio às terras de cultivos, víamos aqui ou ali, distribuídos de forma irregular, galpões que talvez fossem casas, casas que talvez fossem galpões. E cachorros, muitos deles, que vinham correndo para saudar o carro.

Havia galinhas, também. Neste instante, apareceu no meio do caminho um cachorro morto que, tão logo nos aproximamos, mostrou-se estar vivo. Ainda assim, custou a sair da direção do carro, como se não acreditasse que este realmente existisse, ou tampouco se importasse. Foi quando o condutor parou o automóvel em uma encruzilhada.

– É aqui – disse.

Havíamos chegado em Rincón del Cerro. Descemos do carro e vimos, no meio do campo, uma guarita de vigilância, de estética semelhante à dos banheiros portáteis – o que conferia à paisagem certo ar surreal. E ali mesmo, à direita, um pouco oculta pela vegetação, nos apontaram a casa de José Mujica, o presidente da República Oriental do Uruguai. Diziam que a casa era muito modesta. Mentira. É pobre. Poderíamos dizer que é como um barracão confortável, com telhado de zinco, em cuja porta nos esperava este ancião que já se tornou uma espécie de moda em seu país. Trajava uma calça desgastada e uma camisa azul.

– Senhor presidente – disse, estendendo-lhe a mão.

– Fora, Manuela! – gritou ele a uma cachorra de três patas, que já havia se adiantado a nos dar as boas vindas.

José Mujica Cordano, o dono da cachorra aleijada, contava 80 anos – quinze dos quais passou preso, por pertencer ao Movimento de Liberação Nacional Tupamaros. Possui em seu currículo de guerrilheiro duas fugas e, em seu corpo, seis feridas de bala. Detido pela última vez em 1972, não voltaria a ver a luz do dia até 1985. Entrou, portanto, com 37 anos e saiu com 50. Durante este tempo, conheceu no cárcere da ditadura vergonhas das mais terríveis. Desnudo, com as mãos e os pés atados, aplicavam-lhe choques nas áreas genitais e na língua. O aguilhão elétrico era um dos instrumentos preferidos pelos militares, mas não era o único, nem o mais sofisticado. Outra prática também alcançou sua fama, consistindo-se em obrigar o preso a caminhar pela estrutura externa das janelas, do sexto piso, por exemplo, com uma carapuça tapando a cabeça, fazendo-o sentir apenas o vazio por baixo de seus pés. Havia também a “banheira”, o afogamento com panos embebecidos de água, as simples surras, e, enfim, a fome, o isolamento, os cachorros… Cada prisão tinha a sua especialidade.

Segundo relatado por Walter Pernas, em Comandante Facundo, o então presidente do Uruguai, que havia perdido os dentes devido às surras que recebia diariamente, chegou a comer papel higiênico e sabão – além das moscas que chegavam até sua cela (com frequência, um simples buraco), atraídas pelo forte cheio de fezes que exalava do preso. Havia chupado, com suas gengivas desnudas, em busca de um pouco de cálcio, os ossos que jogavam os carcereiros depois que os cachorros já os haviam devorado. Bebeu de sua própria urina, dormiu durante anos sobre um chão de cimento, exposto a frios intoleráveis e calores asfixiantes. Havia passado semanas ou meses sem ver a luz, anos sem conversar com ninguém que não fossem os ratos ou os insetos que conviviam com ele ou faziam-lhe visitas. Perdeu a noção do espaço e do tempo, delirou, emagreceu até ser capaz de contar cada um dos ossos de seu esqueleto. Defecava-se e mijava-se constantemente, pois, fruto das surras, das balas e da alimentação, sofria de problemas renais e digestivos.

Conta Walter Pernas que ele já não podia caminhar erguido, como um homem, e nos momentos de maior deterioração física e psíquica os militares levavam seus filhos até a prisão para que vissem a besta e a insultassem. Viajou, enfim, várias vezes até o limite da morte, de onde regressava alucinado, com os olhos desvairados e praticamente sem massa muscular sobre a qual se sustentar. Levavam-no de uma prisão a outra, de um buraco a outro, como um saco de mercadoria suja, jogando-o sem cerimônias sobre o caminhão militar e de lá o tirando a pontapés e socos.

Conhecedores de sua diarreia crônica e seus problemas urinários, os carcereiros não prestavam atenção às suas súplicas para usar o banheiro. Mas, através de sua própria constância, e da de sua mãe, conseguiu com o passar dos anos que o deixassem possuir um urinol do qual não se separava, e que se converteu, com o tempo, no símbolo de uma pequena vitória sobre seus sequestradores. Abandonou o cárcere abraçado a ele, já convertido em um vaso de flores. Apenas quatro dias após sua soltura, pronunciou um discurso político no qual era impossível encontrar qualquer vestígio de ressentimento. A natureza, disse então, pôs nossos olhos na frente do rosto, para que sempre possamos olhar adiante.

– Fora, Manuela! – voltou a gritar Pepe Mujica à cachorra de três patas.

Manuela foi embora e entramos na casa, que cheirava a umidade.

– O Uruguai está se tropicalizando – disse Mujica – não sei como ainda pode ter gente negando a mudança climática.

Sentamo-nos no “hall” da entrada, que também era a sala de onde se distribuíam os outros cômodos da casa (um dormitório, um banheiro e a cozinha: quarenta ou quarenta e cinco metros no total). E percebi com horror que ele esperava que eu o entrevistasse. Dirigi-me a ele, então.

À primeira de minhas perguntas me respondeu que os governantes já não mandavam nada.

– Quem manda, então? – perguntei.

– Os grandes poderes financeiros. Já não é o cachorro que abana a cauda, mas a cauda que balança o cachorro.

– E você diz isso aos chefes de Estado e aos presidentes com os quais se reúne?

– Sim.

– E o que eles dizem?

– Me dão razão, mas olham para o outro lado. Cultivam a ilusão de voltar a serem presidentes, não se atrevem a enfrentar o inimigo. Dissimulam, mas a verdade é que somos marionetes.

– E como pôde governar por quase cinco anos sendo consciente destas limitações?

– Este é um paisinho muito especial. Mais de 50% do movimento bancário está na mão do Estado. Os uruguaios nos ensinam que, quando temos um peso, devemos ir até o Banco da República, que é o banco do Estado. E não que nos trate bem, mas temos confiança nele. O sistema bancário privado é débil.

– Todos os setores estratégicos do Uruguai estão nacionalizados.

– Não ponha a culpa em mim. Quando eu nasci já estava tudo assim. É uma construção da história.

Enquanto conversávamos, e como a porta havia ficado aberta, devido ao calor, entra Manuela, entra um galgo coxo, entra outro cachorro de raça indefinida, e todos nos miram, uivam, pedem carícias, creio que entra também um gato e se enrosca entre minhas pernas, as moscas zumbem excitadas… Lá fora, junto ao barulho da chuva se escuta, de vez em quando, uma profusão de cantos de galos. Observo Mujica, e me parece que vai e vem dentro de si mesmo, como se tivesse uma gangorra dentro da sua cabeça. Quando regressa, se junta ao mundo com uma pitada de cortesia e outra de malícia. Pergunto a mim mesmo que interesse podemos despertar nele, este par de espanhóis dentro de sua casa. Pergunto-me também se suas respostas são tão mecânicas como minhas perguntas. Ele diz que o Uruguai é um país menos rico, que adormeceu a partir da década de 60, depois de ser campeão do mundo no Maracanã.

– Cinquenta anos de nostalgia – acrescenta.

Diz que se burocratizaram, que encheram de gente as propriedades do Estado, que tinham um teatro (o Solís) com um empregado para subir o telão e outro para baixá-lo. Diz que ainda tem um problema com a burocracia estatal. Reconhece que os sindicatos dos funcionários, muito poderosos, lhe torceram um pouco o braço. Diz que tem paciência, que é preciso seguir lutando e semeando, e que já pensou muito, pois no cárcere tinha bastante tempo para pensar, e aprendeu que tudo muda, mas sempre devagar.

Diz que quando jovem andava sempre “muito apressado”, que passou entre 25 e 30 anos de sua vida, a metade preso, a metade mais ou menos livre, ou “prisioneiro de meus próprios esquemas”. Diz que há 20 ou 30 anos atrás era possível discutir se havia guerras justas ou não, e que justas eram aquelas que significavam um processo de liberação nacional ou tentativa de liberação de nações que se sentiam submetidas, mas que hoje, do jeito que estão as coisas, todas as guerras são para que os mais fracos sofram ainda mais. Diz que é preciso tratar de mudar as coisas através da paz, que é preciso levar a cabo políticas de Estado e estas são as em que, a partir de posições distintas, buscam-se pontos de acordo. Diz que têm aparecido problemas que nenhum país pode resolver por si mesmo, que ou governamos a globalização ou a globalização governará a todos nós.

Diz que a democracia e o socialismo são compatíveis, mas com a condição de que um não engula o outro. Diz que o que mais importa destacar de seu mandato é a luta contra a pobreza e a indigência, e o crescente clima de estabilidade política e confiança que vem atraindo os investimentos estrangeiros. Pergunta se queremos um uísque, diz que não teremos outro remédio senão voltar à economia produtiva, e que neste terreno o Uruguai está muito bem situado, pois tem uma excelente produção de lácteos, de carne, de cereais. Diz que produzem trigo, soja, que exportam arroz, que são bons vendedores de carne de vaca, que exportam peixes pois comem muito pouco, que possuem um mar precioso mas têm vivido de costas para ele já que são descendentes de galegos. Diz que fala muito com os chineses, que são seu principal cliente, que compram toda sua soja e estão aumentando sua presença, que nas campanhas eleitorais as bandeiras são todas chinesas. Diz que o problema da Europa é ter-se descuidado da economia produtiva, subordinando-a a engrenagem financeira, e daí a imagem da cauda que move o cachorro, quando o importante é o cachorro…

Vem-me à cabeça que o secretário de comunicação nos disse que teríamos uma hora ou uma hora e meia, e que Jordi Socías também precisa de um tempo para tirar as fotos. Então sou invadido por um gesto de impotência, apago o cigarro, e digo a Mujica, ao presidente do Uruguai, ao Pepe, como o chamam:

– Olha, eu não sei fazer entrevistas, não sei fazer isso que estou fazendo.

Mujica se retira um momento até a gangorra que tem dentro de si (e fecham-se um pouco os seus olhos), volta (abrindo-os), e me observa através das fendas pelas quais observa o mundo, como se ainda continuasse dentro de uma célula, como se o corpo todo fosse uma célula e os olhos aquele olho mágico das portas.

– O que eu sei – continuei – é contar o que me acontece. Se o senhor me permitir vir tomar café da manhã em sua casa, te acompanhar até o trabalho, ver como se move, como age, enfim, então eu contaria tudo isso…

Como a situação, aparentemente, tornou-se um pouco difícil (afinal nem Mujica nem seu secretário de comunicação poderiam entender que enviaram a eles, do outro lado do mundo, um sujeito que não sabe fazer entrevistas), interveio Socías:

– O que Mirás quer dizer é que tudo o que ele saber fazer é contar histórias.

– Vamos tomar um trago – conclui Mujica.

E vamos até a cozinha, onde nos serve um uísque. Jordi começa a fazer as fotos. Não parece, de forma alguma, que estamos com um presidente ou algo parecido. Então me lembro de que este homem doa 87% de seu salário a um projeto de moradias para pobres, e pergunto a ele se ainda lhe resta dinheiro suficiente para viver. Ele me diz que sim, e que ele e sua senhora, depois de se juntarem ao partido, ainda possuem 45000 pesos – uns dois mil euros.

Nota da tradutora: uns seis mil reais.

TEXTO-FIM
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Juan José Millás

Juan José Millás é escritor espanhol, autor de dezenas de livros e publicado em 23 idiomas. Sua obra é marcada pela introspecção psicológia e pelas transições que estabelece entre o quotidiano e o fantástico. Criou um gênero, o articonto, em que uma história banal transforma-se, por fantasia, em narrativa para enxergar criticamente a realidade

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