A Al-Fatah avança uma casa

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Mahmoud Abbas: a esperança de renovação?

Mahmoud Abbas: a esperança de renovação?

Depois de amargar duas derrotas históricas na Palestina, movimento fundado por Iasser Arafat mostra algum sinal de unidade e renovação. Oriente Médio espera plano de paz de Obama, mas Israel mantém posição provocadora

O encontro tinha de dar certo. Combalido pela derrota para o grupo integrista Hamas, nas eleições nacionais de 2006, expulso por seu rival da Faixa de Gaza (em 2007), visto por parte da população palestina como burocratizado e corrupto, o movimento Al Fatah realizou em Belém (Cisjordânia ocupada), entre 4 e 10/8, um novo congresso. Foi o primeiro encontro do tipo, em trinta anos, e também o primeiro não realizado no exílio. A meses de um novo pleito palestino (previsto para janeiro de 2010) e na expectativa de uma nova postura dos EUA no Oriente Médio, já sugerida por Barack Obama, a Fatah precisava sinalizar que mantém alguma capacidade de se unir e renovar. Os resultados iniciais do encontro, divulgados na manhã de hoje (11/8) sugerem que conseguiu.

Mahmoud Abbas, o secretário-geral da organização desde a morte do líder histórico Iasser Arafat, manteve seu posto — o que todas as correntes internas defendiam. A surpresa foi uma ampla renovação no comitê central (CC), que correspondeu a um pedido do próprio Abbas. Dos dezoito membros, agora apenas quatro pertencem à chamada “geração histórica” de Arafat e do próprio secretário-geral. Só um vive no exílio. Seis membros da “velha guarda” disputaram postos e perderam. Foi “um resultado inesperado e histórico”, segundo Naser al-Kidua, sobrinho de Arafat e um dos novos integrantes do CC.

A renovação significa mais uma mudança generacional e simbólica que uma nova orientação política. Os dois membros mais notórios da direção tem perfis distintos e talvez opostos. Marwan Bargouthi, preso em Israel e condenado a cinco penas perpétuas (acusado de homicídios que nega ter cometido) é carismático e popular. Tem 50 anos. Rejeita os ataques contra alvos civis. Reconhece a força do Hamas e propõe dialogar com o movimento, em favor da unidade palestina. É considerado o artífice da única iniciativa que foi capaz de unir, nos últimos anos, todas as forças que lutam contra a ocupação israelense. Mohammad Dahlan foi o líder militar da Fatah na Faixa de Gaza (onde vive), até a expulsão do grupo pelo Hamas. Aos 47, é marcado por sua habilidade na guerra e postura hostil contra a facção rival. Não pode comparecer ao congresso, porque a corrente integrista bloqueou o deslocamento de 400 delegados da Fatah a Belém (eles puderam votar por meio de celulares e internet). No congresso, uma ala pediu sua expulsão do movimento, mas o clima de reunificação parece ter se sobreposto a isso.

Quase toda defenestrada, a velha guarda pagou o pato pela imagem de inoperância e alienação diante dos dramas dos palestinos comuns, que marcou a Fatah nos últimos anos. Durante o congresso, a presença de delegados que ostentavam ternos de grifes famosas, e se locomoviam em carros de luxo, causou mal-estar. Eles contrastavam com uma ampla maioria de membros provinientes de regiões sob ocupação israelense, obrigados a enfrentar violência, humilhações e miséria, submetidos ao risco permanente de assassinato. Os “exilados” — que vivem em outros países árabes — foram vistos, em especial, como um grupo mais apegado a valores ideológicos, e a sua própria posição de liderança, que aos dramas quotidianos dos palestinos. Mahmoud Abas, em particular, não será mais obrigado a viajar a Damasco ou Beirute para parlamentar com eles, antes de qualquer decisão importante da Fatah.

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A importância de respostas rápidas e pragmáticas acentuou-se com a eleição de Obama — o fato político de maior importância para as relações palestino-israelenses, nos últimos anos. Em diversos momentos, antes e após assumir a Casa Branca, o novo presidente dos EUA sugeriu que busca, no Oriente Médio, um alinhamento menos automático e incondicional com Telavive. Esta postura foi reforçada, nas últimas semanas, pela viagem simultânea de diversos assessores qualificados de Washington ao Oriente Médio. Além de dialogarem com autoridades israelenses, eles avistaram-se com dirigentes da Síria, Jordânia, Egito e com o próprio Abbas. Se Obama apresentar de fato um plano de paz “abrangente e multilateral”, para a região, como parece possível, Israel (que depende política e militarmente dos EUA) terá de negociar. A Fatah parece estar se preparando para esta hipótese.

Israel manteve, nos últimos dias, sua postura de evitar qualquer mudança no status quo. No fim-de-semana, o ministro da Defesa, Ehud Barak apegou-se a uma formalidade para se declarar “desapontado” com o congresso da Fatah. Referiu-se ao fato de o encontro ter preservado, na carta da organização, o dispositivo que defende o direito dos palestinos resistirem “por todos os meios” à ocupação de seu país. Outras autoridades israelenses chegaram a afirmar que, enquanto tal decisão perdurar, só se pode manter, com os palestinos, compromissos muito pontuais — nunca um acordo de longo prazo.

Pragmático, mas sem abrir mão de princípios, o congressso da Fatah parece uma resposta hábil a tal atitude. As atenções voltam-se, agora, para os Estados Unidos — certamente o país que mais contribuiu, nas últimas décadas, para a ocupação da Palestina e seus horrores. Terá Obama poder e vontade para uma volta por cima?

MAIS:

> Nosso clip (com textos da BBC, Al Jazeera, The Economist, Agência Xinhua, Palestine News Network, e New York Times).

> Na Biblioteca do Le Monde Diplomatique, artigos sobre Palestina, Israel e Oriente Médio.

> Na Wikipedia, verbetes sobre a Al Fatah (português, inglês), Mahmoud Abbas (português, inglês), Marwan Barghouti (inglês) e Mohammad Dahlan (inglês).

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras