A carcereira da pena de morte

A juíza-carcereira, a milionária Carolina Lebbos, leniente quando a causa envolve o universo dos ricos (dinheiro), decidiu que Lula merece uma pena ainda mais injusta e cruel que a de Moro e a dos outros juízes-ricos, os do TRF-4. Mesmo contra uma lei da ditadura militar, que garante o direito a visitas, ela proibiu-as, até mesmo a de um médico. Com isso, imagina cortar o ar que Lula respira: a trama de relações com as pessoas. Pretende condená-lo à morte.

Por Mauro Lopes

O Poder Judiciário, que um dia foi denominado Justiça, tornou-se no Brasil uma reserva de mercado para jovens filhos de famílias ricas. O mesmo aconteceu com o Ministério Público. Seus concursos são disputadíssimos e só filhinhos de mamãe e de papai que não precisam trabalhar podem dedicar tempo aos estudos. O fato de as vagas serem preenchidas por concurso pode dar a impressão de ser um Poder republicano –do que se vangloriam muitos juízes e juízas e membros do MP. Mas é fachada.

Juízes e membros do MP afirmam que tudo se resolve pela “competência”, pelo “mérito”; na verdade, tudo se resolve pela vida mansa garantia pelo dinheiro do papai e da mamãe. Quase todos entram nas carreiras no Judiciário e no MP já ricos e as cotas estabelecidas em 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estão longe de surtir efeito. Com o assalto que realizaram ao dinheiro que os pobres depositam nos cofres do Estado, enriquecem ainda mais, com salários acima dos R$ 30 mil mensais, sem contar o “empurrãozinho” da farra do auxílio moradia e do auxílio refeição que são na verdade um extra, uma gorjeta chique para todo mundo, garantindo quase R$ 5 mil a mais todo mês. Há caso de juízes que embolsam com alegria mais de R$ 40 mil, R$ 50 mil num mês –há casos de juízes que receberam mais de R$ 100 mil e até R$ 500 mil.

Uma vez ingressando nas carreiras, os jovens que pertencem às dinastias do Judiciário e do MP, que têm sobrenomes conhecidos nos corredores da ex-Justiça, têm garantido que vovô, vovó, papai, mamãe, titio, titia cuidem de arrumar-lhes rapidamente vaguinhas em tribunais superiores. E assim, la nave va.

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Igrejas na Síria confrontam EUA; Papa age pela paz; Rússia desmonta a farsa

Enquanto as igrejas cristãs na Síria condenam em tom enérgico os ataques da coalizão liderada pelos EUA ao país, o Papa atua pela paz e a Rússia desmonta de maneira cabal a farsa das “armas químicas”

Por Mauro Lopes

Num mundo submetido ao poder imperial do capitalismo em sua etapa mais brutal, tudo é guerra, luta, confronto ideológico. É assim no Brasil na campanha dos ricos contra Lula; assim é em escala global ao redor da guerra na Síria. Provavelmente você não ficou sabendo, porque as mídias controladas pela lógica do sistema esconderam, mas:

1) todas as igrejas cristãs na Síria condenaram de maneira veemente o ataque dos EUA, Inglaterra e França ao país, na noite de sexta-feira (13);

2) O Papa atua pela paz, em articulação com o  Patriarca Ortodoxo Russo Kirill; uma delegação  multirreligiosa síria chegou ao Vaticano no domingo para, nas palavra do líder da comitiva, Nasr Al Hariri, dialogar com “a autoridade moral mundial que pode nos ajudar”;

3) o governo russo apresentou provas irrefutáveis de que a versão ocidental sobre uso de armas químicas pelo governo sírio é falsa.

Patriarcas sírios e os franciscanos em Damasco

Numa declaração conjunta, os três patriarcas sírios afirmaram que “condenam e denunciam a agressão brutal que ocorreu esta manhã (no sábado) na Síria, nosso precioso país, pelos EUA, França e Reino Unido, alegando que o governo sírio usou armas químicas”. A declaração foi assinada por John X, Patriarca Grego-Ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente; Ignatius Aphrem II, Patriarca Ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente, e Joseph Absi, Patriarca Católico Greco-Melquita de Antioquia, Alexandria e Jerusalém, conforme reportagem de Inés San Martin veiculada no Crux. (a seguir, trechos da reportagem).

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Uma hora decisiva: confronto ou guerra de desgaste?

A sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, na manhã desta sexta (6)

Ao fim e ao cabo, há uma única hora decisiva da qual ninguém escapa, a morte. Antes dela, porém, a vida nos apresenta muitas horas decisivas. Esta é uma delas, depois do julgamento do STF, da decisão de Sérgio Moro de atropelar tudo e mandar prender Lula e da mobilização ao redor do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, o berço das greves de 1979, a casa de Luis Inácio, o nascedouro do PT. A hora é de confronto ou de partir para uma “guerra de desgaste”? Que forças tem o campo popular-democrático?

Por Mauro Lopes

É muito simbólico que Lula tenha ido para sua casa (o útero),  o Sindicato em São Bernardo do Campo, e que toda a mobilização de resistência à última e mais grave ofensiva do golpe depois da deposição de Dilma em 2016 tenha se dirigido na noite de ontem,  quinta (5). Caravanas partiram na noite-madrugada de diversas cidades do Estado de São Paulo e de outros estados para São Bernardo.

O que fazer agora?

Creio que a resposta está no quanto o simbólico representado pela concentração em São Bernardo do Campo corresponde neste momento ao fio da história viva da luta operária, sindical e popular do fim dos últimos 40 anos -de 1970 para cá.

Lula escolheu estar entre os seus. Não há ninguém que seja mais “de Lula” que os metalúrgicos do ABC. Pois bem. Eles irão mobilizar-se? Haverá greve ao menos nas fábricas mais icônicas do movimento operário que marcou o país -na Ford, GM, Volks?

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Ruralistas do Pará lançam ataque sem precedentes contra Igreja Católica

Padre Amaro e Dorothy Stang: quando a Igreja questiona os poderosos

A Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), entidade dos latifundiários e ruralistas do Pará lançou na tarde desta quinta (29), um ataque sem precedentes à Igreja Católica no Brasil. Em nota assinada por seu presidente, Carlos Fernandes Xavier, foram atacados de maneira violenta e difamatória: 1) a memória da freira Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários do Pará; 2) o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, um dos nomes mais respeitados da Igreja em todo o mundo; 3) o padre José Amaro Lopes da Silva, pároco de Santa Luzia em Anapu e preso vítima de uma armação dos mesmos ruralistas; 4) a Comissão Pastoral da Terra (CPT); 5) o desembargador Gercino José da Silva Filho, ex-Ouvidor Agrário Nacional e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, ligado à Igreja, chamando de “embusteiro”;  e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denominada na nota de “Sindicato dos Bispos”. Nem mesmo no período da ditadura militar a Igreja Católica sofreu um ataque tão virulento.

Por Mauro Lopes

A nota é vazada em termos tão grosseiros e ofensivos que, por si só, denuncia o caráter do ataque dos ruralistas e latifundiários do Para (leia a íntegra da nota ao final). Toda ela é “costurada” numa linguagem que evoca a Guerra Fria dos anos 1960/80. Padre Amaro é qualificado de “subversivo que se traveste de religioso”; a CNBB, o “Sindicato dos Bispos”, dominada por uma “ala esquerdista”, pretenderia “implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”.

O assassinato de Dorothy Stang com seis tiros em 2005, na mesma Anapu onde foi preso padre Amaro, teve intensa repercussão mundial e ela  hoje é considerada uma das muitas mulheres santas mártires no seguimento de Jesus, ainda que não tenha sido por enquanto beatificada pela Igreja Católica. Mas ela já integra o calendário de santos e santas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como “Mártir da Caridade na Amazônia”.  Para os latifundiários do Pará em sua nota, entretanto, a freira assassinada era “persona non grata em Anapu”, “incitava a violência”, ao lado de dom Erwin, e ambos seriam suspeitos de “tráfico de armas”.

O alvo maior dos ataques é o padre Amaro, preso na última terça (27), alvo de um amontoado de acusações, reunidas com o objetivo de “engrossar” o processo: “associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro”. A nota dos latifundiários do Pará, entretanto, acaba por explicitar a razão do ódio e perseguição ao religioso: desde 2015, a Faepa buscava a prisão do padre Amaro por ser ele “o maior incentivador dos conflitos fundiários existentes”.

Conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota divulgada no dia seguinte à prisão, trata-se de “é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira.”

Há uma razão oculta sob o volume da campanha de ódio dos latifundiários paraenses, que esteve na origem do assassinato de Dorothy Stang e agora da prisão de padre Amaro: um bilionário esquema fraudulento de que privatizou e devastou extensas áreas da Amazônia. O ódio devotado a irmão Dorothy e agora a padre Amaro deve-se à ação de ambos para exigir do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a retomada das terras públicas roubadas pelos latifundiários, com “a criação de assentamentos coletivos, com grandes áreas de florestas nativas, capaz de sustentar o manejo florestal comunitário e a produção agrícola de forma sustentável” -leia logo abaixo um esclarecedor artigo de Tarcísio Feitosa da Silva, da CPT, que desnuda toda a trama dos ruralistas.

Em meio à onda fascista que buscou amedrontar o país nos últimos 15 dias, os ruralistas, que estiveram à frente de várias agressões à caravana de Lula no sul do Brasil, atacaram agora no norte, de maneira brutal, a Igreja Católica e os que lutam contra o latifúndio no Pará.

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Leia a seguir o artigo de  Tarcísio Feitosa da Silva

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A cadela no cio do fascismo agora pariu: tempo de terror

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes. Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres. Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 25 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado. A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares. 

Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias. O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500. Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas. O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. 

Por Mauro Lopes 

12 de março

1. Assassinado com quatro tiros Paulo Sérgio Almeida Nascimento, de 47 anos, foi morto com quatro tiros. Um dos diretores da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) que desde 2017 lutava em Barcarena (PA) contra o desastre ambiental causado pela  empresa norueguesa Hydro. Seguidamente ameaçado de morte, teve pedidos de proteção negado pelo governo de Simão Jatene (PSDB).

2. Cinco indígenas Guarani foram presos  ao regressar de uma incursão numa ilha formada pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu, onde haviam ido cortar taquara, ou seja, o “bambu nativo”, para a confecção de artesanatos e construção de moradias. A ação ocorreu sobre um patrimônio privado, já que a área visitada pelos Guarani pertence oficialmente à Itaipu Binacional, mas foi retomada pela comunidade Guarani em janeiro de 2017, depois de 35 anos de expulsão. Na região de usina existiam ao menos 32 aldeias que desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu e o alagamento para formação do lago de Itaipu. Pelo menos nove dessas aldeias foram alagadas.

Ameaças ao padre Júlio Lancellotti

3. O Padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, divulgou pela primeira vez que vinha recebendo seguidas ameaças de morte pelas redes sociais. No dia 19, várias entidades exigiram providências do Ministério Público, mas nenhum responsável  pelas ameaças foi preso.

14 de março

4. A PM e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo agrediram brutalmente professoras, servidoras e servidores públicos que protestavam na Câmara de Vereadores contra projeto de lei de reforma da previdência municipal, apresentado pelo governo Doria. O projeto visava congelar salários e aumenta a contribuição previdenciária de 11% para 19%. Depois de greve e intensa mobilização de milhares de servidoras e servidores, o projeto foi derrotado, em 27 de março.

Os tiros que mataram Marielle

5. A vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram executados no Rio de Janeiro, num crime que causou indignação mundial grandes manifestações de  protesto em todo o país. Apesar de todos os indícios apontarem para as milícias que, compostas por policiais e ex-policiais, controlam várias regiões do Rio, as investigação não havia resultado em nada.

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Na perseguição a Lancellotti, o desejo de esmagar os pobres

Padre Júlio Lancellotti, responsável pela Pastoral do Povo da Rua em São Paulo, tem sofrido seguidas ameaças de morte nas últimas semanas. A perseguição a Lancellotti é uma faceta do desejo de descartar e esmagar os mais pobres, o “lixo” da sociedade para as elites. Qual a razão disso? Pode parecer paradoxal, mas é medo. Pois os pobres não carregam apenas suas dores. Carregam as de toda a sociedade. Mas não podemos olhar para elas. Precisamos ganhar o dia, sonhar com a ilusão da riqueza, matar nossa humanidade para subir na vida, negar nossas angústias e apagar qualquer traço de solidariedade que nos torne próximos do pobre. Devemos a todo custo liquidar  com o terror, ou seja, a possibilidade desesperadora de nos tornarmos pobres. Para afastar este medo-pânico é necessário esmagar aqueles e aquelas que nos denunciam essa possibilidade. E os que os defendem.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (25) haverá uma manifestação de solidariedade e em defesa do padre Júlio Lancellotti. Será às 9h da manhã, na Igreja São MIguel Arcanjo, no bairro do Belém, em São Paulo -Lancellotti é pároco lá. Se você quiser saber de mais detalhes do evento, clique  aqui.

Júlio Lancellotti foi ordenado sacerdote em 1985, pelas mãos de um dos maiores líderes da Igreja no Brasil, dom Luciano Mendes de Almeida. Fez-se padre no seguimento de dom Luciano e de dom Paulo Evaristo Arns. Desde sempre esteve com os últimos da sociedade. Foi um dos fundadores da Pastoral do Menor em São Paulo.

No início dos anos 1990, padre Júlio tomou tomou uma atitude que traçou uma identidade indelével entre ele e São Francisco de Assis. Era o auge da crise da AIDS, vista por parte da sociedade como uma “peste” e, por um segmento, como uma “peste gay”. Na Febem, os bebês e crianças com Aids -exatamente os mais frágeis-  não eram tratados pelos profissionais, com pavor de se contaminarem pelo vírus. Eram deixados de lado, sem banho, sem colo, sem nada. Lancellotti resgatou os bebês e crianças e fundou a Casa Vida I e depois a Casa Vida II, perto de sua paróquia.  Elas passaram a ser cuidadas. Muitas morreram -mas muitas sobreviveram à doença e hoje são adultos e adultas. Como São Francisco no abraço aos leprosos, Júlio Lancellotti abraçou os bebês aidéticos.

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Telefonema do Papa à família de Marielle foi articulado na Argentina

Dona Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, revelou na missa de sétimo dia da filha que a família recebeu um telefonema de solidariedade do Papa. A iniciativa de Francisco foi resultado de uma articulação acontecida na Argentina, sem qualquer participação da Arquidiocese do Rio ou da CNBB.

Por Mauro Lopes

A mãe de Marielle Franco, Marinete da Silva, falou aos presentes à missa de sétimo dia celebrada ontem (20) na Igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio – a missa foi transferida da Maré para que todos pudessem em seguida participar do ato/culto ecumênico na Cinelândia.  Ao final da celebração, o sacerdote convidou a família a se pronunciar, caso desejasse. Dona Marinete agradeceu o carinho recebido e informou então que o Papa Francisco havia telefonado.

A última foto que Marielle mandou para a irmã, Anielle

A família de Marielle é católica. Sua mãe é devota de Nossa Senhora Aparecida e foi ministra da Eucaristia na Maré. A última foto que Anielle recebeu de sua irmã, ainda viva, horas antes do assassinato, foi das duas diante de um altar em uma igreja no Rio. Marielle foi catequista e ativa participante da Pastoral da Juventude ainda adolescente. Depois, afastou-se da Igreja Católica que vive, no Rio, um clima quase irrespirável de conservadorismo e censuras e condenações e falso rigorismo moral.

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Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça

Franciscanos e franciscanas reunidos em Belo Horizonte

Mais de 300 integrantes da Juventude Franciscana (Jufra) e da Ordem Franciscana Secular de Minas Gerais reafirmaram o protagonismo dos franciscanos e aprovaram, em encontro realizado em Belo Horizonte no último fim de semana uma Carta denunciando os retrocessos no país, que atingem “as populações das periferias, sem-terra e sem-teto, pobres, principalmente mulheres, jovens, população negra, indígenas, LGBT’s”.

No texto, a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes é comparada a assassinatos  “como nossa Irmã Dorothy e tantos outros mártires representantes da Igreja e de movimentos populares.”

Os franciscanos e franciscanas terminam reafirmando seu compromisso com a vocação original do cristianismo: “Somos inspirados em Jesus Cristo, que foi perseguido e assassinado na cruz por lutar por um mundo novo. Temos o exemplo de Clara e Francisco, perseguidos e injustiçados por seguirem os ensinamentos de Cristo.”

Leia a íntegra da Carta:

CARTA DE BELO HORIZONTE

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5,6)

A Ordem Franciscana Secular e a Juventude Franciscana – Jufra – de Minas Gerais, reunidos em mais de 300 participantes no primeiro Encontro Regional de formação, no Colégio Sagrada Família das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, em Belo Horizonte nos dias 16 a 18 de Março de 2018, demonstram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país. Continue lendo “Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça”

Franciscanos e padres periféricos protagonizam missas e cultos ecumênicos de 7º dia de Marielle e Anderson

Missa de sétimo dia em celebração da vida de Marielle e Anderson será na próxima terça (20) às 12h na Igreja de São Francisco no centro de São Paulo, lugar histórico dos franciscanos –devem ocorrer missas em Igrejas espalhadas pelo país. Padre Júlio Lancellotti e IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento) em São Paulo e os padres periféricos e perseguidos pela Arquidiocese do Rio assumem protagonismo. Haverá orações e cultos ecumênicos campais no fim da tarde de terça no vão do MASP (SP) e na Cinelândia (Rio) -o franciscano Leonardo Boff estará lá. Jornal do Vaticano fez enfática defesa de Marielle, enquanto CNBB continua calada e Arquidiocese do Rio tergiversa e permite que padres ao redor de dom Orani Tempesta ataquem a memória da líder assassinada.

Por Mauro Lopes

No vazio aberto pela ausência da CNBB e pela distância fria dos cardeais das duas maiores arquidioceses do país (São Paulo e Rio), a Ordem dos Frades Menores, conhecida como Ordem dos Franciscanos, ao lado de padres periféricos, assumiu o protagonismo histórico da Igreja Católica no Brasil num momento especialmente trágico, com a intervenção federal/militar no Rio e as execuções de Marielle Franco e Anderson .

Está marcada para a próxima terça-feira (20), às 12h, uma missa de sétimo dia para celebrar a vida de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes. Foi marcada pela Província Franciscana da Imaculada Conceição, que reúne em torno de si centenas de homens e mulheres, ordenados ou leigos (e leigas), nos Estados de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. Será presidida pelo líder máximo da província, frei Fidêncio Vanboemmel, e concelebrada por dezenas de sacerdotes franciscanos e padres de outras ordens, congregações e paróquias. Será, talvez, a celebração mais relevante da Igreja em São Paulo em décadas.

Um dos articuladores da missa é padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo e discípulo de dom Luciano Mendes de Almeida e de dom Paulo Evaristo Arns e uma referência fundamenta da Igreja “em saída” propugnada pelo Papa Francisco. Padre Júlio é perseguido cotidianamente pelo poder econômico e político de São Paulo, assim como pelos integristas católicos –nas últimas semanas sofreu ameaças de morte pelas redes sociais. “O momento é grave, os ataques aos direitos dos mais frágeis não param e, se a Igreja precisa estar com os menores todo o tempo, ainda mais nesta hora”, disse padre Júlio ao Caminho Pra Casa. Frei Fidêncio afirmou ao blog que é hora de afrontar o medo: “É um momento em que nós pastores devemos ser proféticos e deixar o medo de lado”.

Além da missa, haverá em São Paulo uma oração ecumênica de sétimo dia na abertura de uma manifestação no vão do MASP às 17h de terça. Lá estarão, entre outros:  o padre Paulo Sérgio Bezerra, um dos líderes do IPMD (Igreja Povo de Deus em Movimento)e pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças, na zona leste de São Paulo; há anos perseguido, caluniado e ameaçado por grupos de católicos integristas; o padre  Antônio Naves, da Comissão Pastoral da Terra; Walmir Damasceno, sacerdote de Tradição Bantu; e o pastor  Fábio Bezerril Cardoso, da CCPV (Comunidade Cristã Palavra e Vida).

Padre Bezerra cita a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) que, lançada em novembro de 2013, foi como um programa de governo do Papa Francisco, dizendo que ela “deveria animar a Igreja no Brasil”. “O Papa escreveu assim: ‘prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças’ (EG 49). É terrível, mas chega a ter dimensão de cumplicidade diplomática o silêncio e a omissão dos bispos de SP e RJ que, como cardeais, devem dar até o sangue pelo seu povo, e não se manifestaram explicitamente contra a barbaridade do assassinato político de Marielle Franco. A evidência do fato desbanca o silêncio diplomático ou a ambiguidade das palavras subentendidas. Por outro lado, a voz do povo é mais corajosa que a dos seus pastores. Aí o descompasso é evidente e progressivo.”

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A segunda morte de Marielle

Os conservadores e fundamentalistas, não contentes com a execução de Marielle Franco, querem matá-la pela segunda vez, condenando-a por ser mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista e homoafetiva

Um artigo do teólogo César Kuzma*

Há um sistema que mata! Mas há um fundamentalismo e conservadorismo (político e religioso) que insistem em matar ainda mais, mesmo depois, tem que sangrar. Incrível!

Há limite para o ódio? Chega a ser assustador.

Interessante como alguns rótulos colocados tentam definir e marcar as pessoas. Não se vê mais nada além, são respostas impostas de fora, taxativas e preconceituosas. Triste! Absurdo!

Enquanto alguns choram a morte de Marielle, sendo ela simbólica pela forma como aconteceu e por ser ela a pessoa que era (pela história, vida e opções que a precederam), outros, sem compaixão, ou com um pseudo-autoritarismo, até cristão, dizem: mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista, defensora dos DH, lésbica…. Ofensas que matam! De novo! E outra vez!

Estes jargões atirados são na verdade causas de luta e protesto contra uma sociedade que “mata” mulheres, negando e abusando de seus direitos, ainda mais se forem negras e pobres, quanto mais vindas de comunidades carentes que denunciam qualquer “bom costume” perante a violência e injustiça que são submetidas diariamente. Para ter e ser voz tem que lutar, tem que sair sem abandonar a casa e a causa, sem negar a si mesma, na sua condição de mulher. Negra mulher, preta na cor.

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