Três textos para entender o agora, pensar o amanhã e projetar um novo mundo

Grafite em rua de Santiago, Chile

Há uma velocidade alucinante que desnorteia. O que exatamente está acontecendo agora? Como chegamos aqui? Para onde vamos? Como resistir ao golpe? É possível derrotar e derrubar o governo dos ricos? Qual o programa para enfrentar a crise que se abate sobre o país? E qual o projeto para a (r)evolução que derrote a torrente de ódio, o governo brutal dos ricos, a lógica da morte e da imposição da dor e da miséria que orienta os poderosos em todo o mundo? Qual o território da utopia?

Separei três textos que, creio, podem ajudar a orientar nessa hora de desesperança e resistência, pensando numa dinâmica do agora-já, no programa para superar o governo dos ricos no país e na recuperação da utopia da revolução planetária que instale um tempo de paz e vida em abundância.

Vale ler cada um deles com cuidado.

 

O AGORA – duas avaliações sobre a situação do país e os desdobramentos imediatos possíveis.

Leia com vagar a reportagem sobre as palestras-debate entre João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que aconteceu na sexta-feira (12) à noite em PortoAlgre, num encontro promovido pela Associação Juízes para a Democracia (AJD). A íntegra está aqui e foi publicada originalmente no Sul21

Stédile e Boulos no debate em Porto Alegre

Os dois líderes apresentaram uma caracterização sobre a natureza das crises econômicas e política, identificando os seus protagonistas e setores sociais envolvidos. E desenharam cenários possíveis e hipóteses acerca do desdobramento dessas crises, apontando os desafios que o campo de esquerda e democrático tem hoje para evitar um gigantesco retrocesso que pode mergulhar o Brasil em um ambiente de convulsão social e de maior fechamento político que poderá levar décadas para ser revertido.

 

UM PROGRAMA PARA A CRISE – o economista José Luís Fevereiro apresentou um primeiro esboço de um programa para a esquerda em 2018 –o artigo foi publicado originalmente na revista Socialismo e Liberdade, do PSOL, e você pode ler aqui, às páginas 8-11.

Não é um texto muito extenso e nem para iniciados –eu, que não sou economista, consegui entender e apreender a complexidade do desafio à frente. “De uma forma geral o programa da esquerda para 2018 deve reafirmar a necessidade de um Estado nacional capaz de garantir a universalização de direitos, de assegurar transferências de renda das camadas mais ricas para as parcelas da população mais pobres, garantir condições de crescimento econômico com significativa melhoria nos índices de distribuição de renda”, escreveu Fevereiro, à guisa de introdução. A seguir, detalhou como implementar o programa, com propostas articuladas para uma reforma tributária, controle dos juros e do câmbio e redesenho do papel dos bancos públicos. É claro que um programa de governo é muito mais que isso, mas Fevereiro apresentar linhas mestras para a política econômica alternativa ao programa do golpe e à política implementada no segundo governo Dilma.

 

RECUPERAR A UTOPIA – o sociólogo e filósofo Michael Lowy,  numa entrevista antológica, apresenta caminho do ecossocialismo como aquele que poderá recuperar a utopia, deixando para trás as experiências traumáticas do socialismo de Estado  e mudando de maneira radical a maneira de enxergar a economia, as relações entre as pessoas e delas com o planeta. Leia aqui, publicado no Outras Palavras. É um movimento necessário para avançar sobre o olhar fixado no hoje-agora conjuntural e dar um norte aos que desejam um novo mundo –a entrevista de Lowi guarda íntima relação com a encíclica Laudato Sii, Sobre o Cuidado da Casa Comum, do Papa Francisco, um documento crucial para entender a agonia planetária causada pelo capitalismo e meditar sobre sua superação.

Michel Lowy

Alguns trechos da entrevista:

“O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, brincar, amar. Para tanto, Marx proporciona as armas para uma crítica radical do produtivismo e, particularmente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as forças do trabalhador, como também as próprias forças da terra, esgotando as riquezas naturais. Assim, essa perspectiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx. No entanto, não foi suficientemente desenvolvida.

(…)

Mas não basta transformar o aparato produtivo e os modelos de propriedade, é necessário transformar também o padrão de consumo, todo o modo de vida em torno do consumo, que é o padrão de capitalismo baseado na produção maciça de objetos artificiais, inúteis e perigosos. Por isso trata-se de criar um novo modo de consumo e um novo modo de vida, baseado na satisfação das verdadeiras necessidades sociais, algo completamente diferente das supostas e falsas necessidades produzidas artificialmente pela publicidade capitalista. Dele se depreende pensar a revolução ecossocialista como uma revolução da vida cotidiana, como uma revolução pela abolição da cultura do dinheiro e da mercadoria imposta pelo capitalismo.

O ecossocialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização da solidariedade – no sentido profundo da palavra, solidariedade entre os humanos, mas também com a natureza –, é também uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora. Não se trata de esperar até o dia em que o mundo se transforme, mas de começar desde já, agora, a lutar por esses objetivos. Trata-se de promover a convergência, a articulação entre lutas sociais e lutas ecológicas, as quais têm o mesmo inimigo: o sistema capitalista, as classes dominantes, o neoliberalismo, as multinacionais, o FMI, a OMC. Os indígenas da América Latina, desde as comunidades andinas do Peru até as montanhas de Chiapas, estão na primeira linha de combate em defesa da Mãe Terra, da Pachamama, contra o sistema.

(…)

Não há nenhum mecanismo automático que leve a um colapso capitalista. Haverá crises terríveis, mas o sistema encontrará alguma saída, em forma de guerras, ditaduras, movimentos fascistas etc. Assim foi nos anos 1930 e assim pode ocorrer no futuro. Como dizia Walter Benjamin: ‘o capitalismo nunca vai morrer de morte natural’. Se queremos por um fim no sistema capitalista, isso só será possível por um processo revolucionário, uma ação histórica coletiva anticapitalista. O capitalismo só desaparecerá quando suas vítimas se levantarem contra ele e o eliminarem.”

 

Boas leituras para iluminar o caminho!

[por Mauro Lopes]