Nas missas, proclama-se a divisão do pão e do peixe; mas a Igreja escuta cada vez menos

Foto de João Zinclar

A mais explícita indicação da consequência do amor proclamado por Jesus é repetida por seis vezes nos Evangelhos: a  partilha do pão e do peixe. Isso não acontece com nada mais nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. As primeiras comunidades cristãs assumiram essa mensagem e praticaram um tipo de comunismo primitivo. Uma dessas  narrativas foi proclamada nas missas deste domingo (29); mas a Igreja quase não escuta mais

Por Mauro Lopes

Não há nada parecido nos Evangelhos: apenas a passagem da divisão dos pães e dos peixes é narrada seis vezes, sendo duas vezes em Mateus e Marcos. Neste 17º Domingo do Tempo Comum, ouviu-se nas missas na Igreja Católica e de algumas outras denominações o mais longo dos relatos, do Evangelho de João (leia ao final ou aqui).

É a expressão mais concretizada da mensagem central de Jesus: o amor só se realiza na partilha, no movimento que realizamos na direção do outro, da outra. Não há cristianismo quando vige a insensibilidade diante da miséria e da fome, das doenças que as acompanham, da opressão e humilhação dos mais pobres.

As primeira comunidades cristãs entenderam isso de maneira radical (indo à raiz) e, no relato dos primeiros dias, os Atos dos Apóstolos, por duas vezes está descrito como a mensagem de Jesus foi entendida, numa espécie de comunismo primitivo:

“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (Atos 2, 44-45)

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade.” (Atos 4, 32-35)

Este comunismo primitivo foi brilhantemente anotado num pequeno livro de Rosa Luxemburgo, de 1905: O socialismo e as igrejas – o comunismo dos primeiros cristãos (Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1986).

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Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres

Padre Julio Lancellotti chamou-me a atenção para este texto do excepcional Andrea Grillo, um do teólogos de vanguarda desta primeira metade do século 21. O artigo, ao fazer a crítica de um livro recém-lançado sobre a trajetória intelectual de Francisco, é uma vacina poderosa contra as tentativas de pasteurização e aburguesamento de sua imagem. Há três Papas na praça, apenas um deles é de fato Francisco: o Papa dos Pobres. Episódios recentes das homilias de Francisco contra os golpes e as mídias conservadoras e sobretudo o caso do “terço do Papa” ilustram bem as diferentes projeções da figura de Bergoglio.

Por Mauro Lopes, breve introdução ao texto de Andrea Grillo.

Temos hoje três projeções da figura do Papa Francisco disseminadas mundo adentro, no cristianismo e fora dele. São elas, resumidamente:

1.  O Papa dos Pobres, que recupera a originalidade do cristianismo, o espírito do Vaticano II, que combate a herança desastrosa e conservadora de Wojtyla e Ratzinger e alinha a Igreja aos deserdados, ao degradados, aos perseguidos e injustiçados à turma de Jesus. Recupera o Pacto das Catacumbas que reuniu bispos e padres num compromisso à margem do Vaticano II, de uma Igreja pobre com os pobres. Assim leem o Papa os cristãos vinculados à teologia latino-americana, à teologia liberal norte-americana e europeia e à teologia do ecumenismo e do pluralismo religioso da Ásia, todos perseguidos nos 35 anos anteriores a Francisco.

2. O Papa esquerdista, tirano, com tendências comunistas, amigo dos “vermelhos”, traidor da tradição e da “pureza” da Igreja (na verdade, da Igreja medieval e do projeto restauracionista dos dois papas que o antecederam). Assim enxergam Francisco os tradicionalistas radicais, a direita da Igreja, que desejam uma religião de ritos tridentinos e dupla moral, cujo maior exemplo é a Igreja do Chile. São liderados pelos católicos extremistas dos EUA e Europa e no Brasil têm uma rede de apoio.

3. O Papa “meio a meio”, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, na verdade um continuador de João `Paulo II e Bento XVI, que é moderado, em cima do muro, que dá uma no cravo e outra na ferradura. Um papa “tucano” (isso antes de os tucanos se tornarem adeptos de golpes de Estado). Disseminam esta imagem os “moderados”, cuja representação mais vistosa é a atual direção da CNBB. É a turma do “deixa disso”. Além deles, apropriam-se desta imagem  e os tradicionalistas “espertos”, que querem ir “cozinhando” Francisco até sua morte e a eleição de (esperam) um continuador de João Paulo II e Bento XVI, os “papas de verdade”. Esta turma engole Francisco em público, faz festa nos temas morais em que Francisco busca alguma composição, distribuem “fake news” todo o tempo, inventando um Papa que nunca existiu.

Vimos essa “disputa” em torno da imagem do Papa nos episódios das homilias recentes de Francisco contra as ditaduras e os golpes de Estado patrocinados pelas mídias conservadoras e, sobretudo, no caso do envio do argentino Juan Grabois a Lula na cadeia, em Curitiba -a visita foi vetada pela PF e ficou conhecida pelo terço que Francisco abençoou e mandou ao ex-presidente.

Foram duas homilias, ambas em celebrações na capela Santa Marta, no Vaticano, onde preside as missas sempre que está em Roma. Em nenhuma delas o Papa citou Lula ou o Brasil (ou sua Argentina), mas é evidente a menção:

Na primeira, em 17 de maio, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado” (aqui).

Na segunda, ontem (18), um mês depois, Francisco voltou a descrever a situação brasileira à perfeição, sem mencionar o país: “Se concede todo o aparato da comunicação a uma empresa, a uma sociedade que faz calúnia, diz falsidades, enfraquece a vida democrática. Depois vêm os juízes a julgar essas instituições enfraquecidas, essas pessoas destruídas, condenam e assim vai avante uma ditadura. As ditaduras, todas, começaram assim, adulterando a comunicação, para colocar a comunicação nas mãos de uma pessoa sem escrúpulo, de um governo sem escrúpulo” (aqui).

O caso de Juan Grabois ficou bem conhecido no Brasil, com enorme repercussão. O argentino, coordenador dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares ao lado do cardeal Peter Turkson e consultor do Vaticano, é um dos braços direitos de Francisco, que o enviou até Curitiba, com uma mensagem e um terço (toda a história está aqui).

Nos episódios das homilias e do terço, as três visões sobre Francisco moldaram a reação dos agrupamentos de católicos e dos protagonistas na sociedade. Os que consideram Francisco o Papa dos Pobres alegraram-se com as homilias e o envio de Juan Grabois e cuidaram de divulgá-las ao máximo, com apoio entusiasmado ao Papa; os que consideram Francisco um Papa esquerdista consideraram as homilias “políticas” e tentaram desmoralizar a iniciativa da visita da Lula considerando as notícias sobre o fato como “fake news”; os que  projetam Francisco como um Papa “meio a meio” silenciaram, não se referiram às homilias ou à visita, o que tem sido recorrente -é o caso, por exemplo, da CNBB. No caso dos grupos do catolicismo de direita e moderado, há um aspecto relevante em sua postura: Francisco, como o mais carismático Papa da história, foge a todos os padrões do monarca que obedece às normas e regras rígidas da instituição; Bergoglio passa por fora da estrutura eclesial e age diretamente na relação com seu rebanho, utilizando até um argentino com jeito de motoqueiro em vez de monsenhores sisudos e fantasiados de solenidade.

O artigo de Andrea Grillo, escrito originalmente em seu blog Come Se Non (aqui, em italiano) foi traduzido por Moisés Sbardelotto e publicado em português no fantástico IHU, dos jesuítas do Rio Grande do Sul. A íntegra segue abaixo.

O texto é uma resenha crítica do livro de Massimo Borghesi,  Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018), que está mobilizando grande atenção nos meios intelectuais católicos e cristãos em geral. Como explica Grillo no início, o artigo é iluminado por sua experiência no  Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” que polarizou teólogos e pensadores cristáos de todo o mundo entre 21 e 24 de maio de 2018 no campus da Unisinos, em Porto Alegre.

O artigo de Grillo tem o título de “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”. É imperdível.

Segue a íntegra:

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Os leigos da pequena Osorno são os líderes da Igreja neste momento

Protesto de leigas e leigos em Osorno contra nomeação do bispo Juan Barros

Esculpida a mão por João Paulo II, a Igreja chilena encontra-se em estado terminal. Os corajosos leigos e leigas da pequenina Osorno são os grandes líderes do catolicismo no atual momento. Eles ousaram dizer NÃO ao clericalismo e à “cultura do Templo”. Para a hierarquia católica, os leigos e leigas são pessoas desprezíveis, incômodas, um estorvo. Mas Jesus era leigo, como seus discípulos e o maior santo da história, Francisco. Uma reflexão apresentada à comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (10) tive a enorme alegria de ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, para participar de uma das sete celebrações eucarísticas o redor do 90 anos da paróquia. Foi um convite amigo do pároco, padre Paulo Sérgio Bezerra, das lideranças comunitárias do grupo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM). Participei da missa e, logo depois da saudação inicial, apresentei à assembleia uma reflexão sobre o tema dos leigos e leigas na Igreja hoje.

A seguir, a íntegra do que falei lá:

Caros irmãos e irmãs, paz.

Estou aqui hoje com a missão de apresentar a vocês uma reflexão sobre a questão dos leigos e leigas na Igreja nos dias de hoje.

Começo com uma notícia estrondos: o Mestre de vocês era leigo.

Os discípulos do Mestre, seus primeiros seguidores, eram todos leigos.

O maior santo da Igreja, que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e mesmo do cristianismo, São Francisco, era leigo.

Quando Maria Madalena encontrou Jesus no momento crucial da ressurreição, em João, como ela saudou-o? Não o foi como Vossa Santidade, Papa, eminente cardeal, ou, mais apropriadamente, como convém a um católico obediente, Vossa Eminência Reverendíssima, dom Jesus, senhor bispo ou simplesmente padre ou Vossa Reverendíssima. Nem o chamou, como eram expressões correntes à época de grande rabino ou ilustre mestre da lei ou sacerdote afamado.

Nada disso. Saudou-o, entre surpreendida, alegre e assustada, o que índica extrema espontaneidade, de Rabuni! O que quer dizer mestre, grande mestre ou ainda mais própria e intimamente, meu mestre, meu grande mestre.

Jesus sentava-se para conversar com seus amigos em roda. Ceava com eles em roda. Não havia um lugar mais elevado ou um trono reservado a ele para partilharem pão e vinho.

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CNBB: quando a diplomacia não combina com a profecia e o Evangelho

Dom Sérgio da Rocha, presidente da CNBB

Padre Luis Miguel Modino avalia as duas notas lançadas nesta quinta-feira (19) pela CNBB para marcar o encerramento de sua 56ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP). Falta profetismo e Evangelho à entidade dos bispos brasileiros; sobram diplomacia e silêncios cúmplices

Por padre Luis Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira*

Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho.

O episcopado brasileiro publicou neste 19 de abril duas notas nas quais pretende apresentar sua postura diante do momento sócio-político que o país atravessa e das eleições que devem acontecer em outubro. Os textos são resultado dos debates levados a cabo na 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu de 11 de abril até hoje (20) os prelados do país.

Eram pronunciamentos esperados, mas em muitos deixaram um gosto agridoce, com palavras temperadas que tentam agradar a todos, mas que acabam produzindo o efeito oposto.

Na primeira nota, sob o título de “Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Povo de Deus” (veja a íntegra no final), a CNBB começa defendendo-se dos ataques sofridos nas redes sociais, dos quais participam grupos conservadores e reacionários, com o apoio mais ou menos explícito de padres, alguns com grande popularidade, sem qualquer  atitude concreta por parte dos bispos dos quais dependem canonicamente. São estes os mesmos grupos nos quais confluem interesses políticos, econômicos e religiosos, que perseguem os bispos e a CNBB.

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Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.” Continue lendo “Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora”

Os projetos em disputa: uma Igreja em saída ou a Igreja-empresa

O Papa e a Cúria romana: dois projetos de Igreja em disputa

O padre Eduardo Hoornaert, um dos maiores historiadores da Igreja, escreve um artigo exemplar sobre os dois projetos de Igreja em disputa neste momento: o da “Igreja em saída”, do Papa Francisco, a partir do Concílio Vaticano II, e o da “Igreja-empresa”, levado ao auge nos séculos XII e XIII, alicerçado numa estrutura de controle e terror, a Inquisição.

“O Papa Francisco sabe o que está dizendo e é exatamente isso o que o faz encontrar  oposição em certos setores da igreja”, escreve o padre Hoornaert. Houve luta contra o projeto dominante de Igreja, como o registra a “história fraca” do cristianismo, dos franciscanos aos valdenses até João XXIII. Ela só aflorou com força em 1968, na América Latina, na Conferência de Medellín, que assumiu a escolha de uma Igreja pobre de pobres –conforme a expressão do “papa bom”, João XXIII.

Casado, o padre Hoonaert vive a mesma situação de mais 100 mil padres ao redor do mundo:  nunca abandonaram a Igreja. Eles representam 25% do total de sacerdotes no mundo, ao redor de 400 mil. No Brasil, aproximam-se de 1/3 do total de sacerdotes: 5 mil em 18 mil. Esses números não incluem os padres que são casados informalmente ou mantêm atividade sexual regular de maneira mais ou menos clandestina.

Belga de nascimento, aos 77 anos o padre Hoonaert tem uma trajetória impressionante na Igreja. Chegou ao Brasil em 1958 e aqui ficou. Foi professor nos históricos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991), todos fechados pelo inverno conservador sob o Papa João Paulo II. Foi um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), sendo seu  coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto História do Cristianismo e é coordenador do projeto História do Cristianismo no 3º Mundo, que publicou em 1995 o livro O Movimento de Jesus (Vozes). É requisitado em todo o país como assessor das Comunidades Eclesiais de Base , as CEB’s.

Autor de vários artigos e livros sobre História do Cristianismo Antigo, História da Igreja e História da Igreja na América Latina e no Brasil. Alguns deles: Formação do Catolicismo Brasileiro – 1550 – 1800 (Vozes, 1978), A Memoria do Povo Cristão (Zahar, 1986), O Cristianismo Moreno do Brasil (Vozes, 1990), Origens do Cristianismo (Paulus, 2016) e Em busca de Jesus de Nazaré – uma análise literária (Paulus, 2017).

Leia o brilhante artigo do padre Hoonaert (publicado originalmente em seu blog e depois em Ameríndia):

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Bispos retomam tradição da Igreja brasileira e saem em defesa do Rio São Francisco

Dez dos onze bispos do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco

Será lançada neste Primeiro Domingo do Advento (3) a Carta da Lapa, fruto do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco, reivindicando uma moratória de 10 anos para a região do cerrado e um Repouso Sabático para os principais biomas brasileiros. O texto é assinado por 11 dos 16 bispos das dioceses da Igreja Católica banhadas pelo rio. Firmado “em comunhão com o Papa Francisco e inspirados pela carta encíclica Laudato Sí”, denuncia a crise do rio por seu uso e de seus afluentes a serviço dos interesses econômicos dos ricos.

A principal decisão do encontro foi a “defesa do Repouso Sabático para os nossos biomas a fim de que possam se reconstituir. Particularmente, uma moratória para o Cerrado, por um período de dez anos. Durante esse período não seria permitido nenhum projeto que desmate mais ainda o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, biomas que alimentam o Rio São Francisco e dele também se alimentam.”

O texto (veja a íntegra a seguir) é mais um expressivo símbolo da renovação da Igreja no Brasil, à luz da primavera de Francisco, e a retomada do espírito atualizado da Teologia da Libertação, depois dos quase 40 anos de perseguições.  Em sua carta, os bispos qualificam, à luz da primavera de Francisco, qual Igreja reapresenta-se à sociedade: “Igreja em saída”, “Igreja missionária”, “Igreja Profética”, “Igreja solidária”.

O encontro aconteceu nos dias dias 21 e 22 de novembro, no Centro de Treinamento de Lideres (CTL), em Bom Jesus da Lapa, o Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do São Francisco, como resultado da recente Assembleia do Regional Nordeste III da CNBB. O local  foi escolhido  pela influência do Santuário do Bom Jesus da Lapa, que fica às margens do Rio São Francisco, e reúne todos os anos milhares de romeiros, grande parte deles ribeirinhos que vivem e dependem das águas do rio da integração nacional (ao lado foto de uma das missas celebradas durante o encontro, na capela do Santuário). Participaram bispos da Bahia, Pernambuco, Sergipe e de Minas Gerais -veja a lista ao final.

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Kuzma e o Ano do Laicato: Igreja continua de portas fechadas

‘Sem a ação dos leigos não há uma ação de Igreja em saída’

Uma entrevista especial com o teólogo César Kuzma na abertura do Ano Nacional do Laicato instituído pela CNBB, que foi aberto neste domingo (25), na solenidade de Cristo Rei que marca no novo Ano Litúrgico da Igreja Católica (no ciclo trienal litúrgico dos católicos, começa agora do Ano B, centralizado pela leitura do Evangelho de Marcos na Liturgia da Palavra dominical).

Ele foi contundente e realista: “os leigos devem se afastar deste modelo estrutural e buscar novos caminhos, novas maneiras de viver a fé, dentro do chamado que é próprio da sua vocação, que é o mundo secular e as grandes causas da humanidade. Aqui está a vocação e a missão dos leigos! Ali devem ser sal e luz. Sujeitos da história. É onde os leigos, como Igreja que são, podem oferecer o seu testemunho e o seu serviço concreto. Observo que as ações de Francisco também vão por aí.”

Em linha com o Papa, ele afirma que “o clericalismo é uma doença que impede a Igreja de ser serviço e, com isso, inibe as demais vocações, sobretudo os leigos, de assumirem o seu papel, a sua missão dentro do corpo eclesial, e também na sociedade. O clericalismo traz e vive de uma imagem de Igreja que se quer garantir por si mesma, sem abertura ao novo e que busca sempre o poder, que quer estar acima, que vive ‘à parte’ e agarra-se nas estruturas, na dureza das tradições, no enrijecimento da doutrina, na dominação de uma letra sem espírito e num autoritarismo eclesiástico/hierárquico doente.”

No momento em que Francisco abre a Igreja, os resultados dos anos de domínio conservador estão à vista: “o clero mais jovem, que se satisfaz em formalismos, panos e paramentos riquíssimos (até medievais) e em ritos antigos, carregados na rigidez, ou camuflados de aspectos modernos, em alguns casos, mas muito distante da simplicidade do Evangelho, o que é lamentável. Seja pela linguagem ou pela vestimenta, cria-se uma estrutura que decide por caminhar separada do mundo, distante dos problemas e com a sustentação de um ar superior.”

A Igreja continua impermeável aos leigos, segundo o teólogo: “Em uma carta ao Cardeal Marc Ouellet, em 2016, o Papa Francisco recorda que desde o Concílio se falou muito sobre a ‘hora dos leigos’, mas para o Papa esta hora está tardando a chegar. Para Francisco, e aqui nós nos somamos a ele, as causas são várias, mas a passividade tem sim certa culpa do próprio laicato, é um fato, mas também das estruturas, que não formam e não permitem um espaço favorável, onde leigos e leigas possam exercer criticamente e com maturidade a sua vocação.”

O caminho é retomar a originalidade do cristianismo: “Se na resposta da Igreja antiga precisou se falar que não há escravos ou livres, homens ou mulheres, mas todos são um em Cristo Jesus, deveríamos trazer esta máxima para hoje, como uma definição basilar, para que não haja mais clero ou leigos, mas para que todos possamos ser uma só coisa nele.”

Há uma contradição profunda e não resolvida entre o laicato e a estrutura: “como é ser leigo, sujeito eclesial, numa Igreja clericalizada? Impossível! É necessário romper isso!”

Para Kuzma, todos os processos posteriores ao Vaticano II e Medellín buscaram frear e revogar a abertura aos leigos: “passaram-se dez anos da última assembleia do CELAM e pouco se fez ou se avançou na linha de Aparecida. Por exemplo: o que significa ser discípulo missionário, hoje? Será que há alguma mudança?… Por certo que não. Raras exceções. Continuamos com as mesmas estruturas e linhas de ação, seguimos com os mesmos planos e projetos pastorais, a mesma insistência na formação clerical dos nossos seminaristas e na pouca valorização da formação laical (…).”

Ele é taxativo: “Sem a ação dos leigos não há uma ação de Igreja em saída.”

Cesar Kuzma é dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da novíssima geração. Com 41 anos de idade, é doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador, e presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Assessor da Comissão do Laicato da CNBB e do Departamento de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM). Autor, entre outros, de O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica (2014), um estudo sobre a obra do “teólogo da esperança”, o protestante Jürgen Moltmann, e Leigos e Leigas –força e esperança da Igreja no mundo (2009).

Leia a íntegra da longa e densa entrevista de Kuzma concedida ao Caminho Pra Casa, a Mauro Lopes e ao padre Luís Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

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Para começar, recordamos uma expressão do Papa Francisco, cujo conteúdo tem sido recorrente em seus discursos e pronunciamentos. No Ângelus do 21° Domingo do Tempo Comum (em 27 de agosto deste ano/2017), o Papa fez uma afirmação ousada. Disse que a Igreja é de todos, e não só do clero. Como você avalia essa afirmação à luz da história de clericalismo que marca a Igreja Católica e neste início do Ano Nacional do Laicato?

César Kuzma e os filhos

Bom, acredito que esta é uma grande pergunta para começarmos a nossa conversa, pois a abrangência do que se pede toca em questões fundamentais da nossa fé e da nossa tradição, mas também em aspectos práticos do que vivemos e sentimos hoje na Igreja.

E aí entra a pessoa de Francisco e tudo o que ele representa para nós, seja para aqueles que o apoiam (eu me incluo neste grupo) seja para aqueles que o agridem, e que já não se escondem. Também o problema do clericalismo, que é uma enfermidade grave (palavras do próprio Papa), de muitas proporções e que avança por muitas frentes. Francisco alerta a este mal e acho que todos devemos nos ater a esta questão, pois é séria. Agradeço, então, a oportunidade e gostaria de começar a responder por aqui.

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