Jesus, Lázaro e os pobres: a vida, caminho de encontro e crescimento sem fim

A Ressurreição de Lázaro, Lee Porter

Sim, iremos morrer, todos nós. Lázaro morreu e é em torno da relação de Jesus com a morte de seu grande amigo que se apresenta a Liturgia da Palavra das missas deste 5º Domingo da Quaresma (2 de abril). Estamos às portas do Tríduo Pascal, quando  revisitamos a paixão, morte e ressurreição dele próprio, Jesus. É uma leitura longa, de um episódio muito conhecido, vale a pena a leitura: Jo 11,1-45).

Sim, a morte biológica é o fim da vida. É o fim-fim, na expressão de Leonardo Boff, a ruptura de um processo, e ela cria uma cisão “entre o tempo e a eternidade”.[1] Freud, em Além do Princípio do Prazer, de 1920, escreveu que somos como convocados a morrer, que “a meta de toda vida é a morte”. Morremos um pouco a cada dia e, se a vida não é ceifada num acidente trágico, vamos “morrendo em prestações”[2], com a vida biológica desgastando-se a cada segundo, até o esvaziamento completo da energia vital.

Mas, para Jesus –e o episódio da re-animação de Lázaro, como um relance do que aconteceria com ele mesmo pouco depois, é uma das mais eloquentes afirmações de seu ensinamento- o homem não está encerrado à dimensão biológica. Boff formula com rara beleza sobre o entrecruzamento das espirais da vida biológica (para baixo, até a morte) e da vida pessoal (para cima, rumo à eternidade):

O homem não se esgota na determinação biológica. “Antes pelo contrário: nele há uma outra curva de precedente: inicia pequena como um gérmen e vai crescendo indefinidamente. O homem começa a crescer interiormente: desabrocha a inteligência, perfila a vontade, rasga horizontes, abre o coração para o encontro com o tu e com o mundo Se a curva biológica se centra sobre si mesma de forma egoísta (defende-se contra doenças, luta pela vida), a curva pessoal e do homem interior se abre na comunhão e na doação de si mesmo. É descentrando-se de si mesmo, indo ao encontro dos outros que vai construindo sua personalidade. Quanto mais tem a capacidade de estar-nos-outros, tanto mais está-em-si-mesmo, se torna personalidade e cresce nele o homem interior. A primeira parábola biológica vai sucessivamente decrescendo até acabar de morrer [como “meta da vida” augurada por Freud –nota minha]. A segunda parábola pessoal pode crescer indefinidamente até acabar de nascer.”[3]

É a esta convocação para o crescimento pessoal que Jesus convocou Lázaro: “Lázaro, vem para fora!” (v. 43). E convocou os amigos, na direção de quem Lázaro caminhava, a desatarem os panos mortuários e auxiliá-lo a caminhar para a vida de encontro com o tu e com o mundo.

Continue lendo “Jesus, Lázaro e os pobres: a vida, caminho de encontro e crescimento sem fim”