Na peregrinação a Fátima, Papa rompeu com o culto retrógrado

O Papa Francisco na celebração da Bênção das Velas em Fátima, na noite de sexta, 12 de maio

Vale a pena ler a avaliação de José Manuel Vidal, diretor do site católico Religión Digital, que acompanhou a peregrinação do Papa a Fátima: a visita marca um rompimento radical com a apropriação da imagem de Nossa Senhora de Fátima pelo que há de pior no conservadorismo católico.

“Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como verdadeiro flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.  (…) Francisco buscou,  com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima ‘não é um santinha de graças baratas’ e que Deus nunca se cansa de perdoar, por maiores e graves pecados que se cometam”.

 

Leia em Religión Digital ou abaixo, em tardução livre do espanhol feita generosamente por Lula Ramires:

“Veni, vidi, vici.” (*) O Papa Francisco passou menos de 24 horas em Fátima, mas alcançou, com abundância, todos os objetivos a que se propôs para esta visita a um santuário ancorado na mentalidade popular e na história recente do papado romano. Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.

Mas Francisco, tal como Creso, tudo o que toca converte em outro. Com a força única do retorno às fontes do Evangelho e seu próprio testemunho de peregrino que tem fé de um catolicismo, religião do amor, e uma Igreja ‘hospital de campanha’. Uma Igreja que – voltou a repetir – ela a quer “missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica de amor”.

Só uma Igreja assim pode deixar de ser fortaleza assediada e tornar-se líder da esperança e da paz para a humanidade. E esse era o objetivo primordial de Francisco em Fátima: lançar ao mundo um grito pela paz, que ele a vê ameaçada seriamente por uma possível (e provável) conflagração mundial devastadora. Uma guerra que poderia ser infinitamente pior que a “guerra em pedaços” em diversas partes do planeta ou a guerra cibernética, que, precisamente, ontem se desencadeava no mundo.

Um chamamento papal à paz que, dito a partir de Fátima, tem uma ressonância especial. Porque Fátima é o epicentro dos anseios de paz dos católicos, mas também dos muçulmanos, que se sentem atraídos por este santuário de uma Virgem que evoca o nome da filha do profeta Maomé. “Dos braços da Virgem virá a paz que suplico para a humanidade”, proclamou Francisco. Amém.

Para dentro de sua própria casa, Francisco buscava, com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima “não é uma santinha de graças baratas” e que Deus nunca se cansa de perdoar, por mais graves e grandes que sejam os pecados cometidos.

Uma operação de limpeza em toda a régua. Com tino, com elegância, mas com firmeza. Sem alusão alguma aos três famosos segredos de Fátima, sem ameaçar com o inferno (tão presente em alguns dos relatos das visões dos pastorzinhos), a não ser para assegurar que o inferno consiste em esquecer e descartar os deserdados. Nem Maria é a quem detém “o braço justiceiro de Deus” nem Cristo é “o juiz implacável” que alguns seguem pregando. Porque, é preciso sempre “antepor a misericórdia ao julgamento”. Fátima, porta e farol da misericórdia, que é a luz de Deus.

Que a Virgem de Fátima volte a ser a Senhora do Magníficat, que “derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes”. Aquela que sempre socorre a seus filhos quem gemem e choram “neste vale de lágrimas”. A mãe, sempre mãe, que mostra Jesus, “bendito fruto bendito de seu ventre”.

Por esse motivo, o Papa gritou em várias ocasiões: “Temos mãe, temos mãe!”. Uma conversão eclesial no estilo mariano. Também nisto Francisco é revolucionário e retorna ao que é essencial: ao Evangelho da boa notícia, da misericórdia e do perdão. Fátima por sua mão revive. Nota-se que também aqui chegou a primavera.

(*) Frase em latim, atribuída ao general Caio Júlio Cesar, após uma vitória militar, que significa: “vim, vi e venci”.

 

Mal de Huntington: mobilização mundial para encontro com o Papa

Comunidades, famílias, doentes e ativistas mobilizam-se em todo o mundo para o encontro com o Papa em 18 de maio

Milhares de pessoas vítimas da doença de Huntington, familiares e ativistas em todo o mundo estão se preparando para um encontro histórico com o Papa Francisco em 18 de maio no Vaticano. A doença atinge uma em cada 10 mil pessoas, estimando-se haver um milhão de doentes no mundo hoje. É praticamente desconhecida fora do círculo familiar e relacional dos doentes. É uma mutação hereditária rara, neurodegenerativa, que afeta o sistema nervoso central, causando alterações dos movimentos, do comportamento e da capacidade cognitiva –saiba mais no site da Associação Brasil Huntington.

O encontro é uma enorme esperança para que a doença deixe de ser objeto de vergonha e discriminação dos afetados e seus familiares e seja vista à luz do dia em todo o planeta. Por isso, o encontro acontecerá sob o título HDdennomore, que é pronunciado em inglês Hidden No More, ou Esconder Nunca Mais, com a união da abreviação da doença (HD -Huntington’s Disease) que ecoa a palavra esconder (hidden) –veja o site mundial que reúne informações sobre a reunião com o Papa: http://hddennomore.com/.  Veja também a página no YouTube, com vídeos breves e clicando aqui.

Assista a um vídeo belo e tocante sobre a doença e o encontro com o Papa, feito pelo movimento HDdennomore:

“Queremos mostrar a doença ao mundo todo e, especialmente, termos uma bênção especial do Papa para os doentes, seus familiares e amigos”, afirma Vita Aguiar de Oliveira, presidenta da Associação Brasil Huntington e familiar de um doente. Do Brasil irão mais de 30 pessoas, sendo que duas delas, de Coronel Fabriciano (MG) foram sorteadas para terem a viagem paga –veja reportagem aqui. Nesta outra reportagem você pode conhecer outra família que se prepara para a viagem a Roma: aqui.

A doença é quase equivalente a uma sentença mortal que se abate sobre famílias inteiras. Uma vez que um membro da família tenha o gene defeituoso de Huntington (nome do médico que descreveu a síndrome, o norte-americano George Huntington, em 1872) seus descendentes terão 50% de probabilidade de sofrer do mesmo problema.  Os portadores da mutação desenvolvem a doença em geral entre 35 e 55 anos de idade.

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CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]

Papa quer renovação da Igreja no Brasil baseada no fim do clericalismo

O Papa recebe o padre Vilson Groh no Vaticano. Foto: L’Osservatore Romano

O Papa Francisco quer que os leigos sejam os grandes protagonistas da Igreja no Brasil, avalia que no país e na América Latina há um clericalismo crônico e aponta a dinâmica surgida nos três encontros mundiais dos movimentos populares convocados por ele como caminho para a “Igreja em saída” da qual ele fala recorrentemente.  Um tema de grande preocupação para o Papa: o desafio ambiental, a pobreza e a exclusão na Amazônia.

Essas foram as ideias-chave que ele expressou ao padre Vilson Groh numa longa audiência privada no Vaticano em 16 de fevereiro último. “O Papa disse que Igreja em saída é Verbo que se faz carne no ser humano”, disse Groh, em entrevista ao Caminho Pra Casa. Ele foi ao Papa para apresentar o trabalho do IVG (Instituto Pe. Vilson Groh), que atua há três décadas na periferia de Florianópolis, especialmente com crianças, adolescentes e jovens.

Quem articulou o encontro foi Paolo Rufini, diretor da TV Vaticano e um apoiador entusiasmado dos projetos do Instituto –“ele sempre vem a Florianópolis para ficar com a comunidade no morro”, disse o padre Groh. O encontro foi marcado por forte emoção. Groh levou cartas das crianças ao papa: “As cartas diziam ‘o senhor é uma esperança para nós, que vivemos na periferia’. Elas pediram que orasse por eles, e contaram que havia muito sofrimento na periferia.”. Em resposta, o Papa gravou, no próprio celular de Groh, uma mensagem para as crianças (veja ao fim desta reportagem).

“O Papa disse que a Igreja no Brasil e na América Latina é muito clericalizada [nota: o clericalismo é a substituição da centralidade de Cristo pela da hierarquia da Igreja] e que é preciso romper com isso e abrir um tempo de protagonismo leigo”, afirmou o padre de Florianópolis. Segundo ele, Francisco disse ainda mais sobre o tema: “É preciso se pensar, no Brasil, nas celebrações presididas por leigos formados, e não apenas por padres. O Papa disse que é fundamental ter em mente a formação de comunidades e que as Comunidades Eclesiais de Base são uma alternativa para a Igreja em saída”.

O tema do protagonismo dos leigos é um dos eixos da 55ª Assembleia Geral da CNBB que está acontecendo até 5 de maio em Aparecida (SP). Dois dias antes do encontro do Papa com Groh, o bispo emérito de Jales, Dom Demétrio Valentini, fez uma forte homilia exatamente no Santuário Nacional de Aparecida na qual apresentou a proposta de, a CNBB assumir a figura dos presbíteros de comunidade, leigos, que passem a assumir a presidência da Eucaristia. Ele lembrou, ao lançar a ideia, que o Papa tem instado a CNBB a apresentar um projeto para um novo protagonismo dos leigos –por isso o tema entrou na agenda da Assembleia Geral (aqui o link para a homilia).

O Papa tem seguidamente criticado o clericalismo como a grande doença da Igreja. Por isso, acolheu com visível entusiasmo a proposta que lhe fizeram os superiores dos quatro ramos principais dos franciscanos, em encontro no dia 10 de abril no Vaticano: que seja alteradas as normas para que leigos possam assumir cargos de lideranças em suas comunidades. “O Papa Francisco estuda as possibilidades de fazer avançar este projeto”, disse Frei Michael Perry, Ministro Geral dos Frades Menores, e acrescentou: “Deixamos uma carta com um pedido formal para uma dispensa dos requisitos da lei canônica que, na maioria das ordens religiosas,  apenas um padre pode ser eleito para os cargos de liderança” -leia aqui.

Até agora, os sinais emitidos pela Assembleia da CNBB no tema do protagonismo dos leigos são tímidos e podem frustrar o desejo do Papa. Numa entrevista coletiva na tarde de sexta (28), o coordenador do tema, dom Geremias Steinmetz, bispo de Paranavaí (PR), fez afirmações genéricas e sem qualquer indício de uma inovação relevante. Como o assunto está submetido à plenária de todos os bispos, pode haver novidades nos próximos dias.

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Em nota para o 1º de Maio, CNBB acusa governo e Congresso e diz que reformas são inaceitáveis

Na Zona Leste de São Paulo, o clamor do povo na Greve Geral. Foto: Mídia Ninja

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou na noite de quarta (27), véspera da greve geral, uma nota endereçada aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Os bispos brasileiros, reunidos em Assembleia Geral em Aparecida (SP) encorajam a organização e mobilização do povo e acusam “os Poderes Executivo e Legislativo”, governo Temer e Congresso, de atuarem segundo a “lógica perversa do mercado”.

A CNBB atacou a terceirização, e as mudanças pretendidas pelo governo nas relações trabalhista e na Previdência, considerando “inaceitável” que “decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.”

Na nota, os bispos conclamam: “nenhum trabalhador sem direitos!” e mencionam o discurso do Papa Francisco no Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em julho de 2015: “Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar.”

Na manhã desta sexta, 28, IBGE anunciou que o desemprego atinge agora mais de 14 milhões de pessoas no país, algo sem precedentes (aqui).

Veja a íntegra da nota aqui ou abaixo:

AOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DO BRASIL

MENSAGEM DA CNBB

“Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, em sua 55ª Assembleia Geral Ordinária, se une aos trabalhadores e às trabalhadoras, da cidade e do campo, por ocasião do dia 1º de maio. Brota do nosso coração de pastores um grito de solidariedade em defesa de seus direitos, particularmente dos 13 milhões de desempregados.

O trabalho é fundamental para a dignidade da pessoa, constitui uma dimensão da existência humana sobre a terra. Pelo trabalho, a pessoa participa da obra da criação, contribui para a construção de uma sociedade justa, tornando-se, assim, semelhante a Deus que trabalha sempre. O trabalhador não é mercadoria, por isso, não pode ser coisificado. Ele é sujeito e tem direito à justa remuneração, que não se mede apenas pelo custo da força de trabalho, mas também pelo direito à qualidade de vida digna.

Ao longo da nossa história, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista de direitos contribuíram para a construção de uma nação com ideais republicanos e democráticos. O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado. Diante disso, dizemos não ao “conceito economicista da sociedade, que procura o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social” (Papa Francisco, Audiência Geral, 1º. de maio de 2013).

Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.

Irmãos e irmãs, trabalhadores e trabalhadoras, diante da precarização, flexibilização das leis do trabalho e demais perdas oriundas das “reformas”, nossa palavra é de esperança e de fé: nenhum trabalhador sem direitos! Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar (Cf. Papa Francisco, Discurso aos Movimentos Populares, 9 de julho de 2015).

Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas, em defesa da dignidade e dos direitos de todos os trabalhadores e trabalhadoras, com especial atenção aos mais pobres.

Por intercessão de São José Operário, invocamos a benção de Deus para cada trabalhador e trabalhadora e suas famílias.

Aparecida, 27 de abril de 2017.

Temer e Doria tentam usar o Papa para seus projetos, com apoio da Globo e mídias auxiliares

 

Um beijo de farsa e constrangimento

Michel Temer e João Doria tentaram usar a figura do Francisco, querido em todo o mundo e por milhões de brasileiros e brasileiras, para seus projetos de poder. Com apoio das Organizações Globo e mídias auxiliares distorceram o conteúdo de uma carta de Francisco a Temer e, no caso de Doria, tentaram transformar encontro rápido na Praça São Pedro em “audiência” e uma cena constrangedora em momento de “intimidade e empatia”. Foram duas operações de relações públicas/pós-jornalismo nos últimos dois dias, ambas destinadas a engambelar as pessoas.

Francisco respondeu dias atrás uma carta de Temer na qual era convidado a vir ao Brasil. Como tratou-se de correspondência privada, a Santa Sé não divulgou o conteúdo. Mas o colunista global Gerson Camarotti, um dos queridinhos do Palácio do Planalto, recebeu trechos da correspondência e postou reportagem na qual tentou vender ao país uma suposta “neutralidade” de Francisco diante da situação do Brasil -desmentida até mesmo pelos trechos pinçados por Camarotti e suas fontes. O título da nota, verdadeiro press release oficial: “Em carta, Papa diz a Temer que crise no Brasil não é de fácil solução”.

O Papa foi duro com Temer e as reformas que ele e o capital financeiro tentam aprovar, com apoio da Globo: “não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira”. O Papa escreveu que o Brasil vive “um momento triste”. Estes são os trechos vazados da carta, que não autorizam “neutralidade” ou “simpatia” do Papa com regime do golpe.

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O Papa, no Domingo de Páscoa: defesa dos oprimidos e do Estado de Direito na AL

O Papa em sua homilia na missa de Páscoa na manhã deste domingo.

O Papa discursou por duas vezes numa manhã de sol que se seguiu a um aguaceiro neste Domingo de Páscoa (16) em Roma. Havia milhares de pessoas espremidas na Praça São Pedro, no Vaticano. Primeiro, numa homilia de improviso na Missa de Páscoa, quando afirmou que “a ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores”, mas “o mistério da pedra descartada que torna-se o alicerce da nossa existência”. A seguir, na tradicional mensagem e bênção Urbi et Orbi (“à cidade e ao mundo”), Francisco disse que Cristo ressuscitado “cuida de quantos são  vítimas de escravidões antigas e novas”.

Ele mencionou diversos países e regiões na mensagem. Quanto à América Latina, pediu respeito ao Estado de Direito e chamou a atenção para as tensões políticas e sociais e para o tema da corrupção: “Jesus ressuscitado sustente os esforços de quantos estão empenhados, especialmente na América Latina, em garantir o bem comum das várias nações, por vezes marcadas por tensões políticas e sociais que, nalguns casos, desembocaram em violência. Que seja possível construir pontes de diálogo, perseverando na luta contra o flagelo da corrupção e na busca de soluções pacíficas viáveis para as controvérsias, para o progresso e a consolidação das instituições democráticas, no pleno respeito pelo Estado de Direito.”

Francisco clamou por paz na Síria e Oriente Médio, com menções diretas a Israel, Iraque e Iêmen. Pediu paz também à África, mencionando o Sudão do Sul, Sudão, Somália e República Democrática do Congo. Mencionou os conflitos na Ucrânia e abordou a crise econômica europeia, com destaque para tema do desemprego, pedindo emprego “sobretudo para os jovens”.

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Sábado Santo: vivenciar o desespero do grande absurdo

Coliseo, William Congdon, 1951

Hoje, Sábado Santo (15) , é o dia em que os cristãos experimentam o grande absurdo da existência humana, o desespero da realidade terrível que marca nossa trajetória pessoal e coletiva; deparar-se com uma névoa tão densa que parece-nos, e assim tem sido ao longo da história da humanidade, nunca irá dissipar-se. O que vivemos os cristãos: Deus fez-se homem e foi preso, torturado, condenado, abandonado por seus amigos, deixado nu, à míngua, sem sequer as suas roupas, morto. E agora? Se Deus morreu e está enterrado num sepulcro, com uma monumental pedra sobre a entrada, o que resta?

O Tríduo Pascal, encerra-se na virada do Sábado Santo para o Domingo da Ressurreição. O Sábado Santo é o dia menos conhecido pelo público e foi, historicamente, menos valorizado. A atenção por séculos esteve concentrada na sexta-feira da Paixão, concentrada no suplício de Jesus, por conta de uma tradição dolorista construída pela Igreja ao longo da Idade Média. A Igreja institucional não inventou a tendência dolorista, mas aproveitou-se e potencializou o caráter neurótico  da civilização, que faz com que as imensa maioria das pessoas, castigadas por seu superego, vivam em culpa.

A exacerbação e individualização da celebração da Paixão tornou-se instrumento de controle e de desvinculação da morte de Jesus dos processos mais profundos, históricos, da trajetória humana. Mas o Sábado Santo, o dia do absurdo, convoca-nos a encarar esta realidade duríssima.

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Ceia do Senhor: Papa com os descartados, nas prisões; e o Pacto das Catacumbas

Em 2015, Francisco foi à prisão de Rebibbia, em Roma, onde celebrou a Ceia do Senhor e lavou os pés de presos e presas -rompendo com uma prática machista católica que reservava o rito apenas aos homens. Agora, em 2017, o Papa estará na prisão de Paliano.

Começa nesta quinta-feira à noite (13) com a celebração da Ceia do Senhor o Tríduo Pascal, quando os cristãos católicos e de outras denominações vivenciam o momento culminante de sua fé. Na liturgia, do Evangelho de João (Jo 13, 1-15), recorda-se a última refeição de Jesus com seus discípulos, símbolo da instituição da Eucaristia, marcada também pelo rito do Lava-Pés, momento em que Ele ajoelhou-se  e lavou os pés de todos os amigos.

O Papa viverá este momento novamente em uma prisão, a de Paliano, ao sul de Roma, onde celebrará a missa e lavará os pés dos presos. Em entrevista publicada nesta quinta pelo jornal italiano La Reppublica, Francisco mais uma vez explicou a essência do cristianismo simbolizada pelo rito da Ceia e do Lava-Pés:  “(é preciso) ir, chegar perto do último, dos marginalizados, dos descartados. Quando estou na frente de um prisioneiro, por exemplo, eu me pergunto: por que ele e não eu? Eu mereço mais do que ele que está lá dentro? Porque ele caiu e eu não? É um mistério que me aproxima deles “– leia a íntegra da entrevista aqui.

Para bem viver a Ceia do Senhor em sua plenitude numa Igreja que em 2017 busca se re-aproximar de suas origens, é oportuno recordar uma eucaristia símbolo desta busca: aquela que reuniu 40 bispos e padres participantes do Concílio Vaticano II. Ela foi celebrada numa basílica dentro da Catacumba de Domitila em 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.

Naquela noite, os 40 assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver.   Dos 40, oito eram brasileiros: dom Helder Câmara, dom Antônio Fragoso (Crateús-CE), dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho (Afogados da Ingazeira-PE), dom João Batista da Mota e Albuquerque (Vitória- ES), padre Luiz Gonzaga Fernandes (sagrado bispo auxiliar de Vitória dias depois),dom Jorge Marcos de Oliveira (Santo André- SP), dom Henrique Golland Trindade  (Botucatu-SP) e dom José Maria Pires (da Arquidiocese da Paraíba).

Os signatários assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata (práticas ainda correntes na hierarquia católica), abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses.

Leia a íntegra do Pacto das Catacumbas e admire-se:

“Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

– a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

– a requerer  juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

– esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

– suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito do que uns chefes segundo o mundo;

– procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

– mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS.”