As mulheres que mantêm a luz acesa – por Ivone Gebara

No plenário do Senado às escuras, as mulheres senadoras mantiveram acesa a luz do Brasil dos pobres, enquanto os senadores homens ricos arquitetavam a volta da escravidão. Foto de Lula Marques

Um artigo inédito da teóloga brasileira Ivone Gebara, freira da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, doutora em Filosofia e Ciências da Religião e respeitada em todo o mundo (saiba mais sobre ela ao fim do artigo):

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“Enquanto alguns protestam a caravana passa…”

A imagem usada pelo ‘presidente’ Temer para celebrar a aprovação pelo Senado da Reforma Trabalhista ontem foi de uma fina crueldade. Qual é a caravana que passa? E passa onde? E passa sobre quem?

Passa sobre corpos estendidos, sobre corpos famintos e sofridos que reclamam por casa, terra, trabalho e pão. A caravana passa, massacra e mata porque os cavaleiros e os cavalos estão gordos de tanto comerem a comida do povo. Os cavaleiros armados e com armaduras são mantidos por outros de corpos sutis que de seus escritórios em qualquer lugar do mundo jubilam de alegria diante da vitória expressiva de Mamon. É Mamon sua divindade suprema. Por ele sacrificam vidas que nada significam para seu culto e sua glória. É Mamon que governa seu mundo. Os políticos do governo são títeres de Mamon. São seus servos que apenas o ajudam a engordar seus cofres, suas Bolsas e dominar a terra em troca de benefícios que o fogo e as traças um dia comerão.

Não gozarão individualmente de seus roubos. A bendita morte os alcançará. Um AVC, um infarto fulminante, um tumor maligno, um desastre inesperado, uma diarreia incontrolável os eliminarão. Mas enquanto isso não acontece imaginam-se imortais. Creem em seu poder. Corrompem-se mutuamente para gozar num instante breve das deliciosas iguarias recebidas pela glorificação de Mamon. Recebem seus prêmios agora, enquanto o povo lazarento come migalhas caídas de suas mesas. Falam de humanidade e de respeito na medida em que estas palavras lhes servem. Banalizam-nas para aparecerem como cidadãos justos e dignos. Enganam os incautos e os que já não têm mais forças para entender o que está acontecendo no país e no mundo.

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Concelebração da missa: Francisco e seus líderes aprofundam ideia de Igreja circular

Um “documento de trabalho” (“working paper”) ainda sigiloso da Congregação para o Clero do Vaticano está circulando em Roma e representa uma aparentemente pequena, mas significativa revolução no desenho da Igreja Católica. Seu título: “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais em Roma”. Se for aprovado, irá distanciar a Igreja um pouco mais da concepção monárquica/vertical adotada a partir do segundo milênio e reafirmada por conservadores como os papas João Paulo II e Bento XVI. E representará uma aproximação com a ideia de uma Igreja circular/sinagogal, característica da relação de Jesus com seus amigos e amigas e adotada durante o primeiro milênio, sendo retomada no Vaticano II e, agora, por Francisco.

O tema do documento é uma nova diretriz para as missas quando há vários sacerdotes presentes, especialmente em seminários, mosteiros, reuniões, assembleias. Apesar de ser voltada a Roma, é certo que se a orientação for aprovada deverá espalhar-se pelo planeta. Diz o texto: “é preferível a Missa concelebrada à celebração individual”. Ou seja: quando há vários padres presentes, eles devem celebrar a Eucaristia juntos. É algo que se tornou corriqueiro no Brasil, especialmente durante os anos em que as correntes vinculadas ao Vaticano II eram hegemônicas, mas foi restringido mais e mais pela Cúria romana e, no Brasil, pela hegemonia restauracionista. A norma inverteu-se: é preferível a celebração individual à concelebração.

O texto reproduz trecho de um discurso do Papa Francisco aos sacerdotes, estudantes e formadores do Pontifício Colégio Espanhol de São José, em 1 de abril passado, em Roma (aqui a íntegra): “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração.” A concelebração simboliza e atualiza o espírito da missa como celebração festiva da presença amorosa de Jesus Cristo na comunidade de fiéis.

Segundo o documento, a missa, momento culminante da liturgia católica, deve, sempre que há uma concelebração, “converter-se em uma oportunidade de aprofundar a vida espiritual dos sacerdotes, com frutos importantes como a expressão da comunhão dos presbíteros das diversas igrejas particulares”. O texto, apesar de voltado para os centros de formação em Roma, alcança explicitamente o espírito da colegialidade que Francisco tem buscado implementar, como bispo de Roma, com os demais bispos do mundo: a concelebração expressa comunhão “que se manifesta de modo especial quando os bispos de distintas dioceses presidem a concelebração por motivo de suas visitas a Roma”.

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Papa: sindicatos não podem abandonar a profecia e se tornarem parecidos com o sistema

O Papa com sindicalistas no Vaticano, na manhã desta quarta (28)

O Papa fez um contundente discurso aos participantes do XVIII Congresso Nacional da Confederação Italiana dos Sindicatos de Trabalhadores (Cisl, na sigla em italiano) na manhã desta quarta (28) no Vaticano e advertiu sobre o risco de cooptação das entidades sindicais pelo sistema: “Em nossa sociedade capitalista avançada o sindicato corre o risco de se extraviar de sua natureza profética de defender os últimos e parecer-se com as instituições e poderes que deveria criticar”. Francisco apresentou de maneira surpreendente uma visão profunda e questionadora sobre o tema dos sindicatos no mundo hoje.

Para o Papa, a crise dos sindicatos deve-se a um duplo movimento, do combate que lhes move do sistema capitalista e, ao mesmo tempo, da acomodação de dirigentes sindicais e da estrutura das entidades em relação à causa dos mais fracos na sociedade: “O capitalismo de nossos tempos não compreende o valor dos sindicatos porque esqueceu a natureza social da economia, das empresas, da vida, das ligações e dos pactos. Mas, talvez, a nossa sociedade não compreenda os sindicatos porque não os veem lutar onde ainda ‘não há direitos’: nas periferias existenciais”.  E acrescentou: “Os sindicatos, com o passar dos tempos, acabaram tornando-se muito parecidos com a política, ou melhor, com os partidos políticos, à sua linguagem e ao seu estilo. E se faltar a sua verdadeira dimensão, eles perdem força e eficácia”.

Francisco convocou os dirigentes sindicais a encararem seu “desafio histórico”.  Isso significa, segundo Bergoglio, “dar voz a quem não a tem”, defender a causa dos refugiados “e dos descartados” e “desmascaram os poderosos que pisoteiam os direitos dos trabalhadores mais frágeis”. Entretanto, denunciou o Papa, “o meio sindical, com o passar do tempo, terminou ficando parecido demais com a política, com os partidos, em sua linguagem e estilo”.

Os sindicalistas devem ser “sentinelas”  que protejam aos empregados mas ao mesmo tempo devem dirigir sua atenção “aos excluídos do trabalho” que são ”excluídos também dos direitos da democracia”. A vida sindical precisa, segundo o Papa, cuidar “das periferias existenciais” para converter “as pedras descartadas da economia em pedras angulares”.

Ao fim do discurso, Francisco lembrou que a palavra sindicato procede do grego e seu significado original era “justiça juntos”. E completou: “Não há justiça se ela não está ao lado dos excluídos”.

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João Paulo II: os anos terror na Igreja (artigo 1 de 3)

João Paulo II e Pinochet no Palácio de La Moneda, em Santiago (1987), onde o presidente Salvador Allende fora assassinado em 1973 pelas tropas do exército

O pontificado de João Paulo II ainda hoje é entendido pela opinião pública como governo de um homem de fé enraizada, carismático, determinado, defensor da paz, corajoso. Ao longo dos 26 anos de seu longo papado, entre outubro de 1978 e até sua morte, em 2 de abril de 2005, Karol Józef Wojtyła tornou-se um superstar, mobilizando multidões em suas viagens ao redor do planeta. Sua resiliência em conduzir a Igreja doente, alquebrado, imerso em dores, reforçou ainda mais sua imagem.

Mas há um lado que ficou escondido ao longo dos anos, distante dos olhos da imensa maioria das pessoas: foram anos de punições, medo e até terror no interior da Igreja; dirigido contra bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia da Libertação ou simplesmente adeptos do Concílio Vaticano II. O objetivo: liquidar a Teologia da Libertação, o espírito da primavera do Concílio Vaticano II e realizar o que João Paulo afirmou como prioridade de seu papado, no discurso inaugural: restaurar “a grande disciplina” (leia aqui a mensagem Urbi et Orbi de 17 de outubro de 1978, no dia seguinte à eleição do cardeal Wojtyła como Papa).

Numa breve série de três artigos aqui no Caminho Pra Casa você lerá: 1) uma visão panorâmica do governo de João Paulo II; 2) depois, uma lista inédita que, longe de ser exaustiva, apresenta quase 200 ações repressivas de João Paulo II que semearam medo e silêncio na Igreja; 3) finalmente, o arcabouço doutrinal/institucional desenhado por João Paulo II e seu braço direito, o cardeal Joseph Ratzinger, que seria seu sucessor, com o objetivo de consolidar a visão que o Papa Francisco hoje qualifica de restauracionista e inviabilizar uma nova primavera –que finalmente chegou com a eleição de Jorge Mario Bergoglio em 2013 .

Foi um tempo longo, da “grande disciplina”, expressão que o teólogo brasileiro João Batista Libânio (1932-2014) tomou do discurso de João Paulo II e consagrou como definidora do pontificado.  O teólogo belga e brasileiro por ternura José Comblin (1923-2011) qualificou o tempo de Wojtyła de “noite escura”. O maior teólogo do século XX, Karl Rahner, vítima de uma campanha de um ataques agressivos pelo Vaticano menos de um ano depois de sua morte, em 1984, cunhou outro termo para o tempo da restauração conservadora:  “Igreja invernal” –um inverno longo, frio, de chumbo.

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Papa oficializa Dia Mundial dos Pobres: denúncia da “riqueza descarada nas mãos de poucos privilegiados”

Francisco em visita a uma comunidade de pobres da América Latina na periferia de Roma, em 2016

O Papa Francisco oficializou a iniciativa que havia anunciado no encerramento do Ano Santo da Misericórdia, em novembro último, e marcou para 19 de novembro a celebração do primeiro Dia Mundial dos Pobres. Ele acontecerá todos os anos no 23º Domingo do Tempo Comum, no Ano Litúrgico católico. A mensagem sobre a data foi divulgada propositadamente hoje, dia de Santo Antônio, um homem de vida pobre entre os pobres. Nela, o Papa acusou de maneira enfática “a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana”. Diante desta injustiça, escreveu Francisco “não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado”.

No texto, cuja íntegra você pode ler aqui ou logo abaixo, o Papa lembra que a opção pela partilha radical está na origem do cristianismo:  “a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).”

Francisco escolheu dois textos do Novo Testamento para indicar 1) que aos cristãos a partilha  dos meios de produção (a terra, na ocasião) e das riquezas (bens e dinheiro) é condição sine qua non para o seguimento de Jesus e 2) que os ricos são causa de sofrimento dos pobres:

“’Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um’ (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação.”

“Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: ‘Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tia 2, 5-6.14-17).

Um aspecto relevante no texto de Francisco é convocação à superação das noções tradicionais de benemerência e filantropia que enxergam os pobres como objeto de supostas boas ações de supostas pessoas de bem. Escreve o Papa:

“Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida.”

Ao fim de sua carta, Francisco vincula a compreensão do Evangelho à relação com os pobres: “Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.”

[Mauro Lopes]

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Papa retoma formulação mais original do cristianismo: Deus só sabe amar

O Papa na Audiência Geral da quarta (7): Deus só sabe amar

Passou relativamente despercebida, mesmo aos católicos, uma frase que o Papa pronunciou na Audiência Geral da última quarta (7) no Vaticano segundo a qual Deus é “capaz somente de conjugar o verbo amar”. Com ela, Francisco retoma a formulação mais original do cristianismo, esquecida/perdida ao longo de séculos pela Igreja institucional e combatida pelo conservadorismo católico e cristão em geral.

Deus só sabe conjugar o verbo amar.

A expressão inspira-se naquela que é a tentativa mais ousada na Bíblia de definir o Divino: “Deus é amor” –a frase aparece por duas vezes na primeira carta de São João (1Jo 4,8.16).

Deus só pode amar.

Irmão Roger: Deus só pode amar

Este é o título de um pequeno livro escrito pelo irmão Roger, da comunidade ecumênica dos monges da comunidade de Taizé, sediada na região da Borgonha, na França. Ela reúne protestantes, católicos e ortodoxos. Existe desde 1940. No Brasil, há um pequeno núcleo de Taizé em Alagoinhas (BA), há 50 anos. O irmão Roger, um protestante que rompeu todas as falsas barreiras das estruturas religiosas, foi assassinado aos 90 anos, agosto de 2005, quando uma mulher romena, com distúrbios mentais, apunhalou-o várias vezes durante a oração da noite.

O livro de irmão Roger é uma pequena preciosidade que deveria inspirar pessoas de todos os quadrantes de espiritualidade e mesmo aqueles que, não acreditando na transcendência, tecem a vida pela bondade e pela busca da essência do ser humano[1].

Muito antes de Francisco e irmão Roger, santo Isaac, o Sírio, no século VII, pontuou: “Deus só pode dar o seu amor”.

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Perseguição à Teologia da Libertação baseou-se em duas fraudes, indicam pesquisas

Dom Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio,  e Bento XVI. Um, protagonista da perseguição à Teologia da Libertação; outro, beneficiário. Ambos responsáveis pela crise da Igreja no Brasil

 

Houve três razões, nenhuma delas efetivamente teológica, que moveram o combate à Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina a partir de 1978, início do pontificado de João Paulo II e durante todo o papado de Bento XVI, até 2013 – 35 anos, portanto. O presente artigo, apesar de mencionar as três, tem foco em duas delas e apresenta pesquisas recentes segundo as quais: i) ambas basearam-se em argumentos fraudentos; ii) o governo conservador da Igreja Católica no Brasil nesse período foi um rotundo fracasso.

As três razões:

1. A primeira tem fundo político-ideológico: demonizou-se a Teologia da Libertação como se fosse uma adesão ao marxismo e/ou comunismo, enquanto os dois papas e seus apoiadores eram e são arraigadamente capitalistas e defensores do direito à propriedade e à acumulação irrestrita de riquezas. A Igreja no Brasil virou as costas aos pobres como sujeitos da ação pastoral para fazer deles, no máximo, objeto de um olhar piedoso. O artigo não se deterá sobre este assunto.

2. A segunda razão foi eclesiológica (de ecclesia, Igreja) e vincula-se ao tema do poder: os dois papas, João Paulo II e Bento, a Cúria romana e a maioria da hierarquia católica no Brasil e América Latina consideram os leigos (pessoas que não são ordenadas sacerdotes) cidadãos de segunda categoria na Igreja. Defendem que a autoridade e o poder devem concentrar-se integralmente nas mãos da hierarquia. Para eles, todo o poder emana do clero e em seu nome será exercido –para implementar essa visão, amealharam apoio entre em sem número de leigos temerosos e oportunistas. É o que se chama clericalismo. As experiências das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos conselhos de leigos nas paróquias horrorizaram os conservadores, que as desarticularam. Para os defensores do clericalismo, uma Igreja circular, não hierárquica, romperia “o mistério”, tornando-a secular, banal, pois as pessoas comuns demandariam, em sua idealização, ritos de conotação mágica e subserviência à autoridade. Para os conservadores, a solução seria a obediência irrestrita dos leigos à hierarquia e investimentos que garantissem ordenação de mais padres e a abertura novas paróquias. A estratégia mostrou-se equivocada, como você verá nas pesquisas, mas serviu para concentrar o poder da Igreja nas mãos dos hierarcas.

3. A terceira motivação para a campanha de ódio e aniquilamento contra a Teologia da Libertação foi pragmática: os conservadores alegavam à época (segunda metade dos anos 1970) que os princípios, opções litúrgicas e prática pastoral de leigos, padres e teólogos vinculados de alguma maneira a esta corrente estavam afugentando os fiéis e esvaziando as igrejas.

O combate à Teologia da Libertação traduziu-se numa campanha sistemática de perseguição a cardeais, bispos, padres, freiras, teólogos e ativistas leigos nas paróquias e comunidades promovidas por Roma, com iniciativas similares da hierarquia local (veja, sobre isso, esclarecedora entrevista do padre Paulo Sérgio Bezerra ao blog, aqui). Vários gestos de João Paulo II e Bento XVI indicaram os novos rumos da Igreja, na contramão do Vaticano II, e autorizaram as campanhas. Alguns deles: os processos e punições nos anos 1980 e 1990 Leonardo Boff da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida por Joseph Ratzinger, a divisão da Arquidiocese de São Paulo, em 1989, com o objetivo de enfraquecer dom Paulo Evaristo Arns, a repreensão pública ao padre Ernesto Cardenal, aliado dos sandinistas na Nicarágua, por João Paulo II, em 1983; as seguidas repreensões ao arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero, sinalizando ao clero ultraconservador e aos militares do país que estava desautorizado pelo Papa, num claro sinal verde à campanha contra ele, até o assassinato por paramilitares durante a celebração da missa, em 1980.

Como se deu o governo da Igreja no Brasil nesses 35 anos? O primeiro passo foi o rompimento dos os moderados, pressionados por Roma e por seu desejo de fazer carreira na instituição, com os progressistas ligados de alguma forma à Teologia da Libertação.  O segundo foi a composição de uma nova aliança dos moderados com dois segmentos: os conservadores “tradicionalistas” e a corrente “carismática”, os neopentecostais da Igreja Católica (cujas expressões mais barulhentas foram a Renovação Carismática Católica e a Canção Nova).  Hoje é possível constatar que os restauracionistas, como qualifica o Papa Francisco (aqui), inimigos abertos ou velados do Concílio Vaticano II, campo que reúne tanto conservadores como carismáticos, vivenciam os primeiros sinais da crise de sua hegemonia de 35 anos, com a primavera em Roma.

Com a primavera, salta aos olhos o fracasso retumbante do governo de mais de três décadas: 1) a perda de fiéis católicos tornou-se uma torrente e 2) a Igreja deixou de ser protagonista, tornando-se mero objeto decorativo no sistema de dominação dos ricos do continente –mesmo em sua função de controle social/moral dos pobres, os conservadores viram sua influência ser transferida em boa medida para as correntes neopentecostais protestantes, das quais o pentecostalismo católico (os “carismáticos”) é uma cópia mal acabada.

O que aconteceu durante os 35 anos de hegemonia conservadora/carismática?

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Na peregrinação a Fátima, Papa rompeu com o culto retrógrado

O Papa Francisco na celebração da Bênção das Velas em Fátima, na noite de sexta, 12 de maio

Vale a pena ler a avaliação de José Manuel Vidal, diretor do site católico Religión Digital, que acompanhou a peregrinação do Papa a Fátima: a visita marca um rompimento radical com a apropriação da imagem de Nossa Senhora de Fátima pelo que há de pior no conservadorismo católico.

“Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como verdadeiro flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.  (…) Francisco buscou,  com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima ‘não é um santinha de graças baratas’ e que Deus nunca se cansa de perdoar, por maiores e graves pecados que se cometam”.

 

Leia em Religión Digital ou abaixo, em tardução livre do espanhol feita generosamente por Lula Ramires:

“Veni, vidi, vici.” (*) O Papa Francisco passou menos de 24 horas em Fátima, mas alcançou, com abundância, todos os objetivos a que se propôs para esta visita a um santuário ancorado na mentalidade popular e na história recente do papado romano. Não é fácil mudar o simbolismo de um ícone utilizado, em numerosas ocasiões, como flagelo apocalíptico de todas as cruzadas rigoristas contra o comunismo e contra os pecadores, ameaçados com o inferno eterno.

Mas Francisco, tal como Creso, tudo o que toca converte em outro. Com a força única do retorno às fontes do Evangelho e seu próprio testemunho de peregrino que tem fé de um catolicismo, religião do amor, e uma Igreja ‘hospital de campanha’. Uma Igreja que – voltou a repetir – ela a quer “missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica de amor”.

Só uma Igreja assim pode deixar de ser fortaleza assediada e tornar-se líder da esperança e da paz para a humanidade. E esse era o objetivo primordial de Francisco em Fátima: lançar ao mundo um grito pela paz, que ele a vê ameaçada seriamente por uma possível (e provável) conflagração mundial devastadora. Uma guerra que poderia ser infinitamente pior que a “guerra em pedaços” em diversas partes do planeta ou a guerra cibernética, que, precisamente, ontem se desencadeava no mundo.

Um chamamento papal à paz que, dito a partir de Fátima, tem uma ressonância especial. Porque Fátima é o epicentro dos anseios de paz dos católicos, mas também dos muçulmanos, que se sentem atraídos por este santuário de uma Virgem que evoca o nome da filha do profeta Maomé. “Dos braços da Virgem virá a paz que suplico para a humanidade”, proclamou Francisco. Amém.

Para dentro de sua própria casa, Francisco buscava, com sua visita, despojar Fátima da morbidez do mistério, do secretismo e de uma espiritualidade fatimista de cunho antigo e excessivamente conservador. Uma espiritualidade esotérica, apocalíptica, catastrófica e excêntrica. Uma espiritualidade demasiado intimista, penitencial e com pouco sabor evangélico. Por isso, Francisco repetiu, em alto e bom som, que a Virgem de Fátima “não é uma santinha de graças baratas” e que Deus nunca se cansa de perdoar, por mais graves e grandes que sejam os pecados cometidos.

Uma operação de limpeza em toda a régua. Com tino, com elegância, mas com firmeza. Sem alusão alguma aos três famosos segredos de Fátima, sem ameaçar com o inferno (tão presente em alguns dos relatos das visões dos pastorzinhos), a não ser para assegurar que o inferno consiste em esquecer e descartar os deserdados. Nem Maria é a quem detém “o braço justiceiro de Deus” nem Cristo é “o juiz implacável” que alguns seguem pregando. Porque, é preciso sempre “antepor a misericórdia ao julgamento”. Fátima, porta e farol da misericórdia, que é a luz de Deus.

Que a Virgem de Fátima volte a ser a Senhora do Magníficat, que “derruba do trono os poderosos e enaltece os humildes”. Aquela que sempre socorre a seus filhos quem gemem e choram “neste vale de lágrimas”. A mãe, sempre mãe, que mostra Jesus, “bendito fruto bendito de seu ventre”.

Por esse motivo, o Papa gritou em várias ocasiões: “Temos mãe, temos mãe!”. Uma conversão eclesial no estilo mariano. Também nisto Francisco é revolucionário e retorna ao que é essencial: ao Evangelho da boa notícia, da misericórdia e do perdão. Fátima por sua mão revive. Nota-se que também aqui chegou a primavera.

(*) Frase em latim, atribuída ao general Caio Júlio Cesar, após uma vitória militar, que significa: “vim, vi e venci”.

 

Mal de Huntington: mobilização mundial para encontro com o Papa

Comunidades, famílias, doentes e ativistas mobilizam-se em todo o mundo para o encontro com o Papa em 18 de maio

Milhares de pessoas vítimas da doença de Huntington, familiares e ativistas em todo o mundo estão se preparando para um encontro histórico com o Papa Francisco em 18 de maio no Vaticano. A doença atinge uma em cada 10 mil pessoas, estimando-se haver um milhão de doentes no mundo hoje. É praticamente desconhecida fora do círculo familiar e relacional dos doentes. É uma mutação hereditária rara, neurodegenerativa, que afeta o sistema nervoso central, causando alterações dos movimentos, do comportamento e da capacidade cognitiva –saiba mais no site da Associação Brasil Huntington.

O encontro é uma enorme esperança para que a doença deixe de ser objeto de vergonha e discriminação dos afetados e seus familiares e seja vista à luz do dia em todo o planeta. Por isso, o encontro acontecerá sob o título HDdennomore, que é pronunciado em inglês Hidden No More, ou Esconder Nunca Mais, com a união da abreviação da doença (HD -Huntington’s Disease) que ecoa a palavra esconder (hidden) –veja o site mundial que reúne informações sobre a reunião com o Papa: http://hddennomore.com/.  Veja também a página no YouTube, com vídeos breves e clicando aqui.

Assista a um vídeo belo e tocante sobre a doença e o encontro com o Papa, feito pelo movimento HDdennomore:

“Queremos mostrar a doença ao mundo todo e, especialmente, termos uma bênção especial do Papa para os doentes, seus familiares e amigos”, afirma Vita Aguiar de Oliveira, presidenta da Associação Brasil Huntington e familiar de um doente. Do Brasil irão mais de 30 pessoas, sendo que duas delas, de Coronel Fabriciano (MG) foram sorteadas para terem a viagem paga –veja reportagem aqui. Nesta outra reportagem você pode conhecer outra família que se prepara para a viagem a Roma: aqui.

A doença é quase equivalente a uma sentença mortal que se abate sobre famílias inteiras. Uma vez que um membro da família tenha o gene defeituoso de Huntington (nome do médico que descreveu a síndrome, o norte-americano George Huntington, em 1872) seus descendentes terão 50% de probabilidade de sofrer do mesmo problema.  Os portadores da mutação desenvolvem a doença em geral entre 35 e 55 anos de idade.

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CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]