Uma foto e um quadro-resumo de 16 pontos: os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Burke e o bispo do povo, dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Numa foto e num quadro-resumo de 16 pontos, os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Raymond Burke e o bispo do povo José Maria Pires, o dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Caritas: nunca houve tantos muros no mundo – já são 66

Criança à sombra do muro na Cisjordânia

A Caritas Italiana divulgou nesta sexta (15) o dossiê À sombra do muro,  durante o seminário  “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam”,  que aconteceu nos últimos dois dias em Roma, com uma atenção especial aos muro edificados por Israel contra os palestinos. O dossiê aponta: nunca houve tantos muros a separar países, a impedir migrantes de buscarem uma chance de vida, a manter os pobres longe dos ricos. São 66 muros contra migrantes, pobres e vítimas de guerra no mundo hoje. Para que se tenha uma ideia do modelo gerado pelo capitalismo, havia em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, 16 muros em todo o planeta.

O projeto neoliberal, depois da vitória sobre o “socialismo real” do Leste europeu, revelou-se uma antiutopia. Em vez de oportunidades, progresso e riqueza, miséria , restrições cada vez maiores às liberdades e muros. Segundo o dossiê, ”a globalização, que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes,  foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras”.

Para além da divisão entre os que estão de cada lado dos muros, a separação em concreto e cercas remete a dois projetos, como afirmou o Papa Francisco no encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5 de novembro de 2016, no Vaticano: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro”.

Os 66 muros estão assim divididos: 36 na Ásia e Oriente Médio; 16 na Europa; 12 na África; e dois na América (Estados Unidos/México e México/Guatemala). Veja no quadro abaixo:

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Os milionários tomaram todo o poder para si; os pobres têm direito sagrado à rebelião

O projeto dos ricos, a serviço de seu deus-dinheiro: tudo para eles

Celebrar o Dia da Independência na perspectiva do 23º Grito dos Excluídos só é possível a partir de uma leitura correta do fato que hoje define o país: os ricos tomaram de assalto todo o poder institucional do Brasil no processo que culminou no golpe de Estado de um ano atrás. Não há espaço para os pobres no Poder Executivo, no Poder Legislativo, no Poder Judiciário ou no quarto poder, a Imprensa dita “tradicional”. Tudo é para os ricos; aos pobres, nem as sobras do banquete.

As últimas semanas foram fartas em expressões simbólicas, condensadas, verdadeiras lições aos pobres sobre o que foi feito do poder institucional do país.

O símbolo do Poder Executivo são as malas de dinheiro de Geddel Vieira Lima, um dos principais articuladores do golpe e coordenador político do regime dos ricos até ser denunciado por outro ministro da quadrilha de Temer. Mais de R$ 50 milhões em dinheiro vivo nas malas, o que está longe de ser toda a fortuna amealhada por ele ao longo de sua carreira –há muitos outros bens, casas, empresas, carros, lanchas e dinheiro escondidos.  Romero Jucá, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Antonio Imbassahy, Gilberto Kassab, Mendonça Filho, Raul Jungman, Ricardo Barros, Fernando Bezerra Coelho, José Serra, Aloysio Nunes, Marcos Pereira, todos os ministros escolhidos por Michel Temer e ele próprio são ricos e enriqueceram exatamente como Geddel.  Mais que ricos, são todos milionários.

O símbolo do Poder Legislativo é a pesquisa do economista André Calixtre, que demonstrou taxativamente: o patrimônio médio declarado de um senador é superior a R$ 17 milhões e o dos deputados federais e estaduais é de R$ 2,5  milhões. O Congresso Nacional e todo o Poder Legislativo é a casa dos ricos, e não a casa do povo. E este é o patrimônio declarado, o que não inclui malas de dinheiro como as de Geddel, rendas, patrimônio escondido em nome de terceiros –filhos, noras, genros, sogros, tios e laranjas em geral. Eles são na verdade muito mais milionários do que a pesquisa indica.

O símbolo do Poder Judiciário é a revelação de que os juízes recebem em média R$ 47.703,00 por mês. O Judiciário é o resultado dos recursos públicos que são assenhorados pelos juízes, tornando-os homens e mulheres ricos ou ainda mais ricos. Há milhares de juízes que recebem muito mais a média. Sérgio Moro, escalado para perseguir e condenar Lula, se apropria de algo como R$ 65 mil a R$ 77 mil todo mês; desembargadores ganham mais que R$ 100 mil mensais. O caso do juiz que recebeu mais de R$ 500 mil num único mês (aqui) está longe de ser o único. Essa dinheirama toda não leva em conta as viagens, congressos e todo tipo de boca livre e “delicadeza” que os juízes recebem de empresários e associações empresariais. Isso sem falar nos casos de vendas de sentenças sobre os quais reina uma pesada cortina de silêncio e que tornam um número não sabido de juízes em super milionários.

O símbolo do poder Imprensa é a campanha persecutória que todos os veículos pertencentes às sete famílias (Marinho, Frias, Mesquita, Civita, Sirotsky, Saad e  Alzugaray) movem contra Lula há anos, sem cessar. A imprensa é o consolidador propagandístico do poder dos ricos e a “amarradora” ideológica da ideia do “direito” à fortuna. Além de seus proprietários serem milionários graças aos recursos públicos que embolsam em subsídios, publicidade e por diversos outros meios.

É uma teia. Banqueiros, empresários, parlamentares e altos funcionários do Legislativo, juízes e a elite do Judiciário, ministros, secretários e outros membros da cúpula do Executivo, promotores, procuradores, delegados, altos executivos, jornalistas, grandes proprietários de imóveis urbanos e rurais… Todos eles, cerca de 2 milhões de pessoas, convergem para um único e grande interesse comum: embolsar os recursos do Estado e todas as riquezas do país para si e impedir os demais 206 milhões de brasileiros e brasileira de terem acesso a qualquer fatia desses recursos e riquezas.

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O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia

“O Papa é de esquerda?”, pergunta Le Figaro Maganize. Trechos do livro “Política e Sociedade”

A Figaro Magazine, revista do jornal francês Le Figaro, publicou na última sexta-feira (1) um longo extrato de trechos das sete entrevistas/conversas  do Papa Francisco com o pesquisador francês Dominique Wolton que estarão no livro Política e Sociedade a ser lançado nos próximos dias. O título da capa da revista francesa pergunta: “O Papa é de esquerda?”. Já está claro: ele é sim, -o que não quer dizer que comungue de todas as ideias comuns ao ideário progressista-libertário, como em sua visão sobre o casamento de homossexuais.

A revelação de que ele se consultara com uma psicanalista na Argentina, aos 42 anos, já havia vazado na última sexta. Mas a íntegra do que publicou Le Figaro Magazine tem muito mais:

  • ele revela ter aprendido sobre política com uma comunista, assassinada pelos militares durante a ditadura argentina;
  • afirma peremptoriamente que  “a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo.”;
  • ao falar sobre os refugiados, explicita: “Nossa teologia é uma teologia de migrantes.”;
  • critica os tradicionalistas: “a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes…”;
  • defende a absolvição nos casos de aborto;
  • explica o direito à comunhão dos divorciados em segunda união;
  • defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas que a palavra “casamento” seja reservada à união entre homem e mulher;
  • critica o rigor moralista voltando à repressão sexual: “Há um grande perigo de se condenar apenas a moral abaixo do cinto”.

Mas há mais, muito mais. Leia a seguir:

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Papa: Igreja é de todos e cheia de falhas “como no tempo de são Francisco”

O Papa neste domingo (27): Igreja precisa ser sempre reformada

O Papa fez neste domingo (27) um dos discursos mais explicitamente eclesiológicos de seu pontificado -referente a ekklesia, assembleia, palavra de onde se origina igreja. Na oração do meio-dia (o Ângelus), Francisco rejeitou as concepções conservadoras sobre a Igreja, consagradas por seus antecessores, e afirmou neste domingo (27) que ela é de todos, e não do clero, feita por “todos nós” que “nos tornamos ‘pedras vivas’”. Além disso, afastou a ideia da Igreja como “sociedade perfeita”, alentada pelos restauracionistas e afirmou que ela “sempre precisa ser reformada, reparada”, pois mesmo “com fundamentos sólidos”, tem “rachaduras, como nos tempos de são Francisco de Assis”.

O discurso foi todo voltado ao Evangelho deste que é o 21° Domingo do Tempo Comum, que relata um diálogo entre Jesus e seus discípulos, no qual ele indaga a visão dos seguidores sobre si (aqui ou no final). Ao remeter a são Francisco, o Papa, sem o mencionar diretamente referiu-se a uma das passagens mais conhecidas da vida do poverello de Assis, em 1205, quando, depois de um período de oração na pequenina e semidestruída igreja de São Damião, escutou uma voz saindo de um crucifixo bizantino caído ao lado do altar: “Vai, Francisco, e repara a minha casa que está em ruínas.” Dez séculos antes do Francisco, que lhe inspirou o nome papal, o Francisco de hoje encontrou uma Igreja também em ruínas, numa crise brutal.

Na conversa de Jesus com seus amigos, ao indagar de si “o Mestre esperava dos seus uma resposta alta e diferente daquelas da opinião pública”, afirmou Francisco, rejeitando as imagens de um Cristo soberano, cheio de poder e punitivo. “Simão Pedro encontra em seus lábios palavras que são maiores do que ele, palavras que não vem de suas capacidades naturais. Talvez ele não tenha feito a escola fundamental, e é capaz de dizer estas palavras, mais fortes do que ele! Mas são inspiradas pelo Pai celeste, que revela ao primeiro dos Doze a verdadeira identidade de Jesus”.

Nesta caminhada a partir dos pobres e simples e repleta de falhas edificou-se a Igreja dos seguidores de Jesus, onde todos, sem distinção entre leigos, leigas e hierarquia eclesial, são igualmente “pedras vivas”, na eclesiologia do Papa. Para Francisco, a partir da visão retomada no Vaticano II, a Igreja “é uma comunidade de vida, feita de muitíssimas pedras, todas diferentes, que formam um único edifício no signo da fraternidade e da união”.

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Francisco aprofunda reformas; conservadores radicalizam dissidência

Grafite celebra visita do Papa à Colômbia, no início de setembro

O Papa Francisco surpreendeu mais uma vez ao proclamar que a reforma litúrgica estabelecida pelo Concílio Vaticano II “é irreversível” e que deve ser aprofundada. Foi num discurso feito na quinta (24) aos participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana. O Papa tocou num ponto sensível da Igreja, talvez o mais sensível: como os cristãos católicos celebram o mistério de Cristo na liturgia, especialmente a eucarística (a missa).

Há uma disputa brutal em torno da celebração eucarística que perpassa a Igreja, apesar dela acontecer sobretudo nos bastidores e textos teológicos. Os conservadores querem revogar a reforma litúrgica consagrada pelo Vaticano II (apesar de não expressarem isso explicitamente na maior parte das vezes). Um de seus líderes, o cardeal guineense Robert Sarah, ocupa o posto estratégico de  prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, onde vem colecionando atritos com o Papa e seu grupo. Tudo indica que depois dos cardeais conservadores George Pell (ex-presidente do estratégico Departamento de Economia do Vaticano) e Gerhard Müller (ex-prefeito da mais que estratégia Congregação Para a Doutrina da Fé), está chegando a hora de Sarah ser defenestrado. O discurso de Francisco parece indicar que a hora chegou.

Os conservadores sonham com o retorno da missa nos moldes do Concílio de Trento (por isso chamada de missa tridentina), rezada em latim, com o padre de costas para a assembleia. O cardeal Sarah tem explicitado sua adesão à ideia que vagou como fantasma pelos corredores do Vaticano até que em 2007 o Papa Bento XVI publicou a Summorum Pontificum, uma carta apostólica que restaurou a missa tridentina em “concorrência” com o rito do Concílio.

Para Francisco, a liturgia não é do clero, ao contrário do que apregoam os conservadores, pois ela “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato ‘popular’ e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”. A frase tem repercussões profundas. Lida ao lado de outra, com a qual o Papa anunciou que “hoje ainda há trabalho a ser feito”, pode indicar a retomada do caminho de criatividade litúrgica abruptamente interrompido por João Paulo II, que proibiu todas as iniciativas de inculturação, como as missas Criolla, Terra Sem Males e dos Quilombos.

Confrontando diretamente a concepção conservadora, Francisco anunciou “uma liturgia viva para uma Igreja viva”.

O aprofundamento da reforma litúrgica é mais uma das iniciativas da primavera franciscana.  Todas as outras são igualmente objetos da fúria da ala conservadora da Igreja, entre elas: a reforma da Cúria romana, os estudos para o diaconato feminino, o direito à comunhão de casais divorciados em segunda união, o acolhimento aos migrantes e refugiados, especialmente o apelo do Papa ao reconhecimento do jus soli (direito de solo, para que crianças de famílias migrantes tenham direito à nacionalidade nos países onde nascerem) e, finalmente, a retomada da trajetória da Igreja com os pobres de todo o mundo, na perspectiva da teologia latino-americana.

Dissidência e agressões ao Papa

Os conservadores não se cansam de elevar o tom contra o Papa, ora com exigências estapafúrdias, ora com ameaças cada vez mais explícitas de dissenção, enquanto agridem Francisco de maneiras cada dia mais explícitas de baixo nível.

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Mensagem do Papa para o Dia do Migrante e do Refugiado: acolher, proteger, promover e integrar

O Vaticano divulgou nesta segunda (21) a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, a ser celebrado em 14 de janeiro de 2018. São quatro dimensões temáticas da celebração: os verbos acolher, proteger, promover e integrar. Grupos conservadores imediatamente levantaram-se contra a mensagem papal. O texto, belo e assertivo, busca apresentar de maneira resumida as posturas que se esperam dos governos e dos povos no acolhimento aos que chegam expulsos de seus países de origem, num triste “sinal dos tempos” do novo século. Francisco deseja que os países atuem com generosidade e priorizem a segurança pessoal dos refugiados à nacional -no final, a íntegra da mensagem.

Acolher – segundo o Papa, esta dimensão significa “oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino” com medidas concretas como a concessão rápida de vistos humanitários que garantam “a reunificação familiar” ou a abertura de corredores humanitários “para os refugiados mais vulneráveis”.

Proteger – Francisco enumerou uma série de ações de proteção que devem ser estimuladas: assistência consular adequada, “direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal”, acesso equitativo à justiça, “a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima”. Na dimensão da proteção, o Papa ressaltou o direito dos refugiados ao trabalho, ao “acesso aos meios de telecomunicação”, a liberdade de movimento no país de destino e uma série de ações em defesa das crianças.

Promover – para o Papa, é preciso garantir aos migrantes e refugiados a liberdade religiosa e a liberdade de exercício profissional, com a facilitação das certificações obtidas nos países de origem. Um tema-chave para Francisco na esfera da promoção é a promoção da “reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos”. Atenção e apoio mais dedicados devem ser reservados aos refugiados e migrantes portadores de deficiência.

Integrar – nesta dimensão, uma das formulações mais avançadas do Papa, para quem a integração dos refugiados e migrantes às sociedades que os acolhem não pode ser confundida com assimilação. “Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural”, escreveu.

Poucas horas depois da divulgação do texto, as vozes conservadora já começaram a acusar o Papa. Um dos arautos do conservadorismo, o vaticanista italiano Marco Tosatti, logo acusou Francisco de ser contra a “a Europa e o Ocidente” –se quiser leia a íntegra do artigo no blog Stilum Curiae. A lógica do texto é a que impera na lógica conservadora, levada ao limite com Trump: os migrantes e refugiados são inimigos disfarçados de “coitadinhos”. Tosatti, num texto carregado de acusações e ironias, afirmou que o Papa indica “soluções ótimas e desejáveis ​​em um mundo idílico e utópico”. O Ocidente está em guerra, é o subtexto do artigo de Tosatti. Por isso, falar em integração e acolhimento é equivalente a traição. Para o colunista, o escândalo com a mensagem do Papa é ainda maior pelo fato de ela ser divulgada logo depois dos atentados de Barcelona e Turku (Finlândia). Para os conservadores, é tempo de Guerra Santa, e este Francisco, como o primeiro, insiste em falar de paz –eles odeiam o Francisco atual como odiaram o primeiro, e depois tentaram assimilá-lo e domesticá-lo.

[Mauro Lopes]

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Carta de um jovem católico: da Renovação Carismática à descoberta da Teologia da Libertação

Jovens participam de uma romaria durante o I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora

Dener Ricardo tem apenas 25 anos. Escreveu-me uma carta em tom pessoal, um relato pungente de sua trajetória na Igreja, da Renovação Carismática Católica e a rotina de adorações até a adesão à tradição da trajetória da Igreja latino-americana, à Teologia da Libertação –e à liderança do Papa Francisco.

No final do texto, uma convocação, um questionamento: “Vamos aspirar a uma Igreja simples, profética, que denuncia as injustiças contra os pobres e não se alia aos poderosos desta terra.”

Um jovem que torna verdade a profecia de Isaías no Segundo Canto do Servo Sofredor: “De minha boca fez uma espada cortante, abrigou-me na sombra da sua mão; fez de mim uma seta afiada, escondeu-me na sua aljava.” (Is 49, 2)

Uma carta-provocação, às vésperas do II Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que acontecerá entre 7 e 10 de setembro em Poá (SP).

Os ouvidos da Igreja estão se abrindo para a voz dos jovens que desejam o retorno à originalidade das primeiras comunidades cristãs? Os olhos da Igreja estão se abrindo para a luz que carregam os jovens? Já passa da hora.

[Mauro Lopes]

A íntegra da carta de Dener:

“Sou de São José do Rio Preto (SP), tenho 25 anos. Minha família sempre foi católica, mas, antes dos meus 14 anos, eu não praticava muito a religião: ia à Missa, fazia algumas poucas orações e só. Muito pouco me importava a dimensão comunitária da fé. Aos 15 anos me apresentaram a Renovação Carismática Católica (RCC). Adotei este tipo de espiritualidade com muito entusiasmo: participava ativamente dos grupos de orações e eventos da RCC. Tinha um apreço muito grande pela Canção Nova e outras emissoras de TV deste segmento. Durante três anos, a minha espiritualidade foi moldada neste contexto…até que algo começou a mudar.

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O grito dos franciscanos e franciscanas do Brasil: “dirão que é comunismo, mas é Evangelho”

Franciscanos e franciscana no Capítulo Nacional das Esteiras, em Aparecida

Um encontro histórico dos franciscanos e franciscanas de todo o Brasil proclamou em carta aprovada por unanimidade neste domingo (6) a adesão incondicional ao papado de Francisco e definiu como missão: “participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas”. Trata-se de uma citação de um dos momentos mais conhecidos e cruciais da trajetória de São Francisco que, em 1205, na abandonada igreja de São Damião, em Assis, ao contemplar um crucifixo ouviu o que lhe parece uma mensagem direta: “Não vês como está a minha Igreja? Está em ruínas. Vai, e reconstrói a minha Igreja”. O mantra do encontro, repetido por quase todos os palestrantes e nas homilias durante as missas foi: voltar a Assis –retomar o espírito original de São Francisco.

Mais de mil franciscanos e franciscanas estiveram presentes à  Conferência da Família Franciscana do Brasil, que se reuniu desde a quinta-feira (3) em Aparecida (SP). O “sabor de Francisco” convergiu com o reencontro dos parâmetros fundamentais da Teologia da Libertação latino-americana e, em sua carta, os franciscanos afirmaram em espírito de oração: “’Óh Mãe preta, óh Mariama, Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!’, ainda assim, invocamos suas bênçãos sobre toda a nossa família e sobre um Brasil sedento de Paz – fruto da justiça, do bem e da Misericórdia de Deus” –a frase é inspirada na “invocação a Mariama”, de dom Hélder Câmara. Leia a íntegra da Carta de Aparecida ao final.

Um dos trechos da carta é todo vazado a partir da melhor tradição da teologia latino-americana, severamente reprimida durante os 35 anos da restauração conservadora sob João Paulo II e Bento XVI: “A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio.  Assistimos, tomados de ira sagrada, à violação dos direitos conquistados, através de muitos esforços, empenhos e articulação pelo povo brasileiro. Por isso, não podemos deixar de nos empenhar junto aos movimentos sociais na luta ‘por nenhum direito a menos’, contra golpes, reformas retrógadas e abusivas conduzidas por um governo ilegítimo, um parlamento divorciado dos interesses da população e  uma justiça que tem se revelado fora dos parâmetros da equidade que no lugar de fortalecer o papel do Estado para atender às necessidade e os direitos do mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital”.

Foram quatro dias marcados pela emoção e o compromisso, com representantes dos mais de 20 mil religiosos da Primeira Ordem (Frades Menores, Frades Menores Capuchinhos, Frades Menores Conventuais), da Segunda Ordem (Irmãs Clarissas), da Ordem Franciscana Secular (leigos), da Juventude Franciscana (leigos), da Terceira Ordem Regular (TOR), das Congregações e Movimentos simpatizantes de Francisco e Clara de Assis presentes no Brasil -se você quiser ler uma cobertura detalhada do encontro pode clica no site da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (aqui).

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