A Via Sacra dos invisíveis

Nas ruas do centro histórico de São Paulo, onde vivem 80% dos 16 mil moradores de rua da cidade mais rica do país, a Via Sacra do Povo da Rua pediu o fim da violência e políticas públicas.  “Chega de violência contra o povo! Chega de bala de borracha e de gás de pimenta! Chega de maldade e de opressão”, disse o padre Júlio Lancellotti, vigário do Povo da Rua, ao entregar flores para os policiais, enquanto os participantes da procissão cantavam:  “Recebemos bombas, entregamos flores”. 

Por Thiago Fuschini * | Fotos: Daniel Arroyo

O período da Páscoa é um convite aos cristãos a orarem e refletirem sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, e, ao mesmo tempo, compreenderem o real significado de sua vida e missão. Desde o século XVI, uma das formas mais tradicionais de se refletir sobre estes temas é a participação na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo ao Gólgota, onde ocorreu sua crucifixão, na primeira Sexta-Feira Santa.

Há mais de 30 anos, a Pastoral do Povo de Rua de SP realiza a Via Sacra do Povo de Rua de São Paulo, que ocorre tradicionalmente nas ruas do centro da capital, onde, segundo o Censo de População de Rua, de 2015, vivem 80% das cerca de 16 mil pessoas que perambulam pelas ruas da cidade mais rica do país.

A procissão fez um trajeto pela Rua Líbero Badaró, no centro histórico da cidade, onde parou em frente a cada prédio de órgãos da Prefeitura, como as secretarias de Habitação e de Assistência e Desenvolvimento Social, passando pela Prefeitura e terminando na Catedral da Praça da Sé.

Violência

A Via Sacra do Povo da Rua, ontem (30), exigiu a criação de políticas públicas para esta população, com ênfase em suas principais necessidades, ou seja, moradia e trabalho, e pediu o fim da violência contra quem vive nas e das ruas, que, normalmente, é praticada por agentes de segurança pública (da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana – CGM). Continue lendo “A Via Sacra dos invisíveis”

Uma marcha com Júlio Lancellotti e os moradores de rua

Em apoio ao padre Júlio Lancellotti, ameaçado de morte, e aos moradores de rua, que vivem sob terror permanente em São Paulo, centenas saíram às ruas numa passeata-procissão

Por Thiago Fuschini

Cerca de duzentas pessoas marcharam no último domingo (25) em São Paulo em repúdio às ameaças à vida do padre Julio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de SP, e contra a crescente violência contra os moradores de rua. A marcha (uma passeata-procissão) aconteceu na Mooca, Zona Leste de SP, Capital, e foi convocada pela comunidade de fiéis da Paróquia São Miguel Arcanjo, também na Mooca, onde Lancellotti serve como pároco e por ativistas de Direitos Humanos.

Realizada em conjunto com a Procissão de Ramos, a manifestação ocorreu em resposta à uma série de ameaças postadas na rede social Facebook à vida de Lancellotti, que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos e da dignidade dos moradores de rua, os mais pobres entre os pobres, e em um contexto do aumento da violência e de ações higienistas contra as pessoas que vivem nas e das ruas de SP, com remoções forçadas, confisco de roupas, alimentos, documentos e instrumentos de trabalho, além do uso de jatos d’água para remover estas pessoas. Todas estas ações vêm sendo denunciadas pela Pastoral do Povo de Rua de SP e também pela imprensa.

“As pessoas estão mostrando seu compromisso de posicionar-se contra a violência contra os irmãos de rua”, disse Lancellotti que, um pouco mais tarde, em sua homilia na missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, onde foi encerrada a marcha, exortou os fiéis a se aproximarem dos moradores de rua e a conhecê-los. “Abraçar o pobre e chamá-lo pelo nome é um ato revolucionário”, concluiu.

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que deixará o cargo para concorrer a uma vaga no Senado, afirmou que “não queremos que o padre Julio seja um mártir. Queremos ele vivo, atuando na defesa das pessoas em situação de rua”, ao mesmo tempo em que defendeu que a Prefeitura e o governo estadual tomem medidas efetivas para investigar as ameaças e proteger a integridade física do sacerdote e de pessoas que trabalhem com ele.

“O objetivo deste ato é chamar a atenção da Cidade para a questão dos moradores de rua e, ao mesmo tempo, motivar as pessoas a mudarem seu pensamento sobre eles, de maneira que possamos criar estratégias mais acolhedoras e não de descriminação sistemática, como é o que vemos quase sempre”, analisou uma das organizadoras do evento, a educadora Maria Lucia Taiar Santos, que frequenta a paróquia São Miguel Arcanjo há mais três décadas.

Para Luiz Carlos Antunes, ativista do Tulipa Negra Direitos Humanos, ações como a ocorrida no domingo passado são importantes “para mostrar para a Mooca – e para a cidade de SP – que existem pessoas comprometidas com os moradores de rua, e que ameaças e violência serão sempre denunciadas”.

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Thiago Fuschini é jornalista e voluntário na Pastoral do Povo de Rua de SP

Padre Júlio Lancelotti pedirá proteção à Anistia Internacional

Júlio Lancelotti abençoa na Sé carroça de Ricardo Nascimento, na missa de sétimo dia de seu assassinato pela PM

Vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo desde o fim do século passado, padre Júlio Lancelotti pensou que já tinha visto de tudo em sua caminhada com os moradores e moradoras das ruas da metrópole. “Mas o que a cidade está vivendo agora nunca vi”, disse ele na tarde desta quarta (27) ao Caminho Pra Casa. “O extremismo dos últimos tempos, agravado por uma atuação sectária da Prefeitura, deu sinal verde, liberou o extermínio daqueles que a direita vê como o lixo da cidade”, desabafou o sacerdote. Por isso, padre Júlio decidiu que irá pedir proteção à Anistia Internacional ao povo da rua e àqueles que, como ele, têm sofrido inúmeros ataques nos últimos meses.

O mês de julho tem sido particularmente dramático para o povo da rua em São Paulo. No dia 12 de julho, no fim da tarde, o catador de material reciclável Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro, foi executado com pelo menos dois tiros na altura do peito por um policial militar branco. O crime aconteceu num bairro tradicional de classe média e alta na zona oeste da cidade, Pinheiros. Ricardo era muito estimado pelos moradores da região que não tiveram seu coração endurecido e os ouvidos fechados ao sofrimento dos mais pobres. Uma semana depois, muitos deles acorreram à missa de sétimo dia de Ricardo, na catedral da Sé, que imediatamente trouxe à mente o culto ecumênico de 31 de outubro de 1975, em memória de Vladimir Herzog e protesto por sua morte pelos militares.

Piauí, poucos dias antes de morrer

No dia seguinte à missa de sétimo dia pela morte de Ricardo, seu amigo e também morador de rua Gilvan Artur Leal, o Piauí, morreu na Santa Casa de São Paulo, alegadamente de um AVC. Ele foi a principal testemunha do assassinato de Ricardo e foi torturado pelos PMs em plena rua, por protestar contra o crime: em nota assinada por algumas dezenas de moradores do bairro, eles relataram que os policiais obrigaram Piauí a esticar as mãos sobre a calçada e pisotearam seus dedos, aos gritos de “sai daqui que vai sobrar pra você”. Na mesma nota, os moradores contaram que Piauí ficara profundamente abalado, chorava diariamente e relatava ter medo das ameaças que tinha sofrido da PM. Ao lado da carroça do Ricardo, dizia para os moradores da região: “mataram meu irmão, e eu sou o próximo”.

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