Scholas Ocurrentes: projeto político pedagógico de Francisco que atualiza as CEBs

Eduardo Brasileiro e a delegação da IPDM com o Papa em Roma

Um novo jeito de os jovens serem  “Igreja em Saída” no meio dos pobres. Scholas Ocurrentes, o projeto do Papa Francisco que atualiza a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

*

Leia artigo-testemunho de Eduardo Brasileiro, membro da IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento), educador social do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, e participante do 3º Encontro Internacional de Jovens animado pelo Papa Francisco e organizado pela Fundação de Direito Pontifício Scholas Ocurrentes entre 6 e 11 de maio em Roma: 

Desde 1990, Francisco, ainda Cardeal de Buenos Aires, iniciou um projeto chamados ‘Scholas de Ciudadania’ onde desenvolveu uma experiência comunitária de engajamento popular nas causas comuns. Naquela época realizou encontros ecumênicos, oficinas para jovens, ações comunitárias, convivências compartilhadas.

Quando eleito Papa, criou uma fundação de direito pontifício chamada “Scholas Ocurrentes” (escolas dos encontros), onde ampliava o projeto de Buenos Aires, numa dimensão global de formação cidadã para jovens com engajamento em suas comunidades.

Continue lendo “Scholas Ocurrentes: projeto político pedagógico de Francisco que atualiza as CEBs”

Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.” Continue lendo “Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora”

Carta de um jovem católico: da Renovação Carismática à descoberta da Teologia da Libertação

Jovens participam de uma romaria durante o I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora

Dener Ricardo tem apenas 25 anos. Escreveu-me uma carta em tom pessoal, um relato pungente de sua trajetória na Igreja, da Renovação Carismática Católica e a rotina de adorações até a adesão à tradição da trajetória da Igreja latino-americana, à Teologia da Libertação –e à liderança do Papa Francisco.

No final do texto, uma convocação, um questionamento: “Vamos aspirar a uma Igreja simples, profética, que denuncia as injustiças contra os pobres e não se alia aos poderosos desta terra.”

Um jovem que torna verdade a profecia de Isaías no Segundo Canto do Servo Sofredor: “De minha boca fez uma espada cortante, abrigou-me na sombra da sua mão; fez de mim uma seta afiada, escondeu-me na sua aljava.” (Is 49, 2)

Uma carta-provocação, às vésperas do II Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que acontecerá entre 7 e 10 de setembro em Poá (SP).

Os ouvidos da Igreja estão se abrindo para a voz dos jovens que desejam o retorno à originalidade das primeiras comunidades cristãs? Os olhos da Igreja estão se abrindo para a luz que carregam os jovens? Já passa da hora.

[Mauro Lopes]

A íntegra da carta de Dener:

“Sou de São José do Rio Preto (SP), tenho 25 anos. Minha família sempre foi católica, mas, antes dos meus 14 anos, eu não praticava muito a religião: ia à Missa, fazia algumas poucas orações e só. Muito pouco me importava a dimensão comunitária da fé. Aos 15 anos me apresentaram a Renovação Carismática Católica (RCC). Adotei este tipo de espiritualidade com muito entusiasmo: participava ativamente dos grupos de orações e eventos da RCC. Tinha um apreço muito grande pela Canção Nova e outras emissoras de TV deste segmento. Durante três anos, a minha espiritualidade foi moldada neste contexto…até que algo começou a mudar.

Continue lendo “Carta de um jovem católico: da Renovação Carismática à descoberta da Teologia da Libertação”