Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres

Padre Julio Lancellotti chamou-me a atenção para este texto do excepcional Andrea Grillo, um do teólogos de vanguarda desta primeira metade do século 21. O artigo, ao fazer a crítica de um livro recém-lançado sobre a trajetória intelectual de Francisco, é uma vacina poderosa contra as tentativas de pasteurização e aburguesamento de sua imagem. Há três Papas na praça, apenas um deles é de fato Francisco: o Papa dos Pobres. Episódios recentes das homilias de Francisco contra os golpes e as mídias conservadoras e sobretudo o caso do “terço do Papa” ilustram bem as diferentes projeções da figura de Bergoglio.

Por Mauro Lopes, breve introdução ao texto de Andrea Grillo.

Temos hoje três projeções da figura do Papa Francisco disseminadas mundo adentro, no cristianismo e fora dele. São elas, resumidamente:

1.  O Papa dos Pobres, que recupera a originalidade do cristianismo, o espírito do Vaticano II, que combate a herança desastrosa e conservadora de Wojtyla e Ratzinger e alinha a Igreja aos deserdados, ao degradados, aos perseguidos e injustiçados à turma de Jesus. Recupera o Pacto das Catacumbas que reuniu bispos e padres num compromisso à margem do Vaticano II, de uma Igreja pobre com os pobres. Assim leem o Papa os cristãos vinculados à teologia latino-americana, à teologia liberal norte-americana e europeia e à teologia do ecumenismo e do pluralismo religioso da Ásia, todos perseguidos nos 35 anos anteriores a Francisco.

2. O Papa esquerdista, tirano, com tendências comunistas, amigo dos “vermelhos”, traidor da tradição e da “pureza” da Igreja (na verdade, da Igreja medieval e do projeto restauracionista dos dois papas que o antecederam). Assim enxergam Francisco os tradicionalistas radicais, a direita da Igreja, que desejam uma religião de ritos tridentinos e dupla moral, cujo maior exemplo é a Igreja do Chile. São liderados pelos católicos extremistas dos EUA e Europa e no Brasil têm uma rede de apoio.

3. O Papa “meio a meio”, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, na verdade um continuador de João `Paulo II e Bento XVI, que é moderado, em cima do muro, que dá uma no cravo e outra na ferradura. Um papa “tucano” (isso antes de os tucanos se tornarem adeptos de golpes de Estado). Disseminam esta imagem os “moderados”, cuja representação mais vistosa é a atual direção da CNBB. É a turma do “deixa disso”. Além deles, apropriam-se desta imagem  e os tradicionalistas “espertos”, que querem ir “cozinhando” Francisco até sua morte e a eleição de (esperam) um continuador de João Paulo II e Bento XVI, os “papas de verdade”. Esta turma engole Francisco em público, faz festa nos temas morais em que Francisco busca alguma composição, distribuem “fake news” todo o tempo, inventando um Papa que nunca existiu.

Vimos essa “disputa” em torno da imagem do Papa nos episódios das homilias recentes de Francisco contra as ditaduras e os golpes de Estado patrocinados pelas mídias conservadoras e, sobretudo, no caso do envio do argentino Juan Grabois a Lula na cadeia, em Curitiba -a visita foi vetada pela PF e ficou conhecida pelo terço que Francisco abençoou e mandou ao ex-presidente.

Foram duas homilias, ambas em celebrações na capela Santa Marta, no Vaticano, onde preside as missas sempre que está em Roma. Em nenhuma delas o Papa citou Lula ou o Brasil (ou sua Argentina), mas é evidente a menção:

Na primeira, em 17 de maio, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado” (aqui).

Na segunda, ontem (18), um mês depois, Francisco voltou a descrever a situação brasileira à perfeição, sem mencionar o país: “Se concede todo o aparato da comunicação a uma empresa, a uma sociedade que faz calúnia, diz falsidades, enfraquece a vida democrática. Depois vêm os juízes a julgar essas instituições enfraquecidas, essas pessoas destruídas, condenam e assim vai avante uma ditadura. As ditaduras, todas, começaram assim, adulterando a comunicação, para colocar a comunicação nas mãos de uma pessoa sem escrúpulo, de um governo sem escrúpulo” (aqui).

O caso de Juan Grabois ficou bem conhecido no Brasil, com enorme repercussão. O argentino, coordenador dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares ao lado do cardeal Peter Turkson e consultor do Vaticano, é um dos braços direitos de Francisco, que o enviou até Curitiba, com uma mensagem e um terço (toda a história está aqui).

Nos episódios das homilias e do terço, as três visões sobre Francisco moldaram a reação dos agrupamentos de católicos e dos protagonistas na sociedade. Os que consideram Francisco o Papa dos Pobres alegraram-se com as homilias e o envio de Juan Grabois e cuidaram de divulgá-las ao máximo, com apoio entusiasmado ao Papa; os que consideram Francisco um Papa esquerdista consideraram as homilias “políticas” e tentaram desmoralizar a iniciativa da visita da Lula considerando as notícias sobre o fato como “fake news”; os que  projetam Francisco como um Papa “meio a meio” silenciaram, não se referiram às homilias ou à visita, o que tem sido recorrente -é o caso, por exemplo, da CNBB. No caso dos grupos do catolicismo de direita e moderado, há um aspecto relevante em sua postura: Francisco, como o mais carismático Papa da história, foge a todos os padrões do monarca que obedece às normas e regras rígidas da instituição; Bergoglio passa por fora da estrutura eclesial e age diretamente na relação com seu rebanho, utilizando até um argentino com jeito de motoqueiro em vez de monsenhores sisudos e fantasiados de solenidade.

O artigo de Andrea Grillo, escrito originalmente em seu blog Come Se Non (aqui, em italiano) foi traduzido por Moisés Sbardelotto e publicado em português no fantástico IHU, dos jesuítas do Rio Grande do Sul. A íntegra segue abaixo.

O texto é uma resenha crítica do livro de Massimo Borghesi,  Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018), que está mobilizando grande atenção nos meios intelectuais católicos e cristãos em geral. Como explica Grillo no início, o artigo é iluminado por sua experiência no  Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” que polarizou teólogos e pensadores cristáos de todo o mundo entre 21 e 24 de maio de 2018 no campus da Unisinos, em Porto Alegre.

O artigo de Grillo tem o título de “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”. É imperdível.

Segue a íntegra:

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Os leigos da pequena Osorno são os líderes da Igreja neste momento

Protesto de leigas e leigos em Osorno contra nomeação do bispo Juan Barros

Esculpida a mão por João Paulo II, a Igreja chilena encontra-se em estado terminal. Os corajosos leigos e leigas da pequenina Osorno são os grandes líderes do catolicismo no atual momento. Eles ousaram dizer NÃO ao clericalismo e à “cultura do Templo”. Para a hierarquia católica, os leigos e leigas são pessoas desprezíveis, incômodas, um estorvo. Mas Jesus era leigo, como seus discípulos e o maior santo da história, Francisco. Uma reflexão apresentada à comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (10) tive a enorme alegria de ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, para participar de uma das sete celebrações eucarísticas o redor do 90 anos da paróquia. Foi um convite amigo do pároco, padre Paulo Sérgio Bezerra, das lideranças comunitárias do grupo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM). Participei da missa e, logo depois da saudação inicial, apresentei à assembleia uma reflexão sobre o tema dos leigos e leigas na Igreja hoje.

A seguir, a íntegra do que falei lá:

Caros irmãos e irmãs, paz.

Estou aqui hoje com a missão de apresentar a vocês uma reflexão sobre a questão dos leigos e leigas na Igreja nos dias de hoje.

Começo com uma notícia estrondos: o Mestre de vocês era leigo.

Os discípulos do Mestre, seus primeiros seguidores, eram todos leigos.

O maior santo da Igreja, que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e mesmo do cristianismo, São Francisco, era leigo.

Quando Maria Madalena encontrou Jesus no momento crucial da ressurreição, em João, como ela saudou-o? Não o foi como Vossa Santidade, Papa, eminente cardeal, ou, mais apropriadamente, como convém a um católico obediente, Vossa Eminência Reverendíssima, dom Jesus, senhor bispo ou simplesmente padre ou Vossa Reverendíssima. Nem o chamou, como eram expressões correntes à época de grande rabino ou ilustre mestre da lei ou sacerdote afamado.

Nada disso. Saudou-o, entre surpreendida, alegre e assustada, o que índica extrema espontaneidade, de Rabuni! O que quer dizer mestre, grande mestre ou ainda mais própria e intimamente, meu mestre, meu grande mestre.

Jesus sentava-se para conversar com seus amigos em roda. Ceava com eles em roda. Não havia um lugar mais elevado ou um trono reservado a ele para partilharem pão e vinho.

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Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?

Papa e o chileno Cruz: encontro decisivo

Uma entrevista de Juan Carlos Cruz, um dos que foram abusados sexualmente pelo padre chileno Fernando Karadima quando criança, traz à luz todo o horror  vivido na Igreja do Chile. Neste fim de semana (28 e 29), ele e mais duas vítimas estarão com o Papa no Vaticano. Durante sua visita ao Chile em janeiro, Francisco defendeu os bispos acobertadores dos abusos e atacou as vítimas, no grande equívoco de seu papado, pelo qual tem se penitenciado nos últimos meses. Esta talvez seja a última chance da Igreja Católica no tema da pedofilia.    

Há perguntas cruciais dirigidas aos católicos e católicas. Que Igreja é essa na qual reina o silêncio diante dos crimes seguidos de muitos de seus líderes? Até quando o silêncio que encobre milhares de atos de abuso sexual de crianças e jovens continuará a merecer a condescendência da massa de fiéis? Que futuro terá essa igreja?

Por Mauro Lopes

Francisco está diante do que talvez seja a última oportunidade de a Igreja Católica finalmente enfrentar a epidemia de crimes contra crianças cometidas por prelados. O caso do Chile tornou-se emblemático depois da desastrosa visita do Papa ao país, em janeiro último.

Uma das vítimas, Juan Carlos Cruz, descortina todo o caso: foram centenas de abusados e a cúpula conservadora da Igreja sempre soube e apoiou os padres criminosos, inclusive o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, arcebispo emérito de Santiago e um dos integrantes do C9, Conselho de Cardeais do Papa encarregado da reforma da Cúria romana.

A situação da hierarquia católica é tal que Errázuriz chegou ao cúmulo de dizer que Cruz, por ser homossexual, talvez “tivesse gostado de ser molestado” quando criança. O caso chileno é mais escandaloso ainda porque a Igreja combativa do país dos anos 1970/80 foi destroçada pela ação de João Paulo II em aliança com o general Pinochet e a nomeação em massa de bispos e cardeais conservadores e alinhados com a ditadura, num ambiente de abusos e silêncio.

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O Papa, um menino e os pobres redefinem santidade

Na surpreendente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” (Alegrai-vos e exultai), Francisco muda a norma tradicional católica sobre santidade. A Exortação teve sua redação concluída numa assembleia com o pequeno Emanuele de 10 anos de idade e com os pobres da periferia de Roma. Ela indica que o caminho para a santidade é a decidida opção pelos pobres e a busca pela justiça. Mais ainda: que este caminho não é exclusivo dos católicos e nem mesmo dos cristãos; está aberto a todos, inclusive aos ateus e ateias. Dom Oscar Romero é santo; igualmente santas são Edith Stein, Olga Benário Prestes e Marielle Franco.

Por Mauro Lopes

O Papa imaginou haver concluído no dia dedicado à memória de São José (19 de março) o mais franciscano documento de seu papado, a Exortação Apostólica sobre o caminho de santidade. Mas não. O texto foi finalizado por Francisco somente um mês depois, no 3º Domingo da Páscoa, em 15 de abril, no encontro com um menino de dez anos com o significativo nome de Emanuele, numa assembleia com pobres da periferia de Roma.

Naquele domingo, o Papa, que é antes de tudo o bispo de Roma, foi à paróquia de São Paulo da Cruz, na periferia mais pobre de sua diocese. O primeiro momento da agenda foi um encontro com crianças que frequentam a catequese. Quando chegou a vez de Emanuele, de apenas 10 anos, o menino aproximou-se do microfone e começou a chorar copiosamente.

Francisco chamou-o, “Vem, vem aqui comigo, Emanuele, e me diz ao ouvido, diz-me ao ouvido”. O menino foi, aos prantos, abraçado pelo pároco, padre Roberto Cassano. Francisco e o menino conversaram por poucos minutos, longe dos microfones, cabeça a cabeça. Quando Emanuele voltou ao seu lugar, o Papa, autorizado pela criança, relatou o diálogo.

Emanuele perdeu o pai recentemente e estava com o coração apertado com a dúvida se seu pai, que era ateu, estaria no céu no inferno – mesmo ateu, o pai de Emanuele fez batizar o menino e seus dois irmãos e uma irmã. Esta era a razão do choro angustiado.

O que disse o Papa?

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Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.” Continue lendo “Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora”

Nova geopolítica do Vaticano: perto da China, longe dos EUA

Chineses saúdam o Papa na Praça São Pedro em Roma

Com Francisco, a geopolítica do Vaticano é marcada por aproximação com a China, a Rússia, a América Latina e as periferias. E distância dos EUA e dos governos de direita na Europa e no mundo. Vira-se a página tanto da visão geopolítica de João Paulo II de alinhamento com os EUA numa dinâmica anticomunista e antiesquerda como da visão do “eurocentrismo frouxo” de Bento XVI

Por Mauro Lopes

A normalização das relações entre a Igreja Católica e a China, esperada para as próximas semanas é resultado de um dos mais notáveis feitos de Francisco: a mudança radical operada na geopolítica do Vaticano. Este giro talvez possa explicar a oposição crescente ao Papa de forças poderosas, pois na esfera da geografia política está a balança do poder global.

É uma virada espetacular. Foram 70 anos de conflito que estão para ser deixados para trás. O sinal definitivo de que as negociações estão maduras para um desenlace veio em 30 de janeiro, quando o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, declarou numa entrevista ao Vatican Insider: “A esperança é poder chegar um dia, quando seja a vontade do Senhor, em que não se fale mais de bispos ‘ legítimos’ e ‘ilegítimos’, ‘clandestinos’ e ‘oficiais’ na Igreja chinesa, mas num encontro como irmãos”.

Durante décadas, a Igreja esteve dividida entre uma “patriótica”, admitida pelo governo chinês, e uma “clandestina” (na verdade, mais discreta que clandestina), alinhada ao Vaticano. Em dezembro, uma delegação vaticana esteve em Pequim e costurou um acordo para que todos os bispos, seja os da Igreja “patriótica” como os da “clandestina” passem a compor uma estrutura única.

João XXIII, João Paulo II e Bento XVI

Foram quase 40 anos, sob João Paulo II e Bento XVI, especialmente sob Karol Wojtyla, de uma geopolítica vaticana orientada pelo anticomunismo. O auge desta política foi sob João Paulo II, nos marcos da Guerra Fria. O papa polonês era um anticomunista ferrenho que ideologizou por completo as relações geopolíticas do Vaticano. Rompeu-se a lógica eurocêntrica de séculos e soterrou-se igualmente a tentativa de abertura ensaiada por João XXIII. Continue lendo “Nova geopolítica do Vaticano: perto da China, longe dos EUA”

No que deu a Polônia dos sonhos de João Paulo II

Eis os católicos de direita na Polônia: querem forca; mais adiante pedirão fogueiras?

Eis no que deu a “revolução cristã” conservadora encetada sob a liderança de Karol Wojtyla no final do século XX e início do XXI em sua terra, a Polônia..

Veja a foto que encima este post. São membros do grupo católico de extrema direita, integrista e antissemita ONR (Obóz Narodowo-Radykalny Falanga), que, no último sábado (25) foram às ruas com forcas (isso mesmo). Quem esses católicos desejam ver enforcados: seis eurodeputados do partido Plataforma Cívica que votaram a favor de uma resolução do Parlamento Europeu advertindo o governo de Varsóvia contra os seguidos desrespeitos ao Estado de Direito (veja aqui a nota do italiano La Repubblica).

O ONR Falanga é um grupo fascista inspirado na Falanges espanholas de Franco. Mas eles assumem que o catolicismo tem um aspecto ainda mais central no movimento do que no falangismo/fascismo espanhol. São críticos do “capitalismo liberal”, odeiam a esquerda, os judeus e os muçulmanos, são arquiconservadores quanto às questões identitárias e defendem abertamente a restrição aos direitos humanos. O símbolo da organização é eloquente quanto à sua identidade, moldada pela estética nazi-fascista (veja ao lado).

Milhões de católicos conservadores e amedrontados diante do mundo tornaram-se a bucha de canhão dos diversos agrupamentos (quase todos católicos) de extrema-direita que buscam lançar o pais numa jornada xenófoba, racista, que investe igualmente contra muçulmanos, judeus, direito ao aborto e qualquer direito que ofenda o que denominam sua “fé”.

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João Paulo II: os anos terror na Igreja (artigo 1 de 3)

João Paulo II e Pinochet no Palácio de La Moneda, em Santiago (1987), onde o presidente Salvador Allende fora assassinado em 1973 pelas tropas do exército

O pontificado de João Paulo II ainda hoje é entendido pela opinião pública como governo de um homem de fé enraizada, carismático, determinado, defensor da paz, corajoso. Ao longo dos 26 anos de seu longo papado, entre outubro de 1978 e até sua morte, em 2 de abril de 2005, Karol Józef Wojtyła tornou-se um superstar, mobilizando multidões em suas viagens ao redor do planeta. Sua resiliência em conduzir a Igreja doente, alquebrado, imerso em dores, reforçou ainda mais sua imagem.

Mas há um lado que ficou escondido ao longo dos anos, distante dos olhos da imensa maioria das pessoas: foram anos de punições, medo e até terror no interior da Igreja; dirigido contra bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia da Libertação ou simplesmente adeptos do Concílio Vaticano II. O objetivo: liquidar a Teologia da Libertação, o espírito da primavera do Concílio Vaticano II e realizar o que João Paulo afirmou como prioridade de seu papado, no discurso inaugural: restaurar “a grande disciplina” (leia aqui a mensagem Urbi et Orbi de 17 de outubro de 1978, no dia seguinte à eleição do cardeal Wojtyła como Papa).

Numa breve série de três artigos aqui no Caminho Pra Casa você lerá: 1) uma visão panorâmica do governo de João Paulo II; 2) depois, uma lista inédita que, longe de ser exaustiva, apresenta quase 200 ações repressivas de João Paulo II que semearam medo e silêncio na Igreja; 3) finalmente, o arcabouço doutrinal/institucional desenhado por João Paulo II e seu braço direito, o cardeal Joseph Ratzinger, que seria seu sucessor, com o objetivo de consolidar a visão que o Papa Francisco hoje qualifica de restauracionista e inviabilizar uma nova primavera –que finalmente chegou com a eleição de Jorge Mario Bergoglio em 2013 .

Foi um tempo longo, da “grande disciplina”, expressão que o teólogo brasileiro João Batista Libânio (1932-2014) tomou do discurso de João Paulo II e consagrou como definidora do pontificado.  O teólogo belga e brasileiro por ternura José Comblin (1923-2011) qualificou o tempo de Wojtyła de “noite escura”. O maior teólogo do século XX, Karl Rahner, vítima de uma campanha de um ataques agressivos pelo Vaticano menos de um ano depois de sua morte, em 1984, cunhou outro termo para o tempo da restauração conservadora:  “Igreja invernal” –um inverno longo, frio, de chumbo.

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