Padre Paulo Bezerra: nome de Francisco não é mencionado nas missas em muitas paróquias

Padre Paulo Sérgio Bezerra é um dos mais expressivos líderes da Igreja Católica alinhada com o Papa Francisco no Brasil e, por isso, perseguido cotidianamente pelos católicos conservadores. Ele denuncia o boicote ao Papa no interior da Igreja: “[Francisco] nem é citado na oração eucarística. Há paróquias aqui que quando fala lembremos do Papa, não fala nem o nome dele”. Bezerra é padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

Para ele, os seminários formam cada vez mais padres carreiristas e sua estrutura “leva à rejeição da Igreja de Francisco”. É a segunda entrevista de padre Paulo Bezerra que Caminho Pra Casa publica -a primeira foi em janeiro de 2017: “Padre Paulo: papados conservadores ‘destruíram Igreja inserida na vida dos pobres’ no Brasil e AL”.

Desta vez, quem fez a entrevista foi outro padre, Luis Miguel Modino, jornalista e pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que terá um papel importante na divulgação e reflexão sobre o Sínodo da Amazônia, que acontecerá em 2019.

(Mauro Lopes)

Por padre Luis Miguel Modino

Um padre da periferia, da Teologia da lLbertação, da opção pelos pobres. Esse é Paulo Sergio Bezerra, alguém que, depois de 36 anos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tem se tornado uma referência para muitos. Chegou lá seguindo os passos de dom Angélico Bernardino, um bispo que, mesmo emérito, nunca perdeu sua voz e seu testemunho profético.

Nesta entrevista, o Padre Paulo, reflete sobre a realidade social e eclesial no Brasil atual e sobre as mudanças que têm acontecido desde que 38 anos atrás foi ordenado padre. Define os padres novos e seminaristas dizendo que “buscam a carreira”, clericais, interessados mais nos objetos religiosos do que nos livros, criticando também os institutos de teologia, onde “alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala”. Nesse sentido ele afirma que “com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão”.

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Nas missas, proclama-se a divisão do pão e do peixe; mas a Igreja escuta cada vez menos

Foto de João Zinclar

A mais explícita indicação da consequência do amor proclamado por Jesus é repetida por seis vezes nos Evangelhos: a  partilha do pão e do peixe. Isso não acontece com nada mais nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. As primeiras comunidades cristãs assumiram essa mensagem e praticaram um tipo de comunismo primitivo. Uma dessas  narrativas foi proclamada nas missas deste domingo (29); mas a Igreja quase não escuta mais

Por Mauro Lopes

Não há nada parecido nos Evangelhos: apenas a passagem da divisão dos pães e dos peixes é narrada seis vezes, sendo duas vezes em Mateus e Marcos. Neste 17º Domingo do Tempo Comum, ouviu-se nas missas na Igreja Católica e de algumas outras denominações o mais longo dos relatos, do Evangelho de João (leia ao final ou aqui).

É a expressão mais concretizada da mensagem central de Jesus: o amor só se realiza na partilha, no movimento que realizamos na direção do outro, da outra. Não há cristianismo quando vige a insensibilidade diante da miséria e da fome, das doenças que as acompanham, da opressão e humilhação dos mais pobres.

As primeira comunidades cristãs entenderam isso de maneira radical (indo à raiz) e, no relato dos primeiros dias, os Atos dos Apóstolos, por duas vezes está descrito como a mensagem de Jesus foi entendida, numa espécie de comunismo primitivo:

“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (Atos 2, 44-45)

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade.” (Atos 4, 32-35)

Este comunismo primitivo foi brilhantemente anotado num pequeno livro de Rosa Luxemburgo, de 1905: O socialismo e as igrejas – o comunismo dos primeiros cristãos (Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1986).

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Contra as versões falsificadas de Francisco, o Papa dos Pobres

Padre Julio Lancellotti chamou-me a atenção para este texto do excepcional Andrea Grillo, um do teólogos de vanguarda desta primeira metade do século 21. O artigo, ao fazer a crítica de um livro recém-lançado sobre a trajetória intelectual de Francisco, é uma vacina poderosa contra as tentativas de pasteurização e aburguesamento de sua imagem. Há três Papas na praça, apenas um deles é de fato Francisco: o Papa dos Pobres. Episódios recentes das homilias de Francisco contra os golpes e as mídias conservadoras e sobretudo o caso do “terço do Papa” ilustram bem as diferentes projeções da figura de Bergoglio.

Por Mauro Lopes, breve introdução ao texto de Andrea Grillo.

Temos hoje três projeções da figura do Papa Francisco disseminadas mundo adentro, no cristianismo e fora dele. São elas, resumidamente:

1.  O Papa dos Pobres, que recupera a originalidade do cristianismo, o espírito do Vaticano II, que combate a herança desastrosa e conservadora de Wojtyla e Ratzinger e alinha a Igreja aos deserdados, ao degradados, aos perseguidos e injustiçados à turma de Jesus. Recupera o Pacto das Catacumbas que reuniu bispos e padres num compromisso à margem do Vaticano II, de uma Igreja pobre com os pobres. Assim leem o Papa os cristãos vinculados à teologia latino-americana, à teologia liberal norte-americana e europeia e à teologia do ecumenismo e do pluralismo religioso da Ásia, todos perseguidos nos 35 anos anteriores a Francisco.

2. O Papa esquerdista, tirano, com tendências comunistas, amigo dos “vermelhos”, traidor da tradição e da “pureza” da Igreja (na verdade, da Igreja medieval e do projeto restauracionista dos dois papas que o antecederam). Assim enxergam Francisco os tradicionalistas radicais, a direita da Igreja, que desejam uma religião de ritos tridentinos e dupla moral, cujo maior exemplo é a Igreja do Chile. São liderados pelos católicos extremistas dos EUA e Europa e no Brasil têm uma rede de apoio.

3. O Papa “meio a meio”, “nem tanto ao mar nem tanto à terra”, na verdade um continuador de João `Paulo II e Bento XVI, que é moderado, em cima do muro, que dá uma no cravo e outra na ferradura. Um papa “tucano” (isso antes de os tucanos se tornarem adeptos de golpes de Estado). Disseminam esta imagem os “moderados”, cuja representação mais vistosa é a atual direção da CNBB. É a turma do “deixa disso”. Além deles, apropriam-se desta imagem  e os tradicionalistas “espertos”, que querem ir “cozinhando” Francisco até sua morte e a eleição de (esperam) um continuador de João Paulo II e Bento XVI, os “papas de verdade”. Esta turma engole Francisco em público, faz festa nos temas morais em que Francisco busca alguma composição, distribuem “fake news” todo o tempo, inventando um Papa que nunca existiu.

Vimos essa “disputa” em torno da imagem do Papa nos episódios das homilias recentes de Francisco contra as ditaduras e os golpes de Estado patrocinados pelas mídias conservadoras e, sobretudo, no caso do envio do argentino Juan Grabois a Lula na cadeia, em Curitiba -a visita foi vetada pela PF e ficou conhecida pelo terço que Francisco abençoou e mandou ao ex-presidente.

Foram duas homilias, ambas em celebrações na capela Santa Marta, no Vaticano, onde preside as missas sempre que está em Roma. Em nenhuma delas o Papa citou Lula ou o Brasil (ou sua Argentina), mas é evidente a menção:

Na primeira, em 17 de maio, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado” (aqui).

Na segunda, ontem (18), um mês depois, Francisco voltou a descrever a situação brasileira à perfeição, sem mencionar o país: “Se concede todo o aparato da comunicação a uma empresa, a uma sociedade que faz calúnia, diz falsidades, enfraquece a vida democrática. Depois vêm os juízes a julgar essas instituições enfraquecidas, essas pessoas destruídas, condenam e assim vai avante uma ditadura. As ditaduras, todas, começaram assim, adulterando a comunicação, para colocar a comunicação nas mãos de uma pessoa sem escrúpulo, de um governo sem escrúpulo” (aqui).

O caso de Juan Grabois ficou bem conhecido no Brasil, com enorme repercussão. O argentino, coordenador dos três Encontros Mundiais dos Movimentos Populares ao lado do cardeal Peter Turkson e consultor do Vaticano, é um dos braços direitos de Francisco, que o enviou até Curitiba, com uma mensagem e um terço (toda a história está aqui).

Nos episódios das homilias e do terço, as três visões sobre Francisco moldaram a reação dos agrupamentos de católicos e dos protagonistas na sociedade. Os que consideram Francisco o Papa dos Pobres alegraram-se com as homilias e o envio de Juan Grabois e cuidaram de divulgá-las ao máximo, com apoio entusiasmado ao Papa; os que consideram Francisco um Papa esquerdista consideraram as homilias “políticas” e tentaram desmoralizar a iniciativa da visita da Lula considerando as notícias sobre o fato como “fake news”; os que  projetam Francisco como um Papa “meio a meio” silenciaram, não se referiram às homilias ou à visita, o que tem sido recorrente -é o caso, por exemplo, da CNBB. No caso dos grupos do catolicismo de direita e moderado, há um aspecto relevante em sua postura: Francisco, como o mais carismático Papa da história, foge a todos os padrões do monarca que obedece às normas e regras rígidas da instituição; Bergoglio passa por fora da estrutura eclesial e age diretamente na relação com seu rebanho, utilizando até um argentino com jeito de motoqueiro em vez de monsenhores sisudos e fantasiados de solenidade.

O artigo de Andrea Grillo, escrito originalmente em seu blog Come Se Non (aqui, em italiano) foi traduzido por Moisés Sbardelotto e publicado em português no fantástico IHU, dos jesuítas do Rio Grande do Sul. A íntegra segue abaixo.

O texto é uma resenha crítica do livro de Massimo Borghesi,  Jorge Mario Bergoglio. Uma biografia intelectual (Petrópolis: Vozes, 2018), que está mobilizando grande atenção nos meios intelectuais católicos e cristãos em geral. Como explica Grillo no início, o artigo é iluminado por sua experiência no  Simpósio IHU sobre “A virada profética do Papa Francisco” que polarizou teólogos e pensadores cristáos de todo o mundo entre 21 e 24 de maio de 2018 no campus da Unisinos, em Porto Alegre.

O artigo de Grillo tem o título de “A virada profética do Papa Francisco: virtudes histórico-filosóficas e vícios sistemáticos de uma biografia intelectual”. É imperdível.

Segue a íntegra:

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Corpus Christi: de uma “festa de guerra” ao encontro com o outro

A solenidade de Corpus Christi, criada no auge da cristandade para afirmar um catolicismo hegemônico com “espírito de guerra”, serviu ao desenvolvimento de uma religião na qual imagina-se comungar com Cristo no íntimo do coração, num rito ensimesmado,  sem preocupação com os que sofrem. Partilha-se o pão da eucaristia ignorando a fome de milhões de irmãos privados de pão, de justiça e de futuro. No Vaticano II, buscou-se reformar este espirito, aproximando a solenidade do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, de divindade.

Por Mauro Lopes, com texto de José Antonio Pagola | Ilustração: Guy Veloso,  da série “Penitentes”, Belém, Pará, Brasil (2006), tomado de Matersol  

A solenidade de Corpus Christi (Corpo de Cristo) celebrada hoje (31) foi estabelecida no século XII, auge da cristandade, como uma “festa de guerra”, animada por um espirito apologético. A dinâmica de sua criação foi a da afirmação da hegemonia da Igreja Católica, numa lógica ensimesmada que buscava fazer da missa o centro da vida do católico e do rito da comunhão um privilégio que conduzia ao ensimesmamento.

No Concílio Vaticano II foi reformada, tornou-se a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Apesar de os conservadores buscarem manter este caráter de uma “festa de guerra”, ela é hoje, depois do Vaticano II, uma celebração do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, divindade.

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Scholas Ocurrentes: projeto político pedagógico de Francisco que atualiza as CEBs

Eduardo Brasileiro e a delegação da IPDM com o Papa em Roma

Um novo jeito de os jovens serem  “Igreja em Saída” no meio dos pobres. Scholas Ocurrentes, o projeto do Papa Francisco que atualiza a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

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Leia artigo-testemunho de Eduardo Brasileiro, membro da IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento), educador social do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, e participante do 3º Encontro Internacional de Jovens animado pelo Papa Francisco e organizado pela Fundação de Direito Pontifício Scholas Ocurrentes entre 6 e 11 de maio em Roma: 

Desde 1990, Francisco, ainda Cardeal de Buenos Aires, iniciou um projeto chamados ‘Scholas de Ciudadania’ onde desenvolveu uma experiência comunitária de engajamento popular nas causas comuns. Naquela época realizou encontros ecumênicos, oficinas para jovens, ações comunitárias, convivências compartilhadas.

Quando eleito Papa, criou uma fundação de direito pontifício chamada “Scholas Ocurrentes” (escolas dos encontros), onde ampliava o projeto de Buenos Aires, numa dimensão global de formação cidadã para jovens com engajamento em suas comunidades.

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A teimosa esperança do povo – para Boff e Esquivel

 

Uma poesia do professor Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães, da PUC-MG para Leonardo Boff e Adolfo Pérez Esquivel. É para Lula também. E para os profetas e todos os perseguidos por terem sede de justiça. Mas é sobretudo sobre a primavera e a teimosa e corajosa esperança do povo.

Por Edward Neves Monteiro De Barros Guimarães

Neste tempo atroz em que vivemos
Há tiranos que se julgam onipotentes
Tentam impedir o novo, a primavera
Parar a fé militante e a luta do povo
Mas não é suficiente!

Primeiro tentam destruir o nome
Difamar a trajetória do líder
Aquele em quem o povo se reconhece
E que alimenta o fio tênue da esperança
Mas não é suficiente!

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O Papa, um menino e os pobres redefinem santidade

Na surpreendente Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” (Alegrai-vos e exultai), Francisco muda a norma tradicional católica sobre santidade. A Exortação teve sua redação concluída numa assembleia com o pequeno Emanuele de 10 anos de idade e com os pobres da periferia de Roma. Ela indica que o caminho para a santidade é a decidida opção pelos pobres e a busca pela justiça. Mais ainda: que este caminho não é exclusivo dos católicos e nem mesmo dos cristãos; está aberto a todos, inclusive aos ateus e ateias. Dom Oscar Romero é santo; igualmente santas são Edith Stein, Olga Benário Prestes e Marielle Franco.

Por Mauro Lopes

O Papa imaginou haver concluído no dia dedicado à memória de São José (19 de março) o mais franciscano documento de seu papado, a Exortação Apostólica sobre o caminho de santidade. Mas não. O texto foi finalizado por Francisco somente um mês depois, no 3º Domingo da Páscoa, em 15 de abril, no encontro com um menino de dez anos com o significativo nome de Emanuele, numa assembleia com pobres da periferia de Roma.

Naquele domingo, o Papa, que é antes de tudo o bispo de Roma, foi à paróquia de São Paulo da Cruz, na periferia mais pobre de sua diocese. O primeiro momento da agenda foi um encontro com crianças que frequentam a catequese. Quando chegou a vez de Emanuele, de apenas 10 anos, o menino aproximou-se do microfone e começou a chorar copiosamente.

Francisco chamou-o, “Vem, vem aqui comigo, Emanuele, e me diz ao ouvido, diz-me ao ouvido”. O menino foi, aos prantos, abraçado pelo pároco, padre Roberto Cassano. Francisco e o menino conversaram por poucos minutos, longe dos microfones, cabeça a cabeça. Quando Emanuele voltou ao seu lugar, o Papa, autorizado pela criança, relatou o diálogo.

Emanuele perdeu o pai recentemente e estava com o coração apertado com a dúvida se seu pai, que era ateu, estaria no céu no inferno – mesmo ateu, o pai de Emanuele fez batizar o menino e seus dois irmãos e uma irmã. Esta era a razão do choro angustiado.

O que disse o Papa?

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CNBB: quando a diplomacia não combina com a profecia e o Evangelho

Dom Sérgio da Rocha, presidente da CNBB

Padre Luis Miguel Modino avalia as duas notas lançadas nesta quinta-feira (19) pela CNBB para marcar o encerramento de sua 56ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP). Falta profetismo e Evangelho à entidade dos bispos brasileiros; sobram diplomacia e silêncios cúmplices

Por padre Luis Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira*

Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho.

O episcopado brasileiro publicou neste 19 de abril duas notas nas quais pretende apresentar sua postura diante do momento sócio-político que o país atravessa e das eleições que devem acontecer em outubro. Os textos são resultado dos debates levados a cabo na 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu de 11 de abril até hoje (20) os prelados do país.

Eram pronunciamentos esperados, mas em muitos deixaram um gosto agridoce, com palavras temperadas que tentam agradar a todos, mas que acabam produzindo o efeito oposto.

Na primeira nota, sob o título de “Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Povo de Deus” (veja a íntegra no final), a CNBB começa defendendo-se dos ataques sofridos nas redes sociais, dos quais participam grupos conservadores e reacionários, com o apoio mais ou menos explícito de padres, alguns com grande popularidade, sem qualquer  atitude concreta por parte dos bispos dos quais dependem canonicamente. São estes os mesmos grupos nos quais confluem interesses políticos, econômicos e religiosos, que perseguem os bispos e a CNBB.

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Dia decisivo na assembleia da CNBB

Celebração eucarística durante a Assembleia da CNBB em Aparecida

Assembleia da CNBB irá se manifestar sobre as eleições e o momento nacional. Na quarta (18), falaram três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha com o Papa: dom Claudio Hummes,  dom Roque Paloschi e dom Guilherme Werlang. Dom Paloshi foi contundente sobre a criminalização dos movimentos sociais e daqueles que atuam ao lado dos mais pobres: “Temos consciência de que se a Igreja não falar, as pedras vão falar”.

Por Mauro Lopes, com informações da CNBB

Nesta quinta (19), a 56ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida, divulgará duas manifestações importantes, sobre as eleições e o momento nacional. Elas darão o norte da Igreja Católica no país nos próximos tempos: haverá profetismo ou será mantida a linha de concessões aos integristas com uma posição dúbia e silente diante dos atentados às democracia, aos assassinatos e prisões injustas?

Ontem falaram à assembleia três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha ao lado do Papa. Eles participaram da entrevista coletiva diária organizada pela CNBB (se quiser, você pode clicar no link abaixo e assistir).

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Uma carta aos bispos brasileiros: defendam os pobres e a democracia!

Um carta aberta do professor Robson Sávio Reis Souza aos bispos do Brasil, que se reúnem em Aparecida a partir de hoje (11) para mais uma assembleia da CNBB:  “tendo em vista sua história na luta pelas liberdades democráticas e pela justiça social” que a entidade posicione-se “claramente sobre a situação política atual do nosso país, a indicar à sociedade brasileira caminhos de superação da crise. Está em jogo, no atual momento, o futuro da nossa Nação.” Ao final da carta, uma indicação tomada da Exortação Apostólica Alegrai-vos e Exultai do Papa Francisco, que acaba de ser lançada: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo”.

Por Robson Sávio Reis Souza

Nesta quarta (11) começa em Aparecida a  56ª Assembleia Geral da CNBB (a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Ela acontece em meio a uma brutal crise do país e da própria Igreja Católica.

Tradicionalmente, a CNBB pronunciou-se em suas assembleias sobre o cenário nacional, como uma voz ao lado dos pobres, da democracia e da justiça. No entanto, sob pressão do clero e movimentos católicos integristas, a direção da entidade tem se mantido silenciosa e acuada nos últimos meses.

O professor Robson Sávio Reis Souza escreveu uma carta aos bispos brasileiros estimulando-os a saírem do silêncio e posicionarem-se claramente sobre o momento nacional, na perspectiva histórica da entidade, nascida “da inspiração de Dom Hélder, o ‘santo rebelde’.

Professor da PUC-MG e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, Robson é coordenador da Comissão da Verdade em Minas Gerais e  integrante da Rede de Assessores do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (organismo da própria CNBB).

Leia a íntegra da carta: Continue lendo “Uma carta aos bispos brasileiros: defendam os pobres e a democracia!”