A cadela no cio do fascismo agora pariu: tempo de terror

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes. Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres. Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 25 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado. A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares. 

Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias. O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500. Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas. O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. 

Por Mauro Lopes 

12 de março

1. Assassinado com quatro tiros Paulo Sérgio Almeida Nascimento, de 47 anos, foi morto com quatro tiros. Um dos diretores da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) que desde 2017 lutava em Barcarena (PA) contra o desastre ambiental causado pela  empresa norueguesa Hydro. Seguidamente ameaçado de morte, teve pedidos de proteção negado pelo governo de Simão Jatene (PSDB).

2. Cinco indígenas Guarani foram presos  ao regressar de uma incursão numa ilha formada pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu, onde haviam ido cortar taquara, ou seja, o “bambu nativo”, para a confecção de artesanatos e construção de moradias. A ação ocorreu sobre um patrimônio privado, já que a área visitada pelos Guarani pertence oficialmente à Itaipu Binacional, mas foi retomada pela comunidade Guarani em janeiro de 2017, depois de 35 anos de expulsão. Na região de usina existiam ao menos 32 aldeias que desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu e o alagamento para formação do lago de Itaipu. Pelo menos nove dessas aldeias foram alagadas.

Ameaças ao padre Júlio Lancellotti

3. O Padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, divulgou pela primeira vez que vinha recebendo seguidas ameaças de morte pelas redes sociais. No dia 19, várias entidades exigiram providências do Ministério Público, mas nenhum responsável  pelas ameaças foi preso.

14 de março

4. A PM e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo agrediram brutalmente professoras, servidoras e servidores públicos que protestavam na Câmara de Vereadores contra projeto de lei de reforma da previdência municipal, apresentado pelo governo Doria. O projeto visava congelar salários e aumenta a contribuição previdenciária de 11% para 19%. Depois de greve e intensa mobilização de milhares de servidoras e servidores, o projeto foi derrotado, em 27 de março.

Os tiros que mataram Marielle

5. A vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram executados no Rio de Janeiro, num crime que causou indignação mundial grandes manifestações de  protesto em todo o país. Apesar de todos os indícios apontarem para as milícias que, compostas por policiais e ex-policiais, controlam várias regiões do Rio, as investigação não havia resultado em nada.

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Violência: Igreja Católica divide-se entre indignação e silêncio cúmplice

A professora Luciana e a vereadora Marielle -mulheres lideram e pagam alto preço

CNBB mais uma vez silencia diante da violência. Franciscanos levantam-se e acusam: “malditas as armas que ferem e matam, maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas”. Arquidiocese do Rio chegou a relacionar execuções de Marielle  e Anderson ao tema do aborto 

Por Mauro Lopes

Passadas 20 horas da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista  Anderson Pedro Gomes no Rio de Janeiro, a direção nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),  permanecia em silêncio na tarde de quinta-feira (15) -em pleno transcurso da Campanha da Fraternidade dedicada ao tema da violência. Da mesma forma, mais de 24 horas depois da violência brutal da PM e da GCM que se abateu sobre servidoras e servidores municipais de São Paulo, a Arquidiocese da capital paulista permanecia silente.

A CNBB parece acuada diante das agressões seguidas que tem sofrido da direita católica –e reage recolhendo-se ao silêncio, em vez de colocar-se ao lado dos pobres do país, como fizeram as gestões da Conferência em outros tempos e como faz Francisco. O Papa é um exemplo: não se intimida diante da campanha que lhe movem os integristas católicos, e está onde os cristãos devem estar, sempre: com a vítimas.

Quem assumiu a frente da Igreja Católica no país, mais uma vez, foram os franciscanos.  Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, líder da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, divulgou na manhã desta quinta (15) uma nota vigorosa, contra a execução de Marielle e o ataque em de São Paulo, expressando a “indignação e tristeza” dos franciscanos.  “Malditas as armas que ferem e matam” é o título da nota. No texto, os franciscanos acrescentaram: “maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas e as transformam em objetos usados de acordo com a conveniência de quem domina”.

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Isso que está aí não é mais democracia

O que Temer foi fazer na reunião do Conselho Militar de Defesa em 22 de fevereiro? Presidentes civis não vão lá. Foto: Marcos Corrêa/PR

Nove evidências de que a democracia foi para o ralo no Brasil e que há um novo regime: 1) houve um golpe de Estado; 2) o Poder Judiciário sublevou-se contra a Constituição; 3) os militares deixaram os quartéis e coagem a sociedade; 4) voltam os “militares linha dura”; 5) as liberdades e garantias estão caindo por terra; 6) a censura é cada vez mais agressiva; 7) acontecem as primeiras prisões políticas; 8) há um conluio dos golpistas  com o crime organizado; e 9) não haverá eleições livres este ano.

Por Mauro Lopes

A democracia no Brasil entrou em colapso e estamos nos primeiros momentos de um novo regime de tipo ditatorial.

Há resistências quanto a esta assertiva.

Na direita, a rejeição é óbvia: são as forças políticas que estão demolindo a democracia e jamais admitirão isso. Como em 1964, sufocam a democracia dizendo defendê-la. Basta ver a reação dos jornais das elites em 1 de abril de 1964: “Vitorioso o movimento democrático” (manchete de O Estado de S.Paulo) e “Ressurge a democracia” (editorial de O Globo) . Agora, não é diferente, como temos assistido à farta.

No entanto, mesmo entre as forças de esquerda, há desacordo. Um sintoma do que parece ser uma miopia que acometeu amplos segmentos da esquerda foi a postura diante da intervenção federal/militar no Rio: em vez da denúncia de seu caráter autoritário, líderes e analistas políticos de esquerda dedicaram-se a especular sobre as decorrências políticas e sobretudo eleitorais do ato, acolhendo a tese de que a intervenção estaria ainda nos parâmetros de “normalidade institucional”. Da mesma forma, estes mesmos analistas anunciaram o “constrangimento” dos militares em suas novas funções, a que teriam sido praticamente “arrastados” quando o que se vê é o contrário: os generais estão à vontade e cada dia mais explicitam seu prazer pelo exercício de um poder que consideraram roubado com a redemocratização do país nos anos 1980.

O fato é que temos escorregado ladeira abaixo desde a noite da reeleição de Dilma Roussef, quando o candidato derrotado anunciou que o resultado não seria respeitado e iniciou-se a trama do golpe abertamente. Escorregamos de início lentamente, mas a velocidade aumentou de maneira alucinante nas últimas semanas. Não vivemos uma ditadura militar sanguinária como a que testemunhamos no país por longos anos desde 1964 e em quase toda a América Latina entre mais ou menos contemporaneamente. Mas isso que está aí não é mais democracia, e continua a decair.

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Doria e a Cracolândia: a questão não é gente, é GRANA; um roteiro do caso

Cracolândia: tiros e bombas contra doentes

A drogadição é um tema de extrema delicadeza, que envolve histórias de sofrimento para milhões de pessoas. Uma doença que arrasa os dependentes e destroça suas famílias, em geral afetadas pela doença dramática da codependência.  Mobiliza sentimentos de compaixão e raiva. Uma onda de repulsa perpassa amplos segmentos da sociedade, que nutrem nojo/ódio àqueles que, com sua doença, denunciam nas Cracolândias em todo o planeta a normalidade controlada, domesticada. Eles são lixo para o status quo -o que cabe é removê-los..

Com a legitimidade social que o discurso do ódio e do salve-se quem puder conquistou nos últimos anos, a instrumentalização dos medos e fantasmas abriu espaço ao tratamento que o lixo deve ter: remoção. É nesse mar de sofrimento e dor que surfa o prefeito de São Paulo, João Doria. Ele promete ordem, paz, remoção do lixo. O mesmo discurso do higienismo nazista, o mesmo discurse a “loucura” do século 18, agora com novo alvo. Seu moto verdadeiro não são as pessoas ou a situação dramática em que vivem. O tema de fundo de Doria é a Nova Luz –um negócio de bilhões que irão para os bolsos de construtores, operadores financeiros, lobistas, amigos e amigas, para as famiglie.

A questão, para Doria e os seus, não é gente, é grana, muita grana. O prefeito imaginou que poderia mobilizar a dor, o medo e os fantasmas para sua “faxina”, deixando o terreno livre para a negociata. O império das coisas, não a sociedade das pessoas. Conseguirá?

Um breve roteiro para entender a ação do prefeito ou, mais exatamente, da dupla Alckmin/Doria que retomam um projeto de anos atrás, da dupla Alckmin/Kassab. Não há diferença de projeto, mas de intensidade e ritmo, pois a voracidade é característica conhecida de Doria nos meios empresariais e, agora, políticos.

TROPAS CONTRA PESSOAS DOENTES – A CRACOLÂNDIA ACABOU?

Num domingo (21 de maio), enquanto a cidade via morrer pela ação de Doria uma de suas festas mais relevantes, a Virada Cultura, o governo do Estado e a Prefeitura mobilizaram uma tropa de cerca de mil homens com armamentos pesados e disposição para a guerra. Quem eram os inimigos? Doentes adictos de crack, esquálidos e indefesos, e meia dúzia de traficantes pé de chinelo.

A versão divulgada pela polícia e amplificada pelo prefeito e o governador com aceitação acrítica da mídia conservadora tentou vender a ideia de que a ação fora uma guerra. Ora afirmaram terem sido presos 28 traficantes, ora 29, ora 39; o Estadão, a linha de frente do reacionarismo mais tacanho chegou a postar uma manchete delirante:  Líderes do PCC são presos durante megaoperação na Cracolândia.

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Eleições: a vitória dos ricos

Pierre-Auguste Renoir, O baile no moulin de la galette, 1876 (detalhe)

O resultado das eleições municipais de 02 de outubro é desastroso para os pobres. A vitória de João Doria no principal centro do país é o símbolo do que aconteceu neste domingo.

Os ricos venceram e não apenas pelo conteúdo dos projetos, mas venceram sendo eleitos eles próprios em grandes, médias e pequenas cidades.

O projeto das elites, urdido desde sempre, mas a partir de 2013 como um processo articulado de tomada de poder, está vitorioso: arrasou-se com o PT, prevaleceu o discurso do ódio, disseminou-se entre as classes médias e os pobres o “crack” do sonho de riqueza individual, tão ilusório quanto as viagens da pedra viciante.

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O seu palpite sobre a mãe de Ítalo é um lixo

Cíntia Ferreira Francelino, mãe de ìtalo, executado aos 10 anos de idade pela PM de São Paulo

“Meu Deus, ele só queria cantar, o negócio dele era cantar. Ele só queria atenção, meu Deus, por que fizeram isso com ele, moço, me ajuda. Me ajuda pelo amor de Deus, gente. Ô gente, pelo amor de Deus, meu filho só tem 10 aninhos” – palavras de Cíntia Ferreira Francelino, mãe de Ítalo, no IML, na manhã seguinte ao assassinato de seu filho pela PM de São Paulo, em 2 de junho de 2016.

Ítalo não roubou apenas um carro. Roubou uma SUV, veículo-símbolo dos que são bem sucedidos e dirigem pelas ruas sentindo-se imunes e intocados pela miséria e a violência ao redor. Por seu crime contra a propriedade e, sobretudo, por sua afronta a um símbolo sagrado do capitalismo xinfrim brasileiro, foi assassinado pela PM de São Paulo.

Tinha 10 anos. Não bastou a Ítalo ser assassinado. Não bastou à mãe perder o filho. Não bastou a eles a vida miserável. Não bastou a dor. Não bastou a morte. Nada disso foi suficiente aos olhos da “sociedade brasileira”.

Não, Cíntia. Perder seu filho não bastou.

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