A derrota dos que apostaram no colapso do lulismo – como fizeram com o getulismo

 

A direita e segmentos da esquerda apostaram nos últimos anos que o lulismo agonizava e que Lula estaria condenado ao isolamento e ao ostracismo. Por isso, a direita investiu contra ele com campanhas, processos, a prisão e a inelegibilidade. Setores da esquerda consideraram que havia chegado a hora de superar o lulismo: a candidatura de Ciro Gomes é a maior representante dessa tendência.  O mesmo arranjo de forças que decretou a morte do lulismo agora é similar ao que decretara a morte do getulismo na segunda metade dos anos 1940.  Foram todos derrotados. O lulismo é o sucessor direto do getulismo e a relação de Lula com o povo brasileiro é tão profunda como foi a de Getúlio.

Por Mauro Lopes

A dinâmica da vida política nacional desde 2014 esteve pautada por uma suposição-chave: a de que o lulismo caminhava para o ocaso e Lula para o ostracismo.

Tal pressuposto alimentou a estratégia do grande capital, especialmente o financeiro, da direita política, da mídia conservadora conservadora e da elite do Judiciário. Este pressuposto animou-os para o golpe de 2016. Com base nele, moveram a campanha contra Lula nesses anos. Milhares de páginas, bites, memes, tempo de TV e rádio foram despejados sobre a cabeça do ex-presidente. Moveram-se os processos contra ele, a condenação e o golpe final, quando imaginaram que estaria nas cordas: a inelegibilidade. Foi um roteiro minucioso e não um desenrolar acidental.

Imaginando que o lulismo estava em seus estertores, os que patrocinaram e executaram o golpe confiaram que estava aberto o caminho para um novo ciclo, do neoliberalismo mais radical, com estabilidade suficiente para prolongar-se por anos a fio.

Da mesma forma, segmentos da esquerda pautaram sua ação nos últimos anos alicerçados nessa  pressuposição. Com o diagnóstico da agonia do lulismo , cabia encontrar alternativas, novos caminhos, novos arranjos partidários e de articulação social. Expoentes dessa visão foram Ciro Gomes, setores do PSOL e mesmo alguns (poucos) líderes do PT. 

Pois bem.

Todos esses foram derrotados. A base desta derrota está numa subestimação da relevância de Lula na história do país e de seu povo.

O lulismo está vivo, passa bem e toda a vida política do país gira em torno dele, a partir de uma pequena cela em Curitiba.

Uma das críticas mais persistentes ao lulismo é a de que os governos do PT teriam sido quase um engodo, com sua plataforma de elevação dos níveis de consumo dos mais pobres, no fenômeno que ficou conhecido como a nova classe C a partir do início do governo Lula, que incorporou quase 40 milhões de pessoas à chamada classe média.

À direita, tal feito foi subalternizado, considero um feito “menor” em função do que seria o “grande tema nacional”, o “combate à corrupção”, a partir da virada da primeira década e especialmente depois do início da Lava Jato, em 2014. Para agravar, com a crise econômica aberta em 2015, a direita política e midiática responsabilizaram o PT pela volta desse contingente às camadas D e E.

À esquerda, a crítica assentou-se numa visão segundo a qual a centralidade deste feito nos governos do PT seria uma redução das reformas pretendidas com as eleições de Lula e Dilma ao “consumismo”. Os pobres, não apenas à base da ascensão para a classe C, mas igualmente à custa do Bolsa Família, que beneficiou outros 40 milhões de pessoas, teria sido meramente “seduzidos” pelo consumo sem que os governos petistas cuidassem de sua “formação política”, ao mesmo tempo em que as estruturas partidárias, sindicais e nos movimentos sociais teriam se burocratizado, afastando o PT do povo.

Tanto a direita como setores da esquerda imaginaram que esta massa de cerca de 80 milhões de pessoas no universo total de 207 milhões de habitantes do país, teria “roído a corda” e abandonado o PT. A tese encontrou respaldo nas pesquisas sobre o apoio à Lava Jato e à derrubada de Dilma -ao fim do primeiro semestre de 2016, o índice de apoio à operação liderada por Moro chegou a 80% e ao impeachment a 70% nas pesquisas de opinião, com milhões de pessoas nas ruas contra a presidenta, uma fatia ponderável das classes médias, em especial de seus extratos superiores.

Foi de fato um abalo na relação, mas esteve longe de um rompimento. Os analistas de direita e de esquerda, quase todos dos estratos de classe média alta ou, no caso da direita, boa parte deles dos segmentos mais ricos do país, não entenderam o que Lula afirmou ao longo dos anos. Não se tratava de “consumismo”, mas de dignidade. Não se tratava de “benefício”, mas de direito.

Havia e há um vínculo muito mais profundo e forte entre os mais pobres, os trabalhadores e a nova classe média com Lula, uma identidade e reconhecimento visceral -como tem apontado o cientista social André Singer em seus estudos sobre o lulismo.

Depois do golpe, com o correr dos meses, esta identidade foi retomada à luz do dia. Por um lado, houve uma indignação crescente com as medidas ultraliberais como o fim da CLT, a liquidação da Petrobras, as tentativas malsucedidas de demolir a Previdência Social, o desemprego em massa e as promessas fraudadas de retomada da economia.Por outro, foi ficando patente que a Operação Lava Jato não é um movimento de efetivo combate à corrupção, mas de perseguição a Lula e ao PT. As elites não se deram conta disso mas, quanto mais Moro e os tribunais acirraram sua ofensiva contra Lula, mais ele encontrou solidariedade entre o povo.    

Lula, maior que Getúlio

Outra alegação para os que subestimaram a relevância do lulismo foi a afirmação recorrente segundo a qual se Lula fez, Getúlio Vargas fez muito mais. Que as mudanças que Getúlio implementou no país foram muito mais  perenes e significativas do ponto de vista do projeto nacional, especialmente pela infraestrutura que permitiu o desenvolvimento industrial do país (Petrobras e CSN) e pela criação da CLT e seu efeito sobre as relações no mundo do trabalho, que perdurou até o governo do golpe de 2016.

Getúlio fez tudo isso e muito mais. Os que alegam que ele tem mais relevo para o país afirmam que ele mexeu nas “profundezas” da nação, enquanto Lula teria se bastado a mudanças que estão sendo todas revertidas pelo golpe, sem deixar as mesmas marcas profundas no Brasil.

É uma visão míope.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que Getúlio governou o país por quase 19 anos, mais de dez deles quase com plenos poderes, enquanto Lula foi presidente por oito anos, no contexto de um país infinitamente mais complexo e nos marcos do período mais democrático da história, submetido a todo tipo de pressões e contrapressões. É claro que há o período Dilma, o que completa 13 anos de PT no poder, mas não é preciso levar em conta que não se considera a eleição de Dutra em 1945 como parte do getulismo, nem a de Juscelino, em 1955. É claro que são condições muito distintas, mas a referência é digna de nota.

A relação de Lula com o PT, fundado por ele em 1980 talvez seja mais orgânica do que foi a de Getúlio com o PTB, fundado por ele em 1945 -neste sentido, a figura de Lula agiganta-se ainda mais, porque sua liderança no partido sempre foi mais “negociada” e dialogada que a de Getúlio. Ambos os partidos assentados no movimento sindical, com feições diferentes, de um operariado também muito diferente, com histórias particulares e relações muito diferentes na sociedade e vida política de suas épocas. Mas há algo em comum: o lulismo e o getulismo sempre foram maiores que o PT ou o PTB. Os dois, Getúlio e Lula, líderes carismáticos no exato espírito weberiano, foram -no caso de Lula, ainda é- capazes de relacionar-se com o povo brasileiro ultrapassando qualquer dimensão institucional.

Se Lula teve até agora muito menos tempo que Getúlio, é um equívoco dizer que sua gestão teve menor impacto sobre a infraestrutura do país. Se Getúlio fundou a Petrobras, Lula refundou-a com o pré-sal -com a oposição das elites nacionais. Se Getúlio lançou as bases da indústria brasileira, Lula deu a ela uma dimensão sem precedentes ao tornar o Brasil uma potência exportadora global.

Se Getúlio deixou sua marca na superestrutura nacional, ao criar o Ministério da Educação, Lula promoveu uma revolução no ensino superior, abrindo o as portas da Universidade aos filhos do pobres, depois de décadas de veto. Se Getúlio mudou as relações no país e a cultura nacional ao instituir os sindicatos, voto secreto, o ensino primário obrigatório, o voto feminino, Lula inseriu os pretos e os pobres com as políticas de cotas, mudou a relação das pessoas LGTBs com o Estado e, ao contrário do que se disseminou, em seu governo (e no de Dilma), em vez de acomodação, o movimento sindical brasileiro teve um dos períodos mais vigorosos de mobilização da história -a partir de 2004 o número de greves no país começou a crescer “até atingir a quantidade impressionante – para o Brasil – de 2050 greves em 2013” (leia aqui artigo precioso de Patrícia Valim sobre o lulismo).

Mas há algo que Getúlio jamais sonhou em fazer -nem havia condições concretas para tanto. Lula retirou o Brasil da condição de país subalterno e desimportante na geopolítica e transformou-o num protagonista influente e admirado. A partir do boom das commodities e das exportações, Lula tornou o Brasil de um país irrelevante no contexto das relações comerciais da China no 9º maior parceiro comercial do país que desponta para assumir a liderança do planeta. Mais que isso: sob sua liderança, o Brasil deixou a sombra dos EUA – veja a seguir trecho antológico e exemplar do discurso de Lula na 4ª Cúpula das Américas em 2005:

Ainda mais: sob Lula, o Brasil foi um dos vetores da formação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o bloco que tem alterado o estatuto das relações geopolíticas globais -sem qualquer protagonismo brasileiro desde o golpe de 2016.

Em 1945, a elite brasileira decretou o fim do getulismo. Poucos meses depois, o apoio de Getúlio garantiu a vitória de Dutra na eleição presidencial contra o candidato da direita, Eduardo Gomes. Mais ainda: em 3 de outubro de 1950, o próprio Getúlio derrotou diretamente o candidato da UDN, o mesmo Eduardo Gomes, retornando à Presidência -com 49% dos votos. .

Sobre Getúlio e sua volta à Presidência, um dos principais porta-vozes da direita à época, Carlos Lacerda, escreveu em uma manchete do jornal Tribuna da Imprensa, em 1 de junho de 1950, um pequeno conjunto de frases que passou à história e cabe como uma luva à situação atual, em relação a Lula. Escreveu Lacerda: “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

O ódio das elites a Lula é o ódio a Getúlio.

A relação do povo com Lula é em tudo parecida com a relação com Getúlio.

Os inimigos de até aliados de Getúlio cansaram de decretar o fim do getulismo nos anos 1940-50. Os inimigos e até aliados de Lula têm decretado nos últimos três anos o fim do lulismo.

Como aconteceu no passado, aqueles foram derrotados e esses estão sendo.

Lula é tão grande quanto Getúlio -talvez maior- e o lulismo é o sucessor direto do getulismo -como, aliás, acabou por reconhecer outro gigante, Leonel Brizola, nos últimos anos de vida.

Povão atropela o golpe e os “estrategistas” e só quer saber de Lula

É um estrondo. A pesquisa CNT/MDA enterra de vez todos os falsos profetas que alardearam que Lula iria para o ostracismo político na cadeia. O golpe fracassou em seu projeto de uma nova hegemonia e os estrategistas do “realismo” no campo progressista estão sendo atropelados pelo povo.   O homem é amado pelo povão, que só quer saber dele e de mais ninguém

Por Mauro Lopes

A pesquisa CNT/MDA divulgada nesta segunda (14) é um rolo compressor. O povo quer Lula e mais ninguém. O golpe fracassou em seu projeto de uma nova hegemonia e os estrategistas do “realismo” no campo progressista estão sendo atropelados pelo povo. Os números desmentem todas as projeções que se fizeram sobre a queda de Lula nas preferências de voto depois de sua prisão. Disseram que ele estaria liquidado como líder político quando foi acusado no caso do apartamento; depois, quando foi condenado por Moro; mais uma vez quando o TRF-4 confirmou e ampliou a sentença; quando foi preso, comemoraram sua “morte” política; declararam-no fora do páreo depois que o STF recusou dos recursos de sua defesa. Foram mais de dois anos de linchamento nas mídias de massa sem direito a defesa. Nada. O homem é amado pelo povo.

Lula tem quase o dobro de Bolsonaro, o segundo colocado: 32,4% a 16,7%. Todos os demais candidatos comem poeira; nenhum deles chega perto de 10% das intenções de voto.

No campo da direita, Marina tem 7,6%, Alckmin despencou de 6,4 para 4%, Álvaro Dias está com 2,5% e os demais sequer chegam a 1% -Temer, o odiado, tem 0,95. Apenas juntando todo o rebotalho da direita, de Marina para baixo, eles conseguem um pouco mais que meio Lula.

No campo progressista, Lula ocupa todo o espaço. Ciro tem 5,4%, Boulos e Manuela têm 0,5% cada um.

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A carcereira da pena de morte

A juíza-carcereira, a milionária Carolina Lebbos, leniente quando a causa envolve o universo dos ricos (dinheiro), decidiu que Lula merece uma pena ainda mais injusta e cruel que a de Moro e a dos outros juízes-ricos, os do TRF-4. Mesmo contra uma lei da ditadura militar, que garante o direito a visitas, ela proibiu-as, até mesmo a de um médico. Com isso, imagina cortar o ar que Lula respira: a trama de relações com as pessoas. Pretende condená-lo à morte.

Por Mauro Lopes

O Poder Judiciário, que um dia foi denominado Justiça, tornou-se no Brasil uma reserva de mercado para jovens filhos de famílias ricas. O mesmo aconteceu com o Ministério Público. Seus concursos são disputadíssimos e só filhinhos de mamãe e de papai que não precisam trabalhar podem dedicar tempo aos estudos. O fato de as vagas serem preenchidas por concurso pode dar a impressão de ser um Poder republicano –do que se vangloriam muitos juízes e juízas e membros do MP. Mas é fachada.

Juízes e membros do MP afirmam que tudo se resolve pela “competência”, pelo “mérito”; na verdade, tudo se resolve pela vida mansa garantia pelo dinheiro do papai e da mamãe. Quase todos entram nas carreiras no Judiciário e no MP já ricos e as cotas estabelecidas em 2015 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estão longe de surtir efeito. Com o assalto que realizaram ao dinheiro que os pobres depositam nos cofres do Estado, enriquecem ainda mais, com salários acima dos R$ 30 mil mensais, sem contar o “empurrãozinho” da farra do auxílio moradia e do auxílio refeição que são na verdade um extra, uma gorjeta chique para todo mundo, garantindo quase R$ 5 mil a mais todo mês. Há caso de juízes que embolsam com alegria mais de R$ 40 mil, R$ 50 mil num mês –há casos de juízes que receberam mais de R$ 100 mil e até R$ 500 mil.

Uma vez ingressando nas carreiras, os jovens que pertencem às dinastias do Judiciário e do MP, que têm sobrenomes conhecidos nos corredores da ex-Justiça, têm garantido que vovô, vovó, papai, mamãe, titio, titia cuidem de arrumar-lhes rapidamente vaguinhas em tribunais superiores. E assim, la nave va.

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CNBB: quando a diplomacia não combina com a profecia e o Evangelho

Dom Sérgio da Rocha, presidente da CNBB

Padre Luis Miguel Modino avalia as duas notas lançadas nesta quinta-feira (19) pela CNBB para marcar o encerramento de sua 56ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP). Falta profetismo e Evangelho à entidade dos bispos brasileiros; sobram diplomacia e silêncios cúmplices

Por padre Luis Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira*

Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho.

O episcopado brasileiro publicou neste 19 de abril duas notas nas quais pretende apresentar sua postura diante do momento sócio-político que o país atravessa e das eleições que devem acontecer em outubro. Os textos são resultado dos debates levados a cabo na 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu de 11 de abril até hoje (20) os prelados do país.

Eram pronunciamentos esperados, mas em muitos deixaram um gosto agridoce, com palavras temperadas que tentam agradar a todos, mas que acabam produzindo o efeito oposto.

Na primeira nota, sob o título de “Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Povo de Deus” (veja a íntegra no final), a CNBB começa defendendo-se dos ataques sofridos nas redes sociais, dos quais participam grupos conservadores e reacionários, com o apoio mais ou menos explícito de padres, alguns com grande popularidade, sem qualquer  atitude concreta por parte dos bispos dos quais dependem canonicamente. São estes os mesmos grupos nos quais confluem interesses políticos, econômicos e religiosos, que perseguem os bispos e a CNBB.

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Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

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Uma hora decisiva: confronto ou guerra de desgaste?

A sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, na manhã desta sexta (6)

Ao fim e ao cabo, há uma única hora decisiva da qual ninguém escapa, a morte. Antes dela, porém, a vida nos apresenta muitas horas decisivas. Esta é uma delas, depois do julgamento do STF, da decisão de Sérgio Moro de atropelar tudo e mandar prender Lula e da mobilização ao redor do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, o berço das greves de 1979, a casa de Luis Inácio, o nascedouro do PT. A hora é de confronto ou de partir para uma “guerra de desgaste”? Que forças tem o campo popular-democrático?

Por Mauro Lopes

É muito simbólico que Lula tenha ido para sua casa (o útero),  o Sindicato em São Bernardo do Campo, e que toda a mobilização de resistência à última e mais grave ofensiva do golpe depois da deposição de Dilma em 2016 tenha se dirigido na noite de ontem,  quinta (5). Caravanas partiram na noite-madrugada de diversas cidades do Estado de São Paulo e de outros estados para São Bernardo.

O que fazer agora?

Creio que a resposta está no quanto o simbólico representado pela concentração em São Bernardo do Campo corresponde neste momento ao fio da história viva da luta operária, sindical e popular do fim dos últimos 40 anos -de 1970 para cá.

Lula escolheu estar entre os seus. Não há ninguém que seja mais “de Lula” que os metalúrgicos do ABC. Pois bem. Eles irão mobilizar-se? Haverá greve ao menos nas fábricas mais icônicas do movimento operário que marcou o país -na Ford, GM, Volks?

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Ruralistas do Pará lançam ataque sem precedentes contra Igreja Católica

Padre Amaro e Dorothy Stang: quando a Igreja questiona os poderosos

A Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), entidade dos latifundiários e ruralistas do Pará lançou na tarde desta quinta (29), um ataque sem precedentes à Igreja Católica no Brasil. Em nota assinada por seu presidente, Carlos Fernandes Xavier, foram atacados de maneira violenta e difamatória: 1) a memória da freira Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários do Pará; 2) o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, um dos nomes mais respeitados da Igreja em todo o mundo; 3) o padre José Amaro Lopes da Silva, pároco de Santa Luzia em Anapu e preso vítima de uma armação dos mesmos ruralistas; 4) a Comissão Pastoral da Terra (CPT); 5) o desembargador Gercino José da Silva Filho, ex-Ouvidor Agrário Nacional e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, ligado à Igreja, chamando de “embusteiro”;  e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denominada na nota de “Sindicato dos Bispos”. Nem mesmo no período da ditadura militar a Igreja Católica sofreu um ataque tão virulento.

Por Mauro Lopes

A nota é vazada em termos tão grosseiros e ofensivos que, por si só, denuncia o caráter do ataque dos ruralistas e latifundiários do Para (leia a íntegra da nota ao final). Toda ela é “costurada” numa linguagem que evoca a Guerra Fria dos anos 1960/80. Padre Amaro é qualificado de “subversivo que se traveste de religioso”; a CNBB, o “Sindicato dos Bispos”, dominada por uma “ala esquerdista”, pretenderia “implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”.

O assassinato de Dorothy Stang com seis tiros em 2005, na mesma Anapu onde foi preso padre Amaro, teve intensa repercussão mundial e ela  hoje é considerada uma das muitas mulheres santas mártires no seguimento de Jesus, ainda que não tenha sido por enquanto beatificada pela Igreja Católica. Mas ela já integra o calendário de santos e santas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como “Mártir da Caridade na Amazônia”.  Para os latifundiários do Pará em sua nota, entretanto, a freira assassinada era “persona non grata em Anapu”, “incitava a violência”, ao lado de dom Erwin, e ambos seriam suspeitos de “tráfico de armas”.

O alvo maior dos ataques é o padre Amaro, preso na última terça (27), alvo de um amontoado de acusações, reunidas com o objetivo de “engrossar” o processo: “associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro”. A nota dos latifundiários do Pará, entretanto, acaba por explicitar a razão do ódio e perseguição ao religioso: desde 2015, a Faepa buscava a prisão do padre Amaro por ser ele “o maior incentivador dos conflitos fundiários existentes”.

Conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota divulgada no dia seguinte à prisão, trata-se de “é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira.”

Há uma razão oculta sob o volume da campanha de ódio dos latifundiários paraenses, que esteve na origem do assassinato de Dorothy Stang e agora da prisão de padre Amaro: um bilionário esquema fraudulento de que privatizou e devastou extensas áreas da Amazônia. O ódio devotado a irmão Dorothy e agora a padre Amaro deve-se à ação de ambos para exigir do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a retomada das terras públicas roubadas pelos latifundiários, com “a criação de assentamentos coletivos, com grandes áreas de florestas nativas, capaz de sustentar o manejo florestal comunitário e a produção agrícola de forma sustentável” -leia logo abaixo um esclarecedor artigo de Tarcísio Feitosa da Silva, da CPT, que desnuda toda a trama dos ruralistas.

Em meio à onda fascista que buscou amedrontar o país nos últimos 15 dias, os ruralistas, que estiveram à frente de várias agressões à caravana de Lula no sul do Brasil, atacaram agora no norte, de maneira brutal, a Igreja Católica e os que lutam contra o latifúndio no Pará.

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Leia a seguir o artigo de  Tarcísio Feitosa da Silva

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A cadela no cio do fascismo agora pariu: tempo de terror

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes. Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres. Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 25 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado. A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares. 

Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias. O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500. Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas. O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. 

Por Mauro Lopes 

12 de março

1. Assassinado com quatro tiros Paulo Sérgio Almeida Nascimento, de 47 anos, foi morto com quatro tiros. Um dos diretores da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) que desde 2017 lutava em Barcarena (PA) contra o desastre ambiental causado pela  empresa norueguesa Hydro. Seguidamente ameaçado de morte, teve pedidos de proteção negado pelo governo de Simão Jatene (PSDB).

2. Cinco indígenas Guarani foram presos  ao regressar de uma incursão numa ilha formada pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu, onde haviam ido cortar taquara, ou seja, o “bambu nativo”, para a confecção de artesanatos e construção de moradias. A ação ocorreu sobre um patrimônio privado, já que a área visitada pelos Guarani pertence oficialmente à Itaipu Binacional, mas foi retomada pela comunidade Guarani em janeiro de 2017, depois de 35 anos de expulsão. Na região de usina existiam ao menos 32 aldeias que desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu e o alagamento para formação do lago de Itaipu. Pelo menos nove dessas aldeias foram alagadas.

Ameaças ao padre Júlio Lancellotti

3. O Padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, divulgou pela primeira vez que vinha recebendo seguidas ameaças de morte pelas redes sociais. No dia 19, várias entidades exigiram providências do Ministério Público, mas nenhum responsável  pelas ameaças foi preso.

14 de março

4. A PM e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo agrediram brutalmente professoras, servidoras e servidores públicos que protestavam na Câmara de Vereadores contra projeto de lei de reforma da previdência municipal, apresentado pelo governo Doria. O projeto visava congelar salários e aumenta a contribuição previdenciária de 11% para 19%. Depois de greve e intensa mobilização de milhares de servidoras e servidores, o projeto foi derrotado, em 27 de março.

Os tiros que mataram Marielle

5. A vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram executados no Rio de Janeiro, num crime que causou indignação mundial grandes manifestações de  protesto em todo o país. Apesar de todos os indícios apontarem para as milícias que, compostas por policiais e ex-policiais, controlam várias regiões do Rio, as investigação não havia resultado em nada.

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A segunda morte de Marielle

Os conservadores e fundamentalistas, não contentes com a execução de Marielle Franco, querem matá-la pela segunda vez, condenando-a por ser mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista e homoafetiva

Um artigo do teólogo César Kuzma*

Há um sistema que mata! Mas há um fundamentalismo e conservadorismo (político e religioso) que insistem em matar ainda mais, mesmo depois, tem que sangrar. Incrível!

Há limite para o ódio? Chega a ser assustador.

Interessante como alguns rótulos colocados tentam definir e marcar as pessoas. Não se vê mais nada além, são respostas impostas de fora, taxativas e preconceituosas. Triste! Absurdo!

Enquanto alguns choram a morte de Marielle, sendo ela simbólica pela forma como aconteceu e por ser ela a pessoa que era (pela história, vida e opções que a precederam), outros, sem compaixão, ou com um pseudo-autoritarismo, até cristão, dizem: mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista, defensora dos DH, lésbica…. Ofensas que matam! De novo! E outra vez!

Estes jargões atirados são na verdade causas de luta e protesto contra uma sociedade que “mata” mulheres, negando e abusando de seus direitos, ainda mais se forem negras e pobres, quanto mais vindas de comunidades carentes que denunciam qualquer “bom costume” perante a violência e injustiça que são submetidas diariamente. Para ter e ser voz tem que lutar, tem que sair sem abandonar a casa e a causa, sem negar a si mesma, na sua condição de mulher. Negra mulher, preta na cor.

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Isso que está aí não é mais democracia

O que Temer foi fazer na reunião do Conselho Militar de Defesa em 22 de fevereiro? Presidentes civis não vão lá. Foto: Marcos Corrêa/PR

Nove evidências de que a democracia foi para o ralo no Brasil e que há um novo regime: 1) houve um golpe de Estado; 2) o Poder Judiciário sublevou-se contra a Constituição; 3) os militares deixaram os quartéis e coagem a sociedade; 4) voltam os “militares linha dura”; 5) as liberdades e garantias estão caindo por terra; 6) a censura é cada vez mais agressiva; 7) acontecem as primeiras prisões políticas; 8) há um conluio dos golpistas  com o crime organizado; e 9) não haverá eleições livres este ano.

Por Mauro Lopes

A democracia no Brasil entrou em colapso e estamos nos primeiros momentos de um novo regime de tipo ditatorial.

Há resistências quanto a esta assertiva.

Na direita, a rejeição é óbvia: são as forças políticas que estão demolindo a democracia e jamais admitirão isso. Como em 1964, sufocam a democracia dizendo defendê-la. Basta ver a reação dos jornais das elites em 1 de abril de 1964: “Vitorioso o movimento democrático” (manchete de O Estado de S.Paulo) e “Ressurge a democracia” (editorial de O Globo) . Agora, não é diferente, como temos assistido à farta.

No entanto, mesmo entre as forças de esquerda, há desacordo. Um sintoma do que parece ser uma miopia que acometeu amplos segmentos da esquerda foi a postura diante da intervenção federal/militar no Rio: em vez da denúncia de seu caráter autoritário, líderes e analistas políticos de esquerda dedicaram-se a especular sobre as decorrências políticas e sobretudo eleitorais do ato, acolhendo a tese de que a intervenção estaria ainda nos parâmetros de “normalidade institucional”. Da mesma forma, estes mesmos analistas anunciaram o “constrangimento” dos militares em suas novas funções, a que teriam sido praticamente “arrastados” quando o que se vê é o contrário: os generais estão à vontade e cada dia mais explicitam seu prazer pelo exercício de um poder que consideraram roubado com a redemocratização do país nos anos 1980.

O fato é que temos escorregado ladeira abaixo desde a noite da reeleição de Dilma Roussef, quando o candidato derrotado anunciou que o resultado não seria respeitado e iniciou-se a trama do golpe abertamente. Escorregamos de início lentamente, mas a velocidade aumentou de maneira alucinante nas últimas semanas. Não vivemos uma ditadura militar sanguinária como a que testemunhamos no país por longos anos desde 1964 e em quase toda a América Latina entre mais ou menos contemporaneamente. Mas isso que está aí não é mais democracia, e continua a decair.

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