Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

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Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça

Franciscanos e franciscanas reunidos em Belo Horizonte

Mais de 300 integrantes da Juventude Franciscana (Jufra) e da Ordem Franciscana Secular de Minas Gerais reafirmaram o protagonismo dos franciscanos e aprovaram, em encontro realizado em Belo Horizonte no último fim de semana uma Carta denunciando os retrocessos no país, que atingem “as populações das periferias, sem-terra e sem-teto, pobres, principalmente mulheres, jovens, população negra, indígenas, LGBT’s”.

No texto, a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes é comparada a assassinatos  “como nossa Irmã Dorothy e tantos outros mártires representantes da Igreja e de movimentos populares.”

Os franciscanos e franciscanas terminam reafirmando seu compromisso com a vocação original do cristianismo: “Somos inspirados em Jesus Cristo, que foi perseguido e assassinado na cruz por lutar por um mundo novo. Temos o exemplo de Clara e Francisco, perseguidos e injustiçados por seguirem os ensinamentos de Cristo.”

Leia a íntegra da Carta:

CARTA DE BELO HORIZONTE

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5,6)

A Ordem Franciscana Secular e a Juventude Franciscana – Jufra – de Minas Gerais, reunidos em mais de 300 participantes no primeiro Encontro Regional de formação, no Colégio Sagrada Família das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, em Belo Horizonte nos dias 16 a 18 de Março de 2018, demonstram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país. Continue lendo “Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça”

Violência: Igreja Católica divide-se entre indignação e silêncio cúmplice

A professora Luciana e a vereadora Marielle -mulheres lideram e pagam alto preço

CNBB mais uma vez silencia diante da violência. Franciscanos levantam-se e acusam: “malditas as armas que ferem e matam, maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas”. Arquidiocese do Rio chegou a relacionar execuções de Marielle  e Anderson ao tema do aborto 

Por Mauro Lopes

Passadas 20 horas da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista  Anderson Pedro Gomes no Rio de Janeiro, a direção nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),  permanecia em silêncio na tarde de quinta-feira (15) -em pleno transcurso da Campanha da Fraternidade dedicada ao tema da violência. Da mesma forma, mais de 24 horas depois da violência brutal da PM e da GCM que se abateu sobre servidoras e servidores municipais de São Paulo, a Arquidiocese da capital paulista permanecia silente.

A CNBB parece acuada diante das agressões seguidas que tem sofrido da direita católica –e reage recolhendo-se ao silêncio, em vez de colocar-se ao lado dos pobres do país, como fizeram as gestões da Conferência em outros tempos e como faz Francisco. O Papa é um exemplo: não se intimida diante da campanha que lhe movem os integristas católicos, e está onde os cristãos devem estar, sempre: com a vítimas.

Quem assumiu a frente da Igreja Católica no país, mais uma vez, foram os franciscanos.  Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, líder da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, divulgou na manhã desta quinta (15) uma nota vigorosa, contra a execução de Marielle e o ataque em de São Paulo, expressando a “indignação e tristeza” dos franciscanos.  “Malditas as armas que ferem e matam” é o título da nota. No texto, os franciscanos acrescentaram: “maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas e as transformam em objetos usados de acordo com a conveniência de quem domina”.

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O grito dos franciscanos e franciscanas do Brasil: “dirão que é comunismo, mas é Evangelho”

Franciscanos e franciscana no Capítulo Nacional das Esteiras, em Aparecida

Um encontro histórico dos franciscanos e franciscanas de todo o Brasil proclamou em carta aprovada por unanimidade neste domingo (6) a adesão incondicional ao papado de Francisco e definiu como missão: “participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas”. Trata-se de uma citação de um dos momentos mais conhecidos e cruciais da trajetória de São Francisco que, em 1205, na abandonada igreja de São Damião, em Assis, ao contemplar um crucifixo ouviu o que lhe parece uma mensagem direta: “Não vês como está a minha Igreja? Está em ruínas. Vai, e reconstrói a minha Igreja”. O mantra do encontro, repetido por quase todos os palestrantes e nas homilias durante as missas foi: voltar a Assis –retomar o espírito original de São Francisco.

Mais de mil franciscanos e franciscanas estiveram presentes à  Conferência da Família Franciscana do Brasil, que se reuniu desde a quinta-feira (3) em Aparecida (SP). O “sabor de Francisco” convergiu com o reencontro dos parâmetros fundamentais da Teologia da Libertação latino-americana e, em sua carta, os franciscanos afirmaram em espírito de oração: “’Óh Mãe preta, óh Mariama, Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!’, ainda assim, invocamos suas bênçãos sobre toda a nossa família e sobre um Brasil sedento de Paz – fruto da justiça, do bem e da Misericórdia de Deus” –a frase é inspirada na “invocação a Mariama”, de dom Hélder Câmara. Leia a íntegra da Carta de Aparecida ao final.

Um dos trechos da carta é todo vazado a partir da melhor tradição da teologia latino-americana, severamente reprimida durante os 35 anos da restauração conservadora sob João Paulo II e Bento XVI: “A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio.  Assistimos, tomados de ira sagrada, à violação dos direitos conquistados, através de muitos esforços, empenhos e articulação pelo povo brasileiro. Por isso, não podemos deixar de nos empenhar junto aos movimentos sociais na luta ‘por nenhum direito a menos’, contra golpes, reformas retrógadas e abusivas conduzidas por um governo ilegítimo, um parlamento divorciado dos interesses da população e  uma justiça que tem se revelado fora dos parâmetros da equidade que no lugar de fortalecer o papel do Estado para atender às necessidade e os direitos do mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital”.

Foram quatro dias marcados pela emoção e o compromisso, com representantes dos mais de 20 mil religiosos da Primeira Ordem (Frades Menores, Frades Menores Capuchinhos, Frades Menores Conventuais), da Segunda Ordem (Irmãs Clarissas), da Ordem Franciscana Secular (leigos), da Juventude Franciscana (leigos), da Terceira Ordem Regular (TOR), das Congregações e Movimentos simpatizantes de Francisco e Clara de Assis presentes no Brasil -se você quiser ler uma cobertura detalhada do encontro pode clica no site da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (aqui).

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Franciscanos acusam: pressa de Temer com reformas é a mesma de Judas para entregar Jesus

Os líderes franciscanos reunidos em Olinda (PE): com os pobres, contra as reformas

A Conferência dos Frades Menores do Brasil, da Ordem fundada por São Francisco em 1209, lançou uma nota dura contra as reformas do governo Temer neste Dia Nacional de Mobilização (31 de março).  Os franciscanos compararam a pressa do governo Temer em aprovar as reformas com a pressa de Judas para entregar Jesus aos poderosos de então: “O ritmo célere da tramitação de propostas polêmicas em torno de temas delicados faz-nos recordar a pressa de Judas Iscariotes para entregar Jesus aos poderosos. Neste caso, entregue de bandeja ao interesse dos detentores do poder e do dinheiro está o povo brasileiro, especialmente os mais simples: trabalhadores e assalariados.” A nota tem o título de Carta Aberta ao Povo Brasileiro contra a Subtração de Direitos Fundamentais.

Os nove líderes regionais da Ordem dos Frades Menores (OFM), além do Definidor Geral da Ordem, sediado em Roma, Frei Valmir Ramos, OFM, estão reunidos em Olinda (PE) desde a última segunda (27). Os Franciscanos Menores são o maior dos três ramos tradicionais daquela que é conhecida como família franciscana, composta também pelos Capuchinhos e Conventuais. Os Frades Menores são em mais de 14 mil no mundo e cerca de mil no Brasil.

Na nota, os franciscanos afirmam que as reformas, sobretudo a da Previdência e a terceirização das relações trabalhistas soam como uma corrida das elites para “à força de um momento de instabilidade e insegurança, ver aprovadas leis que, à custa da subtração dos poucos recursos de muitos, concentrar ainda mais a riqueza nas mãos de uma seleta minoria.”

Os líderes franciscanos terminam sua carta lançando uma convocação à mobilização contra as reformas: “Pautados pelos princípios do respeito, da justiça e da paz, valores irrenunciáveis de nossa tradição franciscana, convocamos todas as pessoas de boa vontade, especialmente nas comunidades de fé onde nos fazemos presentes, a se mobilizarem ao redor destes temas, a fim de buscarmos o melhor para o nosso povo.”

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