Os leigos da pequena Osorno são os líderes da Igreja neste momento

Protesto de leigas e leigos em Osorno contra nomeação do bispo Juan Barros

Esculpida a mão por João Paulo II, a Igreja chilena encontra-se em estado terminal. Os corajosos leigos e leigas da pequenina Osorno são os grandes líderes do catolicismo no atual momento. Eles ousaram dizer NÃO ao clericalismo e à “cultura do Templo”. Para a hierarquia católica, os leigos e leigas são pessoas desprezíveis, incômodas, um estorvo. Mas Jesus era leigo, como seus discípulos e o maior santo da história, Francisco. Uma reflexão apresentada à comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (10) tive a enorme alegria de ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, para participar de uma das sete celebrações eucarísticas o redor do 90 anos da paróquia. Foi um convite amigo do pároco, padre Paulo Sérgio Bezerra, das lideranças comunitárias do grupo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM). Participei da missa e, logo depois da saudação inicial, apresentei à assembleia uma reflexão sobre o tema dos leigos e leigas na Igreja hoje.

A seguir, a íntegra do que falei lá:

Caros irmãos e irmãs, paz.

Estou aqui hoje com a missão de apresentar a vocês uma reflexão sobre a questão dos leigos e leigas na Igreja nos dias de hoje.

Começo com uma notícia estrondos: o Mestre de vocês era leigo.

Os discípulos do Mestre, seus primeiros seguidores, eram todos leigos.

O maior santo da Igreja, que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e mesmo do cristianismo, São Francisco, era leigo.

Quando Maria Madalena encontrou Jesus no momento crucial da ressurreição, em João, como ela saudou-o? Não o foi como Vossa Santidade, Papa, eminente cardeal, ou, mais apropriadamente, como convém a um católico obediente, Vossa Eminência Reverendíssima, dom Jesus, senhor bispo ou simplesmente padre ou Vossa Reverendíssima. Nem o chamou, como eram expressões correntes à época de grande rabino ou ilustre mestre da lei ou sacerdote afamado.

Nada disso. Saudou-o, entre surpreendida, alegre e assustada, o que índica extrema espontaneidade, de Rabuni! O que quer dizer mestre, grande mestre ou ainda mais própria e intimamente, meu mestre, meu grande mestre.

Jesus sentava-se para conversar com seus amigos em roda. Ceava com eles em roda. Não havia um lugar mais elevado ou um trono reservado a ele para partilharem pão e vinho.

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Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?

Papa e o chileno Cruz: encontro decisivo

Uma entrevista de Juan Carlos Cruz, um dos que foram abusados sexualmente pelo padre chileno Fernando Karadima quando criança, traz à luz todo o horror  vivido na Igreja do Chile. Neste fim de semana (28 e 29), ele e mais duas vítimas estarão com o Papa no Vaticano. Durante sua visita ao Chile em janeiro, Francisco defendeu os bispos acobertadores dos abusos e atacou as vítimas, no grande equívoco de seu papado, pelo qual tem se penitenciado nos últimos meses. Esta talvez seja a última chance da Igreja Católica no tema da pedofilia.    

Há perguntas cruciais dirigidas aos católicos e católicas. Que Igreja é essa na qual reina o silêncio diante dos crimes seguidos de muitos de seus líderes? Até quando o silêncio que encobre milhares de atos de abuso sexual de crianças e jovens continuará a merecer a condescendência da massa de fiéis? Que futuro terá essa igreja?

Por Mauro Lopes

Francisco está diante do que talvez seja a última oportunidade de a Igreja Católica finalmente enfrentar a epidemia de crimes contra crianças cometidas por prelados. O caso do Chile tornou-se emblemático depois da desastrosa visita do Papa ao país, em janeiro último.

Uma das vítimas, Juan Carlos Cruz, descortina todo o caso: foram centenas de abusados e a cúpula conservadora da Igreja sempre soube e apoiou os padres criminosos, inclusive o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, arcebispo emérito de Santiago e um dos integrantes do C9, Conselho de Cardeais do Papa encarregado da reforma da Cúria romana.

A situação da hierarquia católica é tal que Errázuriz chegou ao cúmulo de dizer que Cruz, por ser homossexual, talvez “tivesse gostado de ser molestado” quando criança. O caso chileno é mais escandaloso ainda porque a Igreja combativa do país dos anos 1970/80 foi destroçada pela ação de João Paulo II em aliança com o general Pinochet e a nomeação em massa de bispos e cardeais conservadores e alinhados com a ditadura, num ambiente de abusos e silêncio.

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Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.” Continue lendo “Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora”

Do Papa à Cúria no discurso de Natal: não às intrigas e aos traidores

Francisco à Cúria na manhã desta quinta: reafirmação de seu papado

Por Mauro Lopes, com Religion Digital e agências

O Papa Francisco voltou a criticar a Cúria romana no tradicional discurso de Natal na manhã desta quinta-feira (21). Advertiu os hierarcas sobre os dois “perigos” que rondam a burocracia vaticana: 1) a lógica das intrigas e dos “pequenos grupos” que levam à “autorreferencialidade”, enquanto o Papa anuncia uma “Igreja em saída” e  2) a presença de “traidores da confiança” que solapam a reforma da Igreja e atacam Francisco diuturnamente.

Desde o histórico discurso  de Natal de 22 de dezembro de 2014, quando o Papa, diante dos todo-poderosos bispos e cardeais curiais, apresentou o que denominou como “catálogo” das 15 “doenças mais habituais na nossa vida de Cúria”, a hierarquia vaticana fica em suspense à espera do  evento tradicional -que sempre foi uma autocongratulação, especialmente nos papados de Wojtyla e Ratzinger. Em 2014, Francisco acusou os burocratas de endurecimento do coração, «alzheimer espiritual», vanglória, indiferença ao sofrimento dos pobres, apego às riquezas, entre outros “pecados”.

Em um discurso vigoroso, Francisco denunciou hoje “aqueles que se aproveitam da maternidade da Igreja,” pessoas “que foram cuidadosamente selecionadas para dar maior força ao corpo e à reforma, mas- ao não entender a importância de suas responsabilidades- deixaram-se corromper por ambição ou vanglória “.

Aqueles que traíram a confiança do Papa e que, “quando são delicadamente afastador, declaram-se equivocadamente mártires do sistema, do “Papa desinformado “, da” velha guarda “, em vez apresentar seu “mea culpa” – foi uma resposta de Francisco aos seguidos ataques do cardeal Gerhard Ludwig Müller que, desde seu afastamento da Congregação para a Doutrina da Fé,  em julho último, tornou-se um loquaz crítico do Papa, alinhando-se com os ultraconservadores católicos.

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Os projetos em disputa: uma Igreja em saída ou a Igreja-empresa

O Papa e a Cúria romana: dois projetos de Igreja em disputa

O padre Eduardo Hoornaert, um dos maiores historiadores da Igreja, escreve um artigo exemplar sobre os dois projetos de Igreja em disputa neste momento: o da “Igreja em saída”, do Papa Francisco, a partir do Concílio Vaticano II, e o da “Igreja-empresa”, levado ao auge nos séculos XII e XIII, alicerçado numa estrutura de controle e terror, a Inquisição.

“O Papa Francisco sabe o que está dizendo e é exatamente isso o que o faz encontrar  oposição em certos setores da igreja”, escreve o padre Hoornaert. Houve luta contra o projeto dominante de Igreja, como o registra a “história fraca” do cristianismo, dos franciscanos aos valdenses até João XXIII. Ela só aflorou com força em 1968, na América Latina, na Conferência de Medellín, que assumiu a escolha de uma Igreja pobre de pobres –conforme a expressão do “papa bom”, João XXIII.

Casado, o padre Hoonaert vive a mesma situação de mais 100 mil padres ao redor do mundo:  nunca abandonaram a Igreja. Eles representam 25% do total de sacerdotes no mundo, ao redor de 400 mil. No Brasil, aproximam-se de 1/3 do total de sacerdotes: 5 mil em 18 mil. Esses números não incluem os padres que são casados informalmente ou mantêm atividade sexual regular de maneira mais ou menos clandestina.

Belga de nascimento, aos 77 anos o padre Hoonaert tem uma trajetória impressionante na Igreja. Chegou ao Brasil em 1958 e aqui ficou. Foi professor nos históricos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991), todos fechados pelo inverno conservador sob o Papa João Paulo II. Foi um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), sendo seu  coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto História do Cristianismo e é coordenador do projeto História do Cristianismo no 3º Mundo, que publicou em 1995 o livro O Movimento de Jesus (Vozes). É requisitado em todo o país como assessor das Comunidades Eclesiais de Base , as CEB’s.

Autor de vários artigos e livros sobre História do Cristianismo Antigo, História da Igreja e História da Igreja na América Latina e no Brasil. Alguns deles: Formação do Catolicismo Brasileiro – 1550 – 1800 (Vozes, 1978), A Memoria do Povo Cristão (Zahar, 1986), O Cristianismo Moreno do Brasil (Vozes, 1990), Origens do Cristianismo (Paulus, 2016) e Em busca de Jesus de Nazaré – uma análise literária (Paulus, 2017).

Leia o brilhante artigo do padre Hoonaert (publicado originalmente em seu blog e depois em Ameríndia):

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500 anos da Reforma inspiram ação do Nós Também Somos Igreja

Cartazes como esse serão pregados nas portas de igrejas católicas em 22 países

Inspirados pela celebração dos 500 anos da Reforma, integrantes do movimento católico Nós Também Somos Igreja irão pregar nas portas de igrejas em 22 países neste domingo (29) cinco teses pela reforma imediata da Igreja Católica. No Brasil, a ação corajosa acontecerá em São Paulo, João Pessoa e outros municípios da Paraíba.

A iniciativa remete a Martinho Lutero, que em 31 de outubro de 1517 enviou uma carta ao arcebispo de Mainz, com as 95 teses que marcam o início da Reforma Protestante. Hoje se sabe que a afixação das teses na porta da Igreja do castelo de Wittenberg (Alemanha) não teria ocorrido. Mas tornou-se o símbolo da reação do padre Lutero ao estado da Igreja na ocasião.

Por isso, as cinco teses do Nós Também Somos Igreja serão pregadas nas portas de igrejas católicas em todo o mundo:

  1. Democratização da estrutura eclesiástica (Cúria Romana e diocesanas, paroquiais);
  2. Ordenação de mulheres na perspectiva de um novo modelo ministerial;
  3. Prevalência do Amor e da Justiça acima do direito canônico;
  4. Celibato opcional, permitindo que os homens ordenados possam assumir a condição matrimonial;
  5. Acolhida de todas as mulheres e homens na comunidade cristã independente das condições e situações em que se encontrem.

Em São Paulo, segundo Edson Silva, da direção do movimento, será realizada uma roda na praça diante da Igreja do Pátio do Colégio para leitura reflexiva das teses de Lutero e uma conversa sobre as cinco teses para a reforma da Igreja hoje; a seguir, os participantes caminharão até a Praça da Sé para afixar as teses nas portas da catedral.

Na Paraíba, a mobilização será liderada pelo grupo Kairós – Nós Também Somos Igreja.  Alder Calado, liderança histórica da Igreja brasileira e um dos pioneiros do movimento no Brasil, ao lado do padre José Comblin (1923-2011), um dos principais teólogos da Libertação, disse que haverá celebrações em João Pessoa e em comunidades rurais do Estado, como Sobrado. Na capital, o ato celebrativo será na capela ecumênica da UFPB. “Teremos uma de oração inicial, rezaremos um salmo, leremos o Evangelho, entremeados de cânticos. Haverá tempo de silêncio e partilha. Em seguida, partimos para ouvir um breve trecho do livro “Vocação para a Liberdade”, de autoria de José Comblin. Em seguida, uma exposição dialogada, contextualizando a Reforma e as lições que dela somos chamados a recolher, focando depois nos cinco pontos que buscam sintetizar os principais anseios por reformas, na Igreja Católica Romana. Terminaremos com oração e canto”, explicou Calado.

Roteiros similares acontecerão nos 22 países, em alguns deles com celebração eucarística. O espírito é de reencontro e retomada do caminho comum com os filhos da Reforma e de recuperação do melhor da trajetória protestante. “Fazemos a mesma reflexão que vem ganhando força entre os que apoiam o papa Francisco na Cúria romana: foi uma ação do Espírito Santo”, disse Edson Silva. Para ele, “o caminho de volta, que significa aproximação com as demais igrejas cristãs, é fundamental”.

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Conservadores católicos atacam Lutero e a Reforma –Papa é o alvo

O cardeal Muller e o bispo Galantino: o sopro do Espirito e a Reforma

Quanto mais se aproxima a celebração dos 500 anos da Reforma iniciada por Martinho Lutero, no próximo dia 31, mais os conservadores se agitam na Igreja Católica. A lenta aproximação de anos que o Papa Francisco acelerou de maneira inédita nos últimos tempos, é alvo da fúria dos católicos restauracionistas. O jornal italiano La Nova Bussola Quotidiana publicou nesta quarta (24) artigo do cardeal Gerhard  Müller, o ex todo-poderoso da Congregação para a Doutrina da Fé, no qual ele ataca: a Reforma foi um evento “contra o Espírito Santo”.

Desde que Müller foi defenestrado pelo Papa, que lhe negou a renovação do mandato quinquenal à frente do ex-Santo Ofício, em junho passado, ele tornou-se o mais estridente porta-voz das teses da direita católica. A cada semana concede uma entrevista ou escreve um artigo para se contrapor a Francisco, aos novos líderes da Igreja e às suas reformas.

Agora, o objeto da cólera do cardeal é o bispo Nunzio Galantino, secretário-geral da Conferência Episcopal Italiana (CEI). Ele esteve na quinta-feira passada (19) num evento sobre os 500 anos da Reforma, na Universidade Lateranense, em Roma. Em sua conferência, afirmou: “A Reforma iniciada por Martinho Lutero há 500 anos foi um acontecimento do Espírito Santo”.

O bispo, que atua em estreita relação com o Papa, acrescentou: “Lutero, não se considerava artífice da reforma, e escreveu: ‘enquanto eu dormia, Deus reformava a Igreja’. Também hoje, a Igreja necessita de uma reforma. E também Deus é o único que pode realiza-la.” Galantino afirmou ainda que “o amor de Lutero pela Palavra antecipou a sacramentalidade da Palavra afirmada pelo Concílio Vaticano II”.  E este é o verdadeiro tema que divide a Igreja católica: para os conservadores, a única “reforma” possível é a revogação do Vaticano II e a restauração do inverno tridentino.

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Papa desmente publicamente o último conservador ainda na Cúria

O pop star conservador, cardeal Robert Sarah, confronta o Papa

O Papa desmentiu numa carta divulgada neste domingo (22) a interpretação distorcida que o prefeito da Congregação para o Culto Divino havia dado à sua decisão de descentralizar a tradução dos textos litúrgicos, conferindo maior poder às conferências episcopais nacionais. O cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, é hoje o último ultraconservador na direção do Vaticano. Seu posto é estratégico, pois a congregação é responsável pela liturgia (o culto público, como as missas e outras celebrações), um dos centros da vida da Igreja.

O tema da carta de Francisco é o motu proprio Magnum principium sobre as traduções litúrgicas, divulgado em 3 de setembro passado, que normatiza a descentralização, no espírito do  Concílio Vaticano II, revogando o centralismo estabelecido pelos papados conservadores de Wojtyla e Ratzinger.  Francisco determinou que as traduções, aprovadas pelas conferências nacionais dos bispos (as conferências episcopais)  não devam mais ser submetidas a uma revisão por parte do Vaticano (recognitio), mas apenas à confirmação (confirmatio). É o fim da intervenção de Roma nas traduções, tornando praxe um ato com o qual a Congregação para o Culto Divino apenas ratificará a aprovação dos bispos locais.

Em 12 de outubro passado, a revista católica conservadora L’Homme Nouveau seguida pelos sites restauracionistas havia divulgado um “comentário”  de Sarah, que ele enviara a Francisco. O texto afirmava que o documento do Papa seria, na prática, nulo, e que a política de submissão das igrejas locais a Roma estaria intacta.

No seu texto, cardeal conservador assegurava que a instrução Liturgiam authenticam (2001), editada com orientação de João Paulo II estaria mantida intacta e que o texto de Francisco “não modifica, de modo algum, a responsabilidade da Santa Sé, nem, consequentemente, as suas competências em matéria de traduções litúrgicas” -ou seja, colocando no mesmo plano as expressões recognitio e confirmatio.

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Francisco avança: conservadores desalojados do controle da Cúria romana

O Papa, Müller e Pell: o Vaticano muda como nunca

Em menos de uma semana, Francisco avançou celeremente para desalojar os conservadores do comando da Cúria romana e reafirmar sua liderança sobre o Vaticano e a Igreja. Demitiu nesta sexta (30) o cardeal alemã Gerhard Müller da superpoderosa Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição ou Santo Ofício); antes, havia aceitado o pedido de licença (leave of absence) do cardeal George Pell da Secretaria para a Economia para que ele vá à Austrália defender-se de pesadas acusações de pedofilia. No caso de Pell, ninguém em Roma acredita que ele retomará o posto.

A relação entre o Papa e os conservadores pode ser definida pelo ditado: “os cães ladram e a caravana passa”. Francisco até hoje não reclamou, não respondeu, não retrucou publicamente a um dos seguidos e estrepitosos ataques dos conservadores rebelados contra seu papado. Em silêncio, move as peças do tabuleiro, como um refinado enxadrista jesuíta. O cardeal alemão foi afastado também  da presidência da Pontifícia Ecclesia Dei (responsável pelas relações com os ultraconservadores lefrevianos), da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional.

É um jesuíta o sucessor de Müller na Congregação da Fé: o cardeal espanhol Luis Ladaria Ferrer, atual secretário da congregação –seu nome foi anunciado na manhã deste sábado (1) oficialmente pelo  Vaticano.  Ladaria, sucessor de Müller, está longe de ser um dos cardeais progressistas do círculo mais íntimo de Bergoglio, mas não se admite no Vaticano que ele possa manter a Congregação como um bastião conservador em Roma. Ao contrário, espera-se fidelidade de Ladaria a Francisco e o fim dos tempos da Congregação para a Doutrina da Fé como “polícia” da Igreja, apoio às ações contra os abusos de crianças e jovens e abertura ao protagonismo feminino.

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