O Papa contra a pena de morte. Conservadores acusam-no: heresia!

O Papa, ao discursar na última quarta: condenação integral à pena de morte

O status institucional da Igreja Católica neste momento é algo como uma queda-de-braço contínua, sem intervalos. A cada gesto do Papa, os conservadores saem a campo para acusá-lo, numa campanha de ódio sem precedentes. Agora, o tema é a pena de morte. O Papa afirmou nesta quarta (11) que a pena de morte é inadmissível nos marcos do cristianismo. Pois os conservadores reagiram imediatamente e, mais uma vez, tentaram intimidar Francisco com o que consideram o pior dos xingamentos: herético! O mais incrível deste episódio é que os mesmos que atacam o Papa pretendem-se radicalmente “pró-vida” (dedicam-se diuturnamente a campanhas para criminalizar o aborto e perseguir as mulheres).

Francisco falou num evento no Vaticano, em torno dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. Redigido sob o comando do então cardeal Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e promulgado por João Paulo II, o texto admite a pena capital em seu tópico 2267: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.”

É hora de virar essa página, afirmou o Papa: “Deve afirmar-se energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal. Em si mesma, é contrária ao Evangelho, porque voluntariamente se decide suprimir uma vida humana que é sempre sagrada aos olhos do Criador e cujo verdadeiro juiz e garante, em última análise, é apenas Deus.” Francisco quer que o tópico seja liminarmente suprimido do Catecismo.

Ele colocou o dedo na ferida, ao referir-se ao fato de a pena de morte já ter sido usada na história pela própria Igreja: “No próprio Estado Pontifício, infelizmente, recorreu-se a este remédio extremo e desumano, descurando o primado da misericórdia sobre a justiça. Assumimos as responsabilidades do passado, reconhecendo que aqueles meios eram ditados por uma mentalidade mais legalista que cristã.”

Sim, a defesa da pena de morte é tão escandalosamente anticristã que desta vez os conservadores não ousaram sair a campo em massa para atacar o Papa –todos os papas do século XX, de maneira mais ou menos explícita condenaram a pena capital, até mesmo Woytila e Ratzinger, apesar de terem produzido o Catecismo.

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Maria de Aparecida: negra e sexuada, afronta o catolicismo conservador romano

A imagem original, de 1717, antes do atentado de 1978

Vamos despir Maria, a Nossa Senhora Aparecida, de seu manto azul? Examinemos a imagem original, encontrada no Rio Paraíba há 300 anos, antes do atentado de 1978, que espatifou sua cabeça e partiu-lhe o corpo em pedaços. Que imagem revela-se a nós? Uma mulher negra, cheia de curvas, toda enfeitada, com um olhar sem culpas, uma boca que se entreabre num sorriso nada “angelical”.

A imagem de Aparecida é como a de outras representações de Maria na América Latina, uma figura apropriada pelo povo, pela religiosidade popular, que afronta e confronta o catolicismo romano marcado pela rigidez e distanciamento.  A imagem original, portuguesa barroca, ao ficar na lama do rio agregou às ousadias do escultor (as formas e o riso) a negritude, que se acentuou com a fuligem das velas ao redor ao longo do anos.

Quem é Maria? Você não pode deixar de assistir o documentário Marias, a fé do feminino, de 2016, dirigido por Joana Mariani. Ela escavou fundo na devoção popular às padroeiras de quatro países da região, a Maria de Aparecida, de Guadalupe (México), das Mercês (Peru), do Cobre (Cuba) e La Puríssima (Nicarágua).

A resposta sobre Maria aparece no depoimento de uma mulher do povo, devota da Nessa Senhora Aparecida, logo na abertura do trailer do filme; com sua fala, ela derruba todo o império dogmático e esvaziado de sentido sobre a mãe de Jesus: “Maria somos todas nós. Maria é essa mulher que tá no morro, que tem seus filhos, o marido abandona e ela cria esses filhos. E ela vai buscar outro parceiro. E ela tem o sorriso”. Veja o trailer e se puder  todo o documentário, que está disponível no Netflix ou no YouTube (é baratinho, R$ 3,90 –aqui o link).

O que se aprendeu sobre Maria, a partir do pensamento conservador católico? Que ela é “pura” (branca), sempre virgem, entronizada nos altares (portanto, distante das pessoas), condescendente e recolhida em sua castidade, trancada em casa, absorta em seu silêncio e ensimesmamento.

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Bispos dizem que o modelo de sacerdócio faliu; é preciso mudar já

Com diferença de poucos dias, três bispos saíram a público para anunciar o que parece óbvio, mas é um tema tabu na Igreja: o modelo atual/tradicional de sacerdócio faliu e é preciso encontrar novos caminhos. Falaram sobre o assunto o bispo de Macapá (AP), dom Pedro Conti, o da diocese australiana de Parramatta, dom Vincent Long Van Nguyen, e o recém-nomeado bispo de Innsbruck, na Áustria, Herman Glettler,

O tema do sacerdócio na contemporaneidade suscita uma série de outras questões: o fim do celibato, a ordenação de homens casados, o diaconato e o sacerdócio feminino, a comunhão para divorciados em segunda união e os temas vinculados ao universo dasexualidade. São assuntos historicamente entrelaçados e que mobilizaram intensamente a Igreja nos anos 1980-90,quando foram vetados pelo governo conjunto de João Paulo II e do cardeal Ratzinger. O silêncio foi imposto à custa de editos de tom imperial, censuras, repreensões públicas e privadas, remoções e punições  em cascata, como as do padre e teólogo alemão Eugen Drewermann (1991), proibido de ensinar, da teóloga e freira brasileira Ivone Gebara (1995), condenada ao silêncio e exílio na Europa por dois anos, as seguidas sentenças contra o teólogo alemão Hans Küng, e a proibição liminar para o debate sobre estes temas no âmbito das conferências episcopais nacionais.

O assunto ficou sufocado durante mais 30 anos e volta timidamente agora, com as rachaduras que a primavera de Francisco provoca na crosta de gelo do longo inverno conservador.

Dom Vincent Long Van Nguyen, que chegou à Austrália como menino refugiado do Vietnam, é hoje o bispo da diocese de Parramatta, no subúrbio de Sidney, a quinta maior do país. Ele é o líder católico australiano mais identificado com o Papa Francisco e uma esperança para o futuro de uma Igreja devastada pela praga da pedofilia -entre 1980 e 2015, quase 4.500 pessoas denunciaram abusos sexuais contra menores cometidos pelos 1.880 membros da Igreja local, o que significa 7% do clero do período, percentual que chegou para mais de 15%, em algumas dioceses. Dom Nguyen foi, ele mesmo, vítima de abusos .

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Francisco não se atemoriza e retruca duramente aos conservadores em Bolonha

Papa na missa em Bolonha: conservadores não o intimidam

Enganou-se quem supôs que o Papa poderia recuar ou moderar seus posicionamentos depois do agressivo manifesto ultraconservador acusando-o de “heresia”. Francisco esteve sábado e domingo em visita pastoral às cidades de Cesena e Bolonha, no norte da Itália, e foi ainda mais explícito em sua visão da Igreja e do cristianismo, conforme os ensinamentos originais de Jesus.

No lotado estádio de Ara em Bolonha, na missa dominical, ele afirmou que o traço distintivo da identidade cristã é composto por três “P”: Palavra, pão e pobres: “nunca devemos esquecer os alimentos-base que sustentam o nosso caminho: a Palavra, o Pão, os pobres”. No altar, uma faixa enorme: “Se partilhamos o pão do céu, como não partilhar o pão da terra?”. A frase é do cardeal Giacomo Lercaro, nome referencial da Igreja em Bolonha e um dos principais protagonistas do Vaticano II, defensor destemido da centralidade dos pobres na Igreja.  Mais um sinal aos conservadores: a herança do Concílio é intocável e ele é o norte da Igreja.

Ainda na homilia em Bolonha, o Papa, a partir do Evangelho dominical (Mt 21,28-32), deu um duríssimo recado aos contras que desejam ver a Igreja voltar aos tempos do fechamento e do clericalismo.

O Evangelho é sobre a postura de dois filhos que, convocados pelo pai a trabalhar na vinha (a imagem por excelência do povo na Bíblia) têm respostas distintas: o primeiro diz que não vai, arrepende-se, e resolve atender ao pedido do pai; o segundo diz que sim, mas não vai.

Jesus dirige esta parábola, explicou Francisco na homilia, a alguns chefes religiosos da época “que se assemelhavam ao filho de vida dupla, enquanto as pessoas comuns se comportavam frequentemente como o outro filho”. Num trecho aparentemente dedicado aos restauracionistas, o Papa acrescentou: “Estes chefes sabiam e explicavam tudo, em modo formalmente irrepreensível, como verdadeiros intelectuais da religião. Mas não tinham a humildade de escutar, a coragem de interrogar-se, a força de arrepender-se”.

O problema destes chefes religiosos, observou o Papa, é o rigor aparente que apresentam às pessoas, como os líderes conservadores hoje: “Eram, em palavras e com os outros, inflexíveis custódios das tradições humanas, incapazes de compreender que a vida segundo Deus é ‘em caminho’, que pede a humildade de abrir-se, arrepender-se e recomeçar”.

O Papa atacou diretamente um dos centros da visão conservadora, segundo a qual a vida cristã resume-se ao cumprimento de regras de comportamento: “(…) não existe uma vida cristã decidida numa conversa ao redor duma mesa, cientificamente construída, onde basta cumprir alguns ditames para aquietar a consciência”.

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Conservadores contra o Papa: falsificações, fraude e racha

Os conservadores queriam derrubar o Papa: manifesto isolou-os na Igreja

Menos de uma semana depois do lançamento do manifesto conservador contra o Papa, que o acusa de heresias enquanto se apresenta cinicamente como “correção filial”, o cenário para a oposição a Francisco é de desastre. Desde o domingo (24) à noite, quando foi divulgado, descobriram-se falsificações no texto, pelo menos uma fraude entre os signatários e um racha de enormes proporções: o número dois da reacionária Opus Dei, o padre argentino Mariano Fazio, condenou a iniciativa, considerando que ela escandaliza “toda a Igreja com estas manifestações de desunião”.

Em uma entrevista à vaticanista Elisabetta Piqué publicada neste sábado (30) no La Nacion,  comandante da Opus Dei criticou diretamente o líder do manifesto, o banqueiro italiano Ettore Tedeschi, que é membro destacado da organização (leia aqui), dizendo que ele “se equivocou”. O sacerdote concordou com a jornalista, quando ela definiu a iniciativa agressiva contra o Papa como oriunda de uma “minoria ruidosa”.

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Banqueiro é o líder do manifesto contra o Papa

O banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, líder da oposição ao Papa

Um banqueiro é o articulador da ofensiva ultraconservadora contra o Papa, num grupo de 79 signatários dentre os quais não constam cardeais, bispos, teólogos ou figuras de maior expressão no catolicismo. Há de tudo: membros da TFP, sedevaticanistas (que consideram que a Igreja não tem Papa desde Pio XII) e um inimigo feroz das investigações contra os milhares de casos de abuso de menores na Austrália. O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo. Mas o pano de fundo é o combate frontal à opção de Francisco pelos pobres e o desejo de ver revogado o Concílio Vaticano II.

***

No último domingo (24) foi divulgada a “carta de correção formal” que conservadores católicos de diversos países assinaram para criticar o Papa e sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor).

O banqueiro italiano Ettore Gotti Tedeschi é o líder do manifesto dos conservadores católicos que acusam o Papa Francisco de cometer “heresias”. O fato de um banqueiro ser o líder de um ataque contra o chefe da Igreja dá a dimensão precisa do evento, ainda mais que o alvo dos acusadores é um Papa que escolheu estar ao lado dos pobres de todo o planeta. De um lado, o banqueiro; de outro o Papa dos pobres.

O tema público do embate é a mudança da posição da Igreja quanto ao direito à comunhão dos casais divorciados em segunda união, a manutenção em pleno século 21 da guerra contra o Modernismo e o ataque a Lutero e ao ecumenismo -como se poderá observar mais abaixo.

Mas o fundo da questão remete a uma frase de Jorge Semprún que frei Betto costuma repisar: “a cabeça pensa onde os pés pisam”. E, de fato, os solos em que pisam Tedeschi e Bergoglio são muito diferentes. A posição de cada um deles sobre o capitalismo dá a dimensão de uma das facetas que separa os conservadores de Francisco –a outra é o controle sobre a vida afetiva e sexual das pessoas.

O Papa é um severo crítico do capitalismo, que qualificou como uma “ditadura sutil” no II Encontro dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015. Para Francisco, o capitalismo “é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…” (aqui). No ano seguinte, na terceira edição da reunião com os movimentos populares, o Papa falou especificamente sobre os bancos: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto?”.

O banqueiro Gotti tem uma visão do capitalismo diametralmente oposta à do Papa. Não é à toa: em 1987, ao fundar na Itália o banco Akros, arrebanhou nada menos que 275 milhões de euros de ricos italianos e de outros países da Europa e EUA. Alguns anos depois, ele se associou ao multimilionário Emilio Botín para fundar a filial italiana do Banco Santander, que presidiu por alguns anos.

Como se vê, o líder e porta-voz dos conservadores rebelados não tem o que reclamar do capitalismo sobre o qual escreveu uma verdadeira elegia num artigo para a Fundação Liberal da Itália: “A economia é uma técnica avançada e sofisticada, mas neutra, que, para ser vantajosa para o homem, deve ser considerada importante, central. […] O capitalismo, sem dúvida, fez muito pelo homem e pode fazer muito mais”.

Em 2005, foi investigado por irregularidades num rumoroso caso envolvendo a Parmalat, que acabou prescrevendo sem julgamento em 2007. O processo não impediu que em 2008 ele fosse nomeado gestor das finanças da Cidade do Vaticano. De quem partiu o convite? Do então todo poderoso cardeal Tarcísio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, homem forte do papado de Ratzinger e hoje envolvido num escândalo de grandes proporções: o desvio de dinheiro do hospital pediátrico Bambino Gesù, do Vaticano, para uma reforma de 500 mil euros na sua megacobertura de 600 metros quadrados com 100 metros quadrados de terraço.  Em 2009, Gotti foi nomeado por Bento XVI presidente do IOR, o Banco do Vaticano, para ser acusado um ano depois pela Procuradoria de Roma de violações às normas contra a lavagem de dinheiro nas instituições financeiras –em 2012, foi afastado do Banco.

Em entrevista ao site conservador espanhol InfoVaticana, Gotti Tedeschi pontificou, com a soberba e a ironia típicas de um banqueiro: “Imagino que o papa vai agradecer os signatários do documento e vai querer se reunir um por um para reconhecer os erros cometidos no seu magistério”.  Uma nota: nenhuma mídia católica conservadora qualificou-o como banqueiro em todas as reportagens ele foi apresentado pela denominação de economista, que devem ter considerado menos antipática ou denunciadora.

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Em 16 pontos, os projetos em disputa na Igreja: Vaticano II ou Trento?

Restaurar ou reformar? Igreja entre Francisco e a Cúria romana

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Uma foto e um quadro-resumo de 16 pontos: os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Burke e o bispo do povo, dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Numa foto e num quadro-resumo de 16 pontos, os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Raymond Burke e o bispo do povo José Maria Pires, o dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

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O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia

“O Papa é de esquerda?”, pergunta Le Figaro Maganize. Trechos do livro “Política e Sociedade”

A Figaro Magazine, revista do jornal francês Le Figaro, publicou na última sexta-feira (1) um longo extrato de trechos das sete entrevistas/conversas  do Papa Francisco com o pesquisador francês Dominique Wolton que estarão no livro Política e Sociedade a ser lançado nos próximos dias. O título da capa da revista francesa pergunta: “O Papa é de esquerda?”. Já está claro: ele é sim, -o que não quer dizer que comungue de todas as ideias comuns ao ideário progressista-libertário, como em sua visão sobre o casamento de homossexuais.

A revelação de que ele se consultara com uma psicanalista na Argentina, aos 42 anos, já havia vazado na última sexta. Mas a íntegra do que publicou Le Figaro Magazine tem muito mais:

  • ele revela ter aprendido sobre política com uma comunista, assassinada pelos militares durante a ditadura argentina;
  • afirma peremptoriamente que  “a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo.”;
  • ao falar sobre os refugiados, explicita: “Nossa teologia é uma teologia de migrantes.”;
  • critica os tradicionalistas: “a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes…”;
  • defende a absolvição nos casos de aborto;
  • explica o direito à comunhão dos divorciados em segunda união;
  • defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas que a palavra “casamento” seja reservada à união entre homem e mulher;
  • critica o rigor moralista voltando à repressão sexual: “Há um grande perigo de se condenar apenas a moral abaixo do cinto”.

Mas há mais, muito mais. Leia a seguir:

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