Os leigos da pequena Osorno são os líderes da Igreja neste momento

Protesto de leigas e leigos em Osorno contra nomeação do bispo Juan Barros

Esculpida a mão por João Paulo II, a Igreja chilena encontra-se em estado terminal. Os corajosos leigos e leigas da pequenina Osorno são os grandes líderes do catolicismo no atual momento. Eles ousaram dizer NÃO ao clericalismo e à “cultura do Templo”. Para a hierarquia católica, os leigos e leigas são pessoas desprezíveis, incômodas, um estorvo. Mas Jesus era leigo, como seus discípulos e o maior santo da história, Francisco. Uma reflexão apresentada à comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (10) tive a enorme alegria de ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, para participar de uma das sete celebrações eucarísticas o redor do 90 anos da paróquia. Foi um convite amigo do pároco, padre Paulo Sérgio Bezerra, das lideranças comunitárias do grupo Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM). Participei da missa e, logo depois da saudação inicial, apresentei à assembleia uma reflexão sobre o tema dos leigos e leigas na Igreja hoje.

A seguir, a íntegra do que falei lá:

Caros irmãos e irmãs, paz.

Estou aqui hoje com a missão de apresentar a vocês uma reflexão sobre a questão dos leigos e leigas na Igreja nos dias de hoje.

Começo com uma notícia estrondos: o Mestre de vocês era leigo.

Os discípulos do Mestre, seus primeiros seguidores, eram todos leigos.

O maior santo da Igreja, que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e mesmo do cristianismo, São Francisco, era leigo.

Quando Maria Madalena encontrou Jesus no momento crucial da ressurreição, em João, como ela saudou-o? Não o foi como Vossa Santidade, Papa, eminente cardeal, ou, mais apropriadamente, como convém a um católico obediente, Vossa Eminência Reverendíssima, dom Jesus, senhor bispo ou simplesmente padre ou Vossa Reverendíssima. Nem o chamou, como eram expressões correntes à época de grande rabino ou ilustre mestre da lei ou sacerdote afamado.

Nada disso. Saudou-o, entre surpreendida, alegre e assustada, o que índica extrema espontaneidade, de Rabuni! O que quer dizer mestre, grande mestre ou ainda mais própria e intimamente, meu mestre, meu grande mestre.

Jesus sentava-se para conversar com seus amigos em roda. Ceava com eles em roda. Não havia um lugar mais elevado ou um trono reservado a ele para partilharem pão e vinho.

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CNBB: quando a diplomacia não combina com a profecia e o Evangelho

Dom Sérgio da Rocha, presidente da CNBB

Padre Luis Miguel Modino avalia as duas notas lançadas nesta quinta-feira (19) pela CNBB para marcar o encerramento de sua 56ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP). Falta profetismo e Evangelho à entidade dos bispos brasileiros; sobram diplomacia e silêncios cúmplices

Por padre Luis Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira*

Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho.

O episcopado brasileiro publicou neste 19 de abril duas notas nas quais pretende apresentar sua postura diante do momento sócio-político que o país atravessa e das eleições que devem acontecer em outubro. Os textos são resultado dos debates levados a cabo na 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu de 11 de abril até hoje (20) os prelados do país.

Eram pronunciamentos esperados, mas em muitos deixaram um gosto agridoce, com palavras temperadas que tentam agradar a todos, mas que acabam produzindo o efeito oposto.

Na primeira nota, sob o título de “Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Povo de Deus” (veja a íntegra no final), a CNBB começa defendendo-se dos ataques sofridos nas redes sociais, dos quais participam grupos conservadores e reacionários, com o apoio mais ou menos explícito de padres, alguns com grande popularidade, sem qualquer  atitude concreta por parte dos bispos dos quais dependem canonicamente. São estes os mesmos grupos nos quais confluem interesses políticos, econômicos e religiosos, que perseguem os bispos e a CNBB.

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Dia decisivo na assembleia da CNBB

Celebração eucarística durante a Assembleia da CNBB em Aparecida

Assembleia da CNBB irá se manifestar sobre as eleições e o momento nacional. Na quarta (18), falaram três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha com o Papa: dom Claudio Hummes,  dom Roque Paloschi e dom Guilherme Werlang. Dom Paloshi foi contundente sobre a criminalização dos movimentos sociais e daqueles que atuam ao lado dos mais pobres: “Temos consciência de que se a Igreja não falar, as pedras vão falar”.

Por Mauro Lopes, com informações da CNBB

Nesta quinta (19), a 56ª Assembleia Geral da CNBB, reunida em Aparecida, divulgará duas manifestações importantes, sobre as eleições e o momento nacional. Elas darão o norte da Igreja Católica no país nos próximos tempos: haverá profetismo ou será mantida a linha de concessões aos integristas com uma posição dúbia e silente diante dos atentados às democracia, aos assassinatos e prisões injustas?

Ontem falaram à assembleia três bispos que são o rosto da Igreja que, no Brasil, caminha ao lado do Papa. Eles participaram da entrevista coletiva diária organizada pela CNBB (se quiser, você pode clicar no link abaixo e assistir).

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Uma carta aos bispos brasileiros: defendam os pobres e a democracia!

Um carta aberta do professor Robson Sávio Reis Souza aos bispos do Brasil, que se reúnem em Aparecida a partir de hoje (11) para mais uma assembleia da CNBB:  “tendo em vista sua história na luta pelas liberdades democráticas e pela justiça social” que a entidade posicione-se “claramente sobre a situação política atual do nosso país, a indicar à sociedade brasileira caminhos de superação da crise. Está em jogo, no atual momento, o futuro da nossa Nação.” Ao final da carta, uma indicação tomada da Exortação Apostólica Alegrai-vos e Exultai do Papa Francisco, que acaba de ser lançada: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo”.

Por Robson Sávio Reis Souza

Nesta quarta (11) começa em Aparecida a  56ª Assembleia Geral da CNBB (a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Ela acontece em meio a uma brutal crise do país e da própria Igreja Católica.

Tradicionalmente, a CNBB pronunciou-se em suas assembleias sobre o cenário nacional, como uma voz ao lado dos pobres, da democracia e da justiça. No entanto, sob pressão do clero e movimentos católicos integristas, a direção da entidade tem se mantido silenciosa e acuada nos últimos meses.

O professor Robson Sávio Reis Souza escreveu uma carta aos bispos brasileiros estimulando-os a saírem do silêncio e posicionarem-se claramente sobre o momento nacional, na perspectiva histórica da entidade, nascida “da inspiração de Dom Hélder, o ‘santo rebelde’.

Professor da PUC-MG e da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, Robson é coordenador da Comissão da Verdade em Minas Gerais e  integrante da Rede de Assessores do Centro Nacional de Fé e Política Dom Helder Câmara (organismo da própria CNBB).

Leia a íntegra da carta: Continue lendo “Uma carta aos bispos brasileiros: defendam os pobres e a democracia!”

Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

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Ruralistas do Pará lançam ataque sem precedentes contra Igreja Católica

Padre Amaro e Dorothy Stang: quando a Igreja questiona os poderosos

A Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), entidade dos latifundiários e ruralistas do Pará lançou na tarde desta quinta (29), um ataque sem precedentes à Igreja Católica no Brasil. Em nota assinada por seu presidente, Carlos Fernandes Xavier, foram atacados de maneira violenta e difamatória: 1) a memória da freira Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários do Pará; 2) o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, um dos nomes mais respeitados da Igreja em todo o mundo; 3) o padre José Amaro Lopes da Silva, pároco de Santa Luzia em Anapu e preso vítima de uma armação dos mesmos ruralistas; 4) a Comissão Pastoral da Terra (CPT); 5) o desembargador Gercino José da Silva Filho, ex-Ouvidor Agrário Nacional e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, ligado à Igreja, chamando de “embusteiro”;  e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denominada na nota de “Sindicato dos Bispos”. Nem mesmo no período da ditadura militar a Igreja Católica sofreu um ataque tão virulento.

Por Mauro Lopes

A nota é vazada em termos tão grosseiros e ofensivos que, por si só, denuncia o caráter do ataque dos ruralistas e latifundiários do Para (leia a íntegra da nota ao final). Toda ela é “costurada” numa linguagem que evoca a Guerra Fria dos anos 1960/80. Padre Amaro é qualificado de “subversivo que se traveste de religioso”; a CNBB, o “Sindicato dos Bispos”, dominada por uma “ala esquerdista”, pretenderia “implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”.

O assassinato de Dorothy Stang com seis tiros em 2005, na mesma Anapu onde foi preso padre Amaro, teve intensa repercussão mundial e ela  hoje é considerada uma das muitas mulheres santas mártires no seguimento de Jesus, ainda que não tenha sido por enquanto beatificada pela Igreja Católica. Mas ela já integra o calendário de santos e santas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como “Mártir da Caridade na Amazônia”.  Para os latifundiários do Pará em sua nota, entretanto, a freira assassinada era “persona non grata em Anapu”, “incitava a violência”, ao lado de dom Erwin, e ambos seriam suspeitos de “tráfico de armas”.

O alvo maior dos ataques é o padre Amaro, preso na última terça (27), alvo de um amontoado de acusações, reunidas com o objetivo de “engrossar” o processo: “associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro”. A nota dos latifundiários do Pará, entretanto, acaba por explicitar a razão do ódio e perseguição ao religioso: desde 2015, a Faepa buscava a prisão do padre Amaro por ser ele “o maior incentivador dos conflitos fundiários existentes”.

Conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota divulgada no dia seguinte à prisão, trata-se de “é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira.”

Há uma razão oculta sob o volume da campanha de ódio dos latifundiários paraenses, que esteve na origem do assassinato de Dorothy Stang e agora da prisão de padre Amaro: um bilionário esquema fraudulento de que privatizou e devastou extensas áreas da Amazônia. O ódio devotado a irmão Dorothy e agora a padre Amaro deve-se à ação de ambos para exigir do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a retomada das terras públicas roubadas pelos latifundiários, com “a criação de assentamentos coletivos, com grandes áreas de florestas nativas, capaz de sustentar o manejo florestal comunitário e a produção agrícola de forma sustentável” -leia logo abaixo um esclarecedor artigo de Tarcísio Feitosa da Silva, da CPT, que desnuda toda a trama dos ruralistas.

Em meio à onda fascista que buscou amedrontar o país nos últimos 15 dias, os ruralistas, que estiveram à frente de várias agressões à caravana de Lula no sul do Brasil, atacaram agora no norte, de maneira brutal, a Igreja Católica e os que lutam contra o latifúndio no Pará.

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Leia a seguir o artigo de  Tarcísio Feitosa da Silva

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Telefonema do Papa à família de Marielle foi articulado na Argentina

Dona Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, revelou na missa de sétimo dia da filha que a família recebeu um telefonema de solidariedade do Papa. A iniciativa de Francisco foi resultado de uma articulação acontecida na Argentina, sem qualquer participação da Arquidiocese do Rio ou da CNBB.

Por Mauro Lopes

A mãe de Marielle Franco, Marinete da Silva, falou aos presentes à missa de sétimo dia celebrada ontem (20) na Igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio – a missa foi transferida da Maré para que todos pudessem em seguida participar do ato/culto ecumênico na Cinelândia.  Ao final da celebração, o sacerdote convidou a família a se pronunciar, caso desejasse. Dona Marinete agradeceu o carinho recebido e informou então que o Papa Francisco havia telefonado.

A última foto que Marielle mandou para a irmã, Anielle

A família de Marielle é católica. Sua mãe é devota de Nossa Senhora Aparecida e foi ministra da Eucaristia na Maré. A última foto que Anielle recebeu de sua irmã, ainda viva, horas antes do assassinato, foi das duas diante de um altar em uma igreja no Rio. Marielle foi catequista e ativa participante da Pastoral da Juventude ainda adolescente. Depois, afastou-se da Igreja Católica que vive, no Rio, um clima quase irrespirável de conservadorismo e censuras e condenações e falso rigorismo moral.

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Franciscanos e padres periféricos protagonizam missas e cultos ecumênicos de 7º dia de Marielle e Anderson

Missa de sétimo dia em celebração da vida de Marielle e Anderson será na próxima terça (20) às 12h na Igreja de São Francisco no centro de São Paulo, lugar histórico dos franciscanos –devem ocorrer missas em Igrejas espalhadas pelo país. Padre Júlio Lancellotti e IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento) em São Paulo e os padres periféricos e perseguidos pela Arquidiocese do Rio assumem protagonismo. Haverá orações e cultos ecumênicos campais no fim da tarde de terça no vão do MASP (SP) e na Cinelândia (Rio) -o franciscano Leonardo Boff estará lá. Jornal do Vaticano fez enfática defesa de Marielle, enquanto CNBB continua calada e Arquidiocese do Rio tergiversa e permite que padres ao redor de dom Orani Tempesta ataquem a memória da líder assassinada.

Por Mauro Lopes

No vazio aberto pela ausência da CNBB e pela distância fria dos cardeais das duas maiores arquidioceses do país (São Paulo e Rio), a Ordem dos Frades Menores, conhecida como Ordem dos Franciscanos, ao lado de padres periféricos, assumiu o protagonismo histórico da Igreja Católica no Brasil num momento especialmente trágico, com a intervenção federal/militar no Rio e as execuções de Marielle Franco e Anderson .

Está marcada para a próxima terça-feira (20), às 12h, uma missa de sétimo dia para celebrar a vida de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes. Foi marcada pela Província Franciscana da Imaculada Conceição, que reúne em torno de si centenas de homens e mulheres, ordenados ou leigos (e leigas), nos Estados de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. Será presidida pelo líder máximo da província, frei Fidêncio Vanboemmel, e concelebrada por dezenas de sacerdotes franciscanos e padres de outras ordens, congregações e paróquias. Será, talvez, a celebração mais relevante da Igreja em São Paulo em décadas.

Um dos articuladores da missa é padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo e discípulo de dom Luciano Mendes de Almeida e de dom Paulo Evaristo Arns e uma referência fundamenta da Igreja “em saída” propugnada pelo Papa Francisco. Padre Júlio é perseguido cotidianamente pelo poder econômico e político de São Paulo, assim como pelos integristas católicos –nas últimas semanas sofreu ameaças de morte pelas redes sociais. “O momento é grave, os ataques aos direitos dos mais frágeis não param e, se a Igreja precisa estar com os menores todo o tempo, ainda mais nesta hora”, disse padre Júlio ao Caminho Pra Casa. Frei Fidêncio afirmou ao blog que é hora de afrontar o medo: “É um momento em que nós pastores devemos ser proféticos e deixar o medo de lado”.

Além da missa, haverá em São Paulo uma oração ecumênica de sétimo dia na abertura de uma manifestação no vão do MASP às 17h de terça. Lá estarão, entre outros:  o padre Paulo Sérgio Bezerra, um dos líderes do IPMD (Igreja Povo de Deus em Movimento)e pároco da Paróquia Nossa Senhora das Graças, na zona leste de São Paulo; há anos perseguido, caluniado e ameaçado por grupos de católicos integristas; o padre  Antônio Naves, da Comissão Pastoral da Terra; Walmir Damasceno, sacerdote de Tradição Bantu; e o pastor  Fábio Bezerril Cardoso, da CCPV (Comunidade Cristã Palavra e Vida).

Padre Bezerra cita a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) que, lançada em novembro de 2013, foi como um programa de governo do Papa Francisco, dizendo que ela “deveria animar a Igreja no Brasil”. “O Papa escreveu assim: ‘prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças’ (EG 49). É terrível, mas chega a ter dimensão de cumplicidade diplomática o silêncio e a omissão dos bispos de SP e RJ que, como cardeais, devem dar até o sangue pelo seu povo, e não se manifestaram explicitamente contra a barbaridade do assassinato político de Marielle Franco. A evidência do fato desbanca o silêncio diplomático ou a ambiguidade das palavras subentendidas. Por outro lado, a voz do povo é mais corajosa que a dos seus pastores. Aí o descompasso é evidente e progressivo.”

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Violência: Igreja Católica divide-se entre indignação e silêncio cúmplice

A professora Luciana e a vereadora Marielle -mulheres lideram e pagam alto preço

CNBB mais uma vez silencia diante da violência. Franciscanos levantam-se e acusam: “malditas as armas que ferem e matam, maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas”. Arquidiocese do Rio chegou a relacionar execuções de Marielle  e Anderson ao tema do aborto 

Por Mauro Lopes

Passadas 20 horas da execução da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista  Anderson Pedro Gomes no Rio de Janeiro, a direção nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),  permanecia em silêncio na tarde de quinta-feira (15) -em pleno transcurso da Campanha da Fraternidade dedicada ao tema da violência. Da mesma forma, mais de 24 horas depois da violência brutal da PM e da GCM que se abateu sobre servidoras e servidores municipais de São Paulo, a Arquidiocese da capital paulista permanecia silente.

A CNBB parece acuada diante das agressões seguidas que tem sofrido da direita católica –e reage recolhendo-se ao silêncio, em vez de colocar-se ao lado dos pobres do país, como fizeram as gestões da Conferência em outros tempos e como faz Francisco. O Papa é um exemplo: não se intimida diante da campanha que lhe movem os integristas católicos, e está onde os cristãos devem estar, sempre: com a vítimas.

Quem assumiu a frente da Igreja Católica no país, mais uma vez, foram os franciscanos.  Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, líder da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, divulgou na manhã desta quinta (15) uma nota vigorosa, contra a execução de Marielle e o ataque em de São Paulo, expressando a “indignação e tristeza” dos franciscanos.  “Malditas as armas que ferem e matam” é o título da nota. No texto, os franciscanos acrescentaram: “maldito o dinheiro que oprime ao invés de servir, malditas estruturas que roubam a humanidade das pessoas e as transformam em objetos usados de acordo com a conveniência de quem domina”.

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Na ausência da CNBB, a Igreja dos debaixo insurge-se contra a intervenção

Enquanto a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) mantém silêncio sobre a intervenção federal/militar no Rio de Janeiro, uma rede de organizações da Igreja Católica lançou um documento condenando a iniciativa do governo Temer e exigindo sua revogação imediata

Por Mauro Lopes

Dez organizações da Igreja Católica em São Paulo lançaram um manifesto contra a intervenção federal/militar decretada pelo governo Temer em 16 de fevereiro. A CNBB mantém-se silente desde então, apesar de haver lançado  apenas dois dias antes do decreto a Campanha da Fraternidade 2018, que tem como tema exatamente a violência, sob o lema “Fraternidade e a superação da violência”.

No lançamento da Campanha da Fraternidade, a principal convidada pela entidade dos bispos foi a presidenta do STF, Carmén Lúcia, chefe de um Poder que tem tido como política o encarceramento em massa no país, excluindo as organizações da própria Igreja e dos movimentos sociais que lutam com tal política (leia aqui).

Na nota lançada agora, dez as organizações de base da Igreja Católica afirmam que a Campanha da Fraternidade representa uma convocação para “cerrar fileiras com todos os que defendem a construção democrática da segurança pública, em total oposição à estarrecedora decisão do Governo Federal de intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro”.

O texto começa citando a exortação apostólica Evangelii Gaudium, lançada pelo Papa em 2013, na qual Francisco escreveu que sem “eliminar a exclusão e a desigualdade” a violência não terá fim.

As entidades denunciam “o pacto da mídia com o governo” e indicam elementos do texto-base da Campanha da Fraternidade que apontam um caminho radicalmente diferente daquele trilhado pelo governo Temer para o combate à violência.

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