Assembleia da CNBB: governo Temer defende os capitalistas contra os trabalhadores

Sessão da Assembleia da CNBB que aprovou a nota sobre a conjuntura nacional, na tarde de 3 de maio – foto: CNBB

Em sua última manifestação antes do encerramento da 55ª Assembleia Geral da CNBB, que acaba nesta sexta (5) em Aparecida, os bispos brasileiros divulgaram uma nota intitulada “O grave momento atual” a qual, sem mencionar o nome de Michel Temer, representa a mais dura condenação ao governo nascido do golpe: “não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista.” Segundo os bispos, a gestão da economia sob a lógica da globalização, “tem sido tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário.”

A nota foi apresentada durante a última entrevista coletiva da Assembleia, à qual compareceram Dom Sergio da Rocha, presidente da CNBB; Dom Murilo Krieger, vice-presidente; e Dom Leonardo Steiner, secretário-geral –este leu a íntegra da manifestação episcopal.

A epígrafe sob a qual foi apresentada a nota é uma passagem do Evangelho de Mateus, no contexto do conhecido Sermão da Montanha de Jesus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). Ao final do texto, como que em resposta à epígrafe, os bispos assinalaram que está “nas mãos” do povo brasileiro “defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.”

A manifestação desta quinta-feira é como que o ponto culminante de uma sequência iniciada em outubro passado. Foi uma inflexão da CNBB, que manteve uma postura ausente do cenário nacional, sem sequer emitir uma manifestação em condenação ao golpe de Estado. Em 27 de outubro de 2016, rompendo com a inércia, a Conferência lançou uma dura condenação à emenda constitucional que aplicou uma brutal redução nos gastos públicos direcionados aos mais pobres –conhecida como PEC 241. Na ocasião, os bispos qualificaram a medida de “injusta e seletiva” ao eleger “para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública” –a íntegra está aqui. Foram sucessivas manifestações contra as medidas do governo –terceirização, reforma trabalhista, liquidação da Previdência Social-, de protesto contra a violência que tem vitimado os mais pobres, até o apoio explícito à greve geral de 20 de abril último, quando mais de 100 bispos, 1/3 do episcopado brasileiro, convocou a adesão do povo à mobilização (aqui).

Logo no início da nota divulgada hoje, os bispos perguntaram: “O que está acontecendo com o Brasil?” E apresentaram um questionamento à crise ética que perpassa o país: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção.” A degradação do ambiente político-institucional está no horizonte de preocupação dos bispos, que consideram que “o Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos” e advertiram que “desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de ‘salvadores da pátria’ e o surgimento de regimes autocráticos”.

Os bispos condenaram o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso (20 de abril), e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão (30 de abril), como “barbáries que vitimaram os mais pobres”.

A CNBB também fez críticas ao Poder Judiciário, afirmando que “espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei” e aos veículos de comunicação de massa, ao afirmar que “da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.”

 

Leia a seguir a íntegra da nota:

O GRAVE MOMENTO NACIONAL

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, por ocasião de sua 55ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida-SP, de 26 de abril a 5 de maio de 2017, sente-se no dever de, mais uma vez, apresentar à sociedade brasileira suas reflexões e apreensões diante da delicada conjuntura política, econômica e social pela qual vem passando o Brasil. Não compete à Igreja apresentar soluções técnicas para os graves problemas vividos pelo País, mas oferecer ao povo brasileiro a luz do Evangelho para a edificação de “uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação” (Bento XVI – Caritas in Veritate, 9).

O que está acontecendo com o Brasil? Um País perplexo diante de agentes públicos e privados que ignoram a ética e abrem mão dos princípios morais, base indispensável de uma nação que se queira justa e fraterna. O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção. Urge, portanto, retomar o caminho da ética como condição indispensável para que o Brasil reconstrua seu tecido social. Só assim a sociedade terá condições de lutar contra seus males mais evidentes: violência contra a pessoa e a vida, contra a família, tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais (cf. Documentos da CNBB 50– Ética, Pessoa e Sociedade – n. 130)

O Estado democrático de direito, reconquistado com intensa participação popular após o regime de exceção, corre riscos na medida em que crescem o descrédito e o desencanto com a política e com os Poderes da República cuja prática tem demonstrado enorme distanciamento das aspirações de grande parte da população. É preciso construir uma democracia verdadeiramente participativa. Dessa forma se poderá superar o fisiologismo político que leva a barganhas sem escrúpulos, com graves consequências para o bem do povo brasileiro.

É sempre mais necessária uma profunda reforma do sistema político brasileiro. Com o exercício desfigurado e desacreditado da política, vem a tentação de ignorar os políticos e os governantes, permitindo-lhes decidir os destinos do Brasil a seu bel prazer. Desconsiderar os partidos e desinteressar-se da política favorece a ascensão de “salvadores da pátria” e o surgimento de regimes autocráticos. Aos políticos não é lícito exercer a política de outra forma que não seja para a construção do bem comum. Daí, a necessidade de se abandonar a velha prática do “toma lá, dá cá” como moeda de troca para atender a interesses privados em prejuízo dos interesses públicos.

Intimamente unida à política, a economia globalizada tem sido um verdadeiro suplício para a  maioria da população brasileira, uma vez que dá primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana e ao capital em detrimento do trabalho, quando deveria ser o contrário. Essa economia mata e revela que a raiz da crise é antropológica, por negar a primazia do ser humano sobre o capital (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Em nome da retomada do desenvolvimento, não é justo submeter o Estado ao mercado. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica financista. Recorde-se, com o Papa Francisco, que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium 58).

O desenvolvimento social, critério de legitimação de políticas econômicas, requer políticas públicas que atendam à população, especialmente a que se encontra em situação vulnerável. A insuficiência dessas políticas está entre as causas da exclusão e da violência, que atingem milhões de brasileiros. São catalisadores de violência: a impunidade; os crescentes conflitos na cidade e no campo; o desemprego; a desigualdade social; a desconstrução dos direitos de comunidades tradicionais; a falta de reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; a degradação ambiental; a criminalização de movimentos sociais e populares; a situação deplorável do sistema carcerário. É preocupante, também, a falta de perspectivas de futuro para os jovens. Igualmente desafiador é o crime organizado, presente em diversos âmbitos da sociedade.

Nas cidades, atos de violência espalham terror, vitimam as pessoas e causam danos ao patrimônio público e privado. Ocorridos recentemente, o massacre de trabalhadores rurais no município de Colniza, no Mato Grosso, e o ataque ao povo indígena Gamela, em Viana, no Maranhão, são barbáries que vitimaram os mais pobres. Essas ocorrências exigem imediatas providências das autoridades competentes na apuração e punição dos responsáveis.

No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum. Do Judiciário, a quem compete garantir o direito e a justiça para todos, espera-se atuação independente e autônoma, no estrito cumprimento da lei.   Da Mídia espera-se que seja livre, plural e independente, para que se coloque a serviço da verdade.

Não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade. Por isso, urge a construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna. “É necessário procurar uma saída para a sufocante disputa entre a tese neoliberal e a neoestatista (…). A mera atualização de velhas categorias de pensamentos, ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisões coletivas, não é suficiente. É necessário buscar caminhos novos inspirados na mensagem de Cristo” (Papa Francisco – Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais – 24 de abril de 2017).

O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.

A CNBB está sempre à disposição para colaborar na busca de soluções para o grave momento que vivemos e conclama os católicos e as pessoas de boa vontade a participarem, consciente e ativamente, na construção do Brasil que queremos.

No Ano Nacional Mariano, confiamos o povo brasileiro, com suas angústias, anseios e esperanças, ao coração de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Deus nos abençoe!

 

CNBB denuncia: PM desarmou indígenas Gamela e em seguida permitiu ataque dos fazendeiros e jagunços

Um dos Gamela feridos que tiveram o primeiro atendimento na na cidade de Vitória do Mearim. Foto: Ana Mendes/Cimi

O bispo de Viana (MA), dom Sebastião Lima Duarte, município onde ocorreu o brutal ataque aos indígenas Gamela na tarde de domingo (30) denunciou na tarde desta segunda, ao falar em nome da CNBB em entrevista coletiva: “A polícia desarmou os indígenas e em seguida  permitiu o ataque dos fazendeiros e jagunços”. A entrevista aconteceu durante a Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida.

São 13 feridos, dois em estado muito grave, cinco baleados; dois tiveram as mãos decepadas por golpes de facão.

Leia a seguir  ou aqui o relato da situação no Povoado das Bahias, no município de Viana, feito pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) da CNBB:

Depois de uma madrugada de tensão pelo receio de novos atos de violência contra as aldeias Gamela, além da angústia sobre o estado de saúde dos feridos no ataque deste domingo, 30, contra a retomada dos indígenas no Povoado das Bahias, município de Viana (MA), informações consolidadas dão conta do massacre envolvendo a amputação de membros do corpo de dois indígenas: cinco baleados, sendo que dois tiveram também as mãos decepadas, e chega a 13 o número de feridos a golpes de facão e pauladas. Não há, até o momento, a confirmação de mortes.

Os dados seguem sendo parciais, os números de baleados e feridos podem aumentar, e isso se deve ao fato de que os Gamela se espalharam após a investida dos fazendeiros e seus capangas, entre 16h30 e 17 horas. Os criminosos estavam reunidos para atacar os indígenas ao menos desde o início da tarde, nas proximidades do Povoado da Bahias, numa área chamada de Santero, conforme convocação realizada pelas redes sociais e em programas de rádio locais – inclusive com falas de apoio do deputado federal Aluisio Guimarães Mendes Filho (PTN/MA).

Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Viana (MA), município onde ocorreu o ataque dos fazendeiros e jagunços, durante entrevista na Assembleia da CNBB

Cinco indígenas foram transferidos durante a noite de ontem e madrugada de hoje para o Hospital Socorrão 2, Cidade Operária, na capital São Luís. Todos baleados em várias partes do corpo e dois chegaram à unidade com membros decepados: um teve as mãos retiradas a golpes de facão, na altura do punho (foto ao lado); outro, além das mãos, teve os joelhos cortados nas articulações.

Na manhã desta segunda-feira, 1o de maio, Dia dos Trabalhadores, dois Gamela receberam alta: um levou um tiro de raspão na cabeça e teve apenas uma das mãos machucadas e o segundo levou um tiro no rosto e outro no ombro, mas sem prejuízos para os órgãos vitais. Os demais seguem internados: dois  em estado grave, correndo risco de morte, e sem alternativa passaram por intervenções cirúrgicas.

“Um deles levou dois tiros, uma bala está alojada na coluna e a outra na costela, teve as mãos decepadas e joelho cortados. O irmão dele levou um tiro no peito. Outro teve as mãos decepadas”, relata integrante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que esteve com os Gamela hospitalizados em São Luís. Carros de apoiadores dos Gamela, inclusive, tiveram que cuidar de algumas locomoções de feridos pela falta de ambulâncias.

Em Viana e nos municípios do entorno, os feridos receberam atendimento médico com cortes de facão pelo corpo e lesões diversas. Relatos de áudio, ao menos de três moradores e moradoras da cidade, circulam trazendo informações de que boatos correram ainda à noite, horas após a ofensiva contra os Gamela, sobre ataques a serem realizados contra os indígenas na unidade de pronto-atendimento, fazendo com que muitos saíssem do local após os primeiros socorros.

“Tememos novos ataques a qualquer momento. A concentração de jagunços segue estimulada e organizada no Santero, o mesmo lugar de onde saíram ontem pra fazer essa desgraça com o povo da gente. A polícia tá dizendo que não foi ataque, mas confronto. Não é verdade, fomos pegos de tocaia enquanto a gente saía da retomada. Mal podemos nos defender, olha aí o que aconteceu”, diz um Gamela que não identificamos por razões de segurança.

O Governo do Estado do Maranhão, por intermédio das secretarias de Segurança Pública e Direitos Humanos, está informado dos fatos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também foi notificada e a intenção é envolver o governo federal na garantia dos direitos humanos e de proteção aos Gamela – sobretudo porque a avaliação dos indígenas é de que as polícias Militar e Civil são próximas dos principais opositores da pauta do povo, que na região sobre com racismo e preconceito sendo constantemente taxados de falsos índios.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e a 6a Câmara de Coordenação e Revisão, que cuida dos assuntos ligados aos povos indígenas e quilombolas na Procuradoria-Geral da República (PGR), estão analisando formas de intervenção na situação. A Relatora da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, será comunicada nas próximas horas sobre o ataque contra os Gamela. Em Nova York (EUA), o Fórum Permanente de Assuntos Indígenas das Nações Unidas está reunido desde a semana passada e conta com uma delegação do Brasil de indígenas Munduruku, Yanomami, Baré e Kanamary, além da Repam, Cimi e Fian.

Não é o primeiro ataque sofrido pelo povo Gamela, que luta para que a Funai instale um Grupo de Trabalho para a identificação e demarcação do território tradicional. Devido a morosidade quanto a quaisquer encaminhamentos pelo órgão indigenista, os Gamela decidiram recuperar áreas tradicionais reivindicadas. Em 2015, um ataque a tiros foi realizado contra uma destas áreas. Em 26 de agosto de 2016, três homens armados e trajando coletes à prova de bala invadiram outra área e foram expulsos pelos Gamela, que mesmo sob a mira de armas de fogo os afastaram da comunidade.

 

CNBB: nunca houve tamanha retirada de direitos; Igreja de Jesus trabalhador quer “sociedade que espelhe o Reino definitivo”

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz

O bispo de Campos (RJ), dom Roberto F. Ferrería Paz, ao falar sobre o 1º de Maio em nome da CNBB, em entrevista coletiva realizada na tarde deste Dia do Trabalhador, afirmou que “nunca se assistiu no Brasil tamanha retirada de direitos”. O bispo que é também presidente da Pastoral da Saúde, falou em Aparecida (SP), onde acontece a 55ª Assembleia Geral da CNBB: “Este 1º de Maio no Brasil é celebrado no contexto de um recuo sem precedentes nos direitos, de retirada dos direitos; o Estado esqueceu sua tarefa de mediador dos conflitos entre capital e trabalho para voltar-se contra os trabalhadores”; para ele o governo Temer “segue à risca a agenda neoliberal e, ao impor as ‘reformas’, usou uma palavra -reforma- que dá impressão de avanço, mas é uma ação para recuar ao capitalismo selvagem”.

O pronunciamento de dom Ferrería Paz foi extremamente contundente. Ele disse que “ao longo da história do Brasil os trabalhadores sempre estiveram na vanguarda das lutas democráticas” a garantiu que “os trabalhadores podem contar sempre com a Igreja Católica como companhia de caminho rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna que espelhe o Reino definitivo”.  Ele explicou que essa opção da Igreja prende-se à sua origem: “Estamos com a classe trabalhadora e não poderia ser de outra forma, pois Jesus foi um trabalhador”.

O bispo de Campos mencionou três iniciativas do governo Temer que concretizam a agressão aos trabalhadores: a terceirização das relações de trabalho, a reforma trabalhista e a PEC 287, “que praticamente elimina o sistema de Previdência Social no país”; dom Ferrería Paz . Ele reafirmou o apoio e incentivo da CNBB às mobilizações contra a reforma, afirmando que “diante da precarização das leis trabalhistas, nossa palavra é de encorajamento e de estímulo às mobilizações justas, democráticas e pacíficas para gerar uma cultura do trabalho decente, justo e solidário”.

No espírito do ensinamento do Papa Francisco, dom Ferrería Paz convocou os católicos e os democratas do país: “Temos que responder à globalização do descarte, da exclusão e da indiferença com a globalização da solidariedade, da comunhão e da justiça”

[Mauro Lopes]

Papa quer renovação da Igreja no Brasil baseada no fim do clericalismo

O Papa recebe o padre Vilson Groh no Vaticano. Foto: L’Osservatore Romano

O Papa Francisco quer que os leigos sejam os grandes protagonistas da Igreja no Brasil, avalia que no país e na América Latina há um clericalismo crônico e aponta a dinâmica surgida nos três encontros mundiais dos movimentos populares convocados por ele como caminho para a “Igreja em saída” da qual ele fala recorrentemente.  Um tema de grande preocupação para o Papa: o desafio ambiental, a pobreza e a exclusão na Amazônia.

Essas foram as ideias-chave que ele expressou ao padre Vilson Groh numa longa audiência privada no Vaticano em 16 de fevereiro último. “O Papa disse que Igreja em saída é Verbo que se faz carne no ser humano”, disse Groh, em entrevista ao Caminho Pra Casa. Ele foi ao Papa para apresentar o trabalho do IVG (Instituto Pe. Vilson Groh), que atua há três décadas na periferia de Florianópolis, especialmente com crianças, adolescentes e jovens.

Quem articulou o encontro foi Paolo Rufini, diretor da TV Vaticano e um apoiador entusiasmado dos projetos do Instituto –“ele sempre vem a Florianópolis para ficar com a comunidade no morro”, disse o padre Groh. O encontro foi marcado por forte emoção. Groh levou cartas das crianças ao papa: “As cartas diziam ‘o senhor é uma esperança para nós, que vivemos na periferia’. Elas pediram que orasse por eles, e contaram que havia muito sofrimento na periferia.”. Em resposta, o Papa gravou, no próprio celular de Groh, uma mensagem para as crianças (veja ao fim desta reportagem).

“O Papa disse que a Igreja no Brasil e na América Latina é muito clericalizada [nota: o clericalismo é a substituição da centralidade de Cristo pela da hierarquia da Igreja] e que é preciso romper com isso e abrir um tempo de protagonismo leigo”, afirmou o padre de Florianópolis. Segundo ele, Francisco disse ainda mais sobre o tema: “É preciso se pensar, no Brasil, nas celebrações presididas por leigos formados, e não apenas por padres. O Papa disse que é fundamental ter em mente a formação de comunidades e que as Comunidades Eclesiais de Base são uma alternativa para a Igreja em saída”.

O tema do protagonismo dos leigos é um dos eixos da 55ª Assembleia Geral da CNBB que está acontecendo até 5 de maio em Aparecida (SP). Dois dias antes do encontro do Papa com Groh, o bispo emérito de Jales, Dom Demétrio Valentini, fez uma forte homilia exatamente no Santuário Nacional de Aparecida na qual apresentou a proposta de, a CNBB assumir a figura dos presbíteros de comunidade, leigos, que passem a assumir a presidência da Eucaristia. Ele lembrou, ao lançar a ideia, que o Papa tem instado a CNBB a apresentar um projeto para um novo protagonismo dos leigos –por isso o tema entrou na agenda da Assembleia Geral (aqui o link para a homilia).

O Papa tem seguidamente criticado o clericalismo como a grande doença da Igreja. Por isso, acolheu com visível entusiasmo a proposta que lhe fizeram os superiores dos quatro ramos principais dos franciscanos, em encontro no dia 10 de abril no Vaticano: que seja alteradas as normas para que leigos possam assumir cargos de lideranças em suas comunidades. “O Papa Francisco estuda as possibilidades de fazer avançar este projeto”, disse Frei Michael Perry, Ministro Geral dos Frades Menores, e acrescentou: “Deixamos uma carta com um pedido formal para uma dispensa dos requisitos da lei canônica que, na maioria das ordens religiosas,  apenas um padre pode ser eleito para os cargos de liderança” -leia aqui.

Até agora, os sinais emitidos pela Assembleia da CNBB no tema do protagonismo dos leigos são tímidos e podem frustrar o desejo do Papa. Numa entrevista coletiva na tarde de sexta (28), o coordenador do tema, dom Geremias Steinmetz, bispo de Paranavaí (PR), fez afirmações genéricas e sem qualquer indício de uma inovação relevante. Como o assunto está submetido à plenária de todos os bispos, pode haver novidades nos próximos dias.

Continue lendo

1/3 dos bispos convocam a greve geral; surge um novo desenho da Igreja no país

Assembleia Geral da CNBB vai até 5 de maio em Aparecida. Foto: CNBB

Até o meio da noite de quinta (27), véspera da greve geral contra as reformas do governo Temer, era possível contabilizar 98 bispos católicos que, em notas ou vídeos, convocaram os fiéis de suas dioceses e arquidioceses participarem ativamente do protesto. É certo que mais bispos manifestaram-se, mas a “garimpagem” realizada por dezenas de pessoas país afora não capturou toda a mobilização episcopal. É possível dizer que quase 1/3 dos 308 bispos na ativa no país estão comprometidos com a greve –veja a lista aqui.

Um olhar para a composição da lista de bispos mobilizados mostra um novo perfil da Igreja no país, superando os anos de silêncio e apatia. Nas últimas semanas, a Igreja no Brasil ficou mais parecida com a Igreja que as pessoas reconhecem no Papa Francisco, e assumiu importância na vida nacional, depois de um longo período de irrelevância. O profetismo e a vinculação com os pobres voltou à cena com vigor.

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, na Assembleia da entidade – Foto: CNBB

Isso não quer dizer que os bispos progressistas sejam maioria –nem no período auge da Teologia da Libertação o foram. Continua a haver uma maioria moderada, silente, preocupada com o futuro da instituição e seu próprio futuro, representada pelo presidente da CNBB, o cardeal dom Sérgio da Rocha.  O polo dinâmico, progressista, alinhado ao Papa Francisco, tem sua liderança partilhada entre o secretário-geral da CNBB, o franciscano dom Leonardo Ulrich Steiner e os presidentes e principais dirigentes das pastorais sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Pastoral Carcerária, Pastoral da Saúde e Caritas Brasileira –todos eles lançaram convocações à greve. Dentre os religiosos, os dominicanos, mais engajados durante a ditadura, cedem lugar aos franciscanos, com um protagonismo alegre e comprometido.  Nos momentos de maior compromisso da Igreja com os pobres no país, houve uma composição entre os blocos moderado e progressista do episcopado.

Dom Orani e dom Odilo: com Temer. no dia da votação da emenda de corte nos gastos sociais, em outubro de 2016. Foto: Beto Barata/PR

Há um polo abertamente reacionário, comprometido com os interesses dos ricos, minoritário como o progressista. É liderado pelos cardeais do Rio, dom Orani Tempesta, e de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer. Não é coincidência que nem eles nem qualquer dos bispos auxiliares de São Paulo ou Rio tenham se manifestado a favor da greve geral. Ambos foram os líderes da visita de um grupo de bispos a Temer, e não se cansam de manifestar simpatia ao governo golpista exatamente no dia da votação da PEC do Teto dos Gastos (que congelou os gastos sociais no país por 20 anos) –leia aqui.

Observe no quadro abaixo como está distribuída no país a liderança eclesial progressista. Foram mapeados 93 bispos, distribuídos regionalmente da seguinte maneira: 19 do Norte, 29 do Nordeste, 6 do Centro-Oeste, 31 do Sudeste e 13 do Sul. O Estado com mais bispos convocando a população é Minas Gerais, com 19, em parte devido ao protagonismo de dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte –acompanharam-no na convocação à greve cinco bispos auxiliares de BH. O segundo Estado com maior presença é o Maranhão, com 9 bispos –uma participação destacada, num Estado que possui 12 dioceses.

Veja o quadro:

 

Há um novo desenho da Igreja no país, sob influxo da liderança do Papa Francisco e em meio a uma brutal ofensiva contra os direitos dos mais pobres. Este perfil renovado será contemplado pela Assembleia Geral da CNBB, que acontece até 5 de maio em Aparecida (SP)? Uma aliança entre progressistas e moderados voltará a dar o tom à Igreja no país?

[Mauro Lopes]

CNBB e quase 100 bispos convocam população para a greve geral

A Igreja no Brasil acerta o passo com o Papa. Na foto, Francisco com o povo no Rio, em 2013

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – aqui) e 98 arcebispos e bispos de um universo de 308 na ativa neste momento no país lançaram convocações à população para a greve geral contra as reformas do governo Temer e a política de massacre dos pobres do país iniciada depois do golpe de Estado. É uma mobilização eclesial na direção dos pobres não vista desde o fim do regime militar no Brasil, sob o impacto da mudança de rumos que o Papa Francisco lidera na Igreja em todo o mundo.

[nota: na primeira versão desta reportagem, ao fim da manhã da quarta, 26, eram no total 42 bispos e arcebispos, mas a mobilização eclesial continua a crescer]

É significativo o silêncio dos cardeais de São Paulo (dom Odilo Pedro Scherer) e do Rio (dom Orani Tempesta), que tornam suas arquidioceses em bastiões do conservadorismo católico no país em oposição ao Papa Francisco.

[Nota: No começo da tarde de quarta, o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, rompeu o silêncio e falou. Um vexame que envergonhou a Igreja. Escalado para a entrevista coletiva da primeira tarde da Assembleia Geral da CNBB, pouco depois das 15h, o cardeal foi encarregado de falar sobre os temas sociais do país. Ao apresentar a agenda da Assembleia, ele ignorou a greve geral, apesar do posicionamento oficial da CNBB. Questionado por um jornalista, dom Odilo deu razão a todos os que o acusam de aderir ao regime do golpe. Disse secamente que “o povo tem direito de se manifestar”, disse que espera que a reforma da Previdência seja boa (?) e arrematou: “dizer que somos a favor ou contra é muito simplista”.
Apresentou uma posição “neutra” quanto à reforma da Previdência e quanto à reforma trabalhista e à terceirização –neutralidade que é o desejo maior de Temer neste momento em que o governo está isolado na sociedade.
Como o personagem bíblico, o cardeal lavou as mãos: “Quanto aos bispos que conclamaram a greve, bem, cada bispo é livre para fazer o que quiser.
Candidato a Papa da Cúria romana no último conclave, derrotado por Francisco, o cardeal de São Paulo deixa toda a Igreja-Povo de Deus com enormes saudades dos tempos de dom Cláudio Hummes e especialmente dom Paulo Evaristo Arns.]

Veja a lista dos arcebispos e bispos que se manifestaram e, ao final, vários dos vídeos espalhados nas redes sociais –é uma lista parcial do que foi possível levantar a partir da “garimpagem” e partilha de muitas pessoas.

[Mauro Lopes]

Continue lendo

As igrejas católica e luterana veem o país e confrontam governo Temer

O país do povo que resiste ao jugo do turbocapitalismo. Foto: MTST

As igrejas, no ritmo do Evangelho do cego de nascença (Jo 9, 1-41) que católicos e católicas escutam nas missas deste domingo (26) começam a “ver o país”.

 

A opção preferencial pelos ricos e a política de terra arrasada contra os pobres do governo Temer está levando as igrejas católica e luterana para um confronto que começa a lembrar a dicotomia existente no período da ditadura militar no país. É impressionante a sequência de pronunciamentos de algumas das mais expressivas lideranças das duas igrejas que foi claramente pautada pela agenda dos movimentos sociais: o primeiro foi no Dia Internacional da Mulher, depois houve uma onda impulsionada pelo Dia Nacional de Paralisação e Luta em 15 de março e o momento culminante aconteceu na quinta-feira (23) com uma dura nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra a reforma da Previdência Social, considerando-a uma escolha “pelo caminho da exclusão social” (aqui).

O fato é que a emenda constitucional que restringe os gastos públicos, a aprovação da terceirização selvagem das relações de trabalho e a tentativa de liquidação da Previdência Social compõem o centro do governo nascido com o golpe contra uma presidente eleita e rompem os dois grandes pilares do pacto social brasileiro, a CLT e a Constituição de 1988.

O primeiro pronunciamento, no Dia Internacional da Mulher, foi da Conferência dos Religiosos do Brasil, que reúne mais de 35 mil religiosos e religiosas de congregações –mulheres, em sua imensa maioria. Sua presidente, irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, distribuiu uma carta na qual se expressou “com o coração entristecido por, mais uma vez, ver os interesses de poucos solaparem os direitos de muitos, especialmente das crianças e jovens mais pobres e vulneráveis. Literalmente querem nos tirar as migalhas.” A freira convocou a mobilização de todos os religiosos e religiosas: “Ou nós nos mobilizamos e defendemos o direito das nossas instituições e dos pobres, ou mais uma vez pagaremos a conta dos desmandos palacianos”.

No Dia de Lutas, em 15 de março, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas em todo o país, os franciscanos e os jesuítas divulgaram notas contundentes, enquanto comunidades de base da Igreja Católica acorreram às manifestações.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota logo na manhã de quarta (15) na qual anunciou um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.

A Companhia de Jesus, ordem a que pertence o Papa Francisco e que reúne mais de 16 mil jesuítas ao redor do mundo, emitiu um comunicado em nome de todos os seus líderes que estavam reunidos no dia 15 em São Leopoldo (RS) afirmou olhar com “esperança de que mobilizações como a de hoje ajudem a sensibilizar os nossos governantes e congressistas a rever seus posicionamentos”.

No mesmo dia, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) distribuiu um parecer de sua assessoria jurídica apontando a inconstitucionalidade e perversidade dos efeitos da reforma contra os povos originários do país (aqui).

A seguir, os luteranos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) pronunciaram-se numa carta que historia os posicionamentos corajosos de seus pastores no último ano e “admoesta as autoridades diante do quadro brasileiro com a Palavra do Senhor: Executai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar (Jeremias 22.3)”.

Dois dias depois, em 17 de março, Dom Francisco Biasin, bispo da diocese de Volta Redonda (RJ) publicou uma nota confrontando diretamente no novo eixo de poder do país: “É escandalosa a ascensão ao poder de pessoas de duvidosa reputação, sob suspeita de corrupcão ou em adiantado processo de investigação, para ocupar cargos de alta responsabilidade no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.”

Não é coincidência a harmonia de movimentos dos católicos e luteranos no país simultaneamente a uma aproximação sem precedentes entre as duas Igrejas liderada pelo Papa Francisco e pelo presidente da Federação Luterana Mundial, bispo Munib Younan –sob oposição cerrada do conservadorismo católico.

O reitor da PUC-MG e bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, numa entrevista ao site italiano Settimana News advertiu: “Os brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses.”

Continue lendo