Bispos dizem que o modelo de sacerdócio faliu; é preciso mudar já

Com diferença de poucos dias, três bispos saíram a público para anunciar o que parece óbvio, mas é um tema tabu na Igreja: o modelo atual/tradicional de sacerdócio faliu e é preciso encontrar novos caminhos. Falaram sobre o assunto o bispo de Macapá (AP), dom Pedro Conti, o da diocese australiana de Parramatta, dom Vincent Long Van Nguyen, e o recém-nomeado bispo de Innsbruck, na Áustria, Herman Glettler,

O tema do sacerdócio na contemporaneidade suscita uma série de outras questões: o fim do celibato, a ordenação de homens casados, o diaconato e o sacerdócio feminino, a comunhão para divorciados em segunda união e os temas vinculados ao universo dasexualidade. São assuntos historicamente entrelaçados e que mobilizaram intensamente a Igreja nos anos 1980-90,quando foram vetados pelo governo conjunto de João Paulo II e do cardeal Ratzinger. O silêncio foi imposto à custa de editos de tom imperial, censuras, repreensões públicas e privadas, remoções e punições  em cascata, como as do padre e teólogo alemão Eugen Drewermann (1991), proibido de ensinar, da teóloga e freira brasileira Ivone Gebara (1995), condenada ao silêncio e exílio na Europa por dois anos, as seguidas sentenças contra o teólogo alemão Hans Küng, e a proibição liminar para o debate sobre estes temas no âmbito das conferências episcopais nacionais.

O assunto ficou sufocado durante mais 30 anos e volta timidamente agora, com as rachaduras que a primavera de Francisco provoca na crosta de gelo do longo inverno conservador.

Dom Vincent Long Van Nguyen, que chegou à Austrália como menino refugiado do Vietnam, é hoje o bispo da diocese de Parramatta, no subúrbio de Sidney, a quinta maior do país. Ele é o líder católico australiano mais identificado com o Papa Francisco e uma esperança para o futuro de uma Igreja devastada pela praga da pedofilia -entre 1980 e 2015, quase 4.500 pessoas denunciaram abusos sexuais contra menores cometidos pelos 1.880 membros da Igreja local, o que significa 7% do clero do período, percentual que chegou para mais de 15%, em algumas dioceses. Dom Nguyen foi, ele mesmo, vítima de abusos .

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Francisco não se atemoriza e retruca duramente aos conservadores em Bolonha

Papa na missa em Bolonha: conservadores não o intimidam

Enganou-se quem supôs que o Papa poderia recuar ou moderar seus posicionamentos depois do agressivo manifesto ultraconservador acusando-o de “heresia”. Francisco esteve sábado e domingo em visita pastoral às cidades de Cesena e Bolonha, no norte da Itália, e foi ainda mais explícito em sua visão da Igreja e do cristianismo, conforme os ensinamentos originais de Jesus.

No lotado estádio de Ara em Bolonha, na missa dominical, ele afirmou que o traço distintivo da identidade cristã é composto por três “P”: Palavra, pão e pobres: “nunca devemos esquecer os alimentos-base que sustentam o nosso caminho: a Palavra, o Pão, os pobres”. No altar, uma faixa enorme: “Se partilhamos o pão do céu, como não partilhar o pão da terra?”. A frase é do cardeal Giacomo Lercaro, nome referencial da Igreja em Bolonha e um dos principais protagonistas do Vaticano II, defensor destemido da centralidade dos pobres na Igreja.  Mais um sinal aos conservadores: a herança do Concílio é intocável e ele é o norte da Igreja.

Ainda na homilia em Bolonha, o Papa, a partir do Evangelho dominical (Mt 21,28-32), deu um duríssimo recado aos contras que desejam ver a Igreja voltar aos tempos do fechamento e do clericalismo.

O Evangelho é sobre a postura de dois filhos que, convocados pelo pai a trabalhar na vinha (a imagem por excelência do povo na Bíblia) têm respostas distintas: o primeiro diz que não vai, arrepende-se, e resolve atender ao pedido do pai; o segundo diz que sim, mas não vai.

Jesus dirige esta parábola, explicou Francisco na homilia, a alguns chefes religiosos da época “que se assemelhavam ao filho de vida dupla, enquanto as pessoas comuns se comportavam frequentemente como o outro filho”. Num trecho aparentemente dedicado aos restauracionistas, o Papa acrescentou: “Estes chefes sabiam e explicavam tudo, em modo formalmente irrepreensível, como verdadeiros intelectuais da religião. Mas não tinham a humildade de escutar, a coragem de interrogar-se, a força de arrepender-se”.

O problema destes chefes religiosos, observou o Papa, é o rigor aparente que apresentam às pessoas, como os líderes conservadores hoje: “Eram, em palavras e com os outros, inflexíveis custódios das tradições humanas, incapazes de compreender que a vida segundo Deus é ‘em caminho’, que pede a humildade de abrir-se, arrepender-se e recomeçar”.

O Papa atacou diretamente um dos centros da visão conservadora, segundo a qual a vida cristã resume-se ao cumprimento de regras de comportamento: “(…) não existe uma vida cristã decidida numa conversa ao redor duma mesa, cientificamente construída, onde basta cumprir alguns ditames para aquietar a consciência”.

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Conservadores contra o Papa: falsificações, fraude e racha

Os conservadores queriam derrubar o Papa: manifesto isolou-os na Igreja

Menos de uma semana depois do lançamento do manifesto conservador contra o Papa, que o acusa de heresias enquanto se apresenta cinicamente como “correção filial”, o cenário para a oposição a Francisco é de desastre. Desde o domingo (24) à noite, quando foi divulgado, descobriram-se falsificações no texto, pelo menos uma fraude entre os signatários e um racha de enormes proporções: o número dois da reacionária Opus Dei, o padre argentino Mariano Fazio, condenou a iniciativa, considerando que ela escandaliza “toda a Igreja com estas manifestações de desunião”.

Em uma entrevista à vaticanista Elisabetta Piqué publicada neste sábado (30) no La Nacion,  comandante da Opus Dei criticou diretamente o líder do manifesto, o banqueiro italiano Ettore Tedeschi, que é membro destacado da organização (leia aqui), dizendo que ele “se equivocou”. O sacerdote concordou com a jornalista, quando ela definiu a iniciativa agressiva contra o Papa como oriunda de uma “minoria ruidosa”.

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Em 16 pontos, os projetos em disputa na Igreja: Vaticano II ou Trento?

Restaurar ou reformar? Igreja entre Francisco e a Cúria romana

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Numa foto e num quadro-resumo de 16 pontos, os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Raymond Burke e o bispo do povo José Maria Pires, o dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia

“O Papa é de esquerda?”, pergunta Le Figaro Maganize. Trechos do livro “Política e Sociedade”

A Figaro Magazine, revista do jornal francês Le Figaro, publicou na última sexta-feira (1) um longo extrato de trechos das sete entrevistas/conversas  do Papa Francisco com o pesquisador francês Dominique Wolton que estarão no livro Política e Sociedade a ser lançado nos próximos dias. O título da capa da revista francesa pergunta: “O Papa é de esquerda?”. Já está claro: ele é sim, -o que não quer dizer que comungue de todas as ideias comuns ao ideário progressista-libertário, como em sua visão sobre o casamento de homossexuais.

A revelação de que ele se consultara com uma psicanalista na Argentina, aos 42 anos, já havia vazado na última sexta. Mas a íntegra do que publicou Le Figaro Magazine tem muito mais:

  • ele revela ter aprendido sobre política com uma comunista, assassinada pelos militares durante a ditadura argentina;
  • afirma peremptoriamente que  “a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo.”;
  • ao falar sobre os refugiados, explicita: “Nossa teologia é uma teologia de migrantes.”;
  • critica os tradicionalistas: “a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes…”;
  • defende a absolvição nos casos de aborto;
  • explica o direito à comunhão dos divorciados em segunda união;
  • defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas que a palavra “casamento” seja reservada à união entre homem e mulher;
  • critica o rigor moralista voltando à repressão sexual: “Há um grande perigo de se condenar apenas a moral abaixo do cinto”.

Mas há mais, muito mais. Leia a seguir:

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Papa: Igreja é de todos e cheia de falhas “como no tempo de são Francisco”

O Papa neste domingo (27): Igreja precisa ser sempre reformada

O Papa fez neste domingo (27) um dos discursos mais explicitamente eclesiológicos de seu pontificado -referente a ekklesia, assembleia, palavra de onde se origina igreja. Na oração do meio-dia (o Ângelus), Francisco rejeitou as concepções conservadoras sobre a Igreja, consagradas por seus antecessores, e afirmou neste domingo (27) que ela é de todos, e não do clero, feita por “todos nós” que “nos tornamos ‘pedras vivas’”. Além disso, afastou a ideia da Igreja como “sociedade perfeita”, alentada pelos restauracionistas e afirmou que ela “sempre precisa ser reformada, reparada”, pois mesmo “com fundamentos sólidos”, tem “rachaduras, como nos tempos de são Francisco de Assis”.

O discurso foi todo voltado ao Evangelho deste que é o 21° Domingo do Tempo Comum, que relata um diálogo entre Jesus e seus discípulos, no qual ele indaga a visão dos seguidores sobre si (aqui ou no final). Ao remeter a são Francisco, o Papa, sem o mencionar diretamente referiu-se a uma das passagens mais conhecidas da vida do poverello de Assis, em 1205, quando, depois de um período de oração na pequenina e semidestruída igreja de São Damião, escutou uma voz saindo de um crucifixo bizantino caído ao lado do altar: “Vai, Francisco, e repara a minha casa que está em ruínas.” Dez séculos antes do Francisco, que lhe inspirou o nome papal, o Francisco de hoje encontrou uma Igreja também em ruínas, numa crise brutal.

Na conversa de Jesus com seus amigos, ao indagar de si “o Mestre esperava dos seus uma resposta alta e diferente daquelas da opinião pública”, afirmou Francisco, rejeitando as imagens de um Cristo soberano, cheio de poder e punitivo. “Simão Pedro encontra em seus lábios palavras que são maiores do que ele, palavras que não vem de suas capacidades naturais. Talvez ele não tenha feito a escola fundamental, e é capaz de dizer estas palavras, mais fortes do que ele! Mas são inspiradas pelo Pai celeste, que revela ao primeiro dos Doze a verdadeira identidade de Jesus”.

Nesta caminhada a partir dos pobres e simples e repleta de falhas edificou-se a Igreja dos seguidores de Jesus, onde todos, sem distinção entre leigos, leigas e hierarquia eclesial, são igualmente “pedras vivas”, na eclesiologia do Papa. Para Francisco, a partir da visão retomada no Vaticano II, a Igreja “é uma comunidade de vida, feita de muitíssimas pedras, todas diferentes, que formam um único edifício no signo da fraternidade e da união”.

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Francisco aprofunda reformas; conservadores radicalizam dissidência

Grafite celebra visita do Papa à Colômbia, no início de setembro

O Papa Francisco surpreendeu mais uma vez ao proclamar que a reforma litúrgica estabelecida pelo Concílio Vaticano II “é irreversível” e que deve ser aprofundada. Foi num discurso feito na quinta (24) aos participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana. O Papa tocou num ponto sensível da Igreja, talvez o mais sensível: como os cristãos católicos celebram o mistério de Cristo na liturgia, especialmente a eucarística (a missa).

Há uma disputa brutal em torno da celebração eucarística que perpassa a Igreja, apesar dela acontecer sobretudo nos bastidores e textos teológicos. Os conservadores querem revogar a reforma litúrgica consagrada pelo Vaticano II (apesar de não expressarem isso explicitamente na maior parte das vezes). Um de seus líderes, o cardeal guineense Robert Sarah, ocupa o posto estratégico de  prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, onde vem colecionando atritos com o Papa e seu grupo. Tudo indica que depois dos cardeais conservadores George Pell (ex-presidente do estratégico Departamento de Economia do Vaticano) e Gerhard Müller (ex-prefeito da mais que estratégia Congregação Para a Doutrina da Fé), está chegando a hora de Sarah ser defenestrado. O discurso de Francisco parece indicar que a hora chegou.

Os conservadores sonham com o retorno da missa nos moldes do Concílio de Trento (por isso chamada de missa tridentina), rezada em latim, com o padre de costas para a assembleia. O cardeal Sarah tem explicitado sua adesão à ideia que vagou como fantasma pelos corredores do Vaticano até que em 2007 o Papa Bento XVI publicou a Summorum Pontificum, uma carta apostólica que restaurou a missa tridentina em “concorrência” com o rito do Concílio.

Para Francisco, a liturgia não é do clero, ao contrário do que apregoam os conservadores, pois ela “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato ‘popular’ e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”. A frase tem repercussões profundas. Lida ao lado de outra, com a qual o Papa anunciou que “hoje ainda há trabalho a ser feito”, pode indicar a retomada do caminho de criatividade litúrgica abruptamente interrompido por João Paulo II, que proibiu todas as iniciativas de inculturação, como as missas Criolla, Terra Sem Males e dos Quilombos.

Confrontando diretamente a concepção conservadora, Francisco anunciou “uma liturgia viva para uma Igreja viva”.

O aprofundamento da reforma litúrgica é mais uma das iniciativas da primavera franciscana.  Todas as outras são igualmente objetos da fúria da ala conservadora da Igreja, entre elas: a reforma da Cúria romana, os estudos para o diaconato feminino, o direito à comunhão de casais divorciados em segunda união, o acolhimento aos migrantes e refugiados, especialmente o apelo do Papa ao reconhecimento do jus soli (direito de solo, para que crianças de famílias migrantes tenham direito à nacionalidade nos países onde nascerem) e, finalmente, a retomada da trajetória da Igreja com os pobres de todo o mundo, na perspectiva da teologia latino-americana.

Dissidência e agressões ao Papa

Os conservadores não se cansam de elevar o tom contra o Papa, ora com exigências estapafúrdias, ora com ameaças cada vez mais explícitas de dissenção, enquanto agridem Francisco de maneiras cada dia mais explícitas de baixo nível.

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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A Igreja está mudando: o sopro de Francisco começa a chegar às bases

A a irmã Pierrette Thiffault, que presidiu um casamento numa diocese de Quebec

Está ou não mudando a Igreja depois de Francisco? Sim, está. Depois de quase quatro anos e meio de seu pontificado, o que parecia ser algo restrito ao Papa e seus auxiliares começa a espalhar-se mundo adentro e Igreja abaixo.

É um movimento bem diferente do Vaticano II, quando a mudança em Roma foi resultado de um processo intenso que acontecia desde a virada dos anos 1940/50 nas bases da Igreja, como o movimento litúrgico, a Ação Católica e outros modelos de inserção nos meios operários e estudantis. O Concílio acolheu, em alguns aspectos radicalizou, em outros controlou, mas o que importa reter é que a mudança partiu de baixo.

Agora é diferente. Depois de 35 do congelamento e processos de punição em massa sob João Paulo II e Bento XVI, a Igreja estava enrijecida, trancada, censurada. A mudança está vindo de cima, de Roma para as bases da Igreja. Francisco abriu as janelas, deixou o sol entrar. Demorou, mas o mofo começa a recuar com a presença solar e começa o alegre retorno à originalidade do Evangelho e ao seguimento do Manso e Humilde desejada na reunião conciliar dos anos  1962-65.

Os exemplos multiplicam-se ao redor do planeta. Seria possível pensar iniciativas como as três listadas a seguir sob o governo restauracionista dos dois papas que antecederam Francisco?

1. As conferências nacionais dos bispos estão retomando suas atividades, exercitando autonomia, buscando religar as Igrejas locais às sociedades em que estão inseridas em vez de serem cartórios e sucursais de Roma. A brasileira CNBB, conferência que foi a vítima preferencial da repressão de João Paulo II e Bento XVI, talvez seja o maior exemplo do novo vigor que se espalha. Os bispos brasileiros retomam os laços com os mais pobres do país, abrem espaço e apoiam as pastorais sociais e a nova etapa das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Neste momento está acontecendo algo na sede da CNBB em Brasília que seria impossível, poucos anos atrás: um encontro das pastorais sociais da Igreja, com a presença de mais de 15 bispos e duas dezenas de padres e leigos que tem como objetivo “proporcionar momentos de partilha entre os bispos sobre sua missão, enquanto animadores das Pastorais Sociais e Organismos vinculados à CNBB e rever, à luz do documento de Medellín, os desafios pastorais atuais” (aqui). A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano realizou-se em Medellín, na Colômbia no período de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968, que ficou conhecida como Conferência de Medellín marcou uma virada história na Igreja na América Latina, com a adesão à opção pelos pobres do continente e a difusão da Teologia da Libertação. Com a restauração a partir da eleição de Karol Wojtyla, em 1979, o encontro de Medellín foi lançado ao ostracismo e suas conclusões combatidas e engavetadas. Ver a Igreja brasileira retomar a trajetória do mais importante encontro do CELAM é uma mudança sem precedentes.

2. Uma mulher (!!!), a irmã Pierrette Thiffault, da Congregação da Providência, presidiu a celebração de um casamento em uma diocese de Quebec (Canadá), em 22 de julho último. Mais ainda: com autorização do Vaticano! (aqui) Ao mesmo tempo, dissemina-se o debate sobre a possibilidade de as mulheres serem ordenadas diaconisas permanentes, como era usual nos primeiros tempos do cristianismo. São as primeiras derrotas da misoginia em séculos!

3. Começam a ser construídas pontes entre a Igreja e a comunidade LGTB, com o abandono da retórica anti-gay e a aceitação dos homossexuais tal como o são nas paróquias, sem condenações ou restrições. Os sacerdotes homossexuais começam a sair do armário, e um dos principais construtores dessas pontes, o sacerdote jesuíta James Martin foi nomeado pelo Papa como consultor da Secretaria do Vaticano para as Comunicações (aqui).

É pouco ainda. Mas o descongelamento que começou por Roma agora aquece, aos poucos, as estruturas da Igreja, as comunidades católicas e o coração de homens e mulheres, jovens e velhos, semeando esperança onde havia gelo.

Há vida na Igreja, novamente.

[Mauro Lopes]