Francisco dormirá num presídio: somos capazes de perdão?

O Papa irá a Milão, no norte da Itália, no próximo sábado (25). O maior destaque de sua viagem será a visita ao presídio de San Vittore que, inaugurado em 1879, sofre atualmente do mesmo drama das prisões brasileiras: superpopulação. Francisco irá se encontrar com os 400 presos, almoçará com eles e pretender dormir um pouco depois do almoço (a sesta) na cela do capelão do cárcere. Toda a visita acontecerá sob o tema do perdão.

O gesto do Papa no próximo sábado é de alto impacto. Ele irá, mais uma vez, ao encontro daquilo que boa parte da humanidade considera escória. Como diz o lugar comum da classe média conservadora brasileira, “bandido bom é bandido morto”. É a estes que o Papa dedicará sua atenção e afeto, em apoio à atividade anônima e cotidiana da Pastoral Carcerária do Brasil e suas similares no mundo.

“Se o Senhor me perdoou tanto, quem sou eu para não perdoar?”, perguntou  o Papa, em sua homilia na missa matinal desta terça (21) na capela de Santa Marta, no Vaticano. O perdão é um tema central do papado de Francisco e se dirige ao ser humano em todas as condições em que se encontra: no cárcere, nas famílias desfeitas, às múltiplas condições de marginalização pela sociedade. É um tema que antagoniza o Papa a amplos segmentos conservadores do catolicismo em particular e do cristianismo como um todo, cujo foco de atenção é na condenação, e não no perdão.

Este foi tema de um instigante artigo do teólogo italiano Andrea Grillo sobre o pontificado de Francisco, publicado poucos dias atrás: “A Igreja redescobre que pode realmente perdoar e caminhar. Esse caminho e esse perdão, finalmente reconhecidos como possíveis, são, para poucos, um erro imperdoável; para muitos, a consolação preciosa que abre uma nova temporada.”

É este Papa, tão estranho ao mundo enclausurado da Cúria romana, que recoloca a Igreja no caminho do encontro com a pessoa tal como ela é. O teólogo Grillo captou a percepção da hierarquia católica sobre um Papa que lhe é de fato tão estranho; ela entendeu desde o primeiro instante: “o Papa não mora mais aqui. Permanece periférico, mesmo estando no centro. Trabalha com a Cúria, mas não faz parte dela. Permanece extraterritorial, incontrolável, indomável. Presta serviço, mas permanece livre”.

Livre, ele vai ao encontro dos que estão aprisionados: “Estive preso e vieste me visitar” –a prescrição de Jesus no capítulo 25 do Evangelho de Mateus é uma das escolhas decisivas dos que pretendiam e pretendem segui-lo. Com os encarcerados, Francisco irá conversar, “um a um”, segundo o porta-voz vaticano David Milani, comer, visitar suas celas e partilhar humanidade.

[Mauro Lopes, com Religion Digital e IHU Unisinos]

Presidente da CNBB diz que entidade apoia o Papa, mas evita polêmicas

O cardeal dom Sérgio Rocha, presidente da CNBB, na sede da entidade. Foto de Wilson Dias, Ag. Brasil

Dom Sergio da Rocha, cardeal Arcebispo de Brasília e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) concedeu entrevista exclusiva ao Caminho pra Casa na última sexta-feira (17). Ele afirmou que a entidade tem “manifestado reiteradamente a nossa comunhão sincera, apoio e solidariedade ao Papa Francisco, pessoalmente e por mensagens”. Mas evitou qualquer comentário sobre a campanha dos segmentos restauracionistas (expressão do Papa) contra Francisco, limitando-se a dizer que ele “tem continuado com firmeza e serenidade” e “não se deixa abalar por críticas, nem recua”. Sobre o pontificado de Francisco, o presidente da CNBB declarou: “As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral”.

Ele garantiu que a CNBB tem “procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade” e que a exortação apostólica sobre a família, centro dos ataques conservadores ao Papa, será examinada na próxima Assembleia Geral da entidade.

Dom Sérgio revelou que haverá um posicionamento oficial da CNBB sobre a reforma da Previdência Social. Ele evitou qualquer crítica direta ao governo Temer, mas pontuou que a Igreja opõe-se a qualquer reforma que não assegure “o direito dos pobres”.

Leia a íntegra da entrevista, na qual ele fala também sobre a perda de fiéis pela Igreja Católica no país, a proposta de ministros e ministras leigos poderem presidir as missas, a Campanha da Fraternidade 2017, sobre biomas brasileiros e defesa da vida”

Caminho pra Casa – Como o senhor avalia o pontificado de Francisco até o momento?

Dom Sérgio da Rocha – O Papa Francisco tem nos ensinado a ser uma “Igreja em saída” ao encontro das ovelhas feridas e errantes; uma Igreja misericordiosa e acolhedora, casa de portas abertas; uma Igreja servidora, que vive da simplicidade. As palavras e gestos do Papa Francisco tem sido comoventes. Ele tem nos oferecido textos belíssimos e profundos, de grande repercussão, como a Evangelii Gaudium e a Amoris Laetitia. Ele ensina, não apenas por aquilo que fala ou escreve, mas por seus gestos concretos, de grande riqueza simbólica, a começar da escolha do nome “Francisco”; mas também a sua preocupação com a situação trágica dos refugiados e imigrantes, o seu empenho em favor da paz no mundo, a defesa dos pobres, o “cuidado da casa comum”, dentre tantos outros aspectos. Temos muito ainda a aprender com ele!  O seu jeito simples, acolhedor, paterno e fraterno tem nos motivado a redescobrir valores essenciais da vida cristã, especialmente da vida da Igreja, como a simplicidade e a misericórdia. As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral, a reforma do coração e da ação evangelizadora. Ele nos motiva a caminhar!

A Igreja vive um momento de intensa agitação em torno da exortação Amoris Laetitia. O Papa abriu a questão da comunhão dos divorciados em segunda união ao discernimento das igrejas locais. Qual a sua posição como pastor sobre o assunto? A CNBB pretende posicionar-se?

Desde o primeiro momento da publicação, temos procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade. O próprio Papa nos alerta para não reduzi-la a um aspecto ou a uma parte do texto. O documento ressalta o matrimonio e a família como dom; por isso, já no seu título aparece a “alegria do amor” na família. Matrimônio e família não podem ser reduzidos a problemas. A ação pastoral da Igreja deve ser ampla e continuada: antes do matrimônio, na sua celebração e durante a vida conjugal e familiar; não apenas nos momentos de crise. Mas, é preciso dar especial atenção aos casais e famílias que mais sofrem, sobretudo àqueles que não conseguiram viver o ideal conjugal proposto pela Igreja. O famoso capítulo VIII deve ser inserido e compreendido no conjunto. Não se trata de fazer uma nova regra geral canônica; o próprio Papa Francisco alerta a respeito disso. O caminho a ser seguido é o da misericórdia e do discernimento pastoral. A proposta é “acompanhar, discernir e integrar”, conforme o próprio título do capítulo VIII. Por isso, a CNBB não pretende elaborar novas normas a respeito. Quer ajudar os Bispos e Dioceses a acolherem e a aplicarem a Amoris Laetitia, de modo mais fiel possível. Por isso, foi formada uma Comissão para refletir a respeito dessa Exortação Apostólica Pós-Sinodal. Esperamos estar aprofundando o assunto na próxima Assembleia Geral da CNBB [que acontece entre 26 de abril e 4 de maio de 2017] .

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Papa: prefácio para livro de um homem abusado na infância

Daniel Pittet, vítima de um padre pedófilo na infância, lançou um livro relatando a história com prefácio do Papa

O Papa Francisco escreveu o prefácio do livro Eu o perdoo, padre, do suíço Daniel Pittet, no qual ele relata os abusos sexuais que sofreu na infância por um padre pedófilo e todos o drama e traumas que o crime continuado lhe causou. Francisco escreveu é dever da Igreja tratar estes casos com “extrema severidade” e indicou, ainda que indiretamente que o clericalismo está na raiz da rede de proteção que se prolongou por décadas aos abusadores, desde as primeiras denúncias nos anos 1970.

No texto, o Papa fez menção à necessidade de punição aos bispos e cardeais que protegeram e acobertaram os abusadores e ao ” muro de silêncio que sufocava escândalos e sofrimento”. O espírito clerical/conservador, que advoga uma “pureza” e “santidade” absolutas da Igreja, teceu ao longo dos anos uma rede de proteção, cumplicidade e acobertamento dos padres e religiosos abusadores. Na semana passada, um advogado declarou à Real Comissão que está à frente das investigações dos casos de abusos na Austrália, que o próprio Papa João Paulo II recebeu relatórios sobre casos de abusos  e nada fez para investigar e punir os culpados (veja aqui)

bispos ou cardeais, que os tenha protegido, como já aconteceu no passado.

O Papa escreveu ainda que os padres abusadores cometeram atos de “monstruosidade absoluta” e questionou: “Como pode um sacerdote a serviço de Cristo e de sua Igreja causar tanto mal? Como pode alguém ter dedicado sua vida para levar as crianças a Deus, e ao final, devorá-las no que chamei de “um sacrifício diabólico”, que destrói tanto a vítima quanto a vida da Igreja?” Em seguida, Francisco mencionou os casos de suicídio de crianças e jovens que se seguiram aos abusos.

[Mauro Lopes com Vatican Insider]

Leia o texto integral do prefácio do Papa Francisco (em tradução livre de minha responsabilidade):

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Pe. Zezinho: apoio ao Vaticano II e ao Papa e crítica à restauração conservadora

Padre Zezinho: não à restauração conservadora

Padre Zezinho, scj (da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, os dehonianos) é uma referência na Igreja brasileira. É compositor e cantor desde os anos 1960, muito antes da moda dos “padres cantores” e autor de centenas de músicas, muitas delas que animam as missas em todo o país e no exterior, como Minha Vida Tem Sentido, Daqui do Meu Lugar, Há um Barco Esquecido na Praia, Um Certo Galileu ou Maria de Nazaré.

Ele lançou em sua página no Facebook neste domingo (12) uma vigorosa denúncia dos “restauracionistas”, na mesma linha de recente conversa do Papa Francisco com superiores de ordens e congregações religiosas (aqui).

Padre Zezinho manifestou espanto com “centenas de seminaristas, freiras e padres e alguns cardeais [que] querem restaurar alguns postulados e alguns costumes de antes de 1965” sendo que “muitos deles sequer leram os mais de 100 documentos nascidos durante e depois do Concílio. Mas querem de volta os trajes, as práticas devocionais e as pregações de antes de 1965. E alguns querem restaurar as liturgias e as missas de antes de 1965.”

O sacerdote afirmou estar “muito lúcido aos 75 anos de idade e 50 de sacerdócio”, alegrou-se por ter vivido toda a mudança do Vaticano II e poder “testemunhar o que vi. Nossa igreja ficou mais católica e é isso que alguns não aceitam”.

Leia o texto de padre Zezinho:

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Papa reconhece corrupção no Vaticano e denuncia atmosfera mundana e principesca

O Papa Francisco reconheceu pela primeira vez que “há corrupção no Vaticano”, numa reunião a portas fechadas, em 25 de novembro, com 140 superiores de ordens e congregações religiosas. O diálogo será publicado na revista dos jesuítas, a Civilta Cattolica, que chega à edição 4.000. A declaração atinge diretamente os conservadores, que governaram a Cúria romana nos últimos 35 anos, durante os papados de João Paulo II e Bento XVI. No mesmo encontro, Francisco voltou a criticar duramente o clericalismo e disse que é preciso destruir o “ambiente nefasto” da “atmosfera mundana e principesca” de algumas estruturas eclesiásticas.

Na reunião, Bergoglio admitiu que nas estruturas da Igreja “pode ​​ser encontrada uma atmosfera mundana e principesca.” É a primeira vez que o Papa apontou diretamente a presença de corrupção no interior das muralhas do Vaticano e admitiu que esta questão foi um dos temas de sua eleição:  “Em conversas pré-conclave falamos de reformas. Todos as queriam, porque há corrupção no Vaticano, mas eu vivo em paz.”

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Católicos conservadores idolatram Trump e atacam Francisco abertamente

Cartazes em Roma: campanha aberta contra o Papa

Grupos católicos conservadores ao redor do mundo realizam um movimento significativo: idolatram o agora presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquanto aprofundam seus ataques indiretos e diretos ao Papa Francisco, com virulência cada dia maior. Para isso, utilizam publicações, sites, blogs, numa rede que reúne leigos, leigas e clérigos. A Igreja, na concepção deles, fala pela voz do cardeal que se apresenta como face pública da oposição, Raymond Burke.

Trump com Salvini, o líder da xenófoba Liga Norte, os interlocutores de Burke e dos “contra”

Nos últimos dias, os “contra” realizaram dois movimentos significativos, um que explicita ainda mais sua oposição pública e agressiva contra Francisco e outro que indica uma articulação destes grupos com a extrema direita alinhada a Trump na Europa: 1) pregaram cartazes ofensivos ao Papa em vários bairros de Roma, de maneira clandestina, mas cujo conteúdo de ataques a recentes decisões do Papa na Ordem de Malta e contra a corrupção em institutos e católicos; 2) o cardeal Burke manteve na última quinta (2) uma discreta e longa reunião com Matteo Salvini, líder da Liga Norte, partido de extrema direita xenófobo italiano, que antagoniza-se abertamente com o Papa e é um dos aliados preferenciais de Trump na Europa.

O júbilo destes grupos com a eleição de Trump está vinculado a dois eixos do novo governo:

  • “Defesa da vida” – sob esta expressão que é chave para o governo Trump e os conservadores cristãos está toda a gama de pensamento e iniciativas de fundo “moralizador”, como a negação ao direito de as mulheres poderem abortar; a defesa da mulher “bela, recatada e do lar”; discriminação agressiva contra qualquer relação homoafetiva e negação dos direitos das pessoas homossexuais, bissexuais, transexuais, transgêneros e travestis; censura a qualquer iniciativa educacional que não veículos os valores de uma suposta “moral cristã”.
  • Supremacia cristã contra “infiéis”, um dos bordões de Trump. Esta bandeira tem levado tais grupos a manifestarem apoio  às medidas do republicano contra os refugiados. A reunião de Burke com Salvini indica uma adesão pública e uma articulação política cada vez maior destes grupos com os políticos de direita xenófobos. A lógica da “supremacia cristã” representa um deslocamento amplo dos conservadores católicos que, com a perda de espaço da Igreja ao longo da segunda metade do século XX, estão aos poucos abandonando o projeto de hegemonia católica, hoje completamente irrealizável, e substituindo pela ideia da hegemonia “cristã” em aliança com os evangélicos fundamentalistas, tendo como plataforma comum a cruzada moralizadora e discriminatória. É curioso que os conservadores defendem o “ecumenismo moralizador” sob a liderança do presbiteriano Trump enquanto hostilizam as iniciativas ecumênicas de Francisco na direção dos luteranos, por exemplo, considerando-as como uma  “rendição” ao pensamento de Lutero.

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Igreja e abusos sexuais: mais uma revelação devastadora

Entre 1980 e 2015 quase 4.500 pessoas denunciaram casos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes cometidos por membros da Igreja na Austrália. Nada menos que 7% dos membros do clero australiano  estão envolvidos, percentual que chega a 15% em algumas dioceses. A conclusão é da Real Comissão Anti-Pederastia criada no país e que vieram a público na manhã desta segunda (6). A Igreja na Austrália qualificou as conclusões  como “surpreendentes, trágicas, indefensáveis” (leia aqui reportagem doo site católico Religion Digital).

A advogada encarregada dos interrogatórios no processo de investigação, Gail Furness, disse que são centenas de religiosos e leigos a eles vinculados envolvidos, sendo nada menos que 93 deles pertencentes à alta hierarquia local. Dos denunciantes, 78% foram homens e 22% mulheres. A idade média das vítimas foi de 11,6 anos no caso dos meninos e 10,5 anos no caso das meninas. Das 1.800 pessoas acusadas pelos crimes, 597 eram religiosos, 572 sacerdotes, 543 leigos e 96 religiosas.

É avassalador. Deve-se levar em conta que são 4.500 pessoas que denunciaram, o que faz crer que os números sejam AINDA MAIORES, pois:

  • é corrente nesses casos de abuso que as vítimas e seus familiares, sintam-se culpadas/envergonhadas pelo crime cometido contra elas. As investigações na Austrália revelaram que as pessoas abusadas demoraram em média 33 anos para tomarem coragem e denunciar;
  • muitas vítimas foram intimidadas pelos religiosos e leigos que cometeram os abusos. Segundo a advogada Furness, “os depoimentos eram deprimentemente similares. As crianças e adolescentes eram ignorados ou, pior, castigadas”.
  • é possível que algumas das vítimas já tenham morrido, dado o espaço de 35 anos desde os primeiros casos apurados.

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Padre Paulo: papados conservadores “destruíram Igreja inserida na vida dos pobres” no Brasil e AL

Padre Paulo ao fim de um batizado em 2015

Padre Paulo Sérgio Bezerra não cede um milímetro sequer no seguimento dos ensinamentos da Igreja à luz do Evangelho e da renovação do Concílio Vaticano II, como um dos protagonistas da Teologia da Libertação na periferia de São Paulo. Padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

O sacerdote, de 63 anos, foi formado pela escola do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro de 2016 e dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região Leste II da cidade de São Paulo e hoje emérito da diocese de Blumenau (SC), aos 84 anos. Isso anos antes que João Paulo II dividisse a Arquidiocese em 1989, numa articulação para esvaziar a liderança de dom Paulo e nomear bispos conservadores para as novas dioceses, que trataram de demolir toda a construção da “Igreja rumo à periferia” na antevisão de dom Paulo, agora retomada pelo Papa Francisco, que tem convocado os católicos para novamente partirem “às periferias existenciais” de uma “Igreja em saída”.

A matriz e as capelas das sete comunidades da paróquia estão sempre cheias, quase duas mil pessoas frequentam as celebrações e participam da vida da Igreja local.  Acorrem às missas presididas por padre Paulo gente de toda a cidade, em busca de uma liturgia que fuja ao rigorismo dos tradicionalistas ou ao estilo neopentecostal dos carismáticos. “Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas”, diz ele, desolado com o ambiente da Igreja em boa parte da cidade: “A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários”. Ele não desanima, está empolgado com a primavera da Igreja promovida por Francisco: “Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo”.

Um tempo novo que se abre depois da terra arrasada. Para ele, a ofensiva conservadora de 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI quase liquidou com a Igreja na América Latina e no Brasil, com a perseguição aos leigos, leigas, padres, freiras, teólogos, teólogas e até bispos vinculados à Igreja dos pobres, à Teologia da Libertação e, sobretudo, às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): “Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região”.

Entre outubro e novembro de 2016, padre Paulo sofreu uma campanha agressiva promovida por blogs católicos ultraconservadores. Motivo: ter recebido em celebrações na Igreja, durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, pessoas como o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos, líder nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a filósofa Marilena Chauí e, sobretudo, a drag queen Albert Roggenbuck (Dindry Buck). No caso da de Buck, os rigoristas deixaram de informar que a jovem é catequista em outra paróquia da região. Os integristas moveram intensa campanha de ódio contra o padre nas redes sociais, incentivaram um abaixo assinado pela remoção dele e mantiveram uma reunião constrangedora e inquisitorial com o bispo, dom Manuel Parrado Carral. Não deu em nada. “No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola para isso”, afirmou padre Paulo. Em reportagem da TVCarta sobre as ações da paróquia, padre Paulo questionou: “Porque o Alckmin, por exemplo, chega e fala na basílica nacional (de Aparecida) e ninguém questiona?” (veja aqui).

Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa em duas rodadas de conversas, entre 12 e 16 de janeiro –todas as observações entre colchetes são intervenções do autor deste blog.

Caminho pra Casa: As celebrações na paróquia Nossa Senhora do Carmo estão sempre cheias e a mobilização da comunidade é sempre muito forte. O que acontece aqui?

Padre Paulo Sérgio Bezerra: Bem, talvez seja melhor dizer o que não acontece aqui. Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas (risos). Há mais de 30 anos o que fazemos aqui é manter a linha do Vaticano II. Seis anos depois de minha ordenação decidi fazer pós-graduação em Liturgia e sempre procurei inspirar-me na renovação do Concílio que pretendeu uma caminhada litúrgica dinâmica, com o povo. Ao longo dos anos houve um enrijecimento litúrgico notável, que negou em boa medida o espírito do Vaticano II, ao lado do surgimento da onda de padres cantores e celebrações com acento neopentecostal, mas buscamos nos manter fiéis e eu tentei manter-me amparado no ensinamento de dom Paulo (Evaristo Arns) e dom Angélico (Sândalo Bernardino). Para eles, como filhos diretos do Vaticano II, a Liturgia deveria refletir e ser concretização de uma vida pastoral de compromisso com os pobres. Não se sacralizavam as normas litúrgicas, mas elas eram adaptadas à vida da Igreja como Povo de Deus. Com os anos a liturgia virou uma “vaca sagrada”; ninguém toca. E não tem mais vida, não pulsa.

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Outra mudança radical: Papa nomeia duas mulheres para a Congregação do Culto Divino

Neste sábado (14), batizou 13 bebês nascidos nas localidades do centro da Itália abaladas pelos terremotos dos meses passados. Apenas os familiares participaram da cerimônia, da qual foram divulgadas algumas fotos. A menor das crianças batizadas tem 5 dias de vida

O Papa Francisco está tomando medidas em diversas frentes e acelera a reforma da primavera da Igreja Católica. Neste sábado (14), além da nomeação do cardeal progressista Sean O’Malley para a Congregação para a Doutrina da Fé [aqui] ele ampliou sua intervenção na Congregação para o Culto Divino, chefiada pelo cardeal ganense ultraconservador Robert Sarah. Francisco nomeou nada menos que 17 assessores para o organismo, entre sacerdotes, leigos e –novidade das novidades- duas mulheres!

Passam a ser assessoras da Congregação mais misógina do Vaticano, responsável pela liturgia católica: Donna Lynn Orsuto, professora do Instituto de Espiritualidade da Universidade Gregoriana e Valeria Trapani, professora de liturgia na Faculdade de Teologia São João em Palermo.

É a segunda mudança contundente na Congregação em poucos meses. Em outubro, Francisco havia afastado 16 dos membros mais conservadores do organismo que regula o rito da missa, como os cardeais Raymond Burke (líder do quarteto ultraconservador rebelado contra o Papa) e George Pell (secretário de Economia do Vaticano envolvido em graves acusações em casos de pedofilia na Austrália), e nomeando prelados mais alinhados com o espírito do Vaticano II –leia aqui. Isso não quer dizer que a Congregação não tenha ainda um “núcleo duro” tradicionalista sob o comando de Sarah.

O cardeal Robert Sarah

Mas o espaço do atual Prefeito está cada vez menor.  Em julho, ele já havia sido publicamente repreendido por sinalizar uma orientação a que os sacerdotes passassem a celebrar as missas de costas para a assembleia dos fieis, costume medieval que foi abolido no Concílio Vaticano II – diz-se no Vaticano que os dias de Sarah à frente da congregação estão contados. A notícia, se confirmada nos próximos meses, será recebido com grande alívio nas bases da Igreja: a Congregação  para o Culto Divino congelou a liturgia da Igreja, contrariando o espírito do Vaticano II, espalha ameaças por todo o mundo católico há anos, e tenta impor retrocessos sobre retrocessos.

Os rigoristas, alinhados ao cardeal ganense, defendem a restauração do rito tridentino da missa, no qual:

  1. havia um único celebrante (depois do Concílio, todos os membros da assembleia reunida passaram a ser igualmente celebrantes e o padre apenas preside);
  2. o sacerdote rezava de costas para as pessoas, em latim, enquanto aos membros desta assembleia manietada restava entregar-se a suas devoções  ou a seus ensimesmamentos (era comum que as pessoas rezassem o terço durante as celebrações, pois a missa era “do padre”);
  3. a missa era um cerimonial de suposta “adoração eucarística” e a Liturgia da Palavra era praticamente irrelevante, posto que os textos bíblicos eram lidos igualmente em latim e, portanto, incompreensíveis para quase toda a assembleia.

Missa tridentina: como na Idade Média

Pode parecer incrível, mas os integristas querem mesmo que este “modelo” ritual seja restaurado (veja um dos sites deles aqui). De fato, existe hoje uma “forma extraordinária do Rito Romano” que é a missa tridentina, em referência ao Concilio de Trento (1545-1563) que foi readmitida a partir de 2007 por uma carta Apostólica do Papa Bento XVI.

Este é um tema sensibilíssimo aos conservadores, que estão reagindo com enorme irritação desde que, no início de dezembro veio,  à luz uma entrevista do Papa ao jesuíta Antonio Spadaro SJ, editor da revista La Civiltà Cattolica, no livro recém-publicado “Em teus olhos está minha palavra”. Ao falar sobre o rito tridentino, Francisco foi enérgico e irônico: “É apenas uma exceção. O Papa Bento realizou um próprio e generoso gesto para ir ao encontro de certa mentalidade de alguns grupos e pessoas que tinham nostalgia e que estavam distantes.”

[por Mauro Lopes]