O Papa errou no caso dos abusos no Chile; volta a errar ao falar de família

Tenho tanta identidade, carinho e admiração pelo Papa Francisco que nossa relação não pode ter outro caminho que não seja o da sinceridade. Nunca estive com Bergoglio, nem ele nunca ouviu falar de mim. Mas há um laço profundo que nos une. Por isso, volto a escrever, com o coração partido, como o fiz em janeiro último: Francisco errou. [O que escrevi em janeiro está aqui e aqui]:

Errou em janeiro em sua visita ao Chile, quando esteve ao lado da apodrecida hierarquia da Igreja chilena que, modelada por João Paulo II, foi servil a Pinochet e encobriu por décadas os padres criminosos, abusadores de crianças.  Francisco errou e teve a grandeza de reconhecer seu erro e, com isso, cresceu em estima e admiração em todo o mundo.

No mesmo espírito, volto a escrever. O Papa errou mais uma vez. Ao fazer um discurso (improvisado, o que serve como atenuante) para o Fórum Italiano das Associações familiares, em 16 de junho, Francisco apresentou uma definição de família que em nada fica a dever ao pensamento conservador mais atrasado no catolicismo em particular e no cristianismo em geral. Uma definição que des-humaniza o sentido da família. O que disse o Papa:

“Hoje — dói dizê-lo — fala-se de famílias ‘diversificadas’: diferentes tipos de família. Sim, é verdade que o termo ‘família’ é uma palavra analógica, porque se fala da ‘família’ das estrelas, das ‘famílias’ das árvores, das ‘famílias’ dos animais… é uma palavra analógica. Mas a família humana como imagem de Deus, homem e mulher, é uma só. Única.” [aqui a íntegra do discurso]

As palavras do Papa feriram profundamente milhões e milhões de pessoas que em todo o planeta integram famílias que fogem do padrão “homem e mulher”. A frase é terrível, porque, como fazem os fundamentalistas, atribui tal conformação familiar a uma projeção exata da “imagem de Deus”, como se o Eterno pudesse ser reduzido a uma dimensão particular, momentânea e parcial do fenômeno humano.

Continue lendo “O Papa errou no caso dos abusos no Chile; volta a errar ao falar de família”

Padre Paulo Bezerra: nome de Francisco não é mencionado nas missas em muitas paróquias

Padre Paulo Sérgio Bezerra é um dos mais expressivos líderes da Igreja Católica alinhada com o Papa Francisco no Brasil e, por isso, perseguido cotidianamente pelos católicos conservadores. Ele denuncia o boicote ao Papa no interior da Igreja: “[Francisco] nem é citado na oração eucarística. Há paróquias aqui que quando fala lembremos do Papa, não fala nem o nome dele”. Bezerra é padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

Para ele, os seminários formam cada vez mais padres carreiristas e sua estrutura “leva à rejeição da Igreja de Francisco”. É a segunda entrevista de padre Paulo Bezerra que Caminho Pra Casa publica -a primeira foi em janeiro de 2017: “Padre Paulo: papados conservadores ‘destruíram Igreja inserida na vida dos pobres’ no Brasil e AL”.

Desta vez, quem fez a entrevista foi outro padre, Luis Miguel Modino, jornalista e pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que terá um papel importante na divulgação e reflexão sobre o Sínodo da Amazônia, que acontecerá em 2019.

(Mauro Lopes)

Por padre Luis Miguel Modino

Um padre da periferia, da Teologia da lLbertação, da opção pelos pobres. Esse é Paulo Sergio Bezerra, alguém que, depois de 36 anos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tem se tornado uma referência para muitos. Chegou lá seguindo os passos de dom Angélico Bernardino, um bispo que, mesmo emérito, nunca perdeu sua voz e seu testemunho profético.

Nesta entrevista, o Padre Paulo, reflete sobre a realidade social e eclesial no Brasil atual e sobre as mudanças que têm acontecido desde que 38 anos atrás foi ordenado padre. Define os padres novos e seminaristas dizendo que “buscam a carreira”, clericais, interessados mais nos objetos religiosos do que nos livros, criticando também os institutos de teologia, onde “alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala”. Nesse sentido ele afirma que “com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão”.

Continue lendo “Padre Paulo Bezerra: nome de Francisco não é mencionado nas missas em muitas paróquias”

Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?

Papa e o chileno Cruz: encontro decisivo

Uma entrevista de Juan Carlos Cruz, um dos que foram abusados sexualmente pelo padre chileno Fernando Karadima quando criança, traz à luz todo o horror  vivido na Igreja do Chile. Neste fim de semana (28 e 29), ele e mais duas vítimas estarão com o Papa no Vaticano. Durante sua visita ao Chile em janeiro, Francisco defendeu os bispos acobertadores dos abusos e atacou as vítimas, no grande equívoco de seu papado, pelo qual tem se penitenciado nos últimos meses. Esta talvez seja a última chance da Igreja Católica no tema da pedofilia.    

Há perguntas cruciais dirigidas aos católicos e católicas. Que Igreja é essa na qual reina o silêncio diante dos crimes seguidos de muitos de seus líderes? Até quando o silêncio que encobre milhares de atos de abuso sexual de crianças e jovens continuará a merecer a condescendência da massa de fiéis? Que futuro terá essa igreja?

Por Mauro Lopes

Francisco está diante do que talvez seja a última oportunidade de a Igreja Católica finalmente enfrentar a epidemia de crimes contra crianças cometidas por prelados. O caso do Chile tornou-se emblemático depois da desastrosa visita do Papa ao país, em janeiro último.

Uma das vítimas, Juan Carlos Cruz, descortina todo o caso: foram centenas de abusados e a cúpula conservadora da Igreja sempre soube e apoiou os padres criminosos, inclusive o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, arcebispo emérito de Santiago e um dos integrantes do C9, Conselho de Cardeais do Papa encarregado da reforma da Cúria romana.

A situação da hierarquia católica é tal que Errázuriz chegou ao cúmulo de dizer que Cruz, por ser homossexual, talvez “tivesse gostado de ser molestado” quando criança. O caso chileno é mais escandaloso ainda porque a Igreja combativa do país dos anos 1970/80 foi destroçada pela ação de João Paulo II em aliança com o general Pinochet e a nomeação em massa de bispos e cardeais conservadores e alinhados com a ditadura, num ambiente de abusos e silêncio.

Continue lendo “Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?”

Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

Continue lendo “Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus”

Alberto Maggi, um biblista que incomoda e ilumina

Alberto Maggi, frade da congregação dos Servos de Maria (servitas) é um dos maiores biblistas católicos da atualidade.

Seus livros questionam, incomodam, abrem horizontes. No Brasil, foram publicados dois livro estupendos dele, “A loucura de de Deus – o Cristo de João” e “Jesus e Belzebu, Satanás e Demônios”. Ele escreveu mais 18.

Na Sexta-Feira da Paixão publiquei no Caminho Pra Casa um artigo inédito dele: “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”. Até agora, 120 mil pessoas já leram. Dezenas de integristas escreveram comentários xingando-o de todas as maneiras, acusando-o de “heresia”.

Por Mauro Lopes

Leia uma entrevista luminosa deste frade que já se acostumou com o xingamento dos fundamentalistas e a hostilidade dos hierarcas, mas que segue fiel ao Mestre.

Quem quiser ter uma boa escuta dos Evangelhos, precisa ler Maggi.

Escutei seu nome pela primeira vez uns três anos atrás, quando dele me falou entusiasmado o padre Julio Lancellotti. O padre Francisco Cornelio é amigo de Maggi e seu maior divulgador no Brasil -atualmente, em Roma, está mais perto do amigo, que mora num convento em Montefano, na região dos Marche, 250 km a noroeste de Roma.

Leia a seguir entrevista de Maggi concedida ao jornalista Antonio Gnoli, publicada no La Repubblica em 01 de abril e traduzida por Moisés Sbardelotto para o IHU.

Leia a seguir:

Em certo ponto, Alberto Maggi interrompe a conversa: “São quase 7 horas da noite, é hora da missa”, diz ele apressadamente. Penso na singularidade desse homem que a Igreja muitas vezes definiu como herético. Onde está a fronteira entre obediência e pensamento próprio ou alheio?

Continue lendo “Alberto Maggi, um biblista que incomoda e ilumina”

Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio

Olavo de Carvalho (esquerda) e padre Paulo Ricardo (centro): dois líderes do catolicismo de ódio e perseguições

Há um fenômeno novo na Igreja Católica: padres, leigos e leigas intregristas que se movem em violentas campanhas contra tudo o que represente um risco para a idealização de uma igreja branca, “pura”, “imaculada”, misógina.  Olham os pobres com repulsa e aqueles que se levantam para  Ignoram o Evangelho, hostilizam a teologia latino-americana e guiam-se por  documentos de recorte medieval/europeu. Católicos e católicas assim sempre existiram, mas com as redes sociais e o aprofundamento da luta de classes no Brasil e no mundo, saíram a público e empunham a bandeira do catolicismo como uma religião em plena Cruzada contra os “infiéis”.

Perseguiram dom Oscar Romero, dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida no passado, com base em intrigas e maledicências pronunciadas a meia voz. Entre outros, são perseguidos hoje,  xingados e ameaçados de agressões e morte: frei Leonardo Boff, Frei Betto,  a freira Ivone Gebara, padre Júlio Lancellotti, padre Paulo Sérgio Bezerra , leigos, leigas, padres, freiras e bispos que defendem os indígenas, os sem terram os sem teto, os favelados país adentro, além dos franciscanos e da própria CNBB. Dom Pedro Casaldáliga foi perseguido no “velho estilo” e hoje, aos 90 anos, sofre também com a onda de ódio estridente. 

Padre França e o então bispo Bergoglio

No último domingo (17), o padre e teólogo Mário de França Miranda foi xingado em altos brados por dois homens durante missa na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema (Rio), ao comparar o martírio de Marielle Franco aos de Martin Luther King e dom Oscar Romero.  Aos 81 anos, é um teólogo de referência no mundo. Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira,  mestre em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck, Áustria, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Amigo do Papa Francisco, ambos jesuítas, atuou no grupo de trabalho como o que elaborou o Documento da Conferência de Aparecida, em 2007, sob a coordenação do então Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Foi membro da Comissão Teológica Internacional durante 11 anos, de 1992 a 2002. 

Leia o artigo de padre Gegê (Geraldo Natalino) sobre este “tipo emergente de clero e laicato”:

Tive o sagrado privilégio te ter como professor e orientador de mestrado na PUC-RJ a figura reconhecida internacionalmente do padre, pastor e intelectual França Miranda. Seguramente, uma das personalidades teologicamente mais importantes da igreja do Brasil e da América Latina. Com lamentável tristeza li a notícia de que foi durante a missa chamado de “padre filho da p…” por dois homens depois de se referir a Marielle (também a Mather Luther King e dom Oscar Romero) como defensora dos socialmente banidos. Lamentável, estimado França!

Porém, em meu escrito de solidariedade e repúdio, não posso, em estado de PROTESTO, deixar de dizer que essa ação insana sofrida pelo ilustre e respeitadíssimo sacerdote, não constitui uma atitude isolada no contexto atual da IGREJA. Há um grupo crescente de padres e leigos(as) no interior da Igreja fomentando aberta e publicamente o ódio, a intolerância, o desrespeito e a guerra nas redes sociais, pregações etc. Repito: há um tipo EMERGENTE de clero e laicato, intolerantes e beligerantes in extremis. Assim: in extremis, a despeito do caminho inversamente oposto trilhado e exigido pelo Papa Francisco. Esse segmento eclesial aguerrido faz da Igreja, sobretudo no mundo virtual (mas não só), um “PEIXE BETA”, peixe belíssimo e encantador, mas pouquíssimo capaz de convivialidade.

Continue lendo “Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio”

A segunda morte de Marielle

Os conservadores e fundamentalistas, não contentes com a execução de Marielle Franco, querem matá-la pela segunda vez, condenando-a por ser mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista e homoafetiva

Um artigo do teólogo César Kuzma*

Há um sistema que mata! Mas há um fundamentalismo e conservadorismo (político e religioso) que insistem em matar ainda mais, mesmo depois, tem que sangrar. Incrível!

Há limite para o ódio? Chega a ser assustador.

Interessante como alguns rótulos colocados tentam definir e marcar as pessoas. Não se vê mais nada além, são respostas impostas de fora, taxativas e preconceituosas. Triste! Absurdo!

Enquanto alguns choram a morte de Marielle, sendo ela simbólica pela forma como aconteceu e por ser ela a pessoa que era (pela história, vida e opções que a precederam), outros, sem compaixão, ou com um pseudo-autoritarismo, até cristão, dizem: mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista, defensora dos DH, lésbica…. Ofensas que matam! De novo! E outra vez!

Estes jargões atirados são na verdade causas de luta e protesto contra uma sociedade que “mata” mulheres, negando e abusando de seus direitos, ainda mais se forem negras e pobres, quanto mais vindas de comunidades carentes que denunciam qualquer “bom costume” perante a violência e injustiça que são submetidas diariamente. Para ter e ser voz tem que lutar, tem que sair sem abandonar a casa e a causa, sem negar a si mesma, na sua condição de mulher. Negra mulher, preta na cor.

Continue lendo “A segunda morte de Marielle”

O Papa deve ficar isento de críticas? O caso do Chile

O Papa preside missa no Chile. Ao fundo, os bispos de uma Igreja em frangalhos

Quando o Papa erra devemos ficar quietos? As críticas fortalecem mesmo os conservadores? E o compromisso dos cristãos com as vítimas?  Deve ser relativo?

Por Mauro Lopes

Escrevi uma avaliação crítica da viagem de três dias do Papa Francisco ao Chile (Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco) que sofreu severas censuras de amigos e amigas, críticas diretas e indiretas de alguns teólogos e um silêncio com tom de reprovação de muita gente progressista dentro da Igreja. Senti-me estimulado a continuar no assunto, por acreditar que há, aqui, uma questão-chave para pensar o cristianismo hoje e sob o pontificado de Bergoglio.

As críticas à crítica foram basicamente de três ordens: 1) o artigo baseou-se em notícias falsas (“fake news”); 2) as fontes das notícias não eram confiáveis (“inimigos” do Papa); 3) e, a que me pareceu a mais constante e relevante: o artigo seria um desserviço ao pontificado de Francisco e fortaleceria os conservadores, os católicos e hierarcas que se opõem às reformas do Papa. Para esta última visão, deve ser evitada qualquer crítica a Francisco, pois ela teria o condão de enfraquecê-lo no embate com os restauracionistas.

As duas primeiras acusações (“fake News” e “fontes não confiáveis”) parecem-me desprovidas de base.  Os dois vaticanistas citados (vaticanistas são jornalistas que moram em Roma e acompanham o dia a dia dos papas), Elisabetta Piqué (do La Nación) e Andrea Tornielli (do Vatican Insider) são próximos do Papa e abertamente apoiam Francisco –ambos escreveram livros onde não escondem seu entusiasmo[1]. Além deles, as principais fontes do artigo são o site católico espanhol Religión Digital, o maior site católico progressista em língua espanhola e que lidera uma campanha mundial de apoio ao Papa, além do site do Instituto Humanitas Unisinos, o IHU Online, dos jesuítas brasileiros, o principal portal católico progressista do país. Não são interessadas em plantar “fake news” contra Francisco ou não confiáveis.

A última crítica é a que merece uma avaliação mais serena e um pouco mais aprofundada. Não se trata de uma visão teológica, mas política, uma maneira de enxergar a relação com o Papa à luz do embate de poder com os conservadores no interior da Igreja.

* * *

Para enfrentá-la, vale a pena antes de tudo, ver, voltar os olhos para o contexto e os principais fatos da viagem.

Continue lendo “O Papa deve ficar isento de críticas? O caso do Chile”

Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco

Chile: críticas à Igreja e ao Papa

A viagem de três dias de Francisco ao Chile, encerrada nesta sexta (19), configura o pior momento de seu papado -foi um fiasco, é preciso dizer

Por Mauro Lopes

O Papa passou pelo Chile com uma recepção gélida, ruas vazias, debaixo de seguidas reprovações (os repórteres que o acompanharam ficaram surpresos com a reticência dos chilenos).

Não é à toa. As pessoas comuns no Chile estão indignadas com uma Igreja que foi combativa mas, depois de uma avassaladora intervenção de João Paulo II nos anos 1980, tornou-se apoiadora de uma das ditaduras mais sanguinárias do continente, afastou-se do povo e, por fim, esmerou-se por décadas em encobrir sacerdotes abusadores e pedófilos. Segundo Elisabetta Piqué, vaticanista (jornalistas que cobrem o Vaticano), do argentino La Nación, próxima do Papa e que acompanhou a visita, a Igreja chilena é “elitista, clerical, que está pagando por isso e pelos escândalos de abusos”. Ela sintetizou a reação dos jornalistas ao afirmar que a recepção a Francisco “surpreende muito, porque estamos em um país católico que parece que já não é tão católico”.

O Papa não ajudou a reverter as coisas.

Fez discursos bonitos, carregados de sentido e boas palavras, como sempre –mas as pessoas queriam mais que isso.

O caso mais emblemático é o dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes no país, especialmente o caso do do padre Fernando Karadima, que abusou de mais de 75 crianças. Karadima, de 87 anos, ligado à direita empresarial e política, foi afastado pela Igreja apenas em 2011, depois de anos de denúncias e complacência dos clérigos chilenos.

Qual ação de Francisco está no centro das críticas que está sofrendo no Chile? Em 2015, ele nomeou como bispo de Osorno (no sul do país), Juan Barros, que acobertou Karadima anos a fio, opondo-se a todas as investigações do caso.

Continue lendo “Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco”

Os projetos em disputa: uma Igreja em saída ou a Igreja-empresa

O Papa e a Cúria romana: dois projetos de Igreja em disputa

O padre Eduardo Hoornaert, um dos maiores historiadores da Igreja, escreve um artigo exemplar sobre os dois projetos de Igreja em disputa neste momento: o da “Igreja em saída”, do Papa Francisco, a partir do Concílio Vaticano II, e o da “Igreja-empresa”, levado ao auge nos séculos XII e XIII, alicerçado numa estrutura de controle e terror, a Inquisição.

“O Papa Francisco sabe o que está dizendo e é exatamente isso o que o faz encontrar  oposição em certos setores da igreja”, escreve o padre Hoornaert. Houve luta contra o projeto dominante de Igreja, como o registra a “história fraca” do cristianismo, dos franciscanos aos valdenses até João XXIII. Ela só aflorou com força em 1968, na América Latina, na Conferência de Medellín, que assumiu a escolha de uma Igreja pobre de pobres –conforme a expressão do “papa bom”, João XXIII.

Casado, o padre Hoonaert vive a mesma situação de mais 100 mil padres ao redor do mundo:  nunca abandonaram a Igreja. Eles representam 25% do total de sacerdotes no mundo, ao redor de 400 mil. No Brasil, aproximam-se de 1/3 do total de sacerdotes: 5 mil em 18 mil. Esses números não incluem os padres que são casados informalmente ou mantêm atividade sexual regular de maneira mais ou menos clandestina.

Belga de nascimento, aos 77 anos o padre Hoonaert tem uma trajetória impressionante na Igreja. Chegou ao Brasil em 1958 e aqui ficou. Foi professor nos históricos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991), todos fechados pelo inverno conservador sob o Papa João Paulo II. Foi um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), sendo seu  coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto História do Cristianismo e é coordenador do projeto História do Cristianismo no 3º Mundo, que publicou em 1995 o livro O Movimento de Jesus (Vozes). É requisitado em todo o país como assessor das Comunidades Eclesiais de Base , as CEB’s.

Autor de vários artigos e livros sobre História do Cristianismo Antigo, História da Igreja e História da Igreja na América Latina e no Brasil. Alguns deles: Formação do Catolicismo Brasileiro – 1550 – 1800 (Vozes, 1978), A Memoria do Povo Cristão (Zahar, 1986), O Cristianismo Moreno do Brasil (Vozes, 1990), Origens do Cristianismo (Paulus, 2016) e Em busca de Jesus de Nazaré – uma análise literária (Paulus, 2017).

Leia o brilhante artigo do padre Hoonaert (publicado originalmente em seu blog e depois em Ameríndia):

Continue lendo “Os projetos em disputa: uma Igreja em saída ou a Igreja-empresa”