Ao redor de Marielle, Lula e padre Amaro, uma Igreja dividida e que abandona os seus

Dom Angélico e Lula, na celebração ecumênica em São Bernardo

Vive-se uma situação paradoxal no Brasil. Lideranças populares com histórias profundamente ligadas à Igreja Católica foram mortas ou perseguidas sob o silêncio cúmplice da cúpula da Igreja, enquanto um segmento estridente de integristas aplaude os algozes. Marielle Franco foi martirizada numa execução brutal; Lula, vítima de uma perseguição sem tréguas até a prisão, assim como o padre José Amaro Lopes de Souza.

Em tornos deles, a Igreja brasileira dividiu-se entre uma postura de solidariedade e oração de segmentos vinculados à Teologia da Libertação; uma hostilidade agressiva dos tradicionalistas; e um distanciamento acovardado da cúpula. Incrivelmente, as mesmas reações foram observadas diante da prisão de um integrante do clero, o padre José Amaro Lopes de Souza, considerado sucessor de irmã Dorothy Stang em Anapu (PA), e detido desde 27 de março último numa articulação entre latifundiários e a polícia do Pará.

Como em raros momentos, a Igreja mostra sua fratura à sociedade à luz do dia e, mais grave, apresenta-se como instituição que não acolhe os seus.  Ao mesmo tempo, o Papa acaba de lançar uma Exortação Apostólica dizendo que o único caminho da santidade cristã é a vida com os pobres contra as injustiças.

Por Mauro Lopes

Marielle Franco foi catequista e participou da Pastoral da Juventude na favela da Maré, na adolescência; mesmo depois de adulta, quando se afastou da Igreja por ser lésbica e militante de esquerda numa Arquidiocese dominada por integristas, não abdicou da fé. Criada numa família católica, manteve-se às margens, aproximou-se da religiosidade de matriz afro-brasileira e continuou a frequentar igrejas, especialmente ao lado da irmã, Anielle.

Luis Inácio Lula da Silva também foi criado numa família católica. Sua mulher, Marisa Letícia, católica desde a infância –seu avô, Giovanni, ergueu uma capela em homenagem a Santo Antônio, no sítio da família, em São Bernardo do Campo, que está de pé até hoje. A aproximação maior de Lula com o catolicismo deu-se no processo das lutas sindicais no final dos anos 1970 e a seguir na fundação do PT, quando teve apoio das bases da Igreja, especialmente as Comunidades Eclesiais e Base teólogos e teólogas vinculados à Teologia da Libertação.

Padre Amaro e Dorothy Stang

Padre José Amaro é um homem da Igreja há décadas. Uma nota da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil) resume bem a trajetória do sacerdote: “Milhares de trilhas iniciadas por irmã Dorothy Stang, continuam abertas depois de seu martírio em 12 de fevereiro de 2005, no município de Anapu, Estado do Pará. Trilhas estas continuadas pelo padre Amaro Lopes, conhecido, amado e respeitado por sua incansável luta em defesa dos direitos humanos, especialmente dos camponeses, pequenos agricultores da região de Anapu. Gente simples e de grande valor na defesa da Amazônia e da ecologia integral. Dando continuidade ao trabalho de irmã Dorothy, padre Amaro atua no município de Anapu (PA), na Paróquia Santa Luzia, como líder comunitário e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na região.”

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Alberto Maggi, um biblista que incomoda e ilumina

Alberto Maggi, frade da congregação dos Servos de Maria (servitas) é um dos maiores biblistas católicos da atualidade.

Seus livros questionam, incomodam, abrem horizontes. No Brasil, foram publicados dois livro estupendos dele, “A loucura de de Deus – o Cristo de João” e “Jesus e Belzebu, Satanás e Demônios”. Ele escreveu mais 18.

Na Sexta-Feira da Paixão publiquei no Caminho Pra Casa um artigo inédito dele: “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”. Até agora, 120 mil pessoas já leram. Dezenas de integristas escreveram comentários xingando-o de todas as maneiras, acusando-o de “heresia”.

Por Mauro Lopes

Leia uma entrevista luminosa deste frade que já se acostumou com o xingamento dos fundamentalistas e a hostilidade dos hierarcas, mas que segue fiel ao Mestre.

Quem quiser ter uma boa escuta dos Evangelhos, precisa ler Maggi.

Escutei seu nome pela primeira vez uns três anos atrás, quando dele me falou entusiasmado o padre Julio Lancellotti. O padre Francisco Cornelio é amigo de Maggi e seu maior divulgador no Brasil -atualmente, em Roma, está mais perto do amigo, que mora num convento em Montefano, na região dos Marche, 250 km a noroeste de Roma.

Leia a seguir entrevista de Maggi concedida ao jornalista Antonio Gnoli, publicada no La Repubblica em 01 de abril e traduzida por Moisés Sbardelotto para o IHU.

Leia a seguir:

Em certo ponto, Alberto Maggi interrompe a conversa: “São quase 7 horas da noite, é hora da missa”, diz ele apressadamente. Penso na singularidade desse homem que a Igreja muitas vezes definiu como herético. Onde está a fronteira entre obediência e pensamento próprio ou alheio?

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Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio

Olavo de Carvalho (esquerda) e padre Paulo Ricardo (centro): dois líderes do catolicismo de ódio e perseguições

Há um fenômeno novo na Igreja Católica: padres, leigos e leigas intregristas que se movem em violentas campanhas contra tudo o que represente um risco para a idealização de uma igreja branca, “pura”, “imaculada”, misógina.  Olham os pobres com repulsa e aqueles que se levantam para  Ignoram o Evangelho, hostilizam a teologia latino-americana e guiam-se por  documentos de recorte medieval/europeu. Católicos e católicas assim sempre existiram, mas com as redes sociais e o aprofundamento da luta de classes no Brasil e no mundo, saíram a público e empunham a bandeira do catolicismo como uma religião em plena Cruzada contra os “infiéis”.

Perseguiram dom Oscar Romero, dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida no passado, com base em intrigas e maledicências pronunciadas a meia voz. Entre outros, são perseguidos hoje,  xingados e ameaçados de agressões e morte: frei Leonardo Boff, Frei Betto,  a freira Ivone Gebara, padre Júlio Lancellotti, padre Paulo Sérgio Bezerra , leigos, leigas, padres, freiras e bispos que defendem os indígenas, os sem terram os sem teto, os favelados país adentro, além dos franciscanos e da própria CNBB. Dom Pedro Casaldáliga foi perseguido no “velho estilo” e hoje, aos 90 anos, sofre também com a onda de ódio estridente. 

Padre França e o então bispo Bergoglio

No último domingo (17), o padre e teólogo Mário de França Miranda foi xingado em altos brados por dois homens durante missa na Paróquia da Ressurreição, em Ipanema (Rio), ao comparar o martírio de Marielle Franco aos de Martin Luther King e dom Oscar Romero.  Aos 81 anos, é um teólogo de referência no mundo. Graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira,  mestre em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck, Áustria, e doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Amigo do Papa Francisco, ambos jesuítas, atuou no grupo de trabalho como o que elaborou o Documento da Conferência de Aparecida, em 2007, sob a coordenação do então Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Foi membro da Comissão Teológica Internacional durante 11 anos, de 1992 a 2002. 

Leia o artigo de padre Gegê (Geraldo Natalino) sobre este “tipo emergente de clero e laicato”:

Tive o sagrado privilégio te ter como professor e orientador de mestrado na PUC-RJ a figura reconhecida internacionalmente do padre, pastor e intelectual França Miranda. Seguramente, uma das personalidades teologicamente mais importantes da igreja do Brasil e da América Latina. Com lamentável tristeza li a notícia de que foi durante a missa chamado de “padre filho da p…” por dois homens depois de se referir a Marielle (também a Mather Luther King e dom Oscar Romero) como defensora dos socialmente banidos. Lamentável, estimado França!

Porém, em meu escrito de solidariedade e repúdio, não posso, em estado de PROTESTO, deixar de dizer que essa ação insana sofrida pelo ilustre e respeitadíssimo sacerdote, não constitui uma atitude isolada no contexto atual da IGREJA. Há um grupo crescente de padres e leigos(as) no interior da Igreja fomentando aberta e publicamente o ódio, a intolerância, o desrespeito e a guerra nas redes sociais, pregações etc. Repito: há um tipo EMERGENTE de clero e laicato, intolerantes e beligerantes in extremis. Assim: in extremis, a despeito do caminho inversamente oposto trilhado e exigido pelo Papa Francisco. Esse segmento eclesial aguerrido faz da Igreja, sobretudo no mundo virtual (mas não só), um “PEIXE BETA”, peixe belíssimo e encantador, mas pouquíssimo capaz de convivialidade.

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A segunda morte de Marielle

Os conservadores e fundamentalistas, não contentes com a execução de Marielle Franco, querem matá-la pela segunda vez, condenando-a por ser mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista e homoafetiva

Um artigo do teólogo César Kuzma*

Há um sistema que mata! Mas há um fundamentalismo e conservadorismo (político e religioso) que insistem em matar ainda mais, mesmo depois, tem que sangrar. Incrível!

Há limite para o ódio? Chega a ser assustador.

Interessante como alguns rótulos colocados tentam definir e marcar as pessoas. Não se vê mais nada além, são respostas impostas de fora, taxativas e preconceituosas. Triste! Absurdo!

Enquanto alguns choram a morte de Marielle, sendo ela simbólica pela forma como aconteceu e por ser ela a pessoa que era (pela história, vida e opções que a precederam), outros, sem compaixão, ou com um pseudo-autoritarismo, até cristão, dizem: mulher, negra, pobre, de esquerda, feminista, defensora dos DH, lésbica…. Ofensas que matam! De novo! E outra vez!

Estes jargões atirados são na verdade causas de luta e protesto contra uma sociedade que “mata” mulheres, negando e abusando de seus direitos, ainda mais se forem negras e pobres, quanto mais vindas de comunidades carentes que denunciam qualquer “bom costume” perante a violência e injustiça que são submetidas diariamente. Para ter e ser voz tem que lutar, tem que sair sem abandonar a casa e a causa, sem negar a si mesma, na sua condição de mulher. Negra mulher, preta na cor.

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O Papa deve ficar isento de críticas? O caso do Chile

O Papa preside missa no Chile. Ao fundo, os bispos de uma Igreja em frangalhos

Quando o Papa erra devemos ficar quietos? As críticas fortalecem mesmo os conservadores? E o compromisso dos cristãos com as vítimas?  Deve ser relativo?

Por Mauro Lopes

Escrevi uma avaliação crítica da viagem de três dias do Papa Francisco ao Chile (Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco) que sofreu severas censuras de amigos e amigas, críticas diretas e indiretas de alguns teólogos e um silêncio com tom de reprovação de muita gente progressista dentro da Igreja. Senti-me estimulado a continuar no assunto, por acreditar que há, aqui, uma questão-chave para pensar o cristianismo hoje e sob o pontificado de Bergoglio.

As críticas à crítica foram basicamente de três ordens: 1) o artigo baseou-se em notícias falsas (“fake news”); 2) as fontes das notícias não eram confiáveis (“inimigos” do Papa); 3) e, a que me pareceu a mais constante e relevante: o artigo seria um desserviço ao pontificado de Francisco e fortaleceria os conservadores, os católicos e hierarcas que se opõem às reformas do Papa. Para esta última visão, deve ser evitada qualquer crítica a Francisco, pois ela teria o condão de enfraquecê-lo no embate com os restauracionistas.

As duas primeiras acusações (“fake News” e “fontes não confiáveis”) parecem-me desprovidas de base.  Os dois vaticanistas citados (vaticanistas são jornalistas que moram em Roma e acompanham o dia a dia dos papas), Elisabetta Piqué (do La Nación) e Andrea Tornielli (do Vatican Insider) são próximos do Papa e abertamente apoiam Francisco –ambos escreveram livros onde não escondem seu entusiasmo[1]. Além deles, as principais fontes do artigo são o site católico espanhol Religión Digital, o maior site católico progressista em língua espanhola e que lidera uma campanha mundial de apoio ao Papa, além do site do Instituto Humanitas Unisinos, o IHU Online, dos jesuítas brasileiros, o principal portal católico progressista do país. Não são interessadas em plantar “fake news” contra Francisco ou não confiáveis.

A última crítica é a que merece uma avaliação mais serena e um pouco mais aprofundada. Não se trata de uma visão teológica, mas política, uma maneira de enxergar a relação com o Papa à luz do embate de poder com os conservadores no interior da Igreja.

* * *

Para enfrentá-la, vale a pena antes de tudo, ver, voltar os olhos para o contexto e os principais fatos da viagem.

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Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco

Chile: críticas à Igreja e ao Papa

A viagem de três dias de Francisco ao Chile, encerrada nesta sexta (19), configura o pior momento de seu papado -foi um fiasco, é preciso dizer

Por Mauro Lopes

O Papa passou pelo Chile com uma recepção gélida, ruas vazias, debaixo de seguidas reprovações (os repórteres que o acompanharam ficaram surpresos com a reticência dos chilenos).

Não é à toa. As pessoas comuns no Chile estão indignadas com uma Igreja que foi combativa mas, depois de uma avassaladora intervenção de João Paulo II nos anos 1980, tornou-se apoiadora de uma das ditaduras mais sanguinárias do continente, afastou-se do povo e, por fim, esmerou-se por décadas em encobrir sacerdotes abusadores e pedófilos. Segundo Elisabetta Piqué, vaticanista (jornalistas que cobrem o Vaticano), do argentino La Nación, próxima do Papa e que acompanhou a visita, a Igreja chilena é “elitista, clerical, que está pagando por isso e pelos escândalos de abusos”. Ela sintetizou a reação dos jornalistas ao afirmar que a recepção a Francisco “surpreende muito, porque estamos em um país católico que parece que já não é tão católico”.

O Papa não ajudou a reverter as coisas.

Fez discursos bonitos, carregados de sentido e boas palavras, como sempre –mas as pessoas queriam mais que isso.

O caso mais emblemático é o dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes no país, especialmente o caso do do padre Fernando Karadima, que abusou de mais de 75 crianças. Karadima, de 87 anos, ligado à direita empresarial e política, foi afastado pela Igreja apenas em 2011, depois de anos de denúncias e complacência dos clérigos chilenos.

Qual ação de Francisco está no centro das críticas que está sofrendo no Chile? Em 2015, ele nomeou como bispo de Osorno (no sul do país), Juan Barros, que acobertou Karadima anos a fio, opondo-se a todas as investigações do caso.

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Os projetos em disputa: uma Igreja em saída ou a Igreja-empresa

O Papa e a Cúria romana: dois projetos de Igreja em disputa

O padre Eduardo Hoornaert, um dos maiores historiadores da Igreja, escreve um artigo exemplar sobre os dois projetos de Igreja em disputa neste momento: o da “Igreja em saída”, do Papa Francisco, a partir do Concílio Vaticano II, e o da “Igreja-empresa”, levado ao auge nos séculos XII e XIII, alicerçado numa estrutura de controle e terror, a Inquisição.

“O Papa Francisco sabe o que está dizendo e é exatamente isso o que o faz encontrar  oposição em certos setores da igreja”, escreve o padre Hoornaert. Houve luta contra o projeto dominante de Igreja, como o registra a “história fraca” do cristianismo, dos franciscanos aos valdenses até João XXIII. Ela só aflorou com força em 1968, na América Latina, na Conferência de Medellín, que assumiu a escolha de uma Igreja pobre de pobres –conforme a expressão do “papa bom”, João XXIII.

Casado, o padre Hoonaert vive a mesma situação de mais 100 mil padres ao redor do mundo:  nunca abandonaram a Igreja. Eles representam 25% do total de sacerdotes no mundo, ao redor de 400 mil. No Brasil, aproximam-se de 1/3 do total de sacerdotes: 5 mil em 18 mil. Esses números não incluem os padres que são casados informalmente ou mantêm atividade sexual regular de maneira mais ou menos clandestina.

Belga de nascimento, aos 77 anos o padre Hoonaert tem uma trajetória impressionante na Igreja. Chegou ao Brasil em 1958 e aqui ficou. Foi professor nos históricos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991), todos fechados pelo inverno conservador sob o Papa João Paulo II. Foi um dos fundadores da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), sendo seu  coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto História do Cristianismo e é coordenador do projeto História do Cristianismo no 3º Mundo, que publicou em 1995 o livro O Movimento de Jesus (Vozes). É requisitado em todo o país como assessor das Comunidades Eclesiais de Base , as CEB’s.

Autor de vários artigos e livros sobre História do Cristianismo Antigo, História da Igreja e História da Igreja na América Latina e no Brasil. Alguns deles: Formação do Catolicismo Brasileiro – 1550 – 1800 (Vozes, 1978), A Memoria do Povo Cristão (Zahar, 1986), O Cristianismo Moreno do Brasil (Vozes, 1990), Origens do Cristianismo (Paulus, 2016) e Em busca de Jesus de Nazaré – uma análise literária (Paulus, 2017).

Leia o brilhante artigo do padre Hoonaert (publicado originalmente em seu blog e depois em Ameríndia):

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No que deu a Polônia dos sonhos de João Paulo II

Eis os católicos de direita na Polônia: querem forca; mais adiante pedirão fogueiras?

Eis no que deu a “revolução cristã” conservadora encetada sob a liderança de Karol Wojtyla no final do século XX e início do XXI em sua terra, a Polônia..

Veja a foto que encima este post. São membros do grupo católico de extrema direita, integrista e antissemita ONR (Obóz Narodowo-Radykalny Falanga), que, no último sábado (25) foram às ruas com forcas (isso mesmo). Quem esses católicos desejam ver enforcados: seis eurodeputados do partido Plataforma Cívica que votaram a favor de uma resolução do Parlamento Europeu advertindo o governo de Varsóvia contra os seguidos desrespeitos ao Estado de Direito (veja aqui a nota do italiano La Repubblica).

O ONR Falanga é um grupo fascista inspirado na Falanges espanholas de Franco. Mas eles assumem que o catolicismo tem um aspecto ainda mais central no movimento do que no falangismo/fascismo espanhol. São críticos do “capitalismo liberal”, odeiam a esquerda, os judeus e os muçulmanos, são arquiconservadores quanto às questões identitárias e defendem abertamente a restrição aos direitos humanos. O símbolo da organização é eloquente quanto à sua identidade, moldada pela estética nazi-fascista (veja ao lado).

Milhões de católicos conservadores e amedrontados diante do mundo tornaram-se a bucha de canhão dos diversos agrupamentos (quase todos católicos) de extrema-direita que buscam lançar o pais numa jornada xenófoba, racista, que investe igualmente contra muçulmanos, judeus, direito ao aborto e qualquer direito que ofenda o que denominam sua “fé”.

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Kuzma e o Ano do Laicato: Igreja continua de portas fechadas

‘Sem a ação dos leigos não há uma ação de Igreja em saída’

Uma entrevista especial com o teólogo César Kuzma na abertura do Ano Nacional do Laicato instituído pela CNBB, que foi aberto neste domingo (25), na solenidade de Cristo Rei que marca no novo Ano Litúrgico da Igreja Católica (no ciclo trienal litúrgico dos católicos, começa agora do Ano B, centralizado pela leitura do Evangelho de Marcos na Liturgia da Palavra dominical).

Ele foi contundente e realista: “os leigos devem se afastar deste modelo estrutural e buscar novos caminhos, novas maneiras de viver a fé, dentro do chamado que é próprio da sua vocação, que é o mundo secular e as grandes causas da humanidade. Aqui está a vocação e a missão dos leigos! Ali devem ser sal e luz. Sujeitos da história. É onde os leigos, como Igreja que são, podem oferecer o seu testemunho e o seu serviço concreto. Observo que as ações de Francisco também vão por aí.”

Em linha com o Papa, ele afirma que “o clericalismo é uma doença que impede a Igreja de ser serviço e, com isso, inibe as demais vocações, sobretudo os leigos, de assumirem o seu papel, a sua missão dentro do corpo eclesial, e também na sociedade. O clericalismo traz e vive de uma imagem de Igreja que se quer garantir por si mesma, sem abertura ao novo e que busca sempre o poder, que quer estar acima, que vive ‘à parte’ e agarra-se nas estruturas, na dureza das tradições, no enrijecimento da doutrina, na dominação de uma letra sem espírito e num autoritarismo eclesiástico/hierárquico doente.”

No momento em que Francisco abre a Igreja, os resultados dos anos de domínio conservador estão à vista: “o clero mais jovem, que se satisfaz em formalismos, panos e paramentos riquíssimos (até medievais) e em ritos antigos, carregados na rigidez, ou camuflados de aspectos modernos, em alguns casos, mas muito distante da simplicidade do Evangelho, o que é lamentável. Seja pela linguagem ou pela vestimenta, cria-se uma estrutura que decide por caminhar separada do mundo, distante dos problemas e com a sustentação de um ar superior.”

A Igreja continua impermeável aos leigos, segundo o teólogo: “Em uma carta ao Cardeal Marc Ouellet, em 2016, o Papa Francisco recorda que desde o Concílio se falou muito sobre a ‘hora dos leigos’, mas para o Papa esta hora está tardando a chegar. Para Francisco, e aqui nós nos somamos a ele, as causas são várias, mas a passividade tem sim certa culpa do próprio laicato, é um fato, mas também das estruturas, que não formam e não permitem um espaço favorável, onde leigos e leigas possam exercer criticamente e com maturidade a sua vocação.”

O caminho é retomar a originalidade do cristianismo: “Se na resposta da Igreja antiga precisou se falar que não há escravos ou livres, homens ou mulheres, mas todos são um em Cristo Jesus, deveríamos trazer esta máxima para hoje, como uma definição basilar, para que não haja mais clero ou leigos, mas para que todos possamos ser uma só coisa nele.”

Há uma contradição profunda e não resolvida entre o laicato e a estrutura: “como é ser leigo, sujeito eclesial, numa Igreja clericalizada? Impossível! É necessário romper isso!”

Para Kuzma, todos os processos posteriores ao Vaticano II e Medellín buscaram frear e revogar a abertura aos leigos: “passaram-se dez anos da última assembleia do CELAM e pouco se fez ou se avançou na linha de Aparecida. Por exemplo: o que significa ser discípulo missionário, hoje? Será que há alguma mudança?… Por certo que não. Raras exceções. Continuamos com as mesmas estruturas e linhas de ação, seguimos com os mesmos planos e projetos pastorais, a mesma insistência na formação clerical dos nossos seminaristas e na pouca valorização da formação laical (…).”

Ele é taxativo: “Sem a ação dos leigos não há uma ação de Igreja em saída.”

Cesar Kuzma é dos mais expressivos teólogos católicos brasileiros da novíssima geração. Com 41 anos de idade, é doutor em Teologia pela PUC-Rio, onde é professor e pesquisador, e presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Assessor da Comissão do Laicato da CNBB e do Departamento de Vocações e Ministérios do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM). Autor, entre outros, de O futuro de Deus na missão da esperança: uma aproximação escatológica (2014), um estudo sobre a obra do “teólogo da esperança”, o protestante Jürgen Moltmann, e Leigos e Leigas –força e esperança da Igreja no mundo (2009).

Leia a íntegra da longa e densa entrevista de Kuzma concedida ao Caminho Pra Casa, a Mauro Lopes e ao padre Luís Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

*

Para começar, recordamos uma expressão do Papa Francisco, cujo conteúdo tem sido recorrente em seus discursos e pronunciamentos. No Ângelus do 21° Domingo do Tempo Comum (em 27 de agosto deste ano/2017), o Papa fez uma afirmação ousada. Disse que a Igreja é de todos, e não só do clero. Como você avalia essa afirmação à luz da história de clericalismo que marca a Igreja Católica e neste início do Ano Nacional do Laicato?

César Kuzma e os filhos

Bom, acredito que esta é uma grande pergunta para começarmos a nossa conversa, pois a abrangência do que se pede toca em questões fundamentais da nossa fé e da nossa tradição, mas também em aspectos práticos do que vivemos e sentimos hoje na Igreja.

E aí entra a pessoa de Francisco e tudo o que ele representa para nós, seja para aqueles que o apoiam (eu me incluo neste grupo) seja para aqueles que o agridem, e que já não se escondem. Também o problema do clericalismo, que é uma enfermidade grave (palavras do próprio Papa), de muitas proporções e que avança por muitas frentes. Francisco alerta a este mal e acho que todos devemos nos ater a esta questão, pois é séria. Agradeço, então, a oportunidade e gostaria de começar a responder por aqui.

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A Igreja dos “príncipes” contra Francisco -um vídeo espantoso

O vídeo que este post apresenta é, talvez, a mais condensada e simbólica representação da oposição conservadora ao Papa Francisco e seu projeto. A  cena aconteceu numa das basílicas do Santuário de Fátima, em  Portugal. O personagem é o cardeal estadunidense Raymond Burke, líder da oposição a Francisco.

São 14min15 impressionantes.

Mais da metade do tempo dedica-se a mostrar o cardeal sendo montado, em pleno altar –o vídeo começa quando a vestição de Burke já havia sido iniciada, o que leva a crer que a montagem completa talvez tenha se prolongado por  mais de 10 minutos.

O ambiente da cena oscila entre o surreal e o macabro, algo como um filme dos anos 1970/80 sobre a realeza decadente. O “príncipe” cercado por uma corte de homens de cenho cerrado, vestido com capas negras ou púrpuras, algo como um retrato em negativo da klu klux klan, sem os capuzes.

Aos 3min25 há uma cena difícil de acreditar que tenha acontecido depois de todos os escândalos de pedofilia e abuso de menores da Igreja: um menino leva ao cardeal seu barrete cardinalício, um chapéu que é um símbolo de caráter evidentemente fálico do poder dos hierarcas da Igreja. O menino ajoelha diante de Burke um sem-número de vezes e é orientado a beijar uma das pontas do barrete e da capa magna, um verdadeiro fetiche dos conservadores – é simbólico que um homem, adulto, fique todo o tempo conduzindo o menino no ritual de ajoelhar e beijar.

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