1/3 dos bispos convocam a greve geral; surge um novo desenho da Igreja no país

Assembleia Geral da CNBB vai até 5 de maio em Aparecida. Foto: CNBB

Até o meio da tarde desta quinta (27), véspera da greve geral contra as reformas do governo Temer, era possível contabilizar 93 bispos católicos que, em notas ou vídeos, convocaram os fiéis de suas dioceses e arquidioceses participarem ativamente do protesto. É certo que mais bispos manifestaram-se, mas a “garimpagem” realizada por dezenas de pessoas país afora não capturou toda a mobilização episcopal. É possível dizer que quase 1/3 dos 308 bispos na ativa no país estão comprometidos com a greve –veja a lista aqui.

Um olhar para a composição da lista de bispos mobilizados mostra um novo perfil da Igreja no país, superando os anos de silêncio e apatia. Nas últimas semanas, a Igreja no Brasil ficou mais parecida com a Igreja que as pessoas reconhecem no Papa Francisco, e assumiu importância na vida nacional, depois de um longo período de irrelevância. O profetismo e a vinculação com os pobres voltou à cena com vigor.

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, na Assembleia da entidade – Foto: CNBB

Isso não quer dizer que os bispos progressistas sejam maioria –nem no período auge da Teologia da Libertação o foram. Continua a haver uma maioria moderada, silente, preocupada com o futuro da instituição e seu próprio futuro, representada pelo presidente da CNBB, o cardeal dom Sérgio da Rocha.  O polo dinâmico, progressista, alinhado ao Papa Francisco, tem sua liderança partilhada entre o secretário-geral da CNBB, o franciscano dom Leonardo Ulrich Steiner e os presidentes e principais dirigentes das pastorais sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Pastoral Carcerária, Pastoral da Saúde e Caritas Brasileira –todos eles lançaram convocações à greve. Dentre os religiosos, os dominicanos, mais engajados durante a ditadura, cedem lugar aos franciscanos, com um protagonismo alegre e comprometido.  Nos momentos de maior compromisso da Igreja com os pobres no país, houve uma composição entre os blocos moderado e progressista do episcopado.

Dom Orani e dom Odilo: com Temer. no dia da votação da emenda de corte nos gastos sociais, em outubro de 2016. Foto: Beto Barata/PR

Há um polo abertamente reacionário, comprometido com os interesses dos ricos, minoritário como o progressista. É liderado pelos cardeais do Rio, dom Orani Tempesta, e de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer. Não é coincidência que nem eles nem qualquer dos bispos auxiliares de São Paulo ou Rio tenham se manifestado a favor da greve geral. Ambos foram os líderes da visita de um grupo de bispos a Temer, e não se cansam de manifestar simpatia ao governo golpista exatamente no dia da votação da PEC do Teto dos Gastos (que congelou os gastos sociais no país por 20 anos) –leia aqui.

Observe no quadro abaixo como está distribuída no país a liderança eclesial progressista. Foram mapeados 93 bispos, distribuídos regionalmente da seguinte maneira: 18 do Norte, 28 do Nordeste, 6 do Centro-Oeste, 29 do Sudeste e 12 do Sul. O Estado com mais bispos convocando a população é Minas Gerais, com 19, em parte devido ao protagonismo de dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte –acompanharam-no na convocação à greve cinco bispos auxiliares de BH. O segundo Estado com maior presença é o Maranhão, com 9 bispos –uma participação destacada, num Estado que possui 12 dioceses.

Veja o quadro:

 

Há um novo desenho da Igreja no país, sob influxo da liderança do Papa Francisco e em meio a uma brutal ofensiva contra os direitos dos mais pobres. Este perfil renovado será contemplado pela Assembleia Geral da CNBB, que acontece até 5 de maio em Aparecida (SP)? Uma aliança entre progressistas e moderados voltará a dar o tom à Igreja no país?

[Mauro Lopes]

Um sacerdote gay escreve a católicos e evangélicos -é preciso ler com atenção

O sacerdote católico James Alison

James Alison é sacerdote católico. Define-se como “um sacerdote católico que procura, a partir da teologia, saídas para todo tipo de amor, incluindo o amor gay”. Afirma que “aqueles que mais perseguem os gays na Igreja são gays reprimidos” e confessa, a partir de sua experiência pessoal, que aquilo que mais lhe doeu “não foi a violência das pessoas más, mas o silêncio dos bons”.

Ele foi dominicano e, ao ser desligado da Ordem, manteve seus votos sacerdotais. No entanto, é um “padre errante”, sem paróquia, pois não encontrou bispo que o acolhesse até hoje. Inglês, mora no México atualmente.

Alison escreveu um artigo na primeira pessoa para a edição em espanhol da Newsweek veiculado nesta segunda (17) e traduzida para o português pelo Cepat. Escreveu como sacerdote e teólogo, conhecedor da cultura e pensamento evangélicos  -seu pai foi deputado evangélico pelo Partido Conservador na Inglaterra e sua mãe, igualmente evangélica, ajudou a organizar diversas marchas “a favor da família” mas, na verdade, contra as pessoas LGTB.

Leia o artigo a seguir:

Meus pais ajudaram a organizar uma marcha em Londres, a favor da família, em 1971. Foi parecida com aquelas que ocorreram no México e na Colômbia, no ano passado. Eram manifestações massivas de repúdio ao movimento em favor da regularização da vida das pessoas LGBT, seja pela descriminalização da homossexualidade, seja, mais recentemente, pela chegada do casamento civil igualitário.

Agora, coube-me ir em sentido contrário ao de meus pais: falar pessoalmente, como teólogo e sacerdote católico, que nesse caso também é um homem gay sem armário, ou fora do “closet”, a respeito das marchas e seus efeitos. Tocou-me dar este testemunho diante de vários públicos, católicos e ecumênicos, na Colômbia, no ano passado, e no México, nesta Quaresma.

Por que levantar a voz? Em primeiro lugar, porque nem meu pai, um deputado evangélico da linha do Partido Conservador, nem minha mãe, que participou na organização da marcha britânica, sabia que o menino que tinham em casa era gay. Eu, sim, acabava de aprender no colégio, aos nove anos, que era um queer – joto ou puto. Mas, caso eles tivessem sabido, é de se duvidar que teriam mudado de parecer.

Continue lendo

Ceia do Senhor: Papa com os descartados, nas prisões; e o Pacto das Catacumbas

Em 2015, Francisco foi à prisão de Rebibbia, em Roma, onde celebrou a Ceia do Senhor e lavou os pés de presos e presas -rompendo com uma prática machista católica que reservava o rito apenas aos homens. Agora, em 2017, o Papa estará na prisão de Paliano.

Começa nesta quinta-feira à noite (13) com a celebração da Ceia do Senhor o Tríduo Pascal, quando os cristãos católicos e de outras denominações vivenciam o momento culminante de sua fé. Na liturgia, do Evangelho de João (Jo 13, 1-15), recorda-se a última refeição de Jesus com seus discípulos, símbolo da instituição da Eucaristia, marcada também pelo rito do Lava-Pés, momento em que Ele ajoelhou-se  e lavou os pés de todos os amigos.

O Papa viverá este momento novamente em uma prisão, a de Paliano, ao sul de Roma, onde celebrará a missa e lavará os pés dos presos. Em entrevista publicada nesta quinta pelo jornal italiano La Reppublica, Francisco mais uma vez explicou a essência do cristianismo simbolizada pelo rito da Ceia e do Lava-Pés:  “(é preciso) ir, chegar perto do último, dos marginalizados, dos descartados. Quando estou na frente de um prisioneiro, por exemplo, eu me pergunto: por que ele e não eu? Eu mereço mais do que ele que está lá dentro? Porque ele caiu e eu não? É um mistério que me aproxima deles “– leia a íntegra da entrevista aqui.

Para bem viver a Ceia do Senhor em sua plenitude numa Igreja que em 2017 busca se re-aproximar de suas origens, é oportuno recordar uma eucaristia símbolo desta busca: aquela que reuniu 40 bispos e padres participantes do Concílio Vaticano II. Ela foi celebrada numa basílica dentro da Catacumba de Domitila em 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.

Naquela noite, os 40 assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver.   Dos 40, oito eram brasileiros: dom Helder Câmara, dom Antônio Fragoso (Crateús-CE), dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho (Afogados da Ingazeira-PE), dom João Batista da Mota e Albuquerque (Vitória- ES), padre Luiz Gonzaga Fernandes (sagrado bispo auxiliar de Vitória dias depois),dom Jorge Marcos de Oliveira (Santo André- SP), dom Henrique Golland Trindade  (Botucatu-SP) e dom José Maria Pires (da Arquidiocese da Paraíba).

Os signatários assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata (práticas ainda correntes na hierarquia católica), abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses.

Leia a íntegra do Pacto das Catacumbas e admire-se:

“Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

– a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

– a requerer  juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

– esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

– suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito do que uns chefes segundo o mundo;

– procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

– mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS.”

 

Cardeal “contra” da Cúria romana ataca o Vaticano II

O cardeal Robert Sarah: contra o Papa e o Vaticano II

Os líderes do movimento católico conservador de oposição ao Papa Francisco subiram mais um degrau em sua escalada: o cardeal Robert Sarah, nada menos que o prefeito da Congregação do Culto Divino, responsável pela liturgia na Igreja, atacou abertamente o Concílio Vaticano II. Para ele, o rito da missa estabelecido pelo Vaticano II, que retomou os aspectos centrais das celebrações do primeiro século do cristianismo, seria responsável por “desastres, devastações e guerras”.

O concílio, realizado entre 1962 e 1965, renovou a Igreja Católica, que estava estagnado no século XIX (e anteriores) quando o século XX já ia para além da metade. Mais de 2 mil padres conciliares convocados por João XXIII reuniram-se em Roma e buscaram romper com os paradigmas de fechamento, apego à riqueza, insensibilidade ao sofrimento e organização monárquica que marcavam a Igreja desde então. Ainda durante os trabalhos do Concílio, os hierarcas encastelados na Cúria romana, iniciaram o trabalho de demolição de suas decisões, e tiveram enorme espaço durante os papados de João Paulo II e Bento XVI.

O cardeal ganense Sarah é um dos principais líderes da campanha contra Francisco, ao lado do estadunidense Raymond Burke. Em a carta uma conferência litúrgica que advoga a restauração da missa tridentina (rezada em latim e com o padre de costas para as pessoas),  o prefeito do Culto Divino com que “rasgou a fantasia” e investiu contra o rito da missa: “não podemos fechar os olhos aos desastres, devastações e guerras que os promotores modernos de uma liturgia viva causaram ao remodelar a liturgia da Igreja de acordo com suas ideias”.

A atacar os 2 mil padres conciliares, o cardeal restauracionista mantém a perspectiva de seus aliados, que consideram “tradição” na Igreja tudo o que foi feito no segundo milênio  do cristianismo, especialmente as decisões do Concílio de Trento (1545/1563), ignorando a tradição oriunda das primeiras comunidades cristãs, deturpadas ao longo dos séculos e cuja originalidade do Vaticano II buscou resgatar.

O alvo de Sarah na verdade é o Papa Francisco e um trecho de sua carta é revelador: “muitos creem e declaram em alto e bom som que o Concílio Vaticano II ocasionou uma verdadeira primavera na Igreja (…). Com efeito, um número cada vez maior de líderes eclesiais consideram esta ‘primavera’ como um rechaço, uma renúncia à sua herança milenar”. Para ele, há uma “tendência sacrílega”  na Igreja depois do Vaticano II. O uso da expressão “primavera” não foi casual, pois é a palavra corrente para definir o clima na Igreja com a eleição de Francisco.

Os “contras”, que buscam encontrar uma forma de derrubar um Papa querido em todo o mundo –exceto por eles e seus aliados- dão agora um salto no escuro, pois traçam um sinal de igualdade entre  Francisco e o Vaticano II: será uma estratégia eficiente investir contra um homem identificando-o ao evento que marcou o ingresso da Igreja na modernidade?

O confronto está cada dia mais agudo.

[Mauro Lopes com Religion Digital]

Francisco dormirá num presídio: somos capazes de perdão?

O Papa irá a Milão, no norte da Itália, no próximo sábado (25). O maior destaque de sua viagem será a visita ao presídio de San Vittore que, inaugurado em 1879, sofre atualmente do mesmo drama das prisões brasileiras: superpopulação. Francisco irá se encontrar com os 400 presos, almoçará com eles e pretender dormir um pouco depois do almoço (a sesta) na cela do capelão do cárcere. Toda a visita acontecerá sob o tema do perdão.

O gesto do Papa no próximo sábado é de alto impacto. Ele irá, mais uma vez, ao encontro daquilo que boa parte da humanidade considera escória. Como diz o lugar comum da classe média conservadora brasileira, “bandido bom é bandido morto”. É a estes que o Papa dedicará sua atenção e afeto, em apoio à atividade anônima e cotidiana da Pastoral Carcerária do Brasil e suas similares no mundo.

“Se o Senhor me perdoou tanto, quem sou eu para não perdoar?”, perguntou  o Papa, em sua homilia na missa matinal desta terça (21) na capela de Santa Marta, no Vaticano. O perdão é um tema central do papado de Francisco e se dirige ao ser humano em todas as condições em que se encontra: no cárcere, nas famílias desfeitas, às múltiplas condições de marginalização pela sociedade. É um tema que antagoniza o Papa a amplos segmentos conservadores do catolicismo em particular e do cristianismo como um todo, cujo foco de atenção é na condenação, e não no perdão.

Este foi tema de um instigante artigo do teólogo italiano Andrea Grillo sobre o pontificado de Francisco, publicado poucos dias atrás: “A Igreja redescobre que pode realmente perdoar e caminhar. Esse caminho e esse perdão, finalmente reconhecidos como possíveis, são, para poucos, um erro imperdoável; para muitos, a consolação preciosa que abre uma nova temporada.”

É este Papa, tão estranho ao mundo enclausurado da Cúria romana, que recoloca a Igreja no caminho do encontro com a pessoa tal como ela é. O teólogo Grillo captou a percepção da hierarquia católica sobre um Papa que lhe é de fato tão estranho; ela entendeu desde o primeiro instante: “o Papa não mora mais aqui. Permanece periférico, mesmo estando no centro. Trabalha com a Cúria, mas não faz parte dela. Permanece extraterritorial, incontrolável, indomável. Presta serviço, mas permanece livre”.

Livre, ele vai ao encontro dos que estão aprisionados: “Estive preso e vieste me visitar” –a prescrição de Jesus no capítulo 25 do Evangelho de Mateus é uma das escolhas decisivas dos que pretendiam e pretendem segui-lo. Com os encarcerados, Francisco irá conversar, “um a um”, segundo o porta-voz vaticano David Milani, comer, visitar suas celas e partilhar humanidade.

[Mauro Lopes, com Religion Digital e IHU Unisinos]

Presidente da CNBB diz que entidade apoia o Papa, mas evita polêmicas

O cardeal dom Sérgio Rocha, presidente da CNBB, na sede da entidade. Foto de Wilson Dias, Ag. Brasil

Dom Sergio da Rocha, cardeal Arcebispo de Brasília e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) concedeu entrevista exclusiva ao Caminho pra Casa na última sexta-feira (17). Ele afirmou que a entidade tem “manifestado reiteradamente a nossa comunhão sincera, apoio e solidariedade ao Papa Francisco, pessoalmente e por mensagens”. Mas evitou qualquer comentário sobre a campanha dos segmentos restauracionistas (expressão do Papa) contra Francisco, limitando-se a dizer que ele “tem continuado com firmeza e serenidade” e “não se deixa abalar por críticas, nem recua”. Sobre o pontificado de Francisco, o presidente da CNBB declarou: “As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral”.

Ele garantiu que a CNBB tem “procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade” e que a exortação apostólica sobre a família, centro dos ataques conservadores ao Papa, será examinada na próxima Assembleia Geral da entidade.

Dom Sérgio revelou que haverá um posicionamento oficial da CNBB sobre a reforma da Previdência Social. Ele evitou qualquer crítica direta ao governo Temer, mas pontuou que a Igreja opõe-se a qualquer reforma que não assegure “o direito dos pobres”.

Leia a íntegra da entrevista, na qual ele fala também sobre a perda de fiéis pela Igreja Católica no país, a proposta de ministros e ministras leigos poderem presidir as missas, a Campanha da Fraternidade 2017, sobre biomas brasileiros e defesa da vida”

Caminho pra Casa – Como o senhor avalia o pontificado de Francisco até o momento?

Dom Sérgio da Rocha – O Papa Francisco tem nos ensinado a ser uma “Igreja em saída” ao encontro das ovelhas feridas e errantes; uma Igreja misericordiosa e acolhedora, casa de portas abertas; uma Igreja servidora, que vive da simplicidade. As palavras e gestos do Papa Francisco tem sido comoventes. Ele tem nos oferecido textos belíssimos e profundos, de grande repercussão, como a Evangelii Gaudium e a Amoris Laetitia. Ele ensina, não apenas por aquilo que fala ou escreve, mas por seus gestos concretos, de grande riqueza simbólica, a começar da escolha do nome “Francisco”; mas também a sua preocupação com a situação trágica dos refugiados e imigrantes, o seu empenho em favor da paz no mundo, a defesa dos pobres, o “cuidado da casa comum”, dentre tantos outros aspectos. Temos muito ainda a aprender com ele!  O seu jeito simples, acolhedor, paterno e fraterno tem nos motivado a redescobrir valores essenciais da vida cristã, especialmente da vida da Igreja, como a simplicidade e a misericórdia. As tão esperadas Reformas da Cúria vão acontecendo, mas reforma maior que ele tem nos estimulado é de natureza espiritual e pastoral, a reforma do coração e da ação evangelizadora. Ele nos motiva a caminhar!

A Igreja vive um momento de intensa agitação em torno da exortação Amoris Laetitia. O Papa abriu a questão da comunhão dos divorciados em segunda união ao discernimento das igrejas locais. Qual a sua posição como pastor sobre o assunto? A CNBB pretende posicionar-se?

Desde o primeiro momento da publicação, temos procurado acolher a Amoris Laetitia na sua totalidade. O próprio Papa nos alerta para não reduzi-la a um aspecto ou a uma parte do texto. O documento ressalta o matrimonio e a família como dom; por isso, já no seu título aparece a “alegria do amor” na família. Matrimônio e família não podem ser reduzidos a problemas. A ação pastoral da Igreja deve ser ampla e continuada: antes do matrimônio, na sua celebração e durante a vida conjugal e familiar; não apenas nos momentos de crise. Mas, é preciso dar especial atenção aos casais e famílias que mais sofrem, sobretudo àqueles que não conseguiram viver o ideal conjugal proposto pela Igreja. O famoso capítulo VIII deve ser inserido e compreendido no conjunto. Não se trata de fazer uma nova regra geral canônica; o próprio Papa Francisco alerta a respeito disso. O caminho a ser seguido é o da misericórdia e do discernimento pastoral. A proposta é “acompanhar, discernir e integrar”, conforme o próprio título do capítulo VIII. Por isso, a CNBB não pretende elaborar novas normas a respeito. Quer ajudar os Bispos e Dioceses a acolherem e a aplicarem a Amoris Laetitia, de modo mais fiel possível. Por isso, foi formada uma Comissão para refletir a respeito dessa Exortação Apostólica Pós-Sinodal. Esperamos estar aprofundando o assunto na próxima Assembleia Geral da CNBB [que acontece entre 26 de abril e 4 de maio de 2017] .

Continue lendo

Papa: prefácio para livro de um homem abusado na infância

Daniel Pittet, vítima de um padre pedófilo na infância, lançou um livro relatando a história com prefácio do Papa

O Papa Francisco escreveu o prefácio do livro Eu o perdoo, padre, do suíço Daniel Pittet, no qual ele relata os abusos sexuais que sofreu na infância por um padre pedófilo e todos o drama e traumas que o crime continuado lhe causou. Francisco escreveu é dever da Igreja tratar estes casos com “extrema severidade” e indicou, ainda que indiretamente que o clericalismo está na raiz da rede de proteção que se prolongou por décadas aos abusadores, desde as primeiras denúncias nos anos 1970.

No texto, o Papa fez menção à necessidade de punição aos bispos e cardeais que protegeram e acobertaram os abusadores e ao ” muro de silêncio que sufocava escândalos e sofrimento”. O espírito clerical/conservador, que advoga uma “pureza” e “santidade” absolutas da Igreja, teceu ao longo dos anos uma rede de proteção, cumplicidade e acobertamento dos padres e religiosos abusadores. Na semana passada, um advogado declarou à Real Comissão que está à frente das investigações dos casos de abusos na Austrália, que o próprio Papa João Paulo II recebeu relatórios sobre casos de abusos  e nada fez para investigar e punir os culpados (veja aqui)

bispos ou cardeais, que os tenha protegido, como já aconteceu no passado.

O Papa escreveu ainda que os padres abusadores cometeram atos de “monstruosidade absoluta” e questionou: “Como pode um sacerdote a serviço de Cristo e de sua Igreja causar tanto mal? Como pode alguém ter dedicado sua vida para levar as crianças a Deus, e ao final, devorá-las no que chamei de “um sacrifício diabólico”, que destrói tanto a vítima quanto a vida da Igreja?” Em seguida, Francisco mencionou os casos de suicídio de crianças e jovens que se seguiram aos abusos.

[Mauro Lopes com Vatican Insider]

Leia o texto integral do prefácio do Papa Francisco (em tradução livre de minha responsabilidade):

Continue lendo

Pe. Zezinho: apoio ao Vaticano II e ao Papa e crítica à restauração conservadora

Padre Zezinho: não à restauração conservadora

Padre Zezinho, scj (da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, os dehonianos) é uma referência na Igreja brasileira. É compositor e cantor desde os anos 1960, muito antes da moda dos “padres cantores” e autor de centenas de músicas, muitas delas que animam as missas em todo o país e no exterior, como Minha Vida Tem Sentido, Daqui do Meu Lugar, Há um Barco Esquecido na Praia, Um Certo Galileu ou Maria de Nazaré.

Ele lançou em sua página no Facebook neste domingo (12) uma vigorosa denúncia dos “restauracionistas”, na mesma linha de recente conversa do Papa Francisco com superiores de ordens e congregações religiosas (aqui).

Padre Zezinho manifestou espanto com “centenas de seminaristas, freiras e padres e alguns cardeais [que] querem restaurar alguns postulados e alguns costumes de antes de 1965” sendo que “muitos deles sequer leram os mais de 100 documentos nascidos durante e depois do Concílio. Mas querem de volta os trajes, as práticas devocionais e as pregações de antes de 1965. E alguns querem restaurar as liturgias e as missas de antes de 1965.”

O sacerdote afirmou estar “muito lúcido aos 75 anos de idade e 50 de sacerdócio”, alegrou-se por ter vivido toda a mudança do Vaticano II e poder “testemunhar o que vi. Nossa igreja ficou mais católica e é isso que alguns não aceitam”.

Leia o texto de padre Zezinho:

Continue lendo

Papa reconhece corrupção no Vaticano e denuncia atmosfera mundana e principesca

O Papa Francisco reconheceu pela primeira vez que “há corrupção no Vaticano”, numa reunião a portas fechadas, em 25 de novembro, com 140 superiores de ordens e congregações religiosas. O diálogo será publicado na revista dos jesuítas, a Civilta Cattolica, que chega à edição 4.000. A declaração atinge diretamente os conservadores, que governaram a Cúria romana nos últimos 35 anos, durante os papados de João Paulo II e Bento XVI. No mesmo encontro, Francisco voltou a criticar duramente o clericalismo e disse que é preciso destruir o “ambiente nefasto” da “atmosfera mundana e principesca” de algumas estruturas eclesiásticas.

Na reunião, Bergoglio admitiu que nas estruturas da Igreja “pode ​​ser encontrada uma atmosfera mundana e principesca.” É a primeira vez que o Papa apontou diretamente a presença de corrupção no interior das muralhas do Vaticano e admitiu que esta questão foi um dos temas de sua eleição:  “Em conversas pré-conclave falamos de reformas. Todos as queriam, porque há corrupção no Vaticano, mas eu vivo em paz.”

Continue lendo

Católicos conservadores idolatram Trump e atacam Francisco abertamente

Cartazes em Roma: campanha aberta contra o Papa

Grupos católicos conservadores ao redor do mundo realizam um movimento significativo: idolatram o agora presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enquanto aprofundam seus ataques indiretos e diretos ao Papa Francisco, com virulência cada dia maior. Para isso, utilizam publicações, sites, blogs, numa rede que reúne leigos, leigas e clérigos. A Igreja, na concepção deles, fala pela voz do cardeal que se apresenta como face pública da oposição, Raymond Burke.

Trump com Salvini, o líder da xenófoba Liga Norte, os interlocutores de Burke e dos “contra”

Nos últimos dias, os “contra” realizaram dois movimentos significativos, um que explicita ainda mais sua oposição pública e agressiva contra Francisco e outro que indica uma articulação destes grupos com a extrema direita alinhada a Trump na Europa: 1) pregaram cartazes ofensivos ao Papa em vários bairros de Roma, de maneira clandestina, mas cujo conteúdo de ataques a recentes decisões do Papa na Ordem de Malta e contra a corrupção em institutos e católicos; 2) o cardeal Burke manteve na última quinta (2) uma discreta e longa reunião com Matteo Salvini, líder da Liga Norte, partido de extrema direita xenófobo italiano, que antagoniza-se abertamente com o Papa e é um dos aliados preferenciais de Trump na Europa.

O júbilo destes grupos com a eleição de Trump está vinculado a dois eixos do novo governo:

  • “Defesa da vida” – sob esta expressão que é chave para o governo Trump e os conservadores cristãos está toda a gama de pensamento e iniciativas de fundo “moralizador”, como a negação ao direito de as mulheres poderem abortar; a defesa da mulher “bela, recatada e do lar”; discriminação agressiva contra qualquer relação homoafetiva e negação dos direitos das pessoas homossexuais, bissexuais, transexuais, transgêneros e travestis; censura a qualquer iniciativa educacional que não veículos os valores de uma suposta “moral cristã”.
  • Supremacia cristã contra “infiéis”, um dos bordões de Trump. Esta bandeira tem levado tais grupos a manifestarem apoio  às medidas do republicano contra os refugiados. A reunião de Burke com Salvini indica uma adesão pública e uma articulação política cada vez maior destes grupos com os políticos de direita xenófobos. A lógica da “supremacia cristã” representa um deslocamento amplo dos conservadores católicos que, com a perda de espaço da Igreja ao longo da segunda metade do século XX, estão aos poucos abandonando o projeto de hegemonia católica, hoje completamente irrealizável, e substituindo pela ideia da hegemonia “cristã” em aliança com os evangélicos fundamentalistas, tendo como plataforma comum a cruzada moralizadora e discriminatória. É curioso que os conservadores defendem o “ecumenismo moralizador” sob a liderança do presbiteriano Trump enquanto hostilizam as iniciativas ecumênicas de Francisco na direção dos luteranos, por exemplo, considerando-as como uma  “rendição” ao pensamento de Lutero.

Continue lendo