Bispos retomam tradição da Igreja brasileira e saem em defesa do Rio São Francisco

Dez dos onze bispos do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco

Será lançada neste Primeiro Domingo do Advento (3) a Carta da Lapa, fruto do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco, reivindicando uma moratória de 10 anos para a região do cerrado e um Repouso Sabático para os principais biomas brasileiros. O texto é assinado por 11 dos 16 bispos das dioceses da Igreja Católica banhadas pelo rio. Firmado “em comunhão com o Papa Francisco e inspirados pela carta encíclica Laudato Sí”, denuncia a crise do rio por seu uso e de seus afluentes a serviço dos interesses econômicos dos ricos.

A principal decisão do encontro foi a “defesa do Repouso Sabático para os nossos biomas a fim de que possam se reconstituir. Particularmente, uma moratória para o Cerrado, por um período de dez anos. Durante esse período não seria permitido nenhum projeto que desmate mais ainda o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, biomas que alimentam o Rio São Francisco e dele também se alimentam.”

O texto (veja a íntegra a seguir) é mais um expressivo símbolo da renovação da Igreja no Brasil, à luz da primavera de Francisco, e a retomada do espírito atualizado da Teologia da Libertação, depois dos quase 40 anos de perseguições.  Em sua carta, os bispos qualificam, à luz da primavera de Francisco, qual Igreja reapresenta-se à sociedade: “Igreja em saída”, “Igreja missionária”, “Igreja Profética”, “Igreja solidária”.

O encontro aconteceu nos dias dias 21 e 22 de novembro, no Centro de Treinamento de Lideres (CTL), em Bom Jesus da Lapa, o Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do São Francisco, como resultado da recente Assembleia do Regional Nordeste III da CNBB. O local  foi escolhido  pela influência do Santuário do Bom Jesus da Lapa, que fica às margens do Rio São Francisco, e reúne todos os anos milhares de romeiros, grande parte deles ribeirinhos que vivem e dependem das águas do rio da integração nacional (ao lado foto de uma das missas celebradas durante o encontro, na capela do Santuário). Participaram bispos da Bahia, Pernambuco, Sergipe e de Minas Gerais -veja a lista ao final.

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Waackismo: racismo camuflado à brasileira

Leia o artigo do Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê neste Dia da Consciência Negra. Ele é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje.

A íntegra do artigo:

Padre Gegê

“Não caçamos pretos no meio da rua, a pauladas… Mas fazemos o que talvez seja pior”. (Nelson Rodrigues)

 

 

 

Inicio a reflexão sobre racismo/waackismo com a sincera e corajosa análise de Nelson Rodrigues, que, de algum modo, sumariza todo o texto. Escreve o branco dramaturgo. Repito: branco: “A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco do Brasil um dos mais racistas do mundo”.

Na linha da obra de Gabriel Garcia Marques, pergunto: Seria a vida do negro no Brasil, Crônica de uma morte anunciada?

Crio o termo “waackismo” (termo alusivo ao jornalista da Globo, William Waack) como expressão adequada para a caracterização do racismo à brasileira que é, a despeito do seu sinistro mascaramento, real e global. Waackismo, em nossa reflexão, é a engenhosa produção patenteada da ideologia colonial-escravista. Reitero, waackismo é tradução fidedigna e reeditada do racismo à brasileira. Maior prova de sua eficácia é quando um cidadão comete um crime de racismo e, pelo simples fato dele negar o ato, a sua palavra valer mais que a evidência do fato. Como uma sociedade com mentalidade escravocrata poderia contradizer a palavra de um branco? Faz parte de todo sistema de dominação condenar a vítima e condecorar carrascos; crucificar Jesus e soltar Barrabás. Nessa perspectiva, não me surpreenderia se o jornalista Wiliam Waack pedisse indenização a cada negro existente no mundo por um, supostamente, negro, ter perturbado a “paz” branca. Também não me surpreenderia se obtivesse um número significativo de veneráveis cúmplices e aguerridos defensores.

À guisa de introdução, deixo uma questão de ordem filosófica, isto é, do pensamento e da reflexão: o racismo/waackismo no Brasil tipifica a “banalidade do mal”, segundo acepção da pensadora Hannah Arendit ou a maldade produzida e justificada a partir do naturalizado e banalizado? Se a segunda posição estiver mais próxima da verdade (e é essa formulação que sustento) o racismo/waackismo constitui o modus operandi da maldade/violência colonial-escravista de ontem e de hoje. Dizendo de outro modo, no Brasil se inventou, historicamente, uma forma engenhosa, sutil e camuflada de subalternizar, violentar, ferir, enxotar, segregar e inferiorizar a população negra.

Essa sofisticada e macabra forma de violentar dispensa quase sempre, “pauladas em praça pública”, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, ou pelourinhos, mas isso não a faz menos perversa, menos traumática e menos dolorosa. Desse modo, independente da forma, no Brasil de ontem e de hoje, no que se refere ao negro/negra, se mata com a intenção de matar — física, moral, social ou psicologicamente. Entender, pois o racismo/waackismo no Brasil e suas escabrosas e nefastas consequências (inclusive à saúde da população negra) implica entender que uma agressão psicológica ou moral pode produzir mais e irreversíveis danos a uma pessoa ou coletividade que um homicídio ou chacina.

Singular atenção merece, a meu juízo, as pesquisas sobre o trauma (sofrimento) da população negra em virtude da escravidão que há quatro séculos alimentou a sociedade brasileira, inclusive a Igreja. Não é possível a uma sociedade que se mostra sensível ao bullying de seus filhos e filhas, não se permitir pensar nas consequências históricas e nos sofrimentos morais e psicológicos dos descendentes de milhões e milhões de seres humanos, que durante quatro séculos foram tratados como animais ou peças no projeto escravista. Waackismo é sim forma de genocídio (mais simbólico que físico), forma sinistra e, por vezes cordial, mas com poder destrutivo. Waackismo é o sapato branco que, desde a escravidão, foi treinado a pisar pele e alma negras, na surdina e no silêncio, como se fossem baratas…

O waackismo tem um potencial sádico capaz de (sofisticadamente) triturar, desqualificar, inferiorizar, invisibilizar e segregar; e o faz, em geral, não às gargalhadas, mas mediante sorriso contido… Às escondidas! Ele não se manifesta apenas nos “deslizes pessoais” (conforme o caso do jornalista em questão); o waackismo está nas mentes, nas praças, nos clubes, nos bancos, nos livros didáticos (ou não), nas igrejas, nas escolas, nas mídias, nas redes, nas praias etc… Quando ligamos a TV e não vemos negros, quando entramos numa universidade e não vemos negros, quando contemplamos os altos cargos de nossos país e não encontramos a população negra, lá está o waackismo sorridente.

Em se tratando de Brasil, o waackismo tem o “dom” da ubiquidade; é produto da dissimulação nacional — 100% Global! Em resumo, o racismo/waackismo no Brasil é mais invisível que visível, mais silencioso que audível; é mais nas entrelinhas que nos textos, porém, quando o latente se torna patente (como o caso do jornalista Willian Waack) toda sociedade (negros e brancos) deve se engajar para que se puna, segundo a Lei, a fim de que direitos inalienáveis sejam garantidos e o Brasil cresça rumo a uma verdadeira e efetiva democracia racial. No caso concreto do jornalista, não está em discussão o conjunto de sua vida, tampouco se massacra negro diuturnamente. Estamos diante de um fato ou um ato público de racismo, e é sobre ele que nos debruçamos, sabedores que ele (o ato) esconde/revela um sistema e uma cultura vincada e estruturalmente racista.

Abdias Nascimento, objeto de minha tese de doutorado na PUC-SP, é figura icônica no que se refere ao desmascaramento do “mito da democracia racial no Brasil”, mito segundo o qual o Brasil seria a terra do respeito e da igualdade — um paraíso racial. Abdias Nascimento, assim como qualquer negro no Brasil, desde cedo sentiu em sua pele a dor de pertencer a uma sociedade ambígua, dissimulada e perversa com a população negra. Para Abdias racismo é o arame farpado” da sociedade.

No ano de 2016 foi relançada pela Editora Perspectivas sua obra atualíssima intitulada sugestiva e acertadamente “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. Florestan Fernandes prefaciando a edição brasileira afirmou a contribuição que o livro deu por usar o conceito de genocídio aplicado a situação de matança física e simbólica do negro no Brasil. Segundo Florestan, “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora”. E pergunta: “O que se fez e se continua a fazer com o negro e com os seus descendentes merece outro qualitativo”?

No prefácio da edição nigeriana, Wole Soyinka advertiu, sem evasiva, que “a expressão ‘genocídio’ chocará, e o faz porque demole o tabu ou mito intocável da ideologia do paraíso racial”.

Sublinhou Abdias: “Devo observar que este assunto de ‘democracia racial’ está dotado, para o oficialismo brasileiro, das características intocáveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questão fechada, terreno proibido sumamente perigoso”. E ainda: “Ai daqueles que desafiam as leis deste segredo!”. Desse modo, qualquer pessoa, sobretudo, negro, que denunciar o racismo brasileiro está condenado a ser acusado de fazer racismo às avessas ou de negro recalcado. Contudo, enfatizou Abdias: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país”.

Desse modo, o caso do jornalista ajuda a compreender o racismo no Brasil, o debate ajuda na construção de novas mentalidades e a punição na forma da Lei ajuda ao Brasil a curar suas patologias mascaradas. Minimizar e não punir o ato significaria legitimar o sistema, o que nos levaria a concluir que no Brasil os brancos gozam de uma espécie de “imunidade racial” — o que seria desastroso, não apenas para os negros, mas para o processo democrático e civilizatório, uma vez que tratar do racismo (e de quaisquer outras violações dos Direitos Humanos) diz respeito a toda sociedade. Escreve Hannah Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter Direitos”.

A tua raça de aventura quis ter o céu, a terra, o mar / Na minha há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar… / A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar / A minha não quer ir nem vir / A minha raça quer passar!”. (Cecília Meireles)

Engajada, Feliz e Esperançosa Semana Preta da Consciência Negra!

 

Um país chamado Canudos, 120 anos depois

Mulheres e crianças aprisionadas em Canudos; homens foram todos mortos

Artigo especial[1] do cientista social Ruben Siqueira, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recorda e atualiza a luta de Canudos, que até hoje é a maior mobilização do exército brasileiro: contra o povo. Nem mesmo a Guerra do Paraguai ou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra superaram o envolvimento de tropas como no combate à rebelião liderada por Antônio Conselheiro. A violência, pública e privada, continua uma marca da vida nacional, multiplicam-se as mortes nas cidades e nos campos, o Brasil sendo hoje o mais violento país do mundo sem guerra declarada, uma guerra contra os pobres.

“A mensagem de Canudos fica cada dia mais atual e necessária. Atravessa os tempos e faz seguidores a ousadia dos conselheiristas, de recriar, nas entranhas do latifúndio respaldado pela República, a comunidade dos primeiros cristãos, onde a única lei era a do amor, pela qual — ainda que entre eles houvesse comerciantes bem-sucedidos — os bens eram partilhados em benefício de todos. A bandeira fincada para sempre no coração do Brasil continua a atrair os pobres e desvalidos. Porque lhes ensina a única lição possível: a eles só resta resistir e insistir na vida, contra os poderes da terra, porque — dizia Antônio Conselheiro — ‘só Deus é grande’. É essa fé, de um povo que não separa religião e vida, crença e luta, que move ainda hoje centenas, milhares, milhões de brasileiros pelos vastos sertões deste latifúndio chamado Brasil, a lutar pela terra e pelo direito à vida digna na terra.”

Leia o artigo na íntegra:

Canudos virou moda há 20 anos, em seu centenário. Houve enorme expectativa à época com o lançamento do filme de Sérgio Rezende, Guerra de Canudos (assista aqui), que foi, rodado na região. Teses, livros, reportagens e seminários foram feitos para a celebração dos 100 anos e continuaram a ser produzidos, trazendo releituras do episódio, discutindo aspectos novos, alimentando a infindável polêmica. O governo da Bahia criou no cenário da guerra o Parque Estadual de Canudos, onde uma equipe da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) realizou estudos de arqueologia histórica. Neste outubro de 2017, vários eventos, sobretudo promovidos por movimentos e entidades sociais, estão acontecendo na pequena cidade herdeira da Canudos conselheirista.

A atualidade de Canudos

120 anos é data por si mesma expressiva, seja do que for. Mas, em Canudos, o quê exatamente se está comemorando? O que tem esse episódio, o que ele encerra — esconde e revela — que atrai tantas atenções?

É que em Canudos, ontem e hoje, o Brasil se vê face a face consigo mesmo, encontra seu desencontro. Canudos não está na memória nacional apenas como uma chaga, a mais ignominiosa das lembranças do passado, onde e quando se detonou toda a carga de violência que mal se esconde sob o manto roto da decantada cordialidade brasileira, praga ideológica que sedimenta a assimetria das relações sociais. Está também como repetição, reincidência, contínuo revisitar. Está como matriz da identidade brasileira e chave de explicação do País e de seu infortúnio como nação moderna, que nunca alcançou de fato a modernidade. Está, pois, como atualidade, contemporaneidade.

Uma primeira prova disso? Ao implantar-se o Parque Estadual de Canudos, por ocasião do centenário, famílias de agricultores residentes na área, muitas delas descendentes dos antigos canudenses, tiveram que resistir à implantação das cercas divisórias do parque porque estas inviabilizavam o criatório de cabras, sua principal fonte de subsistência… Talvez até quisesse o governo da Bahia que se retirassem de vez, para não estragar a composição nostálgica e folclórica do quadro… Ainda bem que os cientistas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não embarcaram nessa…

Canudos levanta questões que incomodam a má consciência nacional. Por que mais da metade do efetivo e todo o aparato militar do exército à época foi mobilizada em cinco expedições contra pobres e frágeis camponeses, armados de poucas espingardas e muita fé? Por que ali, numa das regiões mais secas do País, uma multidão de 25 mil destes deserdados encontrou um lugar e construiu, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, a maior cidade do interior do Brasil à época?

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Um padre na Amazônia e o Sínodo: povos indígenas precisam ir a Roma

O padre Luis Miguel Modino (no destaque) e o Rio Negro

Luis Miguel Modino é um padre espanhol que deixou seu país para o desafio de ser missionário no Brasil no século 21. Hoje é pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma das maiores do Brasil, com 293 mil quilômetros quadrados. É o coração da Amazônia, no Estado do Amazonas. Na diocese mais de 90% são indígenas; são 23 povos indígenas e 18 línguas, sendo  o município de São Gabriel da Cachoeira o único a ter quatro línguas reconhecidas como oficiais.

Ele é voz mais que autorizada a falar sobre o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, que reunirá em 2019 bispos de todo o mundo, com especialistas e assessores e, espera-se, representantes dos povos indígenas da região. “Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas”, diz o padre Modino. Para ele, a surpreendente convocação do Sínodo “pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia” a partir da escuta “do grito da floresta e seus povos” –leia a entrevista dele ao Caminho Para Casa, concedida inicialmente há pouco mais de uma semana e completada neste domingo depois da surpresa do Sínodo(15).

Para o sacerdote espanhol apaixonado pelo Brasil e a Amazônia, o Sínodo é uma “oportunidade” que a Igreja da região “não pode perder”. Alguns dos pontos da agenda do Sínodo, segundo ele, devem ser as “questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas”. Duas questões cruciais para o Sínodo, na visão de Modino: 1) “a Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe”; 2) “Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico e que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós.”

Com 46 anos de idade, Modino está no país desde os 35, em 2006. É padre diocesano de Madri e missionário Fidei Donum, e coordenador para o Brasil da Obra de Cooperação Sacerdotal para Hispanoamérica (OCSHA), organismo da Conferência Episcopal Espanhola.  Durante nove anos esteve na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, antes de instalar-se em São Gabriel da Cachoeira.

Uma prática de seu trabalho pastoral são as itinerâncias, visitas que ele realiza –de barco- às comunidades da diocese, à beira dos rios Negro e Xié, que duram em geral uma semana. As fotos que acompanham a entrevista são todas de Modino, durante as breves viagens. Ele é jornalista, correspondente no Brasil de Religión Digital, o mais relevante site católico progressista em língua espanhola do mundo, com mais de três milhões de visitas/mês.

É uma união interessante essa, a do sacerdócio com o jornalismo: “Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador, penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos e das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.”

Leia a seguir a entrevista com Luis Miguel Modino:

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Salve Negra de Aparecida em seus 300 anos

Salve Negra de Aparecida cheia de graça e coragem.

Salve Mãe de Jesus e de Tiago, José, Simão e Judas. E de João e Sebastiana e tantas Marias, de Paulo, Pedro, Irene, Sandra, Madalena, Severina…

Salve Maria de Aparecida, que desatou as amarras dos altares ricos.

Salve Mulher de Aparecida, que se instalou nas favelas, nos cortiços, nas periferias, nas ruas.

Salve Presença de Aparecida, que acolhe seus filhos e filhas, homens, mulheres, gays, lésbicas, trans, queer, bissexuais, assexuais, celibatários e celibatárias, gentes de todos os caminhos.

Salve Consoladora de Aparecida, que dorme nas prisões, bordéis, bares, biqueiras e bocas.

Salve Alegria de Aparecida, que desfila no carnaval, que joga o congo, que dança a roda, que bate o pé no toré e no kuarup e se esbalda no maracatu, no frevo, no fandango, no carimbo, no bumba meu boi, no forró, no rap, no rock e no samba.

Salve Força de Aparecida, que navegou acorrentada nos porões dos navios negreiros, que foi arrancada de sua terra-mãe por bandeirantes cruéis, que sofreu com a chibata nas plantações, que sufocou nas senzalas, que foi amarrada no tronco.

Salve Santa de Aparecida nas igrejas, nos terreiros, nas  mesas, nas estantes, nos cantos, nas janelas, nos nichos e na zona.

Salve Beleza de Aparecida estuprada, agredida, humilhada, abandonada.

Salve Guerreira de Aparecida, que ensina as mulheres do seu povo a lutar e viver de cabeça erguida e olhos abertos.

Salve Nossa Senhora de Aparecida, que não se rendeu nesses 300 anos, não se deixou comprar por mantos luxuosos, joias e coroas e continua na estrada com os pobres do Brasil.

[Mauro Lopes]

 

Salve Mariama, que o pequeno santo Hélder Câmara cantou um dia assim:

Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!

Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.

Claro que seremos intolerados.

Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é Paz.

Basta de injustiça!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico.

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama.

 

Juiz manda soltar policiais do massacre de Pau D’Arco

Para os trabalhadores ruais, massacre; para os policiais, liberdade para matar. Foto de alguns dos assassinados em Pau D’Arco

Uma decisão insólita causa terror entre os trabalhadores rurais da região de Redenção, no Pará: um juiz substituto determinou ontem (8) a soltura imediata dos 13 policias do massacre de Pau D’Arco. Em 24 de maio, na Fazenda Santa Lúcia, dez trabalhadores rurais foram torturados e mortos a tiros por uma tropa de policiais civis e militares. Não bastaram as ameaças dos policiais a testemunhas e familiares dos mortos; não bastou o assassinato de Rosenildo Pereira de Almeida, outro líder da ocupação, 40 dias depois do massacre. Para o Judiciário, os policiais podem circular livremente e vociferar ameaças.

Um juiz substituto da Vara Criminal de Redenção, Jun Kubota, decidiu soltar todos, três dias antes de vencer o prazo da prisão temporária determinada pelo juiz titular, Haroldo Fonseca, que havia saído em férias. O Ministério Público solicitou a prorrogação da prisão, mas o juiz substituto ignorou. A medida tinha como objetivo assegurar  investigações minimamente livres de interferência e resguardar os familiares dos mortos, assim como líderes dos movimentos sociais na região. Estão todos novamente à mercê da violência sem freio. Em nota conjunta, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, a Justiça Global e a Terra de Direitos informaram que irão pedir a federalização do caso à Procuradoria Geral da República: “A impunidade que prevaleceu em relação aos acusados do Massacre de Eldorado dos Carajás não poderá se repetir no caso do Massacre de Pau D’Arco. O caminho para um processo isento pode ser a federalização do caso, o colocando a cargo da Justiça Federal, que certamente não dará um andamento com decisões como a de ontem, que colocam vidas de familiares, testemunhas e demais pessoas envolvidas no processo em risco.”

A liberação dos acusados se torna ainda mais estranha por ter ido em uma direção completamente oposta da tomada pelo juiz titular da vara, Haroldo Fonseca; Kubota assumiu o caso por causa das férias dele. O promotor Leonardo Jorge Lima Caldas lamentou a decisão e deixou claro que ela afetará as investigações. “Temos diversas testemunhas que apenas falaram após a prisão temporária. As investigações caminharam muito após isso. A soltura dos acusados certamente afetará o nosso trabalho”, afirmou o promotor, um dos três que cuidam da investigação.

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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Jesuítas do Brasil alinham-se ao Papa; atacam ricos e governo Temer, que serve para “atender ao mercado”

    Os jesuítas em sua Assembleia em Itaici – foto da sessão de abertura, em 25 de julho

Os jesuítas do Brasil encerraram sua II Assembleia Nacional nesta quinta (27) com um salto de qualidade em relação à sua posição quanto ao Brasil e manifestaram seu alinhamento integral ao Papa Francisco, igualmente jesuíta, o que vinham fazendo de maneira tímida nos últimos três anos. Afirmaram sua “indignação diante da maneira como as classes dominantes conduzem as crises econômica, social e política que assolam o país e afetam a população brasileira, sobretudo os mais empobrecidos”; explicitaram sua adesão à visão do Papa quanto à “idolatria do dinheiro”; acusaram “os ajustes desse (des)governo para atender ao mercado”; e denunciaram a criminalização dos movimentos sociais.

O encontro reuniu por três dias 340 dos 490 membros da Companhia de Jesus no Brasil na Casa de Retiros Vila Kostka, em Itaici (Indaiatuba/SP), tradicional centro de encontros da Ordem. O posicionamento é resultado da reorganização da Companhia de Jesus no país. Desde 2014 (um ano depois da eleição de Francisco), as três províncias existente foram unificadas na Província dos Jesuítas do Brasil – BRA e iniciou-se então uma lenta aproximação às posições do Papa e à liderança global jesuítica, com clara adesão à caminhada com os pobres, crítica ao capitalismo e radicalização na leitura do Evangelho. Até então, os jesuítas no país estavam voltados sobretudo às suas centenas de instituições educacionais (escolas e faculdades), com relacionamento privilegiado com as camadas médias da população, além de algumas importantes frente de ação na Região Missionária da Amazônia e periferias de algumas cidades.

A primeira expressão pública da renovação do posicionamento dos jesuítas foi o apoio ao Dia Nacional de Mobilização de 15 de março de 2017 contra o desmonte do Estado pelo do governo Temer (aqui), mas foi uma nota tímida, se comparada com a de agora.

Durante o encontro, os jesuítas tomaram importante decisão que não foi formalizada, mas tornou-se um pacto entre todos: apoiar decididamente o magistério do Papa Francisco e sua visão pastoral e eclesial. O pacto dos jesuítas poderá contribuir e muito para que a Igreja continue a despertar e reencontrar sua missão no Brasil.

A nota aprovada ontem contém, a partir das posições de Francisco, uma dura condenação ao espírito do capitalismo: “A idolatria do dinheiro, de acordo com o Papa Francisco, dá primazia ao mercado, tanto em detrimento da pessoa humana como em detrimento do trabalho (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Não é justo submeter o Estado ao mercado, em nome da retomada do desenvolvimento. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica do capital financeiro. Como nos adverte o Papa Francisco, ‘o dinheiro é para servir e não para governar’ (Evangelii Gaudium 58)”.

Os jesuítas condenaram as reformas trabalhista e da Previdência, criticaram o aprofundamento da desigualdade no país, anotando que “muita gente, que tinha saído da miséria e da pobreza, está voltando à assistência social” e apontaram o “poder manipulador dos meios de comunicação social”.

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Padre Júlio Lancelotti pedirá proteção à Anistia Internacional

Júlio Lancelotti abençoa na Sé carroça de Ricardo Nascimento, na missa de sétimo dia de seu assassinato pela PM

Vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo desde o fim do século passado, padre Júlio Lancelotti pensou que já tinha visto de tudo em sua caminhada com os moradores e moradoras das ruas da metrópole. “Mas o que a cidade está vivendo agora nunca vi”, disse ele na tarde desta quarta (27) ao Caminho Pra Casa. “O extremismo dos últimos tempos, agravado por uma atuação sectária da Prefeitura, deu sinal verde, liberou o extermínio daqueles que a direita vê como o lixo da cidade”, desabafou o sacerdote. Por isso, padre Júlio decidiu que irá pedir proteção à Anistia Internacional ao povo da rua e àqueles que, como ele, têm sofrido inúmeros ataques nos últimos meses.

O mês de julho tem sido particularmente dramático para o povo da rua em São Paulo. No dia 12 de julho, no fim da tarde, o catador de material reciclável Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro, foi executado com pelo menos dois tiros na altura do peito por um policial militar branco. O crime aconteceu num bairro tradicional de classe média e alta na zona oeste da cidade, Pinheiros. Ricardo era muito estimado pelos moradores da região que não tiveram seu coração endurecido e os ouvidos fechados ao sofrimento dos mais pobres. Uma semana depois, muitos deles acorreram à missa de sétimo dia de Ricardo, na catedral da Sé, que imediatamente trouxe à mente o culto ecumênico de 31 de outubro de 1975, em memória de Vladimir Herzog e protesto por sua morte pelos militares.

Piauí, poucos dias antes de morrer

No dia seguinte à missa de sétimo dia pela morte de Ricardo, seu amigo e também morador de rua Gilvan Artur Leal, o Piauí, morreu na Santa Casa de São Paulo, alegadamente de um AVC. Ele foi a principal testemunha do assassinato de Ricardo e foi torturado pelos PMs em plena rua, por protestar contra o crime: em nota assinada por algumas dezenas de moradores do bairro, eles relataram que os policiais obrigaram Piauí a esticar as mãos sobre a calçada e pisotearam seus dedos, aos gritos de “sai daqui que vai sobrar pra você”. Na mesma nota, os moradores contaram que Piauí ficara profundamente abalado, chorava diariamente e relatava ter medo das ameaças que tinha sofrido da PM. Ao lado da carroça do Ricardo, dizia para os moradores da região: “mataram meu irmão, e eu sou o próximo”.

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