Na ausência da CNBB, a Igreja dos debaixo insurge-se contra a intervenção

Enquanto a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) mantém silêncio sobre a intervenção federal/militar no Rio de Janeiro, uma rede de organizações da Igreja Católica lançou um documento condenando a iniciativa do governo Temer e exigindo sua revogação imediata

Por Mauro Lopes

Dez organizações da Igreja Católica em São Paulo lançaram um manifesto contra a intervenção federal/militar decretada pelo governo Temer em 16 de fevereiro. A CNBB mantém-se silente desde então, apesar de haver lançado  apenas dois dias antes do decreto a Campanha da Fraternidade 2018, que tem como tema exatamente a violência, sob o lema “Fraternidade e a superação da violência”.

No lançamento da Campanha da Fraternidade, a principal convidada pela entidade dos bispos foi a presidenta do STF, Carmén Lúcia, chefe de um Poder que tem tido como política o encarceramento em massa no país, excluindo as organizações da própria Igreja e dos movimentos sociais que lutam com tal política (leia aqui).

Na nota lançada agora, dez as organizações de base da Igreja Católica afirmam que a Campanha da Fraternidade representa uma convocação para “cerrar fileiras com todos os que defendem a construção democrática da segurança pública, em total oposição à estarrecedora decisão do Governo Federal de intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro”.

O texto começa citando a exortação apostólica Evangelii Gaudium, lançada pelo Papa em 2013, na qual Francisco escreveu que sem “eliminar a exclusão e a desigualdade” a violência não terá fim.

As entidades denunciam “o pacto da mídia com o governo” e indicam elementos do texto-base da Campanha da Fraternidade que apontam um caminho radicalmente diferente daquele trilhado pelo governo Temer para o combate à violência.

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Intervenção no Rio: Temer afronta Estado de Direito

Uma leitura serena do decreto de Temer mostra que a intervenção “federal” mal esconde, de fato, uma intervenção militar. O poder concentrado nas mãos do general-interventor é brutal. E os militares que cometerem crimes nas favelas ou contra os movimentos sociais serão julgados exclusivamente por tribunais compostos por eles mesmos. É uma agressão ao Estado de Direito.

Por Mauro Lopes

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

1.  Não há precedente – Nunca houve uma intervenção federal em nenhuma unidade da Federação desde a Constituição de 1988. Houve sim, por diversas vezes, a aplicação do instituto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que é pontual e não interfere nos poderes constitucionalmente (eleitoralmente) estabelecidos.

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Quando a CNBB partilha a mesa com os algozes em vez das vítimas

Dom Sérgio da Rocha e Cármen Lúcia: com quem quer estar a CNBB?

CNBB lançou a Campanha da Fraternidade 2018 que tem como tema a violência. Uma ausência marcante: não estavam as vítimas da violência na solenidade. Em vez disso, a estrela da festa foi a chefe do Poder Judiciário, um dos maiores promotores da violência contra os pobres no país. Ao lado do presidente da CNBB, na mesa do evento, a chefe de um sistema que fez do Brasil o país com a terceira maior população carcerária do mundo, sendo metade ela composta por jovens de 18 a 29 anos, 64% negros e 40% presos “provisórios”, sem condenação judicial. Enquanto rolava a entrevista, tornou-se  público que um juiz de São Paulo mandou para a cadeia uma mãe com um bebê de dois dias.

Por Mauro Lopes

Dá pra imaginar o Papa Francisco lançando uma campanha mundial contra a violência e deixando de convidar as vítimas, ignorando-as? Ou ainda: o Papa lançando tal campanha ao lado daqueles que promovem a violência contra os pobres?

Pois foi o que aconteceu na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nesta Quarta-Feira de Cinzas (14), que marca a abertura da Quaresma -nesta data é lançada desde 1964 no Brasil a Campanha da Fraternidade, pela CNBB. O tema da campanha de 2018 é exatamente a violência, sob o lema “Fraternidade e a superação da violência”.

As vítimas da violência não estavam na sede da CNBB na solenidade de início da Campanha. A direção da entidades dos bispos convidou a presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, para ser a grande estrela do momento e em seu site explicitou a escolha da Conferência: “O presidente da entidade, cardeal Sergio da Rocha, e o secretário-geral, dom Leonardo Steiner, receberam autoridades para o evento”.

Nada das vítimas da violência. Não estavam na sede da CNBB indígenas ou negros e negras, mulheres, sem teto, sem terra, moradores de rua; igualmente não estavam os líderes da Pastoral Carcerária, do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) ou da Comissão Pastoral da Terra (CPT), todos organismos vinculados à conferência episcopal brasileira.

Estava -por convite da CNBB- a chefe do Poder Judiciário, um dos maiores protagonistas da violência no país.

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Bancos: lucro em 2017 foi maior que dois anos de Bolsa Família

 

2017 foi um dos piores anos da história para o povo brasileiro: mais de 12 milhões de desempregados, a volta do terror da fome, redução ou fim de programas sociais (veja aqui também). Para os banqueiros e seus associados, os rentistas, foi uma festa de gala: o lucro dos três maiores bancos no ano passado foi de R$ 53,8 bilhões, mais de duas vezes o orçamento do Bolsa Família para 2018, de R$ 28,7 bilhões. Em cinco anos, o lucro dos bancos saltou nada menos que 127%.

Por Mauro Lopes

Os banqueiros e rentistas gargalham, às custas do povo brasileiro. Enquanto 2017 passa à história como um dos piores anos para os mais pobres do país, o Itaú, Bradesco e Santander tiveram em 2017 um lucro de R$ 53,8 bilhões, 20% superior ao lucro do ano anterior. Isso ao mesmo tempo em que o Bolsa Família sofreu um corte de R$ 1 bilhão e seu orçamento, o primeiro em termos nominais em desde sua criação em 2003 e o salário mínimo foi estabelecido em R$ 954,00, retornando ao mesmo valor real de janeiro de 2015.

De um lado, um punhado de famílias brasileiras que controlam o Itaú e o Bradesco e espanholas que controlam o Santander, além deles, mais 121 mil sócios do Itaú  e 321 mil do Bradesco -não some os dois números, pois milhares são sócios dos dois bancos. Esse grupo embolsou os quase R$ 54 bilhões. De outro, as 12,7 milhões de famílias participantes do Bolsa Família -que, de fato, beneficia nada menos que 21% da população do Brasil (cerca de 40% da população), assim como as 48  milhões de pessoas que têm seus ganhos referenciados no salário minimo.

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Bolsa Juiz x Bolsa Família: uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte (veja foto abaixo), apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

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País está dividido: pobres com Lula e ricos contra ele

Pesquisas do DataFolha mostram como pobres e ricos estão em polos opostos no país hoje e as camadas médias estão divididas. A Folha, proprietária do instituto de pesquisas, escondeu o fato em suas reportagens. Mas as pesquisas são claras: pobres querem que Lula concorra às eleições e ricos não; pobres querem Lula presidente e ricos não; pobres têm taxa de rejeição a Temer muito superior à dos ricos. Veja os gráficos extraídos das planilhas do DataFolha: eles são taxativos –no Brasil, pobres de um lado, ricos do outro; e as camadas médias em disputa.

Por Mauro Lopes*

Nos dias 29 e 30 de janeiro, menos de uma semana depois da condenação de Lula pelos desembargadores do TRF4, em Porto Alegre, o DataFolha, instituto do grupo do mesmo nome, ouviu 2.826 pessoas em todo o país sobre três temas. Foi um campo único, mas apresentado nas páginas do jornal dos Frias como três pesquisas: sobre como a população vê o desdobramento da condenação de Lula, o impacto da decisão dos desembargadores nas intenções de voto para presidente e, finalmente, sobre a “popularidade” do governo Temer.

A constatação que emerge das pesquisas é taxativa –mas foi sonegada aos leitores da Folha nas reportagens: é a luta de classes que dá o ritmo da vida nacional hoje. Os pobres estão em posição diametralmente oposta à dos ricos.

Primeiro, quanto ao desdobramento da condenação de Lula do ponto de vista de sua presença na eleição presidencial.

Para 58% dos mais pobres do país (com renda até 2 salários mínimos), Lula deve ter o direito de concorrer; para 70% dos ricos (com renda superior a 10 salários mínimos), Lula deve ser barrado. O gráfico tem  uma evolução notável: quanto mais se sobe na renda, mais o desejo de ver Lula proibido de concorrer. O DataFolha interrompe a pesquisa no universo dos ricos numa faixa “mais de 10 salários mínimos” de renda mensal (mais de R$ 9.370,00), mas a linha indica que quanto maior a renda, maior deve ser o desejo de bloquear o direito de Lula concorrer. Seria interessante ter os dados para renda superior a 20 SM (R$ 18.740,00) e mesmo superior a 40 SM (R$ 37.480,00), onde seria possível capturar com mais nitidez a posição, de juízes, altos executivos do Estado e do setor privado, empresários e rentistas.

Veja o gráfico:

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Frias celebra golpe e perseguição a Lula: sua parte no butim é US$ 2,7 bilhões

Os irmãos Frias: a bilionária recompensa pelo golpe e a perseguição a Lula

Otavinho, diretor de Redação da Folha, comemora o golpe e a condenação de Lula. Um artigo que parece “ideológico’ ou “jornalístico’, mas é apenas a celebração por receber US$ 2,7 bilhões como sua parte nos despojos da democracia

Por Mauro Lopes

Otavio Frias Filho, o Otavinho é diretor de Redação da Folha e um dos donos do conglomerado que reúne diversas operações, da quais, atualmente, uma das menos relevantes financeiramente é exatamente a que dirige. Ele fez publicar no jornal deste domingo (28) artigo de sua lavra no qual celebra a condenação de Lula e solta fogos diante da perspectiva da inelegibilidade do ex-presidente.

No artigo, Otavinho rasga a fantasia: para ele, o eventual afastamento de Lula garante um processo eleitoral sob controle das elites (“talvez seja menos crispado um processo eleitoral que se previa belicoso”) e, mais importante, a “melhora que estará em curso na economia” –para quem, cara pálida?

Esta é a questão crucial: o afastamento de Lula é a garantia buscada por Otavinho e os seus de que o butim do golpe poderá ser repartido com tranquilidade pelos ricos que orquestraram o golpe contra a democracia. O mais importante do artigo está no não-escrito –em geral é assim: amontoam-se palavras sobre palavras enquanto o que é de fato relevante está na sombra; algo como o truque de um mágico, que agita uma mão para capturar a atenção da plateia enquanto executa seu golpe com a outra. Continue lendo “Frias celebra golpe e perseguição a Lula: sua parte no butim é US$ 2,7 bilhões”

Bispos retomam tradição da Igreja brasileira e saem em defesa do Rio São Francisco

Dez dos onze bispos do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco

Será lançada neste Primeiro Domingo do Advento (3) a Carta da Lapa, fruto do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco, reivindicando uma moratória de 10 anos para a região do cerrado e um Repouso Sabático para os principais biomas brasileiros. O texto é assinado por 11 dos 16 bispos das dioceses da Igreja Católica banhadas pelo rio. Firmado “em comunhão com o Papa Francisco e inspirados pela carta encíclica Laudato Sí”, denuncia a crise do rio por seu uso e de seus afluentes a serviço dos interesses econômicos dos ricos.

A principal decisão do encontro foi a “defesa do Repouso Sabático para os nossos biomas a fim de que possam se reconstituir. Particularmente, uma moratória para o Cerrado, por um período de dez anos. Durante esse período não seria permitido nenhum projeto que desmate mais ainda o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, biomas que alimentam o Rio São Francisco e dele também se alimentam.”

O texto (veja a íntegra a seguir) é mais um expressivo símbolo da renovação da Igreja no Brasil, à luz da primavera de Francisco, e a retomada do espírito atualizado da Teologia da Libertação, depois dos quase 40 anos de perseguições.  Em sua carta, os bispos qualificam, à luz da primavera de Francisco, qual Igreja reapresenta-se à sociedade: “Igreja em saída”, “Igreja missionária”, “Igreja Profética”, “Igreja solidária”.

O encontro aconteceu nos dias dias 21 e 22 de novembro, no Centro de Treinamento de Lideres (CTL), em Bom Jesus da Lapa, o Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do São Francisco, como resultado da recente Assembleia do Regional Nordeste III da CNBB. O local  foi escolhido  pela influência do Santuário do Bom Jesus da Lapa, que fica às margens do Rio São Francisco, e reúne todos os anos milhares de romeiros, grande parte deles ribeirinhos que vivem e dependem das águas do rio da integração nacional (ao lado foto de uma das missas celebradas durante o encontro, na capela do Santuário). Participaram bispos da Bahia, Pernambuco, Sergipe e de Minas Gerais -veja a lista ao final.

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Waackismo: racismo camuflado à brasileira

Quadro “Grito da Periferia”, de Paulo Côrrea

Leia o artigo do Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê neste Dia da Consciência Negra. Ele é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje.

A íntegra do artigo:

Padre Gegê

“Não caçamos pretos no meio da rua, a pauladas… Mas fazemos o que talvez seja pior”. (Nelson Rodrigues)

 

 

 

Inicio a reflexão sobre racismo/waackismo com a sincera e corajosa análise de Nelson Rodrigues, que, de algum modo, sumariza todo o texto. Escreve o branco dramaturgo. Repito: branco: “A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco do Brasil um dos mais racistas do mundo”.

Na linha da obra de Gabriel Garcia Marques, pergunto: Seria a vida do negro no Brasil, Crônica de uma morte anunciada?

Crio o termo “waackismo” (termo alusivo ao jornalista da Globo, William Waack) como expressão adequada para a caracterização do racismo à brasileira que é, a despeito do seu sinistro mascaramento, real e global. Waackismo, em nossa reflexão, é a engenhosa produção patenteada da ideologia colonial-escravista. Reitero, waackismo é tradução fidedigna e reeditada do racismo à brasileira. Maior prova de sua eficácia é quando um cidadão comete um crime de racismo e, pelo simples fato dele negar o ato, a sua palavra valer mais que a evidência do fato. Como uma sociedade com mentalidade escravocrata poderia contradizer a palavra de um branco? Faz parte de todo sistema de dominação condenar a vítima e condecorar carrascos; crucificar Jesus e soltar Barrabás. Nessa perspectiva, não me surpreenderia se o jornalista Wiliam Waack pedisse indenização a cada negro existente no mundo por um, supostamente, negro, ter perturbado a “paz” branca. Também não me surpreenderia se obtivesse um número significativo de veneráveis cúmplices e aguerridos defensores.

À guisa de introdução, deixo uma questão de ordem filosófica, isto é, do pensamento e da reflexão: o racismo/waackismo no Brasil tipifica a “banalidade do mal”, segundo acepção da pensadora Hannah Arendit ou a maldade produzida e justificada a partir do naturalizado e banalizado? Se a segunda posição estiver mais próxima da verdade (e é essa formulação que sustento) o racismo/waackismo constitui o modus operandi da maldade/violência colonial-escravista de ontem e de hoje. Dizendo de outro modo, no Brasil se inventou, historicamente, uma forma engenhosa, sutil e camuflada de subalternizar, violentar, ferir, enxotar, segregar e inferiorizar a população negra.

Essa sofisticada e macabra forma de violentar dispensa quase sempre, “pauladas em praça pública”, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, ou pelourinhos, mas isso não a faz menos perversa, menos traumática e menos dolorosa. Desse modo, independente da forma, no Brasil de ontem e de hoje, no que se refere ao negro/negra, se mata com a intenção de matar — física, moral, social ou psicologicamente. Entender, pois o racismo/waackismo no Brasil e suas escabrosas e nefastas consequências (inclusive à saúde da população negra) implica entender que uma agressão psicológica ou moral pode produzir mais e irreversíveis danos a uma pessoa ou coletividade que um homicídio ou chacina.

Singular atenção merece, a meu juízo, as pesquisas sobre o trauma (sofrimento) da população negra em virtude da escravidão que há quatro séculos alimentou a sociedade brasileira, inclusive a Igreja. Não é possível a uma sociedade que se mostra sensível ao bullying de seus filhos e filhas, não se permitir pensar nas consequências históricas e nos sofrimentos morais e psicológicos dos descendentes de milhões e milhões de seres humanos, que durante quatro séculos foram tratados como animais ou peças no projeto escravista. Waackismo é sim forma de genocídio (mais simbólico que físico), forma sinistra e, por vezes cordial, mas com poder destrutivo. Waackismo é o sapato branco que, desde a escravidão, foi treinado a pisar pele e alma negras, na surdina e no silêncio, como se fossem baratas…

O waackismo tem um potencial sádico capaz de (sofisticadamente) triturar, desqualificar, inferiorizar, invisibilizar e segregar; e o faz, em geral, não às gargalhadas, mas mediante sorriso contido… Às escondidas! Ele não se manifesta apenas nos “deslizes pessoais” (conforme o caso do jornalista em questão); o waackismo está nas mentes, nas praças, nos clubes, nos bancos, nos livros didáticos (ou não), nas igrejas, nas escolas, nas mídias, nas redes, nas praias etc… Quando ligamos a TV e não vemos negros, quando entramos numa universidade e não vemos negros, quando contemplamos os altos cargos de nossos país e não encontramos a população negra, lá está o waackismo sorridente.

Em se tratando de Brasil, o waackismo tem o “dom” da ubiquidade; é produto da dissimulação nacional — 100% Global! Em resumo, o racismo/waackismo no Brasil é mais invisível que visível, mais silencioso que audível; é mais nas entrelinhas que nos textos, porém, quando o latente se torna patente (como o caso do jornalista Willian Waack) toda sociedade (negros e brancos) deve se engajar para que se puna, segundo a Lei, a fim de que direitos inalienáveis sejam garantidos e o Brasil cresça rumo a uma verdadeira e efetiva democracia racial. No caso concreto do jornalista, não está em discussão o conjunto de sua vida, tampouco se massacra negro diuturnamente. Estamos diante de um fato ou um ato público de racismo, e é sobre ele que nos debruçamos, sabedores que ele (o ato) esconde/revela um sistema e uma cultura vincada e estruturalmente racista.

Abdias Nascimento, objeto de minha tese de doutorado na PUC-SP, é figura icônica no que se refere ao desmascaramento do “mito da democracia racial no Brasil”, mito segundo o qual o Brasil seria a terra do respeito e da igualdade — um paraíso racial. Abdias Nascimento, assim como qualquer negro no Brasil, desde cedo sentiu em sua pele a dor de pertencer a uma sociedade ambígua, dissimulada e perversa com a população negra. Para Abdias racismo é o arame farpado” da sociedade.

No ano de 2016 foi relançada pela Editora Perspectivas sua obra atualíssima intitulada sugestiva e acertadamente “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. Florestan Fernandes prefaciando a edição brasileira afirmou a contribuição que o livro deu por usar o conceito de genocídio aplicado a situação de matança física e simbólica do negro no Brasil. Segundo Florestan, “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora”. E pergunta: “O que se fez e se continua a fazer com o negro e com os seus descendentes merece outro qualitativo”?

No prefácio da edição nigeriana, Wole Soyinka advertiu, sem evasiva, que “a expressão ‘genocídio’ chocará, e o faz porque demole o tabu ou mito intocável da ideologia do paraíso racial”.

Sublinhou Abdias: “Devo observar que este assunto de ‘democracia racial’ está dotado, para o oficialismo brasileiro, das características intocáveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questão fechada, terreno proibido sumamente perigoso”. E ainda: “Ai daqueles que desafiam as leis deste segredo!”. Desse modo, qualquer pessoa, sobretudo, negro, que denunciar o racismo brasileiro está condenado a ser acusado de fazer racismo às avessas ou de negro recalcado. Contudo, enfatizou Abdias: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país”.

Desse modo, o caso do jornalista ajuda a compreender o racismo no Brasil, o debate ajuda na construção de novas mentalidades e a punição na forma da Lei ajuda ao Brasil a curar suas patologias mascaradas. Minimizar e não punir o ato significaria legitimar o sistema, o que nos levaria a concluir que no Brasil os brancos gozam de uma espécie de “imunidade racial” — o que seria desastroso, não apenas para os negros, mas para o processo democrático e civilizatório, uma vez que tratar do racismo (e de quaisquer outras violações dos Direitos Humanos) diz respeito a toda sociedade. Escreve Hannah Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter Direitos”.

A tua raça de aventura quis ter o céu, a terra, o mar / Na minha há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar… / A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar / A minha não quer ir nem vir / A minha raça quer passar!”. (Cecília Meireles)

Engajada, Feliz e Esperançosa Semana Preta da Consciência Negra!

 

Um país chamado Canudos, 120 anos depois

Mulheres e crianças aprisionadas em Canudos; homens foram todos mortos

Artigo especial[1] do cientista social Ruben Siqueira, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recorda e atualiza a luta de Canudos, que até hoje é a maior mobilização do exército brasileiro: contra o povo. Nem mesmo a Guerra do Paraguai ou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra superaram o envolvimento de tropas como no combate à rebelião liderada por Antônio Conselheiro. A violência, pública e privada, continua uma marca da vida nacional, multiplicam-se as mortes nas cidades e nos campos, o Brasil sendo hoje o mais violento país do mundo sem guerra declarada, uma guerra contra os pobres.

“A mensagem de Canudos fica cada dia mais atual e necessária. Atravessa os tempos e faz seguidores a ousadia dos conselheiristas, de recriar, nas entranhas do latifúndio respaldado pela República, a comunidade dos primeiros cristãos, onde a única lei era a do amor, pela qual — ainda que entre eles houvesse comerciantes bem-sucedidos — os bens eram partilhados em benefício de todos. A bandeira fincada para sempre no coração do Brasil continua a atrair os pobres e desvalidos. Porque lhes ensina a única lição possível: a eles só resta resistir e insistir na vida, contra os poderes da terra, porque — dizia Antônio Conselheiro — ‘só Deus é grande’. É essa fé, de um povo que não separa religião e vida, crença e luta, que move ainda hoje centenas, milhares, milhões de brasileiros pelos vastos sertões deste latifúndio chamado Brasil, a lutar pela terra e pelo direito à vida digna na terra.”

Leia o artigo na íntegra:

Canudos virou moda há 20 anos, em seu centenário. Houve enorme expectativa à época com o lançamento do filme de Sérgio Rezende, Guerra de Canudos (assista aqui), que foi, rodado na região. Teses, livros, reportagens e seminários foram feitos para a celebração dos 100 anos e continuaram a ser produzidos, trazendo releituras do episódio, discutindo aspectos novos, alimentando a infindável polêmica. O governo da Bahia criou no cenário da guerra o Parque Estadual de Canudos, onde uma equipe da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) realizou estudos de arqueologia histórica. Neste outubro de 2017, vários eventos, sobretudo promovidos por movimentos e entidades sociais, estão acontecendo na pequena cidade herdeira da Canudos conselheirista.

A atualidade de Canudos

120 anos é data por si mesma expressiva, seja do que for. Mas, em Canudos, o quê exatamente se está comemorando? O que tem esse episódio, o que ele encerra — esconde e revela — que atrai tantas atenções?

É que em Canudos, ontem e hoje, o Brasil se vê face a face consigo mesmo, encontra seu desencontro. Canudos não está na memória nacional apenas como uma chaga, a mais ignominiosa das lembranças do passado, onde e quando se detonou toda a carga de violência que mal se esconde sob o manto roto da decantada cordialidade brasileira, praga ideológica que sedimenta a assimetria das relações sociais. Está também como repetição, reincidência, contínuo revisitar. Está como matriz da identidade brasileira e chave de explicação do País e de seu infortúnio como nação moderna, que nunca alcançou de fato a modernidade. Está, pois, como atualidade, contemporaneidade.

Uma primeira prova disso? Ao implantar-se o Parque Estadual de Canudos, por ocasião do centenário, famílias de agricultores residentes na área, muitas delas descendentes dos antigos canudenses, tiveram que resistir à implantação das cercas divisórias do parque porque estas inviabilizavam o criatório de cabras, sua principal fonte de subsistência… Talvez até quisesse o governo da Bahia que se retirassem de vez, para não estragar a composição nostálgica e folclórica do quadro… Ainda bem que os cientistas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não embarcaram nessa…

Canudos levanta questões que incomodam a má consciência nacional. Por que mais da metade do efetivo e todo o aparato militar do exército à época foi mobilizada em cinco expedições contra pobres e frágeis camponeses, armados de poucas espingardas e muita fé? Por que ali, numa das regiões mais secas do País, uma multidão de 25 mil destes deserdados encontrou um lugar e construiu, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, a maior cidade do interior do Brasil à época?

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