As igrejas católica e luterana veem o país e confrontam governo Temer

O país do povo que resiste ao jugo do turbocapitalismo. Foto: MTST

As igrejas, no ritmo do Evangelho do cego de nascença (Jo 9, 1-41) que católicos e católicas escutam nas missas deste domingo (26) começam a “ver o país”.

 

A opção preferencial pelos ricos e a política de terra arrasada contra os pobres do governo Temer está levando as igrejas católica e luterana para um confronto que começa a lembrar a dicotomia existente no período da ditadura militar no país. É impressionante a sequência de pronunciamentos de algumas das mais expressivas lideranças das duas igrejas que foi claramente pautada pela agenda dos movimentos sociais: o primeiro foi no Dia Internacional da Mulher, depois houve uma onda impulsionada pelo Dia Nacional de Paralisação e Luta em 15 de março e o momento culminante aconteceu na quinta-feira (23) com uma dura nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra a reforma da Previdência Social, considerando-a uma escolha “pelo caminho da exclusão social” (aqui).

O fato é que a emenda constitucional que restringe os gastos públicos, a aprovação da terceirização selvagem das relações de trabalho e a tentativa de liquidação da Previdência Social compõem o centro do governo nascido com o golpe contra uma presidente eleita e rompem os dois grandes pilares do pacto social brasileiro, a CLT e a Constituição de 1988.

O primeiro pronunciamento, no Dia Internacional da Mulher, foi da Conferência dos Religiosos do Brasil, que reúne mais de 35 mil religiosos e religiosas de congregações –mulheres, em sua imensa maioria. Sua presidente, irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, distribuiu uma carta na qual se expressou “com o coração entristecido por, mais uma vez, ver os interesses de poucos solaparem os direitos de muitos, especialmente das crianças e jovens mais pobres e vulneráveis. Literalmente querem nos tirar as migalhas.” A freira convocou a mobilização de todos os religiosos e religiosas: “Ou nós nos mobilizamos e defendemos o direito das nossas instituições e dos pobres, ou mais uma vez pagaremos a conta dos desmandos palacianos”.

No Dia de Lutas, em 15 de março, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas em todo o país, os franciscanos e os jesuítas divulgaram notas contundentes, enquanto comunidades de base da Igreja Católica acorreram às manifestações.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota logo na manhã de quarta (15) na qual anunciou um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.

A Companhia de Jesus, ordem a que pertence o Papa Francisco e que reúne mais de 16 mil jesuítas ao redor do mundo, emitiu um comunicado em nome de todos os seus líderes que estavam reunidos no dia 15 em São Leopoldo (RS) afirmou olhar com “esperança de que mobilizações como a de hoje ajudem a sensibilizar os nossos governantes e congressistas a rever seus posicionamentos”.

No mesmo dia, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) distribuiu um parecer de sua assessoria jurídica apontando a inconstitucionalidade e perversidade dos efeitos da reforma contra os povos originários do país (aqui).

A seguir, os luteranos da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) pronunciaram-se numa carta que historia os posicionamentos corajosos de seus pastores no último ano e “admoesta as autoridades diante do quadro brasileiro com a Palavra do Senhor: Executai o direito e a justiça e livrai o oprimido das mãos do opressor; não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar (Jeremias 22.3)”.

Dois dias depois, em 17 de março, Dom Francisco Biasin, bispo da diocese de Volta Redonda (RJ) publicou uma nota confrontando diretamente no novo eixo de poder do país: “É escandalosa a ascensão ao poder de pessoas de duvidosa reputação, sob suspeita de corrupcão ou em adiantado processo de investigação, para ocupar cargos de alta responsabilidade no Legislativo, no Judiciário e no Executivo.”

Não é coincidência a harmonia de movimentos dos católicos e luteranos no país simultaneamente a uma aproximação sem precedentes entre as duas Igrejas liderada pelo Papa Francisco e pelo presidente da Federação Luterana Mundial, bispo Munib Younan –sob oposição cerrada do conservadorismo católico.

O reitor da PUC-MG e bispo auxiliar de Belo Horizonte, Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, numa entrevista ao site italiano Settimana News advertiu: “Os brasileiros precisamos ter a consciência da gravidade do momento político, social, econômico e moral que vivemos nos últimos meses.”

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Para o país que os ricos estão desenhando não haverá muros suficientes

O muro que separa os ricos do Morumbi dos pobres da favela de Paraisópolis, em São Paulo. O país que o governo Temer está desenhando. Foto: Tuca Vieira

Eduardo Fagnani é um professor dos bons. Ilumina o que está à frente, a partir da experiência passada; ensina que é preciso escolher um lado, e escolheu o dele -o dos pobres lascados; é rigoroso com o estudo, a necessidade de profundidade; sabe que conhecer é um caminho de humanidade e poesia.Tornou-se o maior especialista na malfadada reforma da Previdência Social pretendida pelo governo golpista.

Concordo com ele: as elites brasileiras são predadoras, tacanhas, não têm compromisso com o país. O tripé composto pela emenda constitucional de restrição dos gastos públicos, pela terceirização e demais medidas da reforma trabalhista e pela reforma da Previdência é o sonho (pesadelo) de páis dos ricos escravocratas, que nunca renunciaram à volta da senzala para os pobres.

Fagnani garante:  “O cenário é catastrófico” se não houver reação vigorosa dos pobres. Haverá miséria e muito sofrimento neste país os ricos que vivem de costas para o Brasil e com os olhos postos em Miami. Leia a entrevista/conversa que tivemos, publicada originalmente no site Previdência, Mitos e Verdades.

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O professor Eduardo Fagnani é hoje um dos mais profundos conhecedores dos temas vinculados à Previdência Social –foi ele o coordenador do estudo mais abrangente sobre a “reforma” do governo Temer, Previdência: reformar para excluir?. Ele diz que a combinação da emenda constitucional que limita os gastos públicos, a terceirização irrestrita das relações de trabalho de demais medidas na reforma trabalhista e a “reforma” da Previdência tem uma consequência dramática: “eles estão matando o futuro do país”.

“O cenário é catastrófico, um desastre sem precedentes” –afirmou. Fagnani diz que a melhor imagem para o projeto do governo de Temer e associados é a “cidade linda” do prefeito de São Paulo, João Dória: “O que eles estão fazendo é ampliar para o país o ’cidade linda’ do Dória; linda para menos de 20%, um inferno para mais de 80%. São Paulo vai virar uma cidade de muros para impedir que os pobres reajam. É o que acontecerá com o Brasil, o país do muro a separar os ricos dos pobres. Mas eles precisarão de muito muro, muito mesmo”.

Ele explicou que hoje quase a metade (49%) dos trabalhadores e trabalhadoras já estão na informalidade –a soma dos que trabalham no setor privado e domésticas sem carteira assinada, o trabalhador por conta própria e os “ empreendedores individuais”, onde se concentram os trabalhadores PJ (Pessoa Jurídica). “Não é exagero supor que em pouco tempo esse percentual de trabalhadores informais chegará a 70% do total”, projetou Fagnani.

“A Previdência vai quebrar”, afirmou categoricamente. Com a brutal redução de recursos no INSS por conta da terceirização combinada à informalização selvagem será “uma implosão”: “O estoque de contribuintes sofrerá uma redução drástica, com o processo de demissões em massa dos trabalhadores com carteira assinada e sua recontratação como terceirizados; os trabalhadores rurais não irão mais aportar com a obrigação de contribuição mensal; os jovens entrantes no mercado de trabalho não serão mais contribuintes da Previdência, pois ingressarão já no contexto da terceirização; e como a percepção da crise do sistema logo se espalhará, haverá uma debandada dos contribuintes de renda mais alta para os planos de previdência privada”. Qual o prazo para desastre final? “A Previdência vai quebrar em 10 a 15 anos, se tudo continuar na batida atual”.

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Igreja Católica confronta a “reforma” da Previdência

Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais

A CNBB, a entidade dos religiosos (CRB), franciscanos, jesuítas e a Arquidiocese de Londrina posicionam-se contra a “reforma” da Previdência em termos duros. Do site Previdência, Mitos e Verdades

Cresceram nos últimos dias e chegaram ao auge na quarta (15) as manifestações de segmentos da Igreja Católica no Brasil contra a “reforma” da Previdência. Leigos de comunidades das periferias, seminaristas, religiosos, padres e freiras participaram das manifestações em diversas cidades do país.

Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota na manhã de quarta (15) na qual anuncia um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.

A nota franciscana apresenta um retrato pungente dos efeitos da “reforma” sobre os mais pobres: “Basta olharmos para a luta diária de nossos irmãos agricultores, especialmente nas áreas rurais em que estamos presentes nos estados do PR (especialmente a Região Sudoeste), SC (Alto Vale do Itajaí, Planalto Central e Oeste) e ES (especialmente a região de Colatina), ou para a dureza da vida dos operários nas periferias urbanas do Rio de Janeiro (Baixada Fluminense) e São Paulo para percebermos o grau de insanidade presente em exigir que estes trabalhadores braçais se desdobrem em quase 50 anos de trabalho para, depois, receberem migalhas que mal custeiam os remédios que se fazem necessários depois de uma vida de trabalho intenso e extenuante.”

Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais (no alto deste post).

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Acabou a conversa da “escravidão” na China: eles já ganham mais que os brasileiros

No domingo (26), país pulava e cantava FORA TEMER e uma notícia publicada pelo inglês Financial Times passou despercebida: a média salarial na indústria chinesa já é maior que no Brasil. Lembra aquele discurso sobre a “escravidão” na China? Foi o tempo. A verdade é que em dez anos, a contar de 2005, a média salarial dos chineses na indústria triplicou, para US$ 3,60 por hora, enquanto Brasil caiu de US$ 2,90 para US$ 2,70. Dá pra imaginar o que acontecerá se aprovada a reforma trabalhista de Temer e dos golpistas ultraliberais –os carnavalescos sabiam bem o que cantavam país adentro.

Veja o gráfico. Veja com calma.

O fato tem dimensão de alto impacto, pois derruba o mito neoliberal que é um dos vetores do golpe no Brasil e dos conservadores na América Latina, segundo o qual é preciso arrochar sempre mais os salários para ser “competitivo”. O economista Oru Mohiuddin, do Euromonitor, falou ao Financial Times, e explicou que o aumento espetacular na remuneração média dos operários e operárias chineses não levará a uma fuga das indústrias estabelecidas naquele país. O gigantismo do mercado interno chinês passou a ser decisivo para as indústrias: “Em muitos setores, a China representará 20% do mercado em 2020, similar à América do Norte e à Europa Ocidental”.

Como diria o ditado americano: “é o tamanho do mercado interno, idiota”. Os economistas de Temer querem massacrar os trabalhadores do país com suas reformas. Vão liquidar com o Brasil. Se quiser, leia aqui a versão em português da reportagem do Financial Times.

Os dados utilizados pelo jornal inglês são do instituto Euromonitor que usou as estatísticas da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Eurostat, da União Europeia, e dados oficiais dos países analisados. Os salários nacionais foram convertidos para dólar norte-americano e ajustados segundo a inflação.

[Mauro Lopes]

 

Governo Temer: os ricos querem arrancar dos pobres mais de 6% do PIB

O documento-síntese do estudo sobre a demolição da Previdência Social; texto completo estará disponível em alguns dias

Estive na noite desta terça (14) numa apresentação do economista Eduardo Fagnani sobre o documento-síntese do estudo Previdência: reformar para excluir? a um grupo de jornalistas do site Previdência, Mitos e Verdades e da CTB. Saí muito impactado. A explicação deveria ser apresentada às escolas, nas favelas, no Congresso, nas ruas. O texto completo sairá à luz nos próximos dias e o Previdência, Mitos e Verdades irá apresentá-lo em capítulos, de maneira didática e atraente, em textos e vídeos.

O que está por trás da reforma da Previdência e da Lei do Teto dos Gastos Públicos e outras medidas do governo Temer? Elas não guardam qualquer relação com a saúde financeira do Estado, como alardeiam os porta-vozes do governo golpista.

O que está em jogo é simples assim: desde a Constituição de 1988 e de maneira expressiva nos governos do PT, os gastos federais com a Previdência Social e programas sociais superaram 10% do PIB. Este patamar foi garantido por decisões políticas quanto à alocação dos recursos, pelo programa de valorização do salário mínimo dos governos petistas e pelo crescimento econômico.  Ora, qual era o percentual do PIB destinado aos mais pobres antes de 1988? 3% a 4% do PIB!

Para que se tenha uma ideia ainda que muito parcial do impacto destas políticas desde a Constituição de 1988, elas significaram que 82% dos velhos no país recebem benefício da Previdência, enquanto no resto da América Latina este percentual não ultrapassa 40% e há países em que é 10%. É para onde vamos se o governo Temer conseguir aprovar seus pacotes –a miséria irá se alastrar como uma epidemia no país e rapidamente voltaremos aos padrões dos anos 1980 (o que já começou a acontecer).

Toda a ação do governo Temer tem como objetivo devolver aos ricos esses 6% a 7% que a Casa Grande considera que lhes foram roubados desde a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães e durante os governos do PT. Estamos falando de os ricos tomarem dos pobres quase R$ 400 bilhões anualmente! Para isso, foi aprovada a Lei do Teto, querem aprovar a reforma da Previdência, arrochar e desvincular cada vez mais os benefícios do valor do salário mínimo, entre outras medidas.

É claro que tal programa jamais seria aprovado nas urnas. É a razão do golpe.

Previdência: reformar para excluir?  é um estudo inédito sobre a Previdência Social no Brasil e sua destruição arquitetada pelo governo Temer, realizado por mais de 50 economistas, especialistas em finanças e Seguridade Social de alto nível, organizado pela Associação Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) e coordenado por Fagnani.

[Mauro Lopes]

A Casa Grande, os R$ 45 bi dos bancos; e os 12 milhões de escravos libertos sem trabalho

O conforto com os lucros dos bancos é uma das faces da indignação das elites com a libertação da escravidão

Há dois recursos discursivos que as elites usam para enrolar os pobres do país, tratando-os sempre como crianças: o primeiro é dizer que os assuntos são complicados demais e que não dá para entender, como acontece no caso dos juros da dívida pública; o segundo é simplificar e distorcer para agitar fantasmas no imaginário das pessoas, como é o caso da história tosca de que a economia do país seria como a de uma família. Na verdade, há um terceiro recurso discursivo, para situações extremas: a Polícia Militar e agora, como o demonstra o Espírito Santo, o exército.

Esta breve introdução para o artigo a seguir estava pronta quando me encontrei ontem (8) com o amigo Eduardo Fagnani, talvez a pessoa que entendeu com maior profundidade o processo de falência da Previdência Social engendrado pelo novo regime (veja uma entrevista de Fagnani aqui). Ele citou livremente Joaquim Nabuco em “O abolicionismo”: “Num país de 516 de história, quase 300 foram debaixo da escravidão, e isso determinou a alma das elites, que olham para o povo hoje como olharam durante 300 anos”.

De fato, é uma imagem precisa: as elites enxergar os pobres de hoje como os escravos injustamente libertos, mais do que como crianças. Ressoa até hoje a indignação do senador Barão de Cotegipe com a Lei Áurea registrada pelo Jornal do Senado em 14 de maio de 1888: “a Constituição, a lei civil, as leis eleitorais, as leis de fazenda, os impostos etc., tudo reconhece como propriedade e matéria tributável o escravo, assim como a terra”. Além de traçar um sinal de igualdade entre a propriedade das pessoas e de bens como a terra, ele protestava contra a agressão ao que há de mais sagrado para as elites brasileiras, o direito de propriedade, pois com a abolição decretava-se, na visão do senador, que “não há propriedade, que tudo pode ser destruído por meio de uma lei sem atenção nem a direitos adquiridos nem a inconvenientes futuros”. A voz de Cotegipe está reverberada nos discursos de Romero Jucá, Aloysio Nunes, Aécio Neves, na torrente de ódio contra os pobres que inunda as redes sociais, na lógica que os banqueiros e seus aliados decretam ao país…

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Padre Paulo: papados conservadores “destruíram Igreja inserida na vida dos pobres” no Brasil e AL

Padre Paulo ao fim de um batizado em 2015

Padre Paulo Sérgio Bezerra não cede um milímetro sequer no seguimento dos ensinamentos da Igreja à luz do Evangelho e da renovação do Concílio Vaticano II, como um dos protagonistas da Teologia da Libertação na periferia de São Paulo. Padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

O sacerdote, de 63 anos, foi formado pela escola do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro de 2016 e dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da região Leste II da cidade de São Paulo e hoje emérito da diocese de Blumenau (SC), aos 84 anos. Isso anos antes que João Paulo II dividisse a Arquidiocese em 1989, numa articulação para esvaziar a liderança de dom Paulo e nomear bispos conservadores para as novas dioceses, que trataram de demolir toda a construção da “Igreja rumo à periferia” na antevisão de dom Paulo, agora retomada pelo Papa Francisco, que tem convocado os católicos para novamente partirem “às periferias existenciais” de uma “Igreja em saída”.

A matriz e as capelas das sete comunidades da paróquia estão sempre cheias, quase duas mil pessoas frequentam as celebrações e participam da vida da Igreja local.  Acorrem às missas presididas por padre Paulo gente de toda a cidade, em busca de uma liturgia que fuja ao rigorismo dos tradicionalistas ou ao estilo neopentecostal dos carismáticos. “Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas”, diz ele, desolado com o ambiente da Igreja em boa parte da cidade: “A questão para os padres hoje, em larga escala, é indumentária. Tem padre que usa barrete, solidéu preto, é um fetiche indumentário que sequer é propriamente uma teologia tradicionalista, conservadora, apesar de serem conservadores, reacionários”. Ele não desanima, está empolgado com a primavera da Igreja promovida por Francisco: “Quando em 2013 aquele homem curvou-se para a multidão no dia do anúncio de seu nome, na praça São Pedro, nem precisei ir ao Google pra saber quem era; entendi que havia chegado um novo tempo”.

Um tempo novo que se abre depois da terra arrasada. Para ele, a ofensiva conservadora de 35 anos dos papados de João Paulo II e Bento XVI quase liquidou com a Igreja na América Latina e no Brasil, com a perseguição aos leigos, leigas, padres, freiras, teólogos, teólogas e até bispos vinculados à Igreja dos pobres, à Teologia da Libertação e, sobretudo, às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs): “Eles destruíram com a Igreja organizada em comunidades, pequenos círculos, inserida na vida das famílias pobres ao redor do país e da região”.

Entre outubro e novembro de 2016, padre Paulo sofreu uma campanha agressiva promovida por blogs católicos ultraconservadores. Motivo: ter recebido em celebrações na Igreja, durante a novena de Nossa Senhora do Carmo, pessoas como o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos, líder nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), a filósofa Marilena Chauí e, sobretudo, a drag queen Albert Roggenbuck (Dindry Buck). No caso da de Buck, os rigoristas deixaram de informar que a jovem é catequista em outra paróquia da região. Os integristas moveram intensa campanha de ódio contra o padre nas redes sociais, incentivaram um abaixo assinado pela remoção dele e mantiveram uma reunião constrangedora e inquisitorial com o bispo, dom Manuel Parrado Carral. Não deu em nada. “No abaixo assinado deles tinha até gente do Acre, no norte do país, mas aqui na paróquia pouquíssimas pessoas deram bola para isso”, afirmou padre Paulo. Em reportagem da TVCarta sobre as ações da paróquia, padre Paulo questionou: “Porque o Alckmin, por exemplo, chega e fala na basílica nacional (de Aparecida) e ninguém questiona?” (veja aqui).

Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa em duas rodadas de conversas, entre 12 e 16 de janeiro –todas as observações entre colchetes são intervenções do autor deste blog.

Caminho pra Casa: As celebrações na paróquia Nossa Senhora do Carmo estão sempre cheias e a mobilização da comunidade é sempre muito forte. O que acontece aqui?

Padre Paulo Sérgio Bezerra: Bem, talvez seja melhor dizer o que não acontece aqui. Aqui não tem ‘milagres’ nem se fala em línguas (risos). Há mais de 30 anos o que fazemos aqui é manter a linha do Vaticano II. Seis anos depois de minha ordenação decidi fazer pós-graduação em Liturgia e sempre procurei inspirar-me na renovação do Concílio que pretendeu uma caminhada litúrgica dinâmica, com o povo. Ao longo dos anos houve um enrijecimento litúrgico notável, que negou em boa medida o espírito do Vaticano II, ao lado do surgimento da onda de padres cantores e celebrações com acento neopentecostal, mas buscamos nos manter fiéis e eu tentei manter-me amparado no ensinamento de dom Paulo (Evaristo Arns) e dom Angélico (Sândalo Bernardino). Para eles, como filhos diretos do Vaticano II, a Liturgia deveria refletir e ser concretização de uma vida pastoral de compromisso com os pobres. Não se sacralizavam as normas litúrgicas, mas elas eram adaptadas à vida da Igreja como Povo de Deus. Com os anos a liturgia virou uma “vaca sagrada”; ninguém toca. E não tem mais vida, não pulsa.

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Pastoral Carcerária: “se colocassem cães e gatos nos presídios, tratados como as pessoas o são, teríamos milhões nas ruas”

Padre Valdir em visita a um presídio – foto de arquivo pessoal

O padre Valdir Silveira, coordenador da Pastoral Carcerária no Brasil, é uma das pessoas que mais conhecem o sistema prisional do país. São anos de escuta aos presos, presas, seus familiares, funcionários e autoridades. Ele não tem dúvida: “O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.” E completa: “se colocassem cães e gatos nos presídios brasileiros, tratados como as pessoas são tratadas atualmente, teríamos milhões nas ruas e mobilização mundial contra o Brasil.” Ele concedeu entrevista ao blog Caminho pra Casa na tarde desta segunda (10) pouco antes de embarcar para a região Norte.

Desde 2012 a autoridades carcerárias e os governos estaduais e federal são informados pela Pastoral sobre o barril de pólvora que são as prisões, em todo o país, com relatórios específicos sobre a região Norte, sem qualquer ação. “Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.“ Para ele, a declaração do ex-secretário nacional da Juventude (“Tinha que fazer uma chacina por semana”) foi a mais “autêntica” e “sincera”: “É o que o governo deseja, de fato. Ele caiu, mas foi o porta-voz do governo”.

Padre Valdir contesta a estatística oficial que posiciona o Brasil com a 4ª maior população carcerária; diz que ela está defasada e que o país já passou a Rússia. Dos quatro países com maior população aprisionada –EUA e China, além do Brasil e Rússia- apenas em um o número de presos cresce, exatamente o Brasil; nos demais, há diminuição ano a ano.

São mais de 6.500 agentes da Pastoral em todo o Brasil, atuando diuturnamente nos presídios e delegacias e testemunhando situações desde a violência física até a ausência de sabonete, papel higiênico –e absorvente íntimo para as mulheres. O que faz a Pastoral? “Nossa missão é em primeiro lugar evangelizar: uma ação na qual o anúncio de Cristo só existe se estamos implicados na vida digna das pessoas encarceradas. (…) Não podemos esquecer que nosso Mestre foi também um preso, e um preso torturado.“ Para ele, o Papa Francisco “é um profeta” também no tema carcerário.

Caminho pra Casa –  Como a Pastoral Carcerária avalia os massacres do início de 2017, com 64 mortos em Manaus (AM), entre 1 e 8 de janeiro e mais 33 mortes em Boa Vista (RR) , no dia 6?

Padre Valdir Silveira – Os massacres não foram uma surpresa. Desde 2012 a Pastoral Carcerária faz relatórios, encaminhados às autoridades, sobre a situação limite dos presídios no país, com destaque para os do Norte, tanto no Amazonas [aqui] como em Roraima [aqui]. O governo sabia do que podia acontecer. Há rebeliões em todo o país. Vimos o massacre de Pedrinhas (PI), que aconteceu em três ondas sucessivas, entre 2010 e 2013, com 97 mortes no total.

Há massacres em todo o país, e eles acontecem em grandes números, como vimos agora, ou em conta-gotas.  Mesmo nestes casos, do massacre continuado em aparente pequena escala, que sequer é notícia, os números quando consolidados são terríveis. E olhe que os levantamentos são todos precários, sempre subestimados. Aos presos pobres não é dado o direito nem mesmo de figurar em estatísticas.

Veja estes números, são chocantes: só no primeiro semestre de 2014, o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen) informou 565 mortes no sistema prisional, sendo mais ou menos metade delas classificada como intencionais, violentas –portanto, algo como 280. Isso apenas no primeiro semestre de 2014! E quer saber mais? Sem que os estados de São Paulo e Rio apresentassem seus dados! O governo de São Paulo, que tem um terço da população carcerária nacional, ignorou o levantamento federal! Em 2016 o governo Alckmin informou mais de 400 mortos no sistema penitenciário no Estado –e garantiu que apenas 17 teriam sido mortes violentas. Dá pra acreditar?

O sistema prisional brasileiro está estruturado para torturar e matar –para mais nada.

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No feminino repousa a esperança para 2017

O assassinato de Luiz Carlos Ruas e as três Marias: no alto, Raíssa, a travesti que escapou da morte e Maria Souza, a esposa; abaixo, Maria de Fátima, a irmã

A Igreja Católica celebra em todo primeiro dia do ano a solenidade de Maria, mãe de Deus -e é um paradoxo que numa instituição ainda hoje tão misógina (que tem aversão ao feminino) uma mulher ocupe o centro da liturgia que abre um novo tempo; nas missas, o Evangelho de Lucas descreve a cena da visita dos pastores à mãe, ao pai e ao Bebê e o relato que fizeram da aparição do anjo, que lhes proclamou haver nascido o Esperado (Lc 2,16-21).

Eles, os pastores, eram figuras marginais na sociedade judaica, desprezados, alguém como os vendedores ambulantes de hoje; eram tidos como impuros, pois passavam o tempo nos campos em meio a animais imundos, assim com os vendedores ambulantes de hoje que passam o dia em meio à fuligem e à brutalidade das ruas; eram os moradores do campo, assim como hoje há os moradores das ruas.

Talvez houvesse no grupo que visitou a pequena família há mais de dois mil anos um pastor de nome Luiz Carlos Ruas, o pastor-ambulante assassinado a pancadas na estação do metrô em São Paulo em 25 de dezembro de 2016. Um pastor-ambulante que ousou defender uma travesti moradora de rua, esta a última dentre últimas da sociedade.

Há um centro silencioso na cena do Evangelho: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19).

Há igualmente um centro silencioso na cena da morte de Luiz Carlos Ruas: três Marias, como a mãe do Bebê. Maria Souza Santos, que foi casada com Luiz por 33 anos; Maria de Fátima Ruas, sua irmã; e Raíssa, a travesti perseguida pelos assassinos, que teria sido morta se não fosse a coragem do pastor-ambulante.

O feminino guarda todos estes fatos, medita sobre a violência e contempla a esperança em seu no coração.

O menino nasceu, o homem morreu; os braços que os acolheram, os olhos que contemplaram e choraram são femininos. Maria, a de Jesus, como as Marias de Luiz Carlos Ruas, iria dobrar-se, anos depois do nascimento em Belém, sobre o corpo do filho igualmente assassinado, ambos –Jesus e Luiz- com uma coroa de pancadas cravada na cabeça.

2016 encerra-se sob o signo da violência de um sistema machista, misógino, homofóbico.

Ano em que homens com ódio e medo do feminino, em sua fixação por poder/dinheiro, destruíram a democracia (palavra feminina) com um golpe de Estado no Brasil para depor uma mulher; e liquidaram sociedades tradicionais em vários cantos do planeta, obrigando milhões a abandonarem suas casas para migrarem, numa política deliberada de extermínio que atingiu homens fragilizados e, sobretudo, mulheres, crianças e homossexuais.

A morte de Luiz Carlos Ruas é a expressão cruel e individual do drama de um país e um planeta aterrorizado pela violência do macho. Em sua vida/morte, estão condensados de maneira concreta/profética todos aqueles e aquelas que são as vítimas: negro, conhecido como Índio, com a sensibilidade e o abraço típicos do feminino, cidadão e amigo das pessoas das Ruas, respeitoso e solidário com gays, travestis, trans, crianças, doentes. Todas as gentes de Jesus.

Neste ano houve uma pequena luz: o despertar de um novo protagonismo do feminino. Marias e Raíssas assumiram a liderança nas Ruas do Brasil, da Polônia, nos Estados Unidos, Argentina, Palestina, em todo canto onde conseguiram confrontar o machismo-poder.

Marias e Raíssa. Com Luiz Carlos Ruas e todos os homens capazes do feminino: é para elas que se volta a esperança de 2017.

[por Mauro Lopes]