Um padre na Amazônia e o Sínodo: povos indígenas precisam ir a Roma

O padre Luis Miguel Modino (no destaque) e o Rio Negro

Luis Miguel Modino é um padre espanhol que deixou seu país para o desafio de ser missionário no Brasil no século 21. Hoje é pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma das maiores do Brasil, com 293 mil quilômetros quadrados. É o coração da Amazônia, no Estado do Amazonas. Na diocese mais de 90% são indígenas; são 23 povos indígenas e 18 línguas, sendo  o município de São Gabriel da Cachoeira o único a ter quatro línguas reconhecidas como oficiais.

Ele é voz mais que autorizada a falar sobre o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, que reunirá em 2019 bispos de todo o mundo, com especialistas e assessores e, espera-se, representantes dos povos indígenas da região. “Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas”, diz o padre Modino. Para ele, a surpreendente convocação do Sínodo “pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia” a partir da escuta “do grito da floresta e seus povos” –leia a entrevista dele ao Caminho Para Casa, concedida inicialmente há pouco mais de uma semana e completada neste domingo depois da surpresa do Sínodo(15).

Para o sacerdote espanhol apaixonado pelo Brasil e a Amazônia, o Sínodo é uma “oportunidade” que a Igreja da região “não pode perder”. Alguns dos pontos da agenda do Sínodo, segundo ele, devem ser as “questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas”. Duas questões cruciais para o Sínodo, na visão de Modino: 1) “a Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe”; 2) “Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico e que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós.”

Com 46 anos de idade, Modino está no país desde os 35, em 2006. É padre diocesano de Madri e missionário Fidei Donum, e coordenador para o Brasil da Obra de Cooperação Sacerdotal para Hispanoamérica (OCSHA), organismo da Conferência Episcopal Espanhola.  Durante nove anos esteve na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, antes de instalar-se em São Gabriel da Cachoeira.

Uma prática de seu trabalho pastoral são as itinerâncias, visitas que ele realiza –de barco- às comunidades da diocese, à beira dos rios Negro e Xié, que duram em geral uma semana. As fotos que acompanham a entrevista são todas de Modino, durante as breves viagens. Ele é jornalista, correspondente no Brasil de Religión Digital, o mais relevante site católico progressista em língua espanhola do mundo, com mais de três milhões de visitas/mês.

É uma união interessante essa, a do sacerdócio com o jornalismo: “Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador, penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos e das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.”

Leia a seguir a entrevista com Luis Miguel Modino:

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Salve Negra de Aparecida em seus 300 anos

Salve Negra de Aparecida cheia de graça e coragem.

Salve Mãe de Jesus e de Tiago, José, Simão e Judas. E de João e Sebastiana e tantas Marias, de Paulo, Pedro, Irene, Sandra, Madalena, Severina…

Salve Maria de Aparecida, que desatou as amarras dos altares ricos.

Salve Mulher de Aparecida, que se instalou nas favelas, nos cortiços, nas periferias, nas ruas.

Salve Presença de Aparecida, que acolhe seus filhos e filhas, homens, mulheres, gays, lésbicas, trans, queer, bissexuais, assexuais, celibatários e celibatárias, gentes de todos os caminhos.

Salve Consoladora de Aparecida, que dorme nas prisões, bordéis, bares, biqueiras e bocas.

Salve Alegria de Aparecida, que desfila no carnaval, que joga o congo, que dança a roda, que bate o pé no toré e no kuarup e se esbalda no maracatu, no frevo, no fandango, no carimbo, no bumba meu boi, no forró, no rap, no rock e no samba.

Salve Força de Aparecida, que navegou acorrentada nos porões dos navios negreiros, que foi arrancada de sua terra-mãe por bandeirantes cruéis, que sofreu com a chibata nas plantações, que sufocou nas senzalas, que foi amarrada no tronco.

Salve Santa de Aparecida nas igrejas, nos terreiros, nas  mesas, nas estantes, nos cantos, nas janelas, nos nichos e na zona.

Salve Beleza de Aparecida estuprada, agredida, humilhada, abandonada.

Salve Guerreira de Aparecida, que ensina as mulheres do seu povo a lutar e viver de cabeça erguida e olhos abertos.

Salve Nossa Senhora de Aparecida, que não se rendeu nesses 300 anos, não se deixou comprar por mantos luxuosos, joias e coroas e continua na estrada com os pobres do Brasil.

[Mauro Lopes]

 

Salve Mariama, que o pequeno santo Hélder Câmara cantou um dia assim:

Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens!

Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.

Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver.

Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu Filho não fique em palavra, não fique em aplauso.

Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.

Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.

Claro que seremos intolerados.

Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grande problemas humanos.

Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.

Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é Paz.

Basta de injustiça!

Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.

Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.

Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.

Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e o pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico.

Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.

De irmãos não só de nome e de mentira. De irmãos de verdade, Mariama.

Juiz manda soltar policiais do massacre de Pau D’Arco

Para os trabalhadores ruais, massacre; para os policiais, liberdade para matar. Foto de alguns dos assassinados em Pau D’Arco

Uma decisão insólita causa terror entre os trabalhadores rurais da região de Redenção, no Pará: um juiz substituto determinou ontem (8) a soltura imediata dos 13 policias do massacre de Pau D’Arco. Em 24 de maio, na Fazenda Santa Lúcia, dez trabalhadores rurais foram torturados e mortos a tiros por uma tropa de policiais civis e militares. Não bastaram as ameaças dos policiais a testemunhas e familiares dos mortos; não bastou o assassinato de Rosenildo Pereira de Almeida, outro líder da ocupação, 40 dias depois do massacre. Para o Judiciário, os policiais podem circular livremente e vociferar ameaças.

Um juiz substituto da Vara Criminal de Redenção, Jun Kubota, decidiu soltar todos, três dias antes de vencer o prazo da prisão temporária determinada pelo juiz titular, Haroldo Fonseca, que havia saído em férias. O Ministério Público solicitou a prorrogação da prisão, mas o juiz substituto ignorou. A medida tinha como objetivo assegurar  investigações minimamente livres de interferência e resguardar os familiares dos mortos, assim como líderes dos movimentos sociais na região. Estão todos novamente à mercê da violência sem freio. Em nota conjunta, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, a Justiça Global e a Terra de Direitos informaram que irão pedir a federalização do caso à Procuradoria Geral da República: “A impunidade que prevaleceu em relação aos acusados do Massacre de Eldorado dos Carajás não poderá se repetir no caso do Massacre de Pau D’Arco. O caminho para um processo isento pode ser a federalização do caso, o colocando a cargo da Justiça Federal, que certamente não dará um andamento com decisões como a de ontem, que colocam vidas de familiares, testemunhas e demais pessoas envolvidas no processo em risco.”

A liberação dos acusados se torna ainda mais estranha por ter ido em uma direção completamente oposta da tomada pelo juiz titular da vara, Haroldo Fonseca; Kubota assumiu o caso por causa das férias dele. O promotor Leonardo Jorge Lima Caldas lamentou a decisão e deixou claro que ela afetará as investigações. “Temos diversas testemunhas que apenas falaram após a prisão temporária. As investigações caminharam muito após isso. A soltura dos acusados certamente afetará o nosso trabalho”, afirmou o promotor, um dos três que cuidam da investigação.

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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Jesuítas do Brasil alinham-se ao Papa; atacam ricos e governo Temer, que serve para “atender ao mercado”

    Os jesuítas em sua Assembleia em Itaici – foto da sessão de abertura, em 25 de julho

Os jesuítas do Brasil encerraram sua II Assembleia Nacional nesta quinta (27) com um salto de qualidade em relação à sua posição quanto ao Brasil e manifestaram seu alinhamento integral ao Papa Francisco, igualmente jesuíta, o que vinham fazendo de maneira tímida nos últimos três anos. Afirmaram sua “indignação diante da maneira como as classes dominantes conduzem as crises econômica, social e política que assolam o país e afetam a população brasileira, sobretudo os mais empobrecidos”; explicitaram sua adesão à visão do Papa quanto à “idolatria do dinheiro”; acusaram “os ajustes desse (des)governo para atender ao mercado”; e denunciaram a criminalização dos movimentos sociais.

O encontro reuniu por três dias 340 dos 490 membros da Companhia de Jesus no Brasil na Casa de Retiros Vila Kostka, em Itaici (Indaiatuba/SP), tradicional centro de encontros da Ordem. O posicionamento é resultado da reorganização da Companhia de Jesus no país. Desde 2014 (um ano depois da eleição de Francisco), as três províncias existente foram unificadas na Província dos Jesuítas do Brasil – BRA e iniciou-se então uma lenta aproximação às posições do Papa e à liderança global jesuítica, com clara adesão à caminhada com os pobres, crítica ao capitalismo e radicalização na leitura do Evangelho. Até então, os jesuítas no país estavam voltados sobretudo às suas centenas de instituições educacionais (escolas e faculdades), com relacionamento privilegiado com as camadas médias da população, além de algumas importantes frente de ação na Região Missionária da Amazônia e periferias de algumas cidades.

A primeira expressão pública da renovação do posicionamento dos jesuítas foi o apoio ao Dia Nacional de Mobilização de 15 de março de 2017 contra o desmonte do Estado pelo do governo Temer (aqui), mas foi uma nota tímida, se comparada com a de agora.

Durante o encontro, os jesuítas tomaram importante decisão que não foi formalizada, mas tornou-se um pacto entre todos: apoiar decididamente o magistério do Papa Francisco e sua visão pastoral e eclesial. O pacto dos jesuítas poderá contribuir e muito para que a Igreja continue a despertar e reencontrar sua missão no Brasil.

A nota aprovada ontem contém, a partir das posições de Francisco, uma dura condenação ao espírito do capitalismo: “A idolatria do dinheiro, de acordo com o Papa Francisco, dá primazia ao mercado, tanto em detrimento da pessoa humana como em detrimento do trabalho (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Não é justo submeter o Estado ao mercado, em nome da retomada do desenvolvimento. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica do capital financeiro. Como nos adverte o Papa Francisco, ‘o dinheiro é para servir e não para governar’ (Evangelii Gaudium 58)”.

Os jesuítas condenaram as reformas trabalhista e da Previdência, criticaram o aprofundamento da desigualdade no país, anotando que “muita gente, que tinha saído da miséria e da pobreza, está voltando à assistência social” e apontaram o “poder manipulador dos meios de comunicação social”.

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Padre Júlio Lancelotti pedirá proteção à Anistia Internacional

Júlio Lancelotti abençoa na Sé carroça de Ricardo Nascimento, na missa de sétimo dia de seu assassinato pela PM

Vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo desde o fim do século passado, padre Júlio Lancelotti pensou que já tinha visto de tudo em sua caminhada com os moradores e moradoras das ruas da metrópole. “Mas o que a cidade está vivendo agora nunca vi”, disse ele na tarde desta quarta (27) ao Caminho Pra Casa. “O extremismo dos últimos tempos, agravado por uma atuação sectária da Prefeitura, deu sinal verde, liberou o extermínio daqueles que a direita vê como o lixo da cidade”, desabafou o sacerdote. Por isso, padre Júlio decidiu que irá pedir proteção à Anistia Internacional ao povo da rua e àqueles que, como ele, têm sofrido inúmeros ataques nos últimos meses.

O mês de julho tem sido particularmente dramático para o povo da rua em São Paulo. No dia 12 de julho, no fim da tarde, o catador de material reciclável Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro, foi executado com pelo menos dois tiros na altura do peito por um policial militar branco. O crime aconteceu num bairro tradicional de classe média e alta na zona oeste da cidade, Pinheiros. Ricardo era muito estimado pelos moradores da região que não tiveram seu coração endurecido e os ouvidos fechados ao sofrimento dos mais pobres. Uma semana depois, muitos deles acorreram à missa de sétimo dia de Ricardo, na catedral da Sé, que imediatamente trouxe à mente o culto ecumênico de 31 de outubro de 1975, em memória de Vladimir Herzog e protesto por sua morte pelos militares.

Piauí, poucos dias antes de morrer

No dia seguinte à missa de sétimo dia pela morte de Ricardo, seu amigo e também morador de rua Gilvan Artur Leal, o Piauí, morreu na Santa Casa de São Paulo, alegadamente de um AVC. Ele foi a principal testemunha do assassinato de Ricardo e foi torturado pelos PMs em plena rua, por protestar contra o crime: em nota assinada por algumas dezenas de moradores do bairro, eles relataram que os policiais obrigaram Piauí a esticar as mãos sobre a calçada e pisotearam seus dedos, aos gritos de “sai daqui que vai sobrar pra você”. Na mesma nota, os moradores contaram que Piauí ficara profundamente abalado, chorava diariamente e relatava ter medo das ameaças que tinha sofrido da PM. Ao lado da carroça do Ricardo, dizia para os moradores da região: “mataram meu irmão, e eu sou o próximo”.

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Milícia ataca acampamento de sem-teto animado pela Igreja em Crateús (CE)

A linguagem dos ricos: agressões a homens, mulheres e crianças e fogo na madrugada em Crateús.

Uma milícia com 30 homens armados invadiu e destruiu no início da madrugada desta quarta (26) o Acampamento Carlos Leite, que abriga 50 famílias numa área pública municipal na periferia de Crateús (CE).  O acampamento é liderado pela Frente Social Cristã, uma organização fundada há 50 anos na cidade, inicialmente por iniciativa da Igreja Católica e hoje integrada também por protestantes, espíritas e pessoas das diversas religiões afro, com um protagonismo marcante das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).  Homens e mulheres foram agredidos, vários deles precisaram ser hospitalizados, e as barracas foram incendiadas quando ainda havia crianças dormindo em seu interior.

A ação foi comandada por Assis Oliveira, corretor de imóveis da cidade, que afirmou estar no local a mando da empresa Mãe Rainha Urbanismo, que tem um empreendimento vizinho à área municipal.  Apesar de o ataque ter durado mais de meia hora, não houve presença da PM nem da Polícia Civil no local. Um dos líderes da Frente Social Cristã, Marcos Eldênio, afirmou ao Caminho Pra Casa que “foi tudo muito triste. Aqui é uma área pública municipal, não pertence ao empreendimento Mãe Rainha. Uma milícia de 30 homens invadiu o acampamento de madrugada para bater nos trabalhadores e trabalhadoras, ateou fogo nas barracas com crianças dentro, uma violência sem tamanho. As famílias estavam aqui pacificamente, num processo de diálogo com a Prefeitura e esses milicianos vieram aqui para intimidar? Para quê? Vão querer tomar a área pública para o empreendimento deles?”.

Veja o vídeo feito pelas famílias logo depois do ataque:

No começo da tarde as famílias começaram a reconstruir o acampamento e, às 17h, teve início uma celebração, para onde acorreram pessoas das pastorais sociais da Igreja Católica, assim como padres e diáconos, pastores e fiéis de outras igrejas, das CEBs da região e de movimentos sociais como o MST. “Vamos reconstruir”, disse Eldênio. Ele contou que nos 50 anos da Frente Social Cristã a organização liderou dezenas de ocupações que deram origem a bairros hoje considerados tradicionais em Crateús: “os pobres daqui sabem que têm direito a moradia digna e lutam por isso”.

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Francisco acendeu a chama; e a Igreja-pipoca!

Celebração durante a 40ª Romaria da Terra e das Águas, em Bom Jesus da Lapa (BA), organizada pelas CEBs, CPT e movimentos populares organizados em várias dioceses baianas, com mais de 6 mil romeiras e romeiros, entre 7 e 9 de julho. Foto de Thomas Bauer/ CPT Bahia.

Não gosto de pipoca. E, por isso, sou visto como um estranho em minha família. Já me acostumei com os olhares de incompreensão toda vez que “não, obrigado, não gosto mesmo de pipoca”. Não sei, parece-me sem gosto, a textura é estranha. Não sei. Vai ver que é algum trauma da infância. Entretanto, mesmo não gostando de comer, sinto-me maravilhado toda vez que se faz pipoca em casa –e isso acontece muitas vezes por semana!

É um pequeno milagre.

No começo, não há nada, só o fogo aceso. Então uma pipoca estoura. Depois outra, mais uma, outra mais e de um instante para outro é uma profusão de múltiplas explosões. Quando se abre a panela, o que era um fundinho de grãos amarelos tornou-se uma abundância transbordante. É assim –finalmente- com a Igreja sob a liderança de Francisco.

Em 2013, Bergoglio acendeu a chama sob a panela com muitos grãos de aparência inerte, adormecidos, imóveis. Grãos mantidos guardados, trancados no armário por muito tempo. Então o calor começou a fazer efeito. Como cantou Caetano, tem pipocado aqui, ali, além. Pipoca, pipoca, até que a manhã começou a desanoitecer.

E temos de novo a Igreja-pipoca!

A ideia me veio imediatamente à cabeça quando recebi a notícia de que no próximo domingo (30) haverá missa e festa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.  Às 17h, padre Natanael de Moraes irá presidir a celebração em homenagem a seus 51 anos de sacerdócio. Ele estará de volta à cidade 47 anos depois de ser preso e barbaramente torturado durante a ditadura militar. Padre Natanael, agora no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG) era, na virada dos anos 1960/70, religioso verbita, diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda e um dos líderes católicos ao redor de dom Waldyr Calheiros (1923-2013), bispo de Volta Redonda e Barra do Piraí.

Dom Waldyr (à direita), num dos inúmeros depoimentos a que foi convocado pelos militares durante a ditadura

Dom Waldyr foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas que reuniu 40 padres e bispos durante o Concílio Vaticano II: todos assumiram o compromisso de uma vida pobre com os pobres. Ao lado de dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e outros formou a linha de frente da Igreja Católica contra a ditadura e protagonista da Teologia da Libertação.

Ambos, dom Waldyr e padre Natanael, conheceram no final dos anos 60 Estrella Bohadana, uma jovem de 19 anos, militante da Política Operária (Polop) na resistência à ditadura. O sacerdote e Estrella reencontraram-se em 1970 nas salas de tortura do antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindado, em Barra Mansa/RJ. Foram submetidos a torturas brutais, de todo tipo.

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É preciso um programa mínimo para mudar o país e a vida das pessoas

O Cais Estelita,  foco e centro de uma mobilização histórica no Recife, para que o que é do povo sirva a ele e não aos ricos. Foto de Gilmar Moreira/2014

O Brasil está metido numa das maiores enrascadas de sua história. O golpe que levou os ricos ao governo está destruindo o Brasil em ritmo vertiginoso.

O desemprego massacra quase 15 milhões de pessoas, a fome voltou a rondar o dia a dia dos mais pobres e estima-se que 20 milhões de pessoas terão renda inferior a 5 reais/dia até o final de 2017, o fim da CLT ameaça o retorno a termos contratuais para o trabalho similares aos do período da escravidão, os gastos com saúde e educação para os mais pobres estão em queda livre, e ronda a ameaça do fim da aposentadoria para os mais frágeis.

É uma verdadeira hecatombe econômica e social detonada por uma elite sem projeto para o país e que vive às custas dos juros que o Estado lhes paga –a única despesa governamental que não foi cortada depois do golpe.

Como superar a crise de maneira positiva para o povo, num cenário de derrotas sucessivas de seus representantes, dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais? Como retomar o diálogo entre a esquerda/segmentos progressistas e a grande e sofrida massa da população, que vive um momento de apatia, encolhimento e entorpecimento pelo massacre midiático promovido pelos meios de comunicação de propriedade e a serviço dos ricos?

Como mudar a maré em favor dos mais pobres?

É preciso um programa que dialogue com as pessoas, que faça sentido para suas vidas cotidianas, que de fato abra perspectivas de um futuro melhor.

É hora de apresentar uma agenda compacta, factível, inteligível, que deve ser apresentada ao povo brasileiro de maneira massiva, insistente, que se torne conversa nas famílias, nas escolas, nos bares, nas ruas.

Uma plataforma para mobilizar, para vencer eleições, para unificar a reivindicação dos movimentos sociais. Um projeto para o país.

Poucas medidas. Linguagem simples. Que fale ao coração das pessoas e desperte um sentimento, uma expressão de “ah, mas é isso mesmo!”.

Aqui está uma sugestão para esta plataforma. Cinco pontos apenas. Não pode ter mais. Tem que ser simples, capaz de ser recitado de cabeça e coração.

Este programa não elide a possibilidade de outros projetos, para outras áreas, sobre temas diversos. Mas eles devem ser subordinados aos cinco que são a oferta da esquerda e dos progressistas para o país.

Que pontos podem compor este programa? Segue um rascunho, que deve ser conversado, dialogado, pensado. Só tem uma regra: pode ficar menor e mais enxuto, nunca maior.

O que fazer para que o Brasil seja apropriado por seu povo?

  1. Plebiscito para todas as medidas aprovadas pelo Congresso durante o governo Temer –o povo deve decidir sobre seu futuro. A Constituição de 1988 é a referência institucional do país.
  2. Retomada do crescimento e combate ao desemprego com programa de renda cidadã para toda a população, investimentos públicos prioritários em educação pública e no SUS.
  3. Limites para o pagamento de juros aos ricos e redução da taxa de juros para favorecer investimentos produtivos.
  4. Reforma agrária e urbana, para garantir terra, moradia e transporte barato.
  5. Combate incansável à corrupção e a todo o desvio de dinheiro que é do povo e deve ser destinado a ele.

A situação é dramática. Mas não é uma condenação eterna, não é uma sentença de morte, não é o fim do caminho.

É possível abrir um novo caminho, regar a esperança, fazer a hora.

[Texto coletivo rascunhado por Mauro Lopes, depois de uma conversa/aprendizado com Antônio Martins, Artur Araújo, Gilberto Maringoni e Igor Fuser]