É preciso um programa mínimo para mudar o país e a vida das pessoas

O Cais Estelita,  foco e centro de uma mobilização histórica no Recife, para que o que é do povo sirva a ele e não aos ricos. Foto de Gilmar Moreira/2014

O Brasil está metido numa das maiores enrascadas de sua história. O golpe que levou os ricos ao governo está destruindo o Brasil em ritmo vertiginoso.

O desemprego massacra quase 15 milhões de pessoas, a fome voltou a rondar o dia a dia dos mais pobres e estima-se que 20 milhões de pessoas terão renda inferior a 5 reais/dia até o final de 2017, o fim da CLT ameaça o retorno a termos contratuais para o trabalho similares aos do período da escravidão, os gastos com saúde e educação para os mais pobres estão em queda livre, e ronda a ameaça do fim da aposentadoria para os mais frágeis.

É uma verdadeira hecatombe econômica e social detonada por uma elite sem projeto para o país e que vive às custas dos juros que o Estado lhes paga –a única despesa governamental que não foi cortada depois do golpe.

Como superar a crise de maneira positiva para o povo, num cenário de derrotas sucessivas de seus representantes, dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais? Como retomar o diálogo entre a esquerda/segmentos progressistas e a grande e sofrida massa da população, que vive um momento de apatia, encolhimento e entorpecimento pelo massacre midiático promovido pelos meios de comunicação de propriedade e a serviço dos ricos?

Como mudar a maré em favor dos mais pobres?

É preciso um programa que dialogue com as pessoas, que faça sentido para suas vidas cotidianas, que de fato abra perspectivas de um futuro melhor.

É hora de apresentar uma agenda compacta, factível, inteligível, que deve ser apresentada ao povo brasileiro de maneira massiva, insistente, que se torne conversa nas famílias, nas escolas, nos bares, nas ruas.

Uma plataforma para mobilizar, para vencer eleições, para unificar a reivindicação dos movimentos sociais. Um projeto para o país.

Poucas medidas. Linguagem simples. Que fale ao coração das pessoas e desperte um sentimento, uma expressão de “ah, mas é isso mesmo!”.

Aqui está uma sugestão para esta plataforma. Cinco pontos apenas. Não pode ter mais. Tem que ser simples, capaz de ser recitado de cabeça e coração.

Este programa não elide a possibilidade de outros projetos, para outras áreas, sobre temas diversos. Mas eles devem ser subordinados aos cinco que são a oferta da esquerda e dos progressistas para o país.

Que pontos podem compor este programa? Segue um rascunho, que deve ser conversado, dialogado, pensado. Só tem uma regra: pode ficar menor e mais enxuto, nunca maior.

O que fazer para que o Brasil seja apropriado por seu povo?

  1. Plebiscito para todas as medidas aprovadas pelo Congresso durante o governo Temer –o povo deve decidir sobre seu futuro. A Constituição de 1988 é a referência institucional do país.
  2. Retomada do crescimento e combate ao desemprego com programa de renda cidadã para toda a população, investimentos públicos prioritários em educação pública e no SUS.
  3. Limites para o pagamento de juros aos ricos e redução da taxa de juros para favorecer investimentos produtivos.
  4. Reforma agrária e urbana, para garantir terra, moradia e transporte barato.
  5. Combate incansável à corrupção e a todo o desvio de dinheiro que é do povo e deve ser destinado a ele.

A situação é dramática. Mas não é uma condenação eterna, não é uma sentença de morte, não é o fim do caminho.

É possível abrir um novo caminho, regar a esperança, fazer a hora.

[Texto coletivo rascunhado por Mauro Lopes, depois de uma conversa/aprendizado com Antônio Martins, Artur Araújo, Gilberto Maringoni e Igor Fuser]

Três acampamentos do MST estão sob ataque

Destruição impiedosa em Conceição da Barra (ES) -foto MST

Ataques brutais sucessivos no campo brasileiro neste começo de semana: dois acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Minas e no Pará estão enfrentando, nos últimos dias ataques de pistoleiros com proteção de tropas da Polícia Militar; um acampamento no Espírito Santo sofreu na segunda (17) um despejo violento em ação da Polícia Militar que prometia mais ações para esta terça;  uma comunidade pesqueira aguarda a qualquer momento uma violenta reintegração de posse em Minas. As informações são do MST, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Pastoral dos Pescadores-MG, também da CNBB.  A brutalidade no campo brasileiro aumenta a cada dia desde o golpe. Já são 48 os assassinados em ações de pistoleiros, da PM e Polícia Civil em vários Estados, desde o  início de 2017.

O primeiro acampamento do MST a sofrer ataque está localizado na Fazenda São José/Liberdade, em Coronel Pacheco (MG), sob ataque desde a última sexta-feira. Depois de invadirem o acampamento os pistoleiros e policiais militares atearam fogo nos arredores do acampamento na segunda, posicionando-se de armas em punho atrás do acampamento, para impedir as famílias de combaterem o fogo. As ações violentas prosseguiram nesta terça (18).

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As mulheres que mantêm a luz acesa – por Ivone Gebara

No plenário do Senado às escuras, as mulheres senadoras mantiveram acesa a luz do Brasil dos pobres, enquanto os senadores homens ricos arquitetavam a volta da escravidão. Foto de Lula Marques

Um artigo inédito da teóloga brasileira Ivone Gebara, freira da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, doutora em Filosofia e Ciências da Religião e respeitada em todo o mundo (saiba mais sobre ela ao fim do artigo):

* * *

“Enquanto alguns protestam a caravana passa…”

A imagem usada pelo ‘presidente’ Temer para celebrar a aprovação pelo Senado da Reforma Trabalhista ontem foi de uma fina crueldade. Qual é a caravana que passa? E passa onde? E passa sobre quem?

Passa sobre corpos estendidos, sobre corpos famintos e sofridos que reclamam por casa, terra, trabalho e pão. A caravana passa, massacra e mata porque os cavaleiros e os cavalos estão gordos de tanto comerem a comida do povo. Os cavaleiros armados e com armaduras são mantidos por outros de corpos sutis que de seus escritórios em qualquer lugar do mundo jubilam de alegria diante da vitória expressiva de Mamon. É Mamon sua divindade suprema. Por ele sacrificam vidas que nada significam para seu culto e sua glória. É Mamon que governa seu mundo. Os políticos do governo são títeres de Mamon. São seus servos que apenas o ajudam a engordar seus cofres, suas Bolsas e dominar a terra em troca de benefícios que o fogo e as traças um dia comerão.

Não gozarão individualmente de seus roubos. A bendita morte os alcançará. Um AVC, um infarto fulminante, um tumor maligno, um desastre inesperado, uma diarreia incontrolável os eliminarão. Mas enquanto isso não acontece imaginam-se imortais. Creem em seu poder. Corrompem-se mutuamente para gozar num instante breve das deliciosas iguarias recebidas pela glorificação de Mamon. Recebem seus prêmios agora, enquanto o povo lazarento come migalhas caídas de suas mesas. Falam de humanidade e de respeito na medida em que estas palavras lhes servem. Banalizam-nas para aparecerem como cidadãos justos e dignos. Enganam os incautos e os que já não têm mais forças para entender o que está acontecendo no país e no mundo.

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Papa: sindicatos não podem abandonar a profecia e se tornarem parecidos com o sistema

O Papa com sindicalistas no Vaticano, na manhã desta quarta (28)

O Papa fez um contundente discurso aos participantes do XVIII Congresso Nacional da Confederação Italiana dos Sindicatos de Trabalhadores (Cisl, na sigla em italiano) na manhã desta quarta (28) no Vaticano e advertiu sobre o risco de cooptação das entidades sindicais pelo sistema: “Em nossa sociedade capitalista avançada o sindicato corre o risco de se extraviar de sua natureza profética de defender os últimos e parecer-se com as instituições e poderes que deveria criticar”. Francisco apresentou de maneira surpreendente uma visão profunda e questionadora sobre o tema dos sindicatos no mundo hoje.

Para o Papa, a crise dos sindicatos deve-se a um duplo movimento, do combate que lhes move do sistema capitalista e, ao mesmo tempo, da acomodação de dirigentes sindicais e da estrutura das entidades em relação à causa dos mais fracos na sociedade: “O capitalismo de nossos tempos não compreende o valor dos sindicatos porque esqueceu a natureza social da economia, das empresas, da vida, das ligações e dos pactos. Mas, talvez, a nossa sociedade não compreenda os sindicatos porque não os veem lutar onde ainda ‘não há direitos’: nas periferias existenciais”.  E acrescentou: “Os sindicatos, com o passar dos tempos, acabaram tornando-se muito parecidos com a política, ou melhor, com os partidos políticos, à sua linguagem e ao seu estilo. E se faltar a sua verdadeira dimensão, eles perdem força e eficácia”.

Francisco convocou os dirigentes sindicais a encararem seu “desafio histórico”.  Isso significa, segundo Bergoglio, “dar voz a quem não a tem”, defender a causa dos refugiados “e dos descartados” e “desmascaram os poderosos que pisoteiam os direitos dos trabalhadores mais frágeis”. Entretanto, denunciou o Papa, “o meio sindical, com o passar do tempo, terminou ficando parecido demais com a política, com os partidos, em sua linguagem e estilo”.

Os sindicalistas devem ser “sentinelas”  que protejam aos empregados mas ao mesmo tempo devem dirigir sua atenção “aos excluídos do trabalho” que são ”excluídos também dos direitos da democracia”. A vida sindical precisa, segundo o Papa, cuidar “das periferias existenciais” para converter “as pedras descartadas da economia em pedras angulares”.

Ao fim do discurso, Francisco lembrou que a palavra sindicato procede do grego e seu significado original era “justiça juntos”. E completou: “Não há justiça se ela não está ao lado dos excluídos”.

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10 fatos estarrecedores sobre o massacre de Pau D’Arco

Há 20 anos, os pobres choravam os 19 mortos de Eldorado dos Carajás (na foto). Agora choram os 10 assassinados em Pau D’Arco. Em de todo o país, a dor, o choro, o desconsolo dos pobres massacrados pelos ricos. Foto: CNBB

O que aconteceu na fazenda Santa Lúcia em Pau D’Arco (PA), em  24 de maio foi um dos mais brutais massacres da história do país. Dez trabalhadores rurais (nove homens e um mulher) foram assassinados depois de caçados e torturados por uma tropa de mais de 30 policiais civis, militares e paramilitares (seguranças privados), todos a soldo dos fazendeiros da região, no sul do Pará. Veja 10 fatos estarrecedores sobre a chacina de menos de um mês atrás:

1. Os trabalhadores foram mortos com tiros frontais, a maioria deles à queima-roupa, na cabeça e no peito, característicos de morte por execução;

2. Quase todos foram cruelmente torturados antes de serem mortos. Os policiais e paramilitares xingavam e riam muito enquanto torturavam e matavam os trabalhadores, segundo os sobreviventes;

3. Apesar de o governo Simão Jatene (PSDB) ter afirmado que houve um “confronto” na fazenda, os laudos do Centro de Perícias científicas Renato Chaves atestam que não havia vestígio de tiro em nenhum dos coletes usados pelos assassinos;

4. Nenhum dos assassinos, policiais ou seguranças, sofreu qualquer ferimento;

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Papa oficializa Dia Mundial dos Pobres: denúncia da “riqueza descarada nas mãos de poucos privilegiados”

Francisco em visita a uma comunidade de pobres da América Latina na periferia de Roma, em 2016

O Papa Francisco oficializou a iniciativa que havia anunciado no encerramento do Ano Santo da Misericórdia, em novembro último, e marcou para 19 de novembro a celebração do primeiro Dia Mundial dos Pobres. Ele acontecerá todos os anos no 23º Domingo do Tempo Comum, no Ano Litúrgico católico. A mensagem sobre a data foi divulgada propositadamente hoje, dia de Santo Antônio, um homem de vida pobre entre os pobres. Nela, o Papa acusou de maneira enfática “a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana”. Diante desta injustiça, escreveu Francisco “não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado”.

No texto, cuja íntegra você pode ler aqui ou logo abaixo, o Papa lembra que a opção pela partilha radical está na origem do cristianismo:  “a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).”

Francisco escolheu dois textos do Novo Testamento para indicar 1) que aos cristãos a partilha  dos meios de produção (a terra, na ocasião) e das riquezas (bens e dinheiro) é condição sine qua non para o seguimento de Jesus e 2) que os ricos são causa de sofrimento dos pobres:

“’Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um’ (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação.”

“Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: ‘Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tia 2, 5-6.14-17).

Um aspecto relevante no texto de Francisco é convocação à superação das noções tradicionais de benemerência e filantropia que enxergam os pobres como objeto de supostas boas ações de supostas pessoas de bem. Escreve o Papa:

“Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida.”

Ao fim de sua carta, Francisco vincula a compreensão do Evangelho à relação com os pobres: “Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.”

[Mauro Lopes]

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Doria e a Cracolândia: a questão não é gente, é GRANA; um roteiro do caso

Cracolândia: tiros e bombas contra doentes

A drogadição é um tema de extrema delicadeza, que envolve histórias de sofrimento para milhões de pessoas. Uma doença que arrasa os dependentes e destroça suas famílias, em geral afetadas pela doença dramática da codependência.  Mobiliza sentimentos de compaixão e raiva. Uma onda de repulsa perpassa amplos segmentos da sociedade, que nutrem nojo/ódio àqueles que, com sua doença, denunciam nas Cracolândias em todo o planeta a normalidade controlada, domesticada. Eles são lixo para o status quo -o que cabe é removê-los..

Com a legitimidade social que o discurso do ódio e do salve-se quem puder conquistou nos últimos anos, a instrumentalização dos medos e fantasmas abriu espaço ao tratamento que o lixo deve ter: remoção. É nesse mar de sofrimento e dor que surfa o prefeito de São Paulo, João Doria. Ele promete ordem, paz, remoção do lixo. O mesmo discurso do higienismo nazista, o mesmo discurse a “loucura” do século 18, agora com novo alvo. Seu moto verdadeiro não são as pessoas ou a situação dramática em que vivem. O tema de fundo de Doria é a Nova Luz –um negócio de bilhões que irão para os bolsos de construtores, operadores financeiros, lobistas, amigos e amigas, para as famiglie.

A questão, para Doria e os seus, não é gente, é grana, muita grana. O prefeito imaginou que poderia mobilizar a dor, o medo e os fantasmas para sua “faxina”, deixando o terreno livre para a negociata. O império das coisas, não a sociedade das pessoas. Conseguirá?

Um breve roteiro para entender a ação do prefeito ou, mais exatamente, da dupla Alckmin/Doria que retomam um projeto de anos atrás, da dupla Alckmin/Kassab. Não há diferença de projeto, mas de intensidade e ritmo, pois a voracidade é característica conhecida de Doria nos meios empresariais e, agora, políticos.

TROPAS CONTRA PESSOAS DOENTES – A CRACOLÂNDIA ACABOU?

Num domingo (21 de maio), enquanto a cidade via morrer pela ação de Doria uma de suas festas mais relevantes, a Virada Cultura, o governo do Estado e a Prefeitura mobilizaram uma tropa de cerca de mil homens com armamentos pesados e disposição para a guerra. Quem eram os inimigos? Doentes adictos de crack, esquálidos e indefesos, e meia dúzia de traficantes pé de chinelo.

A versão divulgada pela polícia e amplificada pelo prefeito e o governador com aceitação acrítica da mídia conservadora tentou vender a ideia de que a ação fora uma guerra. Ora afirmaram terem sido presos 28 traficantes, ora 29, ora 39; o Estadão, a linha de frente do reacionarismo mais tacanho chegou a postar uma manchete delirante:  Líderes do PCC são presos durante megaoperação na Cracolândia.

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Os Marinho, as ruas, Temer, mídia e luta de classes

Tirar Temer no tapetão e com eleições indiretas como querem os Marinho é muito diferente de derrubá-lo nas ruas e com diretas já

Veja que interessante. A Globo quer a renúncia de Temer. A esquerda, os movimentos sociais, os sindicatos querem a renúncia/derrubada do presidente golpista.
Ora, não seria razoável imaginar uma aliança, ainda que pontual entre a Globo e os movimentos sociais/a esquerda? Todos não querem o mesmo, a queda de Temer?
Não seria razoável pensar que a Globo devesse repetir o que fez ao convocar de maneira persistente, intensa, os movimentos de rua contra Dilma, em 2015/2016? Ora, hoje (21) há manifestações de rua convocadas em todo o país, assim como na quarta (24), quando há uma marcha sobre Brasília e os Poderes corruptos e traidores da democracia.
A Globo não deveria estar convocando maciçamente essas manifestações? Não é evidente que se a postura da Globo se repetisse haveria uma enorme potencialização dos protestos de rua pela queda de Temer? Então por que há silêncio, porque há veto dos Marinho e seus capatazes em relação às manifestações de agora?
Porque a posição de cada qual está perpassada por seu caráter de classes.
Os Marinho e sua turma querem a saída de Temer para que tudo fique como está, para que as reformas prossigam, que os pobres sejam ainda mais esfolados. Os Marinho são a personificação do príncipe de Falconeri, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa, na metade do século 20: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”.
Para isso, é fundamental derrubar Temer e fazer uma transição sob controle dos ricos, com uma eleição indireta no Congresso comandado por eles (mais da metade dos parlamentares tiveram seus mandatos comprados pelos grandes grupos empresariais, como o megadelator Joesley Batista revelou). É preciso que o Judiciário faça sua parte e tenha tempo de vetar Lula de concorrer às eleições, é preciso manter as chaves da senzala nas mãos.
Os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda querem derrubar Temer para mudar radicalmente a orientação do país. Querem eleições diretas -de preferência eleições gerais com proibição taxativa do patrocínio/compra empresarial de candidaturas.
Por isso a Globo não convoca os protestos de rua. Ela morre de medo de perder o controle. Quanto ao Estadão Folha, Bandeirantes e outros, esses continuam cães de guarda do golpe, ao lado de outra fração dos ricos -a Abril está que nem barata tonta. Em parte porque têm medo do que pode acontecer no processo de queda de Temer; mas em verdade, desesperados por seus acordos sigilosos que envolvem dezenas, centenas de milhões de reais com Temer para salvá-los da bancarrota -Otavinho, os Saad, os Civita e outros são como Joesleys que negociam outro tipo de carne.
Estamos vivendo um momento duro, tenso, de intenso sofrimento para os pobres e algumas esperanças, um momento raro em que um fato abalou uma correlação de forças que estava estratificada.
Estamos também assistindo uma aula a céu aberto sobre luta de classes.

[Mauro Lopes]

E era tudo ódio a Lula e aos pobres

O ódio dos ricos e de amplos segmentos da classe média não se volta aos corruptos: os pobres e Lula são seus alvos

A implosão do governo golpista de Temer revela com transparência o caráter do que aconteceu no país nos últimos três anos, especialmente depois que Aécio Neves convocou as elites à derrubada de Dilma, ainda na noite do segundo turno, em 26 de outubro de 2014. Nesse tempo, as mídias conservadoras em aliança com os representantes das elites incrustados no aparelho de Estado instrumentalizaram o nojo de boa parte da população aos políticos e construíram uma narrativa segundo a qual o PT seria o autor de toda a corrupção no país. Mas a rejeição à corrupção era apenas a couraça, a carapaça legitimadora. O vetor decisivo das mobilizações verde/amarelas foi um sentimento que está na gênese da elite e de boa parte da classe média do país: o medo/ódio aos pobres e àquele que é visto como seu grande representante, Lula –como no passado devotaram ódio a Getúlio Vargas.

Os pobres são vistos pela elite do país e por vastos segmentos por ela ideologizados como usurpadores que querem assaltar “o que nos pertence por direito”. São assaltantes, vagabundos, feios, cheiram mal e, crime supremo, consideram-se pessoas com direitos. Não importa que este outro seja, em realidade, alguém frágil, desvalido –ele é sempre ameaçador. Aos ricos é um escândalo que os pobres invadam seus ambientes, de aeroportos a universidades e, sobretudo, que tomem para si receitas do Estado que sempre foram reservadas às elites. Uma economista que se tornou a queridinha da elite, Mônica de Bolle, recentemente formulou com clareza esta concepção: os pobres entendem por direitos o que “na verdade se tratam de benefícios” (esmolas, atos de caridade). Se tiver um dinheirinho na carteira (no Tesouro), que sobrou da farra (o pagamento dos juros aos bancos e rentistas), a gente dá pros pobres, se não sobrar… danem-se.

Se corrupção fosse o fio condutor do processo de derrubada de Dilma, porque os ricos e a classe média estão em casa, quietos, silentes?

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Três textos para entender o agora, pensar o amanhã e projetar um novo mundo

Grafite em rua de Santiago, Chile

Há uma velocidade alucinante que desnorteia. O que exatamente está acontecendo agora? Como chegamos aqui? Para onde vamos? Como resistir ao golpe? É possível derrotar e derrubar o governo dos ricos? Qual o programa para enfrentar a crise que se abate sobre o país? E qual o projeto para a (r)evolução que derrote a torrente de ódio, o governo brutal dos ricos, a lógica da morte e da imposição da dor e da miséria que orienta os poderosos em todo o mundo? Qual o território da utopia?

Separei três textos que, creio, podem ajudar a orientar nessa hora de desesperança e resistência, pensando numa dinâmica do agora-já, no programa para superar o governo dos ricos no país e na recuperação da utopia da revolução planetária que instale um tempo de paz e vida em abundância.

Vale ler cada um deles com cuidado.

 

O AGORA – duas avaliações sobre a situação do país e os desdobramentos imediatos possíveis.

Leia com vagar a reportagem sobre as palestras-debate entre João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que aconteceu na sexta-feira (12) à noite em PortoAlgre, num encontro promovido pela Associação Juízes para a Democracia (AJD). A íntegra está aqui e foi publicada originalmente no Sul21

Stédile e Boulos no debate em Porto Alegre

Os dois líderes apresentaram uma caracterização sobre a natureza das crises econômicas e política, identificando os seus protagonistas e setores sociais envolvidos. E desenharam cenários possíveis e hipóteses acerca do desdobramento dessas crises, apontando os desafios que o campo de esquerda e democrático tem hoje para evitar um gigantesco retrocesso que pode mergulhar o Brasil em um ambiente de convulsão social e de maior fechamento político que poderá levar décadas para ser revertido.

 

UM PROGRAMA PARA A CRISE – o economista José Luís Fevereiro apresentou um primeiro esboço de um programa para a esquerda em 2018 –o artigo foi publicado originalmente na revista Socialismo e Liberdade, do PSOL, e você pode ler aqui, às páginas 8-11.

Não é um texto muito extenso e nem para iniciados –eu, que não sou economista, consegui entender e apreender a complexidade do desafio à frente. “De uma forma geral o programa da esquerda para 2018 deve reafirmar a necessidade de um Estado nacional capaz de garantir a universalização de direitos, de assegurar transferências de renda das camadas mais ricas para as parcelas da população mais pobres, garantir condições de crescimento econômico com significativa melhoria nos índices de distribuição de renda”, escreveu Fevereiro, à guisa de introdução. A seguir, detalhou como implementar o programa, com propostas articuladas para uma reforma tributária, controle dos juros e do câmbio e redesenho do papel dos bancos públicos. É claro que um programa de governo é muito mais que isso, mas Fevereiro apresentar linhas mestras para a política econômica alternativa ao programa do golpe e à política implementada no segundo governo Dilma.

 

RECUPERAR A UTOPIA – o sociólogo e filósofo Michael Lowy,  numa entrevista antológica, apresenta caminho do ecossocialismo como aquele que poderá recuperar a utopia, deixando para trás as experiências traumáticas do socialismo de Estado  e mudando de maneira radical a maneira de enxergar a economia, as relações entre as pessoas e delas com o planeta. Leia aqui, publicado no Outras Palavras. É um movimento necessário para avançar sobre o olhar fixado no hoje-agora conjuntural e dar um norte aos que desejam um novo mundo –a entrevista de Lowi guarda íntima relação com a encíclica Laudato Sii, Sobre o Cuidado da Casa Comum, do Papa Francisco, um documento crucial para entender a agonia planetária causada pelo capitalismo e meditar sobre sua superação.

Michel Lowy

Alguns trechos da entrevista:

“O objetivo do socialismo, explica Marx, não é produzir uma quantidade infinita de bens, mas sim reduzir a jornada de trabalho, dar ao trabalhador tempo livre para participar da vida política, estudar, brincar, amar. Para tanto, Marx proporciona as armas para uma crítica radical do produtivismo e, particularmente, do produtivismo capitalista. No primeiro volume de O Capital, Marx explica como o capitalismo esgota não só as forças do trabalhador, como também as próprias forças da terra, esgotando as riquezas naturais. Assim, essa perspectiva, essa sensibilidade está presente nos escritos de Marx. No entanto, não foi suficientemente desenvolvida.

(…)

Mas não basta transformar o aparato produtivo e os modelos de propriedade, é necessário transformar também o padrão de consumo, todo o modo de vida em torno do consumo, que é o padrão de capitalismo baseado na produção maciça de objetos artificiais, inúteis e perigosos. Por isso trata-se de criar um novo modo de consumo e um novo modo de vida, baseado na satisfação das verdadeiras necessidades sociais, algo completamente diferente das supostas e falsas necessidades produzidas artificialmente pela publicidade capitalista. Dele se depreende pensar a revolução ecossocialista como uma revolução da vida cotidiana, como uma revolução pela abolição da cultura do dinheiro e da mercadoria imposta pelo capitalismo.

O ecossocialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização da solidariedade – no sentido profundo da palavra, solidariedade entre os humanos, mas também com a natureza –, é também uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora. Não se trata de esperar até o dia em que o mundo se transforme, mas de começar desde já, agora, a lutar por esses objetivos. Trata-se de promover a convergência, a articulação entre lutas sociais e lutas ecológicas, as quais têm o mesmo inimigo: o sistema capitalista, as classes dominantes, o neoliberalismo, as multinacionais, o FMI, a OMC. Os indígenas da América Latina, desde as comunidades andinas do Peru até as montanhas de Chiapas, estão na primeira linha de combate em defesa da Mãe Terra, da Pachamama, contra o sistema.

(…)

Não há nenhum mecanismo automático que leve a um colapso capitalista. Haverá crises terríveis, mas o sistema encontrará alguma saída, em forma de guerras, ditaduras, movimentos fascistas etc. Assim foi nos anos 1930 e assim pode ocorrer no futuro. Como dizia Walter Benjamin: ‘o capitalismo nunca vai morrer de morte natural’. Se queremos por um fim no sistema capitalista, isso só será possível por um processo revolucionário, uma ação histórica coletiva anticapitalista. O capitalismo só desaparecerá quando suas vítimas se levantarem contra ele e o eliminarem.”

 

Boas leituras para iluminar o caminho!

[por Mauro Lopes]