Caritas: nunca houve tantos muros no mundo – já são 66

Criança à sombra do muro na Cisjordânia

A Caritas Italiana divulgou nesta sexta (15) o dossiê À sombra do muro,  durante o seminário  “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam”,  que aconteceu nos últimos dois dias em Roma, com uma atenção especial aos muro edificados por Israel contra os palestinos. O dossiê aponta: nunca houve tantos muros a separar países, a impedir migrantes de buscarem uma chance de vida, a manter os pobres longe dos ricos. São 66 muros contra migrantes, pobres e vítimas de guerra no mundo hoje. Para que se tenha uma ideia do modelo gerado pelo capitalismo, havia em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, 16 muros em todo o planeta.

O projeto neoliberal, depois da vitória sobre o “socialismo real” do Leste europeu, revelou-se uma antiutopia. Em vez de oportunidades, progresso e riqueza, miséria , restrições cada vez maiores às liberdades e muros. Segundo o dossiê, ”a globalização, que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes,  foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras”.

Para além da divisão entre os que estão de cada lado dos muros, a separação em concreto e cercas remete a dois projetos, como afirmou o Papa Francisco no encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5 de novembro de 2016, no Vaticano: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro”.

Os 66 muros estão assim divididos: 36 na Ásia e Oriente Médio; 16 na Europa; 12 na África; e dois na América (Estados Unidos/México e México/Guatemala). Veja no quadro abaixo:

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Os milionários tomaram todo o poder para si; os pobres têm direito sagrado à rebelião

O projeto dos ricos, a serviço de seu deus-dinheiro: tudo para eles

Celebrar o Dia da Independência na perspectiva do 23º Grito dos Excluídos só é possível a partir de uma leitura correta do fato que hoje define o país: os ricos tomaram de assalto todo o poder institucional do Brasil no processo que culminou no golpe de Estado de um ano atrás. Não há espaço para os pobres no Poder Executivo, no Poder Legislativo, no Poder Judiciário ou no quarto poder, a Imprensa dita “tradicional”. Tudo é para os ricos; aos pobres, nem as sobras do banquete.

As últimas semanas foram fartas em expressões simbólicas, condensadas, verdadeiras lições aos pobres sobre o que foi feito do poder institucional do país.

O símbolo do Poder Executivo são as malas de dinheiro de Geddel Vieira Lima, um dos principais articuladores do golpe e coordenador político do regime dos ricos até ser denunciado por outro ministro da quadrilha de Temer. Mais de R$ 50 milhões em dinheiro vivo nas malas, o que está longe de ser toda a fortuna amealhada por ele ao longo de sua carreira –há muitos outros bens, casas, empresas, carros, lanchas e dinheiro escondidos.  Romero Jucá, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Antonio Imbassahy, Gilberto Kassab, Mendonça Filho, Raul Jungman, Ricardo Barros, Fernando Bezerra Coelho, José Serra, Aloysio Nunes, Marcos Pereira, todos os ministros escolhidos por Michel Temer e ele próprio são ricos e enriqueceram exatamente como Geddel.  Mais que ricos, são todos milionários.

O símbolo do Poder Legislativo é a pesquisa do economista André Calixtre, que demonstrou taxativamente: o patrimônio médio declarado de um senador é superior a R$ 17 milhões e o dos deputados federais e estaduais é de R$ 2,5  milhões. O Congresso Nacional e todo o Poder Legislativo é a casa dos ricos, e não a casa do povo. E este é o patrimônio declarado, o que não inclui malas de dinheiro como as de Geddel, rendas, patrimônio escondido em nome de terceiros –filhos, noras, genros, sogros, tios e laranjas em geral. Eles são na verdade muito mais milionários do que a pesquisa indica.

O símbolo do Poder Judiciário é a revelação de que os juízes recebem em média R$ 47.703,00 por mês. O Judiciário é o resultado dos recursos públicos que são assenhorados pelos juízes, tornando-os homens e mulheres ricos ou ainda mais ricos. Há milhares de juízes que recebem muito mais a média. Sérgio Moro, escalado para perseguir e condenar Lula, se apropria de algo como R$ 65 mil a R$ 77 mil todo mês; desembargadores ganham mais que R$ 100 mil mensais. O caso do juiz que recebeu mais de R$ 500 mil num único mês (aqui) está longe de ser o único. Essa dinheirama toda não leva em conta as viagens, congressos e todo tipo de boca livre e “delicadeza” que os juízes recebem de empresários e associações empresariais. Isso sem falar nos casos de vendas de sentenças sobre os quais reina uma pesada cortina de silêncio e que tornam um número não sabido de juízes em super milionários.

O símbolo do poder Imprensa é a campanha persecutória que todos os veículos pertencentes às sete famílias (Marinho, Frias, Mesquita, Civita, Sirotsky, Saad e  Alzugaray) movem contra Lula há anos, sem cessar. A imprensa é o consolidador propagandístico do poder dos ricos e a “amarradora” ideológica da ideia do “direito” à fortuna. Além de seus proprietários serem milionários graças aos recursos públicos que embolsam em subsídios, publicidade e por diversos outros meios.

É uma teia. Banqueiros, empresários, parlamentares e altos funcionários do Legislativo, juízes e a elite do Judiciário, ministros, secretários e outros membros da cúpula do Executivo, promotores, procuradores, delegados, altos executivos, jornalistas, grandes proprietários de imóveis urbanos e rurais… Todos eles, cerca de 2 milhões de pessoas, convergem para um único e grande interesse comum: embolsar os recursos do Estado e todas as riquezas do país para si e impedir os demais 206 milhões de brasileiros e brasileira de terem acesso a qualquer fatia desses recursos e riquezas.

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Pastorais da CNBB retomam Medellín, ouvem Boulos e dizem que governo favorece capital financeiro

Bispos participantes do encontro das pastorais sociais da CNBB

Num encontro histórico, mais de 20 bispos e 30 padres, freiras, leigos e leigas, referenciais e coordenadores das pastorais sociais da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), estão juntos desde a noite de terça-feira (1) e até a sexta (4) para algo inimaginável durante os papados de João Paulo II e Bento XVI: explicitamente retomar e atualizar os ensinamentos da Conferência de Medellín (1968), que marcou a adesão da Igreja na América Latina aos eixos da então nascente Teologia da Libertação e foi condenada pelo Vaticano durante os anos de restauração conservadora. Num documento aprovado no segundo dia do encontro, os participantes afirmaram que o governo Temer “favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada”. Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), foi convidado e foi o responsável pelo debate sobre a conjuntura nacional –o convite é igualmente emblemático da virada na Igreja brasileira. Para dom Guilherme Werlang, bispo de Ipameri (GO) e presidente da comissão das pastorais sociais, “precisamos retomar o caminho dos bispos proféticos de Medellín”. Ele disse que com o Papa Francisco, as pastorais sociais, “que nunca abandonaram o caminho”, “ganharam um advogado sem precedentes”.

Dom Werlang, afirmou ao Caminho pra Casa na manhã desta quinta (3), num intervalo da reunião, a razão de a Conferência dos bispos latino-americanos em Medellín estar no centro da reflexão das pastorais sociais: “Medellín foi resultado da preocupação dos bispos latino-americanos de aplicar os ensinamentos do Concílio Vaticano II na região, eu vivia uma situação tão injusta como a de hoje. Estamos de novo sob o controle do império do capital financeiro e precisamos beber nas fontes, e as fontes da ação da Igreja no mundo contemporâneo dão o Concílio e Medellín. Precisamos retomar o caminho dos bispos proféticos de Medellín”. Para o bispo, a presença do Papa Francisco é fundamental para animar o novo momento da Igreja e restabelecer o fio histórico na América Latina: “O Papa Francisco é um força impressionante, um apoio e uma confirmação, ele é o resultado dessa caminhada que as pastorais nunca deixaram de fazer, pois elas nunca abandonaram o caminho”. Segundo dom Werlang, as pastorais sócias em todo o mundo “ganharam um advogado sem precedentes”.

A presença do coordenador nacional do MTST no encontro foi ressaltada por dom Guilherme Werlang: “Boulos é um novo pensador das causa sociais, muito sagaz. Ficamos encantados com sua profundidade e olhar para as lutas do povo”.

“Há hoje uma enorme identidade entre a ação territorial das pastorais sociais da CNBB e o MTST” afirmou Boulos ao, para quem “temos uma oportunidade ímpar para o campo da ação social e progressista da Igreja no Brasil”.  Para o líder do MTST, que falou ao Caminho Pra Casa também na manhã desta quinta (3), “a postura do Papa Francisco constrói um clima interno que conecta a Igreja com os movimentos sociais, em sentido oposto ao que aconteceu com os dois últimos papas, especialmente João Paulo II”. Ele disse que há uma ação conjunta importante do MTST em São Paulo com o IPDM (Igreja – Povo de Deus em Movimento), organização católica da zona leste da cidade: “a parceria com o IPDM permite a construção de frentes de ação organizadas da Frente Povo Sem Medo nos bairros e periferias, com a construção de um novo eixo de ação popular”. Ele contou com o debate com os bispos e líderes das pastorais sociais (na quarta, 2), foi “muito qualificado, numa dinâmica de olhar para o país a partir do compromisso com as transformações”.

O final da nota dos bispos, aprovada também pelos coordenadores/coordenadoras das pastorais sociais retoma uma perspectiva teológica cara à Teologia da Libertação, que revela a relação íntima de Jesus com sua ação libertadora e humanizadora: “Que Nossa Senhora Aparecida, a quem expressamos nosso louvor especial neste Ano Mariano, nos inspire a revelar o rosto misericordioso de Deus, defensor da justiça em favor dos empobrecidos, sendo sinais e instrumentos da ação libertadora e humanizadora de Cristo, frente às novas formas de escravidão dos tempos atuais”. Para os bispos e líderes das pastorais sociais, “clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social.”

O padre Oscar Beozzo, um dos mais relevantes protagonistas e historiadores da Igreja no Brasil e América Latina, foi responsável por uma longa apresentação seguida de conversa sob o título: “Conjuntura eclesial: Medellín e os desafios pastorais atuais”.  Ele explicou que “o objetivo do encontro foi retomar o significado de Medellín à luz do que está acontecendo agora. Se olharmos para esse importante território que de estende do México até a Argentina, é impressionante como Medellín está incrivelmente atual, do ponto de vista da justiça, da paz e da Igreja em toda a região”.

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Jesuítas do Brasil alinham-se ao Papa; atacam ricos e governo Temer, que serve para “atender ao mercado”

    Os jesuítas em sua Assembleia em Itaici – foto da sessão de abertura, em 25 de julho

Os jesuítas do Brasil encerraram sua II Assembleia Nacional nesta quinta (27) com um salto de qualidade em relação à sua posição quanto ao Brasil e manifestaram seu alinhamento integral ao Papa Francisco, igualmente jesuíta, o que vinham fazendo de maneira tímida nos últimos três anos. Afirmaram sua “indignação diante da maneira como as classes dominantes conduzem as crises econômica, social e política que assolam o país e afetam a população brasileira, sobretudo os mais empobrecidos”; explicitaram sua adesão à visão do Papa quanto à “idolatria do dinheiro”; acusaram “os ajustes desse (des)governo para atender ao mercado”; e denunciaram a criminalização dos movimentos sociais.

O encontro reuniu por três dias 340 dos 490 membros da Companhia de Jesus no Brasil na Casa de Retiros Vila Kostka, em Itaici (Indaiatuba/SP), tradicional centro de encontros da Ordem. O posicionamento é resultado da reorganização da Companhia de Jesus no país. Desde 2014 (um ano depois da eleição de Francisco), as três províncias existente foram unificadas na Província dos Jesuítas do Brasil – BRA e iniciou-se então uma lenta aproximação às posições do Papa e à liderança global jesuítica, com clara adesão à caminhada com os pobres, crítica ao capitalismo e radicalização na leitura do Evangelho. Até então, os jesuítas no país estavam voltados sobretudo às suas centenas de instituições educacionais (escolas e faculdades), com relacionamento privilegiado com as camadas médias da população, além de algumas importantes frente de ação na Região Missionária da Amazônia e periferias de algumas cidades.

A primeira expressão pública da renovação do posicionamento dos jesuítas foi o apoio ao Dia Nacional de Mobilização de 15 de março de 2017 contra o desmonte do Estado pelo do governo Temer (aqui), mas foi uma nota tímida, se comparada com a de agora.

Durante o encontro, os jesuítas tomaram importante decisão que não foi formalizada, mas tornou-se um pacto entre todos: apoiar decididamente o magistério do Papa Francisco e sua visão pastoral e eclesial. O pacto dos jesuítas poderá contribuir e muito para que a Igreja continue a despertar e reencontrar sua missão no Brasil.

A nota aprovada ontem contém, a partir das posições de Francisco, uma dura condenação ao espírito do capitalismo: “A idolatria do dinheiro, de acordo com o Papa Francisco, dá primazia ao mercado, tanto em detrimento da pessoa humana como em detrimento do trabalho (cf. Evangelii Gaudium, 53-57). Não é justo submeter o Estado ao mercado, em nome da retomada do desenvolvimento. Quando é o mercado que governa, o Estado torna-se fraco e acaba submetido a uma perversa lógica do capital financeiro. Como nos adverte o Papa Francisco, ‘o dinheiro é para servir e não para governar’ (Evangelii Gaudium 58)”.

Os jesuítas condenaram as reformas trabalhista e da Previdência, criticaram o aprofundamento da desigualdade no país, anotando que “muita gente, que tinha saído da miséria e da pobreza, está voltando à assistência social” e apontaram o “poder manipulador dos meios de comunicação social”.

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Padre Júlio Lancelotti pedirá proteção à Anistia Internacional

Júlio Lancelotti abençoa na Sé carroça de Ricardo Nascimento, na missa de sétimo dia de seu assassinato pela PM

Vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo desde o fim do século passado, padre Júlio Lancelotti pensou que já tinha visto de tudo em sua caminhada com os moradores e moradoras das ruas da metrópole. “Mas o que a cidade está vivendo agora nunca vi”, disse ele na tarde desta quarta (27) ao Caminho Pra Casa. “O extremismo dos últimos tempos, agravado por uma atuação sectária da Prefeitura, deu sinal verde, liberou o extermínio daqueles que a direita vê como o lixo da cidade”, desabafou o sacerdote. Por isso, padre Júlio decidiu que irá pedir proteção à Anistia Internacional ao povo da rua e àqueles que, como ele, têm sofrido inúmeros ataques nos últimos meses.

O mês de julho tem sido particularmente dramático para o povo da rua em São Paulo. No dia 12 de julho, no fim da tarde, o catador de material reciclável Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro, foi executado com pelo menos dois tiros na altura do peito por um policial militar branco. O crime aconteceu num bairro tradicional de classe média e alta na zona oeste da cidade, Pinheiros. Ricardo era muito estimado pelos moradores da região que não tiveram seu coração endurecido e os ouvidos fechados ao sofrimento dos mais pobres. Uma semana depois, muitos deles acorreram à missa de sétimo dia de Ricardo, na catedral da Sé, que imediatamente trouxe à mente o culto ecumênico de 31 de outubro de 1975, em memória de Vladimir Herzog e protesto por sua morte pelos militares.

Piauí, poucos dias antes de morrer

No dia seguinte à missa de sétimo dia pela morte de Ricardo, seu amigo e também morador de rua Gilvan Artur Leal, o Piauí, morreu na Santa Casa de São Paulo, alegadamente de um AVC. Ele foi a principal testemunha do assassinato de Ricardo e foi torturado pelos PMs em plena rua, por protestar contra o crime: em nota assinada por algumas dezenas de moradores do bairro, eles relataram que os policiais obrigaram Piauí a esticar as mãos sobre a calçada e pisotearam seus dedos, aos gritos de “sai daqui que vai sobrar pra você”. Na mesma nota, os moradores contaram que Piauí ficara profundamente abalado, chorava diariamente e relatava ter medo das ameaças que tinha sofrido da PM. Ao lado da carroça do Ricardo, dizia para os moradores da região: “mataram meu irmão, e eu sou o próximo”.

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Milícia ataca acampamento de sem-teto animado pela Igreja em Crateús (CE)

A linguagem dos ricos: agressões a homens, mulheres e crianças e fogo na madrugada em Crateús.

Uma milícia com 30 homens armados invadiu e destruiu no início da madrugada desta quarta (26) o Acampamento Carlos Leite, que abriga 50 famílias numa área pública municipal na periferia de Crateús (CE).  O acampamento é liderado pela Frente Social Cristã, uma organização fundada há 50 anos na cidade, inicialmente por iniciativa da Igreja Católica e hoje integrada também por protestantes, espíritas e pessoas das diversas religiões afro, com um protagonismo marcante das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).  Homens e mulheres foram agredidos, vários deles precisaram ser hospitalizados, e as barracas foram incendiadas quando ainda havia crianças dormindo em seu interior.

A ação foi comandada por Assis Oliveira, corretor de imóveis da cidade, que afirmou estar no local a mando da empresa Mãe Rainha Urbanismo, que tem um empreendimento vizinho à área municipal.  Apesar de o ataque ter durado mais de meia hora, não houve presença da PM nem da Polícia Civil no local. Um dos líderes da Frente Social Cristã, Marcos Eldênio, afirmou ao Caminho Pra Casa que “foi tudo muito triste. Aqui é uma área pública municipal, não pertence ao empreendimento Mãe Rainha. Uma milícia de 30 homens invadiu o acampamento de madrugada para bater nos trabalhadores e trabalhadoras, ateou fogo nas barracas com crianças dentro, uma violência sem tamanho. As famílias estavam aqui pacificamente, num processo de diálogo com a Prefeitura e esses milicianos vieram aqui para intimidar? Para quê? Vão querer tomar a área pública para o empreendimento deles?”.

Veja o vídeo feito pelas famílias logo depois do ataque:

No começo da tarde as famílias começaram a reconstruir o acampamento e, às 17h, teve início uma celebração, para onde acorreram pessoas das pastorais sociais da Igreja Católica, assim como padres e diáconos, pastores e fiéis de outras igrejas, das CEBs da região e de movimentos sociais como o MST. “Vamos reconstruir”, disse Eldênio. Ele contou que nos 50 anos da Frente Social Cristã a organização liderou dezenas de ocupações que deram origem a bairros hoje considerados tradicionais em Crateús: “os pobres daqui sabem que têm direito a moradia digna e lutam por isso”.

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É preciso um programa mínimo para mudar o país e a vida das pessoas

O Cais Estelita,  foco e centro de uma mobilização histórica no Recife, para que o que é do povo sirva a ele e não aos ricos. Foto de Gilmar Moreira/2014

O Brasil está metido numa das maiores enrascadas de sua história. O golpe que levou os ricos ao governo está destruindo o Brasil em ritmo vertiginoso.

O desemprego massacra quase 15 milhões de pessoas, a fome voltou a rondar o dia a dia dos mais pobres e estima-se que 20 milhões de pessoas terão renda inferior a 5 reais/dia até o final de 2017, o fim da CLT ameaça o retorno a termos contratuais para o trabalho similares aos do período da escravidão, os gastos com saúde e educação para os mais pobres estão em queda livre, e ronda a ameaça do fim da aposentadoria para os mais frágeis.

É uma verdadeira hecatombe econômica e social detonada por uma elite sem projeto para o país e que vive às custas dos juros que o Estado lhes paga –a única despesa governamental que não foi cortada depois do golpe.

Como superar a crise de maneira positiva para o povo, num cenário de derrotas sucessivas de seus representantes, dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais? Como retomar o diálogo entre a esquerda/segmentos progressistas e a grande e sofrida massa da população, que vive um momento de apatia, encolhimento e entorpecimento pelo massacre midiático promovido pelos meios de comunicação de propriedade e a serviço dos ricos?

Como mudar a maré em favor dos mais pobres?

É preciso um programa que dialogue com as pessoas, que faça sentido para suas vidas cotidianas, que de fato abra perspectivas de um futuro melhor.

É hora de apresentar uma agenda compacta, factível, inteligível, que deve ser apresentada ao povo brasileiro de maneira massiva, insistente, que se torne conversa nas famílias, nas escolas, nos bares, nas ruas.

Uma plataforma para mobilizar, para vencer eleições, para unificar a reivindicação dos movimentos sociais. Um projeto para o país.

Poucas medidas. Linguagem simples. Que fale ao coração das pessoas e desperte um sentimento, uma expressão de “ah, mas é isso mesmo!”.

Aqui está uma sugestão para esta plataforma. Cinco pontos apenas. Não pode ter mais. Tem que ser simples, capaz de ser recitado de cabeça e coração.

Este programa não elide a possibilidade de outros projetos, para outras áreas, sobre temas diversos. Mas eles devem ser subordinados aos cinco que são a oferta da esquerda e dos progressistas para o país.

Que pontos podem compor este programa? Segue um rascunho, que deve ser conversado, dialogado, pensado. Só tem uma regra: pode ficar menor e mais enxuto, nunca maior.

O que fazer para que o Brasil seja apropriado por seu povo?

  1. Plebiscito para todas as medidas aprovadas pelo Congresso durante o governo Temer –o povo deve decidir sobre seu futuro. A Constituição de 1988 é a referência institucional do país.
  2. Retomada do crescimento e combate ao desemprego com programa de renda cidadã para toda a população, investimentos públicos prioritários em educação pública e no SUS.
  3. Limites para o pagamento de juros aos ricos e redução da taxa de juros para favorecer investimentos produtivos.
  4. Reforma agrária e urbana, para garantir terra, moradia e transporte barato.
  5. Combate incansável à corrupção e a todo o desvio de dinheiro que é do povo e deve ser destinado a ele.

A situação é dramática. Mas não é uma condenação eterna, não é uma sentença de morte, não é o fim do caminho.

É possível abrir um novo caminho, regar a esperança, fazer a hora.

[Texto coletivo rascunhado por Mauro Lopes, depois de uma conversa/aprendizado com Antônio Martins, Artur Araújo, Gilberto Maringoni e Igor Fuser]

Três acampamentos do MST estão sob ataque

Destruição impiedosa em Conceição da Barra (ES) -foto MST

Ataques brutais sucessivos no campo brasileiro neste começo de semana: dois acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Minas e no Pará estão enfrentando, nos últimos dias ataques de pistoleiros com proteção de tropas da Polícia Militar; um acampamento no Espírito Santo sofreu na segunda (17) um despejo violento em ação da Polícia Militar que prometia mais ações para esta terça;  uma comunidade pesqueira aguarda a qualquer momento uma violenta reintegração de posse em Minas. As informações são do MST, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Pastoral dos Pescadores-MG, também da CNBB.  A brutalidade no campo brasileiro aumenta a cada dia desde o golpe. Já são 48 os assassinados em ações de pistoleiros, da PM e Polícia Civil em vários Estados, desde o  início de 2017.

O primeiro acampamento do MST a sofrer ataque está localizado na Fazenda São José/Liberdade, em Coronel Pacheco (MG), sob ataque desde a última sexta-feira. Depois de invadirem o acampamento os pistoleiros e policiais militares atearam fogo nos arredores do acampamento na segunda, posicionando-se de armas em punho atrás do acampamento, para impedir as famílias de combaterem o fogo. As ações violentas prosseguiram nesta terça (18).

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As mulheres que mantêm a luz acesa – por Ivone Gebara

No plenário do Senado às escuras, as mulheres senadoras mantiveram acesa a luz do Brasil dos pobres, enquanto os senadores homens ricos arquitetavam a volta da escravidão. Foto de Lula Marques

Um artigo inédito da teóloga brasileira Ivone Gebara, freira da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, doutora em Filosofia e Ciências da Religião e respeitada em todo o mundo (saiba mais sobre ela ao fim do artigo):

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“Enquanto alguns protestam a caravana passa…”

A imagem usada pelo ‘presidente’ Temer para celebrar a aprovação pelo Senado da Reforma Trabalhista ontem foi de uma fina crueldade. Qual é a caravana que passa? E passa onde? E passa sobre quem?

Passa sobre corpos estendidos, sobre corpos famintos e sofridos que reclamam por casa, terra, trabalho e pão. A caravana passa, massacra e mata porque os cavaleiros e os cavalos estão gordos de tanto comerem a comida do povo. Os cavaleiros armados e com armaduras são mantidos por outros de corpos sutis que de seus escritórios em qualquer lugar do mundo jubilam de alegria diante da vitória expressiva de Mamon. É Mamon sua divindade suprema. Por ele sacrificam vidas que nada significam para seu culto e sua glória. É Mamon que governa seu mundo. Os políticos do governo são títeres de Mamon. São seus servos que apenas o ajudam a engordar seus cofres, suas Bolsas e dominar a terra em troca de benefícios que o fogo e as traças um dia comerão.

Não gozarão individualmente de seus roubos. A bendita morte os alcançará. Um AVC, um infarto fulminante, um tumor maligno, um desastre inesperado, uma diarreia incontrolável os eliminarão. Mas enquanto isso não acontece imaginam-se imortais. Creem em seu poder. Corrompem-se mutuamente para gozar num instante breve das deliciosas iguarias recebidas pela glorificação de Mamon. Recebem seus prêmios agora, enquanto o povo lazarento come migalhas caídas de suas mesas. Falam de humanidade e de respeito na medida em que estas palavras lhes servem. Banalizam-nas para aparecerem como cidadãos justos e dignos. Enganam os incautos e os que já não têm mais forças para entender o que está acontecendo no país e no mundo.

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