Quer saber de Jesus? O Manso e Humilde revela-se todo no Evangelho deste domingo

Detalhe do mural Guerra e Paz (1952-56) de Cândido Portinari, em exposição na sede da ONU

Todos aqueles e aquelas que forem à missa deste domingo (9), o 14º do Tempo Comum, ou meditarem o texto que será oferecido, terão oportunidade de um encontro raro. Nele, Jesus revela-se inteiramente. Se você tiver algum interesse em conhecer o Mestre de tanta gente, não deixe de ler. É um trecho curto do capítulo 11 de Mateus, versículos 25 a 30. Leia é tocante e chega a ser surpreendente:

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer:

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.

Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso.

Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso.

Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Jesus diz a quem veio. Quem são os seus escolhidos, a quem ele e seu Pai revelam-se: aos pequeninos. Quem são os “pequeninos”? Os pobres, os deserdados, os refugiados, as mulheres, os gays, as prostitutas, os doentes, os presos, os torturados, os que são reprimidos, os que são mortos pelos poderosos e seus agentes, os sem terra, os sem teto, os indígenas, os sem nada. São esses com quem Jesus conversou e conviveu ao longo dos três anos de sua missão. Veio para eles e não para os “grandes”, os ricos, os soberbos, os que matam, os poderosos –destes, Jesus e seu Pai escondem-se, recusam-se a se revelar.

Jesus diz porque veio. Para estar ao lado dos que carregam pesados fardos de tanto trabalho, tanta acusação, tanta condenação, tanta fome, tanto futuro negado. Convida a estar com eles os que ao longo da história carregaram e carregam o fardo da escravidão, das censuras dos falsos líderes religiosos de todas as igrejas, dos falsos moralistas, dos que têm poder de punir –e punem todo o tempo.

Jesus diz quem é. Ele é o Manso e Humilde de coração. Não é o rei, como a propaganda de tanta gente da Igreja Católica e de outras Igrejas apregoa. Não é o todo poderoso, como os têm desejo de controlar a vida falseiam. Não é o guerreiro contra os infiéis, como os que só respiram guerra, ódio e morte apregoam.

Jesus é o encontro com o descanso verdadeiro, a serenidade, o repouso necessário para seguir em frente.

Os controladores de todas as religiões cuidam de escondê-lo de você e de toda a humanidade. Morrem de medo de as pessoas saberem.

[Mauro Lopes]

Concelebração da missa: Francisco e seus líderes aprofundam ideia de Igreja circular

Um “documento de trabalho” (“working paper”) ainda sigiloso da Congregação para o Clero do Vaticano está circulando em Roma e representa uma aparentemente pequena, mas significativa revolução no desenho da Igreja Católica. Seu título: “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais em Roma”. Se for aprovado, irá distanciar a Igreja um pouco mais da concepção monárquica/vertical adotada a partir do segundo milênio e reafirmada por conservadores como os papas João Paulo II e Bento XVI. E representará uma aproximação com a ideia de uma Igreja circular/sinagogal, característica da relação de Jesus com seus amigos e amigas e adotada durante o primeiro milênio, sendo retomada no Vaticano II e, agora, por Francisco.

O tema do documento é uma nova diretriz para as missas quando há vários sacerdotes presentes, especialmente em seminários, mosteiros, reuniões, assembleias. Apesar de ser voltada a Roma, é certo que se a orientação for aprovada deverá espalhar-se pelo planeta. Diz o texto: “é preferível a Missa concelebrada à celebração individual”. Ou seja: quando há vários padres presentes, eles devem celebrar a Eucaristia juntos. É algo que se tornou corriqueiro no Brasil, especialmente durante os anos em que as correntes vinculadas ao Vaticano II eram hegemônicas, mas foi restringido mais e mais pela Cúria romana e, no Brasil, pela hegemonia restauracionista. A norma inverteu-se: é preferível a celebração individual à concelebração.

O texto reproduz trecho de um discurso do Papa Francisco aos sacerdotes, estudantes e formadores do Pontifício Colégio Espanhol de São José, em 1 de abril passado, em Roma (aqui a íntegra): “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração.” A concelebração simboliza e atualiza o espírito da missa como celebração festiva da presença amorosa de Jesus Cristo na comunidade de fiéis.

Segundo o documento, a missa, momento culminante da liturgia católica, deve, sempre que há uma concelebração, “converter-se em uma oportunidade de aprofundar a vida espiritual dos sacerdotes, com frutos importantes como a expressão da comunhão dos presbíteros das diversas igrejas particulares”. O texto, apesar de voltado para os centros de formação em Roma, alcança explicitamente o espírito da colegialidade que Francisco tem buscado implementar, como bispo de Roma, com os demais bispos do mundo: a concelebração expressa comunhão “que se manifesta de modo especial quando os bispos de distintas dioceses presidem a concelebração por motivo de suas visitas a Roma”.

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Papa oficializa Dia Mundial dos Pobres: denúncia da “riqueza descarada nas mãos de poucos privilegiados”

Francisco em visita a uma comunidade de pobres da América Latina na periferia de Roma, em 2016

O Papa Francisco oficializou a iniciativa que havia anunciado no encerramento do Ano Santo da Misericórdia, em novembro último, e marcou para 19 de novembro a celebração do primeiro Dia Mundial dos Pobres. Ele acontecerá todos os anos no 23º Domingo do Tempo Comum, no Ano Litúrgico católico. A mensagem sobre a data foi divulgada propositadamente hoje, dia de Santo Antônio, um homem de vida pobre entre os pobres. Nela, o Papa acusou de maneira enfática “a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana”. Diante desta injustiça, escreveu Francisco “não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado”.

No texto, cuja íntegra você pode ler aqui ou logo abaixo, o Papa lembra que a opção pela partilha radical está na origem do cristianismo:  “a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).”

Francisco escolheu dois textos do Novo Testamento para indicar 1) que aos cristãos a partilha  dos meios de produção (a terra, na ocasião) e das riquezas (bens e dinheiro) é condição sine qua non para o seguimento de Jesus e 2) que os ricos são causa de sofrimento dos pobres:

“’Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um’ (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação.”

“Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: ‘Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (Tia 2, 5-6.14-17).

Um aspecto relevante no texto de Francisco é convocação à superação das noções tradicionais de benemerência e filantropia que enxergam os pobres como objeto de supostas boas ações de supostas pessoas de bem. Escreve o Papa:

“Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida.”

Ao fim de sua carta, Francisco vincula a compreensão do Evangelho à relação com os pobres: “Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.”

[Mauro Lopes]

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Shalôm: paz em plenitude, mesmo diante da opressão e do medo

Todos os Santos I, Wassily Kandinski, 1911, óleo sobre tela, Städtische Galerie in Lenbach, Munique, Alemanha.

Shalôm!

Shalôm aléikhèm!

Shalôm para vocês!

Neste domingo (23) os cristãos católicos encerram um período muito especial inserido nos 50 dias da celebração do Tempo da Páscoa: é denominado de Oitava da Páscoa. O sentido é místico (seguimento em grande proximidade os passos do Mestre): vivemos todos os dias desde o Domingo da Páscoa como se fosse um oitavo da semana, como se todo o tempo estivesse concentrado num único dia, o da Ressurreição e da grande alegria.

É um tempo raro, mais raro ainda é vive-lo nesta época frenética, colérica, na qual a fé parece ter se refugiado em fórmulas prontas sectárias. Viver este “oitavo dia da semana” como uma extensão do momento fundante do seguimento a Jesus Cristo, sua ressurreição, e a vitória da esperança sobre o medo e a dor.

A Liturgia da Palavra proposta pela Igreja acontece em torno de dois episódios ligados à ressurreição tomados do Evangelho de João (Jo 20, 19-31), o último deles um dos eventos mais conhecidos dos evangelhos, quando Tomé, que estivera ausente do primeiro encontro do Ressuscitado com os discípulos, encontra-o. É a origem das expressões “ver pra crer”, “sou como São Tomé” e assemelhadas.

Proponho que nos concentremos no primeiro encontro. Os discípulos estavam desnorteados e apavorados diante da perda de seu Mestre, preso, torturado e morto pelo consórcio entre as elites judaicas e o exército de ocupação romano, e pela onda de perseguições desencadeada a seguir.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana,

estando fechadas, por medo dos judeus,

as portas do lugar onde os discípulos se encontravam (v19)

Era um momento em tudo parecido com o que vivemos hoje, no Brasil e no mundo. A ameaça da trevas, a perseguição aos pobres e aos que os defendem a concentração do poder e da riqueza nas mãos das elites, a praga corrupção espalhada por toda a terra, os ricos a vender os pobres por um par de sandálias (Am 2,6), por uma emenda constitucional, pela terceirização das relações de trabalho, pela liquidação da Previdência Social.

Em meio ao fechamento e ao medo, Ele chegou. Sua presença e palavra mudaram tudo:

Shalôm aléikhèm! A paz esteja com vocês!

A tradicional saudação judaica não é apenas um cumprimento formal. Não é “olá! Como estão vocês?”. E não apenas um desejo de paz –ausência de brigas ou dissenções ou guerras. É muito mais..

É a expressão do desejo de que repouse a plenitude de todos os bens sobre aqueles a quem se dirige a saudação. É a manifestação de qual a vida deve ser pretendida.

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O Papa, no Domingo de Páscoa: defesa dos oprimidos e do Estado de Direito na AL

O Papa em sua homilia na missa de Páscoa na manhã deste domingo.

O Papa discursou por duas vezes numa manhã de sol que se seguiu a um aguaceiro neste Domingo de Páscoa (16) em Roma. Havia milhares de pessoas espremidas na Praça São Pedro, no Vaticano. Primeiro, numa homilia de improviso na Missa de Páscoa, quando afirmou que “a ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores”, mas “o mistério da pedra descartada que torna-se o alicerce da nossa existência”. A seguir, na tradicional mensagem e bênção Urbi et Orbi (“à cidade e ao mundo”), Francisco disse que Cristo ressuscitado “cuida de quantos são  vítimas de escravidões antigas e novas”.

Ele mencionou diversos países e regiões na mensagem. Quanto à América Latina, pediu respeito ao Estado de Direito e chamou a atenção para as tensões políticas e sociais e para o tema da corrupção: “Jesus ressuscitado sustente os esforços de quantos estão empenhados, especialmente na América Latina, em garantir o bem comum das várias nações, por vezes marcadas por tensões políticas e sociais que, nalguns casos, desembocaram em violência. Que seja possível construir pontes de diálogo, perseverando na luta contra o flagelo da corrupção e na busca de soluções pacíficas viáveis para as controvérsias, para o progresso e a consolidação das instituições democráticas, no pleno respeito pelo Estado de Direito.”

Francisco clamou por paz na Síria e Oriente Médio, com menções diretas a Israel, Iraque e Iêmen. Pediu paz também à África, mencionando o Sudão do Sul, Sudão, Somália e República Democrática do Congo. Mencionou os conflitos na Ucrânia e abordou a crise econômica europeia, com destaque para tema do desemprego, pedindo emprego “sobretudo para os jovens”.

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Sábado Santo: vivenciar o desespero do grande absurdo

Coliseo, William Congdon, 1951

Hoje, Sábado Santo (15) , é o dia em que os cristãos experimentam o grande absurdo da existência humana, o desespero da realidade terrível que marca nossa trajetória pessoal e coletiva; deparar-se com uma névoa tão densa que parece-nos, e assim tem sido ao longo da história da humanidade, nunca irá dissipar-se. O que vivemos os cristãos: Deus fez-se homem e foi preso, torturado, condenado, abandonado por seus amigos, deixado nu, à míngua, sem sequer as suas roupas, morto. E agora? Se Deus morreu e está enterrado num sepulcro, com uma monumental pedra sobre a entrada, o que resta?

O Tríduo Pascal, encerra-se na virada do Sábado Santo para o Domingo da Ressurreição. O Sábado Santo é o dia menos conhecido pelo público e foi, historicamente, menos valorizado. A atenção por séculos esteve concentrada na sexta-feira da Paixão, concentrada no suplício de Jesus, por conta de uma tradição dolorista construída pela Igreja ao longo da Idade Média. A Igreja institucional não inventou a tendência dolorista, mas aproveitou-se e potencializou o caráter neurótico  da civilização, que faz com que as imensa maioria das pessoas, castigadas por seu superego, vivam em culpa.

A exacerbação e individualização da celebração da Paixão tornou-se instrumento de controle e de desvinculação da morte de Jesus dos processos mais profundos, históricos, da trajetória humana. Mas o Sábado Santo, o dia do absurdo, convoca-nos a encarar esta realidade duríssima.

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Jesus: a morte de um preso político e não um “sacrifício religioso” ou “expiatório”

Victor Brecheret,Via Sacra, A Morte de Jesus na Pinacoteca de São Paulo (foto de minha autoria)

Sexta-feira da Paixão é como é conhecido o “miolo” do Tríduo Pascal cristão, situada entre a última refeição de Jesus com seus discípulos, quando ele reafirma seu ensinamento decisivo, o caminho do amor, e a virada do sábado para o domingo, momento de esperança de uma vida renovada. A sexta é dia de contemplar  a prisão, tortura, julgamento, pena (crucifixão) e morte de Jesus, destino comum ao de milhares, milhões de presos políticos antes e depois dele.

A cena é descrita em detalhes no Evangelho de João (Jo 18,1-19,42) e antecipada, na Primeira Leitura, pelo último Canto do Servo Sofredor ( o 4º), no qual o profeta Isaías antecipava, mais de 500 anos antes, que um Servo seria preso e torturado: “tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano -do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos”. O profeta anunciava que ele seria desprezado,  esmagado e que, em sua entrega amorosa, radical e desafiadora do sistema, iria mostrar a nós, “ovelhas desgarradas” e acovardadas, o caminho da resistência e da justiça (Is 52,13 – 53,12).

Há uma maneira de encarar a caminhada decisiva de Jesus, resultado de suas escolhas ao longo da vida, com um pietismo adocicado-azedado e carregado de um falso moralismo, como se sua morte fosse culpa individual de cada pessoa simplesmente por termos nascido. Seria um “sacrifício religioso” expiatório para nos absolver, num ciclo que se torna punição eterna, sem absolvição, pois aprisiona os homens e mulheres a uma culpa sempre renovada, nunca purgada, sempre a necessitar o perdão do padre, do bispo da Igreja.

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Ceia do Senhor: Papa com os descartados, nas prisões; e o Pacto das Catacumbas

Em 2015, Francisco foi à prisão de Rebibbia, em Roma, onde celebrou a Ceia do Senhor e lavou os pés de presos e presas -rompendo com uma prática machista católica que reservava o rito apenas aos homens. Agora, em 2017, o Papa estará na prisão de Paliano.

Começa nesta quinta-feira à noite (13) com a celebração da Ceia do Senhor o Tríduo Pascal, quando os cristãos católicos e de outras denominações vivenciam o momento culminante de sua fé. Na liturgia, do Evangelho de João (Jo 13, 1-15), recorda-se a última refeição de Jesus com seus discípulos, símbolo da instituição da Eucaristia, marcada também pelo rito do Lava-Pés, momento em que Ele ajoelhou-se  e lavou os pés de todos os amigos.

O Papa viverá este momento novamente em uma prisão, a de Paliano, ao sul de Roma, onde celebrará a missa e lavará os pés dos presos. Em entrevista publicada nesta quinta pelo jornal italiano La Reppublica, Francisco mais uma vez explicou a essência do cristianismo simbolizada pelo rito da Ceia e do Lava-Pés:  “(é preciso) ir, chegar perto do último, dos marginalizados, dos descartados. Quando estou na frente de um prisioneiro, por exemplo, eu me pergunto: por que ele e não eu? Eu mereço mais do que ele que está lá dentro? Porque ele caiu e eu não? É um mistério que me aproxima deles “– leia a íntegra da entrevista aqui.

Para bem viver a Ceia do Senhor em sua plenitude numa Igreja que em 2017 busca se re-aproximar de suas origens, é oportuno recordar uma eucaristia símbolo desta busca: aquela que reuniu 40 bispos e padres participantes do Concílio Vaticano II. Ela foi celebrada numa basílica dentro da Catacumba de Domitila em 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.

Naquela noite, os 40 assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver.   Dos 40, oito eram brasileiros: dom Helder Câmara, dom Antônio Fragoso (Crateús-CE), dom Francisco Austregésilo de Mesquita Filho (Afogados da Ingazeira-PE), dom João Batista da Mota e Albuquerque (Vitória- ES), padre Luiz Gonzaga Fernandes (sagrado bispo auxiliar de Vitória dias depois),dom Jorge Marcos de Oliveira (Santo André- SP), dom Henrique Golland Trindade  (Botucatu-SP) e dom José Maria Pires (da Arquidiocese da Paraíba).

Os signatários assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata (práticas ainda correntes na hierarquia católica), abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses.

Leia a íntegra do Pacto das Catacumbas e admire-se:

“Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:

– a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;

– a requerer  juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

– esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;

– suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito do que uns chefes segundo o mundo;

– procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores…;

– mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS.”

 

Semana Santa: o sofrimento do pobre, os confrontos e a vitória com o Mestre

Marc Chagall, Resistência, Ressurreição e Libertaçao, 1937 – 1948 – 1952, Paris, Centro Georges Pompidou

É a Semana Santa e não o Natal, diferentemente do que pensam muitos, o auge da vida litúrgica católica e da experiência mística cristã entendida como seguimento do Mestre. Mergulhar na Semana Santa é ir às profundezas do limite da vida e da morte, do desespero e da esperança, do sofrimento mais radical à felicidade em explosão. Se você quer passar pela experiência, conhecer, viver, re-viver o cristianismo, eis o momento.

A porta de entrada da Semana Santa é o Domingo de Ramos (9) e seu auge o Tríduo Pascal, no qual deparamo-nos com a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Na Liturgia da Palavra característica desta celebração está como que antecipado e condensado tudo o que está por vir nos próximos dias, algo como o trailer de um filme. As duas linhas místicas da Semana Santa já estão traçadas aqui: a escuta da profecia perfeita da chegada de Cristo, o Ungido, nos Quatro Cantos do Servo Sofredor, do profeta Isaías, que dominam toda a Semana; e na meditação das passagens dos Evangelhos, que relatam os seguidos confrontos entre Jesus e Judas, traidor do Mestre e aderido aos poderes de então, representados pela elite econômica e político-religiosa de Israel em aliança com o exército romano de ocupação.

As duas leituras de Mateus neste domingo abrem-se aos paradoxos da vida, aberta à festa mais entusiasmada, representada pela entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21, 1-11), num ritmo que em tudo lembra o Carnaval do Brasil; e pelas dinâmicas da morte: abandono, solidão, medo e reação violenta dos ricos à Boa Nova (Evangelho), representadas na liturgia por uma longa mas alucinante leitura (Mt 26,14-27,66) introduzida pela figura de Judas e sua traição por 30 moedas de prata e encerrada pela decisão de Pilatos de manter uma guarda diante do sepulcro do Torturado e Assassinado.

Os trechos dos Evangelhos selecionados para a Semana estão concentrados no de João, na segunda, terça, na quinta da última refeição de Jesus com seus amigos e na sexta da paixão e morte e no domingo da ressurreição; a sequência joanina combina-se com os relatos de Mateus na quarta e no sábado do grande silêncio, à espera do Ressuscitado.

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Jesus, Lázaro e os pobres: a vida, caminho de encontro e crescimento sem fim

A Ressurreição de Lázaro, Lee Porter

Sim, iremos morrer, todos nós. Lázaro morreu e é em torno da relação de Jesus com a morte de seu grande amigo que se apresenta a Liturgia da Palavra das missas deste 5º Domingo da Quaresma (2 de abril). Estamos às portas do Tríduo Pascal, quando  revisitamos a paixão, morte e ressurreição dele próprio, Jesus. É uma leitura longa, de um episódio muito conhecido, vale a pena a leitura: Jo 11,1-45).

Sim, a morte biológica é o fim da vida. É o fim-fim, na expressão de Leonardo Boff, a ruptura de um processo, e ela cria uma cisão “entre o tempo e a eternidade”.[1] Freud, em Além do Princípio do Prazer, de 1920, escreveu que somos como convocados a morrer, que “a meta de toda vida é a morte”. Morremos um pouco a cada dia e, se a vida não é ceifada num acidente trágico, vamos “morrendo em prestações”[2], com a vida biológica desgastando-se a cada segundo, até o esvaziamento completo da energia vital.

Mas, para Jesus –e o episódio da re-animação de Lázaro, como um relance do que aconteceria com ele mesmo pouco depois, é uma das mais eloquentes afirmações de seu ensinamento- o homem não está encerrado à dimensão biológica. Boff formula com rara beleza sobre o entrecruzamento das espirais da vida biológica (para baixo, até a morte) e da vida pessoal (para cima, rumo à eternidade):

O homem não se esgota na determinação biológica. “Antes pelo contrário: nele há uma outra curva de precedente: inicia pequena como um gérmen e vai crescendo indefinidamente. O homem começa a crescer interiormente: desabrocha a inteligência, perfila a vontade, rasga horizontes, abre o coração para o encontro com o tu e com o mundo Se a curva biológica se centra sobre si mesma de forma egoísta (defende-se contra doenças, luta pela vida), a curva pessoal e do homem interior se abre na comunhão e na doação de si mesmo. É descentrando-se de si mesmo, indo ao encontro dos outros que vai construindo sua personalidade. Quanto mais tem a capacidade de estar-nos-outros, tanto mais está-em-si-mesmo, se torna personalidade e cresce nele o homem interior. A primeira parábola biológica vai sucessivamente decrescendo até acabar de morrer [como “meta da vida” augurada por Freud –nota minha]. A segunda parábola pessoal pode crescer indefinidamente até acabar de nascer.”[3]

É a esta convocação para o crescimento pessoal que Jesus convocou Lázaro: “Lázaro, vem para fora!” (v. 43). E convocou os amigos, na direção de quem Lázaro caminhava, a desatarem os panos mortuários e auxiliá-lo a caminhar para a vida de encontro com o tu e com o mundo.

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