Como o cocô tornou-se dinheiro e a seguir o Deus do capitalismo e de muitos cristãos

O culto ao Deus-dinheiro oficializado nas cédulas no Brasil e EUA

O filósofo italiano Giorgio Agamben, um dos relevantes protagonistas do pensamento crítico na virada do século XX para o XXI disse numa entrevista em 2012 que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro” (aqui). A afirmação de Agamben inspirou-se em outro filósofo, este um protagonista da primeira metade do século XX, um pensador fora da curva, Walter Benjamin. Em seu curto e denso “O Capitalismo como Religião”, de 1921 (aqui), Benjamin escreveu que o capitalismo é em si mesmo a religião mais implacável que já existiu, e promove um culto ininterrupto ao Dinheiro, “sem trégua nem piedade”, uma religião que não visa a reforma da pessoa, “mas seu o seu esfacelamento”.[1]

O filósofo alemão sugeriu uma comparação entre as imagens dos santos das religiões e as cédulas de dinheiro de diversos países –ele não imaginava, à época, que este Deus-dinheiro estaria diretamente louvado nas cédulas nos EUA (In God we Trust, em Deus Confiamos) e, desde 1980, no Brasil, onde lê-se em todas as notas a frase de adoração à moeda corrente: Deus seja louvado.

Ambos inspiraram-se num dito de Jesus, que está no centro da liturgia católica do 8º Domingo do Tempo Comum (26), às portas do período quaresmal que antecede a Semana Santa e a Páscoa: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” O texto proclamado é do Evangelho de Mateus (Mt 6,24-34). A oposição entre Deus e o dinheiro é um tema central ao longo da história e, para Jesus, a relação de cada qual com o dinheiro é definidora de sua relação com as outras pessoas e a vida.

Como essa questão aparece na vida das pessoas? A psicanálise procurou investigar a relação entre o ser humano e o dinheiro e chegou a conclusões que podem soar surpreendentes e inacreditáveis num primeiro momento. Como apontou o sacerdote jesuíta e teólogo espanhol Carlos Domingues Morano, dinheiro é um assunto crucial, apesar de muitas vezes escamoteado -como o sexo. Na verdade, o tema nunca é “só dinheiro”. As relações entre os homens/mulheres com o dinheiro comportam dimensões nem sempre lógicas, que extrapolam o discurso racional mais ou menos organizado –é sempre “algo mais” que dinheiro.[2] Na relação das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psicanálise, “está também implicada uma ‘questão de amor’; dito em termos mais freudianos, uma questão de ordem libidinal, inconsciente e com raízes na infância. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas reações de dissimulação, falso pudor e hipocrisia.”[3]

Há uma questão oculta que Freud trouxe à tona –e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa relação o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.

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Francisco x Trump: o ódio de cada um usado como política de Estado -e a epidemia atual

Campo de refugiados: eles são os outros a serem odiados, os inimigos que ameaçam a segurança do capitalismo e da “civilização”

Cristãos católicos escutaram nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum (19) um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 5,38-48) ainda no contexto do longo Sermão da Montanha, reunião de ensinamentos de Jesus no formato de um único discurso, que o evangelista completaria com discursos menores e que foi apresentado em quatro domingos consecutivos. Como um elenco de ditos, os dez versículos permitem diversas abordagens. Escolhi uma em particular: o tema do ódio em Jesus, à luz da psicanálise, como política de Estado e no âmbito das relações sociais; os impasses e caminhos propostos, especialmente, nos dias de hoje, pelo Papa Francisco e pelo conservadorismo em geral e católico em particular.

Três versículos do texto são amplamente conhecidos: aquele no qual Jesus faz a crítica  do preceito conhecido como Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” (v.38-39), expresso em três dos cinco livros da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, o Pentateuco); a proposta de oferta da outra face diante da agressão (v. 39); e a recomendação expressa de amar os inimigos (v. 44).

Para Jesus, o ódio nasce e é alimentado por um processo que vincula o indivíduo, seu contexto familiar e a estrutura da sociedade. No domingo anterior, o tema nas missas havia sido a necessidade de indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); compreender a razão de nossos desejos e sentimentos contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28) –leia aqui.  Neste, o foco desloca-se para a instrumentalização do ódio pelos poderes (a Lei de Talião) e a necessidade de uma resposta da pessoa que negue tal caminho de dominação.

Freud, ao fundar a psicanálise, constatou séculos depois que o ódio nasce como par do amor ou ainda antes dele. Todos os bebês odeiam o desprazer que sobrevém com a fome, com o frio ou a dor de uma assadura e mais tarde, já crianças, endereçam este sentimento àquele que lhe toma algo que consideram seu direito legítimo: o acesso ilimitado à mãe. Esta mobilização  em relação à figura paterna é a origem do ódio ao outro que a pessoa entende  como usurpador de seu direito.

O outro é visto pela criança como ameaçador e usurpador e torna-se alvo do ódio –este é o percurso que vamos reter aqui. Com o tempo, há uma ampliação deste alvo para todo aquele que se configura como ameaça e usurpação. Ao mesmo tempo, a criança tende a construir códigos de pertença no processo de socialização no qual, muito lentamente há uma aliança com aqueles que se lhe aparecem como assemelhados (a família, o clã) em oposição aos “de fora” e, com o tempo, esta codificação amplia-se em função dos agrupamentos sociais, desde colegas de escola, grupos de amigos, corporações até classe social. Estes somos “nós” contra todos os que estão fora deste círculo e que representam uma ameaça, potenciais ou reais usurpadores do que a pessoa enxerga como seus direitos inalienáveis.

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Jesus e o mergulho no conhecimento de nós mesmos

Rasgado (detalhe), Bruce Denny, escultura em bronze, Londres – www.brucedenny.com

A passagem a ser proclamada neste 6º Domingo do Tempo Comum (clique em Mt 5,17-37 ou no fim deste artigo)  é um trecho relativamente longo, de 20 versículos, ainda no contexto do Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus. É um texto complexo, composto de ditos de Jesus que abrem inúmeras portas interpretativas, a partir das relações entre a lei mosaica e os ensinamentos do próprio Jesus. Há nesta passagem seis formulações em formas de antíteses, numa fórmula sapiencial característica (Foi dito… eu, porém, vos digo).

Nesses ditos, encontramos uma dimensão de rara profundidade. Jesus indica que devemos investigar as origens de nossas ações, avançar até nossos recalques, se quisermos entender quem somos –numa antecipação de algo que só seria detalhado como método na virada do século XIX para o XX por Freud, na psicanálise. Jesus apresenta-nos às grandes interrogações que somos para nós mesmos e convida-nos ao mergulho no mistério de cada ser humano e de toda a humanidade: o inconsciente, fonte de todas as nossas ações, angústias e alegrias. Apesar de sua postura contra as religiões e religiosidades –com boa dose de razão, diga-se-, Freud enveredou no caminho aberto por Jesus para a compreensão do ser humano, seus atos, pensamentos e motivações profundas.

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Monja ameaçada de morte: disse que Maria fazia sexo com o marido!

A monja dominicana Lucía Caram

Os seguidores de Jesus devem ser como uma lâmpada acesa, luz no mundo, sal na terra. Estes são os apelos de Jesus dirigidos aos seus amigos e amigas e que constituem o centro do Evangelho que será ouvido nas missas deste 5º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,13-16).

Em outras palavras: cristãos e cristãs devem buscar a verdade, tornar a vida saborosa, incomodar o reino das verdades estabelecidas ou, como disse uma vez o Papa, causar confusão (veja no final). Mas isso não é fácil. Nos últimos dias tivemos um bom exemplo disso.

Lucía Caram, uma monja dominicana argentina que vive num mosteiro em Barcelona concedeu uma entrevista em 29 de janeiro a um programa da TV espanhola e fez uma afirmação aparentemente prosaica:

“Acho que Maria estava apaixonada por José e que eles eram um casal normal – e ter relações sexuais é algo comum”.

Foi o suficiente para que desabasse uma tempestade brutal sobre ela, a ponto de receber ameaças de morte! Foi repreendida pelo bispo de Vic, sofreu toda sorte de insultos nas redes sociais ao redor do mundo, especialmente na Espanha, onde circula uma petição para que ela seja afastada de sua ordem. A manchete de um site conservador espanhol evoca o período inquisitorial: “A dominicana Lucía Caram blasfema contra a Virgem Maria”. O assunto mereceu uma reportagem do jornal britânico The Guardian.

Tudo porque ela disse que Maria fazia sexo com seu marido! A monja Lucía Caram afrontou um dogma da virgindade permanente da mãe de Jesus, “inscrito na pedra” no Catecismo da Igreja Católica, promulgado (não coincidentemente) por João Paulo II em 1992 e que estabelece: “O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria” (499). Este documento, o Catecismo, é considerado, ao lado do Código de Direito Canônico, como as duas referências básicas do cristianismo, no entendimento do pensamento conservador católico –em vez dos Evangelhos.

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Jesus e as bem-aventuranças, uma convocação aos pobres: a caminho!

James Tissot, Jesus Preaches the Sermon on the Mount (1886-1896) – detalhe

Neste domingo (29), cristãos católicos celebram o 4º domingo do Tempo Comum, período no qual ao longo de 33 domingos do Ano Litúrgico, até 19 de novembro, meditam sobre o tempo da missão de Jesus acompanhado por seus amigos e amigas –este é o Ano A, no qual privilegia-se a leitura de trechos do Evangelho de Mateus. Não será um Tempo Litúrgico contínuo, pois será entrecortado pela Quaresma, Semana Santa e Tempo da Páscoa. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que se estende do capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto (Mt 5, 1-12a) é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil):

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.

1. O que fala Jesus

Uma leitura que busque fidelidade  ao texto original e seu contexto indicará claramente: a toda interpretação açucarada feita deste discurso, a partir de bases supostamente “espirituais” é equivocada.

O discurso sobre a montanha em geral e as Bem Aventuranças em particular Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto, seu programa àqueles com os quais desejou caminhar –e caminhou efetivamente. Os estudos realizados ao longo do século XX indicam que este discurso jamais foi pronunciado por Cristo, tratando-se de uma sistematização de diversas falas de Jesus, a partir de um denso trabalho redacional recolhido da mesma fonte que usou Lucas[1], que situou o Sermão não numa montanha, mas numa planície (Lc 6, 17-23).

Há um problema crucial nas traduções que são oferecidas em diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação de uma versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema seguir.

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Um Cordeiro que denuncia a ideia da “expiação”, centro da teologia de controle, medo e submissão

Neste domingo, são dados os primeiros passos da caminhada litúrgica católica do Tempo Comum, na qual se reza, na Liturgia da Palavra nas missas, o tempo da missão de Jesus antes de sua paixão e morte. Esta jornada litúrgica prossegue até o fim de fevereiro, quando será interrompida pela Quaresma, a Semana Santa e o Tempo da Páscoa, até a retomada do Tempo Comum em junho.

Este é o 2º Domingo do Tempo Comum e a leitura do Evangelho de João (Jo 1,29-34),  apresenta trecho de uma peça fundamental do cristianismo, aquele que é conhecido como o testemunho de João, o Batista, sobre Jesus. O profeta havia sofrido um duro interrogatório de representantes da elite religiosa judaica, preocupados em saber se ele era o Esperado –o que ele negara; no dia seguinte, houve encontro entre o Anunciador e o Anunciado, Batista e Cristo, e sobre ele proclamou João: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (v.29).

A interpretação desta frase está no centro de uma grande divisão dentro do cristianismo, que percorre os séculos. Pois nela apresenta-se quem é Jesus, sua missão e o significado de sua morte.

O edifício teológico conservador, que estrutura o pensamento hegemônico da hierarquia católica ao longo dos tempos, está em parte construído a partir desta pequena frase.

O que diz este pensamento?

Que Jesus, em sua morte na cruz, foi condenado pelo “mundo”; em seu sacrifício, foi o cordeiro imolado, que expiou todo o pecado da humanidade. A palavra central aqui é expiação. Significa que, com seu sofrimento e morte, Jesus purificou, compensou todas as culpas dos homens (e mulheres –mas, para os conservadores elas são apenas peças acessórias), resgatando a humanidade do “pecado original”.

É uma lógica binária sobre a qual irá se estruturar o governo da Igreja pelos conservadores: pecado/perdão; pureza/impureza.  Por esta lógica, a hierarquia teria se tornado “sucessora de Cristo” e se configuraria como polo da pureza e perdão na equação, enquanto o resto da humanidade carregaria sobre si o ônus do pecado e da impureza. É relevante mencionar que este ônus iria pesar, ao longo da história, especialmente sobre os pobres, os marginalizados, mulheres, homossexuais, todos os “diferentes”, pois a hierarquia tornou-se fiadora das monarquias e, depois, num processo complexo e não isento de contradições, da riqueza e do poder no mundo –e, com isso, teria “transferido” parcialmente sua “pureza” para os monarcas e os ricos.

O pensamento divergente sobreviveu às margens da Igreja depois dos primeiros tempos, costurado por teólogos e teólogas perseguidos pela hierarquia, até ser consagrado no Concílio Vaticano II (1962-65) em meio a uma grande crise da Igreja -para ser, logo depois, sufocado pela cúpula da Igreja (a  Cúria Romana), especialmente com as eleições de João Paulo II (1979-2005) e Bento XVI (2005-2013).

O pensamento divergente da teologia institucional sobreviveu igualmente em comunidades que seriam designadas, séculos depois daquelas dos primeiros cristãos, de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), consagradas pela  Conferência de Medellín, em 1968 (a 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, realizada naquela cidade da Colômbia). O encontro dos bispos latino-americanos respirou o sopro do Vaticano II e tornou-se, na definição do teólogo belga-brasileiro José Comblin, locus capaz “de expressar o que o Concílio não tinha tido a capacidade de dizer. Foi uma novidade mundial significativa para a Igreja universal. Medellín trouxe algo novo que vai além dos textos conciliares e dos documentos da Igreja, embora tenha sido durante séculos a aspiração de inúmeros santos e profetas, começando com São Francisco de Assis.”[1] As decisões da conferência foram combatidas ato contínuo pela Cúria romana e os bispos, sacerdotes e teólogos conservadores de todo o mundo, especialmente da América Latina, até que suas decisões fossem estraçalhadas ao longo dos papados de João Paulo II e Bento XVI.

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Epifania: Jesus atemoriza os poderosos e desinstala os que se dispõem a ouvi-lo

Papa beija bebê em visita à favela Varginha no Complexo de Manguinhos, no Rio, em 2013. Como os magos, Francisco convoca para irmos ao Cristo onde ele está: na estrebaria, nas favelas, nos campos de refugiados, nas periferias.

No último domingo do Tempo do Natal celebra-se no Brasil e em outros países a solenidade da Epifania[1]. A data tradicional no ocidente acontece em 6 de janeiro; no Brasil, apesar do calendário oficial da Igreja, que a deslocou para o domingo, o povo ainda a mantém no dia original ou ao redor dele, conhecidos como Reisado, Folia de Reis ou Festa dos Santos Reis. No passado e ainda hoje em muitos países e comunidades dava-se o dá-se presentes de Natal em 6 de janeiro.

O Evangelho que é proclamado nas missas relata exatamente a viagem-visita dos Reis Magos (Mt 2,1-12). É sintomático que a descrição do encontro dos peregrinos com Jesus não tome mais que quatro versículos do texto; nos demais oito versículos (2/3) a cena é dominada pelo rei Herodes.

Os magos foram a Jerusalém, para visitar o “rei dos judeus recém-nascido” (v.2) do qual tinham recebido notícia. Foram recebidos por Herodes e sua corte: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém.” (v.3).

A expressão “toda a cidade de Jerusalém” referia-se aos judeus da elite que eram, como os ricos atualmente, considerados os únicos cidadãos de pleno direito e, portanto, “a cidade”. Vemos isso em centros urbanos governados por neoliberais como o prefeito João Doria, de São Paulo; quando eles falam da “cidade”, dirigem-se às pessoas que moram nos bolsões de riqueza protegidos da massa de pobres por seguranças privados e pela polícia do Estado. Para Doria e a elite brasileira, a oposição à “cidade” (as “pessoas de bem”, ricas) é o “lixo”, os moradores de rua e a população empobrecida.

Tal elite –Herodes e sua corte, na Israel do tempo de Jesus- é que ficou perturbada com a notícia de que um “rei” havia nascido na periferia (Belém) e não no centro rico; numa estrebaria e não no Hospital Albert Einstein, o mais elitista de São Paulo. O verbo usado por Mateus para explicitar a reação de Herodes foi ἐταράχθη (etarachthē), condição de alguém perturbado, alarmado ou atemorizado.

O medo de Herodes é o medo dos ricos diante da interpelação de Jesus. Em sua homilia na solenidade da Epifania, no Vaticano, na manhã do dia 6, o Papa Francisco foi assertivo:

“E ficou perturbado; teve medo. É aquela perturbação que leva a pessoa, à vista da novidade que revoluciona a história, a fechar-se em si mesma, nos seus resultados, nos seus conhecimentos, nos seus sucessos. A perturbação de quem repousa na sua riqueza, incapaz de ver mais além. É a perturbação que nasce no coração de quem quer controlar tudo e todos; uma perturbação própria de quem vive imerso na cultura que impõe vencer a todo o custo, na cultura onde só há espaço para os “vencedores” e a qualquer preço.

Uma perturbação que nasce do medo e do temor face àquilo que nos interpela, pondo em risco as nossas seguranças e verdades, o nosso modo de nos apegarmos ao mundo e à vida. E Herodes teve medo, e aquele medo levou-o a procurar segurança no crime: ‘Necas parvulos corpore, quia te necat timor in corde – matas o corpo das crianças, porque o temor te matou o coração’ (São Quodvultdeus, Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655).”

O medo de Herodes diante de um bebê que revolucionasse a ordem estabelecida foi a mola propulsora de seu ato seguinte, conforme Francisco: o massacre dos bebês de Belém (“matas o corpo das crianças”), do qual Jesus só escapou porque seu pai levou-o e à mãe ao exílio no Egito (Mt 2,13-18).

Escreveu o teólogo José Antonio Pagola sobre o medo-pânico do rei assentado no trono pela potência da época, Roma: “Herodes e a sua corte representam o mundo dos poderosos. Vale tudo, nesse mundo, desde que assegure o próprio poder; o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale, inclusive, a crueldade, o terror, o desprezo do ser humano e a destruição dos inocentes. Parece um mundo grande e poderoso, apresenta-se como defensor da ordem e da justiça, mas é débil e mesquinho, pois termina sempre procurando o menino ‘para matar’”.[2]

Por mais que se divirtam em festas faustosas, viagens “de sonho”, mansões, iates e banquetes, os ricos e poderosos nunca têm paz. Temem o Menino, temem a Menina, temem que os pobres descubram o Reino prometido por Jesus, um projeto de vida em plenitude já.

Há um paralelismo entre o episódio de Herodes e a morte de Jesus –e o momento que vivemos no Brasil e no mundo, hoje.

O rei, nomeado pelo império romano, e a elite da época apavoraram-se com a novidade do Bebê, libertador e massacraram os bebês de Belém; Jesus salvou-se indo para o exílio e retornou a Israel para sua missão.

Anos depois, a elite judaica e os invasores romanos, apavorados diante de um Homem libertador, mataram-no e ordenaram o massacre não mais dos bebês, mas dos homens e mulheres que ouviram sua Palavra e O seguiram; mas ele retornou dos mortos, para tornar-se o Vivente libertador.

Séculos depois, as elites do império e de seus satélites como o Brasil, inclusive a elite religiosa, sentindo-se ameaçada pelo Vivente libertador anunciado por Francisco e tantos franciscos e franciscas de todos os quadrantes promovem massacres de toda sorte: bebês, mulheres, indígenas, negros, gays, refugiados, encarcerados, moradores das ruas, pobres mobilizados na defesa de seus direitos e seus amigos e amigas.

O Bebê não foi apenas acusação dirigida aos poderosos e adoradores da cultura do “vencer a todo custo” a qual se referiu o Papa. Foi também uma interrogação, um convite à desinstalação daqueles e daquelas que decidem colocar-se a caminho. É o que disse Francisco na mesma homilia:

“Como justamente reconheceu um Pai da Igreja, os Magos não se puseram a caminho porque tinham visto a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho (cf. João Crisóstomo). Mantinham o coração fixo no horizonte, podendo assim ver aquilo que lhes mostrava o céu, porque havia neles um desejo que a tal os impelia: estavam abertos a uma novidade.

Os Magos nos dão, assim, o retrato da pessoa que acredita, da pessoa que tem nostalgia de Deus; o retrato de quem sente a falta da sua casa: a pátria celeste. Refletem a imagem de todos os seres humanos que não deixaram, na sua vida, anestesiar o próprio coração.

Esta nostalgia santa de Deus brota no coração que acredita, porque sabe que o Evangelho não é um acontecimento do passado, mas do presente. A nostalgia santa de Deus permite-nos manter os olhos abertos contra todas as tentativas de restringir e empobrecer a vida. A nostalgia santa de Deus é a memória fiel que se rebela contra tantos profetas de desgraça. É esta nostalgia que mantém viva a esperança da comunidade fiel que implora, semana após semana, com estas palavras: ‘Vinde, Senhor Jesus!’.”

O Bebê inaugurou um novo reino, um novo tempo na terra. Aderir ao Reino significa segundo Boff em seu “Jesus Cristo libertador” uma dupla desinstalação, uma dupla revolução: 1) “Reino de Deus atinge primeiro as pessoas. Delas se exige conversão. Conversão significa: mudar o modo de pensar e agir no sentido de Deus, portanto revolucionar-se interiormente”; 2) “A pregação de Jesus sobre o Reino de Deus (…) atinge também o mundo das pessoas como libertação do legalismo, das conversões sem fundamento, do autoritarismo e das forças e potentados que subjugam o homem”.[3]

A Epifania é um bom teste de critério sobre sua espiritualidade, sua religião e Igreja: se o Bebê atemorizar os ricos e poderosos e desinstalá-lo de seu conforto, é Jesus Cristo. Se for condescendente com os ricos, deixá-lo anestesiado em relação ao sofrimento dos pobres e sustentar suas seguranças, sinto muito, mas você caiu no conto do vigário, do pastor, do padre, do bispo ou de si próprio: não é Jesus.

[por Mauro Lopes]

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[1] Epifania ou Teofania é um momento manifestação de Deus aos homens. No cristianismo ocidental, a visita e adoração dos Reis Magos a Jesus bebê é interpretada como manifestação primeira da Presença de Deus entre os homens; no oriente a Epifania tem como referência o Batismo de Jesus por João Batista (Lc 3,15-22)  que o cristianismo ocidental também considera como momento epifânico, assim como a transformação da água em vinho nas bodas de Caná (Jo 2,1-11). Uma Epifania no judaísmo é a aparição de Deus a Moisés no episódio da sarça ardente (Ex 3, 1-10). Fora do contexto religioso, uma epifania é o momento exato em que alguém sente que descobriu algo ou finalmente entendeu o significado de alguma coisa que lhe era oculto ou lhe escapava. Um momento clássico de epifania é a expressão “Eureka!” que a tradição atribuiu a Arquimedes: “A palavra ‘eureka’ foi supostamente pronunciada pelo cientista grego Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.), quando descobriu como resolver um complexo dilema apresentado pelo rei Hierão. O rei queria saber se uma coroa encomendada ao ourives era de ouro puro ou se haveria algum outro material de qualidade inferior na sua composição. Arquimedes sabia que para isso deveria determinar a densidade da coroa e comparar com a densidade do ouro. O problema complicado era como medir o volume da coroa sem a derreter. Arquimedes descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e observou que o nível da água subia quando ele entrava. Concluiu então que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Conta-se que ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: ‘Eureka! Eureka!’ (Achei! Achei!). O Princípio de Arquimedes  foi como ficou conhecida a descoberta do grande cientista grego.” [na Wikipedia]

[2] Pagola, José Antonio, O caminho aberto por Jesus – Mateus, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2010, p. 20-21
[3] Boff, Leonardo, Jesus Cristo libertador, Editora Vozes, Petrópolis, 21ª edição, 2012, p. 64 e 72

No feminino repousa a esperança para 2017

O assassinato de Luiz Carlos Ruas e as três Marias: no alto, Raíssa, a travesti que escapou da morte e Maria Souza, a esposa; abaixo, Maria de Fátima, a irmã

A Igreja Católica celebra em todo primeiro dia do ano a solenidade de Maria, mãe de Deus -e é um paradoxo que numa instituição ainda hoje tão misógina (que tem aversão ao feminino) uma mulher ocupe o centro da liturgia que abre um novo tempo; nas missas, o Evangelho de Lucas descreve a cena da visita dos pastores à mãe, ao pai e ao Bebê e o relato que fizeram da aparição do anjo, que lhes proclamou haver nascido o Esperado (Lc 2,16-21).

Eles, os pastores, eram figuras marginais na sociedade judaica, desprezados, alguém como os vendedores ambulantes de hoje; eram tidos como impuros, pois passavam o tempo nos campos em meio a animais imundos, assim com os vendedores ambulantes de hoje que passam o dia em meio à fuligem e à brutalidade das ruas; eram os moradores do campo, assim como hoje há os moradores das ruas.

Talvez houvesse no grupo que visitou a pequena família há mais de dois mil anos um pastor de nome Luiz Carlos Ruas, o pastor-ambulante assassinado a pancadas na estação do metrô em São Paulo em 25 de dezembro de 2016. Um pastor-ambulante que ousou defender uma travesti moradora de rua, esta a última dentre últimas da sociedade.

Há um centro silencioso na cena do Evangelho: “Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19).

Há igualmente um centro silencioso na cena da morte de Luiz Carlos Ruas: três Marias, como a mãe do Bebê. Maria Souza Santos, que foi casada com Luiz por 33 anos; Maria de Fátima Ruas, sua irmã; e Raíssa, a travesti perseguida pelos assassinos, que teria sido morta se não fosse a coragem do pastor-ambulante.

O feminino guarda todos estes fatos, medita sobre a violência e contempla a esperança em seu no coração.

O menino nasceu, o homem morreu; os braços que os acolheram, os olhos que contemplaram e choraram são femininos. Maria, a de Jesus, como as Marias de Luiz Carlos Ruas, iria dobrar-se, anos depois do nascimento em Belém, sobre o corpo do filho igualmente assassinado, ambos –Jesus e Luiz- com uma coroa de pancadas cravada na cabeça.

2016 encerra-se sob o signo da violência de um sistema machista, misógino, homofóbico.

Ano em que homens com ódio e medo do feminino, em sua fixação por poder/dinheiro, destruíram a democracia (palavra feminina) com um golpe de Estado no Brasil para depor uma mulher; e liquidaram sociedades tradicionais em vários cantos do planeta, obrigando milhões a abandonarem suas casas para migrarem, numa política deliberada de extermínio que atingiu homens fragilizados e, sobretudo, mulheres, crianças e homossexuais.

A morte de Luiz Carlos Ruas é a expressão cruel e individual do drama de um país e um planeta aterrorizado pela violência do macho. Em sua vida/morte, estão condensados de maneira concreta/profética todos aqueles e aquelas que são as vítimas: negro, conhecido como Índio, com a sensibilidade e o abraço típicos do feminino, cidadão e amigo das pessoas das Ruas, respeitoso e solidário com gays, travestis, trans, crianças, doentes. Todas as gentes de Jesus.

Neste ano houve uma pequena luz: o despertar de um novo protagonismo do feminino. Marias e Raíssas assumiram a liderança nas Ruas do Brasil, da Polônia, nos Estados Unidos, Argentina, Palestina, em todo canto onde conseguiram confrontar o machismo-poder.

Marias e Raíssa. Com Luiz Carlos Ruas e todos os homens capazes do feminino: é para elas que se volta a esperança de 2017.

[por Mauro Lopes]

2016: um Natal cercado por sofrimento, dor e perseguição aos pobres

Sagrada Família – Marc Chagall

Há uma ideia corrente segundo a qual o cristianismo cultivaria ilusões quanto à vida e disseminaria uma visão enganadora sobre o caminho da alegria ou felicidade, com o objetivo de manter os mais pobres sob controle, auxiliando o sistema de dominação a manter-se incólume. O ensinamento original de Jesus, o assentamento bíblico da religião e a tradição das primeiras comunidades cristãs desautorizam tal interpretação.

No entanto, muitas concepções e ações  da Igreja institucional ao longo dos séculos, hoje representadas pelos segmentos conservadores do cristianismo, operaram e operam exatamente no sentido da crítica. Boa parte da hierarquia católica e de outras confissões cristãs aliou-se ao longo do tempo e alia-se hoje aos poderosos de plantão; tais segmentos buscam conferir legitimidade à dominação e exploração e assegurar aos ricos o conformismo dos pobres em relação ao status quo, admitindo no máximo a busca de soluções individualistas (a teologia da prosperidade). A religião transforma-se então num verdadeiro salve-se quem puder.

A liturgia da Palavra que será proclamada nas missas da noite de Natal em quase todo o planeta neste 24 de dezembro de 2016 afirma uma visão profundamente realista do cristianismo sobre a vida e assegura que seu projeto de esperança está imerso numa relação  amorosa-compassiva com cada ser humano e toda a humanidade.

Duas leituras constituem o centro da liturgia natalina.

A primeira, tomada de Isaías (Is 9,1-6), anuncia um novo tempo para o povo judeu, com a chegada do Messias. O texto é todo costurado com base na contraposição entre o tempo de opressão e a possibilidade de uma nova época de libertação: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (v.1); neste novo tempo, “o jugo que pesava sobre eles, o bastão posto sobre seus ombros, a vara do opressor, tu os despedaçaste como no dia de Madiã” (v.3); e então o “menino que nos nasceu” (v.5) irá assegurar “o estabelecimento de uma paz sem fim” (v.6), numa era apoiada “sobre o direito e a justiça” (v.6).

A alegria do novo tempo anunciada por Isaías está permeada por uma visão histórica dos anos de sofrimento do povo, com raízes de exploração e opressão muito concretas.

A leitura culminante da noite de Natal dialoga com o trecho de Isaías. É o relato, no Evangelho de Lucas (Lc 2,1-14) do nascimento do Menino anunciado pelo profeta. Relata o nascimento de um bebê nascido em pobreza e enorme fragilidade, pois sua mãe “deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (v.7) –a manjedoura é o tabuleiro onde come o gado nos estábulos. O paralelismo com Isaías é evidente (v.8): na escuridão da noite (como em Isaías), um grupo de pastores (o povo) foi envolvido de luz (viu uma grande luz) e apareceu-lhe um anjo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo” (v.9).

Tanto em Isaías como em Lucas relata-se uma alegria nascida em meio a condições terríveis de opressão e sofrimento e revelada não aos ricos e poderosos, mas aos mais pobres –os pastores estavam à margem da vida social judaica de então, eram gente menosprezada e suspeita.

Trevas e luz, opressão e libertação, sofrimento e alegria –estes são os duplos que marcam o profetismo bíblico e sua culminância, a chegada do Esperado.

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