O editor

Mauro Lopes é meu nome. Sou responsável por organizar/editar e escrever parte dos textos deste blog a partir de uma trajetória nada linear e de uma vida marcada por presentes que nem sei contar.

Paulista, paulistano na geografia.

Fui católico militante no limiar da juventude, até tornar-me comunista aos 16 anos de idade -isso faz tempo, foi em 1976, quando o movimento estudantil saiu às ruas para lutar contra a ditadura. Aprendi meu ofício de jornalista como aprendiz, ainda secundarista, tímido mas determinado no Cobra de Vidro, um jornal escrito para os estudantes de universitários das faculdades privadas (as “isoladas”, que não pertenciam a nenhuma universidade), quando chegar ao ensino superior ainda era possível apenas a uma diminuta parcela da juventude. Nos anos 70 chegamos a imprimir 10 mil exemplares em algumas edições, passadas de mão em mão! Porque Cobra de Vidro?  A explicação estava em todas edições, logo abaixo do título: “E o povo jura que a cobra de vidro é uma espécie de lagarto que quando se corta em dois, três mil pedaços, facilmente se refaz”. Éramos meio clandestinos meio tolerados pela repressão. Um grupo de jovens, de vários grupos de esquerda, acreditando em derrotar a ditadura, em um tempo de liberdade, confiantes na utopia socialista. Veja a imagem de duas de suas capas:

cobra      cobra-2

Muita gente não tem dimensão do que era aquele tempo de repressão, assassinatos, torturas aos opositores do regime militar. Uma vida em sobressalto permanente. Hoje, esta vida está reservada apenas aos pobres -especialmente os jovens negros nas periferias, os sem-terra, sem-teto, indígenas entre outros. Nos anos 60/70, no entanto, era uma condição que atravessava a sociedade e atingia largas fatias da juventude de classe média que ansiava por um tempo de liberdade. Enquanto nosso grupo de jovens mulheres e homens, alguns ainda na adolescência, faziam o jornal, a polícia política vigiava, nas sombras. Veja a pasta do Cobra de Vidro no o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e, no detalhe, um relatório dos espiões:

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A capa da pasta de 192 páginas sobre o Cobra de Vidro e detalhe de um relatório do DOPS

Revisitar o decreto-lei 477, que pretendia organizar e submeter a vida nas escolas, faculdades e universidades causa arrepios. Editado em 1967, ele vigorou até 1979, já então desmoralizado. Impressiona reler o texto neste ano de 2016 e constatar como seu espírito impregna o ambiente em tantas escolas do país, depois do golpe de Estado que derrubou uma presidenta eleita, Dilma Roussef, e em especial nos Estados governados pela direita, como São Paulo.

O que era considerado crime por tal texto dos militares?

“Art. 1º Comete infração disciplinar o professor, aluno, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino público ou particular que:
I – Alicie ou incite à deflagração de movimento que tenha por finalidade a paralisação de atividade escolar ou participe nesse movimento;
II – Atente contra pessoas ou bens tanto em prédio ou instalações, de qualquer natureza, dentro de estabelecimentos de ensino, como fora dele;
III – Pratique atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas, desfiles ou comícios não autorizados, ou dele participe;
IV – Conduza ou realize, confeccione, imprima, tenha em depósito, distribua material subversivo de qualquer natureza;
V – Sequestre ou mantenha em cárcere privado diretor, membro de corpo docente, funcionário ou empregado de estabelecimento de ensino, agente de autoridade ou aluno;
VI – Use dependência ou recinto escolar para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral ou à ordem pública.”

Leia a íntegra do decreto-lei 477 clicando aqui.

Ingressei na faculdade de jornalismo, a Cásper Líbero em 1978. Logo atropelamos o simulacro de organização estudantil que a ditadura havia empurrado goela abaixo por anos, os chamados Diretórios Acadêmicos, e fundamos o Centro Acadêmico Vladimir Herzog, jornalista mártir na luta contra o regime, assassinado em 1975 -se você quiser saber mais sobre ele pode clicar aqui ou assistir essa reportagem de 2014 clicando aqui. A seguir, fui eleito diretor da União Estadual dos Estudantes de São Paulo que acabáramos de refundar, assim como a UNE. Em 2016 descobri que o mesmo DOPS  acompanhava minha trajetória -mas, dada minha desimportância, eu desconhecia completamente. Veja a ficha que encontrei nos arquivos do DOPS:

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Uma de minhas “fichas” no DOPS

Deixei o movimento estudantil e logo em 1981/82 profissionalizei-me trabalhando no Voz da Unidade, o jornal do Partido Comunista Brasileiro, herdeiro da tradição do clandestino Voz Operária, que circulara desde 1949. Anos de tudo fazer, da redação à revisão, diagramação, edição, aprendizagem intensa numa redação de jovens liderados por um “velho bolchevique”, Noé Gerthel, um homem sensível e de altíssimo astral (veja a seguir imagem da edição de lançamento do jornal, em março de 1980l). Em 1982, um dos maiores presentes que a vida me deu, Caetano, que em 2010 propiciaria um presente inimaginável, seu filho, meu neto, Benjamin.

Primeira edução do Voz da Unidade, em março de 1980

Em 1986 houve uma debandada na redação, por conta das diferenças de olhares em relação ao país e à maneira como o PCB encarava o PT (a redação era muito mais simpática ao partido que o Comitê Central do “Partidão”). Em poucos meses, quatro dos editores do Voz reencontravam-se na Folha de S.Paulo, que tornara-se um ponto de encontro de dezenas de ex-militantes do movimento estudantil. de meados/final dos 70. Logo parti pra Brasília, onde cobri a Constituinte e, a seguir, a campanha presidencial. Acompanhei, como “repórter-carrapato” a candidatura vitoriosa, de Fernando Collor de Mello e, logo depois do primeiro turno, fui convocado a assumir a coluna política Painel.  Foram os últimos anos da revolução do jornalismo encetada pela Folha no início dos anos 80 e que teve como ponto culminante o protagonismo nas Diretas já, quando o jornal sentia-se identificado com a sociedade civil brasileira. O projeto foi gradativamente entrando em colapso e adotou, cada vez mais o caminho de enxergar-se como protagonista do mercado, alinhado com os olhares de classe de seus pares, numa decadência que o surgimento do UOL apenas fez escamotear.  Em Brasília, em 1988, mais um presente sem tamanho; nasceu Pedro, grande desde pequeno, arguto, capaz de articulações raras desde os primeiros anos. Logo depois, já de volta a São Paulo, em 1990, Júlia, um sonho feito menina, agora uma mulher de fibra e sensibilidade,

Em 1991 deixei o jornal para fundar uma pequena agência de comunicação especializada em gestão de crises, a MVL Comunicação. Foram anos de grande sucesso financeiro mas de uma grave crise pessoal, mergulhado num ensimesmamento medíocre. Fizemos alguns projetos legais, outros dos quais envergonho-me profundamente e vi-me afastado do que havia dado sentido à minha vida desde a juventude: a conexão com a busca da justiça, de resistência aos poderosos, de solidariedade com os pobres.  Anos de ruminar em torno do umbigo, enquanto a vida em sua intensidade desfilava à minha frente.

Aos 40 anos de idade, em 2000, a crise fez-se vida renovada. Voltei para Casa, para o cristianismo. Reconverti-me, num processo que virou-me do avesso -e ando assim, do avesso, até hoje. Um caminho de êxtase e agonia. De busca e reencontro. Quase que podia ouvir a voz do Eterno, a sussurrar “deixei-o partir, anos atrás, mas agora resgato o que me pertence”. Voltei num processo de convergência com a caminhada ao lado dos que sonhavam o sonho de um outro mundo, mas a partir de um lugar diferente que, hoje vejo claramente, não nos distância; ao contrário, permite boa conversa. Deixei a empresa, morei na favela Lamartine, na divisa de São Paulo com Santo André, numa diminuta comunidade pobre entre os pobres, mas acabei voltando para a empresa, que havia entrado em grave crise. Voltei e busquei, na medida do possível, aproximar vocação e cotidiano; uma reinvenção que tornou a MVL numa experiência mais próxima de uma comunidade de trabalho, sem qualquer sucesso empresarial relevante. Foi um tempo interessante, mas o paradoxo da empresa de proprietário com o trabalho comunitário permanecia, agravado pelo fato de estarmos numa área -as relações públicas- que existe para conferir legitimidade ao status quo. Tornei-me missionário na Pastoral do Povo da Rua a partir de 2006 e, por quase três anos, conheci gente que nada tinha e ao mesmo tempo era rica em tudo -aprendi a admirar profundamente padre Júlio Lancelotti, um homem lançado ao Reino na terra. Lembro de, por vezes, ao me reunir pela manhã com alguns clientes, empresários de bilhões de dólares, rir-me interiormente, “se ele soubesse onde eu estava algumas horas atrás…”

Meu processo de conversão aprofundou-se num mergulho que reserva-nos a iniciativa do salto, mas não o controle da profundidade. Senti-me crescentemente convocado pelo caminho da comunhão com todos na trilha do silêncio. Por anos frequentei mosteiros católicos, no Estado de São Paulo e no Paraná, especialmente no Mosteiro do Encontro, uma comunidade de mulheres pobres e capazes de vida comunitária em amor como nunca vi. Muitos períodos de retiro, silêncio, vida pautada pela liturgia, numa caminhada que desembocou numa rica experiência de vida monástica no Mosteiro de São Bento de Vinhedo e, logo depois, na Abadia Nossa Senhora da Assunção, em Itatinga, perto de Botucatu, entre 2011 e 2013. Veja algumas fotos dos mosteiros ao final do texto. Cerca de um ano e meio, imaginando que seria o fim da vida. Muitas horas de oração (o Ofício Divino), celebração eucarística diária, estudos, silêncio, um novo jeito de vínculo com o mundo e os pobres, vales de angústia, picos de alegria, feridas abertas, descoberta de Freud, são João da Cruz, são Bento, Gertrudes de Hefta, Martin Buber, Carlos Dominguez Morano, são Bernardo, autores e autoras que se tornaram amigos no silêncio. Um mestre, dom Joaquim Arruda Zamith, um monge que atravessou a história da Igreja durante quase todo o século 20, sábio, culto, bondoso, mergulhado em abismos d’alma quotidianamente. Em Itatinga, testemunhei a transformação de Bergoglio em Francisco, um evento que sequer dentro da Igreja foi compreendido, mas tornou-se o farol de luz a reconduzi-la à originalidade do caminho dos primeiros tempos.

Deixei a clausura, a vida sem internet e jornais e revistas, “derrubado em pleno voo” quando iniciava a organização de um pequeno mosteiro na favela do Peri Alto, a zona norte de São Paulo. Retornei à MVL, às voltas com uma urgente necessidade de renda familiar. Mas já não dava mais. O mundo da comunicação corporativa, da desumanização das relações, do salve-se quem puder porque afinal o que importa mesmo é a grana e o sucesso e o poder amassava-me cotidianamente. Deixei a empresa definitivamente e logo depois ela deixou de existir, absorvida por um grupo.

No caminho, apareceu-me mais um filho, presente inesperado e glorioso, Luigi, que me chegou com Sylvia, um amor radical e entregue. No caminho, também, fui “pescado” pela comunidade reunida em torno da Igreja em Paraisópolis e tornei-me, sem qualquer merecimento, ministro extraordinário da Palavra e da Comunhão, andando por ruas e vielas e casinhas e barracos e capelas tal qual pequenas estrebarias de Belém, vinculado à pequenina e frágil comunidade reunida em torno da capela de Nossa Senhora das Graças.

Desde 2000, tenho sido acompanhado por meu diretor espiritual (sim, isso existe!), padre Beto Mayer, um pobre entre os pobres.

Entreguei a empresa ao grupo que a ela se havia associado quando eu rumara à vida religiosa e… sem plano nenhum, abalroado pela vida, tornei-me proprietário de um pequeno restaurante familiar de comida a quilo, com uma proposta de alimentação orgânica, natural, integral.

Como o grande rio da vida não para, mais mudanças. Iniciei minha formação em psicanalise. Fechamos o restaurante, n no meio de 2016, atropelados pela crise. E voltei ao jornalismo! Fui acolhido generosamente na CartaCapital.

A vida não para, e reserva muita novidade à frente (outubro de 2016).

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Mais fotos da caminhada

Capela da Casa de Oração do Povo da Rua em São Paulo, imagem de 2007

 

Composição – alto relevo feito pelos monges do Mosteiro da Paz (GO) com pedaço de madeira recolhido por um morador de rua de São Paulo
O Mosteiro do Encontro, em Mandirituba (PR), visão em 2006
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Entrada do Mosteiro do Encontro
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Campanário da capela do Mosteiro do Encontro
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Altar da capela do Mosteiro do Encontro
Vitral de Cláudio Pastro, atrás do altar no Mosteiro do Encontro – a apresentação do Menino no Templo
A Igreja do Mosteiro de Vinhedo, imagem de 2012
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Imagem do Cristo, de origem africana, na Igreja do Mosteiro de São Bento em Vinhedo

 

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Refeitório na clausura do Mosteiro de Vinhedo – no primeiro plano, a mesa para a leitura durante as refeições.
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Dom Joaquim Zamith e madre Chantal no Mosteiro do Encontro (2012)
Abadia cisterciense de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen, em Itatinga (SP) – visão externa da capela e mosteiro -imagem de 2012
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Mosteiro de Itatinga, visão interna da capela
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Refeitório do mosteiro em Itatinga
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Sala do Capítulo (reunião dos monges) no mosteiro em Itatinga
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Uma das entradas da favela de Paraisópolis (SP), a partir da av. Giovani Gronchi, em 2015
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Viela onde está a capela Nossa Senhora das Graças em Paraisópolis
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Capela Nossa Senhora das Graças, na área conhecida como Grotão da favela de Paraisópolis