O Papa contra a pena de morte. Conservadores acusam-no: heresia!

O Papa, ao discursar na última quarta: condenação integral à pena de morte

O status institucional da Igreja Católica neste momento é algo como uma queda-de-braço contínua, sem intervalos. A cada gesto do Papa, os conservadores saem a campo para acusá-lo, numa campanha de ódio sem precedentes. Agora, o tema é a pena de morte. O Papa afirmou nesta quarta (11) que a pena de morte é inadmissível nos marcos do cristianismo. Pois os conservadores reagiram imediatamente e, mais uma vez, tentaram intimidar Francisco com o que consideram o pior dos xingamentos: herético! O mais incrível deste episódio é que os mesmos que atacam o Papa pretendem-se radicalmente “pró-vida” (dedicam-se diuturnamente a campanhas para criminalizar o aborto e perseguir as mulheres).

Francisco falou num evento no Vaticano, em torno dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. Redigido sob o comando do então cardeal Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e promulgado por João Paulo II, o texto admite a pena capital em seu tópico 2267: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.”

É hora de virar essa página, afirmou o Papa: “Deve afirmar-se energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal. Em si mesma, é contrária ao Evangelho, porque voluntariamente se decide suprimir uma vida humana que é sempre sagrada aos olhos do Criador e cujo verdadeiro juiz e garante, em última análise, é apenas Deus.” Francisco quer que o tópico seja liminarmente suprimido do Catecismo.

Ele colocou o dedo na ferida, ao referir-se ao fato de a pena de morte já ter sido usada na história pela própria Igreja: “No próprio Estado Pontifício, infelizmente, recorreu-se a este remédio extremo e desumano, descurando o primado da misericórdia sobre a justiça. Assumimos as responsabilidades do passado, reconhecendo que aqueles meios eram ditados por uma mentalidade mais legalista que cristã.”

Sim, a defesa da pena de morte é tão escandalosamente anticristã que desta vez os conservadores não ousaram sair a campo em massa para atacar o Papa –todos os papas do século XX, de maneira mais ou menos explícita condenaram a pena capital, até mesmo Woytila e Ratzinger, apesar de terem produzido o Catecismo.

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Caritas: nunca houve tantos muros no mundo – já são 66

Criança à sombra do muro na Cisjordânia

A Caritas Italiana divulgou nesta sexta (15) o dossiê À sombra do muro,  durante o seminário  “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam”,  que aconteceu nos últimos dois dias em Roma, com uma atenção especial aos muro edificados por Israel contra os palestinos. O dossiê aponta: nunca houve tantos muros a separar países, a impedir migrantes de buscarem uma chance de vida, a manter os pobres longe dos ricos. São 66 muros contra migrantes, pobres e vítimas de guerra no mundo hoje. Para que se tenha uma ideia do modelo gerado pelo capitalismo, havia em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, 16 muros em todo o planeta.

O projeto neoliberal, depois da vitória sobre o “socialismo real” do Leste europeu, revelou-se uma antiutopia. Em vez de oportunidades, progresso e riqueza, miséria , restrições cada vez maiores às liberdades e muros. Segundo o dossiê, ”a globalização, que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes,  foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras”.

Para além da divisão entre os que estão de cada lado dos muros, a separação em concreto e cercas remete a dois projetos, como afirmou o Papa Francisco no encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5 de novembro de 2016, no Vaticano: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro”.

Os 66 muros estão assim divididos: 36 na Ásia e Oriente Médio; 16 na Europa; 12 na África; e dois na América (Estados Unidos/México e México/Guatemala). Veja no quadro abaixo:

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Padres cantores – quando os ídolos caem e quebram

Padres Fábio Melo e Marcelo Rossi: o risco da idolatria

Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê, é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro.

Segundo a ONG Justiça Global, as operações militares que conjugam as tropas do Exército, PM e Polícia Civil, já causaram nos últimos dias sete mortes em Manguinhos e na favela vizinha, Jacarezinho. Em nota veiculada na segunda (21), a entidade afirmou que elas um “revide” após a morte de um policial da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core): “Não podemos admitir que os moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos sejam vítimas de revide, tenham suas casas reviradas, suas escolas fechadas por tempo indeterminado e sejam impedidos de ir e vir. Não podemos mais aceitar que execuções sejam tratadas como ‘balas perdidas’ e não sejam investigadas. Repudiamos o avanço da militarização e todas as políticas a fim de asfixiar territórios negros! Toda solidariedade aos moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos! Resistiremos as violências provocados pelo Estado! Resistiremos ao racismo!”

No mesmo espírito, padre Gegê havia saído (“Igreja em saída”, nos termos do Papa Franciso) às ruas das favelas, no domingo, para rezar e denunciar: “Importante dizer que é matança de pobre, é matança de preto, é política do Estado. Não é por acaso, não é do nada. Deus é contra essas mortes, mortes matada ferem a Deus”.

Veja o vídeo:

É com a autoridade de profeta inserido em seu povo e com a profundidade de teólogo e especialista em psicologia junguiana que ele escreveu este artigo instigante sobre as crises pessoais dos padres-cantores Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que denunciam o próprio modelo dos padres pop star, transformados de padres-homens em padres-ídolos.

[Mauro Lopes]

Leia o artigo a seguir:

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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Francisco acendeu a chama; e a Igreja-pipoca!

Celebração durante a 40ª Romaria da Terra e das Águas, em Bom Jesus da Lapa (BA), organizada pelas CEBs, CPT e movimentos populares organizados em várias dioceses baianas, com mais de 6 mil romeiras e romeiros, entre 7 e 9 de julho. Foto de Thomas Bauer/ CPT Bahia.

Não gosto de pipoca. E, por isso, sou visto como um estranho em minha família. Já me acostumei com os olhares de incompreensão toda vez que “não, obrigado, não gosto mesmo de pipoca”. Não sei, parece-me sem gosto, a textura é estranha. Não sei. Vai ver que é algum trauma da infância. Entretanto, mesmo não gostando de comer, sinto-me maravilhado toda vez que se faz pipoca em casa –e isso acontece muitas vezes por semana!

É um pequeno milagre.

No começo, não há nada, só o fogo aceso. Então uma pipoca estoura. Depois outra, mais uma, outra mais e de um instante para outro é uma profusão de múltiplas explosões. Quando se abre a panela, o que era um fundinho de grãos amarelos tornou-se uma abundância transbordante. É assim –finalmente- com a Igreja sob a liderança de Francisco.

Em 2013, Bergoglio acendeu a chama sob a panela com muitos grãos de aparência inerte, adormecidos, imóveis. Grãos mantidos guardados, trancados no armário por muito tempo. Então o calor começou a fazer efeito. Como cantou Caetano, tem pipocado aqui, ali, além. Pipoca, pipoca, até que a manhã começou a desanoitecer.

E temos de novo a Igreja-pipoca!

A ideia me veio imediatamente à cabeça quando recebi a notícia de que no próximo domingo (30) haverá missa e festa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.  Às 17h, padre Natanael de Moraes irá presidir a celebração em homenagem a seus 51 anos de sacerdócio. Ele estará de volta à cidade 47 anos depois de ser preso e barbaramente torturado durante a ditadura militar. Padre Natanael, agora no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG) era, na virada dos anos 1960/70, religioso verbita, diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda e um dos líderes católicos ao redor de dom Waldyr Calheiros (1923-2013), bispo de Volta Redonda e Barra do Piraí.

Dom Waldyr (à direita), num dos inúmeros depoimentos a que foi convocado pelos militares durante a ditadura

Dom Waldyr foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas que reuniu 40 padres e bispos durante o Concílio Vaticano II: todos assumiram o compromisso de uma vida pobre com os pobres. Ao lado de dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e outros formou a linha de frente da Igreja Católica contra a ditadura e protagonista da Teologia da Libertação.

Ambos, dom Waldyr e padre Natanael, conheceram no final dos anos 60 Estrella Bohadana, uma jovem de 19 anos, militante da Política Operária (Polop) na resistência à ditadura. O sacerdote e Estrella reencontraram-se em 1970 nas salas de tortura do antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindado, em Barra Mansa/RJ. Foram submetidos a torturas brutais, de todo tipo.

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Francisco avança: conservadores desalojados do controle da Cúria romana

O Papa, Müller e Pell: o Vaticano muda como nunca

Em menos de uma semana, Francisco avançou celeremente para desalojar os conservadores do comando da Cúria romana e reafirmar sua liderança sobre o Vaticano e a Igreja. Demitiu nesta sexta (30) o cardeal alemã Gerhard Müller da superpoderosa Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição ou Santo Ofício); antes, havia aceitado o pedido de licença (leave of absence) do cardeal George Pell da Secretaria para a Economia para que ele vá à Austrália defender-se de pesadas acusações de pedofilia. No caso de Pell, ninguém em Roma acredita que ele retomará o posto.

A relação entre o Papa e os conservadores pode ser definida pelo ditado: “os cães ladram e a caravana passa”. Francisco até hoje não reclamou, não respondeu, não retrucou publicamente a um dos seguidos e estrepitosos ataques dos conservadores rebelados contra seu papado. Em silêncio, move as peças do tabuleiro, como um refinado enxadrista jesuíta. O cardeal alemão foi afastado também  da presidência da Pontifícia Ecclesia Dei (responsável pelas relações com os ultraconservadores lefrevianos), da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional.

É um jesuíta o sucessor de Müller na Congregação da Fé: o cardeal espanhol Luis Ladaria Ferrer, atual secretário da congregação –seu nome foi anunciado na manhã deste sábado (1) oficialmente pelo  Vaticano.  Ladaria, sucessor de Müller, está longe de ser um dos cardeais progressistas do círculo mais íntimo de Bergoglio, mas não se admite no Vaticano que ele possa manter a Congregação como um bastião conservador em Roma. Ao contrário, espera-se fidelidade de Ladaria a Francisco e o fim dos tempos da Congregação para a Doutrina da Fé como “polícia” da Igreja, apoio às ações contra os abusos de crianças e jovens e abertura ao protagonismo feminino.

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João Paulo II: os anos terror na Igreja (artigo 1 de 3)

João Paulo II e Pinochet no Palácio de La Moneda, em Santiago (1987), onde o presidente Salvador Allende fora assassinado em 1973 pelas tropas do exército

O pontificado de João Paulo II ainda hoje é entendido pela opinião pública como governo de um homem de fé enraizada, carismático, determinado, defensor da paz, corajoso. Ao longo dos 26 anos de seu longo papado, entre outubro de 1978 e até sua morte, em 2 de abril de 2005, Karol Józef Wojtyła tornou-se um superstar, mobilizando multidões em suas viagens ao redor do planeta. Sua resiliência em conduzir a Igreja doente, alquebrado, imerso em dores, reforçou ainda mais sua imagem.

Mas há um lado que ficou escondido ao longo dos anos, distante dos olhos da imensa maioria das pessoas: foram anos de punições, medo e até terror no interior da Igreja; dirigido contra bispos, padres, freiras e leigos ligados à Teologia da Libertação ou simplesmente adeptos do Concílio Vaticano II. O objetivo: liquidar a Teologia da Libertação, o espírito da primavera do Concílio Vaticano II e realizar o que João Paulo afirmou como prioridade de seu papado, no discurso inaugural: restaurar “a grande disciplina” (leia aqui a mensagem Urbi et Orbi de 17 de outubro de 1978, no dia seguinte à eleição do cardeal Wojtyła como Papa).

Numa breve série de três artigos aqui no Caminho Pra Casa você lerá: 1) uma visão panorâmica do governo de João Paulo II; 2) depois, uma lista inédita que, longe de ser exaustiva, apresenta quase 200 ações repressivas de João Paulo II que semearam medo e silêncio na Igreja; 3) finalmente, o arcabouço doutrinal/institucional desenhado por João Paulo II e seu braço direito, o cardeal Joseph Ratzinger, que seria seu sucessor, com o objetivo de consolidar a visão que o Papa Francisco hoje qualifica de restauracionista e inviabilizar uma nova primavera –que finalmente chegou com a eleição de Jorge Mario Bergoglio em 2013 .

Foi um tempo longo, da “grande disciplina”, expressão que o teólogo brasileiro João Batista Libânio (1932-2014) tomou do discurso de João Paulo II e consagrou como definidora do pontificado.  O teólogo belga e brasileiro por ternura José Comblin (1923-2011) qualificou o tempo de Wojtyła de “noite escura”. O maior teólogo do século XX, Karl Rahner, vítima de uma campanha de um ataques agressivos pelo Vaticano menos de um ano depois de sua morte, em 1984, cunhou outro termo para o tempo da restauração conservadora:  “Igreja invernal” –um inverno longo, frio, de chumbo.

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Papa retoma formulação mais original do cristianismo: Deus só sabe amar

O Papa na Audiência Geral da quarta (7): Deus só sabe amar

Passou relativamente despercebida, mesmo aos católicos, uma frase que o Papa pronunciou na Audiência Geral da última quarta (7) no Vaticano segundo a qual Deus é “capaz somente de conjugar o verbo amar”. Com ela, Francisco retoma a formulação mais original do cristianismo, esquecida/perdida ao longo de séculos pela Igreja institucional e combatida pelo conservadorismo católico e cristão em geral.

Deus só sabe conjugar o verbo amar.

A expressão inspira-se naquela que é a tentativa mais ousada na Bíblia de definir o Divino: “Deus é amor” –a frase aparece por duas vezes na primeira carta de São João (1Jo 4,8.16).

Deus só pode amar.

Irmão Roger: Deus só pode amar

Este é o título de um pequeno livro escrito pelo irmão Roger, da comunidade ecumênica dos monges da comunidade de Taizé, sediada na região da Borgonha, na França. Ela reúne protestantes, católicos e ortodoxos. Existe desde 1940. No Brasil, há um pequeno núcleo de Taizé em Alagoinhas (BA), há 50 anos. O irmão Roger, um protestante que rompeu todas as falsas barreiras das estruturas religiosas, foi assassinado aos 90 anos, agosto de 2005, quando uma mulher romena, com distúrbios mentais, apunhalou-o várias vezes durante a oração da noite.

O livro de irmão Roger é uma pequena preciosidade que deveria inspirar pessoas de todos os quadrantes de espiritualidade e mesmo aqueles que, não acreditando na transcendência, tecem a vida pela bondade e pela busca da essência do ser humano[1].

Muito antes de Francisco e irmão Roger, santo Isaac, o Sírio, no século VII, pontuou: “Deus só pode dar o seu amor”.

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Perseguição à Teologia da Libertação baseou-se em duas fraudes, indicam pesquisas

Dom Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio,  e Bento XVI. Um, protagonista da perseguição à Teologia da Libertação; outro, beneficiário. Ambos responsáveis pela crise da Igreja no Brasil

 

Houve três razões, nenhuma delas efetivamente teológica, que moveram o combate à Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina a partir de 1978, início do pontificado de João Paulo II e durante todo o papado de Bento XVI, até 2013 – 35 anos, portanto. O presente artigo, apesar de mencionar as três, tem foco em duas delas e apresenta pesquisas recentes segundo as quais: i) ambas basearam-se em argumentos fraudentos; ii) o governo conservador da Igreja Católica no Brasil nesse período foi um rotundo fracasso.

As três razões:

1. A primeira tem fundo político-ideológico: demonizou-se a Teologia da Libertação como se fosse uma adesão ao marxismo e/ou comunismo, enquanto os dois papas e seus apoiadores eram e são arraigadamente capitalistas e defensores do direito à propriedade e à acumulação irrestrita de riquezas. A Igreja no Brasil virou as costas aos pobres como sujeitos da ação pastoral para fazer deles, no máximo, objeto de um olhar piedoso. O artigo não se deterá sobre este assunto.

2. A segunda razão foi eclesiológica (de ecclesia, Igreja) e vincula-se ao tema do poder: os dois papas, João Paulo II e Bento, a Cúria romana e a maioria da hierarquia católica no Brasil e América Latina consideram os leigos (pessoas que não são ordenadas sacerdotes) cidadãos de segunda categoria na Igreja. Defendem que a autoridade e o poder devem concentrar-se integralmente nas mãos da hierarquia. Para eles, todo o poder emana do clero e em seu nome será exercido –para implementar essa visão, amealharam apoio entre em sem número de leigos temerosos e oportunistas. É o que se chama clericalismo. As experiências das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos conselhos de leigos nas paróquias horrorizaram os conservadores, que as desarticularam. Para os defensores do clericalismo, uma Igreja circular, não hierárquica, romperia “o mistério”, tornando-a secular, banal, pois as pessoas comuns demandariam, em sua idealização, ritos de conotação mágica e subserviência à autoridade. Para os conservadores, a solução seria a obediência irrestrita dos leigos à hierarquia e investimentos que garantissem ordenação de mais padres e a abertura novas paróquias. A estratégia mostrou-se equivocada, como você verá nas pesquisas, mas serviu para concentrar o poder da Igreja nas mãos dos hierarcas.

3. A terceira motivação para a campanha de ódio e aniquilamento contra a Teologia da Libertação foi pragmática: os conservadores alegavam à época (segunda metade dos anos 1970) que os princípios, opções litúrgicas e prática pastoral de leigos, padres e teólogos vinculados de alguma maneira a esta corrente estavam afugentando os fiéis e esvaziando as igrejas.

O combate à Teologia da Libertação traduziu-se numa campanha sistemática de perseguição a cardeais, bispos, padres, freiras, teólogos e ativistas leigos nas paróquias e comunidades promovidas por Roma, com iniciativas similares da hierarquia local (veja, sobre isso, esclarecedora entrevista do padre Paulo Sérgio Bezerra ao blog, aqui). Vários gestos de João Paulo II e Bento XVI indicaram os novos rumos da Igreja, na contramão do Vaticano II, e autorizaram as campanhas. Alguns deles: os processos e punições nos anos 1980 e 1990 Leonardo Boff da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida por Joseph Ratzinger, a divisão da Arquidiocese de São Paulo, em 1989, com o objetivo de enfraquecer dom Paulo Evaristo Arns, a repreensão pública ao padre Ernesto Cardenal, aliado dos sandinistas na Nicarágua, por João Paulo II, em 1983; as seguidas repreensões ao arcebispo de San Salvador, dom Oscar Romero, sinalizando ao clero ultraconservador e aos militares do país que estava desautorizado pelo Papa, num claro sinal verde à campanha contra ele, até o assassinato por paramilitares durante a celebração da missa, em 1980.

Como se deu o governo da Igreja no Brasil nesses 35 anos? O primeiro passo foi o rompimento dos os moderados, pressionados por Roma e por seu desejo de fazer carreira na instituição, com os progressistas ligados de alguma forma à Teologia da Libertação.  O segundo foi a composição de uma nova aliança dos moderados com dois segmentos: os conservadores “tradicionalistas” e a corrente “carismática”, os neopentecostais da Igreja Católica (cujas expressões mais barulhentas foram a Renovação Carismática Católica e a Canção Nova).  Hoje é possível constatar que os restauracionistas, como qualifica o Papa Francisco (aqui), inimigos abertos ou velados do Concílio Vaticano II, campo que reúne tanto conservadores como carismáticos, vivenciam os primeiros sinais da crise de sua hegemonia de 35 anos, com a primavera em Roma.

Com a primavera, salta aos olhos o fracasso retumbante do governo de mais de três décadas: 1) a perda de fiéis católicos tornou-se uma torrente e 2) a Igreja deixou de ser protagonista, tornando-se mero objeto decorativo no sistema de dominação dos ricos do continente –mesmo em sua função de controle social/moral dos pobres, os conservadores viram sua influência ser transferida em boa medida para as correntes neopentecostais protestantes, das quais o pentecostalismo católico (os “carismáticos”) é uma cópia mal acabada.

O que aconteceu durante os 35 anos de hegemonia conservadora/carismática?

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Os Marinho, as ruas, Temer, mídia e luta de classes

Tirar Temer no tapetão e com eleições indiretas como querem os Marinho é muito diferente de derrubá-lo nas ruas e com diretas já

Veja que interessante. A Globo quer a renúncia de Temer. A esquerda, os movimentos sociais, os sindicatos querem a renúncia/derrubada do presidente golpista.
Ora, não seria razoável imaginar uma aliança, ainda que pontual entre a Globo e os movimentos sociais/a esquerda? Todos não querem o mesmo, a queda de Temer?
Não seria razoável pensar que a Globo devesse repetir o que fez ao convocar de maneira persistente, intensa, os movimentos de rua contra Dilma, em 2015/2016? Ora, hoje (21) há manifestações de rua convocadas em todo o país, assim como na quarta (24), quando há uma marcha sobre Brasília e os Poderes corruptos e traidores da democracia.
A Globo não deveria estar convocando maciçamente essas manifestações? Não é evidente que se a postura da Globo se repetisse haveria uma enorme potencialização dos protestos de rua pela queda de Temer? Então por que há silêncio, porque há veto dos Marinho e seus capatazes em relação às manifestações de agora?
Porque a posição de cada qual está perpassada por seu caráter de classes.
Os Marinho e sua turma querem a saída de Temer para que tudo fique como está, para que as reformas prossigam, que os pobres sejam ainda mais esfolados. Os Marinho são a personificação do príncipe de Falconeri, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa, na metade do século 20: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”.
Para isso, é fundamental derrubar Temer e fazer uma transição sob controle dos ricos, com uma eleição indireta no Congresso comandado por eles (mais da metade dos parlamentares tiveram seus mandatos comprados pelos grandes grupos empresariais, como o megadelator Joesley Batista revelou). É preciso que o Judiciário faça sua parte e tenha tempo de vetar Lula de concorrer às eleições, é preciso manter as chaves da senzala nas mãos.
Os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda querem derrubar Temer para mudar radicalmente a orientação do país. Querem eleições diretas -de preferência eleições gerais com proibição taxativa do patrocínio/compra empresarial de candidaturas.
Por isso a Globo não convoca os protestos de rua. Ela morre de medo de perder o controle. Quanto ao Estadão Folha, Bandeirantes e outros, esses continuam cães de guarda do golpe, ao lado de outra fração dos ricos -a Abril está que nem barata tonta. Em parte porque têm medo do que pode acontecer no processo de queda de Temer; mas em verdade, desesperados por seus acordos sigilosos que envolvem dezenas, centenas de milhões de reais com Temer para salvá-los da bancarrota -Otavinho, os Saad, os Civita e outros são como Joesleys que negociam outro tipo de carne.
Estamos vivendo um momento duro, tenso, de intenso sofrimento para os pobres e algumas esperanças, um momento raro em que um fato abalou uma correlação de forças que estava estratificada.
Estamos também assistindo uma aula a céu aberto sobre luta de classes.

[Mauro Lopes]