Os Marinho, as ruas, Temer, mídia e luta de classes

Tirar Temer no tapetão e com eleições indiretas como querem os Marinho é muito diferente de derrubá-lo nas ruas e com diretas já

Veja que interessante. A Globo quer a renúncia de Temer. A esquerda, os movimentos sociais, os sindicatos querem a renúncia/derrubada do presidente golpista.
Ora, não seria razoável imaginar uma aliança, ainda que pontual entre a Globo e os movimentos sociais/a esquerda? Todos não querem o mesmo, a queda de Temer?
Não seria razoável pensar que a Globo devesse repetir o que fez ao convocar de maneira persistente, intensa, os movimentos de rua contra Dilma, em 2015/2016? Ora, hoje (21) há manifestações de rua convocadas em todo o país, assim como na quarta (24), quando há uma marcha sobre Brasília e os Poderes corruptos e traidores da democracia.
A Globo não deveria estar convocando maciçamente essas manifestações? Não é evidente que se a postura da Globo se repetisse haveria uma enorme potencialização dos protestos de rua pela queda de Temer? Então por que há silêncio, porque há veto dos Marinho e seus capatazes em relação às manifestações de agora?
Porque a posição de cada qual está perpassada por seu caráter de classes.
Os Marinho e sua turma querem a saída de Temer para que tudo fique como está, para que as reformas prossigam, que os pobres sejam ainda mais esfolados. Os Marinho são a personificação do príncipe de Falconeri, do romance “O Leopardo”, de Lampedusa, na metade do século 20: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”.
Para isso, é fundamental derrubar Temer e fazer uma transição sob controle dos ricos, com uma eleição indireta no Congresso comandado por eles (mais da metade dos parlamentares tiveram seus mandatos comprados pelos grandes grupos empresariais, como o megadelator Joesley Batista revelou). É preciso que o Judiciário faça sua parte e tenha tempo de vetar Lula de concorrer às eleições, é preciso manter as chaves da senzala nas mãos.
Os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda querem derrubar Temer para mudar radicalmente a orientação do país. Querem eleições diretas -de preferência eleições gerais com proibição taxativa do patrocínio/compra empresarial de candidaturas.
Por isso a Globo não convoca os protestos de rua. Ela morre de medo de perder o controle. Quanto ao Estadão Folha, Bandeirantes e outros, esses continuam cães de guarda do golpe, ao lado de outra fração dos ricos -a Abril está que nem barata tonta. Em parte porque têm medo do que pode acontecer no processo de queda de Temer; mas em verdade, desesperados por seus acordos sigilosos que envolvem dezenas, centenas de milhões de reais com Temer para salvá-los da bancarrota -Otavinho, os Saad, os Civita e outros são como Joesleys que negociam outro tipo de carne.
Estamos vivendo um momento duro, tenso, de intenso sofrimento para os pobres e algumas esperanças, um momento raro em que um fato abalou uma correlação de forças que estava estratificada.
Estamos também assistindo uma aula a céu aberto sobre luta de classes.

[Mauro Lopes]

Meirelles era o presidente do JBS e não sabia de nada?

Meirelles e seu patrão, Joesley Batista, em 2012, quando foi contratado como presidente do grupo

Henrique Meirelles, a grande unanimidade das elites do país, que insistem em colocá-lo acima de qualquer suspeita, tem um “detalhe” em sua biografia que a imprensa golpista deixou passar: ele era o presidente do grupo durante os anos em que o JBS repassou ao redor de meio bilhão de reais aos políticos, com carta branca dos donos. Uma de suas responsabilidades era exatamente o contato com o mundo político. Não é incrível? E não sabia de nada? Não viu nada? Não “trocava figurinhas” com o agora megadelator e seu ex-patrão Joesley Batista?

Se sabia, é inexplicável que não tenha ainda entrado na dança. Se sabia e atuou em parceria com Joesley, mais grave ainda.  Se não sabia, bem… se Meirelles foi o presidente do grupo entre 2012 e 2016 e não soube que saíram R$ 500 milhões do caixa das empresas, nas mãos de quem está a economia do país?

O ministro e sua equipe divulgaram uma informação mentirosa ao Brasil quando a questão de sua ligação com a JBS incomodou: numa nota oficial do Ministério da Fazenda à imprensa em setembro de 2016 afirmou-se que Meirelles “se limitava a prestar consultoria” ao grupo. A imprensa golpista, agora engalfinhada em torno da permanência ou não de Temer, engoliu a história e o cargo fictício criado para Meirelles, que seria presidente de um tal Conselho Consultivo, que não existe, com o claro objetivo de reduzir a responsabilidade do ministro –leia aqui uma reportagem sobre a nota do Ministério e a invenção do “Conselho Consultivo”.

Meirelles nunca foi presidente deste “Conselho Consultivo” inexistente, e sim presidente do Conselho de Administração do grupo JBS entre 2012 e até sua entrada no governo Temer em 2016. Tinha poderes amplos no grupo. A reportagem da revista Exame que anunciou a contratação de Meirelles, em 2012, quase um press release do grupo, tinha um título significativo: “O preço de Meirelles para o JBS” –ao redor de R$ 40 milhões por ano! Na reportagem, Joesley Batista afirmou taxativamente: “O Meirelles não vai ser apenas um consultor. Vai cobrar resultados dos executivos e traçar estratégias para a expansão do negócio; agora é com ele.” Muito longe da versão do Ministério da Fazenda em 2016. Logo abaixo do título da reportagem, uma frase explicitava o poder e o preço de Meirelles: “Joesley Batista deu carta branca e uma montanha de dinheiro ao ex-presidente do Banco Central”. Mas há mais. Leia mais estre trecho da reportagem/press release: “‘Além de ter excelentes conexões empresariais, ele transita muito bem no governo.’ (Meirelles interrompeu a entrevista no dia 9 de março para receber o ministro Fernando Bezerra Coelho, da Integração Nacional, na sede da J&F, no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.)”  –se quiser, leia toda a reportagem aqui.

Os Conselhos de Administração das empresas de capital aberto deixaram de ser há mais de 20 anos os órgãos decorativos que foram no século XX. Eles orientam, controlam e, por meio de comitês, exercem funções executivas nas grandes empresas.  Não é diferente na JBS, ao contrário do que Meirelles quis fazer crer meses atrás. Veja no site do grupo para investidores que sequer existe o tal “Conselho Consultivo” soprado pela equipe do Ministério aos jornalistas da imprensa conservadora, que engoliram sem sequer um clique no site: clique você aqui; em seguida, clique na aba Informação Corporativa e você verá que o que existe mesmo é um Conselho de Administração. Se você for até a área do Conselho no site, lerá: “O Conselho de Administração da Companhia é o órgão responsável por, em outras questões, determinar as suas políticas e diretrizes dos seus negócios. O Conselho de Administração também supervisiona a Diretoria (…)”.

Dá pra acreditar que como presidente do grupo ele não soube de nada? Não viu? Não leu? Sumiram R$ 500 milhões dos cofres do grupo e Meirelles não soube? Se ele soube, deve entrar nos processos em curso. Se ele não sabia de nada mesmo, deve ser interditado, porque deixar um néscio assim como ministro da Fazenda do Brasil é um risco sem medida.

[por Mauro Lopes]

Mal de Huntington: mobilização mundial para encontro com o Papa

Comunidades, famílias, doentes e ativistas mobilizam-se em todo o mundo para o encontro com o Papa em 18 de maio

Milhares de pessoas vítimas da doença de Huntington, familiares e ativistas em todo o mundo estão se preparando para um encontro histórico com o Papa Francisco em 18 de maio no Vaticano. A doença atinge uma em cada 10 mil pessoas, estimando-se haver um milhão de doentes no mundo hoje. É praticamente desconhecida fora do círculo familiar e relacional dos doentes. É uma mutação hereditária rara, neurodegenerativa, que afeta o sistema nervoso central, causando alterações dos movimentos, do comportamento e da capacidade cognitiva –saiba mais no site da Associação Brasil Huntington.

O encontro é uma enorme esperança para que a doença deixe de ser objeto de vergonha e discriminação dos afetados e seus familiares e seja vista à luz do dia em todo o planeta. Por isso, o encontro acontecerá sob o título HDdennomore, que é pronunciado em inglês Hidden No More, ou Esconder Nunca Mais, com a união da abreviação da doença (HD -Huntington’s Disease) que ecoa a palavra esconder (hidden) –veja o site mundial que reúne informações sobre a reunião com o Papa: http://hddennomore.com/.  Veja também a página no YouTube, com vídeos breves e clicando aqui.

Assista a um vídeo belo e tocante sobre a doença e o encontro com o Papa, feito pelo movimento HDdennomore:

“Queremos mostrar a doença ao mundo todo e, especialmente, termos uma bênção especial do Papa para os doentes, seus familiares e amigos”, afirma Vita Aguiar de Oliveira, presidenta da Associação Brasil Huntington e familiar de um doente. Do Brasil irão mais de 30 pessoas, sendo que duas delas, de Coronel Fabriciano (MG) foram sorteadas para terem a viagem paga –veja reportagem aqui. Nesta outra reportagem você pode conhecer outra família que se prepara para a viagem a Roma: aqui.

A doença é quase equivalente a uma sentença mortal que se abate sobre famílias inteiras. Uma vez que um membro da família tenha o gene defeituoso de Huntington (nome do médico que descreveu a síndrome, o norte-americano George Huntington, em 1872) seus descendentes terão 50% de probabilidade de sofrer do mesmo problema.  Os portadores da mutação desenvolvem a doença em geral entre 35 e 55 anos de idade.

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Papa: prefácio para livro de um homem abusado na infância

Daniel Pittet, vítima de um padre pedófilo na infância, lançou um livro relatando a história com prefácio do Papa

O Papa Francisco escreveu o prefácio do livro Eu o perdoo, padre, do suíço Daniel Pittet, no qual ele relata os abusos sexuais que sofreu na infância por um padre pedófilo e todos o drama e traumas que o crime continuado lhe causou. Francisco escreveu é dever da Igreja tratar estes casos com “extrema severidade” e indicou, ainda que indiretamente que o clericalismo está na raiz da rede de proteção que se prolongou por décadas aos abusadores, desde as primeiras denúncias nos anos 1970.

No texto, o Papa fez menção à necessidade de punição aos bispos e cardeais que protegeram e acobertaram os abusadores e ao ” muro de silêncio que sufocava escândalos e sofrimento”. O espírito clerical/conservador, que advoga uma “pureza” e “santidade” absolutas da Igreja, teceu ao longo dos anos uma rede de proteção, cumplicidade e acobertamento dos padres e religiosos abusadores. Na semana passada, um advogado declarou à Real Comissão que está à frente das investigações dos casos de abusos na Austrália, que o próprio Papa João Paulo II recebeu relatórios sobre casos de abusos  e nada fez para investigar e punir os culpados (veja aqui)

bispos ou cardeais, que os tenha protegido, como já aconteceu no passado.

O Papa escreveu ainda que os padres abusadores cometeram atos de “monstruosidade absoluta” e questionou: “Como pode um sacerdote a serviço de Cristo e de sua Igreja causar tanto mal? Como pode alguém ter dedicado sua vida para levar as crianças a Deus, e ao final, devorá-las no que chamei de “um sacrifício diabólico”, que destrói tanto a vítima quanto a vida da Igreja?” Em seguida, Francisco mencionou os casos de suicídio de crianças e jovens que se seguiram aos abusos.

[Mauro Lopes com Vatican Insider]

Leia o texto integral do prefácio do Papa Francisco (em tradução livre de minha responsabilidade):

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A Casa Grande, os R$ 45 bi dos bancos; e os 12 milhões de escravos libertos sem trabalho

O conforto com os lucros dos bancos é uma das faces da indignação das elites com a libertação da escravidão

Há dois recursos discursivos que as elites usam para enrolar os pobres do país, tratando-os sempre como crianças: o primeiro é dizer que os assuntos são complicados demais e que não dá para entender, como acontece no caso dos juros da dívida pública; o segundo é simplificar e distorcer para agitar fantasmas no imaginário das pessoas, como é o caso da história tosca de que a economia do país seria como a de uma família. Na verdade, há um terceiro recurso discursivo, para situações extremas: a Polícia Militar e agora, como o demonstra o Espírito Santo, o exército.

Esta breve introdução para o artigo a seguir estava pronta quando me encontrei ontem (8) com o amigo Eduardo Fagnani, talvez a pessoa que entendeu com maior profundidade o processo de falência da Previdência Social engendrado pelo novo regime (veja uma entrevista de Fagnani aqui). Ele citou livremente Joaquim Nabuco em “O abolicionismo”: “Num país de 516 de história, quase 300 foram debaixo da escravidão, e isso determinou a alma das elites, que olham para o povo hoje como olharam durante 300 anos”.

De fato, é uma imagem precisa: as elites enxergar os pobres de hoje como os escravos injustamente libertos, mais do que como crianças. Ressoa até hoje a indignação do senador Barão de Cotegipe com a Lei Áurea registrada pelo Jornal do Senado em 14 de maio de 1888: “a Constituição, a lei civil, as leis eleitorais, as leis de fazenda, os impostos etc., tudo reconhece como propriedade e matéria tributável o escravo, assim como a terra”. Além de traçar um sinal de igualdade entre a propriedade das pessoas e de bens como a terra, ele protestava contra a agressão ao que há de mais sagrado para as elites brasileiras, o direito de propriedade, pois com a abolição decretava-se, na visão do senador, que “não há propriedade, que tudo pode ser destruído por meio de uma lei sem atenção nem a direitos adquiridos nem a inconvenientes futuros”. A voz de Cotegipe está reverberada nos discursos de Romero Jucá, Aloysio Nunes, Aécio Neves, na torrente de ódio contra os pobres que inunda as redes sociais, na lógica que os banqueiros e seus aliados decretam ao país…

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Uma entrevista histórica de Leonardo Boff

O teólogo brasileiro Leonardo Boff: um novo tempo na Igreja

Leonardo Boff concedeu uma entrevista histórica ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger, publicada em 25 de dezembro de 2016. Segue-se a tradução que recolhi do site católico espanhol Religion Digital, em espanhol, e traduzi livremente.

É preciso lê-la completa. Alguns pontos que destaco: o bastidor da colaboração entre ele e o Papa na redação da encíclica Laudato Sii; a reabilitação da Teologia da Libertação; uma concepção renovada (e ao mesmo tempo ortodoxa) da encarnação de Cristo; a história do encontro frustrado com Francisco; o isolamento dos cardeais rebelados contra o Papa; a possibilidade concreta do diaconato das mulheres e do retorno dos padres casados ​​ao ministério -no caso dos padres, Boff antevê uma experiência exatamente no Brasil, a partir de um pedido dos bispos. Por fim, uma revelação bonita: com autorização e apoio dos bispos, Boff continua a presidir a missa quando está em comunidades sem padres, mesmo casado. Depois de anos e anos de perseguição da Cúria romana e dos conservadores no Brasil, Leonardo Boff continua fiel à Igreja.

Como é a fé em um “Deus da paz” de que nos fala o Natal, em meio à discórdia que experimentamos em toda parte?

A maior parte da fé é promessa. Ernst Bloch diz: “O verdadeiro Gênesis não acontece no início, mas no final, e seu começo é quando a sociedade e a existência são radicais.” A alegria do Natal é esta promessa: a terra e as pessoas não estão condenadas eternamente a viver como nós vemos agora – todas as guerras, a violência, o fundamentalismo. A fé nos promete que, ao final, tudo vai ficar bem: que, apesar de todos os erros e contratempos teremos um bom final. O verdadeiro significado do Natal não é que “Deus se fez homem”, mas que Ele veio para nos dizer. “Você, seres humanos, pertencem a mim e quando vier a morte vocês voltarão para casa” [a mim, editor deste Caminho pra Casa, este é um trecho que causou funda emoção, pois é este mesmo o espírito que levou ao nome deste blog]

O Natal significa então que Deus vem nos buscar?

Sim. A encarnação significa que algo em nós é divino e imortal. O Divino está dentro de nós. Em Jesus, isso demonstrou-se mais claramente. Mas está em todos os homens. Em uma perspectiva evolutiva Jesus não veio do exterior ao mundo, mas cresce a partir dele. Jesus é a manifestação do divino em evolução – mas ele não é o único. O Divino também aparece em Buda, Mahatma Gandhi e outras grandes figuras religiosas.

Isso não soa muito católico.

Não diga isso. Toda a teologia franciscana da Idade Média compreendia Cristo como parte da criação, não apenas como o redentor da culpa e do pecado, que vem de fora do mundo. Encarnação é redenção, sim. Mas, acima de tudo, é uma celebração, uma divinização da criação. E outra coisa é importante no Natal: Deus aparece sob a forma de uma criança. Não como um velho de cabelos brancos e barba branca longa …

Então, como você? …

Nada disso, eu me pareço mais com Karl Marx. No que me concerne: quando nós terminamos nossas vidas e devemos responder ao juiz divino, então estamos diante de uma criança. Uma criança não condena ninguém. Uma criança que quer brincar e estar com os outros. Precisamos voltar a sublinhar este aspecto da fé.

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CNBB: tema da Igreja é anúncio do Evangelho e não estatísticas ou marketing

Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB

Uma entrevista excepcional de dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário-geral da CNBB, à Folha, a pretexto da tal pesquisa que constatou uma queda de 9 milhões de pessoas que de declaram católicas no Brasil.

É muito interessante observar como há duas maneiras radicalmente distintas de olhar o mundo e a vida: a da repórter, representante do jornal, que vaza todas as perguntas de dentro  dos parâmetros do status quo de sucesso/fracasso, competição, perdas/ganhos estatísticos; e as respostas de dom Leonardo, assentadas na lógica do cristianismo, que opera a partir das condicionantes do amor, caminhada com os pobres, compaixão. Vale a pena ler e contemplar esses “dois mundos” em paralelo.

A entrevista é relevante igualmente pela denúncia à vigência dos valores do capitalismo neoliberal em largos segmentos do catolicismo brasileiro. É digno de nota perceber que há mais identidade entre o discurso da jornalista e o de tais segmentos do que deles com o de dom Leonardo, sacerdote franciscano e bispo auxiliar de Brasília.

Alguns pontos que sugiro à reflexão:

1.  A “onda” das estratégias de espírito capitalista – dom Leonardo deixa claro que a “moda” de incorporar conceitos tomados do capitalismo para os planos pastorais é um equívoco: “A Igreja cuida da evangelização, do anúncio dos valores do Evangelho, e não se ocupa com estratégias para melhorar estatísticas.”

É uma condenação à febre capitalista dos últimos anos, nos quais a invasão dos valores neoliberais em segmentos da Igreja fez com que os planos pastorais passassem a se tornar cópias malfeitas de planejamentos empresariais. Planos com metas para arrecadação de dinheiro e outras, como “captação de fiéis”, prêmios (e punições), estatísticas etc.

Pulularam pretensas “agências de marketing” católicas, feiras de “produtos” católicos, “eventos comerciais” católicos. Existe até um Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC), presidido pelo arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que tem se colocado como líder do conservadorismo católico no país e responsável pela inserção dos conteúdos capitalistas neoliberais na Arquidiocese do Rio e em sua área de influência em outros recantos. Vale a pena visitar no site da entidade a página Estatuto do IBMC. É um “recorta e cola” de qualquer associação de marketing empresarial. Não há nada que aproxime o texto do cristianismo, exceto pelo uso das expressões “Igreja Católica” e “católico” –como se a inserção simples desses vocábulos mudasse o caráter e o espírito da associação.

Marketing é um conceito, processo(s) e ferramenta típica do capitalismo. Segundo o “guru do marketing”, o norte-americano Philip Kotler, ele é uma “função empresarial que identifica necessidades e desejos insatisfeitos, define e mede sua magnitude e seu potencial de rentabilidade, especifica que mercados-alvo serão mais bem atendidos pela empresa, decide sobre produtos, serviços e programas adequados para servir a esses mercados selecionados”. Imaginar que é possível “integrar” esta disciplina capitalista à atividade da Igreja colocando-a a serviço do cristianismo é uma ilusão (ou, mais propriamente, conversa fiada): o que se viu ao longo dos anos foi a submissão dos segmentos cristãos que se renderam ao canto da sereia do marketing aos princípios do capitalismo. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,3) disse Jesus. Se o marketing é a “ciência” maior do capitalismo, ferramenta para dotar as empresas de capacidade de arrancarem o máximo de dinheiro dos seus clientes/consumidores, uma atualização cabível da frase é: “Não podeis servir a Deus e ao marketing”.

Vale a pena cotejar o que disse dom Leonardo na entrevista sobre as “cinco urgências pastorais” da Igreja e as definições dos planos elaborados por segmentos da Igreja a partir dos conceitos de “eficiência e resultados” com uso de estratégias de marketing. O que é prioritário para a Igreja, segundo o secretário-geral da CNBB:

  • “permanecer em constante estado de missão, ou, como diz o papa Francisco, sermos uma ‘Igreja em saída’;
  • cuidado com a iniciação à vida cristã;
  • assumir, sempre mais, a animação bíblico-catequética das comunidades;
  • reconhecer e vivenciar a Igreja como comunidade de comunidades;
  • e, por fim, ser cada vez com maior vigor e coragem uma Igreja a serviço da vida plena para todas as pessoas.”

Nada a ver com “resultados”, “performance”, “metas”…

2. A participação na política – o secretário-geral da CNBB afirmou a presença dos católicos na política como necessária e sempre integrada à opção de uma Igreja pobre com os pobres, e não a partir de temas “moralizadores” e vinculados às noções de “meritocracia” defendidas por segmentos católicos submetidos aos poderosos de plantão. As declarações de dom Leonardo referenciaram-se no Papa Francisco: “O Papa Francisco, no esforço que tem feito para que os jovens conheçam a Doutrina Social da Igreja, considera que ‘o mundo só mudará quando homens com Jesus se entregarem por ele, com Ele forem para as periferias e para o meio da miséria’”. E ainda: “O Papa desafia todos os jovens a irem para a política e a lutar pela justiça e pela dignidade humana, sobretudo dos mais pobres”.

É um estrondo a escolha por dom Leonardo de uma frase da apresentação DOCAT, um catecismo para jovens sobre a Doutrina Social da Igreja lançado por Francisco na Jornada Mundial da Juventude 2016: “Um cristão que não seja revolucionário neste tempo, não é cristão”.

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Arcebispo Bruno Forte defende Papa e revolução da Amoris Laetitia

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Arcebispo Bruno Forte e o livro do padre e teólogo Jesus Maria Gordo, “Estive divorciado e me acolhestes” – foto de Religion Digital

Um dos mais destacados arcebispos e teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, acaba de sair em aberta defesa do Papa Francisco, dos resultados do Sínodo da Família e da exortação Amoris Latetitia (A Alegria do Amor) -sob cerrado ataque de segmentos conservadores da Igreja. Ele escreveu o prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes (em tradução livre).

O livro, recém lançado na Espanha pela PPC Editorial, busca entender o percurso do Sínodo extraordinário dos bispos de 2014 e o ordinário, de 2015, dedicados ao tema da família. Para isso, o autor relaciona o Sínodo à trajetória das formulações da Igreja a partir do Concílio Vaticano II e dos debates dos teólogos católicos nesse período. [Se quiser, leia reportagem sobre o lançamento do livro no site Religion Digital clicando aqui].

O arcebispo e teólogo Bruno Forte, que foi secretário dos dois sínodos, escreveu que eles “respiraram a pleno pulmão o ar do Concílio, aquele espírito de primavera eclesial de João XXIII” -exatamente o espírito contra o qual se insurgem os conservadores na Igreja [toda a tradução de trechos do prólogo é de minha responsabilidade].

Um dos aspectos centrais deste espírito, para Forte, foi o caráter “colegialidade episcopal” que, de fato, não se via na Igreja desde o Vaticano II e mais especialmente desde a posse de João Paulo II, quando e estrutura hierárquico-piramidal voltou a prevalecer. Esta colegialidade “foi o procedimento que o Papa Francisco entendeu que haveria de impulsionar as decisões sinodais”, acrescentou o cardeal italiano.

No prólogo, o prelado e teólogo chamou atenção para o fato de o Sínodo não apenas respirar o espírito horizontalizado do Concílio, mas igualmente privilegiar a “dimensão pastoral” nas discussões e decisões, com foco nas “implicações existenciais e sua aplicação na vida diária”.

A grande revolução está na exortação pós-Sinodal Amoris Laetitia de Francisco: o Papa deixou de lado orientações assertivas que tendem a considerar a base da Igreja como incapacitada para o discernimento e entregou a padres, freiras religiosos, religiosas e fiéis a tarefa de co-elaborar e amadurecer decisões e sua aplicação. Uma revolução que está deixando os conservadores em estado de choque!

Escreveu Forte:  “o Sínodo não quis oferecer respostas prontas, mas antes preferiu convidar os pastores e fiéis a uma tarefa de fé adulta, que possa discernir a vontade do Senhor nas situações singulares e ajude cada um a compreendê-la e colocá-la em marcha. Uma escolha difícil, dirigida a cristãos adultos e, com efeito, uma escolha a favor da liberdade e da maturidade para os crentes casados, tendo presentes as luzes e desafios do nosso tempo”. Desde o tempo de Jesus e das primeiras comunidades não se via nada parecido.

Isso significa que cada comunidade deverá discernir e escolher o melhor caminho a seguir quanto “à situação dos divorciados que voltaram a se casar e quanto à sua participação na vida eclesial e sacramental”.

O texto de Bruno Forte talvez tenha sido o primeiro a captar a profundidade da mudança que Francisco propõe à Igreja com “um estilo magisterial inédito em muitos aspectos: que busca combinar liberdade e consciência pessoal no marco de um horizonte de fé no qual a ninguém é permitido agir sozinho e no qual ninguém se anime a abdicar da própria responsabilidade como cristão adulto na fé. Uma mensagem para novos protagonistas, novos tempos e novos desafios aos quais os cristãos do terceiro milênio deverão responder solidariamente com serena confiança na fidelidade do Deus vivo a seus filhos e a toda sua Igreja”.

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Os católicos estão celebrando seu Ano Novo

Jesus Cristo ressuscitado na 15ª estação da Via Sacra, por Cláudio Pastro. Deus irrompe de dentro da história humana

Caetano Veloso cantou o tempo, numa música-oração (Oração ao Tempo):

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

(ouça-a completa no link acima, sobre o nome da música)

O tempo é um tema-chave para os seres humanos, objeto de indagações, estudos e angústias na filosofia e na física, na astronomia e na biologia, na prosa e no verso, na psicanálise e na política. O tempo atravessa-nos em todas as dimensões.

Nas religiões, igualmente, ocupa um lugar central, porquanto é nele que se manifesta o sagrado: “Dar ao tempo uma conotação de ‘tempo sagrado’ é reconhecer e ‘dar espaço’ ao Eterno no tempo que ‘irrompe na história’ (Gl 4,4-5), igualmente concebendo que Deus passa a fazer parte do tempo dos que não vivem fora do tempo”.[1]

É de tempo que se trata este artigo.

A maioria das pessoas ignora, como provavelmente a maioria dos católicos igualmente, mas a Igreja Católica está celebrando o Ano Novo. Ou, mais exatamente: um novo Ano Litúrgico. A liturgia, palavra de origem grega que designa originalmente o trabalho do povo (a junção de leit, de laós, povo + urgía, trabalho). Este significado original foi tardiamente modificado para ofício público ou culto público, que é o sentido com o qual a palavra tornou-se corrente. Portanto, o Ano Litúrgico é o culto público dos católicos num tempo determinado.

É ainda mais que isso.

Acompanhe-me nesta viagem –ela é fascinante.

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