Papa reconhece que se equivocou no Chile

O Papa durante sua visita ao Chile em janeiro

Francisco reconhece em carta que errou no Chile durante sua infeliz passagem pelo país em janeiro, quando apoiou bispos acobertadores de crimes sexuais contra crianças e jovens e atacou as vítimas: “incorri em graves equívocos de avaliação e percepção da situação”.  A viagem foi uma enorme decepção e um fiasco. O Papa não se apequena com seu gesto de agora; ao contrário, agiganta-se ainda mais aquele que é o maior líder do planeta.

Por Mauro Lopes

Numa carta aos bispos chilenos enviada domingo (8) e divulgada hoje pelo Vaticano, o Papa reconheceu ter se equivocado em sua viagem ao Chile quando, fiando-se nas informações das hierarquia local, defendeu os bispos que acobertaram os padres pedófilos e ofendeu as vítimas e comunidades que exigiam justiça.

No texto da carta lê-se:

“No que me toca, reconheço e assim quero que o transmitam fielmente, que incorri em graves equívocos de avaliação e percepção da situação, especialmente por falta de informação veraz e equilibrada. Desde já peço perdão a todos aqueles a que ofendi e espero poder fazê-lo pessoalmente nas próximas semanas, nas reuniões que terei com representantes das pessoas entrevistadas” -o Papa referia-se neste trecho às vítimas e seus parentes entrevistados por seu enviado especial ao Chile, o arcebispo de Malta, Charles J. Scicluna, e o padre espanhol Jordi Bertomeu, da Congregação para a Doutrina da Fé.

Continue lendo “Papa reconhece que se equivocou no Chile”

Uma hora decisiva: confronto ou guerra de desgaste?

A sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, na manhã desta sexta (6)

Ao fim e ao cabo, há uma única hora decisiva da qual ninguém escapa, a morte. Antes dela, porém, a vida nos apresenta muitas horas decisivas. Esta é uma delas, depois do julgamento do STF, da decisão de Sérgio Moro de atropelar tudo e mandar prender Lula e da mobilização ao redor do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, o berço das greves de 1979, a casa de Luis Inácio, o nascedouro do PT. A hora é de confronto ou de partir para uma “guerra de desgaste”? Que forças tem o campo popular-democrático?

Por Mauro Lopes

É muito simbólico que Lula tenha ido para sua casa (o útero),  o Sindicato em São Bernardo do Campo, e que toda a mobilização de resistência à última e mais grave ofensiva do golpe depois da deposição de Dilma em 2016 tenha se dirigido na noite de ontem,  quinta (5). Caravanas partiram na noite-madrugada de diversas cidades do Estado de São Paulo e de outros estados para São Bernardo.

O que fazer agora?

Creio que a resposta está no quanto o simbólico representado pela concentração em São Bernardo do Campo corresponde neste momento ao fio da história viva da luta operária, sindical e popular do fim dos últimos 40 anos -de 1970 para cá.

Lula escolheu estar entre os seus. Não há ninguém que seja mais “de Lula” que os metalúrgicos do ABC. Pois bem. Eles irão mobilizar-se? Haverá greve ao menos nas fábricas mais icônicas do movimento operário que marcou o país -na Ford, GM, Volks?

Continue lendo “Uma hora decisiva: confronto ou guerra de desgaste?”

Um convite: Semana Santa e Páscoa com os franciscanos

Henry Taylor entitled ‘The Times Thay Ain’t Changing, Fast Enough’

Apesar de muita gente considerar que o Natal seria o momento culminante do cristianismo, na verdade é a Semana Santa o auge deste caminho de seguimento do Mestre. Nela, está condensado  todo o mistério sobre quem somos, a entrega de nosso Mestre aos pobres e a um Reino de Justiça e Paz. Os franciscanos que, na prática, assumiram nos últimos tempos a liderança espiritual da Igreja Católica no Brasil, prepararam um roteiro para meditar, rezar, pensar a Semana e a Páscoa: cada um(a) de nós diante das interrogações, angústias, alegrias e convocações que a vida nos apresenta.  Nos textos, um questionamento aos que fazem do cristianismo terreno para o ódio, a exclusão e recompensa às “pessoas de bem”

Por Mauro Lopes

Os franciscanos brasileiros assumiram corajosamente a liderança espiritual da Igreja no Brasil, assumindo o convite de um Francisco que se fez Papa, de uma “Igreja em saída”, como um “hospital de campanha” em vez de fortaleza inexpugnável, abrigo dos mais fracos e oprimidos e não mansão dos ricos e poderosos. Tornam-se, neste momento, herdeiros no Brasil da tradição da teologia latino-americana, sucessores dos profetas que marcaram a Igreja brasileira, como dom Paulo Evaristo Arns (ele mesmo um franciscano), dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida (jesuíta como o papa), irmã Dorothy Stang, Margarida Maria Alves e tanta gente mais.

Eles estão divididos em vários ramos e comunidade, organizados na Conferência da Família Franciscana do Brasil. Um destes segmentos preparou um roteiro de oração/meditação para a Semana Santa e a Páscoa, a Província Franciscana da Imaculada Conceição, que reúne em torno de si centenas de homens e mulheres, ordenados ou leigos (e leigas), nos Estados de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina.

É um  conjunto de textos valiosos, que ajudam a mergulhar no mistério, e está aberto a todas as pessoas, católicos e católicas, cristãos de outras denominações, pessoas das religiões de matriz afro-brasileira, espíritas, budistas, hinduístas, ateus, quem quiser.

Continue lendo “Um convite: Semana Santa e Páscoa com os franciscanos”

Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça

Franciscanos e franciscanas reunidos em Belo Horizonte

Mais de 300 integrantes da Juventude Franciscana (Jufra) e da Ordem Franciscana Secular de Minas Gerais reafirmaram o protagonismo dos franciscanos e aprovaram, em encontro realizado em Belo Horizonte no último fim de semana uma Carta denunciando os retrocessos no país, que atingem “as populações das periferias, sem-terra e sem-teto, pobres, principalmente mulheres, jovens, população negra, indígenas, LGBT’s”.

No texto, a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes é comparada a assassinatos  “como nossa Irmã Dorothy e tantos outros mártires representantes da Igreja e de movimentos populares.”

Os franciscanos e franciscanas terminam reafirmando seu compromisso com a vocação original do cristianismo: “Somos inspirados em Jesus Cristo, que foi perseguido e assassinado na cruz por lutar por um mundo novo. Temos o exemplo de Clara e Francisco, perseguidos e injustiçados por seguirem os ensinamentos de Cristo.”

Leia a íntegra da Carta:

CARTA DE BELO HORIZONTE

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5,6)

A Ordem Franciscana Secular e a Juventude Franciscana – Jufra – de Minas Gerais, reunidos em mais de 300 participantes no primeiro Encontro Regional de formação, no Colégio Sagrada Família das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, em Belo Horizonte nos dias 16 a 18 de Março de 2018, demonstram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país. Continue lendo “Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça”

Intervenção no Rio: Temer afronta Estado de Direito

Uma leitura serena do decreto de Temer mostra que a intervenção “federal” mal esconde, de fato, uma intervenção militar. O poder concentrado nas mãos do general-interventor é brutal. E os militares que cometerem crimes nas favelas ou contra os movimentos sociais serão julgados exclusivamente por tribunais compostos por eles mesmos. É uma agressão ao Estado de Direito.

Por Mauro Lopes

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

O decreto de intervenção no Rio de Janeiro não tem precedentes desde a promulgação da Constituição de 1988, merece ser lido com cuidado –e o contexto da cobertura legal que os militares terão para cometer todo tipo de ato discricionário é equivalente ao que vigia na ditadura miliar.

Ponto a ponto:

1.  Não há precedente – Nunca houve uma intervenção federal em nenhuma unidade da Federação desde a Constituição de 1988. Houve sim, por diversas vezes, a aplicação do instituto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que é pontual e não interfere nos poderes constitucionalmente (eleitoralmente) estabelecidos.

Continue lendo “Intervenção no Rio: Temer afronta Estado de Direito”

Bancos: lucro em 2017 foi maior que dois anos de Bolsa Família

 

2017 foi um dos piores anos da história para o povo brasileiro: mais de 12 milhões de desempregados, a volta do terror da fome, redução ou fim de programas sociais (veja aqui também). Para os banqueiros e seus associados, os rentistas, foi uma festa de gala: o lucro dos três maiores bancos no ano passado foi de R$ 53,8 bilhões, mais de duas vezes o orçamento do Bolsa Família para 2018, de R$ 28,7 bilhões. Em cinco anos, o lucro dos bancos saltou nada menos que 127%.

Por Mauro Lopes

Os banqueiros e rentistas gargalham, às custas do povo brasileiro. Enquanto 2017 passa à história como um dos piores anos para os mais pobres do país, o Itaú, Bradesco e Santander tiveram em 2017 um lucro de R$ 53,8 bilhões, 20% superior ao lucro do ano anterior. Isso ao mesmo tempo em que o Bolsa Família sofreu um corte de R$ 1 bilhão e seu orçamento, o primeiro em termos nominais em desde sua criação em 2003 e o salário mínimo foi estabelecido em R$ 954,00, retornando ao mesmo valor real de janeiro de 2015.

De um lado, um punhado de famílias brasileiras que controlam o Itaú e o Bradesco e espanholas que controlam o Santander, além deles, mais 121 mil sócios do Itaú  e 321 mil do Bradesco -não some os dois números, pois milhares são sócios dos dois bancos. Esse grupo embolsou os quase R$ 54 bilhões. De outro, as 12,7 milhões de famílias participantes do Bolsa Família -que, de fato, beneficia nada menos que 21% da população do Brasil (cerca de 40% da população), assim como as 48  milhões de pessoas que têm seus ganhos referenciados no salário minimo.

Continue lendo “Bancos: lucro em 2017 foi maior que dois anos de Bolsa Família”

Bolsa Juiz x Bolsa Família: uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte (veja foto abaixo), apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

Continue lendo “Bolsa Juiz x Bolsa Família: uma comparação que desnuda os dois Brasis”

O Papa deve ficar isento de críticas? O caso do Chile

O Papa preside missa no Chile. Ao fundo, os bispos de uma Igreja em frangalhos

Quando o Papa erra devemos ficar quietos? As críticas fortalecem mesmo os conservadores? E o compromisso dos cristãos com as vítimas?  Deve ser relativo?

Por Mauro Lopes

Escrevi uma avaliação crítica da viagem de três dias do Papa Francisco ao Chile (Viagem de Francisco ao Chile: decepção e fiasco) que sofreu severas censuras de amigos e amigas, críticas diretas e indiretas de alguns teólogos e um silêncio com tom de reprovação de muita gente progressista dentro da Igreja. Senti-me estimulado a continuar no assunto, por acreditar que há, aqui, uma questão-chave para pensar o cristianismo hoje e sob o pontificado de Bergoglio.

As críticas à crítica foram basicamente de três ordens: 1) o artigo baseou-se em notícias falsas (“fake news”); 2) as fontes das notícias não eram confiáveis (“inimigos” do Papa); 3) e, a que me pareceu a mais constante e relevante: o artigo seria um desserviço ao pontificado de Francisco e fortaleceria os conservadores, os católicos e hierarcas que se opõem às reformas do Papa. Para esta última visão, deve ser evitada qualquer crítica a Francisco, pois ela teria o condão de enfraquecê-lo no embate com os restauracionistas.

As duas primeiras acusações (“fake News” e “fontes não confiáveis”) parecem-me desprovidas de base.  Os dois vaticanistas citados (vaticanistas são jornalistas que moram em Roma e acompanham o dia a dia dos papas), Elisabetta Piqué (do La Nación) e Andrea Tornielli (do Vatican Insider) são próximos do Papa e abertamente apoiam Francisco –ambos escreveram livros onde não escondem seu entusiasmo[1]. Além deles, as principais fontes do artigo são o site católico espanhol Religión Digital, o maior site católico progressista em língua espanhola e que lidera uma campanha mundial de apoio ao Papa, além do site do Instituto Humanitas Unisinos, o IHU Online, dos jesuítas brasileiros, o principal portal católico progressista do país. Não são interessadas em plantar “fake news” contra Francisco ou não confiáveis.

A última crítica é a que merece uma avaliação mais serena e um pouco mais aprofundada. Não se trata de uma visão teológica, mas política, uma maneira de enxergar a relação com o Papa à luz do embate de poder com os conservadores no interior da Igreja.

* * *

Para enfrentá-la, vale a pena antes de tudo, ver, voltar os olhos para o contexto e os principais fatos da viagem.

Continue lendo “O Papa deve ficar isento de críticas? O caso do Chile”

Do Papa à Cúria no discurso de Natal: não às intrigas e aos traidores

Francisco à Cúria na manhã desta quinta: reafirmação de seu papado

Por Mauro Lopes, com Religion Digital e agências

O Papa Francisco voltou a criticar a Cúria romana no tradicional discurso de Natal na manhã desta quinta-feira (21). Advertiu os hierarcas sobre os dois “perigos” que rondam a burocracia vaticana: 1) a lógica das intrigas e dos “pequenos grupos” que levam à “autorreferencialidade”, enquanto o Papa anuncia uma “Igreja em saída” e  2) a presença de “traidores da confiança” que solapam a reforma da Igreja e atacam Francisco diuturnamente.

Desde o histórico discurso  de Natal de 22 de dezembro de 2014, quando o Papa, diante dos todo-poderosos bispos e cardeais curiais, apresentou o que denominou como “catálogo” das 15 “doenças mais habituais na nossa vida de Cúria”, a hierarquia vaticana fica em suspense à espera do  evento tradicional -que sempre foi uma autocongratulação, especialmente nos papados de Wojtyla e Ratzinger. Em 2014, Francisco acusou os burocratas de endurecimento do coração, «alzheimer espiritual», vanglória, indiferença ao sofrimento dos pobres, apego às riquezas, entre outros “pecados”.

Em um discurso vigoroso, Francisco denunciou hoje “aqueles que se aproveitam da maternidade da Igreja,” pessoas “que foram cuidadosamente selecionadas para dar maior força ao corpo e à reforma, mas- ao não entender a importância de suas responsabilidades- deixaram-se corromper por ambição ou vanglória “.

Aqueles que traíram a confiança do Papa e que, “quando são delicadamente afastador, declaram-se equivocadamente mártires do sistema, do “Papa desinformado “, da” velha guarda “, em vez apresentar seu “mea culpa” – foi uma resposta de Francisco aos seguidos ataques do cardeal Gerhard Ludwig Müller que, desde seu afastamento da Congregação para a Doutrina da Fé,  em julho último, tornou-se um loquaz crítico do Papa, alinhando-se com os ultraconservadores católicos.

Continue lendo “Do Papa à Cúria no discurso de Natal: não às intrigas e aos traidores”