Bispos retomam tradição da Igreja brasileira e saem em defesa do Rio São Francisco

Dez dos onze bispos do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco

Será lançada neste Primeiro Domingo do Advento (3) a Carta da Lapa, fruto do Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do Rio São Francisco, reivindicando uma moratória de 10 anos para a região do cerrado e um Repouso Sabático para os principais biomas brasileiros. O texto é assinado por 11 dos 16 bispos das dioceses da Igreja Católica banhadas pelo rio. Firmado “em comunhão com o Papa Francisco e inspirados pela carta encíclica Laudato Sí”, denuncia a crise do rio por seu uso e de seus afluentes a serviço dos interesses econômicos dos ricos.

A principal decisão do encontro foi a “defesa do Repouso Sabático para os nossos biomas a fim de que possam se reconstituir. Particularmente, uma moratória para o Cerrado, por um período de dez anos. Durante esse período não seria permitido nenhum projeto que desmate mais ainda o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, biomas que alimentam o Rio São Francisco e dele também se alimentam.”

O texto (veja a íntegra a seguir) é mais um expressivo símbolo da renovação da Igreja no Brasil, à luz da primavera de Francisco, e a retomada do espírito atualizado da Teologia da Libertação, depois dos quase 40 anos de perseguições.  Em sua carta, os bispos qualificam, à luz da primavera de Francisco, qual Igreja reapresenta-se à sociedade: “Igreja em saída”, “Igreja missionária”, “Igreja Profética”, “Igreja solidária”.

O encontro aconteceu nos dias dias 21 e 22 de novembro, no Centro de Treinamento de Lideres (CTL), em Bom Jesus da Lapa, o Primeiro Encontro dos Bispos da Bacia do São Francisco, como resultado da recente Assembleia do Regional Nordeste III da CNBB. O local  foi escolhido  pela influência do Santuário do Bom Jesus da Lapa, que fica às margens do Rio São Francisco, e reúne todos os anos milhares de romeiros, grande parte deles ribeirinhos que vivem e dependem das águas do rio da integração nacional (ao lado foto de uma das missas celebradas durante o encontro, na capela do Santuário). Participaram bispos da Bahia, Pernambuco, Sergipe e de Minas Gerais -veja a lista ao final.

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Waackismo: racismo camuflado à brasileira

Leia o artigo do Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê neste Dia da Consciência Negra. Ele é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje.

A íntegra do artigo:

Padre Gegê

“Não caçamos pretos no meio da rua, a pauladas… Mas fazemos o que talvez seja pior”. (Nelson Rodrigues)

 

 

 

Inicio a reflexão sobre racismo/waackismo com a sincera e corajosa análise de Nelson Rodrigues, que, de algum modo, sumariza todo o texto. Escreve o branco dramaturgo. Repito: branco: “A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite. Acho o branco do Brasil um dos mais racistas do mundo”.

Na linha da obra de Gabriel Garcia Marques, pergunto: Seria a vida do negro no Brasil, Crônica de uma morte anunciada?

Crio o termo “waackismo” (termo alusivo ao jornalista da Globo, William Waack) como expressão adequada para a caracterização do racismo à brasileira que é, a despeito do seu sinistro mascaramento, real e global. Waackismo, em nossa reflexão, é a engenhosa produção patenteada da ideologia colonial-escravista. Reitero, waackismo é tradução fidedigna e reeditada do racismo à brasileira. Maior prova de sua eficácia é quando um cidadão comete um crime de racismo e, pelo simples fato dele negar o ato, a sua palavra valer mais que a evidência do fato. Como uma sociedade com mentalidade escravocrata poderia contradizer a palavra de um branco? Faz parte de todo sistema de dominação condenar a vítima e condecorar carrascos; crucificar Jesus e soltar Barrabás. Nessa perspectiva, não me surpreenderia se o jornalista Wiliam Waack pedisse indenização a cada negro existente no mundo por um, supostamente, negro, ter perturbado a “paz” branca. Também não me surpreenderia se obtivesse um número significativo de veneráveis cúmplices e aguerridos defensores.

À guisa de introdução, deixo uma questão de ordem filosófica, isto é, do pensamento e da reflexão: o racismo/waackismo no Brasil tipifica a “banalidade do mal”, segundo acepção da pensadora Hannah Arendit ou a maldade produzida e justificada a partir do naturalizado e banalizado? Se a segunda posição estiver mais próxima da verdade (e é essa formulação que sustento) o racismo/waackismo constitui o modus operandi da maldade/violência colonial-escravista de ontem e de hoje. Dizendo de outro modo, no Brasil se inventou, historicamente, uma forma engenhosa, sutil e camuflada de subalternizar, violentar, ferir, enxotar, segregar e inferiorizar a população negra.

Essa sofisticada e macabra forma de violentar dispensa quase sempre, “pauladas em praça pública”, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues, ou pelourinhos, mas isso não a faz menos perversa, menos traumática e menos dolorosa. Desse modo, independente da forma, no Brasil de ontem e de hoje, no que se refere ao negro/negra, se mata com a intenção de matar — física, moral, social ou psicologicamente. Entender, pois o racismo/waackismo no Brasil e suas escabrosas e nefastas consequências (inclusive à saúde da população negra) implica entender que uma agressão psicológica ou moral pode produzir mais e irreversíveis danos a uma pessoa ou coletividade que um homicídio ou chacina.

Singular atenção merece, a meu juízo, as pesquisas sobre o trauma (sofrimento) da população negra em virtude da escravidão que há quatro séculos alimentou a sociedade brasileira, inclusive a Igreja. Não é possível a uma sociedade que se mostra sensível ao bullying de seus filhos e filhas, não se permitir pensar nas consequências históricas e nos sofrimentos morais e psicológicos dos descendentes de milhões e milhões de seres humanos, que durante quatro séculos foram tratados como animais ou peças no projeto escravista. Waackismo é sim forma de genocídio (mais simbólico que físico), forma sinistra e, por vezes cordial, mas com poder destrutivo. Waackismo é o sapato branco que, desde a escravidão, foi treinado a pisar pele e alma negras, na surdina e no silêncio, como se fossem baratas…

O waackismo tem um potencial sádico capaz de (sofisticadamente) triturar, desqualificar, inferiorizar, invisibilizar e segregar; e o faz, em geral, não às gargalhadas, mas mediante sorriso contido… Às escondidas! Ele não se manifesta apenas nos “deslizes pessoais” (conforme o caso do jornalista em questão); o waackismo está nas mentes, nas praças, nos clubes, nos bancos, nos livros didáticos (ou não), nas igrejas, nas escolas, nas mídias, nas redes, nas praias etc… Quando ligamos a TV e não vemos negros, quando entramos numa universidade e não vemos negros, quando contemplamos os altos cargos de nossos país e não encontramos a população negra, lá está o waackismo sorridente.

Em se tratando de Brasil, o waackismo tem o “dom” da ubiquidade; é produto da dissimulação nacional — 100% Global! Em resumo, o racismo/waackismo no Brasil é mais invisível que visível, mais silencioso que audível; é mais nas entrelinhas que nos textos, porém, quando o latente se torna patente (como o caso do jornalista Willian Waack) toda sociedade (negros e brancos) deve se engajar para que se puna, segundo a Lei, a fim de que direitos inalienáveis sejam garantidos e o Brasil cresça rumo a uma verdadeira e efetiva democracia racial. No caso concreto do jornalista, não está em discussão o conjunto de sua vida, tampouco se massacra negro diuturnamente. Estamos diante de um fato ou um ato público de racismo, e é sobre ele que nos debruçamos, sabedores que ele (o ato) esconde/revela um sistema e uma cultura vincada e estruturalmente racista.

Abdias Nascimento, objeto de minha tese de doutorado na PUC-SP, é figura icônica no que se refere ao desmascaramento do “mito da democracia racial no Brasil”, mito segundo o qual o Brasil seria a terra do respeito e da igualdade — um paraíso racial. Abdias Nascimento, assim como qualquer negro no Brasil, desde cedo sentiu em sua pele a dor de pertencer a uma sociedade ambígua, dissimulada e perversa com a população negra. Para Abdias racismo é o arame farpado” da sociedade.

No ano de 2016 foi relançada pela Editora Perspectivas sua obra atualíssima intitulada sugestiva e acertadamente “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. Florestan Fernandes prefaciando a edição brasileira afirmou a contribuição que o livro deu por usar o conceito de genocídio aplicado a situação de matança física e simbólica do negro no Brasil. Segundo Florestan, “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora”. E pergunta: “O que se fez e se continua a fazer com o negro e com os seus descendentes merece outro qualitativo”?

No prefácio da edição nigeriana, Wole Soyinka advertiu, sem evasiva, que “a expressão ‘genocídio’ chocará, e o faz porque demole o tabu ou mito intocável da ideologia do paraíso racial”.

Sublinhou Abdias: “Devo observar que este assunto de ‘democracia racial’ está dotado, para o oficialismo brasileiro, das características intocáveis de verdadeiro tabu. Estamos tratando com uma questão fechada, terreno proibido sumamente perigoso”. E ainda: “Ai daqueles que desafiam as leis deste segredo!”. Desse modo, qualquer pessoa, sobretudo, negro, que denunciar o racismo brasileiro está condenado a ser acusado de fazer racismo às avessas ou de negro recalcado. Contudo, enfatizou Abdias: “As feridas da discriminação racial se exibem ao mais superficial olhar sobre a realidade social do país”.

Desse modo, o caso do jornalista ajuda a compreender o racismo no Brasil, o debate ajuda na construção de novas mentalidades e a punição na forma da Lei ajuda ao Brasil a curar suas patologias mascaradas. Minimizar e não punir o ato significaria legitimar o sistema, o que nos levaria a concluir que no Brasil os brancos gozam de uma espécie de “imunidade racial” — o que seria desastroso, não apenas para os negros, mas para o processo democrático e civilizatório, uma vez que tratar do racismo (e de quaisquer outras violações dos Direitos Humanos) diz respeito a toda sociedade. Escreve Hannah Arendt: “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter Direitos”.

A tua raça de aventura quis ter o céu, a terra, o mar / Na minha há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar… / A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar / A minha não quer ir nem vir / A minha raça quer passar!”. (Cecília Meireles)

Engajada, Feliz e Esperançosa Semana Preta da Consciência Negra!

 

Um país chamado Canudos, 120 anos depois

Mulheres e crianças aprisionadas em Canudos; homens foram todos mortos

Artigo especial[1] do cientista social Ruben Siqueira, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), recorda e atualiza a luta de Canudos, que até hoje é a maior mobilização do exército brasileiro: contra o povo. Nem mesmo a Guerra do Paraguai ou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra superaram o envolvimento de tropas como no combate à rebelião liderada por Antônio Conselheiro. A violência, pública e privada, continua uma marca da vida nacional, multiplicam-se as mortes nas cidades e nos campos, o Brasil sendo hoje o mais violento país do mundo sem guerra declarada, uma guerra contra os pobres.

“A mensagem de Canudos fica cada dia mais atual e necessária. Atravessa os tempos e faz seguidores a ousadia dos conselheiristas, de recriar, nas entranhas do latifúndio respaldado pela República, a comunidade dos primeiros cristãos, onde a única lei era a do amor, pela qual — ainda que entre eles houvesse comerciantes bem-sucedidos — os bens eram partilhados em benefício de todos. A bandeira fincada para sempre no coração do Brasil continua a atrair os pobres e desvalidos. Porque lhes ensina a única lição possível: a eles só resta resistir e insistir na vida, contra os poderes da terra, porque — dizia Antônio Conselheiro — ‘só Deus é grande’. É essa fé, de um povo que não separa religião e vida, crença e luta, que move ainda hoje centenas, milhares, milhões de brasileiros pelos vastos sertões deste latifúndio chamado Brasil, a lutar pela terra e pelo direito à vida digna na terra.”

Leia o artigo na íntegra:

Canudos virou moda há 20 anos, em seu centenário. Houve enorme expectativa à época com o lançamento do filme de Sérgio Rezende, Guerra de Canudos (assista aqui), que foi, rodado na região. Teses, livros, reportagens e seminários foram feitos para a celebração dos 100 anos e continuaram a ser produzidos, trazendo releituras do episódio, discutindo aspectos novos, alimentando a infindável polêmica. O governo da Bahia criou no cenário da guerra o Parque Estadual de Canudos, onde uma equipe da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) realizou estudos de arqueologia histórica. Neste outubro de 2017, vários eventos, sobretudo promovidos por movimentos e entidades sociais, estão acontecendo na pequena cidade herdeira da Canudos conselheirista.

A atualidade de Canudos

120 anos é data por si mesma expressiva, seja do que for. Mas, em Canudos, o quê exatamente se está comemorando? O que tem esse episódio, o que ele encerra — esconde e revela — que atrai tantas atenções?

É que em Canudos, ontem e hoje, o Brasil se vê face a face consigo mesmo, encontra seu desencontro. Canudos não está na memória nacional apenas como uma chaga, a mais ignominiosa das lembranças do passado, onde e quando se detonou toda a carga de violência que mal se esconde sob o manto roto da decantada cordialidade brasileira, praga ideológica que sedimenta a assimetria das relações sociais. Está também como repetição, reincidência, contínuo revisitar. Está como matriz da identidade brasileira e chave de explicação do País e de seu infortúnio como nação moderna, que nunca alcançou de fato a modernidade. Está, pois, como atualidade, contemporaneidade.

Uma primeira prova disso? Ao implantar-se o Parque Estadual de Canudos, por ocasião do centenário, famílias de agricultores residentes na área, muitas delas descendentes dos antigos canudenses, tiveram que resistir à implantação das cercas divisórias do parque porque estas inviabilizavam o criatório de cabras, sua principal fonte de subsistência… Talvez até quisesse o governo da Bahia que se retirassem de vez, para não estragar a composição nostálgica e folclórica do quadro… Ainda bem que os cientistas da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) não embarcaram nessa…

Canudos levanta questões que incomodam a má consciência nacional. Por que mais da metade do efetivo e todo o aparato militar do exército à época foi mobilizada em cinco expedições contra pobres e frágeis camponeses, armados de poucas espingardas e muita fé? Por que ali, numa das regiões mais secas do País, uma multidão de 25 mil destes deserdados encontrou um lugar e construiu, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, a maior cidade do interior do Brasil à época?

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Papa desmente publicamente o último conservador ainda na Cúria

O pop star conservador, cardeal Robert Sarah, confronta o Papa

O Papa desmentiu numa carta divulgada neste domingo (22) a interpretação distorcida que o prefeito da Congregação para o Culto Divino havia dado à sua decisão de descentralizar a tradução dos textos litúrgicos, conferindo maior poder às conferências episcopais nacionais. O cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, é hoje o último ultraconservador na direção do Vaticano. Seu posto é estratégico, pois a congregação é responsável pela liturgia (o culto público, como as missas e outras celebrações), um dos centros da vida da Igreja.

O tema da carta de Francisco é o motu proprio Magnum principium sobre as traduções litúrgicas, divulgado em 3 de setembro passado, que normatiza a descentralização, no espírito do  Concílio Vaticano II, revogando o centralismo estabelecido pelos papados conservadores de Wojtyla e Ratzinger.  Francisco determinou que as traduções, aprovadas pelas conferências nacionais dos bispos (as conferências episcopais)  não devam mais ser submetidas a uma revisão por parte do Vaticano (recognitio), mas apenas à confirmação (confirmatio). É o fim da intervenção de Roma nas traduções, tornando praxe um ato com o qual a Congregação para o Culto Divino apenas ratificará a aprovação dos bispos locais.

Em 12 de outubro passado, a revista católica conservadora L’Homme Nouveau seguida pelos sites restauracionistas havia divulgado um “comentário”  de Sarah, que ele enviara a Francisco. O texto afirmava que o documento do Papa seria, na prática, nulo, e que a política de submissão das igrejas locais a Roma estaria intacta.

No seu texto, cardeal conservador assegurava que a instrução Liturgiam authenticam (2001), editada com orientação de João Paulo II estaria mantida intacta e que o texto de Francisco “não modifica, de modo algum, a responsabilidade da Santa Sé, nem, consequentemente, as suas competências em matéria de traduções litúrgicas” -ou seja, colocando no mesmo plano as expressões recognitio e confirmatio.

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O Papa contra a pena de morte. Conservadores acusam-no: heresia!

O Papa, ao discursar na última quarta: condenação integral à pena de morte

O status institucional da Igreja Católica neste momento é algo como uma queda-de-braço contínua, sem intervalos. A cada gesto do Papa, os conservadores saem a campo para acusá-lo, numa campanha de ódio sem precedentes. Agora, o tema é a pena de morte. O Papa afirmou nesta quarta (11) que a pena de morte é inadmissível nos marcos do cristianismo. Pois os conservadores reagiram imediatamente e, mais uma vez, tentaram intimidar Francisco com o que consideram o pior dos xingamentos: herético! O mais incrível deste episódio é que os mesmos que atacam o Papa pretendem-se radicalmente “pró-vida” (dedicam-se diuturnamente a campanhas para criminalizar o aborto e perseguir as mulheres).

Francisco falou num evento no Vaticano, em torno dos 25 anos do Catecismo da Igreja Católica. Redigido sob o comando do então cardeal Ratzinger, à época prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e promulgado por João Paulo II, o texto admite a pena capital em seu tópico 2267: “A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.”

É hora de virar essa página, afirmou o Papa: “Deve afirmar-se energicamente que a condenação à pena de morte é uma medida desumana que, independentemente do modo como for realizada, humilha a dignidade pessoal. Em si mesma, é contrária ao Evangelho, porque voluntariamente se decide suprimir uma vida humana que é sempre sagrada aos olhos do Criador e cujo verdadeiro juiz e garante, em última análise, é apenas Deus.” Francisco quer que o tópico seja liminarmente suprimido do Catecismo.

Ele colocou o dedo na ferida, ao referir-se ao fato de a pena de morte já ter sido usada na história pela própria Igreja: “No próprio Estado Pontifício, infelizmente, recorreu-se a este remédio extremo e desumano, descurando o primado da misericórdia sobre a justiça. Assumimos as responsabilidades do passado, reconhecendo que aqueles meios eram ditados por uma mentalidade mais legalista que cristã.”

Sim, a defesa da pena de morte é tão escandalosamente anticristã que desta vez os conservadores não ousaram sair a campo em massa para atacar o Papa –todos os papas do século XX, de maneira mais ou menos explícita condenaram a pena capital, até mesmo Woytila e Ratzinger, apesar de terem produzido o Catecismo.

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Caritas: nunca houve tantos muros no mundo – já são 66

Criança à sombra do muro na Cisjordânia

A Caritas Italiana divulgou nesta sexta (15) o dossiê À sombra do muro,  durante o seminário  “Além dos muros: comunidades que se encontram e nos contam”,  que aconteceu nos últimos dois dias em Roma, com uma atenção especial aos muro edificados por Israel contra os palestinos. O dossiê aponta: nunca houve tantos muros a separar países, a impedir migrantes de buscarem uma chance de vida, a manter os pobres longe dos ricos. São 66 muros contra migrantes, pobres e vítimas de guerra no mundo hoje. Para que se tenha uma ideia do modelo gerado pelo capitalismo, havia em 1989, quando caiu o Muro de Berlim, 16 muros em todo o planeta.

O projeto neoliberal, depois da vitória sobre o “socialismo real” do Leste europeu, revelou-se uma antiutopia. Em vez de oportunidades, progresso e riqueza, miséria , restrições cada vez maiores às liberdades e muros. Segundo o dossiê, ”a globalização, que deveria ter levado a uma eliminação progressiva das barreiras remanescentes,  foi na realidade a causa do renascimento dos temores sobre a segurança. Um terço dos países do mundo possui atualmente barreiras, de diversas tipologias, ao longo de suas fronteiras”.

Para além da divisão entre os que estão de cada lado dos muros, a separação em concreto e cercas remete a dois projetos, como afirmou o Papa Francisco no encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 5 de novembro de 2016, no Vaticano: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro”.

Os 66 muros estão assim divididos: 36 na Ásia e Oriente Médio; 16 na Europa; 12 na África; e dois na América (Estados Unidos/México e México/Guatemala). Veja no quadro abaixo:

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Padres cantores – quando os ídolos caem e quebram

Padres Fábio Melo e Marcelo Rossi: o risco da idolatria

Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê, é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro.

Segundo a ONG Justiça Global, as operações militares que conjugam as tropas do Exército, PM e Polícia Civil, já causaram nos últimos dias sete mortes em Manguinhos e na favela vizinha, Jacarezinho. Em nota veiculada na segunda (21), a entidade afirmou que elas um “revide” após a morte de um policial da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core): “Não podemos admitir que os moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos sejam vítimas de revide, tenham suas casas reviradas, suas escolas fechadas por tempo indeterminado e sejam impedidos de ir e vir. Não podemos mais aceitar que execuções sejam tratadas como ‘balas perdidas’ e não sejam investigadas. Repudiamos o avanço da militarização e todas as políticas a fim de asfixiar territórios negros! Toda solidariedade aos moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos! Resistiremos as violências provocados pelo Estado! Resistiremos ao racismo!”

No mesmo espírito, padre Gegê havia saído (“Igreja em saída”, nos termos do Papa Franciso) às ruas das favelas, no domingo, para rezar e denunciar: “Importante dizer que é matança de pobre, é matança de preto, é política do Estado. Não é por acaso, não é do nada. Deus é contra essas mortes, mortes matada ferem a Deus”.

Veja o vídeo:

É com a autoridade de profeta inserido em seu povo e com a profundidade de teólogo e especialista em psicologia junguiana que ele escreveu este artigo instigante sobre as crises pessoais dos padres-cantores Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que denunciam o próprio modelo dos padres pop star, transformados de padres-homens em padres-ídolos.

[Mauro Lopes]

Leia o artigo a seguir:

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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Francisco acendeu a chama; e a Igreja-pipoca!

Celebração durante a 40ª Romaria da Terra e das Águas, em Bom Jesus da Lapa (BA), organizada pelas CEBs, CPT e movimentos populares organizados em várias dioceses baianas, com mais de 6 mil romeiras e romeiros, entre 7 e 9 de julho. Foto de Thomas Bauer/ CPT Bahia.

Não gosto de pipoca. E, por isso, sou visto como um estranho em minha família. Já me acostumei com os olhares de incompreensão toda vez que “não, obrigado, não gosto mesmo de pipoca”. Não sei, parece-me sem gosto, a textura é estranha. Não sei. Vai ver que é algum trauma da infância. Entretanto, mesmo não gostando de comer, sinto-me maravilhado toda vez que se faz pipoca em casa –e isso acontece muitas vezes por semana!

É um pequeno milagre.

No começo, não há nada, só o fogo aceso. Então uma pipoca estoura. Depois outra, mais uma, outra mais e de um instante para outro é uma profusão de múltiplas explosões. Quando se abre a panela, o que era um fundinho de grãos amarelos tornou-se uma abundância transbordante. É assim –finalmente- com a Igreja sob a liderança de Francisco.

Em 2013, Bergoglio acendeu a chama sob a panela com muitos grãos de aparência inerte, adormecidos, imóveis. Grãos mantidos guardados, trancados no armário por muito tempo. Então o calor começou a fazer efeito. Como cantou Caetano, tem pipocado aqui, ali, além. Pipoca, pipoca, até que a manhã começou a desanoitecer.

E temos de novo a Igreja-pipoca!

A ideia me veio imediatamente à cabeça quando recebi a notícia de que no próximo domingo (30) haverá missa e festa em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.  Às 17h, padre Natanael de Moraes irá presidir a celebração em homenagem a seus 51 anos de sacerdócio. Ele estará de volta à cidade 47 anos depois de ser preso e barbaramente torturado durante a ditadura militar. Padre Natanael, agora no clero da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG) era, na virada dos anos 1960/70, religioso verbita, diretor espiritual da Juventude Operária Católica (JOC) de Volta Redonda e um dos líderes católicos ao redor de dom Waldyr Calheiros (1923-2013), bispo de Volta Redonda e Barra do Piraí.

Dom Waldyr (à direita), num dos inúmeros depoimentos a que foi convocado pelos militares durante a ditadura

Dom Waldyr foi um dos signatários do Pacto das Catacumbas que reuniu 40 padres e bispos durante o Concílio Vaticano II: todos assumiram o compromisso de uma vida pobre com os pobres. Ao lado de dom Hélder Câmara, dom Pedro Casaldáliga, dom Paulo Evaristo Arns e outros formou a linha de frente da Igreja Católica contra a ditadura e protagonista da Teologia da Libertação.

Ambos, dom Waldyr e padre Natanael, conheceram no final dos anos 60 Estrella Bohadana, uma jovem de 19 anos, militante da Política Operária (Polop) na resistência à ditadura. O sacerdote e Estrella reencontraram-se em 1970 nas salas de tortura do antigo 1º Batalhão de Infantaria Blindado, em Barra Mansa/RJ. Foram submetidos a torturas brutais, de todo tipo.

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