No cristianismo, o que importa não é a fé, mas o amor

O Papa abraça Vinicius Riva, na Praça São Pedro, em 6 de novembro de 2013

A seguir, o comentário do grande biblista italiano, o padre Alberto Maggi, sobre o Evangelho que encerra o Ano Litúrgico A (centralizado pelo texto de Mateus nas Liturgia da Palavra dominical).

O título da solenidade de hoje, Cristo Rei do Universo, é uma criação do Papa Pio XI, em 1925, no espírito da Igreja tridentina e que aspirava a poder e serviço aos ricos –mas isso é assunto para outro dia

Ele nos apresenta uma questão central: o cristianismo não é a religião da fé, mas a religião do amor: “O Deus de Jesus nunca vai perguntar a você se acreditou Nele, mas se você amou como Ele ama!”.

A tradução é do padre Meo Bergese.

[Mauro Lopes]

O texto da Liturgia deste domingo é um dos centrais do Novo Testamento, do capítulo 25 de Mateus (31-46):

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 31”Quando o Filho do homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’

40Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ 41Depois o rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar’. 44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’ 46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

 

O comentário de Alberto Maggi:

No Evangelho de Mateus que vamos comentar – cap. 25, versículos 31-46 – nos é dado o último grande ensinamento de Jesus. Para esse ensinamento Jesus serve-se de uma imagem conhecida no mundo hebraico: encontra-se no Talmud (livro sagrado e registro dos estudos rabínicos), onde se diz que “na vida do além, o Santo – bendito seja – tomaráo roloda Torá,a Lei,o colocarásobre os joelhose dirá: ‘Que venha quem se ocupou com isso e receberáa sua recompensa’”.

Continue lendo “No cristianismo, o que importa não é a fé, mas o amor”

Jesus subverte tudo: não há prêmio especial para os bons

Refugiados a bordo de um barco de pesca superlotado no Mar Mediterrâneo, 2015. Somos sensíveis ao sofrimento, como Jesus, ou acumulamos “méritos”? – Por Francisco Zizola

O Evangelho deste 25° Domingo do Tempo Comum é um dos mais paradoxais e incômodos para os cristãos (aqui). Ele rompe toda a lógica que permeia os sistemas de dominação ao longo da história e demole os edifícios da meritocracia e do toma-lá-dá-cá sobre os quais se assenta o conservadorismo na Igreja.

A história é conhecida e está no início do capítulo 20 do Evangelho de Mateus: o dono de uma vinha vai à praça de sua aldeia onde ficavam os trabalhadores que ofertavam sua força de trabalho para serviços do dia. Contrata os que estavam logo cedo no local e volta à praça mais três vezes, contratando todos. Faz isso mais uma vez, quando faltava apenas uma hora para o fim da jornada de trabalho, e convoca os que ainda estavam por ali. Na hora do pagamento, todos recebem a mesma quantia, uma moeda de prata, gerando revolta dos que haviam começado mais cedo.
Como ler este texto tão intrigante?
Uma proposta: a vinha é o Reino (imagem tradicional nos Evangelhos) e Deus toca os homens/mulheres com sua convocação para caminhar com ele na direção deste Reino de igualdade e justiça e paz.
Podemos nos sentir tocados aos 15 anos, aos 40 ou aos 90. O “prêmio” não é um “ingresso garantido” no Reino, como prega a teologia conservadora, com base numa coleção de méritos por conta de uma agenda calculista de fundo penitencial e assistencialista que nos torna “diferentes” dos demais.
Não, nada disso. Quando nos sentimos tocados e convocados, a vida muda, nosso olhar para o mundo, as pessoas é transformado pela Palavra compassiva de Deus -este é o “prêmio”, a transformação que se opera em nós! E ela acontece aos 15, aos 20, aos 40, aos 90 ou mesmo alguns minutos antes da morte.
É a mesma transformação, a mesma moeda que todos os meus irmãos e irmãs receberam. E ela vira-nos do avesso! E o que desejamos? Que outros irmãos e irmãs recebam a mesma moeda, nem mais, nem menos. Aqui não há espaço para a inveja, para o desejo de se sobrepor aos demais, para teses baseada no engodo da meritocracia. Prevalece a alegria de estarmos juntos  no Caminho com nossas qualidades e defeitos, com o jeito de ser de cada um.
Há leituras mais profundas e belas de biblistas fantásticos que vale muito a pena contemplar, se você deseja mergulhar um pouco mais neste trecho do Evangelho de Mateus:

Continue lendo “Jesus subverte tudo: não há prêmio especial para os bons”

Papa: Igreja é de todos e cheia de falhas “como no tempo de são Francisco”

O Papa neste domingo (27): Igreja precisa ser sempre reformada

O Papa fez neste domingo (27) um dos discursos mais explicitamente eclesiológicos de seu pontificado -referente a ekklesia, assembleia, palavra de onde se origina igreja. Na oração do meio-dia (o Ângelus), Francisco rejeitou as concepções conservadoras sobre a Igreja, consagradas por seus antecessores, e afirmou neste domingo (27) que ela é de todos, e não do clero, feita por “todos nós” que “nos tornamos ‘pedras vivas’”. Além disso, afastou a ideia da Igreja como “sociedade perfeita”, alentada pelos restauracionistas e afirmou que ela “sempre precisa ser reformada, reparada”, pois mesmo “com fundamentos sólidos”, tem “rachaduras, como nos tempos de são Francisco de Assis”.

O discurso foi todo voltado ao Evangelho deste que é o 21° Domingo do Tempo Comum, que relata um diálogo entre Jesus e seus discípulos, no qual ele indaga a visão dos seguidores sobre si (aqui ou no final). Ao remeter a são Francisco, o Papa, sem o mencionar diretamente referiu-se a uma das passagens mais conhecidas da vida do poverello de Assis, em 1205, quando, depois de um período de oração na pequenina e semidestruída igreja de São Damião, escutou uma voz saindo de um crucifixo bizantino caído ao lado do altar: “Vai, Francisco, e repara a minha casa que está em ruínas.” Dez séculos antes do Francisco, que lhe inspirou o nome papal, o Francisco de hoje encontrou uma Igreja também em ruínas, numa crise brutal.

Na conversa de Jesus com seus amigos, ao indagar de si “o Mestre esperava dos seus uma resposta alta e diferente daquelas da opinião pública”, afirmou Francisco, rejeitando as imagens de um Cristo soberano, cheio de poder e punitivo. “Simão Pedro encontra em seus lábios palavras que são maiores do que ele, palavras que não vem de suas capacidades naturais. Talvez ele não tenha feito a escola fundamental, e é capaz de dizer estas palavras, mais fortes do que ele! Mas são inspiradas pelo Pai celeste, que revela ao primeiro dos Doze a verdadeira identidade de Jesus”.

Nesta caminhada a partir dos pobres e simples e repleta de falhas edificou-se a Igreja dos seguidores de Jesus, onde todos, sem distinção entre leigos, leigas e hierarquia eclesial, são igualmente “pedras vivas”, na eclesiologia do Papa. Para Francisco, a partir da visão retomada no Vaticano II, a Igreja “é uma comunidade de vida, feita de muitíssimas pedras, todas diferentes, que formam um único edifício no signo da fraternidade e da união”.

Continue lendo “Papa: Igreja é de todos e cheia de falhas “como no tempo de são Francisco””

Quer saber de Jesus? O Manso e Humilde revela-se todo no Evangelho deste domingo

Detalhe do mural Guerra e Paz (1952-56) de Cândido Portinari, em exposição na sede da ONU

Todos aqueles e aquelas que forem à missa deste domingo (9), o 14º do Tempo Comum, ou meditarem o texto que será oferecido, terão oportunidade de um encontro raro. Nele, Jesus revela-se inteiramente. Se você tiver algum interesse em conhecer o Mestre de tanta gente, não deixe de ler. É um trecho curto do capítulo 11 de Mateus, versículos 25 a 30. Leia é tocante e chega a ser surpreendente:

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer:

“Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.

Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso.

Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso.

Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Jesus diz a quem veio. Quem são os seus escolhidos, a quem ele e seu Pai revelam-se: aos pequeninos. Quem são os “pequeninos”? Os pobres, os deserdados, os refugiados, as mulheres, os gays, as prostitutas, os doentes, os presos, os torturados, os que são reprimidos, os que são mortos pelos poderosos e seus agentes, os sem terra, os sem teto, os indígenas, os sem nada. São esses com quem Jesus conversou e conviveu ao longo dos três anos de sua missão. Veio para eles e não para os “grandes”, os ricos, os soberbos, os que matam, os poderosos –destes, Jesus e seu Pai escondem-se, recusam-se a se revelar.

Jesus diz porque veio. Para estar ao lado dos que carregam pesados fardos de tanto trabalho, tanta acusação, tanta condenação, tanta fome, tanto futuro negado. Convida a estar com eles os que ao longo da história carregaram e carregam o fardo da escravidão, das censuras dos falsos líderes religiosos de todas as igrejas, dos falsos moralistas, dos que têm poder de punir –e punem todo o tempo.

Jesus diz quem é. Ele é o Manso e Humilde de coração. Não é o rei, como a propaganda de tanta gente da Igreja Católica e de outras Igrejas apregoa. Não é o todo poderoso, como os têm desejo de controlar a vida falseiam. Não é o guerreiro contra os infiéis, como os que só respiram guerra, ódio e morte apregoam.

Jesus é o encontro com o descanso verdadeiro, a serenidade, o repouso necessário para seguir em frente.

Os controladores de todas as religiões cuidam de escondê-lo de você e de toda a humanidade. Morrem de medo de as pessoas saberem.

[Mauro Lopes]

Como o cocô tornou-se dinheiro e a seguir o Deus do capitalismo e de muitos cristãos

O culto ao Deus-dinheiro oficializado nas cédulas no Brasil e EUA

O filósofo italiano Giorgio Agamben, um dos relevantes protagonistas do pensamento crítico na virada do século XX para o XXI disse numa entrevista em 2012 que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro” (aqui). A afirmação de Agamben inspirou-se em outro filósofo, este um protagonista da primeira metade do século XX, um pensador fora da curva, Walter Benjamin. Em seu curto e denso “O Capitalismo como Religião”, de 1921 (aqui), Benjamin escreveu que o capitalismo é em si mesmo a religião mais implacável que já existiu, e promove um culto ininterrupto ao Dinheiro, “sem trégua nem piedade”, uma religião que não visa a reforma da pessoa, “mas seu o seu esfacelamento”.[1]

O filósofo alemão sugeriu uma comparação entre as imagens dos santos das religiões e as cédulas de dinheiro de diversos países –ele não imaginava, à época, que este Deus-dinheiro estaria diretamente louvado nas cédulas nos EUA (In God we Trust, em Deus Confiamos) e, desde 1980, no Brasil, onde lê-se em todas as notas a frase de adoração à moeda corrente: Deus seja louvado.

Ambos inspiraram-se num dito de Jesus, que está no centro da liturgia católica do 8º Domingo do Tempo Comum (26), às portas do período quaresmal que antecede a Semana Santa e a Páscoa: “Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” O texto proclamado é do Evangelho de Mateus (Mt 6,24-34). A oposição entre Deus e o dinheiro é um tema central ao longo da história e, para Jesus, a relação de cada qual com o dinheiro é definidora de sua relação com as outras pessoas e a vida.

Como essa questão aparece na vida das pessoas? A psicanálise procurou investigar a relação entre o ser humano e o dinheiro e chegou a conclusões que podem soar surpreendentes e inacreditáveis num primeiro momento. Como apontou o sacerdote jesuíta e teólogo espanhol Carlos Domingues Morano, dinheiro é um assunto crucial, apesar de muitas vezes escamoteado -como o sexo. Na verdade, o tema nunca é “só dinheiro”. As relações entre os homens/mulheres com o dinheiro comportam dimensões nem sempre lógicas, que extrapolam o discurso racional mais ou menos organizado –é sempre “algo mais” que dinheiro.[2] Na relação das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psicanálise, “está também implicada uma ‘questão de amor’; dito em termos mais freudianos, uma questão de ordem libidinal, inconsciente e com raízes na infância. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas reações de dissimulação, falso pudor e hipocrisia.”[3]

Há uma questão oculta que Freud trouxe à tona –e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa relação o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.

Continue lendo “Como o cocô tornou-se dinheiro e a seguir o Deus do capitalismo e de muitos cristãos”

Francisco x Trump: o ódio de cada um usado como política de Estado -e a epidemia atual

Campo de refugiados: eles são os outros a serem odiados, os inimigos que ameaçam a segurança do capitalismo e da “civilização”

Cristãos católicos escutaram nas missas do 7º Domingo do Tempo Comum (19) um trecho do Evangelho de Mateus (Mt 5,38-48) ainda no contexto do longo Sermão da Montanha, reunião de ensinamentos de Jesus no formato de um único discurso, que o evangelista completaria com discursos menores e que foi apresentado em quatro domingos consecutivos. Como um elenco de ditos, os dez versículos permitem diversas abordagens. Escolhi uma em particular: o tema do ódio em Jesus, à luz da psicanálise, como política de Estado e no âmbito das relações sociais; os impasses e caminhos propostos, especialmente, nos dias de hoje, pelo Papa Francisco e pelo conservadorismo em geral e católico em particular.

Três versículos do texto são amplamente conhecidos: aquele no qual Jesus faz a crítica  do preceito conhecido como Lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” (v.38-39), expresso em três dos cinco livros da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia Hebraica, o Pentateuco); a proposta de oferta da outra face diante da agressão (v. 39); e a recomendação expressa de amar os inimigos (v. 44).

Para Jesus, o ódio nasce e é alimentado por um processo que vincula o indivíduo, seu contexto familiar e a estrutura da sociedade. No domingo anterior, o tema nas missas havia sido a necessidade de indagar e entender onde nasce o desejo de morte (v.21-22); compreender a razão de nossos desejos e sentimentos contraditórios em relação àqueles que nos são mais próximos, como os irmãos –e, primordialmente, pai e mãe (v. 23-24); ou o emaranhado emocional que envolve a vida dos casais e torna tão dramático o tema da fidelidade, como se vê hoje pela proliferação dos aplicativos de namoro e encontros e a busca de relações “virtuais” à margem dos casamentos (v. 27-28) –leia aqui.  Neste, o foco desloca-se para a instrumentalização do ódio pelos poderes (a Lei de Talião) e a necessidade de uma resposta da pessoa que negue tal caminho de dominação.

Freud, ao fundar a psicanálise, constatou séculos depois que o ódio nasce como par do amor ou ainda antes dele. Todos os bebês odeiam o desprazer que sobrevém com a fome, com o frio ou a dor de uma assadura e mais tarde, já crianças, endereçam este sentimento àquele que lhe toma algo que consideram seu direito legítimo: o acesso ilimitado à mãe. Esta mobilização  em relação à figura paterna é a origem do ódio ao outro que a pessoa entende  como usurpador de seu direito.

O outro é visto pela criança como ameaçador e usurpador e torna-se alvo do ódio –este é o percurso que vamos reter aqui. Com o tempo, há uma ampliação deste alvo para todo aquele que se configura como ameaça e usurpação. Ao mesmo tempo, a criança tende a construir códigos de pertença no processo de socialização no qual, muito lentamente há uma aliança com aqueles que se lhe aparecem como assemelhados (a família, o clã) em oposição aos “de fora” e, com o tempo, esta codificação amplia-se em função dos agrupamentos sociais, desde colegas de escola, grupos de amigos, corporações até classe social. Estes somos “nós” contra todos os que estão fora deste círculo e que representam uma ameaça, potenciais ou reais usurpadores do que a pessoa enxerga como seus direitos inalienáveis.

Continue lendo “Francisco x Trump: o ódio de cada um usado como política de Estado -e a epidemia atual”

Jesus e o mergulho no conhecimento de nós mesmos

Rasgado (detalhe), Bruce Denny, escultura em bronze, Londres – www.brucedenny.com

A passagem a ser proclamada neste 6º Domingo do Tempo Comum (clique em Mt 5,17-37 ou no fim deste artigo)  é um trecho relativamente longo, de 20 versículos, ainda no contexto do Sermão da Montanha do Evangelho de Mateus. É um texto complexo, composto de ditos de Jesus que abrem inúmeras portas interpretativas, a partir das relações entre a lei mosaica e os ensinamentos do próprio Jesus. Há nesta passagem seis formulações em formas de antíteses, numa fórmula sapiencial característica (Foi dito… eu, porém, vos digo).

Nesses ditos, encontramos uma dimensão de rara profundidade. Jesus indica que devemos investigar as origens de nossas ações, avançar até nossos recalques, se quisermos entender quem somos –numa antecipação de algo que só seria detalhado como método na virada do século XIX para o XX por Freud, na psicanálise. Jesus apresenta-nos às grandes interrogações que somos para nós mesmos e convida-nos ao mergulho no mistério de cada ser humano e de toda a humanidade: o inconsciente, fonte de todas as nossas ações, angústias e alegrias. Apesar de sua postura contra as religiões e religiosidades –com boa dose de razão, diga-se-, Freud enveredou no caminho aberto por Jesus para a compreensão do ser humano, seus atos, pensamentos e motivações profundas.

Continue lendo “Jesus e o mergulho no conhecimento de nós mesmos”

Monja ameaçada de morte: disse que Maria fazia sexo com o marido!

A monja dominicana Lucía Caram

Os seguidores de Jesus devem ser como uma lâmpada acesa, luz no mundo, sal na terra. Estes são os apelos de Jesus dirigidos aos seus amigos e amigas e que constituem o centro do Evangelho que será ouvido nas missas deste 5º Domingo do Tempo Comum (Mt 5,13-16).

Em outras palavras: cristãos e cristãs devem buscar a verdade, tornar a vida saborosa, incomodar o reino das verdades estabelecidas ou, como disse uma vez o Papa, causar confusão (veja no final). Mas isso não é fácil. Nos últimos dias tivemos um bom exemplo disso.

Lucía Caram, uma monja dominicana argentina que vive num mosteiro em Barcelona concedeu uma entrevista em 29 de janeiro a um programa da TV espanhola e fez uma afirmação aparentemente prosaica:

“Acho que Maria estava apaixonada por José e que eles eram um casal normal – e ter relações sexuais é algo comum”.

Foi o suficiente para que desabasse uma tempestade brutal sobre ela, a ponto de receber ameaças de morte! Foi repreendida pelo bispo de Vic, sofreu toda sorte de insultos nas redes sociais ao redor do mundo, especialmente na Espanha, onde circula uma petição para que ela seja afastada de sua ordem. A manchete de um site conservador espanhol evoca o período inquisitorial: “A dominicana Lucía Caram blasfema contra a Virgem Maria”. O assunto mereceu uma reportagem do jornal britânico The Guardian.

Tudo porque ela disse que Maria fazia sexo com seu marido! A monja Lucía Caram afrontou um dogma da virgindade permanente da mãe de Jesus, “inscrito na pedra” no Catecismo da Igreja Católica, promulgado (não coincidentemente) por João Paulo II em 1992 e que estabelece: “O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria” (499). Este documento, o Catecismo, é considerado, ao lado do Código de Direito Canônico, como as duas referências básicas do cristianismo, no entendimento do pensamento conservador católico –em vez dos Evangelhos.

Continue lendo “Monja ameaçada de morte: disse que Maria fazia sexo com o marido!”

Jesus e as bem-aventuranças, uma convocação aos pobres: a caminho!

James Tissot, Jesus Preaches the Sermon on the Mount (1886-1896) – detalhe

Neste domingo (29), cristãos católicos celebram o 4º domingo do Tempo Comum, período no qual ao longo de 33 domingos do Ano Litúrgico, até 19 de novembro, meditam sobre o tempo da missão de Jesus acompanhado por seus amigos e amigas –este é o Ano A, no qual privilegia-se a leitura de trechos do Evangelho de Mateus. Não será um Tempo Litúrgico contínuo, pois será entrecortado pela Quaresma, Semana Santa e Tempo da Páscoa. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que se estende do capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto (Mt 5, 1-12a) é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil):

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.

1. O que fala Jesus

Uma leitura que busque fidelidade  ao texto original e seu contexto indicará claramente: a toda interpretação açucarada feita deste discurso, a partir de bases supostamente “espirituais” é equivocada.

O discurso sobre a montanha em geral e as Bem Aventuranças em particular Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto, seu programa àqueles com os quais desejou caminhar –e caminhou efetivamente. Os estudos realizados ao longo do século XX indicam que este discurso jamais foi pronunciado por Cristo, tratando-se de uma sistematização de diversas falas de Jesus, a partir de um denso trabalho redacional recolhido da mesma fonte que usou Lucas[1], que situou o Sermão não numa montanha, mas numa planície (Lc 6, 17-23).

Há um problema crucial nas traduções que são oferecidas em diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação de uma versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema seguir.

Continue lendo “Jesus e as bem-aventuranças, uma convocação aos pobres: a caminho!”