No fim, Jesus não mandou olhar pro céu, erguer palácios ou promover guerras

Um peregrino segura uma folha para receber o darsham matinal (a oferenda de comida), no Templo de Ouro dos Sikhs, Amritsar, Índia, foto de Abbas Attar (1944-2018), Magnum Photos, Irã. Publicada em Matersol, Manos da Terna Solidão (http://matersol.blogspot.com.br/)

Neste domingo (13) já no finzinho do Tempo da Páscoa, cristãos de diversas denominações, como os católicos, celebram a solenidade  conhecida como Ascensão do Senhor. Ela refere-se à conclusão da missão de Jesus, que “passa o bastão” para seus amigos e amigas. Jesus enviou-os a mudar o mundo e a si próprios, a disseminar a Boa Nova de um tempo-lugar chamado “Reino de Deus”. Não mandou ninguém ficar olhando para os céus, orar piedosamente, erguer palácios ou promover campanhas de ódio. 

Por Mauro Lopes

O texto sobre o qual se medita nas missas deste dia é extraído do Evangelho de Marcos (Mc 16,15-20), exatamente a passagem da ascensão. Como observou o excelente biblista da novíssima geração no Brasil, padre Francisco Cornélio, depois dos estudos bíblicos dos últimos 100 anos já se dá como certo que este trecho não estava no texto original do Evangelho e foi acrescentado décadas depois.

O episódio da ascensão de Jesus aparece em Marcos (como adendo posterior) e em Lucas (Lc 24, 50-53)  e há referência a ele no início do texto que relata a missão e vida das primeiras comunidades cristãs, o Atos dos Apóstolos (At 1, 9-11), cuja redação usualmente atribui-se ao mesmo Lucas. Não há qualquer referência ao episódio em Mateus ou João.

Há consenso também de que as passagens de Marcos, Lucas e dos Atos dos Apóstolos sobre a ascensão não são relatos jornalísticos, mas teológicos, voltados à animação das comunidades nascentes que sobreviviam debaixo de perseguição, divisões e ondas de desânimo.

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A Via Sacra dos invisíveis

Nas ruas do centro histórico de São Paulo, onde vivem 80% dos 16 mil moradores de rua da cidade mais rica do país, a Via Sacra do Povo da Rua pediu o fim da violência e políticas públicas.  “Chega de violência contra o povo! Chega de bala de borracha e de gás de pimenta! Chega de maldade e de opressão”, disse o padre Júlio Lancellotti, vigário do Povo da Rua, ao entregar flores para os policiais, enquanto os participantes da procissão cantavam:  “Recebemos bombas, entregamos flores”. 

Por Thiago Fuschini * | Fotos: Daniel Arroyo

O período da Páscoa é um convite aos cristãos a orarem e refletirem sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, e, ao mesmo tempo, compreenderem o real significado de sua vida e missão. Desde o século XVI, uma das formas mais tradicionais de se refletir sobre estes temas é a participação na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo ao Gólgota, onde ocorreu sua crucifixão, na primeira Sexta-Feira Santa.

Há mais de 30 anos, a Pastoral do Povo de Rua de SP realiza a Via Sacra do Povo de Rua de São Paulo, que ocorre tradicionalmente nas ruas do centro da capital, onde, segundo o Censo de População de Rua, de 2015, vivem 80% das cerca de 16 mil pessoas que perambulam pelas ruas da cidade mais rica do país.

A procissão fez um trajeto pela Rua Líbero Badaró, no centro histórico da cidade, onde parou em frente a cada prédio de órgãos da Prefeitura, como as secretarias de Habitação e de Assistência e Desenvolvimento Social, passando pela Prefeitura e terminando na Catedral da Praça da Sé.

Violência

A Via Sacra do Povo da Rua, ontem (30), exigiu a criação de políticas públicas para esta população, com ênfase em suas principais necessidades, ou seja, moradia e trabalho, e pediu o fim da violência contra quem vive nas e das ruas, que, normalmente, é praticada por agentes de segurança pública (da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana – CGM). Continue lendo “A Via Sacra dos invisíveis”

Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema

Cruz (detalhe), Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador

Nesta Sexta-Feira da Paixão, Caminho Pra Casa publica artigo exclusivo de um dos maiores biblistas vivos, o frade italiano Alberto Maggi. A tradução é do biblista brasileiro padre Francisco Cornélio. No texto, Maggi demole duas ideias que estão na base do cristianismo falsificado que os integristas sustentam há séculos:  1) Jesus teria sido morto “pelos nossos pecados”;  2) essa seria “a  vontade de Deus”. A versão é insustentável com um exame realista e honesto dos textos bíblicos.  Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel. Jesus não inaugurou o tempo da culpa, mas o da misericórdia e o da vida plena para os pobres. A íntegra do artigo a seguir.

Por Alberto Maggi   | Tradução: Francisco Cornélio

Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios. Continue lendo “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”

Uma marcha com Júlio Lancellotti e os moradores de rua

Em apoio ao padre Júlio Lancellotti, ameaçado de morte, e aos moradores de rua, que vivem sob terror permanente em São Paulo, centenas saíram às ruas numa passeata-procissão

Por Thiago Fuschini

Cerca de duzentas pessoas marcharam no último domingo (25) em São Paulo em repúdio às ameaças à vida do padre Julio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de SP, e contra a crescente violência contra os moradores de rua. A marcha (uma passeata-procissão) aconteceu na Mooca, Zona Leste de SP, Capital, e foi convocada pela comunidade de fiéis da Paróquia São Miguel Arcanjo, também na Mooca, onde Lancellotti serve como pároco e por ativistas de Direitos Humanos.

Realizada em conjunto com a Procissão de Ramos, a manifestação ocorreu em resposta à uma série de ameaças postadas na rede social Facebook à vida de Lancellotti, que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos e da dignidade dos moradores de rua, os mais pobres entre os pobres, e em um contexto do aumento da violência e de ações higienistas contra as pessoas que vivem nas e das ruas de SP, com remoções forçadas, confisco de roupas, alimentos, documentos e instrumentos de trabalho, além do uso de jatos d’água para remover estas pessoas. Todas estas ações vêm sendo denunciadas pela Pastoral do Povo de Rua de SP e também pela imprensa.

“As pessoas estão mostrando seu compromisso de posicionar-se contra a violência contra os irmãos de rua”, disse Lancellotti que, um pouco mais tarde, em sua homilia na missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, onde foi encerrada a marcha, exortou os fiéis a se aproximarem dos moradores de rua e a conhecê-los. “Abraçar o pobre e chamá-lo pelo nome é um ato revolucionário”, concluiu.

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que deixará o cargo para concorrer a uma vaga no Senado, afirmou que “não queremos que o padre Julio seja um mártir. Queremos ele vivo, atuando na defesa das pessoas em situação de rua”, ao mesmo tempo em que defendeu que a Prefeitura e o governo estadual tomem medidas efetivas para investigar as ameaças e proteger a integridade física do sacerdote e de pessoas que trabalhem com ele.

“O objetivo deste ato é chamar a atenção da Cidade para a questão dos moradores de rua e, ao mesmo tempo, motivar as pessoas a mudarem seu pensamento sobre eles, de maneira que possamos criar estratégias mais acolhedoras e não de descriminação sistemática, como é o que vemos quase sempre”, analisou uma das organizadoras do evento, a educadora Maria Lucia Taiar Santos, que frequenta a paróquia São Miguel Arcanjo há mais três décadas.

Para Luiz Carlos Antunes, ativista do Tulipa Negra Direitos Humanos, ações como a ocorrida no domingo passado são importantes “para mostrar para a Mooca – e para a cidade de SP – que existem pessoas comprometidas com os moradores de rua, e que ameaças e violência serão sempre denunciadas”.

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Thiago Fuschini é jornalista e voluntário na Pastoral do Povo de Rua de SP

Na perseguição a Lancellotti, o desejo de esmagar os pobres

Padre Júlio Lancellotti, responsável pela Pastoral do Povo da Rua em São Paulo, tem sofrido seguidas ameaças de morte nas últimas semanas. A perseguição a Lancellotti é uma faceta do desejo de descartar e esmagar os mais pobres, o “lixo” da sociedade para as elites. Qual a razão disso? Pode parecer paradoxal, mas é medo. Pois os pobres não carregam apenas suas dores. Carregam as de toda a sociedade. Mas não podemos olhar para elas. Precisamos ganhar o dia, sonhar com a ilusão da riqueza, matar nossa humanidade para subir na vida, negar nossas angústias e apagar qualquer traço de solidariedade que nos torne próximos do pobre. Devemos a todo custo liquidar  com o terror, ou seja, a possibilidade desesperadora de nos tornarmos pobres. Para afastar este medo-pânico é necessário esmagar aqueles e aquelas que nos denunciam essa possibilidade. E os que os defendem.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (25) haverá uma manifestação de solidariedade e em defesa do padre Júlio Lancellotti. Será às 9h da manhã, na Igreja São MIguel Arcanjo, no bairro do Belém, em São Paulo -Lancellotti é pároco lá. Se você quiser saber de mais detalhes do evento, clique  aqui.

Júlio Lancellotti foi ordenado sacerdote em 1985, pelas mãos de um dos maiores líderes da Igreja no Brasil, dom Luciano Mendes de Almeida. Fez-se padre no seguimento de dom Luciano e de dom Paulo Evaristo Arns. Desde sempre esteve com os últimos da sociedade. Foi um dos fundadores da Pastoral do Menor em São Paulo.

No início dos anos 1990, padre Júlio tomou tomou uma atitude que traçou uma identidade indelével entre ele e São Francisco de Assis. Era o auge da crise da AIDS, vista por parte da sociedade como uma “peste” e, por um segmento, como uma “peste gay”. Na Febem, os bebês e crianças com Aids -exatamente os mais frágeis-  não eram tratados pelos profissionais, com pavor de se contaminarem pelo vírus. Eram deixados de lado, sem banho, sem colo, sem nada. Lancellotti resgatou os bebês e crianças e fundou a Casa Vida I e depois a Casa Vida II, perto de sua paróquia.  Elas passaram a ser cuidadas. Muitas morreram -mas muitas sobreviveram à doença e hoje são adultos e adultas. Como São Francisco no abraço aos leprosos, Júlio Lancellotti abraçou os bebês aidéticos.

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Neste Domingo, o Evangelho segundo Marielle

Neste Quinto Domingo da Quaresma, (18) cristãs e cristãos católicos rezam o Evangelho segundo Marielle. Nele, tomado do evangelista João, Jesus falava de si próprio e saltando acima do Tempo e do Espaço, profetizava sobre uma Negra Favelada que, como ele, afrontou o Império e, com sua morte, “produzirá muito fruto”

Por Mauro Lopes

O Evangelho deste domingo é João 12,20-33. Marca o fim de sua vida pública e o início de sua Páscoa (paixão e morte). Nas igrejas, informa-se à assembleia reunida: “Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João”. Mas, neste domingo 18 de março de 2018, as palavras poderiam ser –e, de fato, são: “Proclamação do Evangelho de Jesus segundo Marielle”. Ou ainda: “Proclamação do Evangelho de Jesus e sua filha Marielle”.

Pois o Evangelho (Boa Notícia) deste domingo não marca apenas o fim da vida pública de Jesus e sua Páscoa (paixão e morte); marcou, na noite de quarta-feira,  o fim da vida pública de Marielle e sua Páscoa (paixão e morte).

As palavras que, segundo a comunidade joanina, Jesus teria pronunciado naquele momento crucial, eram sobre seu futuro próximo e os anos, séculos e milênios seguintes . Mas –e o Brasil presencia isso agora- era também uma profecia sobre uma Negra Favelada que, como ele, ousou afrontar o Império, as elites, a miséria, a fome, o desespero, a desesperança, o golpe contra seus irmãs e irmãos mais frágeis, as botas sujas de sangue invadindo os morros.

Disse Jesus –na interpretação da comunidade de João (versículos 24 a 28):

Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, então produzirá muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer seguir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!” Então, veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!”

Qual o testemunho da vida/morte de Marielle?

Foi ela, passados mais de dois mil anos daquele momento, o grão de trigo que morreu para produzir muito fruto; foi ela que não se apegou à sua vida, entregando-a à vida eterna (ao futuro de seu povo). Não foi uma decisão fácil para Marielle, como não foi para Jesus. Da angústia que ele reconheceu viver naquela hora, Marielle não deve ter escapado na sua hora. Como o Mestre, ela não escolheu livrar-se de sua escolha, pois viveu por ela e para ela –“foi precisamente para esta hora que eu vim”.

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Porque é Natal – ler Leonardo Boff, aprender e converter-se

Um texto magisterial de frei Leonardo Boff sobre o Natal. Um dos homens mais perseguidos pela hierarquia nos tempos de Wojtyla e Ratzinger e ainda hoje pelos fundamentalistas do ódio e da morte, manteve-se fiel a seu Mestre, pobre, cristão, humanizado. (Mauro Lopes)

Leia, comova-se, inspire-se:

O Natal nos faz lembrar nossas origens humildes. O Filho de Deus não quis nascer num palácio com tudo o que lhe pertence em pompa e glória. Não preferiu um templo com seus ritos, incensos, velas acesas e cânticos. Sequer buscou uma casa minimamente decente. Nasceu lá onde comem os animais, numa manjedoura. Os pais eram pobres operários, do campo e da oficina, a caminho de um recenseamento imposto pelo imperador romano.

Esta cena nos remete à situação presente no país e no mundo: milhões e milhões de pobres, muitos famélicos, outros tantos milhões de crianças cujos olhos quase saltam do rosto por causa da fome e da fraqueza. A maioria morre antes de atingir 3 anos. Eles atualizam para nós a condição escolhida pelo Filho de Deus.

Ao escolher aqueles que não são socialmente e os tidos como invisíveis, o Filho de Deus nos quis passar uma mensagem: há uma dignidade divina em todos estes sofredores. Face a eles devemos mostrar solidariedade e compaixão, não como pena, mas como forma de participar de sua paixão. Sempre haverá pobres neste mundo, já o disse a Bíblia. Razão a mais para sempre retomarmos a solidariedade e a compaixão. Se alguém caminha junto, estende a mão e levanta o caído, mais ainda, se alguém se faz companheiro, quer dizer, aquele que comparte o pão, o sofrimento se torna menor e a cruz mais leve.

Quem está longe dos pobres, mesmo o cristão mais piedoso, está longe de Cristo. Cabe sempre recordar a palavra do Juiz Supremo: ”O que fizer ou deixar de fazer a estes meus meus irmãos e irmãs mais pequenos: os famintos, os sedentos, os encarcerados e os nus, foi a mim que o fez ou deixou de fazer (Mt 25,40).

O Natal é uma festa da contradição: ela nos recorda o mundo que ainda não foi humanizado porque somos cruéis e sem piedade para com aqueles penalizados pela vida. O Natal nos recorda a mesma situação vivida pelo Verbo da vida, o Filho feito carne.

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Coroa do Advento: redescobrir seu sentido na liturgia e na vida

Neste domingo (3), cristãos de várias Igrejas começam a se preparar para o Natal. Inicia-se o Tempo Litúrgico do Advento, de espera/esperança O uso da coroa do Advento é costume de anglicanos, batistas, católicos, luteranos, metodistas, presbiterianos, gentes da Ordem Evangélica dos Servos Intercessores e de outras denominações. A origem da coroa remete à Alemanha, no século XIX, por iniciativa de um pastor luterano, Johann Heinrich Wichern

Leia artigo de Cátia Cristina Tavares da Silva*, da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, sobre a coroa do Advento. Escrito a partir da perspectiva católica, é um texto no espírito de amizade e convergência com todas as Igrejas-irmãs.

 A íntegra do artigo: 

O tempo do Advento está chegando e com ele o convite da liturgia a uma preparação interior para vivermos bem o Natal, a festa da encarnação do Filho de Deus em nossa humana história. A palavra Advento significa vinda. Nós, cristãs e cristãos, reconhecemos que Jesus em  sua primeira vinda fez-se presente na carne, está continuamente conosco quando nos reunimos em nome dele e virá na plenitude dos tempos para estabelecer definitivamente seu Reino entre nós.

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No cristianismo, o que importa não é a fé, mas o amor

O Papa abraça Vinicius Riva, na Praça São Pedro, em 6 de novembro de 2013

A seguir, o comentário do grande biblista italiano, o padre Alberto Maggi, sobre o Evangelho que encerra o Ano Litúrgico A (centralizado pelo texto de Mateus nas Liturgia da Palavra dominical).

O título da solenidade de hoje, Cristo Rei do Universo, é uma criação do Papa Pio XI, em 1925, no espírito da Igreja tridentina e que aspirava a poder e serviço aos ricos –mas isso é assunto para outro dia

Ele nos apresenta uma questão central: o cristianismo não é a religião da fé, mas a religião do amor: “O Deus de Jesus nunca vai perguntar a você se acreditou Nele, mas se você amou como Ele ama!”.

A tradução é do padre Meo Bergese.

[Mauro Lopes]

O texto da Liturgia deste domingo é um dos centrais do Novo Testamento, do capítulo 25 de Mateus (31-46):

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 31”Quando o Filho do homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. 34Então o rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’. 37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’

40Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’ 41Depois o rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não fostes me visitar’. 44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’ 45Então o rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo, todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’ 46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.

 

O comentário de Alberto Maggi:

No Evangelho de Mateus que vamos comentar – cap. 25, versículos 31-46 – nos é dado o último grande ensinamento de Jesus. Para esse ensinamento Jesus serve-se de uma imagem conhecida no mundo hebraico: encontra-se no Talmud (livro sagrado e registro dos estudos rabínicos), onde se diz que “na vida do além, o Santo – bendito seja – tomaráo roloda Torá,a Lei,o colocarásobre os joelhose dirá: ‘Que venha quem se ocupou com isso e receberáa sua recompensa’”.

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No Sermão da Montanha, Jesus convoca os pobres: em marcha!

Ocupação dos sem teto em São Bernardo do Campo. A eles Jesus se dirige: em marcha!

Neste domingo (6), cristãos católicos celebram a solenidade de Todos os Santos –a data original é 1 de novembro, mas há países, entre os quais o Brasil, nos quais ela é deslocada para o domingo seguinte. O Evangelho que a Igreja oferece à oração e meditação é o trecho mais famoso do Sermão da Montanha, que toma os capítulos 5 a 7 de Mateus; trata-se do conhecido discurso sobre as Bem-Aventuranças.

Sugiro uma meditação a partir de duas questões deste texto que é um dos pilares do cristianismo: 1. O que fala Jesus; 2. Para quem fala Jesus.

A tradução que ofereço do texto é tomada da área da Liturgia da Palavra do site da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Mt 5,1-12a:

“Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.”

1.  O que fala Jesus

Uma leitura de fato colada ao texto, ao seu espírito e ao contexto indicará claramente: a interpretação açucarada que se disseminou sobre o discurso  é em todo falsa e enganadora.

Meditar esta fala de Jesus com fidelidade indicará que se trata da apresentação de seu projeto-programa àqueles com os quais desejou caminhar e caminhou efetivamente.

Há um problema relevante nas traduções que são oferecidas nas diversas traduções da Bíblia e que auxiliou na disseminação desta versão “água com açúcar”. Vamos examinar juntos este problema a seguir.

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