Jesus subverte tudo: não há prêmio especial para os bons

Refugiados a bordo de um barco de pesca superlotado no Mar Mediterrâneo, 2015. Somos sensíveis ao sofrimento, como Jesus, ou acumulamos “méritos”? – Por Francisco Zizola

O Evangelho deste 25° Domingo do Tempo Comum é um dos mais paradoxais e incômodos para os cristãos (aqui). Ele rompe toda a lógica que permeia os sistemas de dominação ao longo da história e demole os edifícios da meritocracia e do toma-lá-dá-cá sobre os quais se assenta o conservadorismo na Igreja.

A história é conhecida e está no início do capítulo 20 do Evangelho de Mateus: o dono de uma vinha vai à praça de sua aldeia onde ficavam os trabalhadores que ofertavam sua força de trabalho para serviços do dia. Contrata os que estavam logo cedo no local e volta à praça mais três vezes, contratando todos. Faz isso mais uma vez, quando faltava apenas uma hora para o fim da jornada de trabalho, e convoca os que ainda estavam por ali. Na hora do pagamento, todos recebem a mesma quantia, uma moeda de prata, gerando revolta dos que haviam começado mais cedo.
Como ler este texto tão intrigante?
Uma proposta: a vinha é o Reino (imagem tradicional nos Evangelhos) e Deus toca os homens/mulheres com sua convocação para caminhar com ele na direção deste Reino de igualdade e justiça e paz.
Podemos nos sentir tocados aos 15 anos, aos 40 ou aos 90. O “prêmio” não é um “ingresso garantido” no Reino, como prega a teologia conservadora, com base numa coleção de méritos por conta de uma agenda calculista de fundo penitencial e assistencialista que nos torna “diferentes” dos demais.
Não, nada disso. Quando nos sentimos tocados e convocados, a vida muda, nosso olhar para o mundo, as pessoas é transformado pela Palavra compassiva de Deus -este é o “prêmio”, a transformação que se opera em nós! E ela acontece aos 15, aos 20, aos 40, aos 90 ou mesmo alguns minutos antes da morte.
É a mesma transformação, a mesma moeda que todos os meus irmãos e irmãs receberam. E ela vira-nos do avesso! E o que desejamos? Que outros irmãos e irmãs recebam a mesma moeda, nem mais, nem menos. Aqui não há espaço para a inveja, para o desejo de se sobrepor aos demais, para teses baseada no engodo da meritocracia. Prevalece a alegria de estarmos juntos  no Caminho com nossas qualidades e defeitos, com o jeito de ser de cada um.
Há leituras mais profundas e belas de biblistas fantásticos que vale muito a pena contemplar, se você deseja mergulhar um pouco mais neste trecho do Evangelho de Mateus:

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Em 16 pontos, os projetos em disputa na Igreja: Vaticano II ou Trento?

Restaurar ou reformar? Igreja entre Francisco e a Cúria romana

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Uma foto e um quadro-resumo de 16 pontos: os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Burke e o bispo do povo, dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.

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Numa foto e num quadro-resumo de 16 pontos, os dois projetos em luta na Igreja

O “príncipe” Raymond Burke e o bispo do povo José Maria Pires, o dom Zumbi

A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Os dois projetos estão simbolizados pela foto acima, que reúne duas imagens: as do cardeal Raymond Burke, um dos líderes da oposição ao Papa Francisco e de dom José Maria Pires, o dom Zumbi, que participou do Vaticano II. A imagem de Burke é recente; a de dom Zumbi é dos anos 1970, quando era o arcebispo da Paraíba –ele morreu no último 27 de agosto, aos 98 anos.

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.

O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

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Os milionários tomaram todo o poder para si; os pobres têm direito sagrado à rebelião

O projeto dos ricos, a serviço de seu deus-dinheiro: tudo para eles

Celebrar o Dia da Independência na perspectiva do 23º Grito dos Excluídos só é possível a partir de uma leitura correta do fato que hoje define o país: os ricos tomaram de assalto todo o poder institucional do Brasil no processo que culminou no golpe de Estado de um ano atrás. Não há espaço para os pobres no Poder Executivo, no Poder Legislativo, no Poder Judiciário ou no quarto poder, a Imprensa dita “tradicional”. Tudo é para os ricos; aos pobres, nem as sobras do banquete.

As últimas semanas foram fartas em expressões simbólicas, condensadas, verdadeiras lições aos pobres sobre o que foi feito do poder institucional do país.

O símbolo do Poder Executivo são as malas de dinheiro de Geddel Vieira Lima, um dos principais articuladores do golpe e coordenador político do regime dos ricos até ser denunciado por outro ministro da quadrilha de Temer. Mais de R$ 50 milhões em dinheiro vivo nas malas, o que está longe de ser toda a fortuna amealhada por ele ao longo de sua carreira –há muitos outros bens, casas, empresas, carros, lanchas e dinheiro escondidos.  Romero Jucá, Moreira Franco, Eliseu Padilha, Antonio Imbassahy, Gilberto Kassab, Mendonça Filho, Raul Jungman, Ricardo Barros, Fernando Bezerra Coelho, José Serra, Aloysio Nunes, Marcos Pereira, todos os ministros escolhidos por Michel Temer e ele próprio são ricos e enriqueceram exatamente como Geddel.  Mais que ricos, são todos milionários.

O símbolo do Poder Legislativo é a pesquisa do economista André Calixtre, que demonstrou taxativamente: o patrimônio médio declarado de um senador é superior a R$ 17 milhões e o dos deputados federais e estaduais é de R$ 2,5  milhões. O Congresso Nacional e todo o Poder Legislativo é a casa dos ricos, e não a casa do povo. E este é o patrimônio declarado, o que não inclui malas de dinheiro como as de Geddel, rendas, patrimônio escondido em nome de terceiros –filhos, noras, genros, sogros, tios e laranjas em geral. Eles são na verdade muito mais milionários do que a pesquisa indica.

O símbolo do Poder Judiciário é a revelação de que os juízes recebem em média R$ 47.703,00 por mês. O Judiciário é o resultado dos recursos públicos que são assenhorados pelos juízes, tornando-os homens e mulheres ricos ou ainda mais ricos. Há milhares de juízes que recebem muito mais a média. Sérgio Moro, escalado para perseguir e condenar Lula, se apropria de algo como R$ 65 mil a R$ 77 mil todo mês; desembargadores ganham mais que R$ 100 mil mensais. O caso do juiz que recebeu mais de R$ 500 mil num único mês (aqui) está longe de ser o único. Essa dinheirama toda não leva em conta as viagens, congressos e todo tipo de boca livre e “delicadeza” que os juízes recebem de empresários e associações empresariais. Isso sem falar nos casos de vendas de sentenças sobre os quais reina uma pesada cortina de silêncio e que tornam um número não sabido de juízes em super milionários.

O símbolo do poder Imprensa é a campanha persecutória que todos os veículos pertencentes às sete famílias (Marinho, Frias, Mesquita, Civita, Sirotsky, Saad e  Alzugaray) movem contra Lula há anos, sem cessar. A imprensa é o consolidador propagandístico do poder dos ricos e a “amarradora” ideológica da ideia do “direito” à fortuna. Além de seus proprietários serem milionários graças aos recursos públicos que embolsam em subsídios, publicidade e por diversos outros meios.

É uma teia. Banqueiros, empresários, parlamentares e altos funcionários do Legislativo, juízes e a elite do Judiciário, ministros, secretários e outros membros da cúpula do Executivo, promotores, procuradores, delegados, altos executivos, jornalistas, grandes proprietários de imóveis urbanos e rurais… Todos eles, cerca de 2 milhões de pessoas, convergem para um único e grande interesse comum: embolsar os recursos do Estado e todas as riquezas do país para si e impedir os demais 206 milhões de brasileiros e brasileira de terem acesso a qualquer fatia desses recursos e riquezas.

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O Papa, de novo: aprendizado com uma comunista, psicanálise, aborto, Igreja do povo e não da hierarquia

“O Papa é de esquerda?”, pergunta Le Figaro Maganize. Trechos do livro “Política e Sociedade”

A Figaro Magazine, revista do jornal francês Le Figaro, publicou na última sexta-feira (1) um longo extrato de trechos das sete entrevistas/conversas  do Papa Francisco com o pesquisador francês Dominique Wolton que estarão no livro Política e Sociedade a ser lançado nos próximos dias. O título da capa da revista francesa pergunta: “O Papa é de esquerda?”. Já está claro: ele é sim, -o que não quer dizer que comungue de todas as ideias comuns ao ideário progressista-libertário, como em sua visão sobre o casamento de homossexuais.

A revelação de que ele se consultara com uma psicanalista na Argentina, aos 42 anos, já havia vazado na última sexta. Mas a íntegra do que publicou Le Figaro Magazine tem muito mais:

  • ele revela ter aprendido sobre política com uma comunista, assassinada pelos militares durante a ditadura argentina;
  • afirma peremptoriamente que  “a Igreja não é os bispos, os papas e os sacerdotes. A Igreja é o povo.”;
  • ao falar sobre os refugiados, explicita: “Nossa teologia é uma teologia de migrantes.”;
  • critica os tradicionalistas: “a ideologia tradicionalista tem uma fé assim (faz o gesto de alguém com viseiras), a bênção deve ser dada assim, os dedos durante a missa devem ser assim, com as luvas, como era antes…”;
  • defende a absolvição nos casos de aborto;
  • explica o direito à comunhão dos divorciados em segunda união;
  • defende a união civil entre pessoas do mesmo sexo, mas que a palavra “casamento” seja reservada à união entre homem e mulher;
  • critica o rigor moralista voltando à repressão sexual: “Há um grande perigo de se condenar apenas a moral abaixo do cinto”.

Mas há mais, muito mais. Leia a seguir:

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Dom Zumbi Maria Pires: a Igreja na senzala, com os seus, e não na Casa Grande

Dom José (Zumbi) Maria Pires, profeta da Igreja no seio do povo brasileiro

Leia ao final  o emocionante e emocionado texto-homenagem  de padre Gegê (Geraldo Natalino), negro como dom Zumbi Maria Pires, morador das favelas-senzalas-navios negreiros do Rio de Janeiro, terra de escravos que buscam afirmar sua resistência e altivez, neste momento enfrentando a ocupação dos capitães do mato/PMs-soldados do Exército.

Os profetas escolhem eternizar-se em 27 de agosto no Brasil. A síntese mais sensível deste dia, marcado em 2017 pela páscoa de dom José Maria Pires aos 98 anos, foi feita no texto de um padre, Luis Miguel Modino, pároco em São Gabriel da Cachoeira (AM), no coração da floresta amazônica, espanhol como dom Pedro Casaldáliga, em artigo para o site católico Religion Digital: 27 de agosto, dia em que os profetas vão ao céu. Sim, porque neste dia, dom Zumbi Maria Pires, o primeiro bispo negro da história do Brasil, decidiu celebrar no céu com dom Hélder Câmara e dom Luciano Mendes de Almeida, todos nascido para a eternidade num 27 do mês de agosto, em 1999 e 2006. Três dos maiores líderes da teologia latino-americana, da Teologia da Libertação.

Dom Zumbi e dom Hélder foram grandes amigos anos a fio. Os dois estiveram no Concílio Vaticano e ajudaram a acordar a Igreja de um longo sono ao qual ela voltaria tempos depois, quando  o cardeal Wojtyla decidiu que era tempo de disciplina e não de amor. Ambos celebraram o compromisso fundante da Igreja que retomou a trajetória das primeiras comunidades cristãs no principal evento do Concílio. Tão crucial foi o evento que aconteceu às margens da reunião oficial, reunindo 40 bispos e padres conciliares na Catacumba de Domitila, em 16 de novembro de 1965, às vésperas do encerramento do Concílio -as catacumbas eram locais de reunião secreta dos cristãos durante as perseguições do Império Romano.

Naquela noite, os 40 assinaram o Pacto das Catacumbas da Igreja Serva e Pobre, pelo qual comprometeram-se a uma vida eucarística, de pobreza, partilha, uma vida de lavar os pés dos pobres e com eles conviver.   Dos 40, oito eram brasileiros, entre eles exatamente dom Zumbi e dom Hélder. Eles assumiram 13 compromissos naquela noite histórica, dentre eles: viver como o povo, abrir mão dos títulos e roupas luxuosas, assim como do uso e ouro e prata (práticas ainda correntes na hierarquia católica), abrir mão de toda propriedade pessoal, estabelecer relações horizontais de diálogo em suas dioceses (leia este documento-chave para se entender a Igreja que Francisco busca resgatar clicando aqui).

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Papa: Igreja é de todos e cheia de falhas “como no tempo de são Francisco”

O Papa neste domingo (27): Igreja precisa ser sempre reformada

O Papa fez neste domingo (27) um dos discursos mais explicitamente eclesiológicos de seu pontificado -referente a ekklesia, assembleia, palavra de onde se origina igreja. Na oração do meio-dia (o Ângelus), Francisco rejeitou as concepções conservadoras sobre a Igreja, consagradas por seus antecessores, e afirmou neste domingo (27) que ela é de todos, e não do clero, feita por “todos nós” que “nos tornamos ‘pedras vivas’”. Além disso, afastou a ideia da Igreja como “sociedade perfeita”, alentada pelos restauracionistas e afirmou que ela “sempre precisa ser reformada, reparada”, pois mesmo “com fundamentos sólidos”, tem “rachaduras, como nos tempos de são Francisco de Assis”.

O discurso foi todo voltado ao Evangelho deste que é o 21° Domingo do Tempo Comum, que relata um diálogo entre Jesus e seus discípulos, no qual ele indaga a visão dos seguidores sobre si (aqui ou no final). Ao remeter a são Francisco, o Papa, sem o mencionar diretamente referiu-se a uma das passagens mais conhecidas da vida do poverello de Assis, em 1205, quando, depois de um período de oração na pequenina e semidestruída igreja de São Damião, escutou uma voz saindo de um crucifixo bizantino caído ao lado do altar: “Vai, Francisco, e repara a minha casa que está em ruínas.” Dez séculos antes do Francisco, que lhe inspirou o nome papal, o Francisco de hoje encontrou uma Igreja também em ruínas, numa crise brutal.

Na conversa de Jesus com seus amigos, ao indagar de si “o Mestre esperava dos seus uma resposta alta e diferente daquelas da opinião pública”, afirmou Francisco, rejeitando as imagens de um Cristo soberano, cheio de poder e punitivo. “Simão Pedro encontra em seus lábios palavras que são maiores do que ele, palavras que não vem de suas capacidades naturais. Talvez ele não tenha feito a escola fundamental, e é capaz de dizer estas palavras, mais fortes do que ele! Mas são inspiradas pelo Pai celeste, que revela ao primeiro dos Doze a verdadeira identidade de Jesus”.

Nesta caminhada a partir dos pobres e simples e repleta de falhas edificou-se a Igreja dos seguidores de Jesus, onde todos, sem distinção entre leigos, leigas e hierarquia eclesial, são igualmente “pedras vivas”, na eclesiologia do Papa. Para Francisco, a partir da visão retomada no Vaticano II, a Igreja “é uma comunidade de vida, feita de muitíssimas pedras, todas diferentes, que formam um único edifício no signo da fraternidade e da união”.

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Francisco aprofunda reformas; conservadores radicalizam dissidência

Grafite celebra visita do Papa à Colômbia, no início de setembro

O Papa Francisco surpreendeu mais uma vez ao proclamar que a reforma litúrgica estabelecida pelo Concílio Vaticano II “é irreversível” e que deve ser aprofundada. Foi num discurso feito na quinta (24) aos participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana. O Papa tocou num ponto sensível da Igreja, talvez o mais sensível: como os cristãos católicos celebram o mistério de Cristo na liturgia, especialmente a eucarística (a missa).

Há uma disputa brutal em torno da celebração eucarística que perpassa a Igreja, apesar dela acontecer sobretudo nos bastidores e textos teológicos. Os conservadores querem revogar a reforma litúrgica consagrada pelo Vaticano II (apesar de não expressarem isso explicitamente na maior parte das vezes). Um de seus líderes, o cardeal guineense Robert Sarah, ocupa o posto estratégico de  prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano, onde vem colecionando atritos com o Papa e seu grupo. Tudo indica que depois dos cardeais conservadores George Pell (ex-presidente do estratégico Departamento de Economia do Vaticano) e Gerhard Müller (ex-prefeito da mais que estratégia Congregação Para a Doutrina da Fé), está chegando a hora de Sarah ser defenestrado. O discurso de Francisco parece indicar que a hora chegou.

Os conservadores sonham com o retorno da missa nos moldes do Concílio de Trento (por isso chamada de missa tridentina), rezada em latim, com o padre de costas para a assembleia. O cardeal Sarah tem explicitado sua adesão à ideia que vagou como fantasma pelos corredores do Vaticano até que em 2007 o Papa Bento XVI publicou a Summorum Pontificum, uma carta apostólica que restaurou a missa tridentina em “concorrência” com o rito do Concílio.

Para Francisco, a liturgia não é do clero, ao contrário do que apregoam os conservadores, pois ela “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato ‘popular’ e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”. A frase tem repercussões profundas. Lida ao lado de outra, com a qual o Papa anunciou que “hoje ainda há trabalho a ser feito”, pode indicar a retomada do caminho de criatividade litúrgica abruptamente interrompido por João Paulo II, que proibiu todas as iniciativas de inculturação, como as missas Criolla, Terra Sem Males e dos Quilombos.

Confrontando diretamente a concepção conservadora, Francisco anunciou “uma liturgia viva para uma Igreja viva”.

O aprofundamento da reforma litúrgica é mais uma das iniciativas da primavera franciscana.  Todas as outras são igualmente objetos da fúria da ala conservadora da Igreja, entre elas: a reforma da Cúria romana, os estudos para o diaconato feminino, o direito à comunhão de casais divorciados em segunda união, o acolhimento aos migrantes e refugiados, especialmente o apelo do Papa ao reconhecimento do jus soli (direito de solo, para que crianças de famílias migrantes tenham direito à nacionalidade nos países onde nascerem) e, finalmente, a retomada da trajetória da Igreja com os pobres de todo o mundo, na perspectiva da teologia latino-americana.

Dissidência e agressões ao Papa

Os conservadores não se cansam de elevar o tom contra o Papa, ora com exigências estapafúrdias, ora com ameaças cada vez mais explícitas de dissenção, enquanto agridem Francisco de maneiras cada dia mais explícitas de baixo nível.

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Padres cantores – quando os ídolos caem e quebram

Padres Fábio Melo e Marcelo Rossi: o risco da idolatria

Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê, é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro.

Segundo a ONG Justiça Global, as operações militares que conjugam as tropas do Exército, PM e Polícia Civil, já causaram nos últimos dias sete mortes em Manguinhos e na favela vizinha, Jacarezinho. Em nota veiculada na segunda (21), a entidade afirmou que elas um “revide” após a morte de um policial da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core): “Não podemos admitir que os moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos sejam vítimas de revide, tenham suas casas reviradas, suas escolas fechadas por tempo indeterminado e sejam impedidos de ir e vir. Não podemos mais aceitar que execuções sejam tratadas como ‘balas perdidas’ e não sejam investigadas. Repudiamos o avanço da militarização e todas as políticas a fim de asfixiar territórios negros! Toda solidariedade aos moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos! Resistiremos as violências provocados pelo Estado! Resistiremos ao racismo!”

No mesmo espírito, padre Gegê havia saído (“Igreja em saída”, nos termos do Papa Franciso) às ruas das favelas, no domingo, para rezar e denunciar: “Importante dizer que é matança de pobre, é matança de preto, é política do Estado. Não é por acaso, não é do nada. Deus é contra essas mortes, mortes matada ferem a Deus”.

Veja o vídeo:

É com a autoridade de profeta inserido em seu povo e com a profundidade de teólogo e especialista em psicologia junguiana que ele escreveu este artigo instigante sobre as crises pessoais dos padres-cantores Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que denunciam o próprio modelo dos padres pop star, transformados de padres-homens em padres-ídolos.

[Mauro Lopes]

Leia o artigo a seguir:

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