Cartas

Por que escrevo cartas

Cartas têm sempre um destino, um destinatário, um alguém, um outro, outra, são uma metade de diálogo, convite a uma resposta.
Gosto de escrever cartas – e de recebê-las. Escrevo muitas cartas a muita gente, meus amigos e amigas do Caminho, irmãos e irmãs na fé e na caminhada.
Boa parte deste blog, Caminho pra Casa, é composto destas cartas (não todas, algumas pertencem aos que as trocaram entre si, contêm assuntos que devem permanecer em intimidade).
Escrevo cartas eletrônicas em geral, por email ou no Facebook ou em outra mídia, mas gosto especialmente das físicas. Sou um bom usuário dos Correios. Nas cartas físicas sempre pode ir uma foto, uma oração, um cheiro, uma flor recém-colhida, um CD, um pen drive.
Escrevi que gosto de escrever cartas e recebê-las, mas na verdade não é bem assim que sinto e acontece: pois minhas cartas são todas elas de resposta. São cartas de resposta à carta sem fim que Deus escreveu/escreve para mim.
Tudo é uma longa carta que me foi endereçada, a grande carta-mundo das coisas visíveis e invisíveis.
Recebo todos os dias carta-passarinho, carta-chuva, carta-nascer-do-sol, carta-amigo, carta-fraternidade, carta-filhos. Também recebo carta-vento, carta-calor e carta-frio. Carta-alegria e carta-dor. Cartas sem fim.
Agora mesmo enquanto escrevo, em minha casa, há uma carta que chega e proclama: “Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!”. Ouço Deus me dizendo, em sua carta-passarinho, que sou bem visto, bem amado, que sou um filho muito querido seu, e meu dia se enche de sentido, alegria e canto (escrevi originalmente este texto em 2010).
Deus escreveu/escreve suas cartas para toda a humanidade, de todos os tempos. Mas Deus não manda carta-circulares, genéricas. Todas foram escritas para mim! Assim do jeito que sou, frágil, fraco, inseguro, pecador, sou o destinatário de todas as cartas de Deus. Mas, se Deus não é “genérico”, Ele igualmente não é exclusivo, é o Deus-inclusivo, Deus-Amor. O Escritor de Cartas. Cada ser humano, de todos os lugares e épocas, recebe em sua “caixa postal” cartas de Deus escritas só para si. Para cada um, cada uma.
Há uma carta-papel que me foi escrita e hoje é a carta que mais leio e releio. A Bíblia. Carta-Gênesis, carta-Salmos, carta-Evangelhos. Cada dia recebo uma carta, chamada Liturgia da Palavra. Todos os dias me chega uma carta dessas! Busco rezar cada cartinha. E, sem grande sucesso, responder a todas elas.
É assim que leio os Evangelhos, toda a Bíblia. Uma carta escrita para mim. Quando um irmão meu, de quase três mil anos atrás, no salmo 15 (14), canta que habitará na tenda do Senhor o que anda com integridade, pratica a justiça, fala a verdade no coração e não tem a má-fala, é para mim esta carta-canto. Aguço os ouvidos para entender o que devo fazer, qual o convite que esta carta musical me faz. Quando Jesus, em João, me diz que se eu o amo, devo guardar Suas palavras (Jo 14, 22b), entendo que devo me aquietar, ficar quieto, esvaziar-me, deixar-me preencher pela Palavra. É comigo a conversa, com mais ninguém. Não preciso saber se outra pessoa recebeu a mesma carta, o que ele está fazendo, medir minha resposta pela resposta dela. É entre Jesus e eu. Uma conversa íntima. Uma carta pessoal e intransferível.
São Paulo diz em uma de suas Cartas aos Coríntios (uma via delas foi escrita só para mim): “Nossa carta sois vós, carta escrita em vossos corações, reconhecida e lida por todos os homens. Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações” (2 Cor 3,3).
Então é isso que sou, que somos! Cartas-que-andam. Sou uma carta de Cristo a ser lida pelos homens. Todos os homens e mulheres são cartas de Deus, a serem lidas umas pelas outras. E o que é melhor: nestes tempos de pós-modernidade e revolução tecnológica, podemos mesmo ser lidos todos, uns pelos outros. Ainda não todos, mas um dia, quando toda a humanidade estiver conectada, poderemos.
Somos cartas-que-andam, respostas vivas à Carta de Deus. O Pai nos ama tanto que decidiu enviar a nós uma carta encarnada, seu Filho, uma grande Carta. Na verdade, A Carta, uma Carta que nos foi enviada pelo Pai mas que, ao mesmo tempo, envia-se a si mesma, através do Defensor, a cada dia, cada minuto, cada segundo. Na Eucaristia, a Carta torna-se Corpo,  torna-se Pão, torna-se Vida. E nos possibilita a todos, sermos carta-vida.
O Filho veio para nos salvar, para nos amar, como o seu Pai nos ama, e nos ensinar como escrever nossas cartinhas de resposta, em nossa linguagem limitada composta por vogais, consoantes, frases, períodos, linguagem pobre que não consegue expressar a dimensão do Amor, mas, enfim, nossa linguagem humana. Cristo veio para, em nossa língua-nos, dizer, por todos os séculos: é possível! E o Pai e o Filho não se esquecem de nós, nunca.
Depois que o Filho partiu, Ele e o Pai mandaram-nos um Carteiro, o Espírito Santo, que todo o tempo traz-nos as Cartas, ajuda-nos a ler, a escrever nossas respostas, e as leva de volta.
Estou todo o tempo a receber cartas. Longas, breves, bilhetes. Há uma carta que recebo todos os dias. Ela diz apenas (e isso é tudo): “Você é meu filho muito amado”. Desde que me dei conta disso, a vida parece ser destinada a escrever minha carta de resposta a esta declaração de amor sem fim. Deixei de escrever por muito tempo, mas hoje meu coração acorda todos os dias com desejo de “correr até o Correio” e postar minha cartinha, mesmo que seja mal escrita.
Escrever/responder cartas não é ofício exclusivo dos que creem em Deus, no Sagrado, no Eterno, em Tupã, Alá, Brahma, Oxalá, Pacha Mama ou Maki Maki. Aqueles e aquelas que acreditam no amor, na bondade, na compaixão são todos escritores/escritoras e destinatários/destinatárias das cartas que são a tessitura da rede de relações capaz de unir pessoas de todas as geografias e tempos em nosso planeta.