Padres cantores – quando os ídolos caem e quebram

Padres Fábio Melo e Marcelo Rossi: o risco da idolatria

Padre Geraldo Natalino, conhecido como padre Gegê, é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro.

Segundo a ONG Justiça Global, as operações militares que conjugam as tropas do Exército, PM e Polícia Civil, já causaram nos últimos dias sete mortes em Manguinhos e na favela vizinha, Jacarezinho. Em nota veiculada na segunda (21), a entidade afirmou que elas um “revide” após a morte de um policial da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core): “Não podemos admitir que os moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos sejam vítimas de revide, tenham suas casas reviradas, suas escolas fechadas por tempo indeterminado e sejam impedidos de ir e vir. Não podemos mais aceitar que execuções sejam tratadas como ‘balas perdidas’ e não sejam investigadas. Repudiamos o avanço da militarização e todas as políticas a fim de asfixiar territórios negros! Toda solidariedade aos moradores das favelas do Jacarezinho e Manguinhos! Resistiremos as violências provocados pelo Estado! Resistiremos ao racismo!”

No mesmo espírito, padre Gegê havia saído (“Igreja em saída”, nos termos do Papa Franciso) às ruas das favelas, no domingo, para rezar e denunciar: “Importante dizer que é matança de pobre, é matança de preto, é política do Estado. Não é por acaso, não é do nada. Deus é contra essas mortes, mortes matada ferem a Deus”.

Veja o vídeo:

É com a autoridade de profeta inserido em seu povo e com a profundidade de teólogo e especialista em psicologia junguiana que ele escreveu este artigo instigante sobre as crises pessoais dos padres-cantores Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que denunciam o próprio modelo dos padres pop star, transformados de padres-homens em padres-ídolos.

[Mauro Lopes]

Leia o artigo a seguir:

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Guerras de religião? É a liberdade que é perseguida

Coroação de Espinhos, 1622-3, Dirck van Baburen (1595-1624)

Alberto Maggi é um biblista italiano excepcional. Ele bebe da mesma fonte da teologia latino-americana, especialmente da Teologia da Libertação: a busca incessante da originalidade da mensagem de Jesus. É sacerdote, religioso da Ordem dos Servos de Maria e diretor do Centro de Estudos Bíblicos G. Vannucci, localizado na minúscula aldeia de Montefano, na região do Marche, na Itália, de pouco mais de 3 mil habitantes.

Os padres Júlio Lancelotti e Francisco Cornélio são dois dos mais entusiasmados divulgadores de sua obra, no Brasil. Há três de seus livros editados no país: A loucura de Deus – O Cristo de João (Paulus, 2015), Nossa Senhora dos Heréticos (Paulinas, 1991) e Jesus e Belzebu, Satanás e Demônios (Santuário, 2003).

No artigo a seguir, Maggi escreve sobre a perseguição aos seguidores de Jesus: “Para o cristão, se ele for fiel ao Senhor e à sua mensagem, a perseguição, em suas mais variadas formas, abertas ou mascaradas, veladas ou evidentes, está sempre presente”. A razão é meridiana: “O mundo corteja e recompensa aqueles que não o incomodam, mas desencadeia toda sua ferocidade contra aqueles que, com sua própria existência são uma clara denúncia da injustiça do sistema”.

O biblista italiano indica que Jesus libertou a pessoa do cabresto da religião institucional: “Jesus, emancipando o homem da religião, das leis e das prescrições que regulavam a relação com a divindade – quer dizer, de tudo o que o crente era obrigado a fazer para agradar a seu deus – tem favorecido o desenvolvimento e o crescimento da pessoa. A maturidade, de fato, só acontece na afirmação crescente da própria liberdade de pensamento e autonomia de movimento sem ter que ser sujeito a restrições religiosas.” Por isso, as elites das religiões institucionais no âmbito do cristianismo têm perseguido sistematicamente as pessoas que desejam seguir os passos do Mestre, apropriando-se da liberdade que Jesus estimulou: “Essa liberdade é intolerável pela religião, que, para existir, deve dominar as pessoas, torná-las submissas e infantis, sempre necessitadas de uma autoridade superior que decida o quê e como fazê-lo.”

[Mauro Lopes]

Leia a íntegra do artigo abaixo (ou o original em italiano clicando aqui):

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Mensagem do Papa para o Dia do Migrante e do Refugiado: acolher, proteger, promover e integrar

O Vaticano divulgou nesta segunda (21) a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, a ser celebrado em 14 de janeiro de 2018. São quatro dimensões temáticas da celebração: os verbos acolher, proteger, promover e integrar. Grupos conservadores imediatamente levantaram-se contra a mensagem papal. O texto, belo e assertivo, busca apresentar de maneira resumida as posturas que se esperam dos governos e dos povos no acolhimento aos que chegam expulsos de seus países de origem, num triste “sinal dos tempos” do novo século. Francisco deseja que os países atuem com generosidade e priorizem a segurança pessoal dos refugiados à nacional -no final, a íntegra da mensagem.

Acolher – segundo o Papa, esta dimensão significa “oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino” com medidas concretas como a concessão rápida de vistos humanitários que garantam “a reunificação familiar” ou a abertura de corredores humanitários “para os refugiados mais vulneráveis”.

Proteger – Francisco enumerou uma série de ações de proteção que devem ser estimuladas: assistência consular adequada, “direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal”, acesso equitativo à justiça, “a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima”. Na dimensão da proteção, o Papa ressaltou o direito dos refugiados ao trabalho, ao “acesso aos meios de telecomunicação”, a liberdade de movimento no país de destino e uma série de ações em defesa das crianças.

Promover – para o Papa, é preciso garantir aos migrantes e refugiados a liberdade religiosa e a liberdade de exercício profissional, com a facilitação das certificações obtidas nos países de origem. Um tema-chave para Francisco na esfera da promoção é a promoção da “reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos”. Atenção e apoio mais dedicados devem ser reservados aos refugiados e migrantes portadores de deficiência.

Integrar – nesta dimensão, uma das formulações mais avançadas do Papa, para quem a integração dos refugiados e migrantes às sociedades que os acolhem não pode ser confundida com assimilação. “Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural”, escreveu.

Poucas horas depois da divulgação do texto, as vozes conservadora já começaram a acusar o Papa. Um dos arautos do conservadorismo, o vaticanista italiano Marco Tosatti, logo acusou Francisco de ser contra a “a Europa e o Ocidente” –se quiser leia a íntegra do artigo no blog Stilum Curiae. A lógica do texto é a que impera na lógica conservadora, levada ao limite com Trump: os migrantes e refugiados são inimigos disfarçados de “coitadinhos”. Tosatti, num texto carregado de acusações e ironias, afirmou que o Papa indica “soluções ótimas e desejáveis ​​em um mundo idílico e utópico”. O Ocidente está em guerra, é o subtexto do artigo de Tosatti. Por isso, falar em integração e acolhimento é equivalente a traição. Para o colunista, o escândalo com a mensagem do Papa é ainda maior pelo fato de ela ser divulgada logo depois dos atentados de Barcelona e Turku (Finlândia). Para os conservadores, é tempo de Guerra Santa, e este Francisco, como o primeiro, insiste em falar de paz –eles odeiam o Francisco atual como odiaram o primeiro, e depois tentaram assimilá-lo e domesticá-lo.

[Mauro Lopes]

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Carta de um jovem católico: da Renovação Carismática à descoberta da Teologia da Libertação

Jovens participam de uma romaria durante o I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora

Dener Ricardo tem apenas 25 anos. Escreveu-me uma carta em tom pessoal, um relato pungente de sua trajetória na Igreja, da Renovação Carismática Católica e a rotina de adorações até a adesão à tradição da trajetória da Igreja latino-americana, à Teologia da Libertação –e à liderança do Papa Francisco.

No final do texto, uma convocação, um questionamento: “Vamos aspirar a uma Igreja simples, profética, que denuncia as injustiças contra os pobres e não se alia aos poderosos desta terra.”

Um jovem que torna verdade a profecia de Isaías no Segundo Canto do Servo Sofredor: “De minha boca fez uma espada cortante, abrigou-me na sombra da sua mão; fez de mim uma seta afiada, escondeu-me na sua aljava.” (Is 49, 2)

Uma carta-provocação, às vésperas do II Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que acontecerá entre 7 e 10 de setembro em Poá (SP).

Os ouvidos da Igreja estão se abrindo para a voz dos jovens que desejam o retorno à originalidade das primeiras comunidades cristãs? Os olhos da Igreja estão se abrindo para a luz que carregam os jovens? Já passa da hora.

[Mauro Lopes]

A íntegra da carta de Dener:

“Sou de São José do Rio Preto (SP), tenho 25 anos. Minha família sempre foi católica, mas, antes dos meus 14 anos, eu não praticava muito a religião: ia à Missa, fazia algumas poucas orações e só. Muito pouco me importava a dimensão comunitária da fé. Aos 15 anos me apresentaram a Renovação Carismática Católica (RCC). Adotei este tipo de espiritualidade com muito entusiasmo: participava ativamente dos grupos de orações e eventos da RCC. Tinha um apreço muito grande pela Canção Nova e outras emissoras de TV deste segmento. Durante três anos, a minha espiritualidade foi moldada neste contexto…até que algo começou a mudar.

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Juiz manda soltar policiais do massacre de Pau D’Arco

Para os trabalhadores ruais, massacre; para os policiais, liberdade para matar. Foto de alguns dos assassinados em Pau D’Arco

Uma decisão insólita causa terror entre os trabalhadores rurais da região de Redenção, no Pará: um juiz substituto determinou ontem (8) a soltura imediata dos 13 policias do massacre de Pau D’Arco. Em 24 de maio, na Fazenda Santa Lúcia, dez trabalhadores rurais foram torturados e mortos a tiros por uma tropa de policiais civis e militares. Não bastaram as ameaças dos policiais a testemunhas e familiares dos mortos; não bastou o assassinato de Rosenildo Pereira de Almeida, outro líder da ocupação, 40 dias depois do massacre. Para o Judiciário, os policiais podem circular livremente e vociferar ameaças.

Um juiz substituto da Vara Criminal de Redenção, Jun Kubota, decidiu soltar todos, três dias antes de vencer o prazo da prisão temporária determinada pelo juiz titular, Haroldo Fonseca, que havia saído em férias. O Ministério Público solicitou a prorrogação da prisão, mas o juiz substituto ignorou. A medida tinha como objetivo assegurar  investigações minimamente livres de interferência e resguardar os familiares dos mortos, assim como líderes dos movimentos sociais na região. Estão todos novamente à mercê da violência sem freio. Em nota conjunta, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos, a Justiça Global e a Terra de Direitos informaram que irão pedir a federalização do caso à Procuradoria Geral da República: “A impunidade que prevaleceu em relação aos acusados do Massacre de Eldorado dos Carajás não poderá se repetir no caso do Massacre de Pau D’Arco. O caminho para um processo isento pode ser a federalização do caso, o colocando a cargo da Justiça Federal, que certamente não dará um andamento com decisões como a de ontem, que colocam vidas de familiares, testemunhas e demais pessoas envolvidas no processo em risco.”

A liberação dos acusados se torna ainda mais estranha por ter ido em uma direção completamente oposta da tomada pelo juiz titular da vara, Haroldo Fonseca; Kubota assumiu o caso por causa das férias dele. O promotor Leonardo Jorge Lima Caldas lamentou a decisão e deixou claro que ela afetará as investigações. “Temos diversas testemunhas que apenas falaram após a prisão temporária. As investigações caminharam muito após isso. A soltura dos acusados certamente afetará o nosso trabalho”, afirmou o promotor, um dos três que cuidam da investigação.

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O grito dos franciscanos e franciscanas do Brasil: “dirão que é comunismo, mas é Evangelho”

Franciscanos e franciscana no Capítulo Nacional das Esteiras, em Aparecida

Um encontro histórico dos franciscanos e franciscanas de todo o Brasil proclamou em carta aprovada por unanimidade neste domingo (6) a adesão incondicional ao papado de Francisco e definiu como missão: “participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas”. Trata-se de uma citação de um dos momentos mais conhecidos e cruciais da trajetória de São Francisco que, em 1205, na abandonada igreja de São Damião, em Assis, ao contemplar um crucifixo ouviu o que lhe parece uma mensagem direta: “Não vês como está a minha Igreja? Está em ruínas. Vai, e reconstrói a minha Igreja”. O mantra do encontro, repetido por quase todos os palestrantes e nas homilias durante as missas foi: voltar a Assis –retomar o espírito original de São Francisco.

Mais de mil franciscanos e franciscanas estiveram presentes à  Conferência da Família Franciscana do Brasil, que se reuniu desde a quinta-feira (3) em Aparecida (SP). O “sabor de Francisco” convergiu com o reencontro dos parâmetros fundamentais da Teologia da Libertação latino-americana e, em sua carta, os franciscanos afirmaram em espírito de oração: “’Óh Mãe preta, óh Mariama, Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!’, ainda assim, invocamos suas bênçãos sobre toda a nossa família e sobre um Brasil sedento de Paz – fruto da justiça, do bem e da Misericórdia de Deus” –a frase é inspirada na “invocação a Mariama”, de dom Hélder Câmara. Leia a íntegra da Carta de Aparecida ao final.

Um dos trechos da carta é todo vazado a partir da melhor tradição da teologia latino-americana, severamente reprimida durante os 35 anos da restauração conservadora sob João Paulo II e Bento XVI: “A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio.  Assistimos, tomados de ira sagrada, à violação dos direitos conquistados, através de muitos esforços, empenhos e articulação pelo povo brasileiro. Por isso, não podemos deixar de nos empenhar junto aos movimentos sociais na luta ‘por nenhum direito a menos’, contra golpes, reformas retrógadas e abusivas conduzidas por um governo ilegítimo, um parlamento divorciado dos interesses da população e  uma justiça que tem se revelado fora dos parâmetros da equidade que no lugar de fortalecer o papel do Estado para atender às necessidade e os direitos do mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital”.

Foram quatro dias marcados pela emoção e o compromisso, com representantes dos mais de 20 mil religiosos da Primeira Ordem (Frades Menores, Frades Menores Capuchinhos, Frades Menores Conventuais), da Segunda Ordem (Irmãs Clarissas), da Ordem Franciscana Secular (leigos), da Juventude Franciscana (leigos), da Terceira Ordem Regular (TOR), das Congregações e Movimentos simpatizantes de Francisco e Clara de Assis presentes no Brasil -se você quiser ler uma cobertura detalhada do encontro pode clica no site da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (aqui).

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Um bispo negro toma a frente e proclama: a homossexualidade é um dom de Deus

Dom Antônio Carlos Cruz Santos, bispo de Caicó (RN): retomando o profetismo dos bispos brasileiros

Um bispo negro, no sertão do Nordeste, com uma trajetória entre os pobres do Rio, Minas e São Paulo, nomeado em 2014 pelo Papa Francisco, chacoalhou a Igreja Católica, abriu os portões de ferro da falsidade e do preconceito e proclamou, profeticamente: a homossexualidade é um dom de Deus. Foi dom Antônio Carlos Cruz Santos, religioso da congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, bispo de Caicó, no sertão do Rio Grande do Norte. Ele afirmou que o preconceito contra os homossexuais está em linha direta com o preconceito contra os negros e a escravidão e acusou os conservadores católicos de falta de misericórdia.

Numa homilia no 17º Domingo do Tempo Comum (30 de julho), ainda no contexto da festa de Sant’Ana (mãe de Maria), comemorada em 26 de julho, ele abordou o tema da homossexualidade a partir de um olhar profundamente cristão: “Pensemos, por exemplo: na perspectiva da fé, quando a gente olha para a homossexualidade a gente não pode dizer que é opção. Pois opção é alguma coisa que livremente você escolhe; e orientação ninguém escolhe – um dia a pessoa descobre com esta ou aquela orientação. Escolha será a maneira como você vai viver a sua orientação, se de uma forma digna ética ou de uma forma promíscua; mas promiscuidade pode-se viver em qualquer uma das orientações que se tem. Então, já que não é escolha, já que não há opção, já que a Organização Mundial da Saúde desde a década de 90 não considera mais como doença, na perspectiva da fé nós só temos uma resposta: se não há escolha e não é doença, na perspectiva da fé só pode ser um dom. É dado por Deus. Mas talvez os nossos preconceitos não consigam o dom de Deus.”

Veja homilia de dom Antônio Carlos. No final, ela está transcrita integralmente:

Dom Antônio Carlos tem uma trajetória que o liga à trajetória mais original da Igreja no Brasil, aquela que formou uma geração de bispos-profetas como Dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, com Pedro Casaldáliga e tantos outros. Sua nomeação pelo Papa Francisco para bispo de Caicó foi uma surpresa. Ele havia sido vigário em paróquias inseridas em regiões pobres, como  a Cidade de Deus, no Rio, Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e Contagem, em Minas Gerais.  Era um padre “com cheiro de ovelhas”, na definição do Papa Francisco para a escolha dos bispos de seu pontificado.

Em sua homilia, ele estabeleceu uma linha direta entre o preconceito aos homossexuais e aos negros: “Assim como o preconceito com o negro; não se percebia que o negro era gente; dizia-se que o negro não tinha alma”. A negação da humanidades das pessoas homoafetivas está no mesmo lugar da negação da humanidade aos negros durante a escravidão –e que perdura em segmentos da sociedade até hoje. O que propôs dom Antônio Carlos: “assim como fomos capazes de dar um salto na sabedoria do Evangelho e vencer a escravidão, não estaria na hora de a gente dar um salto na perspectiva da fé e superar preconceitos contra os nossos irmãos homoafetivos?”

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Pastorais da CNBB retomam Medellín, ouvem Boulos e dizem que governo favorece capital financeiro

Bispos participantes do encontro das pastorais sociais da CNBB

Num encontro histórico, mais de 20 bispos e 30 padres, freiras, leigos e leigas, referenciais e coordenadores das pastorais sociais da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), estão juntos desde a noite de terça-feira (1) e até a sexta (4) para algo inimaginável durante os papados de João Paulo II e Bento XVI: explicitamente retomar e atualizar os ensinamentos da Conferência de Medellín (1968), que marcou a adesão da Igreja na América Latina aos eixos da então nascente Teologia da Libertação e foi condenada pelo Vaticano durante os anos de restauração conservadora. Num documento aprovado no segundo dia do encontro, os participantes afirmaram que o governo Temer “favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada”. Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), foi convidado e foi o responsável pelo debate sobre a conjuntura nacional –o convite é igualmente emblemático da virada na Igreja brasileira. Para dom Guilherme Werlang, bispo de Ipameri (GO) e presidente da comissão das pastorais sociais, “precisamos retomar o caminho dos bispos proféticos de Medellín”. Ele disse que com o Papa Francisco, as pastorais sociais, “que nunca abandonaram o caminho”, “ganharam um advogado sem precedentes”.

Dom Werlang, afirmou ao Caminho pra Casa na manhã desta quinta (3), num intervalo da reunião, a razão de a Conferência dos bispos latino-americanos em Medellín estar no centro da reflexão das pastorais sociais: “Medellín foi resultado da preocupação dos bispos latino-americanos de aplicar os ensinamentos do Concílio Vaticano II na região, eu vivia uma situação tão injusta como a de hoje. Estamos de novo sob o controle do império do capital financeiro e precisamos beber nas fontes, e as fontes da ação da Igreja no mundo contemporâneo dão o Concílio e Medellín. Precisamos retomar o caminho dos bispos proféticos de Medellín”. Para o bispo, a presença do Papa Francisco é fundamental para animar o novo momento da Igreja e restabelecer o fio histórico na América Latina: “O Papa Francisco é um força impressionante, um apoio e uma confirmação, ele é o resultado dessa caminhada que as pastorais nunca deixaram de fazer, pois elas nunca abandonaram o caminho”. Segundo dom Werlang, as pastorais sócias em todo o mundo “ganharam um advogado sem precedentes”.

A presença do coordenador nacional do MTST no encontro foi ressaltada por dom Guilherme Werlang: “Boulos é um novo pensador das causa sociais, muito sagaz. Ficamos encantados com sua profundidade e olhar para as lutas do povo”.

“Há hoje uma enorme identidade entre a ação territorial das pastorais sociais da CNBB e o MTST” afirmou Boulos ao, para quem “temos uma oportunidade ímpar para o campo da ação social e progressista da Igreja no Brasil”.  Para o líder do MTST, que falou ao Caminho Pra Casa também na manhã desta quinta (3), “a postura do Papa Francisco constrói um clima interno que conecta a Igreja com os movimentos sociais, em sentido oposto ao que aconteceu com os dois últimos papas, especialmente João Paulo II”. Ele disse que há uma ação conjunta importante do MTST em São Paulo com o IPDM (Igreja – Povo de Deus em Movimento), organização católica da zona leste da cidade: “a parceria com o IPDM permite a construção de frentes de ação organizadas da Frente Povo Sem Medo nos bairros e periferias, com a construção de um novo eixo de ação popular”. Ele contou com o debate com os bispos e líderes das pastorais sociais (na quarta, 2), foi “muito qualificado, numa dinâmica de olhar para o país a partir do compromisso com as transformações”.

O final da nota dos bispos, aprovada também pelos coordenadores/coordenadoras das pastorais sociais retoma uma perspectiva teológica cara à Teologia da Libertação, que revela a relação íntima de Jesus com sua ação libertadora e humanizadora: “Que Nossa Senhora Aparecida, a quem expressamos nosso louvor especial neste Ano Mariano, nos inspire a revelar o rosto misericordioso de Deus, defensor da justiça em favor dos empobrecidos, sendo sinais e instrumentos da ação libertadora e humanizadora de Cristo, frente às novas formas de escravidão dos tempos atuais”. Para os bispos e líderes das pastorais sociais, “clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social.”

O padre Oscar Beozzo, um dos mais relevantes protagonistas e historiadores da Igreja no Brasil e América Latina, foi responsável por uma longa apresentação seguida de conversa sob o título: “Conjuntura eclesial: Medellín e os desafios pastorais atuais”.  Ele explicou que “o objetivo do encontro foi retomar o significado de Medellín à luz do que está acontecendo agora. Se olharmos para esse importante território que de estende do México até a Argentina, é impressionante como Medellín está incrivelmente atual, do ponto de vista da justiça, da paz e da Igreja em toda a região”.

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