O Papa errou no caso dos abusos no Chile; volta a errar ao falar de família

Tenho tanta identidade, carinho e admiração pelo Papa Francisco que nossa relação não pode ter outro caminho que não seja o da sinceridade. Nunca estive com Bergoglio, nem ele nunca ouviu falar de mim. Mas há um laço profundo que nos une. Por isso, volto a escrever, com o coração partido, como o fiz em janeiro último: Francisco errou. [O que escrevi em janeiro está aqui e aqui]:

Errou em janeiro em sua visita ao Chile, quando esteve ao lado da apodrecida hierarquia da Igreja chilena que, modelada por João Paulo II, foi servil a Pinochet e encobriu por décadas os padres criminosos, abusadores de crianças.  Francisco errou e teve a grandeza de reconhecer seu erro e, com isso, cresceu em estima e admiração em todo o mundo.

No mesmo espírito, volto a escrever. O Papa errou mais uma vez. Ao fazer um discurso (improvisado, o que serve como atenuante) para o Fórum Italiano das Associações familiares, em 16 de junho, Francisco apresentou uma definição de família que em nada fica a dever ao pensamento conservador mais atrasado no catolicismo em particular e no cristianismo em geral. Uma definição que des-humaniza o sentido da família. O que disse o Papa:

“Hoje — dói dizê-lo — fala-se de famílias ‘diversificadas’: diferentes tipos de família. Sim, é verdade que o termo ‘família’ é uma palavra analógica, porque se fala da ‘família’ das estrelas, das ‘famílias’ das árvores, das ‘famílias’ dos animais… é uma palavra analógica. Mas a família humana como imagem de Deus, homem e mulher, é uma só. Única.” [aqui a íntegra do discurso]

As palavras do Papa feriram profundamente milhões e milhões de pessoas que em todo o planeta integram famílias que fogem do padrão “homem e mulher”. A frase é terrível, porque, como fazem os fundamentalistas, atribui tal conformação familiar a uma projeção exata da “imagem de Deus”, como se o Eterno pudesse ser reduzido a uma dimensão particular, momentânea e parcial do fenômeno humano.

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Frei Betto: ao contrário do que dizem, Igreja já admitiu o aborto

A campanha das mulheres argentinas a favor da legalização do aborto

Uma das maiores referências da Igreja brasileira e latino-americana, o frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, Frei Betto, escreve sobre o aborto de maneira aberta e sensível e desmonta o universo de mentiras, preconceito e desumanização ao redor do tema.

Ele explica que, ao contrário do que afirmam os católicos conservadores, “a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez”.

Ele desmascara a falsidade que se esconde na campanha agressiva da direita política e religiosa contra o direito ao aborto: “Por que alguns se opõem de maneira tão violenta ao debate sobre a descriminalização do aborto? Não se trata dos mesmos setores que proíbem a educação sexual nas escolas, defendem a ‘escola sem partido’ e a pena capital, e aplaudem a eliminação sumária de supostos bandidos e traficantes? Ora, para tais setores, a descriminalização do aborto poderia trazer à tona o que se passa entre executivos e secretárias, entre patrões e empregadas, além do risco de ter que dividir a herança com o filho bastardo. A morte clandestina no ventre elimina qualquer risco à propriedade e à imagem pública do proprietário. Para este, aliás, não há ilegalidade nesta matéria. Basta embarcar a gestante para um país que não criminaliza o aborto, e tudo estará resolvido de acordo com a lei”.

Sua proposta é uma abordagem humanizada sobre o assunto, que considere com equilíbrio os direitos da mulher e do embrião:

Enxergar com generosidade que “o feto é uma espécie de subproletário biológico. Tão reduzido à sua impotência, que não tem como protestar ou rebelar-se”.  

E, ao mesmo tempo, um olhar humanizado à mulher: “É a defesa do sagrado dom da vida que levanta a pergunta se é lícito manter o aborto à margem da lei, pondo em risco também a vida de inúmeras mulheres pobres que, na falta de recursos, tentam provocá-lo com chás, venenos, agulhas ou a ajuda de curiosas, em precárias condições higiênicas e terapêuticas”.

A legalização do aborto deve ser vista num contexto social de solidariedade no qual “deve-se assegurar o direito à vida do embrião e amparo moral, psicológico e econômico à gestante, bem como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário”.

(Mauro Lopes)

Por Frei Betto

Ao contrário do psicanalista ou da psicóloga que se depara com o drama de mulheres que abortaram, como religioso tenho sido solicitado por aquelas que, diante de uma gravidez indesejada, sofrem a atroz angústia da dúvida. E raramente elas chegam acompanhadas por seus parceiros – o que não deixa de ser um preocupante sintoma.
É espantoso que, às portas do século XXI, haja questões tão sérias, como o aborto, que ainda são consideradas tabus indiscutíveis. O capitalismo erotiza a cultura, através da reificação das relações humanas subjugadas aos imperativos do consumo, e por isso mesmo mantém a censura em torno do tema da sexualidade.
Para o sistema, que depende da exacerbação do imaginário coletivo, só é real o que não é racional. Seria inquietante se, por exemplo, os movimentos feministas começassem a questionar o uso da mulher na publicidade. Pelo mesmo motivo, impede-se que nas escolas se trate de questões de gênero e de educação sexual (quando muito, há aulas de higiene corporal para se evitar doenças sexualmente transmissíveis).
Devo acrescentar que lamento as dificuldades que a Igreja impõe à discussão em torno do aborto. Se a Teologia é o esforço de apreensão racional das verdades de fé, o teólogo tem, por dever de ofício, de se manter aberto a todos os temas que dizem respeito à condição humana, mormente quando encerram implicações morais. Aquilo sobre o qual ninguém fala ou escreve, não existe – diz um personagem de Érico Veríssimo em Incidente em Antares.
Por isso mesmo, as instituições autoritárias preferem cobrir de silêncio questões polêmicas que refletem incomensuráveis dramas humanos. A própria Constituinte evitou o tema, preferindo adiá-lo para as leis complementares. Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização e sou plenamente a favor da mais ampla discussão sobre o assunto, pois se trata de um problema real, grave, que afeta a vida de milhares de pessoas. Desconfio, entretanto, que há algo de verdade neste provérbio feminista: Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento.

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Padre Paulo Bezerra: nome de Francisco não é mencionado nas missas em muitas paróquias

Padre Paulo Sérgio Bezerra é um dos mais expressivos líderes da Igreja Católica alinhada com o Papa Francisco no Brasil e, por isso, perseguido cotidianamente pelos católicos conservadores. Ele denuncia o boicote ao Papa no interior da Igreja: “[Francisco] nem é citado na oração eucarística. Há paróquias aqui que quando fala lembremos do Papa, não fala nem o nome dele”. Bezerra é padre desde 1980, há 34 anos está na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de São Miguel Paulista, em Itaquera, bairro pobre da zona leste da cidade.

Para ele, os seminários formam cada vez mais padres carreiristas e sua estrutura “leva à rejeição da Igreja de Francisco”. É a segunda entrevista de padre Paulo Bezerra que Caminho Pra Casa publica -a primeira foi em janeiro de 2017: “Padre Paulo: papados conservadores ‘destruíram Igreja inserida na vida dos pobres’ no Brasil e AL”.

Desta vez, quem fez a entrevista foi outro padre, Luis Miguel Modino, jornalista e pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) e que terá um papel importante na divulgação e reflexão sobre o Sínodo da Amazônia, que acontecerá em 2019.

(Mauro Lopes)

Por padre Luis Miguel Modino

Um padre da periferia, da Teologia da lLbertação, da opção pelos pobres. Esse é Paulo Sergio Bezerra, alguém que, depois de 36 anos em Itaquera, na zona leste de São Paulo, tem se tornado uma referência para muitos. Chegou lá seguindo os passos de dom Angélico Bernardino, um bispo que, mesmo emérito, nunca perdeu sua voz e seu testemunho profético.

Nesta entrevista, o Padre Paulo, reflete sobre a realidade social e eclesial no Brasil atual e sobre as mudanças que têm acontecido desde que 38 anos atrás foi ordenado padre. Define os padres novos e seminaristas dizendo que “buscam a carreira”, clericais, interessados mais nos objetos religiosos do que nos livros, criticando também os institutos de teologia, onde “alguns professores são explicitamente contrários ao que o Papa fala”. Nesse sentido ele afirma que “com Francisco, veio, em primeiro lugar, uma certeza de que estávamos e estamos no rumo certo. Em segundo lugar, temos uma força maior que nos ajuda a enfrentar tudo aquilo que vem como repressão, ou incompreensão”.

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O Papa e seu afeto por Lula – a Igreja do Brasil e a mídia conservadora

Em espanhol, a mensagem manuscrita do Papa diz: “A Luiz Inácio Lula da Silva com a minha bênção, pedindo-lhe para orar por mim, Francisco”.

O Papa repete seu gesto de preocupação e afeto por Lula, maior líder político católico da história brasileira; mas a CNBB e a mídia conservadora ignoram. Esta, porque é a porta-voz dos ricos que odeiam Lula; aquela, por covardia

Por Mauro Lopes

Nem o serviço brasileiro do Vaticano (Vatican News) nem o site da CNBB registraram a visita de Celso Amorim ao Papa, o fato de ele ter recebido o livro de Lula e as declarações de Francisco, preocupado Lula e com o que chamou de “golpes de luvas brancas” na América Latina.
Por sinal, até agora, o Papa fez dois gestos concretos na direção de Lula: mandou-lhe um terço e uma mensagem pessoal através de Juan Grabois e agora recebeu Celso Amorim e manifestou sua preocupação.
O Vatican News, controlado pelos conservadores, mentiu escandalosamente no primeiro episódio e ficou quieto no segundo.
E a Igreja brasileira? Nenhuma delegação da CNBB ou bispo visitaram Lula, que é declaradamente católico -o maior líder político católico da história brasileira.

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