Nas missas, proclama-se a divisão do pão e do peixe; mas a Igreja escuta cada vez menos

Foto de João Zinclar

A mais explícita indicação da consequência do amor proclamado por Jesus é repetida por seis vezes nos Evangelhos: a  partilha do pão e do peixe. Isso não acontece com nada mais nos textos de Mateus, Marcos, Lucas e João. As primeiras comunidades cristãs assumiram essa mensagem e praticaram um tipo de comunismo primitivo. Uma dessas  narrativas foi proclamada nas missas deste domingo (29); mas a Igreja quase não escuta mais

Por Mauro Lopes

Não há nada parecido nos Evangelhos: apenas a passagem da divisão dos pães e dos peixes é narrada seis vezes, sendo duas vezes em Mateus e Marcos. Neste 17º Domingo do Tempo Comum, ouviu-se nas missas na Igreja Católica e de algumas outras denominações o mais longo dos relatos, do Evangelho de João (leia ao final ou aqui).

É a expressão mais concretizada da mensagem central de Jesus: o amor só se realiza na partilha, no movimento que realizamos na direção do outro, da outra. Não há cristianismo quando vige a insensibilidade diante da miséria e da fome, das doenças que as acompanham, da opressão e humilhação dos mais pobres.

As primeira comunidades cristãs entenderam isso de maneira radical (indo à raiz) e, no relato dos primeiros dias, os Atos dos Apóstolos, por duas vezes está descrito como a mensagem de Jesus foi entendida, numa espécie de comunismo primitivo:

“Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (Atos 2, 44-45)

“A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade.” (Atos 4, 32-35)

Este comunismo primitivo foi brilhantemente anotado num pequeno livro de Rosa Luxemburgo, de 1905: O socialismo e as igrejas – o comunismo dos primeiros cristãos (Rio de Janeiro, Dois Pontos, 1986).

Com o tempo e a institucionalização da Igreja, esta mensagem radical foi se diluindo, perdendo-se nos escaninhos da burocracia eclesial e na mentalidade das paróquias, seduzidas pela lógica da acumulação e não da divisão. Houve momentos de renascimento da ideia de Jesus, como o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação e, agora, a presença do Papa Francisco.

Mas o fato é que na hierarquia católica e de outros ramos do cristianismo o centro da preocupação é com dinheiro, ouro, poder prestígio, numa lógica que se espalhou, cúmplice às bases das igrejas-instituições.

É o que vemos hoje. As palavras dos Evangelhos são proclamadas nos altares, nos púlpitos. Mas não são escutadas.

Como reafirmou o grande teólogo José Maria Castillo dias atrás, “o Evangelho não é uma religião e, portanto, o cristianismo tampouco. É um projeto de vida.”

Um projeto de vida que exige conversão, mudança, radicalidade. A religião ainda proclama a Palavra. Mas, num pacto assumido implicitamente, as pessoas ignoram-na solenemente, e voltam para suas casas contentes de si próprias.

Evangelho – Jo 6,1-15

1 Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de  Tiberíades.

2 Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes.

3 Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com os seus discípulos.

4 Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.

5 Levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: ‘Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?’

6 Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer.

7 Filipe respondeu: ‘Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um’.

8 Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, disse: 9 ‘Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?’

10 Jesus disse: ‘Fazei sentar as pessoas’.

Havia muita relva naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens.

11 Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam.

E fez o mesmo com os peixes.

12 Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: ‘Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!’

13 Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido.

14 Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: ‘Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo’.

15 Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.

4 respostas para “Nas missas, proclama-se a divisão do pão e do peixe; mas a Igreja escuta cada vez menos”

  1. A caravana do semi árido contra a volta da fome é como o menino que, tendo nas mãos e oferecendo os 5 pães e dois peixes, evidência a abundância de bens mau distribuídos no Brasil.

  2. A espiritualizao da eucaristia, numa formalização da liturgia, arrancou de nós a dimensão da eucaristia como banquete , como partilha de vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *