Corpus Christi: de uma “festa de guerra” ao encontro com o outro

A solenidade de Corpus Christi, criada no auge da cristandade para afirmar um catolicismo hegemônico com “espírito de guerra”, serviu ao desenvolvimento de uma religião na qual imagina-se comungar com Cristo no íntimo do coração, num rito ensimesmado,  sem preocupação com os que sofrem. Partilha-se o pão da eucaristia ignorando a fome de milhões de irmãos privados de pão, de justiça e de futuro. No Vaticano II, buscou-se reformar este espirito, aproximando a solenidade do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, de divindade.

Por Mauro Lopes, com texto de José Antonio Pagola | Ilustração: Guy Veloso,  da série “Penitentes”, Belém, Pará, Brasil (2006), tomado de Matersol  

A solenidade de Corpus Christi (Corpo de Cristo) celebrada hoje (31) foi estabelecida no século XII, auge da cristandade, como uma “festa de guerra”, animada por um espirito apologético. A dinâmica de sua criação foi a da afirmação da hegemonia da Igreja Católica, numa lógica ensimesmada que buscava fazer da missa o centro da vida do católico e do rito da comunhão um privilégio que conduzia ao ensimesmamento.

No Concílio Vaticano II foi reformada, tornou-se a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Apesar de os conservadores buscarem manter este caráter de uma “festa de guerra”, ela é hoje, depois do Vaticano II, uma celebração do centro da mensagem de Jesus Cristo: a doação de si para o outro, na convicção de que apenas a relação com o outro nos torna capazes de humanidade -e, portanto, divindade.

Leia a seguir um breve texto do teólogo espanhol José Antonio Pagola sobre o texto proposto para a celebração do Corpus Christi (Mc 14,12-16.22-26), cujo texto está aqui:

Todos os cristãos o sabem. A eucaristia dominical pode-se converter facilmente num “refúgio religioso” que nos protege da vida conflituosa em que nos movemos ao longo da semana. É tentador ir à missa para partilhar uma experiência religiosa que nos permite descansar dos problemas, tensões e más notícias que nos pressionam por todos os lados. Por vezes somos sensíveis ao que afeta a dignidade da celebração, mas preocupa-nos menos esquecer-nos das exigências do que significa celebrar a ceia do Senhor. Incomoda-nos que um sacerdote não siga estritamente a normativa ritual, mas podemos continuar a celebrar rotineiramente a missa sem escutar as chamadas do Evangelho.

O risco é sempre o mesmo: comungar com Cristo no íntimo do coração, sem nos preocupar de comungar com os irmãos que sofrem. Partilhar o pão da eucaristia e ignorar a fome de milhões de irmãos privados de pão, de justiça e de futuro.

Nos próximos anos vão-se agravar os efeitos da crise muito mais do que nós temíamos. A cascata de medidas que nos ditam de forma inapelável e implacável irá fazer crescer entre nós uma desigualdade injusta. Iremos ver como pessoas próximas de nós vão empobrecendo até ficar à mercê de um futuro incerto e imprevisível.

Conheceremos de perto imigrantes privados de assistência sanitária, doentes sem saber como resolver os seus problemas de saúde ou de medicamentos, famílias obrigadas a viver da caridade, pessoas ameaçadas pelo despejo, gente sem assistência, jovens sem um futuro nada claro… Não o poderemos evitar. Ou endurecemos os nossos hábitos egoístas de sempre ou nos fazemos mais solidários.

A celebração da eucaristia no meio desta sociedade em crise pode ser um lugar de consciencialização. Necessitamos nos libertar de uma cultura individualista que nos habituou a viver pensando só nos nossos próprios interesses, para aprender simplesmente a ser mais humanos. Toda a eucaristia está orientada a criar fraternidade.

Não é normal escutar todos os domingos ao longo do ano o Evangelho de Jesus sem reagir ante as Suas chamadas. Não podemos pedir ao Pai “o pão nosso de cada dia” sem pensar naqueles que têm dificuldades para obtê-lo. Não podemos comungar com Jesus sem nos fazermos mais generosos e solidários. Não podemos nos dar a paz uns aos outros sem estar dispostos a estender uma mão a quem está mais só e indefenso ante a crise.

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