Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?

Papa e o chileno Cruz: encontro decisivo

Uma entrevista de Juan Carlos Cruz, um dos que foram abusados sexualmente pelo padre chileno Fernando Karadima quando criança, traz à luz todo o horror  vivido na Igreja do Chile. Neste fim de semana (28 e 29), ele e mais duas vítimas estarão com o Papa no Vaticano. Durante sua visita ao Chile em janeiro, Francisco defendeu os bispos acobertadores dos abusos e atacou as vítimas, no grande equívoco de seu papado, pelo qual tem se penitenciado nos últimos meses. Esta talvez seja a última chance da Igreja Católica no tema da pedofilia.    

Há perguntas cruciais dirigidas aos católicos e católicas. Que Igreja é essa na qual reina o silêncio diante dos crimes seguidos de muitos de seus líderes? Até quando o silêncio que encobre milhares de atos de abuso sexual de crianças e jovens continuará a merecer a condescendência da massa de fiéis? Que futuro terá essa igreja?

Por Mauro Lopes

Francisco está diante do que talvez seja a última oportunidade de a Igreja Católica finalmente enfrentar a epidemia de crimes contra crianças cometidas por prelados. O caso do Chile tornou-se emblemático depois da desastrosa visita do Papa ao país, em janeiro último.

Uma das vítimas, Juan Carlos Cruz, descortina todo o caso: foram centenas de abusados e a cúpula conservadora da Igreja sempre soube e apoiou os padres criminosos, inclusive o cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz, arcebispo emérito de Santiago e um dos integrantes do C9, Conselho de Cardeais do Papa encarregado da reforma da Cúria romana.

A situação da hierarquia católica é tal que Errázuriz chegou ao cúmulo de dizer que Cruz, por ser homossexual, talvez “tivesse gostado de ser molestado” quando criança. O caso chileno é mais escandaloso ainda porque a Igreja combativa do país dos anos 1970/80 foi destroçada pela ação de João Paulo II em aliança com o general Pinochet e a nomeação em massa de bispos e cardeais conservadores e alinhados com a ditadura, num ambiente de abusos e silêncio.

A  entrevista de Juan Carlos Cruz, abusado quando criança pelo infamante padre Karadima, é de cortar o coração e deve ou deveria ser uma lança atirada ao peito de cada católico ou católica do mundo.

Ele falou a Laurie Goodstein, do The New York Times, que publicou no dia 24 (terça); você pode ler no original aqui ou a tradução de  André Langer publicada no IHU logo abaixo.

Cruz e um sem-número de outros meninos foram estuprados por Karadima quando crianças, uma prática que se estendeu de 1958 a 2010 ou 2011, quando o padre foi, finalmente suspenso pela Igreja depois de anos e anos de denúncias -hoje ele vive numa reclusão confortável no  convento Siervas de Jesús de la Caridad no Chile.

Karadima é um homem poderoso e protegido pela hierarquia católica. Além do  bispo de Osorno (no sul do país), Juan Barros, que  está no centro da crise atual, pelo menos meia dúzia de outros padres que foram discípulos de Karadima e acobertaram seus crimes tornaram-se bispos nos últimos anos.

Se o caso Karadima é o mais gritante, há dezenas e talvez centenas de outros que têm menor repercussão. Vários dos meninos vítimas do padre cometeram suicídio. Por anos, as vítimas foram tratadas como inimigas pela Igreja, tanto no Chile como no Vaticano.

Leia a íntegra da entrevista de Cruz:

Você aceita as desculpas do Papa Francisco?

Eu não penso que seja uma atividade de relações públicas. Espero ansiosamente falar com ele com sinceridade e ouvir o que ele tem a dizer. Foi me dito que ele quer que eu seja completamente honesto com ele.

O que você quer acentuar?

Principalmente a dor e o sofrimento de tantas pessoas, e algumas delas sofreram muito mais do que eu. Eu sofri muito, mas tive amigos que cometeram suicídio. Eu tenho que me assegurar de que o nosso caso não seja tratado como algo isolado. Parece que a mochila está mais pesada do que nunca.

Durante anos você era visto como um adversário da Igreja Católica, especialmente no Chile, onde você e seus amigos acusaram os bispos de acobertamento. Entretanto, você não ingressou na comunidade católica do padre Karadima em Santiago porque queria ser padre?

Quando eu entrei, eu tinha 15, 16 anos. Meu pai acabara de morrer e eu estava muito fragilizado. E eu era um bom menino. Eu queria mudar o mundo. Desde criança eu queria ser padre. Eu queria morrer como mártir na África se isso significasse que eu aproximaria as pessoas de Deus. Eu tive todos esses sonhos.

Por que você os abandonou?

Houve um abuso em massa. Este homem, o padre Karadima, estava abusando de crianças e jovens de 1958 a 2010 ou 2011. Eu estive aí por oito anos, nesse ambiente, sob o seu feitiço.

Seu feitiço! Eu sei que ele era muito poderoso na Igreja Chilena e que alguns de seus discípulos se tornaram bispos. Mas você faz parecer que ele era mais do que um simples padre.

Eles o chamavam de “santito”, santo. Provavelmente ele teria sido feito santo se as pessoas não tivessem quebrado o silêncio sobre os abusos. As pessoas guardavam as coisas que ele lhes dava porque todos esperam que ele fosse canonizado. Se ele lhe desse um livro e o assinasse, você o guardava como uma relíquia.

Você insistiu em que o bispo Juan Barros Madrid e outros no Chile que foram orientados pelo padre Karadima estavam cientes dos abusos sexuais. Mas, como você sabe que eles sabiam?

Eles testemunharam quando Karadima beijava alguém nos lábios ou colocava a língua na boca de alguém. Ou quando estávamos no quarto de Karadima e ele dizia: “Agora todo mundo para fora”. Todos sabiam o que acontecia depois disso. Mas ninguém nunca disse nada sobre isso.

O quanto foi difícil para vocês, Jimmy e José Andrés tomar a decisão de entrar com um processo civil e tornar o caso público?

Lembro-me da primeira vez que nos encontramos com o advogado, Juan Pablo Hermosilla. Eu só sabia que ele era um advogado famoso que tinha lutado contra o ditador Augusto Pinochet. Ele me disse: “Eu quero que você tenha muita certeza do que está fazendo, porque você é homossexual e eles vão cair em cima de você de um jeito que não é capaz de imaginar”. E foi exatamente isso que aconteceu. Chegou ao ponto que [o cardeal chileno Francisco Javier] Errázuriz disse, certa vez, que talvez eu tivesse gostado de ser molestado, razão pela qual ele não tinha certeza se eu era realmente uma vítima. Acontece que ser homossexual era o menor dos meus sofrimentos, porque a maneira como eles tratavam a todos nós era horrível.

E o cardeal Errázuriz é um dos nove que o Papa Francisco escolheu para fazer parte do seu conselho de nove assessores?

Certo. É isso que eu quero perguntar ao Papa: como pode ter George Pell [cardeal australiano acusado de abuso sexual] e Francisco Errázuriz em seu conselho? Tenho certeza de que existem outros cardeais por aí que são pessoas boas; existem cerca de 120 para escolher.

Parece que você está com raiva do Papa. É isso mesmo?

Houve momentos em que eu estava com raiva dele. Eu não quero ficar com raiva dele e entendo que as pessoas cometem erros. Mas este é o homem mais bem informado do mundo. E isso é um ponto de interrogação para mim: por que não agiu mais rápido ou entendeu a situação mais rapidamente, em vez de fazer com que todos sofressem tanto?

É verdade que o Papa Francisco convidou os três para ficarem com ele na Residência Santa Marta?

Eu vou estar lá por uma semana. Provavelmente dormindo a três portas dele. Ele quer se encontrar individualmente com cada um de nós e ele reservou sua agenda no domingo [29 de abril] para se encontrar comigo. Mas esse encontro, por mais que eu fique honrado com ele, não servirá para nada se não resultar em ações concretas. E remover alguns bispos também não será suficiente.

Parece que você está esperando que o Papa Francisco remova o bispo Barros por não ter denunciado os abusos de Karadima.

Bem, suponho que sim.

E se ele não o fizer?

Vai ser uma coisa muito ruim. Vai ser muito decepcionante; a maior decepção que já tive.

Você não acha que ainda há uma parte de você que quer que o Papa seja um pastor para você? O pastor que o padre Karadima não foi?

Provavelmente. Porque eu tenho uma imagem do Papa que, por mais fragmentada que seja, é o Papa. Espero que todos nós tenhamos algum tipo de cura disso, para o nosso bem.

4 respostas para “Uma pergunta aos católicos: que Igreja é essa?”

  1. Para a igreja patriarcal, que pensa e age com a cabeca de um platonisno vulgar, embora ilustrado, corpo e espírito são antagônicos. O corpo é mal. O espírito é bom. Os padres abusadores cometem um pecado porque obedeceran ao corpo. Arrependidos, sublimam a “sujeira” que fizeram e não precisam voltar à carne a que impuseram humilhação e dor. Basta orar, talvez se autossupliciar e sentir aquele arrenpedimento quase reconfortante. Coisas do espirito. Compaixão fora da liturgia é pietismo. A tara dessa gente, dentro e fora da igreja, é o foder, digo, o poder.

  2. Gente, já passou do tempo de saber que religião é a maior mentira do mundo. Um breve estudo da história humana é suficiente para se constatar que a religiosidade é mais forte onde é também mais forte a ignorância proveniente da falta de leitura, de conhecimento. Isto pode ser observado até mesmo pela aparência física que caracteriza tratar-se de pessoas de menores recursos nas multidões que carregam imagens prá lá e prá cá, e que lavam escadas de igrejas. Prova insofismável da realidade de ser a religiosidade própria dos ambientes menos evoluídos mentalmente está na afirmação de que a existência de muitas igrejas e farmácias indicam subdesenvolvimento elevado de uma sociedade. Pode-se vasculhar o planeta inteiro que não será encontrado um só analfabeto ateu. O mal da humanidade é não pensar e simplesmente acatar tudo que lhe é transmitido. Se a humanidade não se destruir antes disso, perceberá que a religião e o pão e circo são dois grandes engodos com os quais os donos do poder desviam a atenção do povo para longe de onde ele deveria estar: NA POLÍTICA, única responsável pelo destino humano.

    1. Erro1 :“Gente, já passou do tempo de saber que religião é a maior mentira do mundo”
      a religião é uma realidade intrínseca ao homem, que existe desde que o homem é homem, e não cessou até hoje pois o homem ainda é homem.

      Erro2 : “Um breve estudo da história humana é suficiente para se constatar que a religiosidade é mais forte onde é também mais forte a ignorância proveniente da falta de leitura, de conhecimento”
      Na Idade média, onde a religiosidade era naturalmente fervorosa, tivemos homens de invejável habilidade de leitura e conhecimento aguçado sobre a realidade, como, Alberto Magno, Robert Grosseteste, Roger Bacon, Tomás de Aquino, João Duns Scot, William de Ockham. Hoje em dia, muitos homens sabem ler, mas lêem e estudam mal, observo pelo seu comentário. Muitos citam marx e não leram os livros do “O Capital”, muitos citam Mises e não leram nem “A Ação Humana”. Na idade média poucos homens sabiam ler, mas liam magistralmente. Hoje muitos homens sabem ler, mas lêem porcamente. De pobres à Doutores. Uma verdadeira ignorância. E cadê a religião nos dias de hoje? Bom, está indo embora, está fraca. Assim como a inteligência dos intelectuais do século XXI.

      Erro 3 : “Isto pode ser observado até mesmo pela aparência física que caracteriza tratar-se de pessoas de menores recursos nas multidões que carregam imagens prá lá e prá cá, e que lavam escadas de igrejas”
      Aparência física, senhor? Desde quando aparência física determina “menores recursos”? Aliás, de que recursos você está falando? Pois não vejo nada de sua aparência no seu comentário, mas percebo falta de recursos intelectuais. Na teologia católica, a Igreja é corpo de Cristo. E basta ser católico para ser parte da Igreja, para ser Igreja. Os fiéis, ricos ou pobres, estão lá por Amor, não por sentimento. Carregar uma imagem ou lavar a escada é pouco,. Os fiéis dariam a vida. Pois amam a Igreja. Que incômodo besta do senhor rs.

      Erro 4: “Prova insofismável da realidade de ser a religiosidade própria dos ambientes menos evoluídos mentalmente está na afirmação de que a existência de muitas igrejas e farmácias indicam subdesenvolvimento elevado de uma sociedade”
      Que prova? Isso é prova? No máximo seria uma correlação. Já foi em Roma? Procure o subdesenvolvimento lá antes de esbarrar em 10 Igrejas. Na verdade a Igreja Católica sempre procurou fundar paróquias e capelas também em lugares carentes, para que todo povo tenha acesso à verdadeira fé.

      Erro 5: “Pode-se vasculhar o planeta inteiro que não será encontrado um só analfabeto ateu”
      Temos Muitos! À rodo! O que chamo de analfabeto pode ser diferente do seu conceito. Saber juntar letras pra formar palavras é um conceito imbecil de alfabetização. Tem muito ateu que não consegue fazer leituras analíticas antes de fazer uma leitura crítica. Gente que leu muito mas não compreendeu nada. Gente que sabe muito e não possui o entendimento. Muito doutor que tem um nível de leitura de graduando. É raro encontrar uma boa dissertação, um bom estudo, bem escrito com mínima lógica. É um verdadeiro horror a quantidade desses analfabetos funcionais que colecionam títulos acadêmicos.

      Erro 6: “O mal da humanidade é não pensar e simplesmente acatar tudo que lhe é transmitido”
      Bom esta frase é de certo modo verdadeira, mas coloquei como erro, pois você não pôs em prática, insofismavelmente ao atacar o que a Igreja transmite rs. Mas pensar é pouco, qualquer ateu faz. Falta meditação e contemplação.

      Erros finais: “Se a humanidade não se destruir antes disso, perceberá que a religião e o pão e circo são dois grandes engodos com os quais os donos do poder desviam a atenção do povo para longe de onde ele deveria estar: NA POLÍTICA, única responsável pelo destino humano”
      Então a política é o fim último do homem? Um político é um ser realizado? Obviamente não. “destino humano” tu é meio exotérico…

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