Uma marcha com Júlio Lancellotti e os moradores de rua

Em apoio ao padre Júlio Lancellotti, ameaçado de morte, e aos moradores de rua, que vivem sob terror permanente em São Paulo, centenas saíram às ruas numa passeata-procissão

Por Thiago Fuschini

Cerca de duzentas pessoas marcharam no último domingo (25) em São Paulo em repúdio às ameaças à vida do padre Julio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de SP, e contra a crescente violência contra os moradores de rua. A marcha (uma passeata-procissão) aconteceu na Mooca, Zona Leste de SP, Capital, e foi convocada pela comunidade de fiéis da Paróquia São Miguel Arcanjo, também na Mooca, onde Lancellotti serve como pároco e por ativistas de Direitos Humanos.

Realizada em conjunto com a Procissão de Ramos, a manifestação ocorreu em resposta à uma série de ameaças postadas na rede social Facebook à vida de Lancellotti, que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos e da dignidade dos moradores de rua, os mais pobres entre os pobres, e em um contexto do aumento da violência e de ações higienistas contra as pessoas que vivem nas e das ruas de SP, com remoções forçadas, confisco de roupas, alimentos, documentos e instrumentos de trabalho, além do uso de jatos d’água para remover estas pessoas. Todas estas ações vêm sendo denunciadas pela Pastoral do Povo de Rua de SP e também pela imprensa.

“As pessoas estão mostrando seu compromisso de posicionar-se contra a violência contra os irmãos de rua”, disse Lancellotti que, um pouco mais tarde, em sua homilia na missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, onde foi encerrada a marcha, exortou os fiéis a se aproximarem dos moradores de rua e a conhecê-los. “Abraçar o pobre e chamá-lo pelo nome é um ato revolucionário”, concluiu.

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que deixará o cargo para concorrer a uma vaga no Senado, afirmou que “não queremos que o padre Julio seja um mártir. Queremos ele vivo, atuando na defesa das pessoas em situação de rua”, ao mesmo tempo em que defendeu que a Prefeitura e o governo estadual tomem medidas efetivas para investigar as ameaças e proteger a integridade física do sacerdote e de pessoas que trabalhem com ele.

“O objetivo deste ato é chamar a atenção da Cidade para a questão dos moradores de rua e, ao mesmo tempo, motivar as pessoas a mudarem seu pensamento sobre eles, de maneira que possamos criar estratégias mais acolhedoras e não de descriminação sistemática, como é o que vemos quase sempre”, analisou uma das organizadoras do evento, a educadora Maria Lucia Taiar Santos, que frequenta a paróquia São Miguel Arcanjo há mais três décadas.

Para Luiz Carlos Antunes, ativista do Tulipa Negra Direitos Humanos, ações como a ocorrida no domingo passado são importantes “para mostrar para a Mooca – e para a cidade de SP – que existem pessoas comprometidas com os moradores de rua, e que ameaças e violência serão sempre denunciadas”.

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Thiago Fuschini é jornalista e voluntário na Pastoral do Povo de Rua de SP

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