A Via Sacra dos invisíveis

Nas ruas do centro histórico de São Paulo, onde vivem 80% dos 16 mil moradores de rua da cidade mais rica do país, a Via Sacra do Povo da Rua pediu o fim da violência e políticas públicas.  “Chega de violência contra o povo! Chega de bala de borracha e de gás de pimenta! Chega de maldade e de opressão”, disse o padre Júlio Lancellotti, vigário do Povo da Rua, ao entregar flores para os policiais, enquanto os participantes da procissão cantavam:  “Recebemos bombas, entregamos flores”. 

Por Thiago Fuschini * | Fotos: Daniel Arroyo

O período da Páscoa é um convite aos cristãos a orarem e refletirem sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, e, ao mesmo tempo, compreenderem o real significado de sua vida e missão. Desde o século XVI, uma das formas mais tradicionais de se refletir sobre estes temas é a participação na Via Sacra, que relembra o caminho de Cristo ao Gólgota, onde ocorreu sua crucifixão, na primeira Sexta-Feira Santa.

Há mais de 30 anos, a Pastoral do Povo de Rua de SP realiza a Via Sacra do Povo de Rua de São Paulo, que ocorre tradicionalmente nas ruas do centro da capital, onde, segundo o Censo de População de Rua, de 2015, vivem 80% das cerca de 16 mil pessoas que perambulam pelas ruas da cidade mais rica do país.

A procissão fez um trajeto pela Rua Líbero Badaró, no centro histórico da cidade, onde parou em frente a cada prédio de órgãos da Prefeitura, como as secretarias de Habitação e de Assistência e Desenvolvimento Social, passando pela Prefeitura e terminando na Catedral da Praça da Sé.

Violência

A Via Sacra do Povo da Rua, ontem (30), exigiu a criação de políticas públicas para esta população, com ênfase em suas principais necessidades, ou seja, moradia e trabalho, e pediu o fim da violência contra quem vive nas e das ruas, que, normalmente, é praticada por agentes de segurança pública (da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana – CGM). Continue lendo “A Via Sacra dos invisíveis”

Ruralistas do Pará lançam ataque sem precedentes contra Igreja Católica

Padre Amaro e Dorothy Stang: quando a Igreja questiona os poderosos

A Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará), entidade dos latifundiários e ruralistas do Pará lançou na tarde desta quinta (29), um ataque sem precedentes à Igreja Católica no Brasil. Em nota assinada por seu presidente, Carlos Fernandes Xavier, foram atacados de maneira violenta e difamatória: 1) a memória da freira Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários do Pará; 2) o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, um dos nomes mais respeitados da Igreja em todo o mundo; 3) o padre José Amaro Lopes da Silva, pároco de Santa Luzia em Anapu e preso vítima de uma armação dos mesmos ruralistas; 4) a Comissão Pastoral da Terra (CPT); 5) o desembargador Gercino José da Silva Filho, ex-Ouvidor Agrário Nacional e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, ligado à Igreja, chamando de “embusteiro”;  e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denominada na nota de “Sindicato dos Bispos”. Nem mesmo no período da ditadura militar a Igreja Católica sofreu um ataque tão virulento.

Por Mauro Lopes

A nota é vazada em termos tão grosseiros e ofensivos que, por si só, denuncia o caráter do ataque dos ruralistas e latifundiários do Para (leia a íntegra da nota ao final). Toda ela é “costurada” numa linguagem que evoca a Guerra Fria dos anos 1960/80. Padre Amaro é qualificado de “subversivo que se traveste de religioso”; a CNBB, o “Sindicato dos Bispos”, dominada por uma “ala esquerdista”, pretenderia “implantar no solo cristão deste país os espúrios credos marxistas”.

O assassinato de Dorothy Stang com seis tiros em 2005, na mesma Anapu onde foi preso padre Amaro, teve intensa repercussão mundial e ela  hoje é considerada uma das muitas mulheres santas mártires no seguimento de Jesus, ainda que não tenha sido por enquanto beatificada pela Igreja Católica. Mas ela já integra o calendário de santos e santas da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil como “Mártir da Caridade na Amazônia”.  Para os latifundiários do Pará em sua nota, entretanto, a freira assassinada era “persona non grata em Anapu”, “incitava a violência”, ao lado de dom Erwin, e ambos seriam suspeitos de “tráfico de armas”.

O alvo maior dos ataques é o padre Amaro, preso na última terça (27), alvo de um amontoado de acusações, reunidas com o objetivo de “engrossar” o processo: “associação criminosa, com o fim de cometer diversos crimes, tais como, ameaça à pessoa, esbulho possessório, extorsão, assédio sexual, importuna ofensa ao pudor, constrangimento ilegal e lavagem de dinheiro”. A nota dos latifundiários do Pará, entretanto, acaba por explicitar a razão do ódio e perseguição ao religioso: desde 2015, a Faepa buscava a prisão do padre Amaro por ser ele “o maior incentivador dos conflitos fundiários existentes”.

Conforme denunciou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em nota divulgada no dia seguinte à prisão, trata-se de “é uma medida que vem satisfazer a sanha dos latifundiários da região que pretendem de toda forma destruir o trabalho realizado pela CPT, e desmoralizar os que lutam ao lado dos pequenos para ver garantidos os seus direitos. E se enquadra no contexto do cenário nacional em que os ruralistas ditam os rumos da política brasileira.”

Há uma razão oculta sob o volume da campanha de ódio dos latifundiários paraenses, que esteve na origem do assassinato de Dorothy Stang e agora da prisão de padre Amaro: um bilionário esquema fraudulento de que privatizou e devastou extensas áreas da Amazônia. O ódio devotado a irmão Dorothy e agora a padre Amaro deve-se à ação de ambos para exigir do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a retomada das terras públicas roubadas pelos latifundiários, com “a criação de assentamentos coletivos, com grandes áreas de florestas nativas, capaz de sustentar o manejo florestal comunitário e a produção agrícola de forma sustentável” -leia logo abaixo um esclarecedor artigo de Tarcísio Feitosa da Silva, da CPT, que desnuda toda a trama dos ruralistas.

Em meio à onda fascista que buscou amedrontar o país nos últimos 15 dias, os ruralistas, que estiveram à frente de várias agressões à caravana de Lula no sul do Brasil, atacaram agora no norte, de maneira brutal, a Igreja Católica e os que lutam contra o latifúndio no Pará.

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Leia a seguir o artigo de  Tarcísio Feitosa da Silva

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Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema

Cruz (detalhe), Arcabas (Jean-Marie Pirot), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador

Nesta Sexta-Feira da Paixão, Caminho Pra Casa publica artigo exclusivo de um dos maiores biblistas vivos, o frade italiano Alberto Maggi. A tradução é do biblista brasileiro padre Francisco Cornélio. No texto, Maggi demole duas ideias que estão na base do cristianismo falsificado que os integristas sustentam há séculos:  1) Jesus teria sido morto “pelos nossos pecados”;  2) essa seria “a  vontade de Deus”. A versão é insustentável com um exame realista e honesto dos textos bíblicos.  Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres de Israel. Jesus não inaugurou o tempo da culpa, mas o da misericórdia e o da vida plena para os pobres. A íntegra do artigo a seguir.

Por Alberto Maggi   | Tradução: Francisco Cornélio

Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios. Continue lendo “Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema”

Uma marcha com Júlio Lancellotti e os moradores de rua

Em apoio ao padre Júlio Lancellotti, ameaçado de morte, e aos moradores de rua, que vivem sob terror permanente em São Paulo, centenas saíram às ruas numa passeata-procissão

Por Thiago Fuschini

Cerca de duzentas pessoas marcharam no último domingo (25) em São Paulo em repúdio às ameaças à vida do padre Julio Lancellotti, vigário episcopal do Povo de Rua de SP, e contra a crescente violência contra os moradores de rua. A marcha (uma passeata-procissão) aconteceu na Mooca, Zona Leste de SP, Capital, e foi convocada pela comunidade de fiéis da Paróquia São Miguel Arcanjo, também na Mooca, onde Lancellotti serve como pároco e por ativistas de Direitos Humanos.

Realizada em conjunto com a Procissão de Ramos, a manifestação ocorreu em resposta à uma série de ameaças postadas na rede social Facebook à vida de Lancellotti, que há mais de 30 anos atua na defesa dos direitos e da dignidade dos moradores de rua, os mais pobres entre os pobres, e em um contexto do aumento da violência e de ações higienistas contra as pessoas que vivem nas e das ruas de SP, com remoções forçadas, confisco de roupas, alimentos, documentos e instrumentos de trabalho, além do uso de jatos d’água para remover estas pessoas. Todas estas ações vêm sendo denunciadas pela Pastoral do Povo de Rua de SP e também pela imprensa.

“As pessoas estão mostrando seu compromisso de posicionar-se contra a violência contra os irmãos de rua”, disse Lancellotti que, um pouco mais tarde, em sua homilia na missa na Capela da Universidade São Judas Tadeu, onde foi encerrada a marcha, exortou os fiéis a se aproximarem dos moradores de rua e a conhecê-los. “Abraçar o pobre e chamá-lo pelo nome é um ato revolucionário”, concluiu.

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que deixará o cargo para concorrer a uma vaga no Senado, afirmou que “não queremos que o padre Julio seja um mártir. Queremos ele vivo, atuando na defesa das pessoas em situação de rua”, ao mesmo tempo em que defendeu que a Prefeitura e o governo estadual tomem medidas efetivas para investigar as ameaças e proteger a integridade física do sacerdote e de pessoas que trabalhem com ele.

“O objetivo deste ato é chamar a atenção da Cidade para a questão dos moradores de rua e, ao mesmo tempo, motivar as pessoas a mudarem seu pensamento sobre eles, de maneira que possamos criar estratégias mais acolhedoras e não de descriminação sistemática, como é o que vemos quase sempre”, analisou uma das organizadoras do evento, a educadora Maria Lucia Taiar Santos, que frequenta a paróquia São Miguel Arcanjo há mais três décadas.

Para Luiz Carlos Antunes, ativista do Tulipa Negra Direitos Humanos, ações como a ocorrida no domingo passado são importantes “para mostrar para a Mooca – e para a cidade de SP – que existem pessoas comprometidas com os moradores de rua, e que ameaças e violência serão sempre denunciadas”.

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Thiago Fuschini é jornalista e voluntário na Pastoral do Povo de Rua de SP

A cadela no cio do fascismo agora pariu: tempo de terror

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956), um dos maiores da história e que combateu valentemente o nazismo dizia que “a cadela do fascismo está sempre no cio”, pronta a dar filhotes. Pois ela acaba de parir no Brasil. Estamos presenciando uma escalada fascista sem precedentes na história. Os números, parciais, não revelam toda a dimensão da violência que se abate sobre o país, especialmente sobre os mais pobres. Em 15 dias, de 12 a 27 de março, foram pelo menos 25 ações de extrema violência com apoio a elas dos líderes políticos de direita: 26 execuções, várias detenções e prisões, dezenas de ataques, espancamentos e agressões com feridos sem conta, ameaças de morte e ações brutais das polícias. Três padres foram alvo da escalada: um ameaçado de morte, um preso e um espancado. A violência é protagonizada por milícias de adeptos de Bolsonaro, policiais e forças paramilitares. 

Toda a escalada tem a cobertura, apoio ativo ou silente dos poderes de Estado e das mídias. O presidente golpista saiu a público para defender outro golpe, o de 1964, que sufocou as liberdades, prendeu e torturou milhares de pessoas e assassinou quase 500. Geraldo Alckmin e João Doria justificaram e apoiaram os atentados contra a caravana de Lula no sul do país, um dos principais alvos dos fascistas. O que estamos assistindo nos últimos 15 dias lembra a violência que se abateu sobre vários países da América Central nos anos de 1980. Leia a seguir a lista parcial da escalada fascista. 

Por Mauro Lopes 

12 de março

1. Assassinado com quatro tiros Paulo Sérgio Almeida Nascimento, de 47 anos, foi morto com quatro tiros. Um dos diretores da Associação dos Caboclos, indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) que desde 2017 lutava em Barcarena (PA) contra o desastre ambiental causado pela  empresa norueguesa Hydro. Seguidamente ameaçado de morte, teve pedidos de proteção negado pelo governo de Simão Jatene (PSDB).

2. Cinco indígenas Guarani foram presos  ao regressar de uma incursão numa ilha formada pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu, onde haviam ido cortar taquara, ou seja, o “bambu nativo”, para a confecção de artesanatos e construção de moradias. A ação ocorreu sobre um patrimônio privado, já que a área visitada pelos Guarani pertence oficialmente à Itaipu Binacional, mas foi retomada pela comunidade Guarani em janeiro de 2017, depois de 35 anos de expulsão. Na região de usina existiam ao menos 32 aldeias que desapareceram entre 1940 e 1982, período entre a criação do Parque Nacional do Iguaçu e o alagamento para formação do lago de Itaipu. Pelo menos nove dessas aldeias foram alagadas.

Ameaças ao padre Júlio Lancellotti

3. O Padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, divulgou pela primeira vez que vinha recebendo seguidas ameaças de morte pelas redes sociais. No dia 19, várias entidades exigiram providências do Ministério Público, mas nenhum responsável  pelas ameaças foi preso.

14 de março

4. A PM e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo agrediram brutalmente professoras, servidoras e servidores públicos que protestavam na Câmara de Vereadores contra projeto de lei de reforma da previdência municipal, apresentado pelo governo Doria. O projeto visava congelar salários e aumenta a contribuição previdenciária de 11% para 19%. Depois de greve e intensa mobilização de milhares de servidoras e servidores, o projeto foi derrotado, em 27 de março.

Os tiros que mataram Marielle

5. A vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram executados no Rio de Janeiro, num crime que causou indignação mundial grandes manifestações de  protesto em todo o país. Apesar de todos os indícios apontarem para as milícias que, compostas por policiais e ex-policiais, controlam várias regiões do Rio, as investigação não havia resultado em nada.

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Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora

Por Mauro Lopes

Mais de 300 jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma na semana passada (de 19 a 24 de março) e aprovaram um documento para o Sínodo dos Bispos sobre a juventude e a fé convocado pelo Papa para outubro próximo. O documento foi resultado de discussões em dezenas de países e sugestões recolhidas em grupos formados no Facebook por mais de 15 mil jovens. Toda a agenda integrista-conservadora de oposição ao Papa foi rechaçada; no texto não se fala de guerra ao aborto, aos gays, aos muçulmanos, aos pobres ou os ideais socialistas. Ao contrário, o documento é uma confirmação da primavera de Francisco entre o que pode ser descrita como a “juventude católica”.

Os pontos centrais do documento são: diálogo, compaixão, apelos por uma Igreja menos severa e moralista, exigência de abertura eclesial, aos gays ao tema do aborto e às questões de gênero em geral, prioridade à questão ambiental e à solidariedade aos pobres e perseguidos pelo sistema. O tema de maior destaque no texto confronta o clericalismo: por três vezes, os jovens e as jovens exigem direito ao protagonismo da a mulher no interior da Igreja. O encontro preparatório do Sínodo acolhe um movimento que tem sido ensaiado pelo Papa e representaria uma mudança histórica no interior da Igreja: uma aliança entre os carismáticos e os segmentos progressistas, rompendo o alinhamento daqueles com as teses integristas. Se tal movimento ocorrer, desenhará um novo perfil da Igreja católica no século 21.

É espantoso ler o documento aprovado em comparação com a cruzada moralista dos integristas que, por sua agressividade e volume, parecem por vezes vocalizar a opinião da maioria dos católicos e católicas. Não é isso o que indica o documento dos jovens. Eles reconhecem que “há um grande desacordo entre os jovens, tanto dentro da Igreja quanto no resto do mundo, sobre alguns de seus ensinamentos que são especialmente controversos hoje em dia”. Alguns exemplos listados no documento: “contracepção, aborto, homossexualidade, uniões sem casamento formal, casamento e como o sacerdócio é percebido em diferentes realidades da Igreja.” O texto reconhece que “muitos jovens  desejam que a Igreja mude seu ensinamento ou, pelo menos, explique-lhes melhor sua posição. Embora haja um debate interno, jovens católicos cujas convicções estão em conflito com o ensino oficial ainda desejam fazer parte da Igreja.” Continue lendo “Sínodo do jovens: no ritmo da primavera de Francisco, rejeição à agenda conservadora”

Um convite: Semana Santa e Páscoa com os franciscanos

Henry Taylor entitled ‘The Times Thay Ain’t Changing, Fast Enough’

Apesar de muita gente considerar que o Natal seria o momento culminante do cristianismo, na verdade é a Semana Santa o auge deste caminho de seguimento do Mestre. Nela, está condensado  todo o mistério sobre quem somos, a entrega de nosso Mestre aos pobres e a um Reino de Justiça e Paz. Os franciscanos que, na prática, assumiram nos últimos tempos a liderança espiritual da Igreja Católica no Brasil, prepararam um roteiro para meditar, rezar, pensar a Semana e a Páscoa: cada um(a) de nós diante das interrogações, angústias, alegrias e convocações que a vida nos apresenta.  Nos textos, um questionamento aos que fazem do cristianismo terreno para o ódio, a exclusão e recompensa às “pessoas de bem”

Por Mauro Lopes

Os franciscanos brasileiros assumiram corajosamente a liderança espiritual da Igreja no Brasil, assumindo o convite de um Francisco que se fez Papa, de uma “Igreja em saída”, como um “hospital de campanha” em vez de fortaleza inexpugnável, abrigo dos mais fracos e oprimidos e não mansão dos ricos e poderosos. Tornam-se, neste momento, herdeiros no Brasil da tradição da teologia latino-americana, sucessores dos profetas que marcaram a Igreja brasileira, como dom Paulo Evaristo Arns (ele mesmo um franciscano), dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida (jesuíta como o papa), irmã Dorothy Stang, Margarida Maria Alves e tanta gente mais.

Eles estão divididos em vários ramos e comunidade, organizados na Conferência da Família Franciscana do Brasil. Um destes segmentos preparou um roteiro de oração/meditação para a Semana Santa e a Páscoa, a Província Franciscana da Imaculada Conceição, que reúne em torno de si centenas de homens e mulheres, ordenados ou leigos (e leigas), nos Estados de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina.

É um  conjunto de textos valiosos, que ajudam a mergulhar no mistério, e está aberto a todas as pessoas, católicos e católicas, cristãos de outras denominações, pessoas das religiões de matriz afro-brasileira, espíritas, budistas, hinduístas, ateus, quem quiser.

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Na perseguição a Lancellotti, o desejo de esmagar os pobres

Padre Júlio Lancellotti, responsável pela Pastoral do Povo da Rua em São Paulo, tem sofrido seguidas ameaças de morte nas últimas semanas. A perseguição a Lancellotti é uma faceta do desejo de descartar e esmagar os mais pobres, o “lixo” da sociedade para as elites. Qual a razão disso? Pode parecer paradoxal, mas é medo. Pois os pobres não carregam apenas suas dores. Carregam as de toda a sociedade. Mas não podemos olhar para elas. Precisamos ganhar o dia, sonhar com a ilusão da riqueza, matar nossa humanidade para subir na vida, negar nossas angústias e apagar qualquer traço de solidariedade que nos torne próximos do pobre. Devemos a todo custo liquidar  com o terror, ou seja, a possibilidade desesperadora de nos tornarmos pobres. Para afastar este medo-pânico é necessário esmagar aqueles e aquelas que nos denunciam essa possibilidade. E os que os defendem.

Por Mauro Lopes

Neste domingo (25) haverá uma manifestação de solidariedade e em defesa do padre Júlio Lancellotti. Será às 9h da manhã, na Igreja São MIguel Arcanjo, no bairro do Belém, em São Paulo -Lancellotti é pároco lá. Se você quiser saber de mais detalhes do evento, clique  aqui.

Júlio Lancellotti foi ordenado sacerdote em 1985, pelas mãos de um dos maiores líderes da Igreja no Brasil, dom Luciano Mendes de Almeida. Fez-se padre no seguimento de dom Luciano e de dom Paulo Evaristo Arns. Desde sempre esteve com os últimos da sociedade. Foi um dos fundadores da Pastoral do Menor em São Paulo.

No início dos anos 1990, padre Júlio tomou tomou uma atitude que traçou uma identidade indelével entre ele e São Francisco de Assis. Era o auge da crise da AIDS, vista por parte da sociedade como uma “peste” e, por um segmento, como uma “peste gay”. Na Febem, os bebês e crianças com Aids -exatamente os mais frágeis-  não eram tratados pelos profissionais, com pavor de se contaminarem pelo vírus. Eram deixados de lado, sem banho, sem colo, sem nada. Lancellotti resgatou os bebês e crianças e fundou a Casa Vida I e depois a Casa Vida II, perto de sua paróquia.  Elas passaram a ser cuidadas. Muitas morreram -mas muitas sobreviveram à doença e hoje são adultos e adultas. Como São Francisco no abraço aos leprosos, Júlio Lancellotti abraçou os bebês aidéticos.

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Telefonema do Papa à família de Marielle foi articulado na Argentina

Dona Marinete da Silva, mãe de Marielle Franco, revelou na missa de sétimo dia da filha que a família recebeu um telefonema de solidariedade do Papa. A iniciativa de Francisco foi resultado de uma articulação acontecida na Argentina, sem qualquer participação da Arquidiocese do Rio ou da CNBB.

Por Mauro Lopes

A mãe de Marielle Franco, Marinete da Silva, falou aos presentes à missa de sétimo dia celebrada ontem (20) na Igreja Nossa Senhora do Parto, no centro do Rio – a missa foi transferida da Maré para que todos pudessem em seguida participar do ato/culto ecumênico na Cinelândia.  Ao final da celebração, o sacerdote convidou a família a se pronunciar, caso desejasse. Dona Marinete agradeceu o carinho recebido e informou então que o Papa Francisco havia telefonado.

A última foto que Marielle mandou para a irmã, Anielle

A família de Marielle é católica. Sua mãe é devota de Nossa Senhora Aparecida e foi ministra da Eucaristia na Maré. A última foto que Anielle recebeu de sua irmã, ainda viva, horas antes do assassinato, foi das duas diante de um altar em uma igreja no Rio. Marielle foi catequista e ativa participante da Pastoral da Juventude ainda adolescente. Depois, afastou-se da Igreja Católica que vive, no Rio, um clima quase irrespirável de conservadorismo e censuras e condenações e falso rigorismo moral.

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Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça

Franciscanos e franciscanas reunidos em Belo Horizonte

Mais de 300 integrantes da Juventude Franciscana (Jufra) e da Ordem Franciscana Secular de Minas Gerais reafirmaram o protagonismo dos franciscanos e aprovaram, em encontro realizado em Belo Horizonte no último fim de semana uma Carta denunciando os retrocessos no país, que atingem “as populações das periferias, sem-terra e sem-teto, pobres, principalmente mulheres, jovens, população negra, indígenas, LGBT’s”.

No texto, a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes é comparada a assassinatos  “como nossa Irmã Dorothy e tantos outros mártires representantes da Igreja e de movimentos populares.”

Os franciscanos e franciscanas terminam reafirmando seu compromisso com a vocação original do cristianismo: “Somos inspirados em Jesus Cristo, que foi perseguido e assassinado na cruz por lutar por um mundo novo. Temos o exemplo de Clara e Francisco, perseguidos e injustiçados por seguirem os ensinamentos de Cristo.”

Leia a íntegra da Carta:

CARTA DE BELO HORIZONTE

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5,6)

A Ordem Franciscana Secular e a Juventude Franciscana – Jufra – de Minas Gerais, reunidos em mais de 300 participantes no primeiro Encontro Regional de formação, no Colégio Sagrada Família das Irmãs Clarissas Franciscanas Missionárias do Santíssimo Sacramento, em Belo Horizonte nos dias 16 a 18 de Março de 2018, demonstram sua preocupação com a atual conjuntura que vive nosso país. Continue lendo “Juventude franciscana afirma compromisso contra injustiça”